Chá Natalino 🎄
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Sono Interrompido – Parte 1
Sono Interrompido – Parte 2 (final)
♠♥♣♦
Kláxia chegou a Tel Vampiris pela manhã. O céu estava nublado e o clima abafado. Alguns empregados varriam o chão, tiravam o lixo, cuidavam do jardim e transportavam alguns animais para a caverna da vila.
Ela se aproximou de um dos guardas e pediu para ser anunciada a Devullian. Depois de uns minutos, o mago veio recebê-la.
— Por que não entrou logo, querida? Pra que essa formalidade toda?
— Eu não avisei que vinha.
— E por que veio? Não estou reclamando, apenas curioso.
— É fim de ano, vim tomar um chá com você e colocar as fofocas em dia.
Devullian sorriu e chamou-a para entrar. Na sala de visitas, mandou alguns empregados prepararem uma mesa de chá. Mesmo com vários braseiros e tochas acesas, o local era escuro por conta da decoração preta e vermelha que o mago tanto gostava. O cômodo no interior do cogumelo gigante era arredondado, com quatro sofás vermelhos ao redor de uma mesinha de centro preta. Algumas plantas erguiam-se dos vasos, outras se espalhavam pelas paredes e algumas escorriam do teto. Quase não dava para ver as flores coloridas por causa do escuro da decoração.
Devullian sentou-se em um sofá e Kláxia no outro ao lado dele.
— E o Pimpolho? — perguntou o mago.
— Está ajudando uma amiga curandeira.
O mago sorriu sabendo que tinha mais alguma coisa que ela queria contar, algo mais importante. Os empregados serviram uma mesa de chá farta com quase todos os tipos de guloseimas. Devullian serviu chá para a Bosmer e preparou o seu.
— E aí, como estão as coisas? — perguntou ele.
— Faldrien roubou meu selo.
Devullian a encarou espantado por um segundo.
— E por que você não o esquartejou, querida?
— O miserável tomou 3 skoomas, quando eu vi, já tinha sumido.
— Ele entornou 3 skoomas na sua frente e você não achou nem um pouco suspeito?
— Fui eu que servi as skoomas...
— Ele te pediu 3 doses de skooma e você não suspeitou de nada?
— Não. Eu só queria que ele fosse embora.
— Tortura tá aí é pra isso.
— Eu tava tranqüila na minha rede, Devullian, não tava pensando em violência...
— Vai fazer o que agora?
— Já paguei um contrato pra ele na Irmandade. Qualquer resquício de amizade acabou.
— É o mínimo.
— Mas gastei meu dinheiro todo nisso, e como Faldrien roubou o restante, agora vou ter que voltar a trabalhar.
— Faz parte.
— Estou cogitando aprender magia pra colocar um feitiço de invisibilidade nas coisas importantes. Faldrien sabe onde eu moro e eu não quero ter que me mudar. Mas a Guilda dos Magos cobra alguns rins pelas aulas.
— Por que não pediu a Telvarys? Vai ser muito melhor aprender magia na Telvanni do que naquela Guilda de palhaços de festa infantil.
— Não tenho mais contato com ele.
— Vocês brigaram?
— Não sei o que aconteceu direito. Parece que foi tudo coisa da minha cabeça, um grande delírio.
Devullian deu uma gargalhada que Kláxia nunca havia ouvido antes. Pensava até que o mago fosse incapaz de rir.
— Não vai me dizer que você se apaixonou feito uma adolescente?
Kláxia rosnou.
— Achei que depois de adulta essas coisas não aconteciam mais — reclamou ela.
— Você se apaixonou, ele te deu um fora e você ficou com dor de cotovelo ouvindo aquelas músicas cafonas de Cyrodiil?
— Antes fosse. Na verdade foi pior.
— O que houve? — perguntou e começou a preparar bem lentamente o lanche para que desse tempo de montar e comer até que ela terminasse de contar a história toda.
Kláxia apoiou a xícara no colo e encarou o vazio.
— Foi uma paixão que veio do nada. Eu não estava esperando por isso. Guardei pra mim pois já havia tido problemas antes, com Govarys — disse e tocou a cicatriz no tórax. — Não sei dizer como, mas um dia ele me pediu em casamento.
— Telvarys? Telvarys te pediu em casamento? — perguntou incrédulo.
— É. Eu cheguei à conclusão de que tudo aquilo foi um delírio meu. Nada aconteceu de verdade, eu deveria estar sob efeito da skooma.
— E o que aconteceu?
— Eu aceitei. Estava feliz. Não. Feliz não. Estava eufórica. Agitada. Entusiasmada. E então as coisas degringolaram.
— Como?
Ela respirou fundo bem devagar juntando as peças que compunham o quadro do passado.
— Era só eu que iniciava as conversas, era só eu que tinha assunto, era só eu que procurava coisas interessantes pra compartilhar com ele, que me virava do avesso pra contar piadas e fazê-lo rir, que inventava assuntos só pra ter o que conversar com ele. Mas ele nunca investiu um fiapo do que eu investi. Ele nunca iniciava as conversas, ele nunca tinha assunto, ele nunca procurava coisas que talvez eu achasse interessante pra compartilhar comigo, ele nunca se esforçou pra me fazer rir, ele nunca inventou pretextos só pra poder ficar conversando comigo. Nada. Ele nunca investiu naquele pseudo-relacionamento. E quando eu reclamava, ele ficava irritado, e era eu que tinha que pedir desculpas por querer ter a atenção dele, nunca foi ele a me pedir desculpas pela indiferença e pela falta de responsabilidade afetiva na mini-relação. Não fui eu que o pedi em casamento. Não fui eu que dei falsas esperanças. Não fui eu que alimentei a ilusão. Meu erro foi ter acreditado nele. Foi ter insistido pra ser tratada com alguma consideração por uma pessoa que só dizia o que dizia por tédio ou diversão. Talvez pra se sentir melhor com o próprio ego. Às minhas custas.
Ela parou pra respirar e tomar um gole de chá. Devullian mastigava interessado.
— Pra testar se eu estava louca, fiquei umas semanas sem entrar em contato. Ele só apareceu pra falar comigo num feriado pra me desejar felicidades como se eu fosse uma conhecida qualquer. Eu me aborreci, reclamei e ele achou ruim. Veio passivo-agressivamente dizer “te mandei um oi, desculpa se não foi suficiente pra ti”. Meu sangue ferveu, Devullian.
— Também pudera, né.
— Me afastei dele. Só que eu não agüentei muito tempo e voltei me rastejando e me humilhando por ele. É claro que ele ficou muito satisfeito. Mas eu não estava mais eufórica e entusiasmada. Não. Eu estava triste, infeliz e cansada. Não estava gostando daquele arranjo. Só ele ficava com a parte boa da micro-relação que era receber atenção total, ter os sentimentos dele levados em consideração o tempo todo, decidir me ignorar quando eu não estava o agradando, ser entretido sempre que quisesse, e receber conforto emocional sem nunca precisar retribuir. Enquanto eu só ficava com o lado ruim da relação: todas as responsabilidades e nenhuma recompensa. Era como se eu fosse uma escrava afetiva, um cachorro que ele estava adestrando. Eu desmoronei, lógico, ninguém agüentaria uma nano-relação dessas por muito tempo. Mas teve uma outra coisa que contribuiu para minha ruína psicológica...
— O quê? — perguntou Devullian já preparando um segundo lanche.
— Há muito tempo eu tive um casal de amigos Bretons, Sebainsten e Antonnia Amellose, do qual me afastei por discussões bobas com ele e porque ela estava ficando cada vez mais difícil de conviver.
— Como assim?
— Ela tinha mania de perseguição. Eu sempre me desdobrava para dar atenção a ela, mas se eu demorasse um minuto que fosse, por qualquer motivo, ela reclamava que eu não gostava mais dela, que estava conspirando contra ela junto com o irmão (que ela sempre detestou), que eu estava diferente, que eu não era a mesma de antes e mil e uma observações sem pé nem cabeça. Bastava que eu me ausentasse para ir ao banheiro que as reclamações começavam. Eu nunca nem ousei ficar uma semana sem falar com ela. Só que isso foi me desgastando. Antes, nos primeiros 10 anos de amizade, eu achava tudo muito divertido e engraçado, mas depois eu fui cansando...
— Agüentou muito, querida e ainda foi simpática.
— Quando as discussões com o Sebainsten começaram, eu resolvi me afastar dos dois. Muitos anos se passaram, senti saudades e fui procurá-la. Ela foi bastante agressiva comigo, disse que não tinha amigos e que era pra eu ir embora. Insisti, disse pra ela que apesar de tudo, eu ainda gostava dela e queria que fosse feliz. Ela não acreditou, me acusou de falsidade e mentira, mas continuei insistindo porque percebi que ela não estava bem. Aos poucos ela me aceitou de volta, mas ainda bastante agressiva. Em um determinado momento, ela me disse “assim que meus pets morrerem, eu vou me matar, já tenho tudo planejado”.
Devullian soltou um ruído de espanto.
— E o que você fez?
— Na hora, eu congelei. Depois, pesquisando em alguns livros, vi que deveria contar a um parente próximo que ela tinha planos de suicídio. Engoli meu orgulho e fui atrás do Sebainsten. Não usei a palavra “suicídio”, mas deixei subentendido que ela poderia machucar a si mesma. Foi então que ele me contou o que eu não esperava.
— O quê? — perguntou Devullian preparando um terceiro lanche só de doces.
— Sebainsten contou que há muito tempo ela vinha piorando e que nada do que ele fazia dava jeito. Que toda vez que ele tentava convencê-la a procurar um mago, ela ficava muito agressiva e fazia da vida dele um inferno. Deu a entender que ela o agredia fisicamente. Contou que ela saiu do emprego porque alegava que os colegas ficavam rindo dela pelas costas e que todo mundo a odiava. Ele havia conhecido todos do trabalho, e eles gostavam dela. Era tudo paranóia. Disse que gostaria que ela voltasse a falar com o irmão e a amiga de infância, mas que ela dizia que os dois estavam tramando contra ela. E então contou que ele próprio já havia tentado se matar duas vezes e fazia tratamento com um mago. Eu fiquei me sentindo mal, pois não sabia de nada daquilo. Pedi desculpas por aborrecê-lo, contei que não guardava rancores das discussões, e ele disse que também não guardava rancor. Passou-se alguns dias, Antonnia veio falar comigo cheia de ódio.
Kláxia parou pra beber um pouco do chá pois já estava ficando rouca.
— Disse quase espumando de raiva “você não tinha que ter falado nada pro Sebainsten! Você sabe que ele tem o mesmo problema que eu e foi se meter num assunto que não é da sua conta! Muito ridícula você, reaparecer depois desse tempo todo, depois de ter brigado com ele por babaquice sua, pra vir se meter na nossa vida fingindo que se preocupa! Eu não quero ajuda, se quisesse, teria pedido! E você, fique de boca caladinha e bem longe do Sebainsten, não vai contar nada disso pra ele, ele já tá passando mal, se ele se matar, a culpa vai ser sua!”.
Um silêncio mórbido preencheu a torre, nem os insetos se atreveram a dar demonstrações de vitalidade. Quase num sussurro, Kláxia continuou:
— Eu entrei em pânico. Contatei o Sebainsten e pedi desculpas por atormentá-lo com aquele assunto e disse que se precisasse de alguém pra conversar, eu estava ali. Ele agradeceu, disse que eu não precisava me preocupar porque eu havia feito a coisa certa. Isso não me tranqüilizou. Eu fiquei 3 dias passando mal de tanto chorar, me sentindo culpada de ter ido colocar ainda mais peso nas costas dele. Quando eu melhorei um pouco, queria uma opinião de alguém de fora da situação, então fui falar com Telvarys. O que eu não sabia é que ele tinha ouvido um comentário que eu havia feito uns dias antes sobre estar sofrendo uma desilusão amorosa. Então antes que eu pudesse contar o que havia acontecido, Telvarys me disse que estava tudo acabado porque ele não queria ficar se aborrecendo comigo.
— Tsk, tsk, tsk...
— Meu mundo desabou, Devullian.
— Era de se esperar, querida.
— Eu estava esgotada, não tinha forças pra mais nada, então eu larguei tudo e voltei pra minha ilha perto de Seyda Neen e fiquei por lá uns 3 meses. É claro que, antes de eu ir embora, eu tive que me desculpar com o princesinho do arquimagistrado, porque a responsabilidade nunca foi igualitária. Ele sempre agiu como se fosse um santo, como se sempre estivesse certo, como se todos os males da microscópica relação fossem causados única e exclusivamente por mim. Como se a imaturidade, irresponsabilidade, falta de compromisso e consideração da parte dele, e o ego gigantesco não tivessem contribuído para esse estrago todo. Mas é claro que, pra ele, eu sou a vilã, eu não fui compreensiva o suficiente, eu não pensei no lado dele–
Kláxia se interrompeu para gargalhar da própria desgraça.
— ... Eu não tive empatia por ele, eu não tive consideração pelos sentimentos dele...
Ela riu de novo.
— ... Enfim, eu sozinha fui uma monstra na vida dele pior do que Molag Bal e Mehrunes Dagon juntos. Pobre São Telvarys, tão injustiçado, tão maltratado, tão escorraçado pela vilanesca Bosmer que agia como um cachorro caramelo...
Ela jogou a mão na testa e virou a cabeça para trás como as atrizes hammerfellianas faziam.
— Ó, céus! Ó, vida! Pobre São Telvarys! Que a justiça seja feita e um raio caia sobre a minha cabeça!
Os dois se calaram para ouvir, mas nenhum raio caiu. Eles riram.
— Que drama cirodiílico, querida. Mas você melhorou, não é?
— Eu passei esses últimos dois anos esperando que magicamente Telvarys fosse reconhecer a parte dele na catástrofe do milimétrico relacionamento e vir me procurar dizendo que pensou muito a respeito de tudo, que reconhecia suas más atitudes, que estaria disposto a melhorar e consertar seus erros, que me desculpava e que também me pedia desculpas, e se poderíamos pelo menos voltar a ser amigos, mas ainda bem que eu não fiquei esperando em pé. O princeso ainda deve estar achando que sou eu que tenho o dever de me arrastar até ele como um cadáver reanimado, sem um pingo de amor-próprio, implorando pelo perdão dele e pra voltar a servi-lo como uma escrava argoniana. Mas eu aproveitei esse tempo todo pra pensar no que eu realmente quero da minha vida, e cheguei à conclusão que eu quero alguém igual a mim. Que esteja disposto a me dar tudo o que eu dei a ele e não foi o suficiente. Que faça por mim tudo o que eu fiz por ele. Que se esforce por mim como eu me esforcei por ele. Nós dois sabemos que ele nunca será essa pessoa, porque ele vai continuar agindo como um moleque mimado que quer todas as recompensas de um relacionamento sem nenhum trabalho ou aborrecimento. E não existe nada nesse mundo que só tenha lado bom e nenhum lado ruim. Foi por isso que eu nunca fui atrás dele e nem vou. Já fiz demais.
Devullian assentiu com a cabeça enquanto tomava um chá para ajudar na digestão.
— O que ainda me deixa com muita raiva é que toda essa catástrofe emocional não teve propósito nenhum. Eu nunca tive valor pra ele. Isso tudo foi só um passatempo porque ele estava entediado e com o ego ferido por causa da ex. Assim que eu fui embora, ele já arranjou outras pra ficarem orbitando ele. Eu fui apenas uma gota num oceano de gente insignificante.
— Ah. Oi. Terminou? — disse Devullian para uma figura sombria na porta atrás de Kláxia.
A elfa se virou para cumprimentar o visitante e deu de cara com o Dunmer.
— Oi — disse ela.
— Oi — respondeu ele.
— Sullon e eu estamos trabalhando num experimento — disse Devullian tentando explicar o clima constrangedor. — Terminou?
— Não.
Kláxia virou pra frente sem ter o que dizer.
— Está com fome? — perguntou Devullian.
— Não.
— Venha comer — ordenou o anfitrião.
Sullon obedeceu e se sentou na poltrona de frente para Kláxia. Ela permaneceu de cabeça baixa encarando a xícara de chá no colo. Devullian preparou um lanche e entregou ao Nerevarine.
— Vou buscar mais biscoitos — disse o anfitrião já saindo.
— Tudo bem? — perguntou a elfa.
— Sim — respondeu entre uma mordida e outra.
— E a vida, como vai?
— Movimentada.
Ela ficou em silêncio bebendo o restante do chá. Os ruídos de digestão eram a única coisa que se ouvia. Mesmo monossilábico, o Dunmer a encarava como se estivesse aguardando para dar o bote. Já a Bosmer, evitava encará-lo.
— Você tá com raiva de mim? — perguntou ela sem olhar para ele.
Sullon riu com desdém.
— Houve um momento na minha vida em que eu sofri muito por você — disse. — Porque você era uma das pessoas mais importantes pra mim. Só que depois desses anos todos, eu aprendi a viver sem você. E agora- –
— Eu sou só uma gota num oceano? — perguntou ela interrompendo e encarando-o nos olhos.
— Nem isso — disse rindo um tanto irritado. — Desculpa, mas eu nem lembro mais que você existe. Muita coisa tem acontecido na minha vida e não tem mais espaço pra você.
Ela sorriu conformada.
— Eu evaporei.
— Muitas vezes.
Ela assentiu com um sorriso de quem assume a própria culpa.
— Não tenho raiva de você, Sullon, acho que nunca tive, nem mesmo nos momentos de crise. Eu só acho que nós dois nunca fomos compatíveis mesmo. Esperávamos coisas diferentes das nossas naturezas. Eu esperava de você o que só eu podia me dar, e você esperava de mim o que só você podia se dar. E nenhum dos dois nunca soube o que era essa coisa que o outro queria. Não ajudou que você falava demais, mas nunca o que realmente precisava ser dito. E também não ajudou que eu desaparecia sempre que deveria dizer alguma coisa.
— Se é o que você acha.
— O que seria então, se não isso?
— Nada.
Sabendo que ele sempre falava e explicava demais, a elfa constatou:
— Você está com raiva de mim.
— Aí seria dar muita importância pra algo insignificante.
Ela parou para pensar por um momento, para tentar entender aquela situação pelo ponto de vista dele, algo que nunca lhe pareceu possível.
— Então você acha que eu não ter raiva de você significa que você é insignificante pra mim?
— Você foi embora.
— Não fui embora por raiva e nem por achar que você seria insignificante. Não acho. Eu fui embora porque havia muitas vozes na minha cabeça falando ao mesmo tempo, e como você falava demais, eu não conseguia mais pensar. Precisava ficar sozinha.
Ele riu irritado.
— Podia ter avisado.
— E você teria me deixado em paz?
— Não.
Ela o encarou irritada.
— Vai começar...
— Ninguém deveria ficar sozinho, é horrível — disse ele.
— Existem muitos momentos em que eu preciso ficar sozinha.
— Uma meia-hora já tá bom.
— Não pra mim. Às vezes as coisas levam meses pra fazer sentido.
— E por que elas têm que fazer sentido? Só deixa as coisas pra lá do jeito delas.
— Não posso. Eu preciso entender pra assimilar e seguir adiante. Não posso deixar as coisas voando na minha cabeça como um enxame numa colméia.
— Por que não? Abelhas são legais.
Kláxia suspirou irritada.
— Eram essas bobeiras que me cansavam...
Sullon se irritou.
— Você quer falar sério? Tá bom. Vou falar sério. Você não pode entrar na vida das pessoas, ser legal com elas e depois ir embora tentando carregar tudo com você. Uma parte sua sempre vai ficar com as pessoas, e a outra parte vai fazer falta, como um deficiente físico. Tá, a analogia não foi boa, mas você entendeu.
Kláxia respirou fundo pensando em como explicar o que sentia.
— Eu acho que as pessoas vão parar de pensar em mim no momento em que eu desaparecer. E se continuarem lembrando, eu acho que elas vão esquecer em pouco tempo. Eu realmente acredito nisso, é uma crença muito profunda. A idéia de alguém sentir a minha falta é um conceito irreal. E não é por baixa auto-estima ou coisa assim não, é porque eu não consigo mesmo conceber esse sentimento de falta. Como alguém poderia sentir a minha falta? Por que sentiria? Não faz sentido pra mim.
— Você não sente falta das pessoas? Saudade?
— Sinto, mas passa, porque tem que passar. A saudade é como o luto, a dor diminui com o passar do tempo, porque tem que diminuir. Se não diminuir, a pessoa enlouquece. E eu gasto muita energia pra não enlouquecer. Então as coisas que eu sei que vão me atrapalhar, como saudade, luto ou alguma outra dor, eu guardo num baú e enterro. Às vezes, como zumbis, elas saem de baixo da terra e me atacam. Aí eu tenho que desaparecer mais alguns meses pra devolver os defuntos sentimentais pros seus túmulos. E mais alguns meses entendendo como e por que eles saíram.
— Eu não guardo e não enterro nada, deixo eles fazerem o que quiserem.
— Não consigo viver assim — disse ela. — As coisas precisam estar organizadas, cada pensamento, cada sentimento no seu devido lugar. Não consigo viver com o enxame psicológico orbitando a minha cabeça.
— Mas você já tentou deixar eles soltos?
Kláxia sorriu um pouco desdenhosa.
— Não posso.
Sullon a encarou com uma expressão triste, mas resignado, como se aceitasse as coisas como elas eram.
— O que você quer fazer agora? — perguntou ele.
— Não sei.
Devullian entrou na sala carregando uma bandeja de biscoitos.
— Finalmente ficaram prontos — disse o mago e colocou sobre a mesa. — Estão fresquinhos, saíram do forno agora.
— Obrigada pela refeição, Devullian — disse Kláxia. — Mas preciso ir agora.
— Já? Mas nem chegou direito. Fique mais um pouco, querida.
— Não posso, tenho que procurar trabalho.
— Mercenária? — perguntou Devullian.
— Não. Vou entrar pra Guilda dos Magos.
Os dois magos fizeram uma careta.
— Como eu disse, seria melhor se você entrasse pra Telvanni, mas você não vai fazer isso mesmo...
— Abandonou Telvarys — disse Sullon, e diante do olhar perplexo da elfa, acrescentou: — Fiquei sabendo.
Kláxia colocou a xícara em cima da mesa e se levantou.
— Bem... Bom final de ano pra vocês. — E para Devullian: — Ano que vem eu passo aqui, com Pimpolho. Ele quer visitar.
— Venha sim, querida. Vou ficar esperando.
Ela olhou para Sullon.
— Tchau.
— Tchau.
Um empregado acompanhou a ladina até a porta e de lá ela foi para Sadrith Mora para se alistar na Guilda dos Magos.