A forma do medo - Parte 2 (final)
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♠♥♣♦
Quase uma década havia se passado desde a última vez que a Bosmer conversou com o dragão. Ela treinou durante todos os dias, sem pular nenhum. Por conta própria, comprou alguns livros sobre magia para aprender sobre outras escolas e praticou sozinha.
Como suas plantações e animais haviam prosperado muito, ela comprou um barco que usava para viajar pela costa de Vvardenfell vendendo seus produtos. Foi obrigada a legalizar seu negócio por conta dos ovos de kwama e aproveitou para colocar em prática um feitiço de charme. Conseguiu a habilitação com o Duque em Ebonheart por um terço do preço original. O Dunmer ficou tão encantado que a convidou para um jantar a dois, mas a Bosmer disse que não podia porque precisava catar cocô de guar para adubar as plantas.
Durante todo esse tempo, ela nunca tivera notícias de Faldrien ou da Irmandade sobre o contrato. Achou que todos os envolvidos haviam se esquecido e decidiu parar de se lembrar daquilo também.
Numa semana em que não ia precisar viajar a barco para vender seus produtos, a Bosmer aproveitou para praticar a última escola que faltava: Conjuração. No livro dizia que para conjurar qualquer criatura do Oblivion era preciso ter raiz de Nightshade; partes de algum ser vivo, sendo sangue ou coração as melhores, mas qualquer uma servia; uma bacia com água limpa; vinho; um cristal virgem; sal; e 12 velas. Depois de reunir todos os ingredientes, as instruções diziam para desenhar um círculo grande no chão com o sal, acender as 12 velas ao redor, colocar a bacia com água no centro do círculo, colocar o cristal dentro da água e, enquanto recitasse o encantamento várias vezes, colocar a parte do animal por cima do cristal, regar com vinho, queimar a raiz de nightshade nas 12 velas e colocar sobre o pedaço do animal. Assim que terminasse, um Dremora apareceria dentro do círculo e faria tudo o que o conjurador mandasse.
Kláxia reuniu todos os ingredientes e materiais. Como parte de animal, optou por um pedaço de carne que havia guardado numa lata de banha. Como sal, comprou sal ígneo porque era o que estava disponível nos alquimistas próximos. O restante era o mesmo do livro, ou assim ela julgava.
Por causa do espaço, ela preferiu fazer o ritual na praia. Era um dia parado e sem vento, não haveria problemas quanto às velas. Preparou tudo conforme ditava o livro enquanto entoava em voz alta o estranho encantamento numa língua obscura.
Assim que a última faísca da raiz de nightshade se apagou soltando um fio de fumaça que subia denso e exalava um cheiro de carne assada, um Dremora se materializou dentro do círculo à sua frente.
Kláxia não havia pensado sobre o que o mandaria fazer, mas ficou feliz que o feitiço funcionara. A primeira coisa que lhe veio à mente foi mandar o Dremora correr ao redor da ilha, mas assim que deu a ordem, o conjurado empunhou a espada e a atacou falando coisas na língua obscura que ela recitara e que não compreendia.
Kláxia pulou para fora do círculo e desviou de todos os golpes. O Dremora a seguiu e continuou atacando e, presumidamente, xingando. A Bosmer desviava dele e ao mesmo tempo tentava fazê-lo desviar de suas plantas, em vão. Diante do estrago que ele fizera nos arbustos de comberry, ela decidiu levitar para desviar o foco dele para o alto.
O Dremora tentou atingi-la com uma bola de energia, mas ela desviou sem esforço. Ele então voltou a correr pela ilha, mas começou a matar os animais. Kláxia se enfureceu e enfeitiçou os bichos para que eles fugissem para o barco que estava ancorado no mini porto da sua ilha. O Dremora seguiu-os estraçalhando tudo com sua espada.
Ela tentou enfeitiçar o Dremora com calma, depois paralisia, fadiga, peso, mas nada o atingia. Pelo contrário, ele estava absorvendo suas magias.
Ela desceu para casa e gritou por ele na porta. A criatura abandonou o que sobrara dos animais e correu para a casa. Kláxia se trancou já sabendo que a porta não agüentaria muito tempo. Armou-se com suas adagas, dardos envenenados e só teve tempo de vestir o torso da armadura quando o Dremora derrubou a porta e entrou. Ela o atacou com os dardos, mas não teve muito êxito. Ele avançou sobre ela que aparou os golpes com suas adagas, mas ele era muito mais forte e ela sabia que não iria agüentar muito tempo.
"Que bela maneira de morrer... Pra minha própria conjuração", pensou a elfa.
Ela gritou para ele ir embora e voltar para o Oblivion, mas o Dremora estava firme em sua decisão de matá-la. Quebraram móveis e arranharam paredes. Ele conseguiu fazer cortes em seu braço e nas pernas algumas vezes. Kláxia já se cansava, mas o Dremora não demonstrava qualquer fraqueza.
"Vou morrer. Esse será meu fim. Quem vai cuidar das minhas plantas e dos meus animais? Acho que é por isso que magos têm aprendizes, mas agora é muito tarde."
Não só pra isso, mas principalmente pela preguiça de fazer as tarefas mundanas, disse uma voz desencorporada que lhe era familiar.
— Lokdrahzul! — disse ela como se recitasse um encantamento com toda a sua força.
O Dremora hesitou por um segundo como se tentasse decifrar aquele idioma, e então aproveitou a distração dela para perfurar-lhe o torso. A armadura impediu que a maior parte da espada penetrasse seu corpo, mas a ponta da lâmina conseguiu perfurar sua barriga em quatro dedos de profundidade. Kláxia gritou e empurrou a espada com as adagas.
— Vai me deixar morrer? — gritou para o dragão.
É só mandá-lo ir embora.
— Já mandei! Mas ele não vai!
A elfa correu para outro cômodo e usou a mobília como escudo.
Tem certeza que mandou ele ir embora? Daqui não parece que ele foi.
— Não me venha com gracinha! Eu gritei com ele e nada aconteceu!
Gritou? Oras, não é assim que se manda um conjurado embora.
— LOKDRAHZUL! — gritou com ódio.
Destrua o cristal e apague as velas.
Subitamente Kláxia se lembrou do cristal submerso na bacia no meio do círculo de sal na praia. Desviou do Dremora como pôde e correu o mais rápido que conseguiu. Pulou dentro do círculo, chutou a bacia, pegou o cristal que voara no ar e arremessou-o contra uma rocha. Estilhaços voaram para todos os lados. Agarrou a bacia e, com o fundo, amassou todas as velas em seqüência na areia apagando-as.
O Dremora já estava a meio caminho da praia quando desintegrou-se virando uma fumaça preta que se dissipou no ar. Kláxia deixou-se cair ofegante na areia. Apertou o ferimento sob a armadura e gemeu de dor.
É só deixar a Bosmer sozinha um minuto que ela começa a evocar demônios.
— Um minuto? FORAM DEZ ANOS!
Você não leu os livros de conjuração?, continuou Lokdrahzul. Pegou qualquer feitiço e fez? Inacreditável. Não achei que você ainda precisasse de um professor. Mas aqui vai, a primeira regra da conjuração é: você não chama o que não consegue mandar embora. A segunda regra é: antes de aprender a evocar, deve-se aprender a banir. Os livros sérios vão sempre explicar que uma criatura conjurada precisa de um objeto de ancoragem. Na maior parte das vezes é um cristal, mas pode ser uma garrafa de vidro, uma caixa de metal ou uma jóia. E que, portanto, para mandar a criatura embora, deve-se destruir o objeto de ancoragem.
— Nunca mais vou esquecer — disse Kláxia curando seu ferimento com uma pequena magia de luz azul.
Eu sei, por isso esperei tudo dar errado antes de intervir. A experiência é a mãe de todas as professoras.
Reza a lenda que o grito de ódio da Bosmer pôde ser ouvido em Balmora.
— MEUS ANIMAIS MORRERAM! MINHAS PLANTAS FORAM DESTRUÍDAS! MINHA CASA ESTÁ UM CACO!
Sim. E essa será a lição que você se lembrará até o fim de sua vida. Mais do que qualquer outra.
Os poucos animais que sobreviveram ao massacre colocaram a cabeça para fora do barco e emetiram ruídos curiosos, como se quisessem saber se já podiam sair do esconderijo.
A Bosmer levantou-se bufando de ódio, mas não disse mais nada. Sacudiu a poeira, juntou a carcaça dos animais num canto onde aproveitaria a carne e o couro para vender em Vvardenfell, chamou os demais que estavam no barco, prendeu-os no cercado e arrumou as plantas que sobraram. Algumas ela conseguiu recuperar, mas outras foram completamente perdidas.
Voltou para casa e arrumou o que sobrou. Os objetos quebrados ela guardou em vários caixotes e levou para o barco pois conhecia um Orc que fazia restaurações.
Ao longo da semana seguinte, ela não praticou magia. Dedicou-se a consertar os danos na ilha e repor itens, plantas e animais perdidos. O dragão respeitou o período dela de luto e raiva, e também não disse nada.
Apenas quando ela voltou a se sentar na praia pela manhã para ler outros livros de conjuração foi que Lokdrahzul decidiu falar.
A terceira regra da conjuração é: jamais recite um encantamento numa língua que você não conhece.
— Quais são as outras regras? — perguntou resignada, mas ainda um pouco irritada.
Existe algo bem mais interessante que você pode fazer com conjuração em vez de se arriscar com seres de outros planos.
— E o que é? Conjurar armas e armaduras? É, eu já deveria ter feito isso, especialmente a parte da armadura — disse tocando a cicatriz na barriga.
Você pode combinar Conjuração e Ilusão para criar as criaturas que você quiser.
— Como assim?
Com Conjuração você firma a nova criatura como algo que existe além de você. E com Ilusão você pode dar a forma e as habilidades que você quiser que ela tenha. Pode criar guardas, sentinelas, protetores, serventes... O que você quiser.
— Se eu criar guardas, por exemplo, eles vão ter capacidade de defender minha casa?
Plenamente.
— Mas eles vão se dissipar e todos os dias eu vou ter que criar novos guardas, né?
Não se você vinculá-los a algum objeto de ancoragem, definir uma forma de recarregamento energético e der alguma autonomia para eles.
— Por onde eu começo?
Pelo planejamento. Pegue lápis e papel.
Kláxia voltou para casa e sentou-se à sua escrivaninha.
Primeiro, você deve definir o objetivo da criatura. Segundo, você define que formato físico e habilidades ela necessitaria para realizar seu objetivo com sucesso. Terceiro, você pensa nos possíveis problemas que ela encontraria em sua tarefa e cria habilidades para resolver ou contornar esses problemas. Quarto, cria uma forma de recarregamento energético. Quinto, exemplifica regras, o que pode e o que não pode fazer. Sexto, dá nome. Sétimo, você gasta sua mana toda para criar uma única criatura. Oitavo, solta ela e deixa acontecer.
Kláxia decidiu criar um guarda. Desenhou muito mal um imperial de uniforme.
Entendo seu propósito, mas por que não ir além?
— Ir além como?
Uma das escolas que você vai usar é Ilusão, uma das habilidades que você pode dar à criatura é tomar a forma do medo do invasor. Você pode, claro, dar uma forma padrão para quando só estiver você sozinha na ilha.
Kláxia pensou um pouco e deu uma risada macabra. Desenhou um cliff racer que andava com as pernas de um flame atronach, mas que parecia gelatinoso como um betty netch.
Ah... Uma quimera. Era disso que eu estava falando. Mas deixe claro que essa é apenas a forma padrão da criatura quando for criá-la, e que deve mudar de forma conforme o inimigo.
Kláxia então especificou tudo o que queria e anotou no papel. Pegou uma garrafa de vidro, colocou um pedaço de carne dentro, encheu com água, tapou com uma rolha e foi para a praia.
Sugiro que você use uma jóia ou cristal se quiser que a criatura dure mais tempo e não seja acidentalmente destruída.
— Quero testar uma coisa.
Ela se sentou na areia e começou a energizar a garrafa dando a forma da criatura que havia desenhado. Usou sua mana toda moldando a energia que ficou do tamanho dela. Ainda em conexão energética, a elfa mandou a criatura acordar, recitou as habilidades dela e as regras, deu nome e soltou na ilha. A garrafa permaneceu na areia, mas a criatura caminhou normalmente como se já conhecesse o lugar. Para um mago, era possível ver o cordão energético que ligava a sentinela à garrafa.
Você esqueceu da regra de que ela não deve lhe atacar.
De repente, Kláxia acertou um dardo no pescoço da criatura que voltou-se em sua direção um pouco confusa. A Bosmer pegou sua adaga e avançou.
Imediatamente, a sentinela abandonou sua forma quimérica e adotou o corpo completamente uniformizado de um assassino da Irmandade Negra.
Kláxia parou a um passo de sua criatura, em choque.
— Morra! — gritou a sentinela e atacou com uma adaga.
Kláxia desviou por pouco e deu um pulo para trás. Arremessou uma pedra na cabeça da criatura. A sentinela, então, fez o elmo transformar-se numa cabeça que ora era a de Govarys, ex-namorado da elfa, ora de Dandras Vules, outro ex, e por último de Telvarys.
A Bosmer congelou, estupefata com sua própria criação.
— Eu não tenho medo deles — disse para si mesma.
Tem certeza?, perguntou Lokdrahzul. Sua criatura discorda de você.
A sentinela avançou, mas Kláxia foi mais rápida e chutou a garrafa com toda a sua força fazendo-a explodir. A criatura dissipou-se no ar.
Agora que você já confirmou que seu feitiço funciona, o que mais pretende criar?
🌸🌸🌸
Vestindo um silêncio que começou a incomodar até o próprio Lokdrahzul, a elfa passou um mês inteiro criando sentinelas e serventes. Usou diversos cristais e os enterrou pela ilha. Deu a eles a energia solar como fonte de recarregamento. Alguns foram designados para cuidarem dos animais, das plantas e da casa, deixando-a com o dia inteiro livre.
Quer falar sobre seu medo?
— Não tenho medo deles.
Então seu feitiço não funcionou.
Kláxia sentou-se na rede. Havia passado do meio-dia, mas o Sol ainda estava forte. Uma fraca brisa refrescava levemente. O ruído mais alto era o das ondas nas rochas da praia. Os animais estavam no curral, protegidos do calor. Os passos das sentinelas não produziam som. Ao longe, aves gritavam pelos peixes que conseguiam pescar.
— Já tem alguns anos que eu me pergunto o que eu estou protegendo aqui — começou ela. — Por que ainda vivo em Morrowind? O que resta aqui pra mim?
O que resta aqui para você?
Ela ficou em silêncio um minuto.
— Eu não tenho medo deles. Eu tenho medo de ficar presa nisso. Nesse passado arruinado. Eu tenho medo de voltar a reviver tudo o que eu já vivi.
Hum... Então seu feitiço funcionou melhor do que nós dois imaginamos.
— Não há nenhum momento na minha vida para o qual eu queira voltar. Eu não tenho uma única boa lembrança, Lokdrahzul. Tudo está manchado com dor e sofrimento. Não há nada puro e imaculado. Eu sempre vivi orientada ao futuro, porque o futuro seria melhor, porque no futuro algo bom aconteceria... E o tempo foi passando, mas nada bom aconteceu. Houveram promessas, mas todas se quebraram e deixaram manchas e dor para trás. E agora eu estou aqui, defendendo uma pequena ilha de fantasmas, numa grande ilha de dores, num país que pra mim só traz sofrimento. E pra quê? Por que insistir nisso? O que eu estou cultivando aqui, sobre essas ruínas sentimentais? O que foi destruído não pode mais ser reconstruído. O que se perdeu não pode mais ser recuperado. O que foi corrompido não pode mais ser purificado...
Já pensou em ir para outro país? Skyrim, por exemplo. Daqui a uns 200 anos vai ficar sensacional. Você iria adorar.
Kláxia ignorou o dragão e continuou divagando.
— E pra quem? Nada mais me espera nesse mundo. Eu não faço mais parte dele. Estou aqui apenas ocupando um espaço que não faz falta a ninguém. Não faz sentido ficar.
Nada lhe impede de seguir em frente.
Kláxia ficou em silêncio por um momento.
— Lokdrahzul, se eu morrer, alguma outra vida me aguarda?
Sim. Já conversamos sobre isso. Mas você tem certeza de que já acabou com seus assuntos nesta vida aqui?
— Não consigo ver nenhum motivo pra ficar. Como você disse, nada me impede de seguir em frente.
Então vá.
— Que vida eu terei? Quem eu vou ser?
Lokdrahzul deu uma risada contida.
— Por que você tá rindo?
Como eu expliquei da última vez, você será uma versão aprimorada do que é nesta vida. Para o bem e para o mal.
— O que isso significa?
Se você seguir em frente, você viverá a resposta dessa pergunta.
A Bosmer pensou um pouco.
— Você me ajuda, na transição?
Não.
― Por que não?
Não vou matar você, elfa.
Kláxia suspirou.
— Eu não me odeio o suficiente pra me matar e também não estou sofrendo o suficiente pra isso. Se você não me ajudar, eu vou morrer de quê? De velhice? Daqui a centenas, quem sabe milhares de anos? Eu não tenho mais nada pra fazer aqui, Lokdrahzul.
Não vou lhe ajudar com isso, elfa. Mas você não precisa esperar tanto tempo assim pela morte.
— O que você quer dizer com isso?
Precisamos nos despedir. Foi bom ter sido seu professor, Bosmer. Desejo que você encontre o que procura, esteja onde estiver.
Ela sorriu conformada.
— Obrigada, Lokdrahzul, pela paciência, pela chance, pelo conhecimento e até pelos momentos em que me fez passar raiva.
Quando chegar do lado de cá, não siga o vazio e não siga a luz branca. Siga a luz vermelha.
Kláxia assentiu sem entender, mas esforçou-se para guardar a informação em sua alma. A presença do dragão se dissipou. Uma de suas sentinelas passou na frente dela seguindo para o outro lado da ilha. Foi quando Kláxia teve uma idéia. Pegou várias velas, um punhado de pétalas de nightshade e trancou-se no porão de sua casa. Arrumou as velas num círculo, acendeu, espalhou as pétalas dentro do círculo, deitou-se em cima e, pelos próximos três dias, recitou repetidamente a prece da Irmandade:
“Adorável Mãe, envie seu filho a mim,
pois em sangue e medo devem ser batizados
os pecados dos indignos.”
Ao final do terceiro dia, ela sentiu na sua espinha uma presença preenchida pelo vazio de Sithis.
— Você destruiu meus sentinelas?
— Não — disse uma voz masculina.
— Então como passou por eles?
— Não foi fácil, mas o Inominável me ajudou. Quem eu devo matar?
— Eu.
O assassino ficou em silêncio por uns minutos.
— Me disseram que eu deveria mandar sua alma para o Venerável.
Um pânico tomou conta da elfa por um momento.
— Não, por favor, não faça isso. Deixe minha alma seguir livre.
— Não posso voltar sem nada e, pelo visto, sua alma tem valor.
— Pegue a ilha, não tenho herdeiros. Leia meus diários, você vai encontrar informações valiosíssimas neles. Faça o que quiser.
O assassino ficou em silêncio por mais um momento.
— Vou pegar sua ilha e mandar sua alma para Sithis.
— Não.
A elfa se levantou já preparada para lutar, mas o assassino arremessou a adaga direto no coração dela.
Kláxia caiu desorientada sobre as pétalas. Tentou gritar por causa da forte dor, mas a adaga estava tão enterrada em seu peito que não conseguia respirar.
O assassino se aproximou recitando uma oração que ela conhecia muito bem. Aos poucos seu corpo foi ficando mais leve e a dor foi diminuindo. O escuro a abraçou e o Vazio a aguardava.
Nem Nocturnal, nem Hermaeus Mora. Você sempre pertenceu a mim, Bosmer, disse o sussurro no vazio.
— Me deixe ir, Sithis! Eu já lhe servi demais!
A eternidade nunca é demais.
Ao longe, sem descobrir de qual direção, ela ouviu o ruído de asas. O frio do abismo eterno já queimava sua alma quando o som ficou mais alto e ela sentiu garras puxarem-na em direção a uma luz vermelha.
Fique longe disso, filho de Akatosh. Essa alma me pertence.
Essa alma não pertence a ninguém além de si mesma, Padomay.
Ela fez o juramento da eternidade.
Pois eu estou quebrando o juramento dela.
A luz vermelha ficou tão forte que ela não conseguiu ver mais nada.
— Lokdrahzul...
Vá, siga em frente e nunca procure descobrir o que você deixou para trás.
— Obrigada...
Me agradeça nunca mais voltando aqui.
Sua alma seguiu por um túnel vermelho de onde ecoava uma gritaria numa língua que ela não conhecia. Assim que caiu numa bolsa cheia de água quente, Kláxia não existia mais.