A Bosmer acordou num pulo, acreditando que havia dormido demais. O mundo do lado de fora da janela estava tão escuro quanto a noite. Do térreo soava o tilintar comedido de vários talheres nas louças de barro. Sem se lavar ou trocar a armadura de couro por algo mais apropriado, a elfa desceu as escadas pulando vários degraus por vez.
Os hóspedes da taberna faziam o desjejum em silêncio, um em cada mesa, com cara de poucos amigos. Os braseiros estalavam animados iluminando o recinto.
— Bom dia — disse o taberneiro. — Vai querer o quê?
— Que horas são?
— Umas 9h da manhã.
— E essa escuridão toda?
— Eclipse — respondeu com um dar de ombros.
Kláxia riu. Um eclipse justamente no dia do aniversário de Devullian. A elfa checou seus pertences nos bolsos e certificou-se de que os dois ingressos estavam lá. Num gole só, absorveu uma caneca de suco de comberry, colocou duas moedas sobre o balcão e saiu.
Do lado de fora, no pátio oeste de Balmora, uma multidão de Khajiit estava ajoelhada dando graças ao sol eclipsado pela Masser. As fêmeas entoavam um cântico desesperado enquanto tocavam seus ventres freneticamente. Os machos se curvavam até encostar a cabeça no chão, em seguida jogavam os braços para o céu e rugiam.
A Bosmer entrou na Guilda dos Magos, pagou um teleporte para Sadrith Mora e seguiu para a torre do amigo em Tel Vampiris. Escalando o cogumelo por fora, a elfa estranhou não ter sido triturada por nenhum feitiço. Adentrou a torre pela janela do terraço e não encontrou ninguém. O interior era ainda mais escuro do que o mundo exterior e a decoração preta e vermelha não contribuía em nada. Por sorte, ela conseguia enxergar um pouco no escuro e começou a procurar por Devullian. Usando uma poção de levitação, entrou e saiu de vários túneis e não encontrou uma viva alma.
Pensou que ele talvez tivesse ido comemorar na taberna de Tel Aruhn, mas não era do feitio do Dunmer misturar-se com os forasteiros. Logo lembrou-se que o amigo havia lhe contado sobre uma masmorra no subterrâneo da torre. Kláxia encontrou a entrada atrás de uma falsa pilha de ovos de Kwama e seguiu pelo corredor escuro.
O som dos gemidos foi aumentando conforme ela se aproximava. Assim que chegou à câmara, a Bosmer encontrou o Dunmer suspenso em várias correntes sendo açoitado com chicotes, machadinhas, maças e até lanças, por várias mulheres Dunmeri com a metade superior de seus corpos vestida em blusas de látex que possuíam duas aberturas redondas para os seios que ficavam expostos. A metade inferior estava totalmente desnuda. Algumas delas tinham os pêlos pubianos tão longos, que estavam trançados e presos por fitas vermelhas. Não era possível ver seus rostos pois a blusa cobria completamente a cabeça. A Bosmer se perguntou como elas conseguiam respirar e, aproximando-se, notou que havia uma pequena abertura sobre a boca com uma gradinha de arames.
Pelos gemidos do Dunmer, não era possível saber se ele estava em êxtase ou desmaiando.
— Devullian — chamou a Bosmer.
As mulheres pararam, mas não se viraram para ela. Apenas pararam como se seus corpos tivessem perdido o espírito.
O Dunmer se balançou um pouco e lentamente as correntes giraram fazendo-o encarar a elfa.
— Ah… Querida Kláxia… Quer se juntar a nós?
— Agradeço o convite, mas passo. Vim te chamar para a gente comemorar seu aniversário.
— Já estou fazendo isso.
— Eu tenho uma idéia muito melhor.
— Duvido.
A elfa puxou os ingressos do bolso, balançou no ar e guardou novamente.
— Um evento em Dagon Fel – disse ela.
— Dispenso.
— Poxa! Vim até aqui para celebrar contigo e você me dispensa assim?!
— Dispenso o evento, não você, querida. Aliás, já lhe convidei para se juntar a nós.
— Planejei isso há tanto tempo. Desde o início do ano. E você vai me fazer essa desfeita?
— O aniversário é meu, querida.
— Eu sei, mas a gente nunca faz nada juntos.
O Dunmer fez um gesto com a cabeça em direção a uma mesa cheia de armas.
— Escolha uma e faremos algo juntos.
— Mas isso é tão chato, Devullian. Minha profissão é torturar, esfolar e matar pessoas. Era. Era minha profissão. Pensa comigo, a última coisa que um padeiro quer fazer em seu tempo livre é pão.
— Você acabou de dizer que não é mais padeira.
— Vamos para Dagon Fel, por favooooor! — pediu com as mãos juntas.
— Só se você me prometer que vai usar suas habilidades do tempo de seguidora de Sithis em mim.
— Isso é tão chato — disse ela bufando entediada.
— Então nada feito.
O Dunmer se balançou novamente e girou para o lado oposto, dando as costas para ela.
— E se eu ensinar para suas… amigas? Servas? Namoradas? Escravas? Possuídas? Desencarnadas? Necromantadas?
— Clientes.
— Clientes?!
— Temos um acordo complicado.
A elfa balançou a cabeça para se livrar da confusão.
— Mas e se eu ensinar para as suas clientes? Várias mãos aplicando a mesma técnica não seria melhor do que apenas uma?
— Nesse ponto você tem razão, querida. Tudo bem. Vou com você até Dagon Fel e depois você ensina tudo o que sabe para todas as minhas clientes.
Devullian se contorceu todo e conseguiu se desvencilhar das correntes que o suspendiam. As mulheres continuaram paradas como zumbis.
— Por que sua torre está desprotegida? — perguntou a Bosmer.
— Não está — disse ele enquanto regenerava seus ferimentos.
— Não encontrei armadilha nenhuma até aqui.
— Você não as encontrou porque a torre deixou você entrar. E só deixou porque eu a encantei assim. Como pretende nos levar para Dagon Fel?
A Bosmer sorriu sem graça.
— Você é um mago… — comentou ela deixando a idéia no ar.
Devullian suspirou.
— O aniversário é meu. Não deveria ficar por minha conta.
— Mas é tão mais fácil! A não ser que você queira caminhar comigo por horas até Sadrith Mora, depois pegar um barco até Dagon Fel por mais 12 horas…
— Vamos de teleporte mesmo.
Assim que terminou de vestir seus acessórios, o mago segurou a mão da ladina e teleportou os dois para uma rua perto do centro de Dagon Fel. Ele tapou o rosto com a mão se protegendo do sol forte que atingia as pedras claras do chão e refletia em seus olhos que já estavam desacostumados do dia.
Kláxia arrastou o amigo até uma taberna perto dali. Ao contrário do que se poderia pensar, apesar de ser manhã, o local estava quase cheio de pessoas que não eram bêbados ou viajantes, mas idosos de todas as raças.
A Bosmer entregou os ingressos ao Orc que vigiava a entrada e arrastou o Dunmer para uma mesa aos fundos, de onde eles poderiam observar o salão todo.
Na parte da frente, um palanque estava arrumado com vários caixotes fechados em frente a uma cortina que ocultava algo atrás do palco.
Uma Nord de meia-idade subiu no palanque e anunciou:
— Bem-vindos ao Oitavo Bingo VIP de Dagon Fel!
Alguns idosos urraram de emoção como um viciado em skooma sofrendo de abstinência. Outros aproveitaram os gritos para tossir secreções suspeitas em paninhos que foram guardados novamente em seus bolsos.
O semblante de Devullian se deformou numa emoção difícil de descrever que poderia conter todos os piores sentimentos da existência.
Kláxia aplaudia discretamente, mas com um sorrisinho de criança que visita um zoológico pela primeira vez.
Devullian encarou a amiga por um longo tempo enquanto respirava fundo para refrear o ímpeto de reduzi-la a pó.
— Você me tirou da minha sessão de bondage para me trazer a um Bingo, querida?
— Isso é tãããão legal! A gente pode ganhar um monte de coisa!
— Tipo o quê?
— Não sei. Os prêmios são secretos.
O Dunmer ficou parado, incrédulo, pensando por alguns segundos.
— Isso quer dizer que a gente pode ganhar desde um inhame das cinzas até um bebê traficado pelo mercado negro?
A Bosmer parou por um momento para a analisar a situação sob a nova perspectiva.
— Isso. Mas pense pelo lado positivo, você poderia dar uma boa vida para esse bebê que foi arrancado dos pais tão cruelmente.
— Seria uma situação horrorosa, querida. Jura que você não parou para pensar nisso antes de comprar esses ingressos?
— Eu não comprei os ingressos — revelou ela com um sorrisinho sem graça.
— Ganhou em alguma aposta?
— Roubei de um bebum em Caldera.
— Ahn… Por quê?
— Estava entediada e o bolso dele estava no meu campo de visão.
— Você disse que tinha planejado isso desde o início do ano.
— Metade disso é verdade. Desde o início do ano que estou planejando de a gente fazer algo juntos. Só que até ontem eu não havia conseguido pensar em nada interessante.
Devullian massageou as têmporas, chamou um garçom e mandou trazer quantas garrafas de sujamma coubessem sobre a mesa.
— Se vou participar de um Bingo ilegal, que seja anestesiado.
Uma jovem Dunmer passou por todas as mesas entregando as cartelas com números e um lápis. A Bosmer rapidamente agarrou as cartelas e deu uma reboladinha de emoção na cadeira.
— Pode colocar um feitiço de sorte nessas cartelas? — perguntou ela aos sussurros.
— Não — respondeu Devullian e voltou a esvaziar as garrafas de sujamma.
— Então depois não reclama se a gente ganhar um bebê!
A Nord de meia-idade começou a sortear os números, e os idosos se alvoroçaram checando e rabiscando as cartelas.
Devullian se questionava por que simplesmente não se teleportava dali de volta para Tel Vampiris e suas clientes. Então lembrou-se do acordo com a Bosmer: ela ensinaria suas técnicas de tortura às clientes dele. Devullian esperava que aquele sacrifício valesse a pena.
— Ganhamos! — gritou a Bosmer de repente.
Todos os idosos a encararam com desprezo. A jovem Dunmer de outrora tirou a cartela sorteada da mão dela, conferiu, acenou para a Nord no palco e fez um gesto para que Kláxia a seguisse.
— Nossa primeira ganhadora — disse a Nord abrindo a tampa de um caixote. — O seu prêmio é...
Kláxia subiu no palco empolgada. Os idosos se esticaram para ver o que eles poderiam ter ganhado. A jovem Dunmer enfiou outra cartela na mão de Kláxia. Devullian chamou o garçom que renovou as garrafas de sujamma.
— Uma suculenta num vasinho! — anunciou a Nord.
Os idosos deram de ombros, pois já cultivavam muitas suculentas importadas de Ald’ruhn. Kláxia deu uns pulinhos de felicidade, era a primeira vez que era sorteada para receber algo que não era uma facada. Voltou para a mesa, colocou a suculenta entre as garrafas e sorriu para o amigo.
— Viu? Eu não te falei que seria legal?
— Só se for para você, querida.
— Não se preocupe, o próximo prêmio é seu!
Devullian resmungou entre um gole e outro, e o Bingo continuou. Vários outros idosos ganharam enquanto o Dunmer continuava se anestesiando com as sujammas.
Assim que sua bexiga encheu demais, ele foi ao banheiro. Quando voltou, Kláxia estava com o sorriso louco de antes. Enfiou a cartela na mão dele e gritou empurrando o mago para o meio do salão:
— Ganhamos de novo!
A jovem Dunmer conferiu a cartela e guiou Devullian até o palco.
— Muito bem — disse a Nord de meia-idade —, nossos itens menores acabaram. Agora vamos passar para os prêmios maiores — disse e entregou uma coleira para ele.
Devullian sorriu.
— Bom, isso eu poderia usar com minhas clientes…
— Ah, o senhor tem uma loja? — perguntou a Nord. — O Pimpolho será muito útil então! Ele é adestrado e inteligente. Sabe fazer um cafezinho e assar batatas! Chame ele.
Devullian encarou a mulher com um olhar embriagado e se perguntou se a sujamma já havia começado a afetar seus sentidos.
— Pimpolho — chamou a Nord —, venha conhecer seu novo mestre.
A coleira se mexeu e de trás da cortina surgiu um Scamp vestido como um burocrata Imperial, de calça comprida, blusa social com gravata borboleta, um colete azul escuro e uma cartola da mesma cor.
Os idosos rosnaram e xingaram baixo. Pimpolho era exatamente o que eles queriam! Mas o mago anti-social o ganhou. A sorte definitivamente não estava com eles.
Alguns encararam Devullian analisando se poderiam nocauteá-lo, mas desistiram depois de notar que ele usava um anel da Grande Casa Telvanni. Ninguém ali era louco pelo Pimpolho a esse ponto. Seria melhor se resignar e pedir aos deuses que algo similar ao Scamp adestrado também estivesse escondido atrás da cortina.
A jovem Dunmer empurrou Devullian e o Pimpolho de volta para a mesa e o entregou outra cartela. O mago se sentou encarando o Scamp que parecia ter saído de um desfile de moda em Cyrodiil e concordou que seria melhor evitar sujammas pelo resto da vida porque aquele sonho já havia passado dos limites.
Kláxia tomou a cartela da mão dele enquanto sorria animada.
— Eu te falei que ia ser legal! Agora você tem um pet adestrado! De graça! Todo mundo vai te invejar, Devullão!
Pela mente do mago só passou a cena da chacota que se tornaria entre os outros Telvannis. Therana e Dratha tomando chá e rindo dele. “Tão assustador e maléfico, tem um servo chamado Pimpolho que ele ganhou num Bingo!”, diriam elas entre uma gargalhada e outra.
O Arquimagistrado, Neloth e Fyr numa sauna. “Eu tinha até um certo respeito por Devullian”, diria um deles, “mas agora só me resta o desprezo. Um Bingo? Como um velho Imperial? Pff!”. E os outros dois concordariam.
— Vamos embora — disse ele segurando o pulso da Bosmer com muita força.
— Minha nossa! — reclamou ela tentando se soltar em vão. — Pra que isso?
Assim que notou que iriam se teleportar, ela tratou de agarrar a suculenta e o Scamp.
O último som que ouviram foi o gemido de consternação dos idosos.
Apareceram no saguão da torre em Tel Vampiris. Devullian se jogou numa poltrona e logo um servo apareceu lhe trazendo um chá. O Scamp pediu desculpas numa língua enrolada enquanto passava mal com o teleporte, quase vomitou sobre o tapete preto.
— Você bebeu muito — disse a Bosmer. — Mas pelo menos o evento valeu pelos prêmios!
— Nós temos um acordo — disse Devullian já se sentindo melhor com o chá. — Deixe seu conhecimento aqui e leve o Scamp.
— Jamais tirarei Pimpolho de você! É a cara do pai!
As mãos do mago brilharam levemente numa cor alaranjada.
— Venho visitar nosso filho todos os meses — disse ela segurando uma risada. — Posso lhe pagar uma pensão alimentícia se precisar.
— Se a pensão for uma sessão de bondage por mês, posso pensar no seu caso.
— O caso não é meu, querido. Pense em nosso filho! — falou como uma atriz de novela hammerfelliana e apontou para a criatura.
O Scamp se agachou para descansar um pouco. Seus olhos tentavam se acostumar com a escuridão.
— Não vou cuidar dele, querida.
Kláxia pensou por um momento e disse:
— Existia um aparelho de tortura na sede da Irmandade em Mournhold. Posso arranjar um jeito de trazer para você, se você criar o nosso Pimpolhinho. Além disso, mantenho minha parte do nosso acordo prévio.
— Como era esse aparelho? — perguntou interessado.
— Você só vai saber se aceitar criar o Pimpolho. Virei visitar todos os meses.
Devullian encarou o Scamp que agora, sob a escuridão, parecia um palhaço deformado. Não seria tão difícil criar um pet scamp que já viera adestrado. Só precisaria de uns feitiços de vigilância caso a criatura soubesse mais que sua aparência transparecia. Mas isso também não seria um problema pois a torre era encantada e inteligente. Além disso, possuía servos vivos e mortos.
— Tudo bem, querida. Seu conhecimento pelo Bingo, e o aparelho pelo Scamp.
Os dois apertaram as mãos e seguiram para a masmorra onde Kláxia desenhou em vários papéis, para as clientes, as torturas que aprendera em seus tempos de assassina na Irmandade Negra.
Em seguida se despediu de Devullian com a promessa de que lhe traria o tal aparelho.