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4 de Last Seed – 3E 423

A Bosmer acordou num pulo, acreditando que havia dormido demais. O mundo do lado de fora da janela estava tão escuro quanto a noite. Do térreo soava o tilintar comedido de vários talheres nas louças de barro. Sem se lavar ou trocar a armadura de couro por algo mais apropriado, a elfa desceu as escadas pulando vários degraus por vez.

Os hóspedes da taberna faziam o desjejum em silêncio, um em cada mesa, com cara de poucos amigos. Os braseiros estalavam animados iluminando o recinto.

— Bom dia — disse o taberneiro. — Vai querer o quê?

— Que horas são?

— Umas 9h da manhã.

— E essa escuridão toda?

— Eclipse — respondeu com um dar de ombros.

Kláxia riu. Um eclipse justamente no dia do aniversário de Devullian. A elfa checou seus pertences nos bolsos e certificou-se de que os dois ingressos estavam lá. Num gole só, absorveu uma caneca de suco de comberry, colocou duas moedas sobre o balcão e saiu.

Do lado de fora, no pátio oeste de Balmora, uma multidão de Khajiit estava ajoelhada dando graças ao sol eclipsado pela Masser. As fêmeas entoavam um cântico desesperado enquanto tocavam seus ventres freneticamente. Os machos se curvavam até encostar a cabeça no chão, em seguida jogavam os braços para o céu e rugiam.

A Bosmer entrou na Guilda dos Magos, pagou um teleporte para Sadrith Mora e seguiu para a torre do amigo em Tel Vampiris. Escalando o cogumelo por fora, a elfa estranhou não ter sido triturada por nenhum feitiço. Adentrou a torre pela janela do terraço e não encontrou ninguém. O interior era ainda mais escuro do que o mundo exterior e a decoração preta e vermelha não contribuía em nada. Por sorte, ela conseguia enxergar um pouco no escuro e começou a procurar por Devullian. Usando uma poção de levitação, entrou e saiu de vários túneis e não encontrou uma viva alma.

Pensou que ele talvez tivesse ido comemorar na taberna de Tel Aruhn, mas não era do feitio do Dunmer misturar-se com os forasteiros. Logo lembrou-se que o amigo havia lhe contado sobre uma masmorra no subterrâneo da torre. Kláxia encontrou a entrada atrás de uma falsa pilha de ovos de Kwama e seguiu pelo corredor escuro.

O som dos gemidos foi aumentando conforme ela se aproximava. Assim que chegou à câmara, a Bosmer encontrou o Dunmer suspenso em várias correntes sendo açoitado com chicotes, machadinhas, maças e até lanças, por várias mulheres Dunmeri com a metade superior de seus corpos vestida em blusas de látex que possuíam duas aberturas redondas para os seios que ficavam expostos. A metade inferior estava totalmente desnuda. Algumas delas tinham os pêlos pubianos tão longos, que estavam trançados e presos por fitas vermelhas. Não era possível ver seus rostos pois a blusa cobria completamente a cabeça. A Bosmer se perguntou como elas conseguiam respirar e, aproximando-se, notou que havia uma pequena abertura sobre a boca com uma gradinha de arames.

Pelos gemidos do Dunmer, não era possível saber se ele estava em êxtase ou desmaiando.

— Devullian — chamou a Bosmer.

As mulheres pararam, mas não se viraram para ela. Apenas pararam como se seus corpos tivessem perdido o espírito.

O Dunmer se balançou um pouco e lentamente as correntes giraram fazendo-o encarar a elfa.

— Ah... Querida Kláxia... Quer se juntar a nós?

— Agradeço o convite, mas passo. Vim te chamar para a gente comemorar seu aniversário.

— Já estou fazendo isso.

— Eu tenho uma idéia muito melhor.

— Duvido.

A elfa puxou os ingressos do bolso, balançou no ar e guardou novamente.

— Um evento em Dagon Fel – disse ela.

— Dispenso.

— Poxa! Vim até aqui para celebrar contigo e você me dispensa assim?!

— Dispenso o evento, não você, querida. Aliás, já lhe convidei para se juntar a nós.

— Planejei isso há tanto tempo. Desde o início do ano. E você vai me fazer essa desfeita?

— O aniversário é meu, querida.

— Eu sei, mas a gente nunca faz nada juntos.

O Dunmer fez um gesto com a cabeça em direção a uma mesa cheia de armas.

— Escolha uma e faremos algo juntos.

— Mas isso é tão chato, Devullian. Minha profissão é torturar, esfolar e matar pessoas. Era. Era minha profissão. Pensa comigo, a última coisa que um padeiro quer fazer em seu tempo livre é pão.

— Você acabou de dizer que não é mais padeira.

— Vamos para Dagon Fel, por favooooor! — pediu com as mãos juntas.

— Só se você me prometer que vai usar suas habilidades do tempo de seguidora de Sithis em mim.

— Isso é tão chato — disse ela bufando entediada.

— Então nada feito.

O Dunmer se balançou novamente e girou para o lado oposto, dando as costas para ela.

— E se eu ensinar para suas... amigas? Servas? Namoradas? Escravas? Possuídas? Desencarnadas? Necromantadas?

— Clientes.

— Clientes?!

— Temos um acordo complicado.

A elfa balançou a cabeça para se livrar da confusão.

— Mas e se eu ensinar para as suas clientes? Várias mãos aplicando a mesma técnica não seria melhor do que apenas uma?

— Nesse ponto você tem razão, querida. Tudo bem. Vou com você até Dagon Fel e depois você ensina tudo o que sabe para todas as minhas clientes.

Devullian se contorceu todo e conseguiu se desvencilhar das correntes que o suspendiam. As mulheres continuaram paradas como zumbis.

— Por que sua torre está desprotegida? — perguntou a Bosmer.

— Não está — disse ele enquanto regenerava seus ferimentos.

— Não encontrei armadilha nenhuma até aqui.

— Você não as encontrou porque a torre deixou você entrar. E só deixou porque eu a encantei assim. Como pretende nos levar para Dagon Fel?

A Bosmer sorriu sem graça.

— Você é um mago... — comentou ela deixando a idéia no ar.

Devullian suspirou.

— O aniversário é meu. Não deveria ficar por minha conta.

— Mas é tão mais fácil! A não ser que você queira caminhar comigo por horas até Sadrith Mora, depois pegar um barco até Dagon Fel por mais 12 horas...

— Vamos de teleporte mesmo.

Assim que terminou de vestir seus acessórios, o mago segurou a mão da ladina e teleportou os dois para uma rua perto do centro de Dagon Fel. Ele tapou o rosto com a mão se protegendo do sol forte que atingia as pedras claras do chão e refletia em seus olhos que já estavam desacostumados do dia.

Kláxia arrastou o amigo até uma taberna perto dali. Ao contrário do que se poderia pensar, apesar de ser manhã, o local estava quase cheio de pessoas que não eram bêbados ou viajantes, mas idosos de todas as raças.

A Bosmer entregou os ingressos ao Orc que vigiava a entrada e arrastou o Dunmer para uma mesa aos fundos, de onde eles poderiam observar o salão todo.

Na parte da frente, um palanque estava arrumado com vários caixotes fechados em frente a uma cortina que ocultava algo atrás do palco.

Uma Nord de meia-idade subiu no palanque e anunciou:

— Bem-vindos ao Oitavo Bingo VIP de Dagon Fel!

Alguns idosos urraram de emoção como um viciado em skooma sofrendo de abstinência. Outros aproveitaram os gritos para tossir secreções suspeitas em paninhos que foram guardados novamente em seus bolsos.

O semblante de Devullian se deformou numa emoção difícil de descrever que poderia conter todos os piores sentimentos da existência.

Kláxia aplaudia discretamente, mas com um sorrisinho de criança que visita um zoológico pela primeira vez.

Devullian encarou a amiga por um longo tempo enquanto respirava fundo para refrear o ímpeto de reduzi-la a pó.

— Você me tirou da minha sessão de bondage para me trazer a um Bingo, querida?

— Isso é tãããão legal! A gente pode ganhar um monte de coisa!

— Tipo o quê?

— Não sei. Os prêmios são secretos.

O Dunmer ficou parado, incrédulo, pensando por alguns segundos.

— Isso quer dizer que a gente pode ganhar desde um inhame das cinzas até um bebê traficado pelo mercado negro?

A Bosmer parou por um momento para a analisar a situação sob a nova perspectiva.

— Isso. Mas pense pelo lado positivo, você poderia dar uma boa vida para esse bebê que foi arrancado dos pais tão cruelmente.

— Seria uma situação horrorosa, querida. Jura que você não parou para pensar nisso antes de comprar esses ingressos?

— Eu não comprei os ingressos — revelou ela com um sorrisinho sem graça.

— Ganhou em alguma aposta?

— Roubei de um bebum em Caldera.

— Ahn... Por quê?

— Estava entediada e o bolso dele estava no meu campo de visão.

— Você disse que tinha planejado isso desde o início do ano.

— Metade disso é verdade. Desde o início do ano que estou planejando de a gente fazer algo juntos. Só que até ontem eu não havia conseguido pensar em nada interessante.

Devullian massageou as têmporas, chamou um garçom e mandou trazer quantas garrafas de sujamma coubessem sobre a mesa.

— Se vou participar de um Bingo ilegal, que seja anestesiado.

Uma jovem Dunmer passou por todas as mesas entregando as cartelas com números e um lápis. A Bosmer rapidamente agarrou as cartelas e deu uma reboladinha de emoção na cadeira.

— Pode colocar um feitiço de sorte nessas cartelas? — perguntou ela aos sussurros.

— Não — respondeu Devullian e voltou a esvaziar as garrafas de sujamma.

— Então depois não reclama se a gente ganhar um bebê!

A Nord de meia-idade começou a sortear os números, e os idosos se alvoroçaram checando e rabiscando as cartelas.

Devullian se questionava por que simplesmente não se teleportava dali de volta para Tel Vampiris e suas clientes. Então lembrou-se do acordo com a Bosmer: ela ensinaria suas técnicas de tortura às clientes dele. Devullian esperava que aquele sacrifício valesse a pena.

— Ganhamos! — gritou a Bosmer de repente.

Todos os idosos a encararam com desprezo. A jovem Dunmer de outrora tirou a cartela sorteada da mão dela, conferiu, acenou para a Nord no palco e fez um gesto para que Kláxia a seguisse.

— Nossa primeira ganhadora — disse a Nord abrindo a tampa de um caixote. — O seu prêmio é...

Kláxia subiu no palco empolgada. Os idosos se esticaram para ver o que eles poderiam ter ganhado. A jovem Dunmer enfiou outra cartela na mão de Kláxia. Devullian chamou o garçom que renovou as garrafas de sujamma.

— Uma suculenta num vasinho! — anunciou a Nord.

Os idosos deram de ombros, pois já cultivavam muitas suculentas importadas de Ald’ruhn. Kláxia deu uns pulinhos de felicidade, era a primeira vez que era sorteada para receber algo que não era uma facada. Voltou para a mesa, colocou a suculenta entre as garrafas e sorriu para o amigo.

— Viu? Eu não te falei que seria legal?

— Só se for para você, querida.

— Não se preocupe, o próximo prêmio é seu!

Devullian resmungou entre um gole e outro, e o Bingo continuou. Vários outros idosos ganharam enquanto o Dunmer continuava se anestesiando com as sujammas.

Assim que sua bexiga encheu demais, ele foi ao banheiro. Quando voltou, Kláxia estava com o sorriso louco de antes. Enfiou a cartela na mão dele e gritou empurrando o mago para o meio do salão:

— Ganhamos de novo!

A jovem Dunmer conferiu a cartela e guiou Devullian até o palco.

— Muito bem — disse a Nord de meia-idade —, nossos itens menores acabaram. Agora vamos passar para os prêmios maiores — disse e entregou uma coleira para ele.

Devullian sorriu.

— Bom, isso eu poderia usar com minhas clientes...

— Ah, o senhor tem uma loja? — perguntou a Nord. — O Pimpolho será muito útil então! Ele é adestrado e inteligente. Sabe fazer um cafezinho e assar batatas! Chame ele.

Devullian encarou a mulher com um olhar embriagado e se perguntou se a sujamma já havia começado a afetar seus sentidos.

— Pimpolho — chamou a Nord —, venha conhecer seu novo mestre.

A coleira se mexeu e de trás da cortina surgiu um Scamp vestido como um burocrata Imperial, de calça comprida, blusa social com gravata borboleta, um colete azul escuro e uma cartola da mesma cor.

Os idosos rosnaram e xingaram baixo. Pimpolho era exatamente o que eles queriam! Mas o mago anti-social o ganhou. A sorte definitivamente não estava com eles.

Alguns encararam Devullian analisando se poderiam nocauteá-lo, mas desistiram depois de notar que ele usava um anel da Grande Casa Telvanni. Ninguém ali era louco pelo Pimpolho a esse ponto. Seria melhor se resignar e pedir aos deuses que algo similar ao Scamp adestrado também estivesse escondido atrás da cortina.

A jovem Dunmer empurrou Devullian e o Pimpolho de volta para a mesa e o entregou outra cartela. O mago se sentou encarando o Scamp que parecia ter saído de um desfile de moda em Cyrodiil e concordou que seria melhor evitar sujammas pelo resto da vida porque aquele sonho já havia passado dos limites.

Kláxia tomou a cartela da mão dele enquanto sorria animada.

— Eu te falei que ia ser legal! Agora você tem um pet adestrado! De graça! Todo mundo vai te invejar, Devullão!

Pela mente do mago só passou a cena da chacota que se tornaria entre os outros Telvannis. Therana e Dratha tomando chá e rindo dele. "Tão assustador e maléfico, tem um servo chamado Pimpolho que ele ganhou num Bingo!", diriam elas entre uma gargalhada e outra.

O Arquimagistrado, Neloth e Fyr numa sauna. "Eu tinha até um certo respeito por Devullian", diria um deles, "mas agora só me resta o desprezo. Um Bingo? Como um velho Imperial? Pff!". E os outros dois concordariam.

— Vamos embora — disse ele segurando o pulso da Bosmer com muita força.

— Minha nossa! — reclamou ela tentando se soltar em vão. — Pra que isso?

Assim que notou que iriam se teleportar, ela tratou de agarrar a suculenta e o Scamp.

O último som que ouviram foi o gemido de consternação dos idosos.

Apareceram no saguão da torre em Tel Vampiris. Devullian se jogou numa poltrona e logo um servo apareceu lhe trazendo um chá. O Scamp pediu desculpas numa língua enrolada enquanto passava mal com o teleporte, quase vomitou sobre o tapete preto.

— Você bebeu muito — disse a Bosmer. — Mas pelo menos o evento valeu pelos prêmios!

— Nós temos um acordo — disse Devullian já se sentindo melhor com o chá. — Deixe seu conhecimento aqui e leve o Scamp.

— Jamais tirarei Pimpolho de você! É a cara do pai!

As mãos do mago brilharam levemente numa cor alaranjada.

— Venho visitar nosso filho todos os meses — disse ela segurando uma risada. — Posso lhe pagar uma pensão alimentícia se precisar.

— Se a pensão for uma sessão de bondage por mês, posso pensar no seu caso.

— O caso não é meu, querido. Pense em nosso filho! — falou como uma atriz de novela hammerfelliana e apontou para a criatura.

O Scamp se agachou para descansar um pouco. Seus olhos tentavam se acostumar com a escuridão.

— Não vou cuidar dele, querida.

Kláxia pensou por um momento e disse:

— Existia um aparelho de tortura na sede da Irmandade em Mournhold. Posso arranjar um jeito de trazer para você, se você criar o nosso Pimpolhinho. Além disso, mantenho minha parte do nosso acordo prévio.

— Como era esse aparelho? — perguntou interessado.

— Você só vai saber se aceitar criar o Pimpolho. Virei visitar todos os meses.

Devullian encarou o Scamp que agora, sob a escuridão, parecia um palhaço deformado. Não seria tão difícil criar um pet scamp que já viera adestrado. Só precisaria de uns feitiços de vigilância caso a criatura soubesse mais que sua aparência transparecia. Mas isso também não seria um problema pois a torre era encantada e inteligente. Além disso, possuía servos vivos e mortos.

— Tudo bem, querida. Seu conhecimento pelo Bingo, e o aparelho pelo Scamp.

Os dois apertaram as mãos e seguiram para a masmorra onde Kláxia desenhou em vários papéis, para as clientes, as torturas que aprendera em seus tempos de assassina na Irmandade Negra.

Em seguida se despediu de Devullian com a promessa de que lhe traria o tal aparelho.

4 de Last Seed – 3E 424

Kláxia vestiu o colar encantado com resistência total a vampirismo, também guardou no bolso uma poção de cura para a doença e pegou o pergaminho de teleporte que Devullian enviara junto com o convite para a festa. Do lado de fora, dois mercenários Orc já aguardavam com a cadeira de tortura que ela roubou da sede da Irmandade Sombria como havia prometido ao mago no aniversário do ano anterior.

Ela se aproximou dos Orcs e recitou as palavras do pergaminho. Os três foram transportados para o lado de fora de uma caverna na Montanha Vermelha. O chão tremia com o som da música alta que subia abafado do interior. O céu vespertino estava nublado, mas sem prenúncio de tempestade.

Na entrada, um cartaz avisava: "Peça permissão antes de morder".

— Se tem placa, tem história — comentou um dos Orcs.

— Eu é que não entro aí — disse o outro indo embora.

Kláxia encarou as unhas disfarçadamente enquanto falava:

— Entra sim. Tanto entra que vai levar essa cadeira e colocar aos pés do aniversariante. E vai fazer isso porque eu sei em qual acampamento você vive e quem entra na sua tenda na calada da noite e sai antes do amanhecer.

O primeiro Orc encarou o segundo com desconfiança. O medroso voltou com uma careta de ódio e ajudou o primeiro a carregar a cadeira.

Os três entraram e foram recebidos por uma explosão sensorial de Raw Black Metal, luzes vermelhas, lufadas de ar quente e odores alcoólicos, metálicos, frutais, florais e corporais também.

Seguiram pelo corredor até a primeira câmara onde uma banda tocava para uma multidão que se chocava uns contra os outros numa aparente dança tribal. Mulheres Dunmers vestidas com roupas pretas justas e adornadas com enfeites de espinhos metálicos rebolavam sensualmente dentro de gaiolas penduradas no teto.

Kláxia deu um pulo e se agarrou em uma das gaiolas para tentar avistar Devullian, mas o mago não estava ali. Um estranho homem carmesim com dois pares de chifres a encarou da gaiola ao lado e ergueu uma caneca num cumprimento. A elfa o ignorou e pulou no chão. Os três então se espremeram por entre a multidão seguindo para a próxima câmara.

Uma banda tocava mais baixo para que as pessoas nas mesas e nos bares pudessem conversar. De longe, ela avistou Fjorn bebendo com o estranho homem carmim no bar.

— Aposto que você não consegue beber Cama de Seda — disse o chifrudo para o Nord enquanto lhe empurrava uma mistura de conhaque cirodiílico e flin.

O guerreiro riu.

— Em Skyrim, quando eu era piá, meu pai fazia a gente tomar hidromel com ovo cru e sangue de urso pra gente crescer forte! Isso aí é fichinha.

E tomou em um único gole todo o conteúdo.

— Muito bem — disse o homem vermelho. — Algo um pouco mais forte, então. Que tal Coma Profundo, uma combinação perigosa de sujamma, greef, mazte e shein?

Assim que Fjorn pegou a caneca, uma Nord vampira seminua se aproximou dele.

— Oi, bonitão. Posso morder esse seu braço forte?

— Só se tu quiser perder os dentes, madame.

A vampira fez uma careta e saiu em busca de outra vítima. O guerreiro bebeu tudo de uma vez e, por mais que fosse resistente, seu corpo sentiu um pouco quando a bebida chegou no sangue. Uma leve tontura o acometeu por uns segundos.

— Bah, até que é boa, mas é fraquinha.

O homem sorriu.

— Uma surpresa então.

Kláxia se aproximou do Nord.

— Fjorn, viu Devullian?

— Falei com ele tem umas horas.

— E cadê ele?

— Tá com umas sanguessugas por aí.

Kláxia respirou fundo e saiu. Ao longe, ela ouviu o homem vermelho dizer:

— Morte Súbita. Uma combinação do Coma Profundo com conhaque Dagoth e com uma bebida muito comum entre os Khajiit. Prove.

Na câmara seguinte, apenas dois bardos tocavam baixo para que as pessoas também pudessem conversar. No palco ao centro, mulheres e homens Dunmers faziam um show sensual com pouca roupa.

Kláxia viu Augustus, já um pouco alterado, sentado num sofá num canto conversando com o homem vermelho e foi até lá.

— Não tem diferença, tudo é de comer — disse o homem chifrudo.

— É claro que tem diferença — retrucou Augustus. — Bolos levam líquen vermelho para fermentação, e pães levam levedura de hypha facia.

— E se colocar levedura de hypha facia no bolo?

Uma jovem vampira Breton chegou mais rápido e se jogou ao lado do Imperial.

— Você é tão cheiroso... Posso chupar seu sangue um pouquinho?

Augustus levantou a manga e ofereceu o braço.

— Só um pouco, senhorita, pois vou precisar desse sangue depois. — E para o estranho homem vermelho: — Como eu estava dizendo, se você colocar levedura de hypha facia na massa, será um pão e não um bolo!

— Pão, bolo... É tudo a mesma coisa.

— Com todo o respeito, meu senhor, o senhor nunca saiu de Vvardenfell, então não sabe que bolo é bolo e pão é pão.

— Bolo de pão — comentou o homem sobre a iguaria feita com restos de pão.

Augustus o encarou com sangue nos olhos. O homem sorriu.

— Pois bem, se é briga que o senhor quer, então é briga que o senhor vai ter.

O Imperial empurrou a vampira sobre o sofá, levantou-se um pouco cambaleante, arregaçou as mangas, ergueu os punhos, mostrou o esquerdo e com uma voz enrolada disse:

— Este é o Castrador. — Mostrou o direito e continuou: — E este é o Arrombador. Qual dos dois o senhor quer tomar primeiro?

— Augustus! — chamou Kláxia.

— Estou ocupado — disse sem olhar para a elfa.

— Você viu Devullian?

— Tá por aí. Agora, meu equivocado senhor, levante-se e permita-me dar-lhe uma boa sova.

Kláxia afastou-se abrindo caminho por entre a multidão que assistia ao show. O túnel para a câmara seguinte se dividia em cinco caminhos totalmente escuros.

— Ô, dona, a gente não pode deixar isso aqui e ir embora não? — perguntou o primeiro Orc.

— É, esse lugar é maligno — comentou o segundo olhando vultos imaginários.

— Um, eu paguei pra que vocês deixassem a cadeira aos pés dele. Dois, se forem embora antes de cumprirem o acordo, eu vou contar pra todos os acampamentos que vocês são dois bundas-moles cagões que tem medinho de escuro. Vocês serão renegados pra sempre.

Os dois Orcs rosnaram e seguraram firmemente a cadeira enquanto a elfa se decidia por qual caminho seguir. Analisando a entrada de cada uma das passagens ela notou que apenas uma continha resquícios do uso de magia e instrumentos mágicos. Deduziu que se houvessem armadilhas, já haviam sido desarmadas por alguém que passara por ali antes. Por precaução, pegou algumas pedras e arremessou para dentro do túnel. Como suspeitara, pelo ruído, elas se chocaram contra alguns objetos de metal e outras pedras, mas nada além disso aconteceu.

— É por aqui, venham.

Os dois Orcs hesitaram um pouco antes de segui-la. A Bosmer parou no meio do corredor e os encarou irritada, mas eles não conseguiam vê-la por causa da escuridão.

— Minha paciência não é infinita.

Os dois a seguiram. Caminharam bastante até chegarem a um salão sem música, mas com muitos gritos. No centro, em cima de um palco, alguns Dunmers eram açoitados por mulheres Argonianas totalmente nuas. A princípio Kláxia achou que estavam sendo castigados, mas quando um deles deixou escapar um pedido para que uma das Argonianas o açoitasse com mais força, a ladina entendeu que não deveria demorar muito ali.

Deu uma olhada na câmara que continha várias camas ao redor do palco, e avistou Devullian esparramado numa delas abraçado com várias Dunmers e falando com alguém vestido numa armadura daédrica que estava de pé e de costas.

Numa cama ao lado estava o estranho homem vermelho. Pimpolho, o scamp, aguardava quieto perto de um abajur vestido com seu terno com gravata borboleta e uma cartola.

— Isso ainda vai sair do controle — disse uma voz conhecida na armadura daédrica.

— Eu apenas proporcionei a liberdade — disse Devullian. — Como cada um vai usá-la não é da minha conta. E nem da sua, Telvarys.

— Estou avisando como amigo. Nós dois já passamos por muita coisa.

— Aprecio o gesto, mas é desnecessário. Ninguém aqui é menor de idade.

— Finalmente! — gritou a elfa. — Meus parabéns ao mago mais controverso de toda Morrowind, rivalizando até com o próprio Fyr que se clonou e casou consigo mesmo na forma de filhas, se eu me lembro bem dessa maluquice... Te desejo mais anos de vida que o próprio Fyr! E aqui está o presente que eu prometi ano passado.

Ela fez um gesto para os Orcs que deixaram a enorme cadeira ao lado da cama e saíram correndo.

— A cadeira de tortura usada pela Irmandade Sombria. Absolutamente não me responsabilizo por quem quer que venha tentar pegar de volta. Divirta-se!

— Que bom que cumpriu sua parte no acordo, querida. Assim eu não preciso ter trabalho de retalhar o scamp.

— A propósito, vou levá-lo de volta. Preciso de um assistente.

— É todo seu.

— Pimpolho, vem com a mamãe.

O scamp caminhou até ela e lhe entregou sua coleira.

— Você ainda mantém nosso filho assim? Como se fosse um bicho?

— Ele nunca reclamou.

— Pobrezinho — disse ela retirando a coleira dele. — Você é bonzinho, não é? Vai se comportar direitinho, não vai?

O scamp tirou o chapéu e a cumprimentou.

— Bom, eu já vou indo — disse Telvarys. — Passei só pra dar os parabéns. Tem muita coisa pra resolver em Tel Aruhn.

— Que os deuses lhe acompanhem, meu amigo — disse Devullian.

— A sua imunidade a festas me fascina — disse o homem vermelho para o arquimagistrado. — E me aborrece também.

— Entre na fila, Sanguine — respondeu o Altmer.

— Sanguine?! — gritou Kláxia dando um pulo.

As paredes tremeram com a gargalhada do Daedric Prince.

— E quanto a você, Bosmer, admiro sua obstinação para cumprir uma missão, mas também não gosto que ignore toda essa diversão ao seu redor.

— Já me diverti muito mandando algumas almas para o Oblivion — disse ela. — Você já deve ter recebido algumas.

— Oh, sim. Mas a diversão está aqui, em Nirn. Juntem-se a nós.

Conhecendo a fama de Sanguine, Kláxia e Telvarys se entreolharam. A Bosmer perguntou:

— Nós temos permissão para sair?

O Daedra Prince sorriu.

— Esta festa muito me satisfaz, então vou deixar que vocês saiam. Além disso, seus dois amigos me divertiram o suficiente.

— O que você fez com eles? — perguntou Telvarys.

Sanguine sorriu.

— Saiam antes que eu mude de idéia.

Telvarys teleportou os três para a entrada.

— Você procura Augustus — disse ele. — Eu vou atrás de Fjorn. Nos encontramos aqui.

Junto com Pimpolho, Kláxia foi até a câmara onde havia visto o Imperial pela última vez e o encontrou desmaiado, com profundas olheiras e uma palidez sinistra. Com a ajuda do scamp, arrastou-o com grande dificuldade pelas câmaras até a entrada.

— Fjorn bebeu muito, mas vai ficar bem — disse o arquimagistrado checando os sinais vitais do Nord também desmaiado.

— Nossa! Augustus tá muito pesado! — reclamou a elfa soltando o Imperial e se escorando na parede para recuperar as forças. — É essa comilança toda.

— Não é não.

O mago fez um gesto como se enxotasse um inseto. O efeito camaleônico desapareceu revelando a jovem Breton com os dentes cravados na coxa do Imperial.

— Saia de perto dele agora ou vou decorar o corredor com suas vísceras — disse o arquimagistrado apontando um dedo de onde saíam fagulhas elétricas.

A vampira se levantou com cara de poucos amigos e desafiou-o.

— Se fizer isso, vai ter que se entender com Devullian.

— Conheço ele há mais tempo do que você existe. Isso não será problema.

Resignada, a vampira fez uma careta e voltou para a festa.

— Vampirismo — disse o mago examinando o amigo.

— Eu tenho uma poção pra isso.

— Dê a ele.

Kláxia administrou a poção no Imperial e tapou-lhe o nariz para que ele engolisse. Augustus tossiu um pouco e em alguns minutos recuperou sua aparência normal apesar da ressaca.

— Tem como você nos deixar em Balmora? — perguntou a elfa.

— Sem problemas.

Telvarys teleportou a elfa e o scamp para a grande cidade, deixou Augustus aos cuidados do Culto Imperial em Ebonheart, e administrou uma poção em Fjorn para que o Nord acordasse antes de devolvê-lo à sua família. Por fim voltou a Tel Aruhn onde suas obrigações o aguardavam.

Já Devullian só reapareceu depois de alguns meses. Dizem os boatos que o mago e um homem vermelho foram os únicos sobreviventes da festa.

Sono Interrompido – Parte 1

Kláxia observava a chuva naquela tarde de verão, deitada na rede da varanda de sua casa, numa ilha a oeste de Seyda Neen. Não havia ninguém num raio de 500km e isso a relaxava de uma maneira quase proibida. A espuma, que levantava no mar assim que as gotas atingiam a água, desaparecia no ar com uma explosão molhada conforme outras gotas a acertavam. O som do bombardeio aquático a deixava sonolenta, como se voltasse a habitar um útero divino que a protegia dos males terrenos.

No entanto, como tudo que é bom acaba, seu sossego foi perturbado pelo ladino que brotou do ar bem na sua frente.

— Você é muito difícil de achar! — reclamou o Bosmer enquanto se recuperava do teleporte apoiando-se na pilastra e respirando fundo.

— Pelo visto, não o suficiente.

Faldrien deu uma gargalhada longa e exagerada. Só parou quando estava prestes a tossir.

— Rodei pelos Telvannis até encontrar um que aceitasse me mandar pra cá. E ainda tive que prometer favores.

— É porque eu avisei que destruiria todos os experimentos deles se mandassem alguém pra me perturbar.

Faldrien riu exageradamente de novo e se sentou na bancada que cercava a varanda.

— Como eu estava com saudade desse seu bom humor.

— Que é inexistente.

— Nah, não seja tão ranzinza consigo mesma. Seu espírito é muito jovial e todo mundo gosta de você.

Kláxia o encarou com um desdém tão forte que as rugas na testa quase atravessaram o crânio. Instintivamente ela tocou a cicatriz no tórax que Govarys lhe causara décadas antes.

— Tá com algum contrato nas costas? — perguntou ela.

— Eu? Que isso! Me dou bem com todo mundo — comentou com um sorriso quase angelical.

— O que você quer, Faldrien?

— Eu? Nada! Estava com saudades da minha amiga e quis visitar. Não posso?

— Não. Se eu quisesse visitas, teria convidado.

— Deixa disso, minha amiga. Todo mundo gosta de ter companhia.

— Você subestima meu tempo de serviço a Nocturnal.

— Essa louca não tá com nada! A moda agora é Molag Bal, tá todo mundo seguindo.

Kláxia recolheu suas rugas de desdém e apertou os olhos com desconfiança.

— Como diriam meus anciões, eu não sou todo mundo.

Faldrien riu forçadamente de novo, mas dessa vez durou pouco. Talvez até ele próprio já estivesse perdendo a paciência.

— Ah, mas de vez em quando é bom seguir umas modas, deixar a vida nos levar, aproveitar qualquer oportunidade que aparecer...

— Oportunidade de quê?

— Por exemplo, de fazer uma grana extra.

— Passo. Tenho dinheiro mais que suficiente.

Faldrien riu, mas de nervoso.

— Mas grana fácil assim, você nunca mais verá.

— Um, não existe grana fácil. Dois, não existe grana fácil. Três, não existe grana fácil.

— Com esse seu mindset tão low assim, me admira que tenha tantos assets. Nem a melhor das networkings agüenta um overload por tanto tempo.

Os globos oculares da elfa reviraram com tanta força nas órbitas que quase produziram eletricidade.

— Fale com Augustus, talvez ele esteja interessado.

Faldrien deu uma risada irritada.

— Ele vai querer cobrar impostos.

— Ah. Uma grana extra fácil e que não paga imposto. Nem na Guilda era assim. Sempre tinha, pelo menos, uma taxa de operação.

— Minha amiga, é por isso que tô te falando que esse negócio é muito bom. Não tem imposto e nem taxa nenhuma.

— Então por que você não faz isso?

— Mas eu já fiz! Ganhei uma nota preta!

— E por que veio compartilhar comigo ao invés de ficar quieto e fazer mais notas pretas?

— Porque você é minha amiga, viemos de Vallenwood e já pertencemos à mesma Guilda. Somos farinha do mesmo saco.

— Discordo quanto à farinha. Estou mais pra cinzas de ossos.

Faldrien forçou tanto a risada que acabou soando como deboche.

— E estou começando a discordar quanto à amizade — completou ela.

Faldrien esticou os lábios para sorrir, mas acabou apenas mostrando os dentes numa careta.

— Tá vendo? Esse seu bom humor pode lhe render muito mais do que rendeu pra mim!

— Passo de novo. Não preciso de mais dinheiro.

— Quanto você tem?

— Mais ou menos 1 milhão de drakes.

Faldrien riu e tossiu ao mesmo tempo.

— Se você investir isso tudo, vai receber 5 vezes mais!

— Meu dinheiro já está investido. Não sou louca de guardar uma quantia dessas debaixo do colchão.

— Mas não está investido nesse negócio que rende cinco vezes mais.

— Não está, e não preciso desse rendimento todo.

— Mas quem não ia querer ganhar cinco vezes o que já tem?

— Eu não quero.

Faldrien se levantou, esfregou o rosto, respirou fundo, andou de um lado para o outro na varanda e então a encarou.

— Em quê você investiu seu dinheiro?

— Mercadores.

— Quanto eles te pagam de interest?

— De que?

— De juros. Quanto é o juros?

— Nenhum. O dinheiro só circula e eu retiro com eles quando quiser. Possuem guardas que eu não pago, e produtos com os quais eu não me importo. Assim tenho dinheiro sempre que eu quiser, em qualquer lugar de Morrowind sem me preocupar com ladrões.

— O benefício não vale a pena. Você está perdendo dinheiro.

— Não mesmo.

— É claro que está! Poderia ter 5 milhões, mas está se apegando a 1!

— Deixar de ganhar é diferente de perder.

— Todo dinheiro que a gente deixa de ganhar, a gente está perdendo, porque sempre existe um gasto futuro.

— Se o gasto é futuro, então ele não existe.

— Esquece a semântica! Pensa que você pode ficar mais rica do que é agora!

— Não preciso.

— Claro, não precisa, mas pode e deveria!

— Na sua cabeça.

— Na minha e na de todo mundo.

— Que "todo mundo" é esse com quem você tá se metendo, Faldrien?

O elfo olhou para o céu que já prenunciava a noite.

— Está ficando escuro. Não podemos conversar lá dentro? Que tal você me oferecer uma bebida?

Irritada, Kláxia se levantou e os dois entraram. Na sala de estar, havia um barzinho num canto com sujamma, shein, mazte, greef, flin, conhaque cirodiílico, conhaque vintage, conhaque dagoth, skooma, cerveja e hidromel. Os dois últimos de Skyrim. Do outro lado, uma escrivaninha onde ela escrevia cartas e seu diário. Sobre um papel descansava seu selo de metal. Faldrien olhou de relance para o objeto enquanto entrava atrás da anfitriã.

Kláxia acendeu os braseiros deixando a sala bastante iluminada. Indicou uma das duas poltronas no centro para que o Bosmer se sentasse, parou em frente ao bar e pegou uma caneca.

— Vai querer o quê?

— Skooma.

Kláxia serviu o drink. Faldrien sorveu num único gole e pediu outro. A elfa o encarou irritada e preparou o segundo. O Bosmer bebeu de uma vez e pediu mais um. Ela bufou e preparou o terceiro. Ele engoliu tão rápido quanto os anteriores e pediu o quarto.

— Já chega, né?

Faldrien sorriu como uma criança que tenta se fazer de fofinha.

— Mais unzinho, por favor — pediu com as mãos juntas.

Ela respirou fundo, caminhou até o bar e ouviu um barulho de móvel quebrando e porta batendo. Num único movimento, deixou a louça cair, agarrou suas adagas e virou-se. Faldrien não estava mais na sala. Sua escrivaninha estava fora do lugar e o selo havia sumido.

— Maldito elfo desgraçado! — rosnou com toda a sua raiva. — Seu destino me pertence agora, Faldrien Alvalorn!

Ela sabia que ele iria falsificar cartas em seu nome e passar por todos os mercadores retirando o dinheiro dela. Ele poderia ir tanto para o norte seguindo por Balmora, ou pelo Sullon passando por Vivec e Ebonheart. No entanto, esta última via o levaria para território Telvanni onde poderia ficar encurralado pelos amigos em comum. Seria melhor seguir por Balmora para o norte e depois pagar alguém para resgatar o dinheiro das cidades do sul. Kláxia então optou por seguir para o Sullon e resgatar alguma coisa antes que o ladino mandasse alguém.

Ela também sabia que seu dinheiro estava praticamente todo perdido. Contudo, precisava de somente 30 mil drakes...

... Para contratar a Irmandade Sombria.

Sono Interrompido – Parte 2 (final)

Na manhã do dia seguinte, Kláxia vestiu sua armadura de couro completa, pegou suas duas adagas de vidro mais afiadas, algumas poções e venenos, o pouco dinheiro que tinha, uma algibeira de couro impermeável com seu diário dentro, e foi de canoa para Seyda Neen. De lá, pagou um silt strider para Vivec e foi direto conversar com Baissa, a Khajiit mercadora com quem tinha contrato.

— Então a Bosmer quer os 2 mil drakes que ela deixou investido com Baissa. Khajiit precisa de algumas horas para coletar todas as moedas. Talvez fosse melhor a Bosmer levar os 2 mil em mercadoria?

— Pra aonde eu vou só se lida com dinheiro vivo.

— Baissa vai fazer o que pode. Espere sentada ou vá passear.

— Eu espero. — E se sentou num banco em frente à barraca da Khajiit.

Seis horas depois, a mercadora voltou com uma sacola de pano cheia de moedas.

— Aí está. A Bosmer pode contar se quiser.

Kláxia agradeceu e passou uma meia hora contando. Constatando que estava tudo certo, pagou uma gôndola para Ebonheart e foi conversar com Agning, um taberneiro.

— Quatro mil drakes? Isso vai demorar algumas horas, Kláxia.

— Não tem problema, eu espero.

— Não quer alugar um quarto e comer alguma coisa?

A elfa aceitou, não ia gastar tanto assim e podia usar do pouco que trouxera consigo de sua casa. Além disso, estava com fome e queria cochilar antes de ir para Suran.

Mais rápido do que a Khajiit, o Nord bateu na porta umas três horas depois levando uma sacola de pano com as moedas. Sentou-se numa cadeira e pediu para ela contar na frente dele. Estava tudo certo. Kláxia agradeceu, pegou suas coisas, pagou uma gôndola de volta para Vivec e de lá pagou um silt strider para Suran.

Chegou no cair da noite e foi para a Casa das Delícias Terrenas da Desele.

— Não somos uma taberna. Se quiser um quarto, vai ter que pagar pela companhia.

Kláxia sorriu cansada e perguntou se uma tal de Roxanny ainda trabalhava lá. Desele confirmou e chamou a moça. Os seios desceram as escadas primeiro e depois a Breton apareceu. Realmente os boatos estavam certos. A elfa sorriu sem graça e pagou pela noite toda com a dançarina.

Chegando no quarto, a Bosmer explicou que precisava dormir, pois tinha uns negócios para tratar de manhã cedo. A moça fez uma careta de desaprovação, mas como sua comissão havia sido paga, acabou dando de ombros.

— Pode ser de conchinha? Pelo menos pra termos o que fazer — pediu Roxanny.

— Tudo bem — respondeu a elfa meio sem jeito.

As duas deitaram na cama de lado e Kláxia abraçou a dançarina. Suas sacolas de pano estavam bem protegidas dentro do torso da armadura na parte da frente. Parecia que a elfa era mais dotada do que realmente era.

Assim que os pássaros começaram a cantar, a Bosmer acordou, verificou se todos os seus pertences ainda estavam intocados e dirigiu-se para o mercado de Suran.

Passou em quatro mercadores e pediu a retirada de 6 mil drakes de cada um. Ficou quase o dia todo sentada à beira do lago debaixo de uma árvore aguardando.

À tarde, eles a chamaram para conferir as quantias. Como estava tudo certo, Kláxia pagou uma refeição e comprou uma tocha com o que lhe sobrara e seguiu durante a noite para Ald Sotha.

Chegou à meia-noite e apagou a tocha. Esperou até que seus olhos acostumassem com a escuridão e esgueirou-se até a entrada das ruínas que ficava submersa. Mergulhou e nadou alguns metros. Meia dúzia de slaughterfish morderam sua armadura e ficaram agarrados. Ela atravessou o portal da ruína e alcançou alguns degraus saindo da água. Matou os slaughterfish que estavam em sua armadura e jogou as carcaças de volta na água. O cheiro do sangue atraiu dezenas deles que devoraram a carne em segundos. A Bosmer ficou parada em silêncio na entrada apenas ouvindo os ruídos do interior.

No primeiro andar havia pelo menos cinco pessoas a julgar pelo barulho das botas e um falatório baixo; no segundo andar havia quatro pessoas ou entidades corpóreas; mas no último andar ela não conseguiu ouvir direito.

Kláxia guardou suas adagas e pegou a sacola de pano com 2 mil drakes. Caminhou lentamente até o centro do primeiro piso. Um Dremora a avistou e deu o alarme. Ela correu para a sala de onde tinha ouvido o falatório. Dois cultistas correram em sua direção com armas em punho. Ela desviou dos dois, escalou uma das pilatras, sacudiu a sacola com as moedas e gritou que tinha um contrato para a Irmandade Sombria e que precisava falar com Severa Magia.

Os cultistas desdenharam da quantidade de dinheiro e continuaram com uma postura hostil, mas não tentaram atacá-la no topo da pilastra. Os Dremoras também resolveram aguardar.

— Falem com ela, com Severa Magia. Eu tenho um contrato pra Irmandade e tenho muito mais dinheiro comigo, no meu corpo.

— Nada nos impede de matá-la e ficar com o dinheiro — disse um dos cultistas.

— Eu avisei a algumas pessoas que ia pagar um contrato — mentiu. — Vai ser interessante ver a reputação da Irmandade Sombria despencar quando potenciais contratantes souberem que são vítimas de latrocínio pelos membros. A Morag Tong vai tomar conta de tudo e vocês serão escorraçados de Morrowind. A Guilda dos Ladrões terá uma reputação melhor que a de vocês.

Um terceiro cultista havia acabado de chegar e cochichou com os outros dois por uns minutos.

— Desça daí, vamos levá-la até Magia — respondeu o primeiro.

— E quanto a eles? — fez um gesto em direção aos Dremoras.

— Eles vão fazer o que fizermos. Se você aprontar, eles vão te destroçar.

Kláxia deu um sorriso debochado e desceu da pilastra. Guardou a sacola de pano dentro da armadura e caminhou lentamente até os três cultistas. O primeiro seguiu na frente, os outros dois atrás, e os Dremoras voltaram para a sala central.

Os quatro desceram alguns lances de escada e chegaram ao segundo piso onde mais dois Dremoras acompanhavam Severa Magia.

O salão estava iluminado com poucos braseiros, deixando o ambiente mais escuro do que precisava. Perto de um deles, havia um colchonete no chão, uma mesa com uma cadeira, um baú pequeno, alguns objetos pessoais e uma garrafa de conhaque dagoth.

Os dois Dremoras se aproximaram com lanças em punho, mas aguardaram por algum sinal de hostilidade.

— Esta elfa diz que tem um contrato para a Irmandade — disse o cultista que liderou o grupo.

A Matrona Noturna se aproximou e examinou a Bosmer de cima a baixo.

— Kláxia Baalivantrar.

— Severa Magia.

— Cara de pau, no mínimo.

— Necessidade, na verdade.

— Desertora.

— Cliente agora. O mundo dá voltas.

Severa a encarou como se tentasse ler sua alma. Por fim, decidiu que estava mais curiosa pela proposta do que com raiva o suficiente para vingar a Irmandade.

— Contrato? — perguntou andando em direção à mesa e se sentando para terminar de beber seu conhaque dagoth.

— Faldrien Alvalorn, Bosmer de Vallenwood, Mestre da Guilda dos Ladrões.

Os cultistas se entreolharam, mas não era incomum colocar contratos em líderes de facções.

— Suponho que você tenha dinheiro.

— Trinta mil drakes.

Severa sorriu.

— Pela importância do contrato e pelo valor disponível, nós podemos mandar um Exterminador por vez até que o alvo seja executado. Mas não podemos mandar todos os Assassinos de uma vez, como aconteceu num contrato há muitos anos. Portanto, você pode demorar pra receber a notícia.

Kláxia sorriu.

— Ou ele morre, ou vive para sempre sendo atormentado por assassinos em suas noites de sono. Perfeito.

— Mais alguma coisa? — perguntou Severa.

— Sim. Quero acrescentar um detalhe.

A Matrona Noturna sorriu aguardando. A elfa continuou.

— Quero receber a cabeça e as duas mãos dele num mesmo pacote.

— Razoável. Só isso?

— Sim.

— Um, você estará protegida de uma perseguição da Irmandade apenas enquanto o contrato estiver aberto. Dois, se você morrer pelas mãos de outrem ou pelas do alvo, nós ainda vamos executar o contrato. Três, não cancelamos contratos. Quatro, se outro contratante marcou o mesmo alvo antes que você, a prioridade na evidência de execução é dele. Cinco, não roubamos um alvo e não somos correio, se precisar recuperar um item, contrate a Guilda dos Ladrões.

— Conheço as regras e concordo com elas.

— Estamos de acordo então?

— Sim.

Kláxia tirou todas as sacolas de pano da armadura e colocou sobre a mesa. Severa fez um gesto para que os cultistas contassem. Depois de quase uma hora, eles confirmaram que havia 30 mil drakes.

Severa tirou do baú folhas de papel em branco, tinta, pena, cera e um selo. Redigiu 3 contratos: um que ficaria com ela, um igual com Kláxia e um terceiro sem o nome da elfa que seria entregue para um subalterno da Irmandade. Mostrou os três para a Bosmer ler e depois os selou. A ladina guardou o seu dentro da algibeira de couro impermeável.

Severa Magia se levantou com o conhaque na mão, posicionou-se na frente do braseiro, e falou em voz alta para o além:

— Que nosso Pavoroso Pai, Padomay, o Criador Original, seja testemunha do contrato que agora jaz sobre o Bosmer de Vallenwood e Mestre da Guilda dos Ladrões, Faldrien Alvalorn! Que sua alma seja recebida no Vazio absoluto da existência. Hail, Sithis!

— Hail, Sithis! — disseram os cultistas em coro seguidos pela elfa.

Severa derramou um pouco de conhaque no fogo fazendo a chama aumentar e estalar.

— Pode ir agora.

Kláxia saiu sem dizer nada e seguiu viagem a pé para as terras Telvanni.

Chá Natalino 🎄 – 3E 424

Kláxia chegou a Tel Vampiris pela manhã. O céu estava nublado e o clima abafado. Alguns empregados varriam o chão, tiravam o lixo, cuidavam do jardim e transportavam alguns animais para a caverna da vila.

Ela se aproximou de um dos guardas e pediu para ser anunciada a Devullian. Depois de uns minutos, o mago veio recebê-la.

— Por que não entrou logo, querida? Pra que essa formalidade toda?

— Eu não avisei que vinha.

— E por que veio? Não estou reclamando, apenas curioso.

— É fim de ano, vim tomar um chá com você e colocar as fofocas em dia.

Devullian sorriu e chamou-a para entrar. Na sala de visitas, mandou alguns empregados prepararem uma mesa de chá. Mesmo com vários braseiros e tochas acesas, o local era escuro por conta da decoração preta e vermelha que o mago tanto gostava. O cômodo no interior do cogumelo gigante era arredondado, com quatro sofás vermelhos ao redor de uma mesinha de centro preta. Algumas plantas erguiam-se dos vasos, outras se espalhavam pelas paredes e algumas escorriam do teto. Quase não dava para ver as flores coloridas por causa do escuro da decoração.

Devullian sentou-se em um sofá e Kláxia no outro ao lado dele.

— E o Pimpolho? — perguntou o mago.

— Está ajudando uma amiga curandeira.

O mago sorriu sabendo que tinha mais alguma coisa que ela queria contar, algo mais importante. Os empregados serviram uma mesa de chá farta com quase todos os tipos de guloseimas. Devullian serviu chá para a Bosmer e preparou o seu.

— E aí, como estão as coisas? — perguntou ele.

— Faldrien roubou meu selo.

Devullian a encarou espantado por um segundo.

— E por que você não o esquartejou, querida?

— O miserável tomou 3 skoomas, quando eu vi, já tinha sumido.

— Ele entornou 3 skoomas na sua frente e você não achou nem um pouco suspeito?

— Fui eu que servi as skoomas...

— Ele te pediu 3 doses de skooma e você não suspeitou de nada?

— Não. Eu só queria que ele fosse embora.

— Tortura tá aí é pra isso.

— Eu tava tranqüila na minha rede, Devullian, não tava pensando em violência...

— Vai fazer o que agora?

— Já paguei um contrato pra ele na Irmandade. Qualquer resquício de amizade acabou.

— É o mínimo.

— Mas gastei meu dinheiro todo nisso, e como Faldrien roubou o restante, agora vou ter que voltar a trabalhar.

— Faz parte.

— Estou cogitando aprender magia pra colocar um feitiço de invisibilidade nas coisas importantes. Faldrien sabe onde eu moro e eu não quero ter que me mudar. Mas a Guilda dos Magos cobra alguns rins pelas aulas.

— Por que não pediu a Telvarys? Vai ser muito melhor aprender magia na Telvanni do que naquela Guilda de palhaços de festa infantil.

— Não tenho mais contato com ele.

— Vocês brigaram?

— Não sei o que aconteceu direito. Parece que foi tudo coisa da minha cabeça, um grande delírio.

Devullian deu uma gargalhada que Kláxia nunca havia ouvido antes. Pensava até que o mago fosse incapaz de rir.

— Não vai me dizer que você se apaixonou feito uma adolescente?

Kláxia rosnou.

— Achei que depois de adulta essas coisas não aconteciam mais — reclamou ela.

— Você se apaixonou, ele te deu um fora e você ficou com dor de cotovelo ouvindo aquelas músicas cafonas de Cyrodiil?

— Antes fosse. Na verdade foi pior.

— O que houve? — perguntou e começou a preparar bem lentamente o lanche para que desse tempo de montar e comer até que ela terminasse de contar a história toda.

Kláxia apoiou a xícara no colo e encarou o vazio.

— Foi uma paixão que veio do nada. Eu não estava esperando por isso. Guardei pra mim pois já havia tido problemas antes, com Govarys — disse e tocou a cicatriz no tórax. — Não sei dizer como, mas um dia ele me pediu em casamento.

— Telvarys? Telvarys te pediu em casamento? — perguntou incrédulo.

— É. Eu cheguei à conclusão de que tudo aquilo foi um delírio meu. Nada aconteceu de verdade, eu deveria estar sob efeito da skooma.

— E o que aconteceu?

— Eu aceitei. Estava feliz. Não. Feliz não. Estava eufórica. Agitada. Entusiasmada. E então as coisas degringolaram.

— Como?

Ela respirou fundo bem devagar juntando as peças que compunham o quadro do passado.

— Era só eu que iniciava as conversas, era só eu que tinha assunto, era só eu que procurava coisas interessantes pra compartilhar com ele, que me virava do avesso pra contar piadas e fazê-lo rir, que inventava assuntos só pra ter o que conversar com ele. Mas ele nunca investiu um fiapo do que eu investi. Ele nunca iniciava as conversas, ele nunca tinha assunto, ele nunca procurava coisas que talvez eu achasse interessante pra compartilhar comigo, ele nunca se esforçou pra me fazer rir, ele nunca inventou pretextos só pra poder ficar conversando comigo. Nada. Ele nunca investiu naquele pseudo-relacionamento. E quando eu reclamava, ele ficava irritado, e era eu que tinha que pedir desculpas por querer ter a atenção dele, nunca foi ele a me pedir desculpas pela indiferença e pela falta de responsabilidade afetiva na mini-relação. Não fui eu que o pedi em casamento. Não fui eu que dei falsas esperanças. Não fui eu que alimentei a ilusão. Meu erro foi ter acreditado nele. Foi ter insistido pra ser tratada com alguma consideração por uma pessoa que só dizia o que dizia por tédio ou diversão. Talvez pra se sentir melhor com o próprio ego. Às minhas custas.

Ela parou pra respirar e tomar um gole de chá. Devullian mastigava interessado.

— Pra testar se eu estava louca, fiquei umas semanas sem entrar em contato. Ele só apareceu pra falar comigo num feriado pra me desejar felicidades como se eu fosse uma conhecida qualquer. Eu me aborreci, reclamei e ele achou ruim. Veio passivo-agressivamente dizer "te mandei um oi, desculpa se não foi suficiente pra ti". Meu sangue ferveu, Devullian.

— Também pudera, né.

— Me afastei dele. Só que eu não agüentei muito tempo e voltei me rastejando e me humilhando por ele. É claro que ele ficou muito satisfeito. Mas eu não estava mais eufórica e entusiasmada. Não. Eu estava triste, infeliz e cansada. Não estava gostando daquele arranjo. Só ele ficava com a parte boa da micro-relação que era receber atenção total, ter os sentimentos dele levados em consideração o tempo todo, decidir me ignorar quando eu não estava o agradando, ser entretido sempre que quisesse, e receber conforto emocional sem nunca precisar retribuir. Enquanto eu só ficava com o lado ruim da relação: todas as responsabilidades e nenhuma recompensa. Era como se eu fosse uma escrava afetiva, um cachorro que ele estava adestrando. Eu desmoronei, lógico, ninguém agüentaria uma nano-relação dessas por muito tempo. Mas teve uma outra coisa que contribuiu para minha ruína psicológica...

— O quê? — perguntou Devullian já preparando um segundo lanche.

— Há muito tempo eu tive um casal de amigos Bretons, Sebainsten e Antonnia Amellose, do qual me afastei por discussões bobas com ele e porque ela estava ficando cada vez mais difícil de conviver.

— Como assim?

— Ela tinha mania de perseguição. Eu sempre me desdobrava para dar atenção a ela, mas se eu demorasse um minuto que fosse, por qualquer motivo, ela reclamava que eu não gostava mais dela, que estava conspirando contra ela junto com o irmão (que ela sempre detestou), que eu estava diferente, que eu não era a mesma de antes e mil e uma observações sem pé nem cabeça. Bastava que eu me ausentasse para ir ao banheiro que as reclamações começavam. Eu nunca nem ousei ficar uma semana sem falar com ela. Só que isso foi me desgastando. Antes, nos primeiros 10 anos de amizade, eu achava tudo muito divertido e engraçado, mas depois eu fui cansando...

— Agüentou muito, querida e ainda foi simpática.

— Quando as discussões com o Sebainsten começaram, eu resolvi me afastar dos dois. Muitos anos se passaram, senti saudades e fui procurá-la. Ela foi bastante agressiva comigo, disse que não tinha amigos e que era pra eu ir embora. Insisti, disse pra ela que apesar de tudo, eu ainda gostava dela e queria que fosse feliz. Ela não acreditou, me acusou de falsidade e mentira, mas continuei insistindo porque percebi que ela não estava bem. Aos poucos ela me aceitou de volta, mas ainda bastante agressiva. Em um determinado momento, ela me disse "assim que meus pets morrerem, eu vou me matar, já tenho tudo planejado".

Devullian soltou um ruído de espanto.

— E o que você fez?

— Na hora, eu congelei. Depois, pesquisando em alguns livros, vi que deveria contar a um parente próximo que ela tinha planos de suicídio. Engoli meu orgulho e fui atrás do Sebainsten. Não usei a palavra "suicídio", mas deixei subentendido que ela poderia machucar a si mesma. Foi então que ele me contou o que eu não esperava.

— O quê? — perguntou Devullian preparando um terceiro lanche só de doces.

— Sebainsten contou que há muito tempo ela vinha piorando e que nada do que ele fazia dava jeito. Que toda vez que ele tentava convencê-la a procurar um mago, ela ficava muito agressiva e fazia da vida dele um inferno. Deu a entender que ela o agredia fisicamente. Contou que ela saiu do emprego porque alegava que os colegas ficavam rindo dela pelas costas e que todo mundo a odiava. Ele havia conhecido todos do trabalho, e eles gostavam dela. Era tudo paranóia. Disse que gostaria que ela voltasse a falar com o irmão e a amiga de infância, mas que ela dizia que os dois estavam tramando contra ela. E então contou que ele próprio já havia tentado se matar duas vezes e fazia tratamento com um mago. Eu fiquei me sentindo mal, pois não sabia de nada daquilo. Pedi desculpas por aborrecê-lo, contei que não guardava rancores das discussões, e ele disse que também não guardava rancor. Passou-se alguns dias, Antonnia veio falar comigo cheia de ódio.

Kláxia parou pra beber um pouco do chá pois já estava ficando rouca.

— Disse quase espumando de raiva "você não tinha que ter falado nada pro Sebainsten! Você sabe que ele tem o mesmo problema que eu e foi se meter num assunto que não é da sua conta! Muito ridícula você, reaparecer depois desse tempo todo, depois de ter brigado com ele por babaquice sua, pra vir se meter na nossa vida fingindo que se preocupa! Eu não quero ajuda, se quisesse, teria pedido! E você, fique de boca caladinha e bem longe do Sebainsten, não vai contar nada disso pra ele, ele já tá passando mal, se ele se matar, a culpa vai ser sua!".

Um silêncio mórbido preencheu a torre, nem os insetos se atreveram a dar demonstrações de vitalidade. Quase num sussurro, Kláxia continuou:

— Eu entrei em pânico. Contatei o Sebainsten e pedi desculpas por atormentá-lo com aquele assunto e disse que se precisasse de alguém pra conversar, eu estava ali. Ele agradeceu, disse que eu não precisava me preocupar porque eu havia feito a coisa certa. Isso não me tranqüilizou. Eu fiquei 3 dias passando mal de tanto chorar, me sentindo culpada de ter ido colocar ainda mais peso nas costas dele. Quando eu melhorei um pouco, queria uma opinião de alguém de fora da situação, então fui falar com Telvarys. O que eu não sabia é que ele tinha ouvido um comentário que eu havia feito uns dias antes sobre estar sofrendo uma desilusão amorosa. Então antes que eu pudesse contar o que havia acontecido, Telvarys me disse que estava tudo acabado porque ele não queria ficar se aborrecendo comigo.

— Tsk, tsk, tsk...

— Meu mundo desabou, Devullian.

— Era de se esperar, querida.

— Eu estava esgotada, não tinha forças pra mais nada, então eu larguei tudo e voltei pra minha ilha perto de Seyda Neen e fiquei por lá uns 3 meses. É claro que, antes de eu ir embora, eu tive que me desculpar com o princesinho do arquimagistrado, porque a responsabilidade nunca foi igualitária. Ele sempre agiu como se fosse um santo, como se sempre estivesse certo, como se todos os males da microscópica relação fossem causados única e exclusivamente por mim. Como se a imaturidade, irresponsabilidade, falta de compromisso e consideração da parte dele, e o ego gigantesco não tivessem contribuído para esse estrago todo. Mas é claro que, pra ele, eu sou a vilã, eu não fui compreensiva o suficiente, eu não pensei no lado dele--

Kláxia se interrompeu para gargalhar da própria desgraça.

— ... Eu não tive empatia por ele, eu não tive consideração pelos sentimentos dele...

Ela riu de novo.

— ... Enfim, eu sozinha fui uma monstra na vida dele pior do que Molag Bal e Mehrunes Dagon juntos. Pobre São Telvarys, tão injustiçado, tão maltratado, tão escorraçado pela vilanesca Bosmer que agia como um cachorro caramelo...

Ela jogou a mão na testa e virou a cabeça para trás como as atrizes hammerfellianas faziam.

— Ó, céus! Ó, vida! Pobre São Telvarys! Que a justiça seja feita e um raio caia sobre a minha cabeça!

Os dois se calaram para ouvir, mas nenhum raio caiu. Eles riram.

— Que drama cirodiílico, querida. Mas você melhorou, não é?

— Eu passei esses últimos dois anos esperando que magicamente Telvarys fosse reconhecer a parte dele na catástrofe do milimétrico relacionamento e vir me procurar dizendo que pensou muito a respeito de tudo, que reconhecia suas más atitudes, que estaria disposto a melhorar e consertar seus erros, que me desculpava e que também me pedia desculpas, e se poderíamos pelo menos voltar a ser amigos, mas ainda bem que eu não fiquei esperando em pé. O princeso ainda deve estar achando que sou eu que tenho o dever de me arrastar até ele como um cadáver reanimado, sem um pingo de amor-próprio, implorando pelo perdão dele e pra voltar a servi-lo como uma escrava argoniana. Mas eu aproveitei esse tempo todo pra pensar no que eu realmente quero da minha vida, e cheguei à conclusão que eu quero alguém igual a mim. Que esteja disposto a me dar tudo o que eu dei a ele e não foi o suficiente. Que faça por mim tudo o que eu fiz por ele. Que se esforce por mim como eu me esforcei por ele. Nós dois sabemos que ele nunca será essa pessoa, porque ele vai continuar agindo como um moleque mimado que quer todas as recompensas de um relacionamento sem nenhum trabalho ou aborrecimento. E não existe nada nesse mundo que só tenha lado bom e nenhum lado ruim. Foi por isso que eu nunca fui atrás dele e nem vou. Já fiz demais.

Devullian assentiu com a cabeça enquanto tomava um chá para ajudar na digestão.

— O que ainda me deixa com muita raiva é que toda essa catástrofe emocional não teve propósito nenhum. Eu nunca tive valor pra ele. Isso tudo foi só um passatempo porque ele estava entediado e com o ego ferido por causa da ex. Assim que eu fui embora, ele já arranjou outras pra ficarem orbitando ele. Eu fui apenas uma gota num oceano de gente insignificante.

— Ah. Oi. Terminou? — disse Devullian para uma figura sombria na porta atrás de Kláxia.

A elfa se virou para cumprimentar o visitante e deu de cara com o Dunmer.

— Oi — disse ela.

— Oi — respondeu ele.

— Sullon e eu estamos trabalhando num experimento — disse Devullian tentando explicar o clima constrangedor. — Terminou?

— Não.

Kláxia virou pra frente sem ter o que dizer.

— Está com fome? — perguntou Devullian.

— Não.

— Venha comer — ordenou o anfitrião.

Sullon obedeceu e se sentou na poltrona de frente para Kláxia. Ela permaneceu de cabeça baixa encarando a xícara de chá no colo. Devullian preparou um lanche e entregou ao Nerevarine.

— Vou buscar mais biscoitos — disse o anfitrião já saindo.

— Tudo bem? — perguntou a elfa.

— Sim — respondeu entre uma mordida e outra.

— E a vida, como vai?

— Movimentada.

Ela ficou em silêncio bebendo o restante do chá. Os ruídos de digestão eram a única coisa que se ouvia. Mesmo monossilábico, o Dunmer a encarava como se estivesse aguardando para dar o bote. Já a Bosmer, evitava encará-lo.

— Você tá com raiva de mim? — perguntou ela sem olhar para ele.

Sullon riu com desdém.

— Houve um momento na minha vida em que eu sofri muito por você — disse. — Porque você era uma das pessoas mais importantes pra mim. Só que depois desses anos todos, eu aprendi a viver sem você. E agora--

— Eu sou só uma gota num oceano? — perguntou ela interrompendo e encarando-o nos olhos.

— Nem isso — disse rindo um tanto irritado. — Desculpa, mas eu nem lembro mais que você existe. Muita coisa tem acontecido na minha vida e não tem mais espaço pra você.

Ela sorriu conformada.

— Eu evaporei.

— Muitas vezes.

Ela assentiu com um sorriso de quem assume a própria culpa.

— Não tenho raiva de você, Sullon, acho que nunca tive, nem mesmo nos momentos de crise. Eu só acho que nós dois nunca fomos compatíveis mesmo. Esperávamos coisas diferentes das nossas naturezas. Eu esperava de você o que só eu podia me dar, e você esperava de mim o que só você podia se dar. E nenhum dos dois nunca soube o que era essa coisa que o outro queria. Não ajudou que você falava demais, mas nunca o que realmente precisava ser dito. E também não ajudou que eu desaparecia sempre que deveria dizer alguma coisa.

— Se é o que você acha.

— O que seria então, se não isso?

— Nada.

Sabendo que ele sempre falava e explicava demais, a elfa constatou:

— Você está com raiva de mim.

— Aí seria dar muita importância pra algo insignificante.

Ela parou para pensar por um momento, para tentar entender aquela situação pelo ponto de vista dele, algo que nunca lhe pareceu possível.

— Então você acha que eu não ter raiva de você significa que você é insignificante pra mim?

— Você foi embora.

— Não fui embora por raiva e nem por achar que você seria insignificante. Não acho. Eu fui embora porque havia muitas vozes na minha cabeça falando ao mesmo tempo, e como você falava demais, eu não conseguia mais pensar. Precisava ficar sozinha.

Ele riu irritado.

— Podia ter avisado.

— E você teria me deixado em paz?

— Não.

Ela o encarou irritada.

— Vai começar...

— Ninguém deveria ficar sozinho, é horrível — disse ele.

— Existem muitos momentos em que eu preciso ficar sozinha.

— Uma meia-hora já tá bom.

— Não pra mim. Às vezes as coisas levam meses pra fazer sentido.

— E por que elas têm que fazer sentido? Só deixa as coisas pra lá do jeito delas.

— Não posso. Eu preciso entender pra assimilar e seguir adiante. Não posso deixar as coisas voando na minha cabeça como um enxame numa colméia.

— Por que não? Abelhas são legais.

Kláxia suspirou irritada.

— Eram essas bobeiras que me cansavam...

Sullon se irritou.

— Você quer falar sério? Tá bom. Vou falar sério. Você não pode entrar na vida das pessoas, ser legal com elas e depois ir embora tentando carregar tudo com você. Uma parte sua sempre vai ficar com as pessoas, e a outra parte vai fazer falta, como um deficiente físico. Tá, a analogia não foi boa, mas você entendeu.

Kláxia respirou fundo pensando em como explicar o que sentia.

— Eu acho que as pessoas vão parar de pensar em mim no momento em que eu desaparecer. E se continuarem lembrando, eu acho que elas vão esquecer em pouco tempo. Eu realmente acredito nisso, é uma crença muito profunda. A idéia de alguém sentir a minha falta é um conceito irreal. E não é por baixa auto-estima ou coisa assim não, é porque eu não consigo mesmo conceber esse sentimento de falta. Como alguém poderia sentir a minha falta? Por que sentiria? Não faz sentido pra mim.

— Você não sente falta das pessoas? Saudade?

— Sinto, mas passa, porque tem que passar. A saudade é como o luto, a dor diminui com o passar do tempo, porque tem que diminuir. Se não diminuir, a pessoa enlouquece. E eu gasto muita energia pra não enlouquecer. Então as coisas que eu sei que vão me atrapalhar, como saudade, luto ou alguma outra dor, eu guardo num baú e enterro. Às vezes, como zumbis, elas saem de baixo da terra e me atacam. Aí eu tenho que desaparecer mais alguns meses pra devolver os defuntos sentimentais pros seus túmulos. E mais alguns meses entendendo como e por que eles saíram.

— Eu não guardo e não enterro nada, deixo eles fazerem o que quiserem.

— Não consigo viver assim — disse ela. — As coisas precisam estar organizadas, cada pensamento, cada sentimento no seu devido lugar. Não consigo viver com o enxame psicológico orbitando a minha cabeça.

— Mas você já tentou deixar eles soltos?

Kláxia sorriu um pouco desdenhosa.

— Não posso.

Sullon a encarou com uma expressão triste, mas resignado, como se aceitasse as coisas como elas eram.

— O que você quer fazer agora? — perguntou ele.

— Não sei.

Devullian entrou na sala carregando uma bandeja de biscoitos.

— Finalmente ficaram prontos — disse o mago e colocou sobre a mesa. — Estão fresquinhos, saíram do forno agora.

— Obrigada pela refeição, Devullian — disse Kláxia. — Mas preciso ir agora.

— Já? Mas nem chegou direito. Fique mais um pouco, querida.

— Não posso, tenho que procurar trabalho.

— Mercenária? — perguntou Devullian.

— Não. Vou entrar pra Guilda dos Magos.

Os dois magos fizeram uma careta.

— Como eu disse, seria melhor se você entrasse pra Telvanni, mas você não vai fazer isso mesmo...

— Abandonou Telvarys — disse Sullon, e diante do olhar perplexo da elfa, acrescentou: — Fiquei sabendo.

Kláxia colocou a xícara em cima da mesa e se levantou.

— Bem... Bom final de ano pra vocês. — E para Devullian: — Ano que vem eu passo aqui, com Pimpolho. Ele quer visitar.

— Venha sim, querida. Vou ficar esperando.

Ela olhou para Sullon.

— Tchau.

— Tchau.

Um empregado acompanhou a ladina até a porta e de lá ela foi para Sadrith Mora para se alistar na Guilda dos Magos.

A forma do medo – Parte 1

— E por que você quer fazer parte da Guilda dos Magos? — perguntou o Argoniano, Skink.

— Honestamente? Preciso aprender magia e não tenho dinheiro. As aulas por fora são caras — respondeu Kláxia.

O Argoniano respirou fundo um pouco decepcionado.

— E por que você precisa aprender magia? Está fugindo de alguém? Vai nos causar problemas?

— Uma pessoa roubou um item da minha casa. Infelizmente trancas e cadeados não vão impedi-lo de tentar de novo. E eu não quero ter que me mudar.

Skink assentiu como se aquela resposta fosse suficiente.

— Muito bem, Kláxia, seja bem-vinda à Guilda dos Magos. Antes de se especializar em alguma escola, a gente requer que você se familiarize com a rotina da Guilda. Infelizmente não estamos com nenhum membro disponível pra te orientar aqui em Wolverine Hall, então vou ter que te mandar pra Caldera. Ernand Thierry é alquimista e está precisando de aprendizes.

— Eu sei alquimia.

— Mostre a ele então.

Kláxia deu de ombros conformada. Tudo tinha um preço. Com sorte conseguiria terminar a etapa de familiarização rápido e prosseguir para aprender outras escolas. Assinou os papéis de admissão e foi teleportada para Caldera.

O Breton a encarou de cima a baixo com um olhar de desdém.

— Você? Você sabe alquimia?

— Sim — respondeu a Bosmer com as mãos na cintura, também com desdém.

— Que especialização?

— Venenos.

— Ah! — exprimiu Ernand com um sorriso condescendente. — Ninguém compra venenos por aqui. Só poções de amor.

— Sei ótimos paralisantes.

Ernand a encarou como se ela tivesse chegado de outro mundo. Em seguida pegou um grosso livro de sua estante e colocou na frente dela.

— Vá estudar, aprenda poções de amor e depois volte aqui. Seu quarto fica no porão, primeira porta à esquerda.

Kláxia suspirou resignada, desceu as escadas, entrou em seu novo cubículo onde mal cabia uma cama e uma mesinha de cabeceira, sentou-se e começou a folhear o livro.

A maior parte das poções consistia em modificar a percepção do alvo para que visse o cliente de uma forma diferente e envolviam a coleta de partes do corpo como cabelo, unhas, sangue ou saliva. Outros serviam para que qualquer pessoa visse o cliente como charmoso e interessante. Uns poucos serviam para aumentar o desejo carnal de alguém. E apenas dois causavam um efeito zumbificante no alvo.

Kláxia bufou entediada. Utilizou os equipamentos da guilda e preparou algumas poções. Levou para Ernand que jogou tudo fora, disse que eram horríveis e entregou outros livros para ela. A Bosmer respirou fundo e passou uma semana trancafiada no cubículo estudando.

Novamente ela preparou algumas poções de acordo com as receitas dos livros, mas de novo Ernand detestou todas. Kláxia perdeu a paciência do seu jeito. Sorriu e disse que iria se dedicar mais.

À noite, quando todos estavam dormindo, ela preparou várias poções paralisantes e planejou substituir todos os líquidos dos frascos já prontos, mas não precisou se dar ao trabalho porque pela manhã Ernand disse que precisava visitar alguns clientes e ordenou que a Bosmer tomasse conta da loja.

Uma Redguard elegante e beirando a terceira idade entrou discretamente.

— Bom dia. O que deseja? — perguntou a Bosmer.

A mulher sorriu sem graça e sussurrou.

— Estou tendo alguns problemas com meu marido...

— Que problemas?

— Ele quer me largar...

— E a senhora quer que ele não te deixe, é isso?

A mulher sorriu sem graça e assentiu. Kláxia também sorriu, mas de um jeito maléfico.

— Eu tenho a solução perfeita para a senhora. Só um momento.

Foi até seu cubículo e pegou um dos frascos de poção paralisante.

— Aqui está. Misture com a janta dele. São 500 drakes.

A mulher a encarou espantada com o preço, mas logo colocou o dinheiro sobre o balcão, pegou o frasco e foi embora. Algumas horas depois, uma Imperial chegou.

— Bom dia, Ernand está?

— Não, saiu pra atender algumas pessoas. Posso ajudar?

A mulher suspirou cansada.

— Meu filho pequeno... É difícil, viu? Ele apronta o dia inteiro. Já quebrou quase todos os meus vasos com flores, quebrou uma vidraça, derrubou uma estante... Não importa quantos brinquedos a gente compre pra ele, o menino não sossega um minuto!

Kláxia sorriu sinistramente de novo.

— Eu tenho a solução pra senhora.

Voltou do cubículo com um outro frasco de poção paralisante e a entregou.

— Seu filho vai ficar mansinho como um guar recém-nascido. São 800 drakes.

Sem pestanejar, a mulher entregou o dinheiro, agradeceu efusivamente pela solução mágica e saiu às pressas. Não muito tempo depois, um jovem Nord chegou meio atrapalhado e nervoso, esbarrando na mobília e tropeçando no carpete.

— Em que posso ajudar?

— Me disseram que era um homem que trabalhava aqui.

— E qual é a diferença? — perguntou a Bosmer sem entender a confusão dele.

— É um assunto particular.

Alguns segundos se passaram até que ela entendeu a natureza do problema.

— Fica tranqüilo que eu já vi essas coisas muito mais vezes do que você já fez aniversário, rapaz. Agora desembucha. É alguma mancha? Algum cheiro estranho? Quer interromper a gravidez de alguma moça?

O rapaz gaguejou um pouco e desviou o olhar.

— Não, senhora. É que... é... é tudo muito rápido, entende?

— Hummmm! Entendo. Espere um minuto.

Ela foi até seu cubículo e voltou com um dos frascos.

— Quando você e a mulher estiverem naquela situação, você vai deitar de barriga pra cima e deixar ela montar em você. Aí você toma isso aqui e deixa acontecer. Entendido?

— Sim, senhora.

— Não tome antes, não vai funcionar.

— Entendido, senhora.

— São 100 drakes.

O rapaz contou cada uma das suas moedas com muito pesar, pegou a poção e foi embora. Perto do fim do dia, uma mulher Breton usando um vestido floral, ornamentada com muitas pedras naturais e cheirando a incenso de olíbano adentrou a loja.

— Boa tarde, me disseram para procurar o Ernand.

— Ele saiu. Posso ajudar?

— Sabe o que é, eu preciso meditar para realinhar meus vórtices energéticos, mas eu tenho dificuldade de ficar parada por muito tempo. Só de pensar em parar já me dá agonia. Eu cresci numa comunidade nômade. Nós vivíamos das apresentações artísticas que fazíamos nas cidades por onde passávamos. Desde pequena eu fazia de tudo. Era dançarina, tocava, cantava, bordava, tricotava, costurava, cozinhava, lavava, limpava... Enfim. Era uma vida muito feliz, sabe? Difícil, mas feliz. Aí, um dia, eu me apaixonei por um Orc, veja você, e--

Kláxia respirou fundo para não socar a mulher, sorriu e a interrompeu falando num tom alto, quase como um grito:

— Eu tenho o que a senhora precisa. Me dê um minuto.

Voltou do cubículo com um frasco.

— Assim que a senhorita se deitar para meditar, é só tomar um gole e pronto. Vai conseguir meditar por bastante tempo. São 1000 drakes.

— Oh! Uma solução milagrosa! Por que eu não vim aqui antes? Oh, pelos deuses, esse tempo todo sofrendo e--

— São 1000 drakes, senhorita — disse interrompendo a mulher de novo.

— Claro, claro.

A mulher revirou sua bolsa, entregou o dinheiro e guardou o frasco.

— Que os deuses lhe abençoem, Bosmer. Voltarei aqui se gostar do resultado.

Kláxia começou a rir, mas conseguiu conter a risada pela metade.

— Volte sim, senhorita. Tenha uma boa tarde.

Não demorou até que Ernand voltasse.

— Alguém veio me procurar?

— Nada importante não — respondeu disfarçando.

— Como assim "nada importante"? É óbvio que é importante! Quem veio me procurar?

— Não deram nomes. Disseram que voltariam depois.

— Mas quem? Imperiais? Khajit? Dunmers? Ricos? Pobres?

— Não prestei atenção.

— Não prestou atenção? É por isso que suas poções são horríveis! Me admira que tenha conseguido trabalhar tanto tempo em alguma guilda! Mas não me admira que não tenha permanecido em nenhuma delas! É cada uma que Skink me manda! Não é a primeira vez que aquele Argoniano me manda um troglodita. Não sei o que ele tem contra mim!

O Breton pegou outro livro da estante e a entregou.

— Vá pro seu quarto e estude isso aqui. Não quero ver a sua cara enquanto você não conseguir fazer uma poção de glamour minimamente decente. Agora vai! Vai, vai, vai!

Kláxia passou os dois dias seguintes em seu quarto alimentando-se de pão velho e cerveja, estudando os tomos que Ernand lhe entregara. Ela sabia sobre aquilo tudo, só não tinha paciência para aquele tipo de trabalho. Depois de viver uma vida altamente perigosa por muitos anos, o comum lhe era banal demais. Talvez pudesse roubar alguns livros sobre ilusão, conjuração e alteração e estudar sozinha.

Ernand esmurrou a porta do quarto.

— Kláxia, saia já daí e venha aqui agora!

Ela saiu do quarto e o encontrou na loja com alguns papéis na mão.

— Você sabe o que é isso?

— Papel.

Ele rosnou irritado.

— Sabe o que tá escrito aqui?

— Palavras.

— Registros! Dos seus absurdos! Você está arruinando a Guilda dos Magos! A senhora Kemanna Bestha pediu uma poção pra que o marido não abandonasse ela, e você deu um paralisante!

— Como ele vai abandonar a mulher se estiver paralisado?

— A senhora Javolea Ottiel pediu uma poção pra que o filho pequeno parasse de fazer bagunça em casa. E você deu um paralisante!

— Como a criança vai destruir a casa se estiver paralisada?

— O jovem senhor Fannolf Flauta-Dura pediu uma poção pra curar a ejaculação precoce... E de novo você deu um paralisante!

— Como ele vai gozar rápido se estiver paralisado?

— A última foi de uma moça que se queixava de dificuldade pra meditar porque não conseguia ficar muito tempo parada. E adivinhe só! VOCÊ DEU UM PARALISANTE!

— Ah, por favor, essa daí era óbvio, né.

— A reputação da Guilda, há séculos imaculada, agora carrega uma mancha horrorosa por sua causa!

— O marido não foi embora, a criança não destruiu a casa, o jovem não gozou e a moça teve muito tempo pra meditar. Onde o senhor vê derrota, eu só vejo sucesso. 😎

Com a mão no rosto e sacudindo a cabeça negativamente, Ernand resmungou:

— Não, não, não, não. Skink não vai fazer isso comigo não! — e olhando para ela, acrescentou: — Vá embora ainda hoje. Vá pra Balmora, Vivec, Akavir, sei lá! Mas vá pra bem longe daqui!

Kláxia pegou seu único pertence, a algibeira com seu diário e o contrato da Irmandade, e foi teleportada para a guilda de Vivec.

A Bosmer pediu informações sobre onde ou com quem poderia estudar e lhe mandaram conversar com Malven Romori. A Dunmer explicou que a guilda estava com falta de oraculistas, um serviço muito procurado pelas pessoas de baixa classe social, mas que mesmo assim rendia um bom dinheiro para a guilda.

— Leia todos — disse a Dunmer apontando para uma estante cheia de livros. — Seu quarto fica no fim do corredor, última porta à direita.

Kláxia pegou todos os livros que conseguiu carregar e foi para seu quarto, que era maior do que o cubículo em Caldera. Os livros ensinavam sobre como ler as cartas, borra de café e chá, as estrelas e interpretar eventos na vida de uma pessoa através do seu signo de nascimento.

Após um mês de dedicação total aos estudos, Malven decidiu testar a Bosmer e pediu que ela fizesse uma leitura das cartas para o futuro da guilda de Vivec. Kláxia contou que se tudo seguisse o curso natural, um espião seria desmascarado e a guilda teria um novo arquimago.

— Ah... Ranis comentou sobre isso comigo — disse Malven. — Ela suspeita que haja um espião na Guilda. Achei que fosse paranóia dela, mas talvez seja verdade... Quanto a um novo arquimago, não vou me importar com isso agora. No mais, muito bem, Kláxia, acho que você já pode começar a atender clientes.

A Dunmer colocou um aviso do lado de fora da guilda sobre serviços oraculares e logo apareceram novos clientes. Kláxia os atendia durante o dia inteiro. A princípio, tinha achado a nova função exótica e interessante, mas depois de um mês já estava totalmente entediada com as mesmas perguntas de sempre.

— Meu ex-marido vai voltar para mim?

— Meu ex-namorado ainda me ama?

— Quais são os sentimentos dele por mim?

— Ele vai me pedir em casamento?

— Meu marido está me traindo?

— Minha melhor amiga está apaixonada pelo meu noivo?

— Com quem eu vou me casar?

— Quantos filhos eu vou ter?

— Como eu vou morrer?

— Vou ficar rico?

Apesar de tudo, a Bosmer era sincera e falava o que ela via. Não era sua culpa que as respostas não eram o que os clientes queriam ouvir. Então não tardou em se acumularem reclamações sobre o serviço oracular da guilda fazendo a clientela diminuir.

— Kláxia, você não pode falar a verdade desse jeito — comentou Malven com muito mais paciência do que Ernand. — As pessoas vêm aqui procurando um conforto para suas dores e não a verdade nua e crua.

Kláxia assentiu e decidiu usar outra tática: mentia para todos os clientes dizendo tudo o que queriam ouvir, de um jeito bem dramático como só ela conseguia ter.

Não demorou para que as reclamações de previsões incorretas chovessem nos ouvidos de Malven Romori e os boicotes aos serviços da Guilda começassem.

— Kláxia, o que você estava pensando? Não pode mentir dessa forma! Isso vai acabar com a reputação da Guilda!

— Se eu não posso falar a verdade e nem mentir, eu vou fazer o quê? Latir?

— Você deve caminhar como uma bailarina entre a verdade e a omissão da verdade.

— Não sei dançar.

— Talvez o seu problema seja o fato de que você não é maga e nunca será — disse Malven finalmente sem paciência. — Com essa sua atitude deplorável, talvez tenha mais sorte sendo uma Telvanni.

— Não sou bem quista em território Telvanni.

— Sinto muito, mas você também não é bem quista na Guilda dos Magos — disse e em seguida sentenciou: — Você está excomungada. Pegue suas coisas e vá embora.

Kláxia voltou derrotada para sua ilha. Sentou-se em sua rede na varanda e pensou sobre roubar alguns livros de magia, mas estava tão chateada com aquela experiência que simplesmente desistiu de decidir qualquer coisa naquele momento.

Oh, estava indo tão bem! Vai desistir por quê? Só por causa de alguns tropeços?, disse uma voz desencorporada.

Kláxia deu um pulo da rede.

— Quem é você? O que está fazendo na minha cabeça?

Não estou na sua cabeça, mocinha. Sua mente é que está mais sutil e agora percebe os espíritos.

— Minha mente está sutil? O que isso significa?

Décadas de serviço a Nocturnal tiveram um preço. Se passar muito tempo tentando ser uma sombra, sua mente se adapta às novas circunstâncias e se sutiliza para facilitar a transição do plano terreno para o éter, respondeu a voz.

— Você é um espírito?

Sim, um dragão.

Kláxia olhou para o céu.

Oh, não. Não estou no seu mundo. Vivo no éter com outros dragões e seres.

— Mente sutil... Nocturnal... Eu me transformei numa morta-viva?

De jeito nenhum. Você agora é uma limiante. Aquela que vive entre os planos da existência.

— Há quanto tempo você me observa?

Faz bastante tempo.

— Por quê?

A existência no éter é muito entediante.

— E os outros?

Eles observam outros mortais, outras esferas de existência ou apenas dormem até serem chamados novamente.

— O que você quer comigo?

Nós dois podemos ganhar algo com essa interação. Posso te ensinar magia e você pode me entreter.

— Você sabe magia?

Nós, dragões, sabemos muito sobre magia.

— Ilusão? Conjuração? Alteração?

E outras escolas que vocês mortais nem imaginam.

— Qual seu nome?

Lokdrahzul.

— Muito bem, Lokdrahzul, temos um trato então?

Temos um trato, Kláxia.

— Quer dizer então que agora eu tenho o meu próprio dragão? — perguntou entusiasmada. — Todo mundo vai ficar com inveja de mim!

Não. Eu é que tenho uma Bosmer. E ninguém aqui está impressionado, respondeu Lokdrahzul.

— Mas e agora? O que faremos?

Primeiro você deve descobrir qual é o seu objetivo em aprender magia.

— Quero impedir futuros roubos na minha casa e, se possível, futuras invasões.

Muito bem. O próximo passo é listar quais são suas habilidades natas, assim saberemos com quais escolas você estará alinhada e, portanto, quais terá facilidade em aprender.

— Bom, eu faço venenos, sou furtiva, consigo matar qualquer um com qualquer objeto, consigo destrancar qualquer tranca física, consigo assustar as pessoas com alguns truques, consigo ouvir e diferenciar sons a uma distância considerável, e consigo desaparecer. Esse último é minha especialidade.

Considerando o que você quer e o que sabe fazer, sugiro as escolas de Ilusão e Alteração primeiro. Depois Misticismo e por último Conjuração.

— O que eu posso fazer de interessante com elas?

Muitas coisas. Inclusive, depois que dominar as escolas individualmente, você pode combiná-las para criar feitiços poderosíssimos.

— Parece legal. O que eu tenho que fazer primeiro?

Manipulação energética. É impossível fazer magia sem dominar isso. Mas o primeiro tópico dentro do capítulo Manipulação Energética é a Essência. Tudo o que existe possui algum tipo de essência, uma energia sutil ou densa dependendo da natureza do seu portador. Às vezes as pessoas chamam isso de espírito.

— Sutil. Você disse que minha mente estava assim.

Sim. A energia sutil é mais leve, delicada, difícil de perceber. Ao passo que a energia densa é pesada e grosseira, fácil de perceber mesmo para quem nunca mexeu com magia.

— E como eu faço pra perceber as energias?

Você precisa se concentrar na intensão de sentir a essência de algo. Pode ser uma planta, uma pedra, uma concha, um sapo, qualquer coisa. Sente-se confortavelmente, segure o objeto ou animal suavemente, feche os olhos e concentre-se em perceber qual sensação isso lhe passa. É quente? Frio? Áspero? Liso? Estático? Pulsante? Vibratório? Causa alguma emoção estranha como medo, nojo, tranqüilidade ou qualquer outra emoção? Que sentimento toma conta de você quando o segura? Sente que é algo bom, mal ou neutro? Você gosta ou desgosta disso?

— Entendi. Vou começar com uma pedra — disse pegando o primeiro cascalho que achou.

Sentou-se novamente na rede, fechou os olhos segurando a pedrinha, deixou-se relaxar e então começou a catalogar o objeto mentalmente. Redondo, leve, áspero...

Você não deve fazer uma lista mental das características do objeto. Você deve sentir. O sentir é como um segundo cérebro que você vai precisar desenvolver, aprender a confiar e aprender quando ele não estiver funcionando direito. Do mesmo jeito que às vezes você se pergunta se está ficando louca, chegará um momento em que você vai precisar reconhecer que está sentindo algo estranho e isso precisará ser investigado e solucionado.

A elfa ficou quase uma hora sentindo a pedra, mas não soube dizer se estava sentindo alguma energia ou apenas características físicas.

— Não tá funcionando — reclamou.

Você nem começou direito. Tente com uma planta.

Kláxia tentou com a planta, com um punhado de areia, conchas, um peixe que se sacudia enquanto ela o segurava debaixo d'água, e um cliff racer que ela agarrou pela cauda e que se debatia aterrorizado. Só parou quando anoiteceu. Trancou a casa, colocou vários móveis e quinquilharias atrás das portas e foi dormir.

No dia seguinte, Lokdrahzul avisou que ela deveria continuar com o treinamento e, não tendo mais nada para fazer da vida, Kláxia concordou.

Durante os meses seguintes, ela intercalava o treinamento com a venda de couro de cliff racer e cera de dreugh em Seyda Neen para conseguir comprar comida, água potável e alguns mantimentos.

Por que você não tem um jardim? Um alquimista sem jardim é como um bardo sem alaúde.

— Considerando a vida movimentada que eu tinha, quem ia molhar as plantas?

Bom, agora você pode. Além disso, poderá também plantar a própria comida. Isso reduzirá seus custos.

— E aumentará o tempo que eu gasto com manutenção. Tempo esse que eu não vou poder usar pra treinar.

Está com pressa de quê? Seu amigo não vai vir lhe procurar. Ele está muito ocupado com o trabalho e os assassinos que você contratou.

— Ele pode pagar alguém pra vir dar cabo de mim.

Não vai. Ele prefere gastar o dinheiro dele com entorpecentes e acasalamento.

Kláxia riu.

— Bom saber. Agora já posso dormir mais tranqüila.

Aos poucos, durante os meses seguintes, Kláxia aproveitava suas idas à cidade para trazer algumas mudas de plantas. Com a ajuda do conhecimento de Lokdrahzul, aprendeu novas técnicas de cultivo e receitas de adubos. Em pouco mais de 1 ano sua ilha já era auto-sustentável. Comprou alguns guars e scribs para produzirem esterco, e adaptou uma parte da caverna que havia na ilha para a criação de kwamas. A partir daí, a elfa passou a ir com menos freqüência à cidade, mas isso não a fez economizar tempo. Mesmo assim, ainda conseguia treinar todos os dias.

Após esse período, ela já podia sentir todos os seres animados e inanimados que populavam sua ilha.

Para o segundo tópico do capítulo de Manipulação Energética, será preciso que você realize o treinamento sempre do lado de fora da casa, em direção ao mar, para evitar acidentes.

Kláxia sentou-se na areia da praia. Era uma manhã de um dia ensolarado. As ondas do mar brilhavam sob a luz do sol. Ao seu redor, os animais estavam deitados tranqüilamente tomando seu banho de sol matinal. Uma brisa leve balançava os arbustos e as árvores das plantações. Os pássaros cantavam alegres.

— O que eu tenho que fazer?

Junte as mãos em forma de concha. Da mesma forma que você sente a essência das coisas, você deve acumular e concentrar essa sensação entre as suas mãos e deixá-la formar uma bolinha de energia. Quanto mais você se concentrar e direcionar essa sensação de energia para suas mãos, maior essa bola vai ficar. Se não agüentar segurar essa energia por muito tempo, arremesse a bola no mar.

Kláxia obedeceu. A princípio, não sentiu nada, mas continuou se concentrando. Depois de alguns momentos, sentiu um comichão e, num reflexo, acabou deixando a minúscula bolinha de energia cair na areia. Rapidamente ela se dissipou.

— Não funcionou — reclamou num muxoxo.

Enquanto você ainda não tiver muito controle e nem intenção o suficiente, a energia vai se dissipar rápido. Quanto maior o poder de controle e quanto mais inabalável for a sua intenção, mais permanente será a energia e conseqüentemente mais poderoso será o feitiço. Esse tipo de controle e intenção só poderão ser aprimorados com a prática diária. Não há atalhos.

Ao longo dos meses seguintes, Kláxia continuou se dedicando diariamente ao exercício. Ia para a praia todas as manhãs um pouco antes do sol nascer e parava um pouco antes do meio-dia para cuidar da casa, da plantação e dos animais. À noitinha, preparava um chá de comberry e sentava-se na rede para apreciar o céu estrelado.

Ah... Um chá quente. Parte essencial na jornada para ser uma maga.

— Estou começando a achar que é algum instinto natural. Eu nunca gostei de chá. Quando aceitava, era por educação.

Faz parte. A natureza tem formas peculiares de realinhar as energias.

— O que acontece depois?

De quê?

— Depois que eu aprender a proteger minha casa.

Você vai querer fazer alguma outra coisa. É a eterna sina dos mortais: desejos infinitos.

— Então o meu destino é ser eternamente insatisfeita?

Só as rochas estão plenamente satisfeitas.

— Por quê? Por que a existência é uma infinita insatisfação?

Porque o incômodo é a fonte do movimento. E a existência é movimento. O que não se move está morto.

— Então as pessoas felizes e satisfeitas são mortas-vivas?

Você já conheceu alguém que realmente estivesse feliz?

— Já.

Quem?

— Várias, ué.

Várias quem?

— Ah, sei lá. Um monte por aí.

Não existe satisfação, plenitude ou felicidade na vida. Mesmo que alguém não tenha sérios problemas, os pequenos desconfortos diários a mantêm em movimento. Se não mantivessem, ela morreria de inanição.

— Não existe felicidade?

Não. Felicidade é uma ilusão. Um conto de fadas que os anciões contam aos jovens para que estes não se encontrem com o desespero cedo demais.

— Pesado. Principalmente porque pessoas morrem na busca pela felicidade.

Efeito colateral de se manter uma civilização minimamente funcional.

— Vocês, dragões, já foram felizes em algum momento?

Nos resignamos ainda no início da existência.

Kláxia bebeu um pouco de chá enquanto pensava.

— Qual o propósito da existência então?

Não ser a estagnação da inexistência.

— Só isso?

A complicação é fruto da inconformação com a simplicidade.

Kláxia bufou irritada.

— Mas não deveria haver um propósito maior pra tudo?

Por que deveria?

— Oras, porque senão tudo isso, todo esse sofrimento, seria em vão!

A existência é inteira em si mesma. Existir já é o próprio propósito. A não estagnação da inexistência, como eu falei. Não existe propósito maior, pois isso estaria do lado de fora da existência, e não existe nada do lado de fora da existência, porque não existe nada na inexistência. Os dois lados são completos em si mesmos. Não há brechas.

Kláxia respirou fundo algumas vezes um pouco irritada.

— O que eu faço com essa informação?

O que você quiser. Não vou te dizer o que fazer com sua vida. Você é livre dentro das circunstâncias atuais.

Ela pensou por um momento enquanto terminava o chá.

— Você existe, não é, Lokdrahzul?

Se eu não existo, então você é uma esquizofrênica autodidata.

— Só mais um dos meus muitos títulos. Mas não é isso que eu quero dizer. Você está morto, mas mesmo assim existe, né?

Não estou morto. Estamos num outro plano de existência. Então sim, eu existo.

— Então a morte é uma inexistência?

Você sabe que não.

— Não sei. Ouvi falar de histórias sobre almas que foram para o Oblivion, mas isso não significa muita coisa, já que com magia podemos ir e vir de lá.

Existem muitos lugares para onde um morto pode ir. Inclusive, podem reencarnar.

— Já ouvi sobre isso também. Mas o quanto disso é verdade? Digo, quantas almas reencarnam? Duas? Três por milênio?

Milhões.

Ela deu uma risada de deboche.

— Milhões? Isso seria quase todo mundo!

Mas quase todo mundo reencarna. Poucos são os que não reencarnam.

— Achei que isso fosse reservado apenas para as almas dos importantes.

Apenas as histórias de destaque são passadas adiante, mas a reencarnação é para todos.

— E o que acontece nessas reencarnações todas? As que não têm destaque.

Em todas, inclusive nas que aparentam irrelevância, as almas aprimoram habilidades que foram aprendidas na vida anterior.

— Como assim?

Você, por exemplo, nesta vida é uma ladina e assassina bem sucedida. Mas uma maga iniciante. Isso significa que em outra vida você foi uma ladina ou assassina medíocre, e nunca sequer chegou perto de magia.

— Considerando meus fracassos aqui, eu devo ter sido uma Zé Ninguém na vida anterior.

Sim, assim como a maioria das pessoas. Poucos se destacam.

— Se for assim mesmo, então quer dizer que numa próxima vida eu seria uma maga assassina boladona?

Se você desenvolver suas habilidades lá, sim. Mas cada vida apresenta algumas possibilidades dentre as quais você pode escolher. E você não é só ladina e assassina, lembre-se de que quase enlouqueceu e virou um espectro de Nocturnal. Prevejo que você terá, pelo menos, duas opções proeminentes. Um caminho de loucura acentuada e outro de magia assustadora. A relevância ou atratividade de cada opção vai depender de desenvolver as habilidades mágicas aqui nesta vida. Pois se não for muito longe na magia agora, na próxima terá uma oportunidade de menor relevância.

— Então você está me dizendo que eu serei uma louca de manicômio na próxima vida? E perigosa ainda por cima! Trancada num hospício!

Oh, o drama, o exagero, a emoção! Você também poderia ser um tipo de palhaço de circo de terror. Daqueles que matam os turistas.

— Que vida de merda.

Fruto do que você cultiva aqui e agora.

Ela colocou a xícara sobre a bancada da varanda e ajeitou-se na rede.

— Eu vou ficar presa na minha cabeça, não é? Tipo um coma ou catatonia.

Não digo nenhuma dessas duas coisas, mas sua condição mental tem uma alta chance de não ser das melhores, já que você ainda não procurou ajuda aqui.

Kláxia suspirou fundo sonoramente.

— Estou cansada de me preocupar com coisas que eu não posso controlar.

É o primeiro passo para a sanidade.

— Vou dormir.

Isso também é muito bom.

— Acho que amanhã você já pode me ensinar o feitiço de tranca — disse não como uma sugestão, mas como um fato.

Concordo. Você evoluiu bastante na manipulação energética. Já pode começar a praticar com objetos fixos.

— Boa noite, Lokdrahzul.

Boa noite, Bosmer.

Na manhã seguinte, antes do Sol raiar, Kláxia juntou vários livros, jarros, urnas, barris e caixotes na praia. Os animais se deitaram perto para observar, mas longe o suficiente para não se envolverem.

Depois de dominar a manipulação energética, fazer um feitiço é fácil. O segredo está na intenção. Qualquer feitiço lançado precisa ter uma finalidade, um objetivo, uma missão. Para trancar, a intenção deve ser de fechar e permanecer fechado até que um contra-feitiço seja realizado.

A Bosmer segurou um dos livros, sentiu a essência do objeto e começou a concentrar energia nele com a intenção de que ele não se abrisse. Quando sentiu que o livro estava estranhamente pesado, colocou-o no chão.

— E agora?

Tente abrir.

Ela se sentou na frente do objeto com um pouco de entusiasmo e receio, como se pudesse explodir a qualquer momento.

Se você não intencionou que o livro danificasse o usuário de alguma forma, se foi só para que ele não abrisse, então é inofensivo.

Kláxia segurou o livro e tentou abri-lo, mas era como se alguém tivesse colado as páginas. Os olhos dela brilharam e ela olhou para cima como se quisesse olhar para o dragão, mas não havia nada ao seu redor.

Parabéns. Você realizou seu primeiro feitiço com sucesso, disse a voz desencorporada. Agora tente com os outros.

Ela passou a manhã trancando tudo o que levou para a praia. Pulava de alegria quando descobria que as coisas estavam mesmo trancadas. Quando terminou, perto do meio-dia, deixou tudo na praia e foi cuidar de seus afazeres na ilha.

No dia seguinte, teve uma surpresa desagradável. Uma ventania derrubara dos caixotes, barris, jarros e urnas, e espalhara os livros pela areia. E tudo estava aberto.

— O que aconteceu aqui? — perguntou desolada, achando que havia fracassado.

Foi o seu primeiro dia lançando esse feitiço. Ele não estava firme o suficiente e se dissipou. Completamente normal. Continue praticando.

Depois de 1 mês praticando apenas trancar as coisas, Kláxia sem querer se trancou do lado de fora de casa. Foi quando Lokdrahzul, depois de uma risada comedida, ensinou-a o feitiço de destrancar. A Bosmer treinou os dois feitiços por mais 1 mês, então o dragão passou uma lista de feitiços que incluía correr sobre a água, levitar, deixar seres animados e inanimados pesados ou leves, pular muito alto, cair devagar, fazer os animais fugirem ou seguirem ou se acalmarem, invisibilidade, efeito camaleônico, enxergar no escuro, cegueira, alucinação auditiva, silêncio, telecinesia, absorção e dispersão energética, e alguns feitiços de cura. Avisou que iria se ausentar por um tempo e que qualquer fracasso aparente não era um fracasso e sim os primeiros passos de uma longa jornada.

— Você volta, né?

Claro. Mas agora você precisa trilhar essa parte do caminho sozinha. Tudo o que eu lhe ensinei é suficiente para que você continue por si só. Quando estiver mais desenvolvida, eu voltarei para a segunda parte.

— Obrigada, Lokdrahzul, por tudo.

Eu que agradeço a oportunidade de passar meu conhecimento adiante. Mas não se despeça de mim, Bosmer, eu não estou indo embora.

Kláxia sentiu a energia dele se dissipar e desaparecer.

A forma do medo – Parte 2 (final)

Quase uma década havia se passado desde a última vez que a Bosmer conversou com o dragão. Ela treinou durante todos os dias, sem pular nenhum. Por conta própria, comprou alguns livros sobre magia para aprender sobre outras escolas e praticou sozinha.

Como suas plantações e animais haviam prosperado muito, ela comprou um barco que usava para viajar pela costa de Vvardenfell vendendo seus produtos. Foi obrigada a legalizar seu negócio por conta dos ovos de kwama e aproveitou para colocar em prática um feitiço de charme. Conseguiu a habilitação com o Duque em Ebonheart por um terço do preço original. O Dunmer ficou tão encantado que a convidou para um jantar a dois, mas a Bosmer disse que não podia porque precisava catar cocô de guar para adubar as plantas.

Durante todo esse tempo, ela nunca tivera notícias de Faldrien ou da Irmandade sobre o contrato. Achou que todos os envolvidos haviam se esquecido e decidiu parar de se lembrar daquilo também.

Numa semana em que não ia precisar viajar a barco para vender seus produtos, a Bosmer aproveitou para praticar a última escola que faltava: Conjuração. No livro dizia que para conjurar qualquer criatura do Oblivion era preciso ter raiz de Nightshade; partes de algum ser vivo, sendo sangue ou coração as melhores, mas qualquer uma servia; uma bacia com água limpa; vinho; um cristal virgem; sal; e 12 velas. Depois de reunir todos os ingredientes, as instruções diziam para desenhar um círculo grande no chão com o sal, acender as 12 velas ao redor, colocar a bacia com água no centro do círculo, colocar o cristal dentro da água e, enquanto recitasse o encantamento várias vezes, colocar a parte do animal por cima do cristal, regar com vinho, queimar a raiz de nightshade nas 12 velas e colocar sobre o pedaço do animal. Assim que terminasse, um Dremora apareceria dentro do círculo e faria tudo o que o conjurador mandasse.

Kláxia reuniu todos os ingredientes e materiais. Como parte de animal, optou por um pedaço de carne que havia guardado numa lata de banha. Como sal, comprou sal ígneo porque era o que estava disponível nos alquimistas próximos. O restante era o mesmo do livro, ou assim ela julgava.

Por causa do espaço, ela preferiu fazer o ritual na praia. Era um dia parado e sem vento, não haveria problemas quanto às velas. Preparou tudo conforme ditava o livro enquanto entoava em voz alta o estranho encantamento numa língua obscura.

Assim que a última faísca da raiz de nightshade se apagou soltando um fio de fumaça que subia denso e exalava um cheiro de carne assada, um Dremora se materializou dentro do círculo à sua frente.

Kláxia não havia pensado sobre o que o mandaria fazer, mas ficou feliz que o feitiço funcionara. A primeira coisa que lhe veio à mente foi mandar o Dremora correr ao redor da ilha, mas assim que deu a ordem, o conjurado empunhou a espada e a atacou falando coisas na língua obscura que ela recitara e que não compreendia.

Kláxia pulou para fora do círculo e desviou de todos os golpes. O Dremora a seguiu e continuou atacando e, presumidamente, xingando. A Bosmer desviava dele e ao mesmo tempo tentava fazê-lo desviar de suas plantas, em vão. Diante do estrago que ele fizera nos arbustos de comberry, ela decidiu levitar para desviar o foco dele para o alto.

O Dremora tentou atingi-la com uma bola de energia, mas ela desviou sem esforço. Ele então voltou a correr pela ilha, mas começou a matar os animais. Kláxia se enfureceu e enfeitiçou os bichos para que eles fugissem para o barco que estava ancorado no mini porto da sua ilha. O Dremora seguiu-os estraçalhando tudo com sua espada.

Ela tentou enfeitiçar o Dremora com calma, depois paralisia, fadiga, peso, mas nada o atingia. Pelo contrário, ele estava absorvendo suas magias.

Ela desceu para casa e gritou por ele na porta. A criatura abandonou o que sobrara dos animais e correu para a casa. Kláxia se trancou já sabendo que a porta não agüentaria muito tempo. Armou-se com suas adagas, dardos envenenados e só teve tempo de vestir o torso da armadura quando o Dremora derrubou a porta e entrou. Ela o atacou com os dardos, mas não teve muito êxito. Ele avançou sobre ela que aparou os golpes com suas adagas, mas ele era muito mais forte e ela sabia que não iria agüentar muito tempo.

"Que bela maneira de morrer... Pra minha própria conjuração", pensou a elfa.

Ela gritou para ele ir embora e voltar para o Oblivion, mas o Dremora estava firme em sua decisão de matá-la. Quebraram móveis e arranharam paredes. Ele conseguiu fazer cortes em seu braço e nas pernas algumas vezes. Kláxia já se cansava, mas o Dremora não demonstrava qualquer fraqueza.

"Vou morrer. Esse será meu fim. Quem vai cuidar das minhas plantas e dos meus animais? Acho que é por isso que magos têm aprendizes, mas agora é muito tarde."

Não só pra isso, mas principalmente pela preguiça de fazer as tarefas mundanas, disse uma voz desencorporada que lhe era familiar.

— Lokdrahzul! — disse ela como se recitasse um encantamento com toda a sua força.

O Dremora hesitou por um segundo como se tentasse decifrar aquele idioma, e então aproveitou a distração dela para perfurar-lhe o torso. A armadura impediu que a maior parte da espada penetrasse seu corpo, mas a ponta da lâmina conseguiu perfurar sua barriga em quatro dedos de profundidade. Kláxia gritou e empurrou a espada com as adagas.

— Vai me deixar morrer? — gritou para o dragão.

É só mandá-lo ir embora.

— Já mandei! Mas ele não vai!

A elfa correu para outro cômodo e usou a mobília como escudo.

Tem certeza que mandou ele ir embora? Daqui não parece que ele foi.

— Não me venha com gracinha! Eu gritei com ele e nada aconteceu!

Gritou? Oras, não é assim que se manda um conjurado embora.

— LOKDRAHZUL! — gritou com ódio.

Destrua o cristal e apague as velas.

Subitamente Kláxia se lembrou do cristal submerso na bacia no meio do círculo de sal na praia. Desviou do Dremora como pôde e correu o mais rápido que conseguiu. Pulou dentro do círculo, chutou a bacia, pegou o cristal que voara no ar e arremessou-o contra uma rocha. Estilhaços voaram para todos os lados. Agarrou a bacia e, com o fundo, amassou todas as velas em seqüência na areia apagando-as.

O Dremora já estava a meio caminho da praia quando desintegrou-se virando uma fumaça preta que se dissipou no ar. Kláxia deixou-se cair ofegante na areia. Apertou o ferimento sob a armadura e gemeu de dor.

É só deixar a Bosmer sozinha um minuto que ela começa a evocar demônios.

— Um minuto? FORAM DEZ ANOS!

Você não leu os livros de conjuração?, continuou Lokdrahzul. Pegou qualquer feitiço e fez? Inacreditável. Não achei que você ainda precisasse de um professor. Mas aqui vai, a primeira regra da conjuração é: você não chama o que não consegue mandar embora. A segunda regra é: antes de aprender a evocar, deve-se aprender a banir. Os livros sérios vão sempre explicar que uma criatura conjurada precisa de um objeto de ancoragem. Na maior parte das vezes é um cristal, mas pode ser uma garrafa de vidro, uma caixa de metal ou uma jóia. E que, portanto, para mandar a criatura embora, deve-se destruir o objeto de ancoragem.

— Nunca mais vou esquecer — disse Kláxia curando seu ferimento com uma pequena magia de luz azul.

Eu sei, por isso esperei tudo dar errado antes de intervir. A experiência é a mãe de todas as professoras.

Reza a lenda que o grito de ódio da Bosmer pôde ser ouvido em Balmora.

— MEUS ANIMAIS MORRERAM! MINHAS PLANTAS FORAM DESTRUÍDAS! MINHA CASA ESTÁ UM CACO!

Sim. E essa será a lição que você se lembrará até o fim de sua vida. Mais do que qualquer outra.

Os poucos animais que sobreviveram ao massacre colocaram a cabeça para fora do barco e emetiram ruídos curiosos, como se quisessem saber se já podiam sair do esconderijo.

A Bosmer levantou-se bufando de ódio, mas não disse mais nada. Sacudiu a poeira, juntou a carcaça dos animais num canto onde aproveitaria a carne e o couro para vender em Vvardenfell, chamou os demais que estavam no barco, prendeu-os no cercado e arrumou as plantas que sobraram. Algumas ela conseguiu recuperar, mas outras foram completamente perdidas.

Voltou para casa e arrumou o que sobrou. Os objetos quebrados ela guardou em vários caixotes e levou para o barco pois conhecia um Orc que fazia restaurações.

Ao longo da semana seguinte, ela não praticou magia. Dedicou-se a consertar os danos na ilha e repor itens, plantas e animais perdidos. O dragão respeitou o período dela de luto e raiva, e também não disse nada.

Apenas quando ela voltou a se sentar na praia pela manhã para ler outros livros de conjuração foi que Lokdrahzul decidiu falar.

A terceira regra da conjuração é: jamais recite um encantamento numa língua que você não conhece.

— Quais são as outras regras? — perguntou resignada, mas ainda um pouco irritada.

Existe algo bem mais interessante que você pode fazer com conjuração em vez de se arriscar com seres de outros planos.

— E o que é? Conjurar armas e armaduras? É, eu já deveria ter feito isso, especialmente a parte da armadura — disse tocando a cicatriz na barriga.

Você pode combinar Conjuração e Ilusão para criar as criaturas que você quiser.

— Como assim?

Com Conjuração você firma a nova criatura como algo que existe além de você. E com Ilusão você pode dar a forma e as habilidades que você quiser que ela tenha. Pode criar guardas, sentinelas, protetores, serventes... O que você quiser.

— Se eu criar guardas, por exemplo, eles vão ter capacidade de defender minha casa?

Plenamente.

— Mas eles vão se dissipar e todos os dias eu vou ter que criar novos guardas, né?

Não se você vinculá-los a algum objeto de ancoragem, definir uma forma de recarregamento energético e der alguma autonomia para eles.

— Por onde eu começo?

Pelo planejamento. Pegue lápis e papel.

Kláxia voltou para casa e sentou-se à sua escrivaninha.

Primeiro, você deve definir o objetivo da criatura. Segundo, você define que formato físico e habilidades ela necessitaria para realizar seu objetivo com sucesso. Terceiro, você pensa nos possíveis problemas que ela encontraria em sua tarefa e cria habilidades para resolver ou contornar esses problemas. Quarto, cria uma forma de recarregamento energético. Quinto, exemplifica regras, o que pode e o que não pode fazer. Sexto, dá nome. Sétimo, você gasta sua mana toda para criar uma única criatura. Oitavo, solta ela e deixa acontecer.

Kláxia decidiu criar um guarda. Desenhou muito mal um imperial de uniforme.

Entendo seu propósito, mas por que não ir além?

— Ir além como?

Uma das escolas que você vai usar é Ilusão, uma das habilidades que você pode dar à criatura é tomar a forma do medo do invasor. Você pode, claro, dar uma forma padrão para quando só estiver você sozinha na ilha.

Kláxia pensou um pouco e deu uma risada macabra. Desenhou um cliff racer que andava com as pernas de um flame atronach, mas que parecia gelatinoso como um betty netch.

Ah... Uma quimera. Era disso que eu estava falando. Mas deixe claro que essa é apenas a forma padrão da criatura quando for criá-la, e que deve mudar de forma conforme o inimigo.

Kláxia então especificou tudo o que queria e anotou no papel. Pegou uma garrafa de vidro, colocou um pedaço de carne dentro, encheu com água, tapou com uma rolha e foi para a praia.

Sugiro que você use uma jóia ou cristal se quiser que a criatura dure mais tempo e não seja acidentalmente destruída.

— Quero testar uma coisa.

Ela se sentou na areia e começou a energizar a garrafa dando a forma da criatura que havia desenhado. Usou sua mana toda moldando a energia que ficou do tamanho dela. Ainda em conexão energética, a elfa mandou a criatura acordar, recitou as habilidades dela e as regras, deu nome e soltou na ilha. A garrafa permaneceu na areia, mas a criatura caminhou normalmente como se já conhecesse o lugar. Para um mago, era possível ver o cordão energético que ligava a sentinela à garrafa.

Você esqueceu da regra de que ela não deve lhe atacar.

De repente, Kláxia acertou um dardo no pescoço da criatura que voltou-se em sua direção um pouco confusa. A Bosmer pegou sua adaga e avançou.

Imediatamente, a sentinela abandonou sua forma quimérica e adotou o corpo completamente uniformizado de um assassino da Irmandade Negra.

Kláxia parou a um passo de sua criatura, em choque.

— Morra! — gritou a sentinela e atacou com uma adaga.

Kláxia desviou por pouco e deu um pulo para trás. Arremessou uma pedra na cabeça da criatura. A sentinela, então, fez o elmo transformar-se numa cabeça que ora era a de Govarys, ex-namorado da elfa, ora de Dandras Vules, outro ex, e por último de Telvarys.

A Bosmer congelou, estupefata com sua própria criação.

— Eu não tenho medo deles — disse para si mesma.

Tem certeza?, perguntou Lokdrahzul. Sua criatura discorda de você.

A sentinela avançou, mas Kláxia foi mais rápida e chutou a garrafa com toda a sua força fazendo-a explodir. A criatura dissipou-se no ar.

Agora que você já confirmou que seu feitiço funciona, o que mais pretende criar?

Vestindo um silêncio que começou a incomodar até o próprio Lokdrahzul, a elfa passou um mês inteiro criando sentinelas e serventes. Usou diversos cristais e os enterrou pela ilha. Deu a eles a energia solar como fonte de recarregamento. Alguns foram designados para cuidarem dos animais, das plantas e da casa, deixando-a com o dia inteiro livre.

Quer falar sobre seu medo?

— Não tenho medo deles.

Então seu feitiço não funcionou.

Kláxia sentou-se na rede. Havia passado do meio-dia, mas o Sol ainda estava forte. Uma fraca brisa refrescava levemente. O ruído mais alto era o das ondas nas rochas da praia. Os animais estavam no curral, protegidos do calor. Os passos das sentinelas não produziam som. Ao longe, aves gritavam pelos peixes que conseguiam pescar.

— Já tem alguns anos que eu me pergunto o que eu estou protegendo aqui — começou ela. — Por que ainda vivo em Morrowind? O que resta aqui pra mim?

O que resta aqui para você?

Ela ficou em silêncio um minuto.

— Eu não tenho medo deles. Eu tenho medo de ficar presa nisso. Nesse passado arruinado. Eu tenho medo de voltar a reviver tudo o que eu já vivi.

Hum... Então seu feitiço funcionou melhor do que nós dois imaginamos.

— Não há nenhum momento na minha vida para o qual eu queira voltar. Eu não tenho uma única boa lembrança, Lokdrahzul. Tudo está manchado com dor e sofrimento. Não há nada puro e imaculado. Eu sempre vivi orientada ao futuro, porque o futuro seria melhor, porque no futuro algo bom aconteceria... E o tempo foi passando, mas nada bom aconteceu. Houveram promessas, mas todas se quebraram e deixaram manchas e dor para trás. E agora eu estou aqui, defendendo uma pequena ilha de fantasmas, numa grande ilha de dores, num país que pra mim só traz sofrimento. E pra quê? Por que insistir nisso? O que eu estou cultivando aqui, sobre essas ruínas sentimentais? O que foi destruído não pode mais ser reconstruído. O que se perdeu não pode mais ser recuperado. O que foi corrompido não pode mais ser purificado...

Já pensou em ir para outro país? Skyrim, por exemplo. Daqui a uns 200 anos vai ficar sensacional. Você iria adorar.

Kláxia ignorou o dragão e continuou divagando.

— E pra quem? Nada mais me espera nesse mundo. Eu não faço mais parte dele. Estou aqui apenas ocupando um espaço que não faz falta a ninguém. Não faz sentido ficar.

Nada lhe impede de seguir em frente.

Kláxia ficou em silêncio por um momento.

— Lokdrahzul, se eu morrer, alguma outra vida me aguarda?

Sim. Já conversamos sobre isso. Mas você tem certeza de que já acabou com seus assuntos nesta vida aqui?

— Não consigo ver nenhum motivo pra ficar. Como você disse, nada me impede de seguir em frente.

Então vá.

— Que vida eu terei? Quem eu vou ser?

Lokdrahzul deu uma risada contida.

— Por que você tá rindo?

Como eu expliquei da última vez, você será uma versão aprimorada do que é nesta vida. Para o bem e para o mal.

— O que isso significa?

Se você seguir em frente, você viverá a resposta dessa pergunta.

A Bosmer pensou um pouco.

— Você me ajuda, na transição?

Não.

― Por que não?

Não vou matar você, elfa.

Kláxia suspirou.

— Eu não me odeio o suficiente pra me matar e também não estou sofrendo o suficiente pra isso. Se você não me ajudar, eu vou morrer de quê? De velhice? Daqui a centenas, quem sabe milhares de anos? Eu não tenho mais nada pra fazer aqui, Lokdrahzul.

Não vou lhe ajudar com isso, elfa. Mas você não precisa esperar tanto tempo assim pela morte.

— O que você quer dizer com isso?

Precisamos nos despedir. Foi bom ter sido seu professor, Bosmer. Desejo que você encontre o que procura, esteja onde estiver.

Ela sorriu conformada.

— Obrigada, Lokdrahzul, pela paciência, pela chance, pelo conhecimento e até pelos momentos em que me fez passar raiva.

Quando chegar do lado de cá, não siga o vazio e não siga a luz branca. Siga a luz vermelha.

Kláxia assentiu sem entender, mas esforçou-se para guardar a informação em sua alma. A presença do dragão se dissipou. Uma de suas sentinelas passou na frente dela seguindo para o outro lado da ilha. Foi quando Kláxia teve uma idéia. Pegou várias velas, um punhado de pétalas de nightshade e trancou-se no porão de sua casa. Arrumou as velas num círculo, acendeu, espalhou as pétalas dentro do círculo, deitou-se em cima e, pelos próximos três dias, recitou repetidamente a prece da Irmandade:

"Adorável Mãe, envie seu filho a mim,
pois em sangue e medo devem ser batizados
os pecados dos indignos."

Ao final do terceiro dia, ela sentiu na sua espinha uma presença preenchida pelo vazio de Sithis.

— Você destruiu meus sentinelas?

— Não — disse uma voz masculina.

— Então como passou por eles?

— Não foi fácil, mas o Inominável me ajudou. Quem eu devo matar?

— Eu.

O assassino ficou em silêncio por uns minutos.

— Me disseram que eu deveria mandar sua alma para o Venerável.

Um pânico tomou conta da elfa por um momento.

— Não, por favor, não faça isso. Deixe minha alma seguir livre.

— Não posso voltar sem nada e, pelo visto, sua alma tem valor.

— Pegue a ilha, não tenho herdeiros. Leia meus diários, você vai encontrar informações valiosíssimas neles. Faça o que quiser.

O assassino ficou em silêncio por mais um momento.

— Vou pegar sua ilha e mandar sua alma para Sithis.

— Não.

A elfa se levantou já preparada para lutar, mas o assassino arremessou a adaga direto no coração dela.

Kláxia caiu desorientada sobre as pétalas. Tentou gritar por causa da forte dor, mas a adaga estava tão enterrada em seu peito que não conseguia respirar.

O assassino se aproximou recitando uma oração que ela conhecia muito bem. Aos poucos seu corpo foi ficando mais leve e a dor foi diminuindo. O escuro a abraçou e o Vazio a aguardava.

Nem Nocturnal, nem Hermaeus Mora. Você sempre pertenceu a mim, Bosmer, disse o sussurro no vazio.

— Me deixe ir, Sithis! Eu já lhe servi demais!

A eternidade nunca é demais.

Ao longe, sem descobrir de qual direção, ela ouviu o ruído de asas. O frio do abismo eterno já queimava sua alma quando o som ficou mais alto e ela sentiu garras puxarem-na em direção a uma luz vermelha.

Fique longe disso, filho de Akatosh. Essa alma me pertence.

Essa alma não pertence a ninguém além de si mesma, Padomay.

Ela fez o juramento da eternidade.

Pois eu estou quebrando o juramento dela.

A luz vermelha ficou tão forte que ela não conseguiu ver mais nada.

— Lokdrahzul...

Vá, siga em frente e nunca procure descobrir o que você deixou para trás.

— Obrigada...

Me agradeça nunca mais voltando aqui.

Sua alma seguiu por um túnel vermelho de onde ecoava uma gritaria numa língua que ela não conhecia. Assim que caiu numa bolsa cheia de água quente, Kláxia não existia mais.


Um contrato para nunca mais

[17 anos atrás...]

— Govarys Vloulu morreu — disse Dandras Vules com um largo sorriso.

Suas palavras ecoaram suavemente pela câmara do esgoto abandonado de Mournhold. Um bafo quente soprou do duto de ventilação como um suspiro de um monstro das profundezas.

Kláxia permaneceu imóvel processando o choque. Só voltou a se mexer quando a cicatriz do tórax começou a doer. Massageou-a com a ponta dos dedos por cima da armadura e levantou-se para movimentar as pernas andando de um lado para o outro da câmara.

— Você ainda sente algo por ele — disse Dandras com um tom de desdém.

— É claro que sinto — disse a Bosmer. — Ódio. Depois do que ele me fez, tenho todo o direito do mundo. Nem mesmo a morte me impediria de odiá-lo.

— Dizem que amor e ódio são as duas faces da mesma moeda.

— Assim como o alimento e as fezes são as duas faces da digestão — retrucou a Bosmer.

Dandras sorriu mais relaxado e colocou os pés em cima da mesa.

— Como ele morreu? — perguntou ela voltando a se sentar.

— A Morag Tong tinha um contrato para um mestre Telvanni.

— Govarys era de um ranking abaixo do Grão-mestre. Foi fazer o que aceitando esse tipo de contrato?

— Nossos espiões disseram que ele era o favorito de Eno Hlaalu e o melhor candidato para substituí-lo. Talvez quisesse se provar para o líder. Sei lá. Você o conheceu muito melhor do que eu. Intimamente — disse a última palavra com desdém.

— Nunca o conheci tão bem assim.

— Foi namorada dele e não o conhecia?

— Nunca fui namorada dele.

— Assim como nunca aceitou ser a minha — comentou com um sorriso irritado.

— Talvez aceitasse se você tivesse pedido. Talvez não. Jamais saberemos — disse se levantando novamente e encarando o quadro com os mandamentos da Irmandade.

— Eu não havia formalizado nossa relação antes para o seu próprio bem — explicou. — Os outros membros diriam que eu estava facilitando para você.

— Eles já dizem isso, Dandras. É até pior porque eles acham que nós ficamos juntos só para eu subir de ranking, já que nunca foi oficial.

— Não seja por isso, posso passar a me referir a você oficialmente como minha namorada e--

— Não quero — disse a Bosmer interrompendo-o entediada.

— Como assim não quer? É por causa de Govarys? — Dandras colocou os pés no chão e inclinou-se para frente sobre a mesa.

— Nosso tempo já passou.

— O que você quer dizer com isso?

Kláxia o encarou e respirou fundo, irritada. Fazia muitos anos que já estava perdendo sua paciência com a politicagem da Irmandade, as picuínhas, as fofocas, os contratos insossos. Ela já havia sentido isso antes quando fazia parte da Guilda dos Ladrões há muitos anos. Suspeitava que um dia se sentiria novamente da mesma forma quando se juntou à Irmandade Negra, mas achou que talvez esse sentimento nunca mais a visitasse. Detestava quando suas suspeitas se concretizavam.

— Você só me chamou aqui para dar a notícia de Govarys?

— O que você quis dizer com "nosso tempo já passou"? — insistiu o Dunmer.

— O que você ainda quer de mim, Dandras?

— Se você quiser oficializar isso, por que não? É isso que estou tentando entender. O que você quer de nós.

— Não existe mais nós, Dandras.

Ele se levantou sorrindo e apoiou-se sobre a mesa por uns minutos. Ajeitou os cabelos e deu algumas risadas aleatórias.

— Está terminando comigo? Você? Agora?

— Para terminar nós teríamos que ter algo oficial. Então não, não estou terminando nada.

— Então você quer oficializar isso?

— Dandras, eu não quero mais nada com ou de você — disse encarando-o com seus olhos completamente negros.

O Dunmer riu, limpou a garganta, arrancou um pedaço de uma folha de hackle-lo e começou a mastigar.

— Você não quer mais nada comigo? Tá legal. E a Irmandade? De quem vai pegar os contratos?

— Eu não estou falando disso — mentiu. A elfa também não queria mais nada com a facção, mas não podia dizer isso sem levar uma facada entre os olhos.

Dandras se aproximou dela e tentou tocá-la, mas a Bosmer empurrou-o e afastou-se para a porta. Os olhos vermelhos do Dunmer brilharam de repente junto com um sorriso maléfico.

— Existe um contrato que se você concluir, poderá subir de ranking para Mestre Assassina, ficando acima de mim.

Kláxia encarou-o cansada e impaciente, mas sempre foi curiosa demais para sair sem antes saber quem seria o infeliz.

— Que contrato?

— Um mestre Telvanni.

Várias idéias passaram pela mente dela. A Bosmer voltou a se sentar. Dandras também, sorrindo satisfeito consigo mesmo por ter reavivado o interesse dela.

— O contrato com a Morag foi invalidado? — perguntou ela.

— Govarys morreu de uma maneira um pouco pública demais. O mago explodiu o assassino na praça de Tel Aruhn. Dizem que até hoje a população da ilha encontra pedaços gosmentos nos lugares mais inusitados. Depois disso, a reputação da Morag caiu um pouco. O contratante veio até nós exigindo discrição.

— Quanto?

— Meio milhão de drakes.

Kláxia havia acumulado duas vezes esse valor ao longo de sua vida, então a quantia não lhe despertou interesse. Mas mesmo assim, era um valor muito alto para um contrato.

— Alto, não?

Dandras deu de ombros.

— O contratante pode pagar.

— Você já escolheu alguém?

— Para que mandarmos um se podemos mandar todos? — disse sorrindo. — É de quem chegar primeiro.

O contrato era valioso e Kláxia sabia que os seus Irmãos falhariam, não porque fossem incompetentes, mas porque agiriam por impulso. Assim como Govarys. O que a diferenciava deles era sua paciência contraditória. Para situações menores como um contrato, sua paciência era quase infinita. Mas para situações mais importantes como política, relacionamentos e a vida, sua paciência era curta. Enquanto os assassinos acabavam se afobando em alguma das etapas do planejamento, ela mantinha uma paciência tão sólida quanto uma montanha. Muitas vezes, no início de sua carreira de assassina, foi mandada para concluir os contratos de outros membros que haviam falhado. Até que por fim seus superiores passaram a escolhê-la antes dos demais. Depois disso, subiu de ranking rápido chegando até Irmã Sombria junto com Dandras Vules.

E agora havia a oportunidade de subir mais um ranking e se reportar diretamente à Matrona Noturna, Severa Magia. Não precisaria mais lidar com as fofocas e nem com as piadinhas dos membros mais jovens. Teria outros compromissos, outros problemas.

Porém nada disso lhe interessava como antes. A Irmandade tornara-se uma entidade política. O crescimento se dava horizontalmente por meio de contatos e relações nos mais variados lugares. Kláxia procurava algo mais, algo que ela ainda não sabia direito o que era, mas que sabia que não tinha a ver com política.

Queria poder simplesmente sumir e começar tudo de novo em outro lugar. Tinha dinheiro mais que suficiente para isso, mas a Irmandade jamais deixaria uma desertora solta por aí. Ainda mais alguém que soubesse tanto quanto ela.

Entretanto, talvez nem tudo estivesse perdido. Se aceitasse esse contrato e matasse o mestre Telvanni, teria um ótimo pretexto para desaparecer alegando que os demais magos estariam atrás de sua cabeça. Poderia ir viver em High Rock, bem longe de Morrowind.

"Um último contrato para nunca mais", pensou.

— Aceito.

Mal sabia ela que sua vida estava prestes a mudar, mas de uma maneira totalmente diferente do que planejara.

Leite de Rosas (18+)

"Talvez seja essa sensação de alívio que os viciados em skooma sentem", pensou Sullon ao sentir que a Wraithguard aliviara a dor na mão direita. "Isso não pode durar para sempre".

Nilisi parou à porta e percebeu que seria melhor voltar depois, mas a carta que carregava trazia o selo do Arquimestre da Grande Casa Redoran, Fjorn Braço-Forte, antigo amigo do Arquimagistrado.

Sullon percebeu a indecisão da moça e pediu que ela entrasse.

— Desculpe incomodar, senhor. Não sabia como proceder. O senhor parecia precisar de um momento de descanso, mas, ao mesmo tempo, havia esta carta do senhor Fjorn.

Sullon apontou para um pequeno baú de metal adornado que a serva trazia nos braços, junto com a carta.

— Suponho que seja o pagamento.

— Sim, senhor. E o Arquimestre também mandou uma carta, mas cujo teor parece ser de caráter urgente e não de agradecimento. Por isso...

Sullon a interrompeu:

— Deixe tudo em cima da mesa e saia por favor. — A serva obedeceu e se retirou.

Sullon rompeu o selo e notou que as palavras não conseguiam seguir uma linha reta, tropeçavam umas nas outras e escorriam para a beirada do papel. A parte inteligível do texto dizia:

"... praga nunca mais nesta casa! ... pagamento adequado."

Por curiosidade, Sullon abriu o belo e diminuto baú e constatou que havia mais drakes e pedras preciosas do que estava com paciência para contar. Prosseguiu com a decifração daquele pergaminho alcoólico:

"Uma tempestade de areia ou uma nebulosa me trouxeram notícias suas."

A frase não fazia muito sentido, como a maior parte do texto. Sullon resolveu ignorar e prosseguir.

"... machucado com dor. Conheço uma curandeira inigualável!"

A única coisa que o novo Arquimagistrado da Grande Casa Telvanni conseguiu decifrar nas últimas palavras daquele dialeto alterado, era o nome da cidade de Suran. Sullon perguntou-se se aquilo era um devaneio causado por uma quantidade incontável de garrafas de Sujamma ou se, de alguma forma, Fjorn soubera do machucado em sua mão. Mas como poderia?

Lembrou-se do dia em que o mordomo de Fjorn trouxera o pedido para acabar com uma misteriosa praga mágica que havia tomado conta do rancho. Sullon tentava se concentrar no feitiço que aliviava a dor em seu braço direito, sem que precisasse usar a Wraithguard, quando Nilisi apareceu anunciando o mordomo. Sua concentração foi interrompida e o feitiço não foi completado. Vendo a ira contida no olhar do Arquimagistrado, a serva Nilisi tentou arrastar o visitante para longe do recinto, mas foi metaforicamente paralisada pela mão e voz de Sullon:

— Não.

Ele sutilmente escondeu o braço direito atrás das costas e, com a mão esquerda, fez um gesto para incentivar o visitante a compartilhar o motivo de sua visita.

Antes de explicar o ocorrido, o mordomo percebera que havia algo de errado com o Arquimagistrado, mas não se atreveu a perguntar se poderia ajudar. Depois que a visita foi esclarecida, Sullon despachou um mago aprendiz para resolver o problema mágico do amigo.

Obviamente, o mordomo contara a seu mestre sobre a dor do Arquimagistrado. A pergunta, então, era: Em que nível de sobriedade estava Fjorn quando soube?

Os lábios de Sullon tentaram se mover em um sorriso, mas o peso de suas responsabilidades e dores bloqueava o caminho entre os músculos faciais e, o máximo que conseguiu, foi uma careta superficial.

Haveria um momento, provavelmente em um futuro longínquo, em que ele não poderia contar com a Wraithguard para aplacar sua dor e talvez nem com energia ou tempo o suficiente para realizar o feitiço de restauração. E esse momento, com essa dor, poderia custar sua vida.

Ele sabia que não haveria curandeira no mundo que poderia curar seu machucado se nem ele mesmo conseguia. No entanto, uma visita às terras odiosas de Suran poderia distraí-lo de sua dor por uma ou duas horas. E também, tinha curiosidade em saber quem era essa curandeira inigualável que vivia incógnita nas terras do sul. Se tudo mais falhasse, Ebonheart ficava perto dali e poderia visitar seu amigo Augustus.

Na manhã seguinte, Sullon estava na cidade de Suran, sem saber como encontrar a incrível curandeira. Aproximou-se de um transeunte e perguntou se ele poderia indicar a direção do estabelecimento de uma curandeira notável que ali residia. O transeunte afastou-se impaciente murmurando que não conhecia nenhuma curandeira tão especial assim.

Sullon repetiu a pergunta para mais uma meia dúzia de pessoas, obtendo a mesma resposta. Decidiu entrar na loja de um boticário e perguntá-lo. A mesma negativa se repetiu. Sullon então teve uma idéia:

— A curandeira que procuro realizou alguns trabalhos para Fjorn.

O boticário, Ibarnadad, abriu um sorriso que misturava deboche, graça, libertinagem e inveja.

— Claro que sim. Fjorn é muito conhecido aqui por suas visitas freqüentes e o uso de serviços de curandeirismo extremamente caros. — Após pronunciar estas duas últimas palavras, observou que, pelas roupas do mago, dinheiro não era problema.

No momento seguinte, Sullon deixou sua postura transparecer que não ia repetir a pergunta. Ibarnadad empertigou-se e tentou responder com algum grau de superioridade, porém falhou ridiculamente.

— O senhor irá encontrá-la na Casa das Delícias Terrenas.

O nome do estabelecimento deveria ter soado um alarme para Sullon, mas sua inocência impediu qualquer manifestação mental do tipo.

— Obrigado. — E colocou dois drakes sobre o balcão, aturdindo e ofendendo o boticário por sua mesquinhez.

Na frente do tal estabelecimento, Sullon percebeu que alguns homens o olhavam com uma profunda compreensão enquanto que algumas mulheres não faziam questão de esconder o asco que sentiam. Um tanto inocente, Sullon resolveu entrar.

A visão do local tocou, de leve, o sino de seus instintos, fazendo-o entender que tipo de curandeirismo seu amigo consumia naquele lugar. As mulheres, das mais variadas formas e raças, vestiam uniformes provavelmente encantados com algum feitiço de invisibilidade mal sucedido, já que seus corpos estavam completamente à mostra.

Uma Bosmer com muitos dentes, pinturas e skoomas, aproximou-se do Arquimagistrado.

— Em que posso ajudá-lo?

Uma parte de sua mente dizia-lhe que aquilo era uma perda de tempo, mas seus músculos não obedeciam e a outra parte de sua mente o ignorou quando respondeu à Bosmer:

— Uma curandeira amiga de Fjorn.

A Bosmer deixou uma gargalhada escapar por entre seus dentes como um soco interno.

— Roxanny. Ela atende no terceiro quarto à direita, no segundo andar.

Sem entender por que suas pernas não lhe obedeciam, Sullon caminhou até o misterioso quarto, parou e bateu. A porta se abriu e o Dunmer foi recepcionado por um par de seios enormes que desafiavam as leis da física de Nirn, além de emitirem um estranho brilho rosado.

A Breton que surgiu atrás dos gêmeos inusitados deixou um sorriso sensual e divertido iluminar seu rosto antes de responder:

— Um creme à base de uma fórmula de levitação.

Roxanny deu um passo para o lado abrindo mais a porta para que o seu novo cliente entrasse, mas Sullon calculou que eles quatro não caberiam dentro daquele quarto minúsculo.

— Entre. — Ela indicou uma mesa com uma cadeira.

O mago se sentou e viu que a dançarina trancara a porta à chave.

— Você é curandeira?

— É disso que você precisa?

Instintivamente, Sullon olhou para a manopla dwemer cobrindo seu braço direito.

— Posso? — perguntou ela, apontando para o pedaço de armadura.

Sullon removeu a Wraithguard e esticou o braço. A Breton tocou sua mão gentilmente e uma nuvem negra invadiu seu rosto quando viu o machucado do mago.

— Não é uma cicatriz muito bonita. Dói?

Sullon confirmou silenciosamente. Roxanny examinou a ferida e declarou:

— Está amaldiçoada. De todo jeito possível. Onde foi que você se machucou assim?

— Uma história que prefiro não contar.

Ela balançou a cabeça como quem entende perfeitamente que algumas histórias não devem ser contadas. Percebendo que o rosto da dançarina carregava algum conhecimento, Sullon perguntou:

— Você pode fazer alguma coisa?

— Oh, sim. Muitas coisas. Não vou lhe prometer que você ficará curado para sempre. Mas creio que consigo diminuir sua dor a ponto de se tornar suportável sem afetar mais a sua vida.

Um feixe de esperança e alívio iluminou por um momento o rosto do cansado e dolorido Dunmer.

Agilmente, Roxanny abriu um armário de onde saiu uma pequena mesa de alquimia e muitas prateleiras com jarros cheios de ingredientes. Pegou um recipiente com um ungüento esbranquiçado e aplicou nos seios. Lentamente, eles se penduraram como deveria ser. Ela tirou o excesso da substância com um papel e pediu licença para se lavar. Nesse momento, Sullon percebeu, pela primeira vez, que havia uma porta atrás da mesa que dava para um lavabo. Talvez o minúsculo quarto estivesse com alguns encantamentos de ilusão que não percebera antes.

Quando Roxanny voltou, Sullon aproveitou para conseguir mais informações:

— Seu quarto é maior do que aparenta. Interessante que eu não tenha notado antes.

Ela sorriu e explicou:

— Já fiz parte da guilda dos Magos e da Grande Casa Telvanni.

Como se uma lufada de vento o houvesse empurrado, a surpresa de Sullon fê-lo bater levemente com as costas no encosto da cadeira.

— Mas foi por pouco tempo em ambas — explicou ela.

Quando o mago fez menção de puxar ar para perguntar alguma coisa, Roxanny colocou um dedo sobre os lábios dele e emitiu um ruído pedindo silêncio. Do armário de alquimia, ela pegou um recipiente de madeira com dois espaços côncavos e separados, entregou para o mago segurar com a mão direita e a posicionou abaixo dos seios. Sentou-se no colo dele e guiou a mão esquerda dele para o meio de suas pernas. Sullon prendeu a respiração.

Uma penugem leve, porém insistente, cobria a carne úmida do local para o qual sua mão havia sido convidada. Quando seus dedos alcançaram uma pequena abertura, Sullon tateou a membrana há muito rompida e concluiu que muitos necessitados estiveram ali antes dele.

Gentilmente, ela pressionou a mão do mago contra seu corpo e ele entendeu o que deveria fazer, deixando dois de seus dedos escorregarem para dentro da pequena abertura.

Com movimentos firmes, porém gentis, Sullon observou quando a Breton emitiu um gemido alto e dos seus seios jorraram um líquido branco que rapidamente encheu os dois espaços côncavos do recipiente de madeira que ele ainda segurava.

Ela sorriu, afastou sua mão, recolheu o recipiente com o líquido branco, dirigiu-se para a pequena — ou grande, Sullon não saberia dizer — mesa de alquimia, pegou um pedaço de papel e o entregou para que limpasse as mãos. Em seguida, começou a preparar um bálsamo misturando vários ingredientes que ele não quis tentar adivinhar.

— Quem foi seu padrinho na Casa Telvanni?

— Neloth.

— Nunca ouvi falar de nenhuma aprendiz Breton chamada Roxanny.

— Esse não é meu nome verdadeiro.

— E qual é o seu nome verdadeiro?

A Breton sorriu enigmática. Sullon prosseguiu:

— Mesmo assim, tenho certeza de que teria chegado ao meu conhecimento alguém como você.

— Eu tive um caso com Aerin que durou alguns anos.

— Não sei quem é esse.

— Exatamente. — Ela sorriu. — E não é "esse", mas "essa". É uma ladina.

Sullon assentiu como se aquilo realmente explicasse tudo.

— Como você agüentou ser aprendiz do Neloth?

— Colocando leite materno no chá dele sem ele saber e depois ouvindo: "Mande aquela mocinha Breton preparar o meu chá do jeito que eu gosto".

Da boca de Sullon saiu uma tosse ou um latido ou uma risada, ninguém saberia classificar, mas que definiu perfeitamente sua emoção diante da história.

— Você realmente trabalha aqui como curandeira?

— Às vezes. Na maior parte do tempo, são homens que não conseguem usar sua vara de pescar. Minhas poções e loções resolvem o problema deles.

De repente, Sullon lembrou-se de seu amigo.

— Fjorn tem problemas de impotência? — E, na mesma hora, corrigiu-se: — Não, não! Não quero saber!

— Fjorn tem problemas de fígado.

— Era de se esperar.

— Está pronto. Erga seu braço.

Sullon obedeceu e Roxanny colocou um recipiente com o bálsamo em cima da mesa. Tirou quantidades consideráveis e aplicou com delicadeza por toda a mão e braço do mago ferido.

— É só isso?

— Não. — Ela sorriu.

A Breton sentou-se novamente no colo do mago, colocou o braço ferido entre seus seios e usou estes dois para esfregá-lo.

— O que é isso?

— O tecido mamário possui a temperatura correta para ativar o bálsamo através de sua pele.

Depois de um tempo que o Dunmer não saberia quantificar, percebeu que estavam mais próximos e que uma sensação muito agradável se espalhava pelo seu corpo advinda do meio de suas pernas. Olhou e viu que suas calças estavam abaixadas e seu membro cinza escuro perdera-se dentro da abertura úmida de antes.

— Não use mais feitiços de ilusão comigo. Vou pagar muito bem por esse serviço, quero presenciar tudo — ordenou.

— Sim, senhor. — Ela sorriu.

Por mais inacreditável que fosse, a dor havia diminuído e restava quase uma sensação de alívio enquanto os enormes seios da Breton ainda massageavam seu braço ferido.

Roxanny aproximou-se para beijá-lo, mas mudou de idéia quando percebeu que não seria recíproco. Sentiu-se estranha, não sabia por quê, mas a indiferença dele a incomodou.

Com o braço esquerdo, Sullon a apertou contra si e os movimentos de ambos tornaram-se mais rápidos e desesperados. Não demorou muito para que os gemidos deles ecoassem como um só e os dois se separassem novamente.

Roxanny levantou-se e foi para o lavabo. Sullon levantou-se e tomou a liberdade de pegar alguns papéis do armário para se limpar. Quando ela retornou, ele já estava arrumado e usava a Wraithguard. A dançarina guardou o que sobrara do bálsamo em um pote de vidro e o entregou.

— Você pode aplicar sempre que se sentir demasiado desconfortável ou vir aqui para eu aplicar, mas fique tranqüilo porque esse desconforto não vai acontecer com freqüência.

— E a temperatura?

— Serve com qualquer par de seios. Mas se você quiser voltar...

Sullon assentiu meio constrangido.

— São 8 mil e 900 drakes — declarou a Breton sem o menor pudor.

— Tudo isso por uma sessão de 5 minutos de sexo?

— O sexo foi cortesia. E não foram só 5 minutos.

Contrariado, Sullon entregou à dançarina-curandeira a pequena sacola de pano que trazia com 10 mil drakes, e avisou:

— Mil e cem drakes são pelo leite no chá do Neloth.

FIM.

Um Presente para Elsa Fjorn

Serviçais perambulavam apressados servindo bebidas e petiscos para os quatro ilustríssimos convidados e suas respectivas guardas pessoais que se aglomeravam no salão principal da mansão. Era um momento tenso para os empregados, pois cada convidado tinha suas preferências gastronômicas, e servir a comida errada para um deles poderia lhes render semanas trabalhando nas minas de ovos de Kwama. No entanto, escapava-lhes que o Arquimestre da Casa Redoran era um duro brutamontes que possuía um coração mole. Ele os ameaçava, mas jamais mandara nenhum deles para as minas. Na maior parte do tempo, ele estava fora, ajudando seus amigos de uma maneira mais violenta; e deixava todas as responsabilidades domésticas para Lady Greta, sua esposa. Mas depois do nascimento da jovem Elsa, Fjorn precisou resignar-se de sua vida perigosa e voltar para casa. Pelo menos por enquanto.

O Arquimestre da Grande Casa Redoran apareceu no salão com um ar solene. Fazia apenas dois meses que sua filha havia nascido, mas todas as preocupações de anos vindouros já lhe arqueavam as costas com o peso de uma responsabilidade que ele postergou o máximo que pôde.

— Amigos... — disse o Nord com seu vozeirão.

O falatório cessou e todos os convidados voltaram-se para ele. Alguém puxou uma salva de palmas e Fjorn aguardou humildemente com um meio sorriso no rosto até que o salão se silenciasse.

— Primeiro, quero que vocês saibam que a presença de todos vocês aqui hoje é um presente mais para mim do que para Elsa.

— Você nunca se livrará de nós — disse Telvarys.

— É o que eu espero — comentou Fjorn para o Arquimagistrado. — Sei que temos muitos anos pela frente — disse dirigindo-se a todos —, mas quando fico sozinho de madrugada lá fora, aguardando o alvorecer, minha vida inteira passa diante de mim e todas as memórias me parecem tão frescas e recentes... Mas já faz o quê? Dez anos? Mais?

— Treze anos — disse Augustus.

— Treze anos — continuou Fjorn. — E não parece que se passou isso tudo. Para mim, é como se o ontem e o hoje estivessem juntos, embaralhados. Mas ao mesmo tempo, eu continuo acumulando calos, cicatrizes e rugas que me lembram, todas as manhãs, quando o sol nasce, que o tempo continua passando firme e forte. Que nunca parou de passar.

Um clima pesado instalou-se no salão e todos os convidados beberam um gole de suas bebidas para ajudar a engolir o nó que começou a se formar em suas gargantas. Fjorn continuou:

— Ontem eu estava por aí matando dremoras, hoje sou pai. Tenho uma família, uma grande responsabilidade. Mas também tenho responsabilidades com a Grande Casa Redoran e com vocês todos.

— Nenhum de nós vai exigir que você abandone sua família, Fjorn — disse Augustus lançando um olhar de soslaio para Telvarys e Sullon. — A família sempre vem em primeiro lugar.

— Eu não me importaria de avançar por aquela porta e me jogar na primeira aventura que aparecesse com vocês — continuou Fjorn. — Acredite, ainda quero muito me juntar a vocês para esmagar alguns crânios. Mas também não posso ignorar que tem uma pessoinha que vai depender muito de mim por vários anos ainda.

— Peça o que quiser de nós, Arquimestre — disse Telvarys já adivinhando do que se tratava a enrolação do Nord.

— Cuidem da minha filha se alguma coisa acontecer comigo — despejou de uma vez e deu um suspiro aliviado.

O salão preenchido pelos líderes mais poderosos de Morrowind silenciou com o peso que aquele pedido carregava.

Entretanto, todo o clima foi arruinado – para o bem ou para o mal – quando a porta arreganhou-se e a tempestade de areia invadiu o salão juntamente com um guarda Redoran e uma Bosmer vestida de preto. Os convidados protegeram o rosto como puderam: alguns com as mãos, outros com magia. Um guarda ajudou o segundo a fechar a porta e a poeira baixou aos poucos.

Agora todos os olhares se voltavam para a Bosmer vestindo um horroroso elmo de couro cozido de Netch com um par de óculos que lhe conferiam uma gigantesca cabeça de formiga, e uma grande mochila de couro nas costas.

— Sempre atrasada... — resmungou Augustus.

— E sempre tentando ser o centro das atenções — comentou Telvarys.

— Sinto muito — começou a elfa retirando o elmo. — Tive um probleminha em casa com uma infestação de dois insetos que eu tive que exterminar. Perdoem qualquer fedor. Eu mirei no coração, mas pegou no intestino... Argh.

Alguns dos convidados respiraram fundo e massagearam as têmporas. Outros, beberam suas bebidas de uma vez e mandaram os serviçais encherem as canecas novamente.

— Eu me lembrava de você mais educada — comentou Augustus.

— E eu me lembrava de você mais magro.

O semblante do Cavaleiro do Dragão Imperial fechou-se como o céu avermelhado da Montanha, e ele imediatamente levou a mão à barriga que se avantajava por baixo da cota de malha do Lord, perfeitamente polida.

— E a menina, cadê? — continuou a Bosmer. — Já está com quantos anos? E os namoradinhos?

— Pelos Oito Divinos... — resmungou Telvarys tapando os olhos.

Faldrien, o Mestre Ladrão, que até então mantivera-se em silêncio, soltou uma risada aguda. Augustus balançou a cabeça negativamente. As mãos de Sullon tornaram-se levemente iluminadas quando ele aqueceu seu chá. Já Fjorn ficou rosado como os Nords costumam ficar no calor ou quando se aborrecem.

— Olhe, Kláxia, você é bem-vinda, mas minha boa vontade tem limite — disse o anfitrião.

— Desculpa, eu não quis ofender — disse a elfa erguendo os braços num gesto de paz. — Trouxe presentes para ela, mas não sei se vão servir.

— Antes de qualquer presente — começou Augustus —, nós deveríamos fazer um juramento.

— Juramento? — perguntaram Fjorn e Kláxia ao mesmo tempo.

— Ora, todos nós aqui vamos cuidar de sua filha caso um infortúnio aconteça – que os Divinos lhe tenham em boa graça e lhe reservem um futuro feliz –, mas para o desencargo da consciência de todos, seria melhor que nós fizéssemos um juramento.

— Não precisa disso tudo — disse o Nord. — Eu confio na palavra de vocês.

— Se confia em nossa palavra — começou o Cavaleiro —, então nosso juramento selará qualquer dúvida, de qualquer um, a qualquer momento da História.

— Não vejo problemas em um juramento — disse Telvarys.

Todos assentiram em concordância.

— Então que se faça esse juramento — disse Fjorn. — Mas como se faz um juramento?

Augustus desembainhou a Chrysamere e apontou-a para o chão.

— Nada melhor do jurar aos pés da espada que é mais velha do que todos nós nesta sala somados — disse o Cavaleiro.

Faldrien, que não era de muitas palavras ou paciência, caminhou para o meio do salão e ajoelhou-se. Augustus apoiou a lâmina da espada no ombro do Mestre Ladrão.

— Diga o seu nome completo — começou Augustus — e repita "... sob os olhos vigilantes de todos os Divinos, do Tribunal, de todos os Lords e Princes Daedra, e de todos aqueles que se foram, juro que protegerei Elsa Fjorn a qualquer custo, a qualquer momento e em qualquer lugar. Se eu falhar em minha missão, que minha vergonha seja tão colossal quanto toda a existência dos Planos".

Faldrien encarou-o espantado.

— Um pouco exagerado, não acha? — perguntou o Mestre Ladrão.

— Olhe nos olhos de nosso amigo Fjorn e diga que acha um exagero proteger a filha dele — respondeu Augustus.

Faldrien engoliu em seco, respirou fundo e começou:

— Eu, Faldrien Alvalorn, sob os olhos vigilantes de todos os Divinos, do Tribunal, de todos os Lords e Princes Daedra, e de todos aqueles que se foram, juro que protegerei Elsa Fjorn a qualquer custo, a qualquer momento e em qualquer lugar. Se eu falhar em minha missão, que minha vergonha seja tão colossal quanto toda a existência dos Planos.

O Cavaleiro fez a Chrysamere pular de um ombro a outro do Bosmer duas vezes antes de baixá-la. Faldrien se levantou e voltou para seu canto com um semblante meio contrariado.

O Arquimagistrado da Casa Telvanni foi o segundo. Logo após ele, Sullon pronunciou seu juramento.

Então todos olharam para Kláxia e a elfa hesitou.

— Serve se for só meu primeiro nome? — perguntou ela. — Não gosto de distribuir meu nome de família por aí.

— Se não jurar com seu nome, vai jurar com o quê? — perguntou Augustus.

Kláxia caminhou até o Cavaleiro e se ajoelhou diante dele que pousou a espada em seu ombro.

— Eu, Kláxia – que estou aqui diante de todos vocês; que deixei meu coração nas mãos de alguns de vocês diversas vezes; que fui embora em corpo várias vezes, mas nunca em alma; que sempre voltei para vocês apesar de tudo; que odiei vocês várias vezes e também fui odiada por vocês várias vezes –, sob os olhos vigilantes de todos os Divinos, do Tribunal, de todos os Lords e Princes Daedra, e de todos aqueles que se foram, juro que protegerei Elsa Fjorn a qualquer custo, a qualquer momento e em qualquer lugar. Se eu falhar em minha missão, que minha vergonha seja tão colossal quanto toda a existência dos Planos.

Augustus fez a espada pular de um ombro a outro e a afastou. A Bosmer se levantou e ficou perto de Faldrien.

— Agora é minha vez — disse o Cavaleiro entregando a espada para o anfitrião.

Fjorn pousou a espada no ombro dele com as mãos trêmulas. A Chrysamere era lindíssima e já tinha presenciado de tudo e mais um pouco que o mundo havia para oferecer. E, naquele momento, mais um pedaço da história de Homens e Mer seria gravado na essência da espada.

Augustus fez seu juramento recitando cada palavra como se ditasse um manuscrito, coisa que fez os olhos dos dois magos Telvanni se revirarem nas órbitas.

Assim que o Cavaleiro terminou, Fjorn devolveu-lhe a espada e tentou esconder os olhos marejados.

— Tem mais algum drama ou podemos começar a entregar os presentes? — perguntou Kláxia.

Augustus fingiu não ouvir, mas os demais deram graças aos Divinos mentalmente por aliviar um pouco o clima extremamente pesado e solene.

— Eu começo — disse Faldrien tirando um embrulho pesado do bolso e dirigindo-se até o anfitrião. — Para a jovem senhorita da Grande Casa Redoran, trago jóias. — E entregou-lhe três braceletes de pedras preciosas que brilhavam de maneira estranha.

Rapidamente, Telvarys cruzou o salão e agarrou um dos braceletes.

— Não quero ser descortês — começou o Arquimagistrado —, mas não acho que um filhote humano deveria andar por aí com um colar encantado com Captura de Almas.

Fjorn encarou o Mestre Ladrão com o típico semblante aborrecido dos Nords.

— Eu não entendo nada de magia — disse Faldrien se desculpando. — Peguei o que era brilhante e bonito.

Telvarys, Sullon e Augustus massagearam as têmporas. Kláxia riu enquanto devorava alguns canapés que um serviçal trouxe.

— Mais alguma coisa que eu deva saber? — perguntou o anfitrião.

— Este aqui — começou Telvarys —, está encantado com Fortificação de Velocidade, Acrobacia, Força, Atletismo, Corpo-a-Corpo e Tiro.

Com os olhos arregalados, Fjorn devolveu o bracelete para o Mestre Ladrão.

— Tenho certeza que Greta não vai gostar nada, nada de nossa filha usando... isso — disse o Nord.

— Não conheço Lady Greta tão bem assim — disse Telvarys —, mas também tenho certeza de que qualquer filhote em posse desse bracelete seria uma criatura mais infernal do que um Lord Daedra.

— E esse último? — perguntou Fjorn ao Arquimagistrado.

— Rá! Acho que é um bom presente — disse Telvarys. — Está encantado com Curar Doença Comum e Blight, e Restaurar Saúde e Fadiga.

Fjorn balançou a cabeça em concordância e sorriu para o Bosmer.

— Muito obrigado, Faldrien. Greta vai adorar.

Faldrien sorriu um tanto contrariado novamente e guardou os outros dois braceletes no bolso.

De repente, Kláxia cuspiu sua bebida.

— O que é isso? — perguntou ela.

— Sua bebida preferida, segundo me disseram: inhame de cinzas, comberry, marshmerrow e álcool — respondeu Fjorn.

— Isso aqui não é A Canção de Ninar dos Cadáveres — disse ela bebendo um gole de Flin para limpar o gosto ruim. — Está faltando Moon Sugar!

— Substâncias criminosas não entram nesta casa — disse Fjorn, categórico.

Kláxia girou completamente o corpo sobre a ponta dos pés como se estivesse desfilando e sustentou um sorriso falso quando parou encarando o anfitrião com um olhar inquisitivo.

— Com algumas exceções — completou Fjorn encarando os dois ladinos.

Ela bebeu a caneca toda de Flin e disse:

— Bom, vamos aos meus presentes.

A Bosmer abriu sua grande mochila de couro e começou a tirar itens aleatórios e colocá-los sobre a mesa.

— Onde estão...? — comentava para si mesma enquanto tirava mais e mais quinquilharias da mochila que parecia não ter um fundo. — Ah, aqui estão! Um cobertor para ela se proteger do frio. Comprei – sim, eu comprei! – em Mournhold. Disseram que é importado de Skyrim.

— Frio? — comentou Telvarys. — Aqui em Morrowind?

— Em qualquer lugar — respondeu Kláxia. — O cobertor não discrimina nenhum tipo de friagem.

Augustus respirou fundo e bebeu sua bebida toda de um gole só. Faldrien riu. Sullon assou melhor alguns canapés. Telvarys balançou a cabeça negativamente.

— Obrigado, Kláxia — disse Fjorn. — Elsa ainda é muito jovem, sente mais frio mesmo.

— Tem mais. Livros! ABCs para os Bárbaros; A Flecha Negra; o livro Azul e o livro Amarelo dos Enigmas; As Cinco Estrelas Longínquas; Homilias da Abençoada Almalexia; A Esperança do Redoran; e o Livro Sem Nome.

— Você provavelmente não quer sua filhote lendo o Livro Sem Nome, Arquimestre — disse Telvarys.

— Por que não? — perguntou Kláxia aborrecida. — É um excelente livro sobre como matar alguém com apenas uma faca!

Augustus respirava profundamente várias vezes. O restante já havia desistido. Fjorn devolveu o livro.

— Já são muitos livros, Kláxia, obrigado.

— Tenho mais presentes! Uma aranha dwemer já devidamente desativada. A menina precisa de algo para brincar, não é?

— Uma boneca de pano já seria de bom tamanho — disse Fjorn.

— Ah, mas fique com a aranha para decoração então.

— Obrigado, Kláxia. Não precisa de mais nada.

— Mas eu tenho mais!

Fjorn encarou-a com uma súplica, mas ela não se importou.

— Uma última coisa. Mandei preparar esta adaga de ébano cravejada com pérolas, para quando ela crescesse, sabe. Mas tem um problema...

Assim que a Bosmer tirou a adaga da bainha, um odor terrível inundou o salão. Todos taparam os narizes como conseguiram: alguns com magia; outros com a mão.

— Eu estava terminando de poli-la quando dois insetos invadiram minha casa e... Tripas, intestinos... Enfim. Olha, acredito que dê para usá-la, mas você vai precisar lavar muito bem. Eu limpei, mas pelo visto não foi suficiente.

Fjorn fez um gesto para ela guardar a adaga e entregar para um dos guardas que saiu correndo do salão em direção à tempestade que ainda estava forte. Dois guardas fecharam a porta mais rápido do que antes e ninguém sofreu tanto com a areia.

— Obrigado, Kláxia, de verdade.

Augustus fez um sinal para seus guardas trazerem o caixote para o meio do salão e abrirem-no. Entre as palhas, várias superfícies metálicas refletiam todas as lamparinas do local.

— Meu presente para a senhorita Elsa — começou o Cavaleiro —, só lhe será útil quando ela for adulta. Como todos demonstramos hoje, não temos jeito com crianças. Mas quero que saiba que sempre o tive em alta estima e fiz o meu melhor para presentear sua filha.

— Vocês fizeram mais do que eu poderia pedir. Obrigado a todos, de verdade — disse o anfitrião.

Augustus afastou as palhas e ergueu, uma por uma, as partes de uma armadura completa de aço e prata cravejada com várias pedras preciosas complementadas com detalhes de arabescos em ouro. No centro da placa do peitoral, o símbolo de Fjorn entalhado com ouro e minúsculos diamantes. E, para acompanhar, um machado de batalha com duas lâminas laterais que lembravam a forma de uma borboleta de asas abertas, também carregando o símbolo de Fjorn entalhado, mas sem ouro ou pedras preciosas. Mesmo assim, não deixava de ser uma arma que arrancou suspiros de todos no salão.

— Bah! Mas assim você vai me deixar com inveja da pequena, tchê! — disse Fjorn. — Que conjunto lindo, Augustus! Muito obrigado! Greta não vai gostar muito porque ela quer que Elsa seja uma dama respeitável e se case logo, mas acho que a pequena vai seguir os passos do pai — completou, orgulhoso.

— Então a pequena guerreira Nord já tem o que vestir — disse Augustus.

Telvarys fez um gesto para um de seus apredizes entregar uma caixa mediana de madeira para o anfitrião.

— Aí estão os sais de gelo e de fogo, a resina comum, a resina de shalk e a receita para embalsamar órgãos — contou o Arquimagistrado.

— Obrigado, meu amigo. Greta vai ficar muito feliz.

Telvarys sinalizou para outro aprendiz que entregou um embrulho de pano. Fjorn desenrolou e revelou uma grande boneca de pano que brilhava de maneira mágica.

— Confeccionada pelo melhor alfaiate de Vvardenfell — começou Telvarys —, encantei essa boneca para conversar com sua filha e cantar cantigas de ninar, cantigas educacionais, motivacionais e divertidas; e também para contar histórias com princípios morais, éticos e cívicos. Possuindo um acervo de milhares de obras e cantigas, acredito que será uma companhia de longa data para sua filhote.

— Muito obrigado mesmo, Arquimagistrado! Mas como ativamos a boneca?

— Ela responderá à voz de sua filha automaticamente.

— Então teremos que esperar um ou dois anos até termos certeza de que ela não vai explodir — disse Fjorn, e em seguida completou: — Sem querer ofender.

— Vou deixar passar, Arquimestre. Mas não, a boneca não está encantada com nenhum feitiço de fogo, explosões, gelo, choque e nada que possa fazer mal. São apenas cantigas e histórias. A boneca só vai falar.

Sullon aproximou-se de Fjorn e entregou-lhe um pequeno embrulho. O Nord desenrolou os panos e encontrou um cinto brilhante e uma caixinha de madeira.

— Este cinto está encantado com Resistência a Fogo, Choque e Magicka — disse o Nerevarine. — Decidi encantar um cinto porque assim pode ser ajustado ao corpo dela durante toda a vida e todas as mudanças pelas quais ela passar.

Fjorn ia abrir a caixinha, mas Sullon deteve sua mão.

— E na caixa — continuou —, tem esporos de cogumelos gigantes. Ela pode semear em qualquer lugar e uma cidade inteira crescerá. A jovem Elsa poderá ter seu próprio povo, se quiser; não apenas uma fortaleza.

Fjorn sorriu com os olhos marejados novamente.

— Vocês fizeram tanto por mim hoje, que eu não sei nem o que dizer. Muito, muito obrigado mesmo. — E apertou o ombro do Nerevarine.

Um serviçal entrou no salão e anunciou que Lady Greta e a infante estavam prontas para receber os visitantes.

Exceto pelos guardas que aguardaram no salão, todos seguiram Fjorn para uma sala menor onde sua esposa encontrava-se sentada ao lado de um berço onde uma bebê loira dormia em paz.

O Nord entregou a caixa de madeira que foi um presente do Arquimagistrado para a esposa, e Telvarys se aproximou da Nord para explicar que a receita estava junto dos ingredientes e perguntar como a mulher havia conservado o órgão. Ela agradeceu e disse:

— A placenta está no porão, num barril cheio de álcool, como o senhor recomendou.

— Quando for embalsamar, deixe o álcool evaporar naturalmente, sem assoprar, sem panos e, definitivamente, sem usar fogo — explicou o Arquimagistrado. — Depois, é só seguir a receita que tudo dará certo. Se precisar de ajuda, posso deixar um de meus aprendizes aqui para auxiliá-la.

— Muito obrigada, senhor, mas não será necessário. Nós também temos um alquimista aqui na fortaleza. Não quero dar-lhe mais trabalho.

— Não seria trabalho nenhum, senhora, mas se prefere assim...

— Por que quer embalsamar sua placenta? — perguntou Kláxia, exteriorizando a dúvida de muitos ali.

— É um ritual antigo de meu povo. Quando fazemos doze anos, nossas mães nos levam para os pés da maior e mais antiga árvore em nossa cidade natal e enterramos a placenta como um símbolo de ligação com a terra. Assim como viemos a este mundo através de uma placenta, partiremos através dela para o solo — explicou a Nord. — Costumamos desidratar a placenta ao sol e salgá-la, mas não sobra muito depois de mais de uma década. Com a receita do senhor Arquimagistrado, acredito que a maior parte se salvará.

— Certamente — disse Telvarys. — Se não tudo, então a maior parte. Mas aposto que a placenta inteira ficará perfeitamente conservada.

De repente, o breve silêncio foi interrompido por um ruído agudo como guinchos e oco como milhares de patas.

— Vocês estão ouvindo isso? — perguntou Kláxia.

Todos concordaram e olharam ao redor procurando a origem do som.

Os serviçais subiram as escadas gritando e correram em direção às saídas. Foi possível ouvir o som das dezenas de espadas e machados sendo desembainhados no salão principal. Augustus segurou o punho da Chrysamere. Kláxia e Faldrien puxaram suas adagas. Fjorn agarrou um machado de guerra que ornamentava uma das paredes e se pôs entre a mulher e a filha, e a porta. Sullon desembainhou sua katana. E Telvarys usou um feitiço para esquadrinhar a mansão.

— Pelos Oito Divinos... — comentou o Arquimagitrado. — Milhares de ratos. No porão, arranhando e roendo um único barril.

O casal de Nords se entreolhou.

— O cheiro da placenta atraiu os ratos? — perguntou Fjorn.

— Não aos milhares — disse Telvarys. — Isso está com cara de magia. Uma energia muito densa e pesada.

Então centenas de ratos invadiram a saleta como um exército caótico subindo pelas paredes, derrubando objetos e móveis e correndo em direção ao berço. Lady Greta agarrou a filha e começou a gritar enquanto subia em uma cadeira. Telvarys fez uma barreira ao redor das duas enquanto o restante cortava, perfurava, socava, chutava e estraçalhava os ratos. No entanto, todo o esforço parecia em vão porque os ratos não paravam de brotar por todos os lados.

Algumas das pestes tentavam entrar dentro da barreira, mas depois de várias tentativas fracassadas, juntaram-se num lado e empilharam-se umas sobre as outras para chegar ao topo.

— Mas que bruxaria é essa? — gritou Augustus retalhando a pirâmide de ratos que só crescia.

— Temos que evacuar a mansão! — disse Sullon enquanto fritava uma torrente de ratos que jorrava pela porta.

Os guardas conseguiram abrir caminho até a saleta, mas os ratos continuavam se multiplicando.

— Lady Greta, desça da cadeira e caminhe à minha frente até a porta principal — disse Telvarys. — Não se preocupe, não vou interromper a barreira.

No entanto, a Nord não parava de gritar agarrada à bebê que a encarava com os olhos arregalados, mas sem medo.

— Arquimestre — gritou Telvarys. — Precisamos sair!

Fjorn chutou e pisou nos ratos até alcançar sua mulher e filha na cadeira.

— Pare de gritar, mulher! Temos que sair da mansão! Desça já daí!

Lady Greta desceu da cadeira com muita dificuldade por causa dos gritos que ela não silenciou e por causa de uma violenta tremedeira.

Com muita dificuldade, o grupo e os guardas abriram caminho até a porta do salão principal e conseguiram sair da mansão.

Do lado de fora, a tempestade havia passado e o céu estava limpo. Todos se juntaram na praça da fortaleza num círculo, lutando para impedir os ratos de atacarem a família de Fjorn.

— Arquimagistrado, o que demônios é isso? — berrou o Nord enquanto esmagava o crânio dos ratos com sua bota de aço.

— Uma energia maligna — respondeu Telvarys. — Uma força incompreensível. Uma entidade corrompida.

Sullon encarou o mago Telvanni por um momento e alguns ratos subiram-lhe pelas vestes. O Nerevarine fatiou-os e, aos poucos, aproximou-se do Arquimagistrado.

— Você tem certeza que é ele? — perguntou Sullon.

— Estas bestas estão loucas — começou Telvarys. — Ele é o único que consegue deixar qualquer um insano. — Com uma mão, ele mantinha a barreira mágica envolvendo mãe e filha, e com a outra mão ele congelava os ratos que tentavam escalá-lo. — Além disso, ele ainda se sente ligado a nós. Ainda pensa em nós. Ainda nutre sentimentos.

— Como você sabe disso? — perguntou Sullon.

— Ele tem tentado me visitar em meus sonhos, mas minhas barreiras mentais o impedem de se aproximar.

— De quem vocês estão falando? — gritou Fjorn. — Quem está por trás desse maldito ataque à minha família?

Imediatamente, os ratos abandonaram o grupo e seguiram em direção ao portão frontal, para fora do muros da fortaleza.

— O que foi isso? — perguntou Augustus, ofegante.

— Algo me diz que vamos descobrir logo — respondeu Telvarys.

— Bah! Malditos magos! Parem com o mistério! — gritou o Nord. — O que aconteceu aqui?

Telvarys tirou a barreira das duas.

— Está tudo bem agora, Lady Greta — disse ele. — Os ratos não vão mais voltar.

A mulher soluçava e tremia como se tivesse sido abandonada na neve de Solsthein. Guardas mantinham as armas em punho caso algo mais acontecesse. Alguns serviçais tentavam tranqüilizar a patroa.

Do lado de fora da fortaleza, bem em frente ao portão, um grupo de Ascended Sleepers formavam um círculo e emitiam um ruído estranho. Os ratos corriam ao redor das criaturas em duas fileiras: uma girava no sentido horário e a outra no sentido anti-horário.

Um guarda atirou uma flecha em um das criaturas da Montanha, mas uma barreira mágica se revelou destruindo a seta.

Alguns guardas, todos os serviçais e a família de Fjorn continuaram no meio da praça enquanto o grupo se aproximava do portão apenas o suficiente para ouvir o que os Sleepers estavam falando. No entanto, a voz não era de nenhum deles. Soava do ar, do tempo, do momento.

"Um novo ciclo começa e com ele as esperanças se renovam", dizia a voz misteriosa. "Mesmo numa guerra absoluta, a trégua carrega consigo a semente do recomeço".

— Que ladainha é essa? — reclamou Fjorn.

— Contem logo o que vocês sabem — disse Augustus encarando os dois magos Telvanni.

— Não precisamos — disse Telvarys com um semblante sério.

"A Montanha dá as boas-vindas à juventude, à evolução, à mudança, ao renascimento", prosseguiu a voz. "De um lado, a vida mundana; do outro, a bênção incompreendida. Ele esperou por séculos para abençoar o mundo com um novo olhar. Eu posso esperar milênios. Um dia, todos aceitarão a Corprus como o único caminho correto".

— Dagoth Devullian... — sussurrou Augustus.

— Bah! Maldito demônio traidor! — rosnou Fjorn.

Com exceção dos dois magos, todos ergueram suas armas se preparando para atacar.

— Eles têm um poderosíssimo escudo — começou Telvarys. — Se vocês forem burros o bastante para atacar, podem causar uma explosão e destruir tudo.

— O que vamos fazer então? — gritou o Nord. — Deixar que eles nos amaldiçoem com aquela praga?

— Se assim Dagoth Devullian quisesse, nós não estaríamos aqui conversando — respondeu o Arquimagistrado.

— E o que demônios ele quer então? — gritou ainda mais alto.

— Ouça.

"Este mundo será meu, mas ainda não o é", prosseguiu a voz. "E, por isso, ofereço algo que vocês chamariam de presente, mas eu chamo de infortúnio. A jovem vida que veio a este mundo será imunizada contra a Corprus. Uma exceção que eu jamais repetirei".

— Do que o traidor está falando? — perguntou Fjorn.

Os dois magos se entreolharam. Telvarys falou:

— Dagoth Devullian quer realizar um feitiço para que a senhorita Elsa nunca contraia a Corprus.

— Isso é impossível — disse Augustus.

— Não se ele assim o desejar.

— E por que ele iria querer fazer algo assim depois de ter traído a todos? — continuou o Cavaleiro.

— O coração da Montanha é solitário — respondeu Telvarys. — Dagoth Devullian ainda possui um resquício de quem foi.

— E vocês acreditam nisso? — berrou Fjorn.

A barreira se ampliou o suficiente para incinerar as duas fileiras de ratos e acabar com aquela visão macabra. Em seguida, diminuiu e desvaneceu expondo o círculo de Ascended Sleepers que ainda emitiam um ruído baixo.

"O Nerevarine pode adentrar o círculo com a criança", disse a voz de Dagoth Devullian que pairava no ar. "Qualquer outro que adentrar o círculo terá um abençoado e doloroso fim".

— Ninguém vai levar minha filha para essa loucura! — gritou Fjorn, furioso. — Agora volte para a sua maldita cova e nunca mais ponha os pés nas minhas terras, monstro traidor!

— Tecnicamente — começou Telvarys —, eles não estão na sua terra, mas do lado de fora dela.

Fjorn rosnou, o rosto vermelho como as tempestades da Montanha.

— Estão perto demais! Agora sumam daqui, aberrações!

— Pense bem, Arquimestre — disse Telvarys. — Uma imunidade contra a Corprus seria uma das melhores coisas que poderia acontecer à sua filha. Sua fortaleza fica perto demais da Montanha. E, lembre-se, apenas Sullon foi curado. Fyr ainda não encontrou uma cura para ninguém mais. Apesar de tudo, acho que deveria aceitar.

— Por que você acredita nesse maldito demônio?! Ele quer matar minha filha!

— Para que se dar a esse trabalho?

— Um exército, sei lá!

— Com a sua filhote? — continuou Telvarys. — Como a senhorita Elsa poderia lutar se ainda nem desmamou?

— Ele quer sacrificá-la para conseguir um exército!

— Ele já tem um exército, Arquimestre. Pense direito. Mesmo se tudo der errado na vida dela, sua filha nunca se tornará um monstro. Não foi isso pelo que juramos? Proteger sua filha de todo o mal a qualquer custo?

— Mas ele não jurou! — disse o Nord apontando para o grupo de criaturas.

— Mas Sullon, sim. Eu também. E enquanto nós dois estivermos aqui, Dagoth Devullian não poderá machucar sua filha.

O rosto de Fjorn contraiu-se em desgosto. Ele queria imunizar sua filha contra aquela doença horrível, mas a idéia de que o contrário poderia acontecer era muito aterrorizante.

— Como vocês podem me garantir que ele não vai infectar minha filha?

— Ele não precisaria disso tudo se quisesse infectar a jovem — respondeu Telvarys. — E, para ele, seria mais vantajoso infectar todos nós, poderosos magos e guerreiros, e não uma bebê que ainda nem consegue andar.

— Se alguma coisa acontecer...

— Nada de ruim vai acontecer — assegurou Telvarys. — Hoje é o dia da senhorita Elsa receber presentes. E este é o maior presente de todos.

O Nord observou sua esposa ainda trêmula carregando a menina nos braços.

— Tenho que conversar com Greta.

— Ela nunca vai aceitar — disse Telvarys.

— Você quer que eu tome minha filha dos braços da mãe à força?

— De jeito nenhum. Eu vou com você.

Os dois se afastaram do grupo. Telvarys caminhava firme, e Fjorn caminhava pesado, como se não agüentasse mais o peso da armadura que carregou por quase toda a vida.

— Isso é loucura — disse Faldrien, e para Sullon: — Eles vão matar vocês dois.

— Eu concordo com o Arquimagistrado — comentou Sullon. — Tem algo diferente. Esse não parece o mesmo Dagoth Devullian que controla a Montanha. É como se ele não estivesse mais tão... deformado.

— E eu que achava que gostava de viver perigosamente — comentou Kláxia.

Lady Greta gritou quando Fjorn tentou tirar Elsa de seus braços. Telvarys tocou o ombro da mulher com a mão levemente esverdeada. A esposa do Arquimestre imediatamente se acalmou e deixou o marido levar a criança.

Os dois se aproximaram do portão.

— Se algo de ruim acontecer com a minha filha — começou Fjorn —, a nossa amizade acaba aqui.

— E a nossa também — disse Augustus para os dois magos.

Faldrien e Kláxia se entreolharam e deram alguns passos para trás.

— Nenhuma amizade vai acabar — disse Telvarys. — Nós juramos também e não quebraremos nosso juramento. Nada de ruim acontecerá à senhorita Elsa.

Fjorn entregou a filha para Sullon. O mago a segurava com o excesso de cuidado típico dos inexperientes, e caminhou lentamente até o círculo de Ascended Sleepers que se abriu para recepcioná-los.

Assim que os dois adentraram o círculo, este fechou-se e as criaturas entoaram um cântico macabro. Fjorn avançou rosnando, mas Telvarys e Augustus o seguraram.

As criaturas dançaram em volta do Nerevarine e da bebê que encarava tudo com os olhos arregalados. Em seguida, deram-se as mãos fazendo luzes coloridas emanarem de seus corpos, e então atiraram as luzes em direção ao centro do círculo.

Por um momento, o mago e a criança foram envolvidos numa tempestade de luzes caóticas que desvaneceram até desaparecer completamente. As criaturas abriram o círculo e deixaram os dois saírem. Assim que o Nerevarine entrou na fortaleza, os Ascended Sleepers vagaram para o horizonte e desapareceram abruptamente.

Fjorn tomou a filha nos braços. Ela o encarou e riu puxando a barba do pai.

— Como ela está? — perguntou o Nord para os dois magos.

Augustus, Kláxia, Faldrien e Telvarys se aproximaram.

— Não detecto nada de errado com ela — disse o Arquimagistrado. — Ela me parece perfeitamente bem. Se quiser, posso mandar um curandeiro de confiança para examiná-la.

— Faça isso — disse Fjorn

.

Lady Greta correu até eles e agarrou a criança.

— Minha bebê! O que eles fizeram com você? — disse chorando. — Se alguma coisa acontecer com minha filha... — E voltou-se aborrecida para o marido: — Vou ter uma conversinha com o senhor depois. — E seguiu para perto dos serviçais que a acompanharam de volta para a mansão junto com alguns guardas.

— A criança está bem — assegurou Telvarys. — Dagoth Devullian fez o que disse que ia fazer e nada mais.

— Veremos — disse Fjorn um pouco amargurado.

Todos se despediram do anfitrião num clima desagradável e seguiram viagem para as suas respectivas cidades.

27 de Evening Star – 3E 422

Augustus, vestido com um avental impecável, desceu até a cozinha de Ebonheart onde todos os quatro convidados se encontravam. Dispensou os funcionários e mandou um dos guardas trazer um animal com cuidado.

— O que estamos fazendo aqui, Augustus? — perguntou Kláxia que arremessava as pequenas facas para cortar legumes nos sacos de batata que se empilhavam num canto.

— Por que 'tá vestido assim? — perguntou Fjorn já um pouco embriagado das garrafas de conhaque cyrodiílico que encontrara na despensa.

— Nosso aniversariante chegará à noite — começou o cavaleiro. — Como eu não sei mais o que dar de presente para um mago secular, nós todos vamos assar um bolo especial.

Os quatro se entreolharam com expressões de incredulidade, deboche, confusão e impaciência. Augustus continuou:

— E honestamente, na nossa idade, presentes não importam mais. O que importa são as boas intenções.

— Por que não contratou um cozinheiro? — perguntou a Bosmer.

— Porque não seria especial. Assim nós mostraremos a nosso amigo o quanto esse dia significa para nós.

— O que tem de especial em assar um bolo? — perguntou Devullian, o rosto e a voz tão jovens após o renascimento que davam um ar cômico ao mago depois de tudo o que aconteceu.

— A intenção é especial, Devullian.

— E qual é a intenção? — perguntou Fjorn.

— Demonstrar que nos importamos.

— Considerando nossas habilidades culinárias — começou Telvarys —, demonstraríamos mais consideração se contratássemos o melhor cozinheiro de Morrowind.

Os outros assentiram em concordância.

— É precisamente por isso que eu vou preparar o bolo e vocês vão somente me auxiliar.

— E desde quando você sabe cozinhar? — perguntou Kláxia.

— Desde Cyrodiil. Minha família é famosa por nossa culinária.

Os quatro se entreolharam novamente com desconfiança.

— Vocês vão se acovardar por causa de um bolo? — provocou o Imperial.

Os quatro gemeram, rosnaram e resmungaram, mas decidiram que não devia ser tão difícil assim.

— Capaz — disse Fjorn. — É só juntar um monte de coisas, amassar tudo e tacar fogo. Brincadeira de criança.

— Vou fingir que você não acabou de ofender todos os cozinheiros do mundo — disse Augustus com uma careta aborrecida.

— E todos os alquimistas — completou Telvarys.

— Bah, frescura — disse o Nord rindo. — E aí, o que eu tenho que socar?

— Não vamos sovar nada hoje — respondeu o Imperial. — É um bolo, não um pão.

— Isso vai ser tão divertido que eu vou acabar desmaiando de tédio... — comentou Devullian.

Um guarda entrou puxando um guar pela coleira com a maior delicadeza possível. O animal não apresentava resistência, mas queria investigar todas as portas que encontrava, e o guarda precisava puxá-lo em direção à cozinha. Augustus apontou um canto, o guarda prendeu a coleira do animal num gancho na parede e saiu.

— É um bolo ou um churrasco? — perguntou Fjorn mais animado. — Porque se for um churrasco...

— Essa é a Jumentina — disse Augustus. — Ela também vai nos ajudar a fazer o bolo.

Kláxia deu um grito que se transformou numa risada aguda, começou um engasgo e terminou numa tosse seca.

— Como é o nome dela? — perguntou a Bosmer quase chorando.

— A Jumentina está conosco há muitos anos — contou Augustus ignorando a elfa. — Já é praticamente uma mascote de Ebonheart.

— Ju... Jumen... — balbuciou Kláxia tentando suprimir as risadas.

— A Jumentina daria um ótimo churrasco — comentou Fjorn. — Só acho.

O cavaleiro ignorou todas as provocações e começou a espalhar os utensílios sobre uma mesa. Olhou para o Arquimagistrado da Casa Telvanni e disse com seriedade:

— Preciso de doze ovos de cliff racer.

— Boa sorte — respondeu o Altmer.

Sem se dar por vencido, o Imperial completou:

— Existe um ninho em cima do telhado do castelo. Vá lá pegar.

Telvarys encarou os outros três procurando pela mesma incredulidade que crescia dentro de si.

— Ele pediu a você — disse Devullian com um sorriso debochado.

Telvarys voltou-se para o Imperial.

— Por que não pediu aos seus guardas?

— Oras, você não sabe voar? Então voa lá, bruxão.

O Arquimagistrado congelou inundado por uma perplexidade que fê-lo questionar a realidade.

— Eu não deixava — disse Devullian com uma risadinha no canto dos lábios.

Fjorn escondeu o sorriso. Kláxia já estava sentada no chão gemendo e secando as lágrimas que lhe escorriam por tentar conter as risadas.

— Vocês têm muita sorte que isso tudo é para Sullon, porque caso contrário... — disse o Altmer deixando a frase no ar. Em seguida, pronunciou um feitiço de levitação e saiu voando pela janela.

Augustus encarou Devullian e Kláxia, e ordenou:

— Vocês dois me tragam um balde de leite de guar.

Primeiro, o Dunmer e a Bosmer se entreolharam sem expressão. Depois, os dois encararam a Jumentina que estava quietinha onde o guarda a havia deixado.

— Defina "leite" — disse Kláxia.

— Líquido que sai das mamas de algum animal.

— Como assim? — perguntou Kláxia. — Você está nos dizendo que guares têm tetas?

— Isso. Vocês vão ordenhar a Jumentina.

Kláxia não sabia se ria ou se chorava. Devullian já havia desistido de questionar os acontecimentos, era mais fácil só aceitar que o mundo estava diferente. Fjorn bebia o conhaque como se nada mais importasse.

— Vamos, peguem aquele balde ali e aquelas duas banquetas.

Os dois pegaram tudo, colocaram o balde debaixo da barriga da guar e sentaram um de cada lado do animal.

— Não tem teta aqui, Augustus — comentou a Bosmer.

— Esfreguem o pescoço dela e falem com jeitinho que ela vai colocar as mamas para fora.

— Eu me recuso a seduzir um guar — disse Kláxia segurando o riso e as lágrimas. — Fjorn, venha aqui enlaçar a Jumentina pela cintura e sussurrar coisas românticas no ouvido dela.

— Não mexam na barriga dela — disse Augustus. — É uma região sensível. Apenas esfreguem o pescoço dela e conversem um pouco.

— Venha, Fjorn — disse Devullian.

— Bah, por que eu?

— Porque não vou ser eu — respondeu o Dunmer.

— Porque você é o único que já 'tá bêbado — disse Kláxia. — Todo esse álcool já lhe preparou para essa ocasião especial. O trauma será menor.

O Nord se aproximou do animal e esfregou o queixo. A guar abanou a pontinha da cauda.

— O pescoço, Fjorn — disse Augustus.

O guerreiro esfregou o pescoço da guar que ronronou baixinho e abanou a cauda com mais intensidade.

— Converse com ela — disse o Imperial.

— Oi, Jumentina.

Kláxia tapou o rosto com as duas mãos para não rir.

— Tudo bem contigo? — continuou o Nord.

A guar se animou um pouco.

— Fale mais o nome dela — ordenou Augustus.

— A Jumentina é mansinha. Não é, Jumentina? Tu é mansinha.

Kláxia gemeu. A guar relaxou um pouco ronronando mais alto. Devullian desviou o olhar para não encarar a vergonha alheia. Augustus tentou fingir que não queria rir.

— Quem é essa menina boazinha? Quem é? É a Jumentina! — disse Fjorn com a voz em falsete e esfregando o pescoço do animal com mais força. — Cadê a Jumentina boazinha? Cadê? Achou!

Kláxia não agüentou e caiu no chão rindo.

— Diga que não tem ninguém igual a ela — ordenou o Imperial suprimindo uma risada.

— A Jumentina é a única menina boazinha de toda Morrowind. Não tem ninguém igual a Jumentina. Quem é a fofinha mais fofa de todas? É a Jumentina!

Kláxia se contorceu tanto de rir que acabou deixando escapar um pum.

— Querida — começou Devullian —, vire sua arma biológica para o outro lado.

— Ainda bem que as janelas estão abertas — disse Augustus um pouco incomodado.

— Bah, que decepção. Tem que bufar poderosamente igual uma ruína Dwemer, senão não vale.

Enquanto Kláxia tentava se recuperar, as dobras da barriga da guar se afastaram gentilmente revelando um úbere com seis nódulos rosados e protuberantes cobertos por uma fina penugem laranja.

— Oouunn! — gemeu a Bosmer voltando a se sentar na banqueta. — As tetinhas são ruivinhas. Que gracinha!

— Já posso parar? — perguntou Fjorn mal-humorado.

— Sim — disse Augustus, e para os outros: — Ordenhem todos os seis mamilos. Senão pode dar um tumor.

O Dunmer e a Bosmer puxaram os mamilos com nervoso e nojo. O leite azul começou a gotejar no balde e um odor enjoativo tomou o ambiente. Os dois emitiram ruídos de repulsa. Fjorn gargalhou se sentindo vingado e pegou mais uma garrafa de conhaque da despensa. Augustus petiscou umas fatias de pão para esconder que também estava rindo.

Telvarys entrou voando pela janela com vários ovos dentro das mangas da túnica. O Imperial o ajudou a descarregar tudo com cuidado sobre a mesa. O Arquimagistrado encarou a cena ainda mais estupefato do que antes.

— O mundo não é mais o mesmo — comentou.

— Quebre os ovos um por um naquela tigela e vá me passando — ordenou o cavaleiro.

Contrariado, Telvarys obedeceu. Augustus bateu todos os ovos em neve com uma colher de pau, acrescentou gordura de javali e açúcar de marshmerrow, e misturou novamente até formar um creme homogêneo.

O Dunmer e a Bosmer encheram o balde depois de ordenharem todos os seis mamilos da guar.

— Terminamos de molestar a Jumentina — disse Devullian. E para si mesmo: — Essa frase vai ficar comigo para sempre...

— Ótimo, já estava mesmo na hora de acrescentar o leite — disse o Imperial. — Fjorn, traga o balde aqui.

O Nord depositou o balde ao lado da mesa e voltou a se inebriar com o conhaque. Augustus acrescentou o leite aos poucos na massa conforme Telvarys ia jogando farinha dentro da tigela. Assim que a massa ficou pronta, o Imperial despejou-a numa fôrma, encaixou outra por cima e entregou ao Arquimagistrado.

— Segure por baixo. Devullian, venha, coloque suas mãos em cima.

Devullian se aproximou entediado e colocou as mãos na fôrma de cima.

— Agora vocês dois usem sua magia de fogo para assar o bolo todo por igual bem rapidinho. Vamos.

— Gastar magicka para assar um bolo? — comentou Devullian.

— Vocês podem dizer pra Sullon que literalmente assaram o bolo dele. Vamos, vamos. Ainda temos que fazer o recheio e a cobertura.

Os dois magos assaram o bolo, afinal depois do que tiveram que fazer, gastar um pouco de magicka seria a menor das humilhações.

Augustus perfurou o bolo com um palito para averiguar se estava pronto e mandou depositarem a fôrma sobre a mesa para esfriar. Em seguida juntou numa outra tigela a nata do leite que se acumulava no topo do balde e bastante açúcar de marshmerrow.

— Agora resfriem o glacê enquanto eu bato.

Os dois magos se resignaram e simplesmente obedeceram. Congelaram de leve a tigela enquanto o Imperial batia a mistura azulada que aos poucos adquiria consistência.

Kláxia sentou-se ao lado de Fjorn, puxou o conhaque de sua mão, bebeu alguns goles e devolveu a garrafa. Jumentina havia se deitado e cochilava com um ronco baixo.

Assim que o glacê ficou pronto, o cavaleiro mandou que congelassem um pouco mais a tigela para que a cobertura se mantivesse firme até a hora de decorar o bolo. Em uma panela juntou mais açúcar de marshmerrow, leite de guar, folhas de hackle-lo trituradas e geléia de scrib, e mandou os magos aquecerem enquanto ele mexia. Assim que o recheio engrossou, o Imperial passou o bolo para uma elegante bandeja de prata, cortou-o latitudinalmente em três e preencheu duas camadas com o recheio.

— Alguém quer lamber a panela?

Apesar do cheiro bom, todos recusaram. Fjorn e Kláxia ainda dividiam as garrafas de conhaque, Jumentina dormia e os dois magos aguardavam novas ordens entediados.

O cavaleiro aplicou a cobertura por todo o bolo e decorou a parte de cima com um círculo de bagas de comberry. Ao centro, colocou apenas 1 vela pois não havia espaço para 130 delas.

— E está pronto! — disse o Imperial.

Todos gemeram aliviados.

— Quanto ao restante do banquete — começou Augustus —, Fjorn fica a cargo do churrasco com espetinhos de mudcrab e bife de nix hound. Telvarys o ajuda com o fogo. Kláxia e eu vamos enrolar os docinhos enquanto Devullian os mantêm gelados.

Exceto por Fjorn que se animou em preparar o churrasco, todos resmungaram contrariados.

— Quando a gente vai terminar issoooooooooo? — perguntou Kláxia já alterada pelo conhaque.

— Quando todos pararem de reclamar e derem o melhor de si. Quanto mais empenhados, mais rápido terminamos.

O Altmer e o Nord foram para o pátio reservado para a celebração preparar o churrasco enquanto a Bosmer, o Imperial e o Dunmer enrolaram 1000 docinhos preparados com mais uma quantidade diabética de açúcar de marshmerrow, comberries trituradas e amido de inhame das cinzas, e os empilharam em várias bandejas de prata.

Quando terminaram, colocaram tudo sobre a mesa no pátio. Era o fim da tarde e os guardas já haviam acendido as tochas. Uma brisa agradável circulava pelo local.

Logo depois o aniversariante chegou e todos gritaram "surpresa!", mas Sullon apenas deu um sorriso por obrigação social.

— Eu já sabia que você sabia — disse Augustus. — Mas não fizemos isso tudo para ser surpresa.

— E eu já sabia que vocês sabiam que eu sabia — disse o Nerevarine.

— Por favooooooooooor — disse Kláxia ainda bêbada —, não vamos complicar iiiiiiiiiiisso. Cadê o booooooolo?

Augustus puxou Sullon para perto da mesa e indicou o bolo.

— Preparamos um bolo especial para você.

Sullon encarou o bolo sem muito ânimo.

— Obrigado. Mas o que tem de especial nesse bolo?

— Você não sabe o que tivemos que fazer para prepará-lo, querido — disse Devullian.

Augustus finalmente deu uma gargalhada e despejou tudo:

— Telvarys subiu no telhado para roubar ovos de um ninho de cliff racers igual um trombadinha da guilda dos ladrões...

— "Roubar" é uma palavra muito forte — disse o Altmer. — E não foi como um trombadinha, e sim com a elegância de um mago versado na escola de alteração.

— Fjorn seduziu uma guar falando coisas românticas para ela...

— Ei! — protestou o Nord. — Não foi bem assim!

— Devullian e Kláxia molestaram sexualmente a guar...

— 'Pera lá, Imperial — disse o Dunmer. — Apesar de eu ter usado a palavra "molestar", foi uma simples ordenha.

— E Kláxia soltou um peido que foi ouvido até em Dagon Fel.

A elfa deu uma risadinha.

— Em defesa da Bosmer — começou Fjorn —, nem se podia chamar aquilo de peido.

— Caramba — disse Sullon. — Vocês fizeram tudo isso por mim? Estou tocado.

— Vamos cantar Parabéns e partir o bolo — disse Augustus.

— Parabéns nããããããããooooooo.

Fjorn começou com seu vozeirão:

— Com quem será? Com quem será?

— É o Parabéns primeiro, Fjorn — disse Augustus. E começou a bater palmas e cantar: — Parabéns para você...

— Com quem será que o Sullon vai casar?

— Nesta data querida...

— Nãããããããããooooooo — gritava Kláxia tapando os ouvidos.

Telvarys e Devullian se entreolharam com expressões de horror. Sullon continuava inexpressivo observando o desenvolvimento daquele fenômeno epilético.

— Vai depender, vai depender...

— Muitas felicidades...

— Paaaaaaaareeeem! — gritou Kláxia e se escondeu debaixo da mesa.

— Vai depender se a Yuna vai querer...

— Muitos anos de vida!

— AAAAAAAAHHHHHHH!

— Ela aceitou, ela aceitou...

— É pique, é pique. É pique, é pique, é pique...

— Tiveram dois filhinhos e depois se separou...

— É hora, é hora. É hora, é hora, é hora...

— Socooooooooorrooooo.

— Passou um mês, passou um mês...

— Ra! Tim! Bum!

— Passou um mês e se casaram outra vez!

— Sullon Aryelni! Sullon Aryelni! Sullon Aryelni!

Augustus e Fjorn aplaudiram por mais alguns minutos. Kláxia ainda estava escondida debaixo da mesa tapando os ouvidos. Telvarys e Devullian ficaram transparentes, mas não era feitiço e sim vergonha alheia.

— Que lindo — disse Sullon ainda inexpressivo.

— Agora vamos partir o bolo — disse Augustus.

— 'Tá louco, Imperial? — disse Fjorn. — É o churrasco primeiro.

— Os docinhos depooooooooois... — disse Kláxia debaixo da mesa.

— Isso — confirmou Fjorn. — E por último o bolo.

— Podemos comer tudo ao mesmo — disse Sullon. — Churrasco com bolo e docinhos.

— Bom, se o aniversariante falou, então 'tá falado — disse o Nord. — Peguem seus pratos.

— Vamos partir o bolo primeiro então — disse Augustus.

— Não, a carne vai primeiro no prato — insistiu Fjorn.

— Uma fatia de bolo é maior e ocupa mais espaço — disse o cavaleiro.

— É porque tu não viu o tamanho do meu bife, Imperial — disse o guerreiro com uma voz ameaçadora.

— Já vi maiores e mais suculentos.

— O que tu quer dizer com isso? — perguntou Fjorn confuso sobre o teor da conversa.

— Não sei, o que você quis dizer antes?

— Eu sempre vejo bifes que sangraaaaaaam — disse Kláxia em meio a uma gargalhada debaixo da mesa. — Mas eu só como bem passadoooooooo. — E deu outra gargalhada.

— Olha a criminosa — disse Fjorn. — Tem que ser levemente malpassado. Com uma casquinha por fora e suculento por dentro.

— Bem passadoooooooooo!

— Eu não vou cometer esse crime para ti, Bosmer.

— O negócio é comer cru, como os vampiros fazem — disse Devullian.

— Para contrair uma doença? — comentou Telvarys.

— Bem passadoooooooooo!

— É só tomar uma poção para resistir a doenças — respondeu Devullian.

— E poção pra indigestão, tem? — perguntou Augustus.

— Capaz — disse Fjorn —, quem come cavalo não tem indigestão.

— Bem passadoooooooooo!

— Cavalo não é nada — disse Augustus. — O que raios é um nix hound? E a gente come esse trem como se fosse super normal.

— Rapaz, leite de guar — disse Fjorn.

— Não têm uma vaca, uma cabra... — completou Augustus.

— Bem passadoooooooooo!

Já sem muita paciência, Telvarys mirou num bife na churrasqueira e liberou uma torrente de fogo que fez a carne estalar, contorcer-se e encolher até quase virar um pedaço de carvão.

— Bah, pra que a violência, elfo?

O Altmer colocou o ex-bife num prato e entregou para Kláxia debaixo da mesa. A Bosmer comeu sem talheres mesmo, fazendo força para arrancar pedaços pequenos com as unhas, mas pelo menos se calou.

— Obrigado, meu amigo — disse Devullian.

— Não tem por onde.

— Cadê Sullon? — perguntou Augustus.

O Nord e o Imperial olharam ao redor procurando.

— Na mesa, com 100% de chameleon — respondeu o Arquimagistrado.

Na cabeceira da mesa, um garfo flutuava levando comida que desaparecia a uma certa altura. No prato se encontravam espetinhos de mudcrab, bifes, docinhos e uma fatia de bolo.

— Não! — gritaram Fjorn e Augustus ao mesmo tempo correndo para a mesa.

— O que você comeu primeiro? — perguntou o cavaleiro.

— Era para ter comido a carne primeiro! — reclamou o guerreiro.

— Docinhoooooooooos!

Antes que os gritos recomeçassem, Devullian colocou um punhado de docinhos numa caneca vazia que foi o recipiente mais próximo que encontrou e entregou para a Bosmer debaixo da mesa.

— Diga que você comeu a carne primeiro!

— Era para ser o bolo...

— Comi tudo junto — respondeu Sullon, sua voz saindo de um espaço vazio. — Coloquei o bife, o bolo e o docinho na boca e mastiguei tudo de uma vez.

— O que você fez, Dunmer?! — disse Fjorn gritando. — Não é assim que se saboreia uma carne!

— Mas você gostou do bolo pelo menos? — perguntou Augustus.

— 'Tá tudo ótimo, gente — disse o Nerevarine. — Vocês deveriam falar menos e comer mais.

— Como pode uma carne com gosto de bolo e docinho estar ótima??? É uma desgraça mesmo.

Uma garrafa de conhaque flutuou até perto do guerreiro.

— Afogue a desgraça gastronômica no conhaque — disse Sullon.

Fjorn pegou a garrafa, encheu um prato com churrasco e sentou-se à mesa. Os demais encheram seus pratos com as várias comidas e também se sentaram.

Uma mãozinha apalpou a lateral da mesa, agarrou a garrafa de Fjorn e levou para debaixo da mesa. O guerreiro rosnou e Augustus lhe passou outra garrafa.

— Você vai ficar a festa toda debaixo da mesa, querida? — perguntou Devullian.

— A canoa virou, por deixá-la viraaaaaar...

— Por Talos... — resmungou o Nord.

— Foi por causa do Sullon que não soube remaaaaaaar...

— O momento pras cantigas já acabou — disse Augustus.

— Se eu fosse um peixinho e soubesse nadaaaaaaaar...

— É cada um pior do que o outro — comentou Telvarys.

— Eu tirava o Sullon do fundo do maaaaaar...

— Deixem ela — disse Sullon achando engraçado mas sem rir.

— Siriri pra cá, siriri pra lááááááá...

— É tudo muito fofinho — começou Devullian —, mas pelo amor dos Aedra alguém faça ela parar.

— O Sullon não sabe nadaaaaaar!

Augustus cortou uma generosa fatia de bolo, colocou num prato e empurrou para debaixo da mesa. Um silêncio pairou sobre o pátio enquanto todos mastigavam e engoliam em paz.

Percebendo que a vela do bolo estava queimada, Augustus perguntou:

— Quem acendeu a vela?

— Eu — respondeu Sullon voltando a ficar colorido.

— E quem assoprou?

— Eu também.

— Você acendeu sua própria vela e assoprou também?

— Isso.

— Mas você não pode acender sua vela! A gente acende a vela e você assopra. Sempre foi assim.

— Esse aniversário não é exatamente convencional, né — disse o Nerevarine.

— Claro que não — disse Augustus levemente irritado. — Simplesmente porque certas pessoas não sabem se comportar.

— Capaz. Tu que é muito apegado a frescura.

— Gente, 'tá tudo ótimo — disse Sullon. — De verdade. Estou realmente tocado de uma maneira positiva.

— Da próxima vez — começou Telvarys —, essa festa vai acontecer em Tel Aruhn.

Devullian gemeu em concordância enquanto mastigava o bolo.

— Ou na torre que vou mandar construir em Tel Uvirith — contou Sullon.

— Vai sair de Tel Aruhn? — perguntou o Arquimagistrado com um semblante abatido.

— O Nerevarine vai virar homenzinho — comentou Fjorn. — Constrói a torre e casa com Yuna.

Sullon ignorou a provocação e bebeu um gole de chá para ajudar a empurrar a comida.

— O que precisar, é só pedir — disse Telvarys. — E sabe que será sempre bem-vindo em Tel Aruhn, não sabe?

— Sei. Obrigado.

— Pode deixar que dou uma amaciada no Duque — disse Augustus. — Não vai ter nenhuma burocracia para conseguir a licença.

— Obrigado.

Notando o silêncio prolongado que se seguiu, todos olharam debaixo da mesa. Kláxia dormia encolhida no chão com a cabeça sobre um dos braços e babando. Usando de telecinesia, Telvarys colocou a Bosmer num quarto de hóspedes e voltou para o pátio. Eles conversaram até a madrugada, depois se recolheram nos quartos disponíveis e seguiram viagem para suas cidades pela manhã.

Algum dia entre 3E 422 e 423 (18+)

Kláxia acordou com o grasnido dos cliff racers acasalando no topo da torre. Sobre a mesinha de cabeceira, uma pirâmide de vidro projetava um arco-íris na parede com um raio de sol que entrava pela fresta da cortina. Essa era a única luz no recinto. O restante do quarto estava submerso em escuridão graças às grossas cortinas de fibra vegetal importadas de Hammerfell. A temperatura era amena e agradável.

O tecido de seda dos lençóis roçava delicadamente a pele desnuda da elfa, e o braço de Telvarys pesava aconchegantemente sobre a sua cintura. A Bosmer olhou para trás e encontrou-o com um leve sorriso.

— Dormiu bem? — perguntou ele.

Kláxia girou o corpo na direção dele.

— Eu apenas dormi. Coisa que não faço há anos. — E deu um breve sorriso para ilustrar que aquilo era algo bom, mesmo que não parecesse.

O Altmer beijou a testa dela e a aninhou em seus braços. Ela o abraçou e encostou a cabeça no peito dele, ouvindo as batidas do coração.

— Eu também dormi — disse ele. — E também não fazia isso há muito tempo.

— Por que não?

Ele acariciou as costas nuas dela enquanto pensava em todos os motivos pelos quais não podia se distrair, relaxar ou dormir. O toque gelado do metal de seus anéis fazia os pêlos da elfa se arrepiarem levemente.

Depois de um longo tempo sem responder, o mago desistiu de dar uma explicação. A Bosmer não insistiu. Ela teria adormecido novamente ouvindo as batidas do coração dele e sentindo seu perfume se não fosse o sórdido barulho que os cliff racers faziam no telhado.

— Argh. Esses bichos... — comentou ela.

Telvarys deslizou a mão até o quadril e puxou a coxa dela para cima de si. Beijou-a nos lábios e deitou-se por cima dela.

— Podemos erradicá-los — disse ele enquanto distribuía beijos pelo pescoço dela — ou podemos imitá-los.

Kláxia deu uma risada.

— Podemos imitá-los agora e erradicá-los depois — disse ela.

O mago desceu os beijos passando pelos pequenos seios da elfa, seguindo pela barriga e se escondendo debaixo dos lençóis de seda. A elfa abriu as pernas e fechou os olhos.

6 de Sun's Height – 3E 423

A música já não estava tão alta assim no rancho de Fjorn. Era tarde e já haviam cortado o bolo e cantado os parabéns. Sua esposa organizara a festa e convidara metade de Vvardenfell. Quase todos compareceram, exceto as cinco pessoas que ele mais desejava que tivessem aparecido.

Fjorn aguardou a chegada de algum aprendiz trazendo notícias de atrasos ou até mesmo de alguma desgraça, mas ninguém apareceu. Era como se seus amigos tivessem se esquecido ou simplesmente não se importavam.

O Nord bebeu bastante para digerir e mijar o desgosto e a decepção que sentia. Tentou conversar com os demais convidados, mas nada conseguia acabar com essa sensação.

Pediu licença a todos para uma caminhada noturna pelas cinzas das Ashlands. Deu um beijo na esposa e na filha que dormia acompanhada dos servos e de dois guardas.

Andou em círculos ao redor do rancho parando vez ou outra para admirar o céu estrelado. Há muito tempo não havia mais tempestades naquela região e o tempo ficava quase sempre aberto.

Em uma das voltas, Fjorn avistou um amontoado de carne sangrante e aproximou-se para investigar. Um rastro com vários pedaços de um alit recém-morto seguia até uma caverna perto dali.

O Nord empunhou seu machado e seguiu a carnificina. Entrou na caverna e, em vez de encontrar um local escuro, encontrou tochas que iluminavam todo o corredor até perder de vista. Ele continuou seguindo caverna adentro, mas a sensação de perigo foi logo substituída por um sentimento estranhamente familiar.

Algumas vozes cochichavam baixo numa câmara próxima. O Nord tentou ouvir a conversa, mas alguém fez "shhh!" e todos se calaram.

Como esgueirar-se era uma habilidade mal desenvolvida no Nord de força e altura descomunais, ele entrou com tudo na câmara, pronto para rachar o que fosse preciso.

Imediatamente cinco vozes gritaram "surpresa!" e começaram a cantar parabéns num coro desafinado e desarmônico com palmas igualmente descompassadas, mas o sentimento era genuíno e foi isso que aqueceu o coração do brutamontes.

— Bah, vocês me pegaram direitinho. Fiquei achando que não viriam.

— Jamais esqueceríamos, meu amigo — disse Augustus.

— Mas não trouxemos nenhum presente — comentou Sullon.

— Trouxemos comida e bastante cerveja — disse Telvarys.

— A nossa presença já é o presente — disse Kláxia.

— Quanta arrogância — disse Augustus. — Eu trouxe um presente.

— Mas é claro que o Senhor Boas Maneiras Cívicas trouxe um presente — disse a Bosmer.

O Imperial entregou ao Nord um objeto longo enrolado num pedaço de pano.

— Serve apenas como decoração, mas pedi um dos membros do Culto Imperial para abençoá-la com boa sorte.

Fjorn desenrolou o pano revelando uma espada de stahlrim ornamentada com entalhes de prata e pedras preciosas.

— Bah! Muito linda! Obrigado, meu amigo. Vou mandar pendurar na parede da sala.

Telvarys colocou seis canecas em cima da mesa e encheu com cerveja. Cada um pegou uma e ergueram num brinde.

— À saúde e longevidade de nosso amigo Fjorn — disse o Altmer.

Os outros repetiram os dizeres e todos tocaram suas canecas.

— Antes que vocês se intoxiquem com todo esse álcool — começou Devullian —, temos uma coisa a fazer.

O Dunmer tirou um bolo de cartas de dentro de sua bolsa e depositou sobre a mesa.

— Buraco — disse ele. — Melhor de três.

Todos se animaram e puxaram as cadeiras para o centro. Fizeram duplas: Sullon e Devullian, Fjorn e Telvarys, Augustus e Kláxia.

O jogo teria corrido bem se não fosse a Bosmer que esperava o lixo acumular para comprar várias cartas de uma vez e forçar todos a uma pausa enquanto ela arrumava tudo. Durante essas pausas, os demais aproveitavam para comer e beber. O raciocínio deles já começava a ser afetado e apenas Telvarys percebeu que talvez esse fosse o plano da Ladina. Então o Altmer parou de acompanhar os demais na cerveja.

Sullon e Devullian ganharam a primeira rodada. Telvarys e Fjorn ganharam a segunda graças a uma tática do Altmer. Na terceira, assim que Kláxia comprou o lixo, Augustus bateu, para a surpresa de todos.

— Como assim você bateu? — perguntou a Bosmer.

— Bati, uai. Pode conferir.

— Mas eu acabei de comprar o lixo, Augustus. Não se pode fazer uma coisa dessas com seu parceiro.

— Era a última rodada — começou o Imperial —, já está amanhecendo e a senhorita passou a noite toda comprando o lixo e não chegou perto de bater nenhuma vez.

— E agora eu vou fazer o que com esse monte de carta? — perguntou num tom indignado.

— Faz um castelo, tchê — disse Fjorn.

A elfa lançou-lhe um olhar tão afiado quanto as adagas que ela carregava na cintura.

— Da próxima vez — começou Devullian recolhendo o baralho —, não compre tanto do lixo, querida.

Os cinco acompanharam Fjorn de volta ao rancho e cumprimentaram a esposa que já começava a se preocupar com a ausência do marido. Como já era dia, Greta convidou todos para o café-da-manhã. Descansaram até o meio-dia, almoçaram, jogaram sinuca com o aniversariante e depois todos se despediram e pegaram um silt strider para casa.

6 de Sun's Height – 3E 424

Era perto do meio-dia e a praça no rancho de Fjorn já havia sido varrida e arrumada para a festa quando os dois magos chegaram. Uma longa mesa havia sido disposta um pouco afastada do centro para permitir o livre trânsito dos garçons, funcionários, guardas e da principal atração da festa. Sob a ordem de Fjorn, empregados guardaram na varanda do casarão o caixote e o barril que os dois magos haviam trazido com os presentes.

— Parabéns, meu amigo — disse Telvarys abraçando o imenso Nord. — Que Ysmir lhe abençoe com força, coragem e sabedoria para lidar com as mazelas da vida.

— Obrigado, meu amigo. Fico feliz que vocês tenham vindo. Mas e Sullon?

— Está realizando uma pesquisa em Black Marsh — respondeu o Arquimagistrado. — Mas mandou seus cumprimentos.

De trás do guerreiro surgiram Greta e Elsa, a pequena segurando a boneca de pano que Telvarys havia dado quando ela nasceu.

— Mas já está andando? — comentou o Arquimagistrado. — Como o tempo passa rápido.

A menina sorriu tímida e se escondeu atrás da mãe.

— Bom dia, senhores — disse Greta.

— Bom dia, senhora. Cumprimentos da Casa Telvanni — disse fazendo uma mesura.

Devullian o acompanhou no gesto cordial.

— Venham, sentem-se — disse o Nord levando-os até as mesas. — Daqui a pouco Augustus traz a comida.

— O Imperial está aqui? — perguntou Devullian.

— Chegou de madrugada com uma tropa de cozinheiros e assistentes que parecia uma procissão. Eu falei que nós temos panelas e talheres, não somos bárbaros, mas ele fez questão de trazer a cozinha inteira de Cyrodiil. O casarão tá um caos, por isso Greta mandou arrumar tudo aqui fora de uma vez.

Fjorn puxou a cadeira para sua mulher e filha e depois se sentou.

— Algum entretenimento? — perguntou Devullian. — Ou vamos só comer como no aniversário de Sullon?

— A Bosmer tá pra chegar por aí.

— Você deixou Kláxia responsável pela atração da sua festa? — perguntou o Altmer.

— Ela se ofereceu. Nós já temos muita coisa pra fazer. Vai dar nada não.

— Eu ficaria preocupado, meu amigo — disse Telvarys — No mínimo.

— Discordo — falou Devullian. — Pressinto que será inesquecível.

— Assim vocês vão me deixar preocupado — disse Fjorn olhando para Greta e Elsa.

— Não acredito que ela vá arranjar algo perigoso — comentou o Arquimagistrado. — Mas ela não é conhecida pelo bom senso.

Ao longe, o ruído inconfundível de uma centena de cliff racers se fez audível. Os guardas desembainharam suas armas. Fjorn colocou a mão no machado. Todos olharam para cima, mas tirando a nebulosidade natural das Ashlands, o céu estava limpo.

— De onde tá vindo isso? — perguntou o Nord.

— Da estrada — disse o Arquimagistrado usando um feitiço de detecção de fauna.

— Como assim da estrada? — perguntou Fjorn. — Os bichos estão desfilando?

— Vieram a pé lhe dar os parabéns pessoalmente — comentou Devullian.

Kláxia adentrou o portão principal acompanhada de um Dunmer que segurava uma corrente. Não tardou para que muitos cliff racers surgissem com coleiras, acorrentados uns aos outros, usando as articulações das asas como apoio para andar no chão.

— Fjorn! — gritou a Bosmer se aproximando. — Parabéns! Que você tenha uma vida tão longa que acabe mais enrugado que uma larva de Kwama e morra todo cagado dormindo confortável na sua cama!

— Bah...

Diante da perplexidade de todos, a ladina colocou a bolsa numa cadeira e chamou o Dunmer que aguardava perto do portão rodeado por guardas Redoran.

Lentamente o Dunmer se aproximou seguido por uma fila indiana de cliff racers que gritavam e se bicavam a cada passo.

— Este é Jiub, um adestrador de cliff racers. Muito conhecido em Vivec.

— É uma honra estar na presença de grandes mestres — disse o Dunmer fazendo uma mesura. — Desejo ao senhor Arquimestre Redoran muitas felicidades. Espero poder entretê-los com estes animais tão fascinantes.

— Obrigado pelas felicitações, Jiub — disse Fjorn. — Quanto ao espetáculo, veremos.

Augustus chegou do casarão seguido por um batalhão de garçons e parou solene perto da mesa, os empregados aguardavam a ordem.

— Mais um ano se passa e passa por nós rumo ao infinito dos Nove Divinos — começou o Imperial. — As circunstâncias que nos uniram há mais de uma década não existem mais, mas o laço de companheirismo e o respeito pelas nossas jornadas individuais continuam.

Um garçom passou pela mesa distribuindo um cálice de licor cirodiílico. Augustus ergueu seu cálice e continuou:

— Que o dia de hoje seja um dentre muitos vindouros. E que um dia nós nos sentemos à esta mesa para celebrar não o aniversário de Fjorn, mas o de seus netos. Parabéns, meu amigo.

Todos beberam de seus cálices. Augustus ordenou que servissem a comida e se sentou também. Fjorn convidou Jiub para se juntar a eles, um dos guardas ficou segurando a coleira dos cliff racers.

Depois de terminarem o almoço, Jiub pediu licença para começar a apresentação. Desacorrentou alguns cliff racers, e os animais ainda agiram por um momento como se continuassem presos. O Dunmer tirou do bolso um apito de metal que não fazia nenhum ruído que fosse perceptível aos ouvidos de homens ou elfos. Imediatamente os animais levantaram vôo e sobrevoaram a praça num círculo pacificamente. Jiub apitou de forma rítmica e os racers fizeram um balé no ar como se fossem outros animais que não os implicantes cliff racers conhecidos de Vvardenfell inteira. Era até relaxante ver os animais bailarem no ar como cardumes em sincronia.

Ele soltou um a um os demais racers que se juntaram ao baile aéreo com um assombroso adestramento. O Dunmer apitava de outras formas e o ritmo mudava. Todos os presentes assistiam à apresentação com um ar de apreciação. A pequena Elsa, ainda agarrada à boneca de pano, parecia maravilhada com o espetáculo, os olhinhos verdes brilhando.

Pacificamente a apresentação seguiu até que uma betty netch passou flutuando perto do portão principal do rancho do lado de fora. O animal parou como se encarasse a trupe de racers com um ar de incredulidade a princípio, que em seguida transformou-se em medo, e liberou feromônios que rapidamente atraiu vários bull netches irritados.

Os cliff racers pressentiram o perigo e saíram da formação de balé para atacar os bull netches que já lhes estendiam os tentáculos. Jiub apitou para que os répteis voltassem para o chão, mas foi ignorado. Com o ódio que lhes era característico assim como a odiosa cauda, atacaram todos os netches e os mataram em poucos minutos.

Os guardas haviam pegado suas armas, mas não sabiam se podiam matar os cliff racers ou não, afinal eram propriedade do Dunmer. Este continuava apitando e sendo ignorado. Assim que os racers terminaram sua matança, escolheram logo os novos alvos de sua ira milenar e avançaram sobre os guardas. Alguns seguiram em direção à mesa. Fjorn, já de machado na mão, avançou sobre eles decepando as caudas.

Telvarys criou um escudo ao redor de Greta e Elsa e as guiou para dentro do casarão junto com os garçons e empregados que fecharam portas e janelas.

Augustus, sem a Chrysamere, demonstrou sua habilidade em arremesso de facas de cozinha e derrubou alguns racers. Kláxia o acompanhou com os garfos, colheres, copos e pratos.

Uma confusão generalizada se instalou no rancho com uma centena de cliff racers atacando descontroladamente. Jiub encarava a situação com um desespero humilhante, pois aquilo nunca havia acontecido em sua carreira. Sua desolação era tanta que nem ao menos se defendeu quando um dos animais avançou sobre ele. Foi salvo pelo escudo de Devullian.

— Isso aqui ficou interessante bem rápido — disse o mago sorrindo. — Da próxima vez você poderia tentar com os Atronachs. Seria um espetáculo inacreditável.

Dentre flechas, golpes de machado, bolas de fogo e talheres, Jiub repensou sua vida toda desde a sua infância, passando pela vida medíocre de crimes, até aquele momento. Quando foi libertado em Vivec, jurou fazer algo de bom em sua vida, algo que trouxesse algum tipo de paz ou alívio para a população de Morrowind.

Sabendo da praga maldita que sobrevoava o país, decidiu dar um uso mais digno para aquelas bestas selvagens, um uso que aquecesse o coração das pessoas e que trouxesse alguma beleza para aquela rotina difícil numa terra tão hostil. Mas de boas intenções o Oblivion estava cheio, então o trabalho de anos e a sua boa reputação foram destruídos por uma pequena, delicada e gelatinosa betty netch.

Assim que não havia mais um único cliff racer de pé, começou uma discussão para encontrar o culpado, liderada pelo Arquimagistrado.

— Eu falei com Fjorn que você não tinha bom senso, mas agora percebo que é totalmente louca — disse ele para Kláxia. — O que passou pela sua cabeça para achar que seria uma boa idéia trazer esses malditos animais para uma celebração?

A Bosmer ignorou o mago e dirigiu-se diretamente ao Nord.

— Fjorn, peço desculpas por colocar a vida de sua família em risco, mas como eles eram adestrados e meus contatos recomendaram esse serviço, eu--

A ladina foi interrompida pela mão de Jiub em seu ombro.

— Não, senhorita, a culpa não é sua.

O Dunmer se aproximou do guerreiro e o encarou nos olhos.

— Senhor Arquimestre, estes animais estavam sob minha tutela e assumo total responsabilidade pelo ocorrido. Esta é sua terra e peço perdão por ter colocado seus empregados, amigos e familiares em risco. Também me coloco à disposição de sua lei para aplicá-la como quiser, apenas gostaria de pedir que me desse a chance de me redimir perante os senhores e toda a Morrowind.

O Nord o encarou pensativo por alguns minutos. Numa outra circunstância, haveria um julgamento que dificilmente seria favorável ao Dunmer. Mas ele sabia que coisas ruins aconteciam mesmo com todas as precauções. Contudo, sua família estava a salvo e, tirando os animais, ninguém havia se ferido. Além disso, aquele elfo estava ali, diante dele, sendo honesto, assumindo sua responsabilidade e pedindo uma chance.

Era seu aniversário e Fjorn queria dar um voto de confiança para aquele trabalhador.

— O que você tem em mente para se redimir, Dunmer?

Jiub o encarava com fúria, não pelo Nord, mas por aqueles animais mais amaldiçoados do que as criaturas do Oblivion.

— Vou exterminar todos os cliff racers nem que eu leve a vida inteira. Não sobrará um maldito réptil voador em toda a Nirn.

Fjorn concordou com a cabeça.

— Audacioso, mas aprovo sua resolução. Vá, Jiub, extermine todos os cliff racers.

O Dunmer fez uma mesura educada para todos e foi embora.

— Melhor do que o scamp que ganhamos no bingo — comentou Devullian quebrando o gelo.

— Você está cuidando direitinho do nosso Pimpolho? — perguntou a Bosmer.

— Só porque você pediu com jeitinho, querida, porque se não fosse isso eu já o teria dissecado.

— Ótimo. Pode deixar que eu não esqueci da minha promessa. Me aguarde no seu aniversário deste ano.

— Aguardarei. Se você não voltar com o tal dispositivo, receberá algumas partes inúteis do Pimpolho por correio — disse Devullian com um sorriso sombrio.

— Bom — disse Kláxia para mudar de assunto —, agora que ficou tudo bem, vamos abrir os presentes?

— Aos presentes — disse Fjorn se sentando cansado.

A Bosmer tirou da bolsa uma garrafa de vidro sem nome ou rótulo e entregou para o aniversariante.

— Hidromel de Skyrim envelhecido em 50 anos. É original, confirmei com toda certeza.

Fjorn sorriu já recuperando o bom humor que a luta havia retirado. Tirou a rolha e tomou um gole.

— Bah! Exatamente o mesmo gosto dos que eu bebia quando era piá! Obrigado, elfa.

Alguns funcionários trouxeram o caixote e o barril dos magos. Devullian foi o primeiro.

— Não é hidromel e nem licor — disse apontando para o barril. — É uma variante do Mazte com erva mate e açaí, mas sem os efeitos negativos. Beba com moderação.

— Bah! Aí sim, meu amigo. Só não vou provar agora para não me empolgar. Obrigado.

Em seguida o Arquimagistrado retirou um machado e um escudo do caixote e entregou para o guerreiro.

— O machado foi reconstituído de uma organização muito antiga chamada Dawnguard. Encantei com um poderoso feitiço de enorme dano contra vampiros. O escudo cria uma barreira mágica que absorve a vitalidade deles.

— Sempre precavido, não é? — comentou o Nord sorrindo. — Muito obrigado, meu amigo.

Augustus aproximou-se de Fjorn e colocou algo pequeno em sua mão. O guerreiro observou o anel e viu que encaixava em seus dedos enormes.

— Uma jóia. Obrigado.

— Não é uma simples jóia. Demorou alguns meses para que meus informantes encontrassem um sacerdote que pudesse encantá-lo. Concede uma bênção de Ysmir à sua escolha toda vez que você realizar uma prece.

— Bah. Muito obrigado — disse com os olhos marejados. — Os deuses foram bons comigo. Obrigado, meus amigos.

Interrompendo o momento solene, Augustus mandou trazer o bolo em formato de escudo. Greta e Elsa se juntaram para cantar os parabéns e foram as primeiras a receber um pedaço de bolo do aniversariante.

Após a comemoração, os convidados passaram a noite no rancho e tomaram seus rumos assim que o sol nasceu.

Capítulo 1

A pequena Bosmer costurava sua armadura de couro quando a imensa cicatriz em seu torso começou a latejar de dor. Ele estava pensando nela, sinal de mau agouro. Sentiu que era observada, olhou ao redor e, na escuridão, atrás de uma cortina, aqueles olhos vermelhos acompanhavam-na. O assassino avançou rapidamente, mas não pôde aproximar-se, caiu morto com um dardo envenenado na garganta.

O Dunmer entrou em seu quarto carregando alguns pergaminhos e viu algo gosmento em cima da cama, uma pequena esfera avermelhada. Era um olho. Desembainhou sua espada a tempo de cortar ao meio uma cabeça que fora arremessada em sua direção. Com o efeito camaleônico desvanecendo, ele pôde ver que ela jogava para cima e pegava de novo, repetidamente, o outro olho.

— Como entrou aqui?

— Como seu assassino entrou em minha casa?

Ele sorriu.

— Cadê o contrato? Eu quero vê-lo — disse ela.

— Estava com ele.

— Não esse. Eu quero o contrato que você recebeu para me matar.

— Sabia que temos regras aqui? Os contratos são sigilosos.

— Está bem. Um dia eu verei esse contrato de qualquer forma. Mas isto é o melhor que vocês têm? É um insulto à minha capacidade.

— Não, pelo visto não é o melhor.

— Seria extremamente injusto com a minha pessoa, depois de tudo o que passei por você, ser assassinada por um aprendiz. Mande-me o melhor que você tem, Govarys.

— Mandarei.

Ela estava de saída quando Govarys Vloulu falou:

— Espere, Kláxia. Como você sabia que tinha um assassino em sua casa?

Ela tocou a cicatriz:

— Dói sempre que você pensa em mim. E o que mais poderia significar quando o Grão-Mestre da Morag Tong pensa em você?

Ela virou-se para sair de novo, mas ele continuou falando:

— Tenho pensado muito em você nos últimos dias.

— Eu percebi. Começou a doer com mais freqüência há pouco tempo. Graças a isso, estou duplamente alerta pela minha vida nesses últimos dias.

— Recebi esse contrato semana passada.

— E esperou uma semana para mandar alguém me matar? O que está havendo? O coração está amolecendo depois de tudo?

— Fico me lembrando de todas as vezes que você me ajudou. Como a recuperar os 26 itens de Sanguine, por exemplo.

Ela não disse nada, ele continuou:

— Mas tem o outro lado da história. Você incomoda muita gente, Kláxia. E ainda há uma taxa pendente por causa daquele banho de sangue em Balmora.

— Larrius disse que cuidaria disso para mim, mas alguém o subornou.

— Corruptíveis, todos eles, eu sei. E também, como Mentora da Guilda dos Ladrões, você roubou muita gente.

— Eu saí. Não pertenço mais à Guilda. Eu até soube que há outro em meu lugar.

— Você poderia ter chegado ao posto de Mestre-Ladra.

— Não. Jim Stacey é melhor nisso do que eu. Talvez o novo Mentor chegue a esse posto.

Govarys sorriu.

— Kláxia, você roubou o Drake's Pride do Neloth.

— E o vendi muito, muito caro.

— Sem contar o Auriel's Bow que você roubou da Therana.

Ela deu uma gargalhada.

— Fiquei rica vendendo aquilo. Vendi mais caro do que uma peça Daedric, acredita?

— E dentre tantos crimes, eu me lembro que você roubou o anel Black Jinx da Dratha...

— E devolvi à Morag Tong. Mais especificamente, a você.

— Todas essas coisas pesam em minha decisão.

— Pelo visto não pesou o suficiente.

Ele ficou sério.

— O contrato vem de cima, entende?

— Imaginava. Algum ancião Telvanni?

— Não.

— Mostre-me o contrato, Govarys.

— É um Imperial. Descubra por si só. E essas lembranças pesaram o suficiente para eu mandar você embora agora, em vez de lhe matar.

Ela sorriu e usou a poção de efeito camaleônico novamente, em seguida proferiu as palavras de um pergaminho e desapareceu.

Capítulo 2

A taverna estava cheia e animada. Havia músicos, muita dança e bebida por todos os lados. Assim que a pequena Bosmer de veste exótica adentrou o recinto, um silêncio mórbido apoderou-se do momento. Todos seguraram a arma mais próxima de si, prontos para retalhar a ladra ao menor sinal de movimento. Kláxia ergueu os braços num gesto de inocência:

— Por favor, eu não vim aqui para roubá-los. Vim aqui apenas para beber com vocês, Nords.

— Você nos chama de Nords como se fosse um insulto.

— Se minha maneira de falar é esnobe, peço perdão. Muito tempo convivendo com Dunmers.

Gargalhadas nórdicas vigorosas ecoaram pelo recinto.

— Uma sujamma para nossa companheira Bosmer!

Kláxia saboreava sua bebida silenciosamente numa mesa no canto contrastando com toda aquela festividade Nord, quando um Bretono de muitos gestos e poses sentou-se à sua mesa sem ser convidado.

— Deixe-me dar-lhe um conselho, Bosmer, é melhor não aparecer numa cidade cheia de imperiais quando há uma recompensa pela sua cabeça.

— Quanto?

— Cinco mil drakes.

— Vou precisar me esforçar mais.

— Ou você é muito corajosa, ou muito burra de vir até aqui. Se um deles lhe achar...

— Estou começando a ficar decepcionada. A Morag Tong me manda o pior. O Império coloca um prêmio miserável pela minha cabeça. Agora diga para mim, como pode uma elfa com as minhas habilidades sofrer tanto desdém assim? Estou seriamente considerando ir embora para outra província.

O Bretono riu.

— Talvez você precise que seu nome passe por bocas bem ouvidas.

— O que tem em mente?

— Sabe, eu deveria aceitar esse trabalho, mas meu lugar é aqui. Sou Nord de fígado e alma.

Os dois riram.

— Ouvi dizer que tem um Dunmer importante precisando de um mercenário.

Ela suspirou.

— Importante quanto? Não quero um arrogante telvanni me mandando preparar o chá dele.

— Não, não. Nada disso.

Ele chegou bem perto do rosto dela e sussurrou:

— Dizem que é o Nerevarine.

— O quê? O Nerevarine?

— Sim.

— Aquele Nerevarine da profecia? O tal?

— Ele mesmo.

— E onde ele está?

— Em Balmora.

— Não. Qualquer lugar menos Balmora.

— O que foi? Não consegue entrar em Balmora?

— Entrar nunca foi problema, meu caro. Sair é que é o problema. Quando você está de fora, o problema é pequeno, você conhece todas as saídas, todas as emboscadas. Mas quando você está dentro, parece não haver saída em lugar nenhum.

— Já pensou que se o Nerevarine lhe contratar, sair se tornará tarefa fácil?

— Aí é que está. A vida do Nerevarine se tornará ligeiramente mais difícil contratando uma mercenária com o meu histórico.

— Aposto que ele gosta do perigo.

— Não temos dúvida disso.

Capítulo 3

A noite estava alta, era possível ver a Masser no céu. Os guardas caminhavam preguiçosamente com tochas. Apesar de ser uma linda noite, não havia pessoas na rua. Kláxia imaginou que todos estariam na taverna ouvindo as histórias do Nerevarine. Como ela havia dito, entrar não foi problema, o caminho até Eight Plates estava livre.

Como poderia ser reconhecida na taverna, trocou sua armadura icônica por uma armadura de couro comum, seria mais fácil passar despercebida. Ficou surpresa quando adentrou a taverna e viu que não estava cheia, cada um tomava sua bebida em paz. Havia vários Dunmers no local, qual seria o Nerevarine? Olhou ao redor e todos eram rostos que ela já tinha visto. Mas, num canto, com um olhar triste e solitário, estava o que ela julgou ser um mago, provavelmente Telvanni pelas suas vestes caras: um robe de cores discretas porém ornamentado com pedras preciosas; botas, provavelmente encantadas; luvas caras; um amuleto extragavante; e um cinto caro. Ele bebia flin e fazia cara de poucos amigos.

Não pensou duas vezes e sentou-se à mesa dele. O Dunmer fitou-a incrédulo com a petulância de tal ser inferior de sentar-se em sua companhia. Mas, sem querer chamar atenção, falou discretamente:

— Tem outras mesas vagas.

— Eu sei.

A vontade dele era usar um feitiço para desintegrá-la, mas depois pensou que ela teria de ir embora em algum momento, não poderia ficar ali para sempre.

— Soube que você está querendo contratar os serviços de um mercenário.

— Agora me arrependo de ter espalhado essa notícia.

Ela sorriu, um sorriso desafiador.

— Você não dá nada por mim, não é?

— Não dou nada por ninguém.

— Aposto que tem amigos em altas posições, está acostumado com pessoas renomadas.

Ele não disse nada. Ela continuou:

— Você pode não conhecer o meu nome, mas a minha fama está correndo pelas cidades. Eu até sou procurada.

A frase soou dúbia, podia ser pelos serviços, mas ela não se parecia nem um pouco com as dançarinas de uma certa taverna em Suran. Também podia ser procurada por crimes, esta última alternativa pareceu ao Nerevarine a mais provável.

— Se você fosse tão boa, os guardas não saberiam quem procurar.

— Muito bem pensado. O único detalhe é que a recompensa pela minha cabeça não foi colocada pelos guardas, neste caso, de Balmora, mas pelo próprio Império para o qual eu fiz o trabalho.

— Corruptos.

— Foi o que me falaram.

— Mas por que eles fariam isso? Eles só precisavam de um bode expiatório ou por acaso você é alguém importante?

Algumas pessoas se ofenderiam com o jeito dele de falar, ela simplesmente não ligou.

— Digamos que meu passado não começou em Morrowind.

— Cyrodiil?

— Valenwood.

O Dunmer bebeu um gole de sua bebida e seu semblante era de quem não se importava com nada. Se um raio atingisse a cabeça dela naquele momento, ele não moveria um músculo sequer.

— Acho que terei de persuadi-lo a me contratar.

— Quero ver você tentar.

— Deixe-me passar uns dias em sua companhia e depois você terá mudado de idéia.

Ele a observou como quem observaria um mudcrab agonizando.

— Acredito que você tenha trabalhado para muitas pessoas sem um mínimo de exigência e agora acha que o meu padrão também é baixo e que eu vou cair na sua conversinha. Acha mesmo que eu deixaria você passar "uns dias" comigo? Isso seria claramente contratá-la. Acha que eu não percebi que você vasculhou os meus bolsos duas vezes?

Ela deixou um olhar espantado transparecer. Ele continuou, parecia querer humilhá-la.

— Acha mesmo que eu viria para uma taverna numa cidadezinha medíocre carregando documentos importantes ou mesmo itens de valor? O quê? Você me julgou um mago idiota e arrogante pelas minhas roupas? Ora, não queira saber o que penso de você.

Ela continuava observando-o espantada, não era possível dizer o que ela sentia além do espanto. O Dunmer tomou o resto de sua bebida de uma vez e bateu a caneca na mesa, aborrecido. O semblante de espanto da Bosmer foi se transformando em graça.

— Ui, eu peguei o Nerevarine de mau humor.

Ele puxou bastante ar e disse pausadamente:

— O dia que eu estiver de mau humor, não haverá homem ou elfo nessa ilhota que viverá para contar o estrago.

Ela riu.

— Você, definitivamente, está de mau humor. Deixe-me dizer-lhe uma coisa antes de notarem a minha presença e eu ter que me despedir de você abruptamente...

O Dunmer rosnou, ela continuou:

— Você pode ser arrogante, e é, mas toda a sua necessidade de destruir a minha estima não passa de um momento de desespero. Afinal, por que um mago Telvanni "espalharia a notícia" de que precisa de um mercenário? Você poderia muito bem ordenar a um membro da sua Grande Casa que fizesse algo para você. Por que vir beber em uma cidade medíocre? Você poderia beber nas tavernas de Sadrith Mora ou Vos. Alguma coisa o aflige, muito mais do que você imaginava que afligiria, e você não está lidando bem com isso. Beber aqui é como se esconder, afinal, quem lhe conhece sabe que você é um mago com uma alta posição na Grande Casa Telvanni e por isso jamais o procuraria em uma taverna de Balmora. Sobre o mercenário, eu acredito que seja uma companhia, completamente diferente do que você tem convivido, já que, como eu falei, você poderia dar ordens a um membro de sua Casa. Você precisa desesperadamente fugir do que está sentindo, e nada melhor do que conviver por uns dias com um ser inferior que o aborreceria tanto com a inferioridade dele que faria você esquecer a sua dor, mesmo que momentaneamente. Essa pessoa deve ter sido realmente muito importante para você, a ponto de fazê-lo descer de sua arrogância e querer passar um tempo com os seres insignificantes.

Um guarda entrou na taverna, possivelmente para escapar um pouco da sua ronda, mas Kláxia apressou-se.

— Essa é a minha deixa. Tenho certeza de que vamos nos encontrar de novo. Boa noite, Nerevarine. Espero sinceramente que você encontre uma distração para aliviar um pouco a sua dor.

Levantou-se da mesa e esgueirou-se até perto da saída, usou um pergaminho e desapareceu.

A casa da Bosmer ficava no meio do nada, uma construção sem muitas regalias, mas cheia de cantos para se esconder. Ela colocou a chave na porta e seu instinto detectou algo errado. Afastou-se e procurou qualquer coisa ao redor. Encontrou pegadas úmidas no chão.

— Oh, Govarys, por que você só me manda o pior? Morar numa ilha tem suas vantagens — sussurrou para si mesma.

"A entrada no telhado", pensou, "vou pegá-lo de surpresa". Kláxia dirigia-se para o telhado quando teve uma idéia. Amarrou a ponta de uma tira longa de couro na chave e jogou a outra ponta em cima do telhado. Subiu, usou outra poção camaleônica em si mesma e puxou a tira de couro girando a chave. Uma bola de fogo voou em direção à saída e, não tendo atingido nenhum alvo, dissipou-se no ar. Logo após, o assassino correu para fora como se fosse pegar alguém, mas quando deu de cara com o vazio, ficou confuso. Ela ainda estava sob efeito camaleônico quando desferiu o primeiro golpe na cabeça que deixou-o atordoado no chão. O assassino levantou-se, localizou sua espada que brilhava na escuridão e, ainda um pouco atordoado, abaixou-se para pegá-la quando, imediatamente, uma adaga atravessou-lhe o queixo atingindo o crânio. Kláxia precisou se esforçar para puxar a adaga, enterrara com muita força.

A Masser ainda enfeitava o céu com seus tons de vermelho.

— Ah, Govarys... Será que eu vou precisar enfeitar sua mansão com cabeças para você entender?

Capítulo 4

— E então, Aengoth, quanto pelas botas Daedric?

— Elas valem 20 mil, menos meus 25%, dá 15 mil drakes. Onde você consegue essas coisas?

— Um dos meus hobbies é caçar em ruínas Daedric.

— Fico imaginando o que você faria se tivesse a Chave Mestra.

— Provavelmente estaria morta com meio Tamriel atrás de mim.

Os dois riram.

— A Guilda precisa mais da Chave Mestra do que eu. Porque, a propósito, eu me viro muito bem nas ruínas.

— Você podia conseguir alguns itens dwarven para eu revender. Mesmo negócio, 25% é meu.

— Aengoth, você não sabe o quanto eu detesto as ruínas Dwemer. Quando vou, é só por obrigação mesmo. Meu prazer está nas ruínas Daedric.

— Eu compreendo. As armadilhas dos dwemers são mortais.

— Não é só isso. É tudo muito sem vida. Só máquinas e armadilhas mecânicas. Eu gosto de seres vivos, com os quais eu posso interagir e ver em seus rostos a agonia quando parto suas tripas com minhas adagas.

Aengoth riu, ela continuou:

— Eu não vou dizer que sou fã de magos, mas eu prefiro as armadilhas de encantamentos.

— Mais complicadas de desarmar.

— Mas pelo menos são desarmáveis. As armadilhas mecânicas quase sempre disparam quando se tenta desarmar.

— Provavelmente resultado de muitos anos enterradas sob várias e várias camadas de terra.

— Com certeza.

Aengoth pegou uma pequena sacola de couro, separou os 15 mil adiantados de Kláxia, e iniciou uma conversa meio sem jeito.

— Sabe, tem um boato por aí de que a Morag Tong está tendo problemas com um dos contratos.

— Não fiquei sabendo de nada.

— Parece que eles já perderam dois assassinos.

Ela ficou em silêncio. Ele continuou:

— Dizem que é uma elfa. Só que ninguém sabe o nome.

Aengoth olhou para Kláxia e como esta permanecia em silêncio com um semblante indecifrável, ele prosseguiu cuidadosamente:

— Eu só conheço uma elfa que poderia revidar de igual para igual com a Morag Tong.

— Tem muitas coisas no meu passado das quais eu não me orgulho, mas também não me arrependo. Talvez não fizesse de novo, mas não fico imaginando como seria se tivesse feito diferente. A Dark Brotherhood me deu coisas que ninguém jamais me daria, mas eu não pertencia àquela irmandade.

— Não gosto nem de pensar nas informações que você teve acesso.

— Não é seguro nem pensar mesmo.

— Ah, preciso lhe avisar uma coisa — disse o elfo. — Ultimamente eu tenho visto muitos recrutas imperiais por aí. Tem mais imperiais pelas estradas do que qualquer coisa.

— Você acha que é por minha causa?

— Não, mas tome cuidado, o Forte Buckmoth fica bem perto daqui.

— Ainda bem que eu não ando muito pelas estradas, a não ser quando tenho algum contrato, o que não tem acontecido há bastante tempo.

— Seu esconderijo é longe daqui?

— Muito. Um lugar perfeito. Mas não longe o suficiente para os assassinos da Morag.

— Eu acho que nem a Masser é longe para eles.

Os dois riram.

— O que pretende fazer agora? — perguntou o elfo.

— Eu tenho um outro trabalho em vista. Coisa grande. Mas digamos que é preciso conquistar a confiança dele primeiro.

— Como você vai conseguir trabalhar como mercenária com Império, Morag Tong, e Telvanni atrás de você?

Ela riu. Pela primeira vez, era um sorriso meio desesperado.

— Bom, se ele me contratar, Telvanni e Império não serão mais problema. E levando em consideração que a Morag está trabalhando para o Império nessa, talvez não seja mais problema também.

— Uau, todos os ratos com um golpe só. Mas espera... É ele?

— Não sei em quem você está pensando.

Aengoth arrastou sua cadeira, chegou bem perto dela e sussurrou:

— É o Nerevarine?

— Ele está mais conhecido do que imagina.

— Olha, não precisa se preocupar, se ele vier me perguntar alguma coisa, eu vou dar uma excelente recomendação sua!

— Aengoth, ele não vai lhe perguntar nada.

— O que é uma pena, imagine o que ele deve ter para eu vender.

Kláxia riu. De repente a taverna ficou silenciosa.

— O que está acontecendo? ─ perguntou ela.

— Eu vou ver o que é. Fique aqui.

Discretamente Kláxia segurou suas adagas. Aengoth foi até o primeiro piso do Rat in the Pot e demorou. Ela começou a ficar nervosa, não podia usar uma poção camaleônica porque chamaria atenção e as poucas pessoas que havia por lá perceberiam. Longos minutos depois, Aengoth retornou tenso.

— São os recrutas.

— Estão procurando por mim?

— Não, parece que estão há muito tempo na estrada e estão famintos. Essa é uma boa hora para você ir, eles disseram que há uma tempestade de areia. Você pode usar suas poções sem chamar atenção. Toma, use o meu elmo, vai proteger os seus olhos.

— Obrigada.

— E se o Nerevarine tiver algo para vender...

— Aengoth. ─ repreendeu-o.

— Desculpa, não é o momento. Boa sorte. Vejo você por aí.

Kláxia caminhou tensa até a porta, mas ninguém parecia se importar com ela. Do lado de fora, havia apenas os guardas que se protegiam como podiam. Era difícil ver qualquer coisa. Num canto afastado, ela desapareceu.

Capítulo 5

Chovia na ilha. A casa estava limpa, nenhum sinal da Morag, exceto por uma cabeça presa numa lança enfiada na terra. Ela observou a cabeça e falou para si mesma:

— Vai ficar grotescamente belo quando eu terminar.

A chuva apertou, ela entrou e percebeu que o momento era agradável para dormir, encostou-se na cama e cochilou.

Acordou assustada, seu corpo estava paralisado. Havia um dardo cravado em sua perna. O assassino sorria triunfante. Apunhalou-a na barriga três vezes. Ela sabia que não sangraria enquanto estivesse paralisada, mas quando o efeito passasse, não sobraria muito tempo para revidar.

Sua visão estava turva, não podia respirar, seus pensamentos pareciam uma tempestade torrencial, estava ficando tonta. Foram os 10 segundos mais longos de sua vida. O assassino revirava sua casa. Quando Kláxia conseguiu mover um braço, puxou o ar desesperadamente provocando um ruído alto, ele ouviu e veio em sua direção para desferir o último golpe. Ela meteu uma gazua na fechadura de um baú próximo à sua cama e desviou, um raio atingiu o assassino. Foi tempo suficiente para ela pronunciar as palavras de um pergaminho e desaparecer.

Uma tempestade assolava a pequena ilha e parecia que a choupana poderia desabar a qualquer momento. O velho Bretono não se importava, estava mais preocupado em onde havia guardado o frost salt, quando de repente, no meio da primitiva habitação, surgiu um corpo ensangüentado.

— Pierre! Eu vou morrer!

O velho Bretono tratou de deitá-la no chão e rapidamente examinou as feridas.

— Essas perfurações vão me dar um trabalhão!

Ele vasculhou sua prateleira de poções, pegou uma e tentou acalmá-la:

— Tente não se mexer. Beba esta poção. Vai deixar você paralisada por mais tempo do que gostaria.

— Não!

— Fique calma, você não vai morrer, vai ficar sem ar e vai desmaiar. Acredite, é tempo suficiente para eu costurar as perfurações. Vamos, beba ou morra.

Kláxia bebeu e imediatamente ficou paralisada, o sangramento parou e Pierre penetrou seus dedos nas feridas para ver até onde havia sido perfurado, ele olhou nos olhos dela e podia vê-la gritando. Identificou todas as perfurações e começou a suturar.

Bastante tempo depois, Kláxia acordou. Estava tonta e dolorida.

— Que bom que você acordou. Estava ficando preocupado. Vamos, beba esta poção, vai ajudar a cicatrizar as feridas.

Ela bebeu com dificuldade, tentou se levantar, mas ele a impediu.

— Não force, você precisa de repouso. Mas se você puder ser breve e resumir quem fez isso e como conseguiu ser apunhalada três malditas vezes, eu agradeceria.

— Morag Tong.

— Oh... Bem, isso resume bastante as coisas. Mas como isso aconteceu?

— Cochilei.

— Onde foi isso? Na sua casa?

— Sim.

— Como eles sabiam onde você morava?

— Govarys.

— Eu achei que vocês dois já tivessem se matado. Seria mais saudável. Bem, tente dormir, aqui você está segura. Bem, eu acho, a não ser que você tenha falado sobre mim com ele.

— Jamais.

— Ótimo. Então você pode dormir em paz aqui. E eu também.

Kláxia acordou algumas horas depois e parecia bem melhor.

— Deixe-me ver como está isso ─ ele removeu as bandagens. — Oh, está bem melhor, quase cicatrizado. Daqui a pouco você já pode ir.

— Obrigada, Pierre.

— Você sabe que eu estarei aqui sempre que precisar ─ sentou-se numa cadeira com dificuldade, estava muito velho.

Ela levantou devagar para se recostar na cama quando ele viu a cicatriz no torso dela.

— Ainda dói? ─ apontou para a cicatriz.

— Não por sua causa.

— Você nunca me contou como conseguiu isso. Apenas chegou sangrando e gritando que ia morrer, coisa que, aliás, você não perdeu o costume.

— Quando eu conheci Govarys, ele tinha acabado de entrar para a Morag Tong. Eu ainda era da Dark Brotherhood.

— Espera aí! Você saiu por causa dele? Não acredito! ─ Pierre estava animado com a fofoca.

— Não exatamente. Eu nunca pertenci à Irmandade mesmo, mas sou grata por tudo o que aprendi com eles. Meu coração sempre foi de mercenária, cada dia um trabalho diferente.

— Você nunca me contou como saiu da Dark Brotherhood.

— Isso não é história para agora. Mas, eu meio que tive que convencê-los a me deixar sair.

— Com sangue?

— Com sangue.

— Tem certeza de que é a Morag Tong atrás de você?

— E desde quando a Dark Brotherhood precisou de ajuda?

— E a cicatriz?

— Govarys e eu tínhamos como missão o mesmo alvo.

— Uau! Devia ser uma pessoa bem desagradável.

— Sim, parece que três pessoas contrataram a Irmandade para isso.

— Que coisa ─ deu uma risada assustada. — Mas e aí?

— Bom, tivemos que brigar pelo alvo.

— Me admira muito que você, já avançada na Irmandade, quase tenha morrido para um novato.

Kláxia deixou um sorriso aparecer, olhava para o vazio lembrando.

— Eu não queria matá-lo. Ele não era o meu alvo. Falei para decidirmos num duelo mano-a-mano, eu ganhei. Traiçoeiramente, ele me acertou uma de suas lâminas e correu. De onde eu estava, acertei um dardo envenenado no nosso alvo. Govarys parecia chocado. Tirei a lâmina e me transportei para cá. O resto você já sabe.

— Mas espera, você disse ao seu superior que foi ele quem matou o alvo?

— Eu jamais daria uma morte minha para quem quer que fosse. Meu superior sabia que tinha sido eu, mesmo tendo rolado por aí o boato oposto. De qualquer forma, a Irmandade recebeu três pagamentos.

— Ótimo!

Os dois riram.

— Você não tem para onde ir agora, não é?

— Não posso voltar para casa, e nem era para eu ter voltado depois do primeiro assassino.

— Pode ficar aqui se precisar.

— Eu agradeço, Pierre, mas já tenho outros planos.

— Antes de você ir, eu quero me despedir. Talvez eu não esteja aqui da próxima vez em que você aparecer gritando.

— Eu que agradeço tudo o que você fez por mim. Queria poder retribuir.

— E você pode, comece procurando meu frost salt.

— Não está no barril que você denominou por "barril dos daedras"?

— Oh! Não me lembrava disso.

Pierre revirou o barril e encontrou o frost salt.

— Era exatamente o que eu precisava para a minha poção!

Kláxia deixou o velho homem distrair-se com seu hobby e foi embora.

Capítulo 6

Apesar de muitos Telvannis estarem atrás dela, Kláxia imaginou que possivelmente correria o boato de sua morte e ela teria algum tempo de paz antes da Morag se dar conta de que ela ainda estava viva. Mudou a armadura comum de couro por uma armadura Nord pesada completa, disfarçaria melhor e ninguém em Sadrith Mora se importaria com sua presença.

A taverna estava animada, porém contida. Deu uma olhada ao redor para ver se encontrava alguém interessante para incomodar. Avistou um homem com uma armadura daedric completa, o elmo cobria totalmente o rosto. O homem não bebia nada, estava apenas num canto apreciando a música do bardo. Ela se esgueirou até ele e falou:

— Se eu soubesse, venderia minhas caçadas para você. Seu conjunto deve ter lhe custado uma fortuna. Essa dai-katana daedric é lindíssima. Sou apaixonada pelos itens daedric.

E surpreendentemente o homem falou:

— Você de novo!

— Oras! Se não é você de novo. Haha! Pelo menos com esse elmo, eu não preciso ver suas caretas. — Apesar das gargalhadas altas, ela não chamou atenção.

— Quando é que eu vou me livrar de você?

— Quando eu morrer.

Ele caminhou em direção a uma das mesas e sentou-se, ela sentou junto com ele.

— Achou mesmo que eu deixaria de me sentar com você, Nerevarine?

— Eu não falei nada.

— Eu pude sentir sua careta daqui! ─ Ela ria.

— O que você quer?

— Eu realmente preciso de um trabalho. Não posso mais ir para casa. Aliás, eu não tenho mais casa.

Nerevarine não queria saber, mas sentiu-se compelido pela atmosfera amistosa a perguntar o que aconteceu.

— A Morag Tong finalmente me pegou, na minha casa.

— E como você está aqui agora?

— Escapei por muito pouco.

— Eles devem estar atrás de você então.

— Por enquanto é provável que eles acreditem que estou morta.

— Quer dizer que você não tem mais dinheiro?

— Quem disse que eu não tenho dinheiro? Eu disse que não tenho mais casa.

— Seu dinheiro não estava na sua casa?

— Não sou nem louca de guardar minha riqueza em casa. Está toda distribuída entre vários mercadores. Pequenas quantias com muitos e muitos mercadores.

— Esperta.

— E devo acrescentar, a maior parte deles não está nem em Morrowind.

De repente, Kláxia se deu conta de uma coisa:

— Espera, você acabou de me elogiar ou eu estou delirando?

— Não force a barra.

— Você é mesmo o Nerevarine que eu conheci naquela taverna de Balmora algumas semanas atrás, ou você é só um cara perverso que está fingindo que é o Nerevarine com intenções pérfidas?

Ele ficou imóvel.

— Ui, essa careta foi caprichada, senti nos meus ossos. Agora eu tenho certeza de que é você.

Ele suspirou, ela falou:

— Melhor você beber alguma coisa. Geralmente as pessoas dizem que sou uma companhia muito agradável depois da décima garrafa de sujamma.

Nerevarine ficou em silêncio, encarando-a.

— O seu tédio emana como o fedor de um cocô de nix hound muito tempo debaixo do sol quente da Bitter Coast.

Nerevarine não agüentou e soltou uma risada contida.

— Oh! Pelos Oito Divinos! Socorro! Alguém seqüestrou o Nerevarine e deixou essa cópia assustadora no lugar!

Ele continuou em silêncio, ela se aproximou e sussurrou:

— Eu sei que tem um sorriso tímido por baixo desse aterrorizante elmo daedric...

Nerevarine retirou o elmo, um pouco hesitante, pois poderiam reconhecê-lo e perturbá-lo, mas os dois pareciam invisíveis diante da animação da taverna. Seu semblante era de desdém, mas não tão ofensivo como da primeira vez que conversaram.

— Fico honestamente feliz que você tenha saído da fossa. E então, estou contratada?

— Vá com calma, Bosmer. Cadê minha sujamma?

Kláxia se espantou com a pergunta, mas foi até o balcão e pegou duas garrafas. Nerevarine bebeu a sujamma toda de uma vez, ela observava boquiaberta.

— Toma, pode ficar com a minha. Eu não cuspi.

Ele aceitou e, com um sorriso meio sem graça, falou:

— Tenho quase certeza de que alguns dos meus aprendizes fazem isso.

— Eu não tenho a menor dúvida.

Algum tempo e algumas sujammas depois, Nerevarine estava bêbado.

— E... E foi aí que eu falei "Argimaquisdatro, nunca... Nunca!... Duvide da força do Verenarine!", e ele ficou impressionado. A gente venceu a escaramuça. E foi assim que eu consegui essa tai-kadana dradeíque.

— Dai-Katana daedric.

— E o que raios eu falei?

Pela primeira vez na vida, Kláxia estava entediada.

— Ei, Flácida, pegue outra sujamma para mim.

— Kláxia.

— Vocês são muito apegadas a detalhes. Pegue outra sujamma para mim, mulher!

— Acho que já está na hora de você ir para a sua torre.

— Quem manda aqui sou eu!

— Aham... Vamos, venha.

— Não! Eu sou Reneravine e eu quero mais sujamma!

— Eu dou toda a sujamma que você quiser, mas só se você for para a sua torre.

— Ora daedras, mulher. Eu quero 37 sujammas e uma dançarina na minha torre.

— Tudo bem. Vamos, eu levo você.

— Tenho um permaninho no cinto.

— Tá bem. Segure-se em mim.

Nerevarine se jogou em cima dela e já mostrava sinais de sonolência. Kláxia pronunciou as palavras do pergaminho e os dois foram transportados para o interior de uma imensa torre Telvanni.

— Oh, daedras! Muitas tubulações, como vou levitar com você por aí?

Nerevarine estava quase dormindo, mas apontou para uma porta a alguns passos dali:

— Cama...

Ela abriu a porta e era um imenso quarto, jogou-o na cama e respirou fundo, estava cansada. Ouviu passos. Provavelmente a matariam se a encontrassem ali. Resolveu despir-se da armadura pesada, escondeu-a embaixo da cama, deitou nua abraçada ao Nerevarine desmaiado de bêbado e fingiu que estava adormecida.

Sentiu que alguém se aproximava, mas não podia se mexer, estragaria o disfarce. Subitamente uma mão agarrou seus cabelos e encostou a ponta de uma adaga conjurada em seu pescoço.

— Diga agora quem é você ou morra.

— Eu sou erm... uma dançarina... Isso. De Suran. Seu mestre me contratou.

— Ele não me avisou nada.

— E desde quando ele tem que lhe dar satisfações? Para quem você trabalha? De quem é essa torre mesmo? Se você não voltar ao que quer que estivesse fazendo antes, vou contar para o seu mestre que você destratou uma convidada dele. ─ E acrescentou aborrecida: — Hunf.

O aprendiz hesitou, não tinha certeza se o mestre estava dormindo ou morto.

— Você tem certeza de que quer acordar o seu mestre numa situação dessas? Veja bem, seu mestre está acompanhado de uma senhorita nua. Será que você não entendeu o que aconteceu aqui?

O aprendiz estava desconfiado, mas não tinha coragem suficiente para enfrentar a fúria de seu mestre caso sua desconfiança fosse vã. Pronunciou uma palavra que fez a adaga desaparecer e avisou:

— Se meu mestre estiver morto, eu vou atrás de você até no Oblivion. ─ E saiu.

— Entre na fila — sussurrou.

Na manhã seguinte, Nerevarine estava com terríveis dores de cabeça. Olhou ao redor e viu uma bandeja com restos de muitas comidas e uma garrafa vazia de Cirodiilic Brandy1. Chamou seu aprendiz.

— O que é isso? ─ perguntou apontando para a bandeja.

— Sua dançarina que pediu, mestre.

— Minha o quê?

— Eu sabia! Eu sabia que ela não era confiável! Eu só não lhe acordei, mestre, porque eu não tinha certeza... Mas agora ela está no setor dos cofres, eu mesmo a matarei!

— Não, Tuvlos. Eu irei até lá.

— Mestre, o senhor não está em condições físicas de lutar com ninguém, nem com a intrusa.

— Não vou lutar com ninguém. Ela não é bem uma intrusa, eu estava com ela ontem no Fara's Hole.

— Ah. O senhor quer que eu faça alguma coisa?

— Limpe essa bagunça.

Quando Nerevarine a encontrou, ela estava examinando uma das portas.

— Todas têm armadilhas mágicas ─ avisou ele.

— Deixa eu desarmar só uma, vai.

— Não.

— Elas são letais?

— São.

— Mentira.

Ele suspirou.

— Como viemos parar na minha torre? Esse é um dos meus robes?

— Peguei emprestado se não se importa. Aparentemente o Argimaquisdatro ficou muito impressionado que você é o Verenarine e agora você tem uma tai-kadana dradeíque. E eu me chamo Flácida.

Ele colocou a mão no rosto em sinal de vergonha, ela deu uma gargalhada.

— Você é o ébrio mais chato que eu conheço.

— E você é a sóbria mais chata que eu conheço.

— O que você preparou para mim hoje?

— A sua partida. Pegue suas coisas e vá embora.

— Eu não tenho para onde ir. Não me mande embora, por favor. ─ Ela segurou uma das mãos dele com as duas mãos e suplicava com o olhar. Duas mãozinhas rosadas segurando uma enorme manopla daedric.

— Você é muito fingida.

Um sorriso se abriu no rosto dela.

— Mas é sério, eu não tenho mais para onde ir. Se eu voltar para a minha casa, é bem provável que eu morra de verdade. E aqui eu consegui ter uma noite de sono digna, mesmo que seu aprendiz quase tenha me cortado a garganta.

— Foi para isso que eu o treinei.

— Me mande fazer qualquer coisa em qualquer lugar, mas não me mande embora. Por favor, não faça isso comigo. ─ Ela não estava mais encenando.

— Tá bem, tá bem. Mas você vai ficar no setor subterrâneo, com os guardas.

Ela pulou em cima dele para abraçá-lo em agradecimento, mas ele a empurrou.

— Vista sua armadura e guarde meu robe onde você achou, depois me procure no meu laboratório. Se precisar de poções para levitar, o que eu imagino que sim, peça a Tuvlos.

O laboratório era um lugar imenso, cheio de experimentos, e várias estantes com poções e ingredientes.

— Se eu não fosse procurada, mudaria agora mesmo para uma armadura mais leve. Você tem algo para mim?

— Tenho, preciso de 10 quilos de cera de dreugh fresca.

— Você tem uma piada para mim, isso sim.

— Você tem três dias para conseguir.

— Por que não pede a um de seus aprendizes?

— Porque eles têm coisas mais importantes a fazer.

— E quanto você vai me pagar por isso?

— Pelo que você se fez entender, o que você precisava era de uma atividade, e não de dinheiro. Aliás, você deixou bem claro que não precisa de dinheiro.

— Eu não vou trabalhar para você de graça.

— Claro que não. Você vai trabalhar pelo prazer de ter uma tarefa e de poder dormir em paz.

— Tá bem, tá bem. Mas eu vou precisar de mais tempo.

— Tudo bem, cinco dias.

— É, acho que dá. E também preciso de uma faca de vidro de corte longo, grandes sacolas de couro, tem que ser couro de netch, e bastante papel.

— Qualquer coisa que você precisar, peça a Tuvlos. Agora saia.

Dessa vez foi ela quem fez uma careta antes de se retirar.

Capítulo 7

Kláxia precisou despir-se para coletar a cera, pois era difícil nadar com uma armadura pesada. Já havia coletado sete quilos de cera quando sua cicatriz começou a latejar, e percebeu que alguém a observava. Tentou vestir a armadura rapidamente, em vão. Os dois assassinos avançaram. Só teve tempo de pegar suas adagas e lutar. Ela era hábil e rápida, porém sua eficiência foi comprometida porque estava lutando nua e seu cuidado precisou ser redobrado.

Quando conseguiu derrubar os dois assassinos, Kláxia correu para a água, imaginou que seria mais fácil para ela e mais complicado para eles. Nadou bastante até perceber que eles estavam alcançando-a. Um dreugh também nadava em sua direção, com sorte poderia usá-lo contra os assassinos. Quando o dreugh a atacou, ela desviou e agarrou-o por trás, usava-o como escudo. Os dois assassinos não conseguiam acertá-la, o dreugh os atacava com suas garras. Com os tentáculos, a criatura prendeu fortemente um dos assassinos e puxava-o para o fundo, ele não conseguia lutar. Kláxia soltou o dreugh e atacou por trás o outro assassino tentando afogá-lo. Ele conseguiu acertar uma adaga no ombro dela. Ela gritou, ele estava prestes a fincar a segunda adaga em uma das pernas dela que estavam ao redor da cintura dele, mas ela segurou o braço dele com as duas mãos e cravou a segunda adaga no olho dele. Deixou o corpo afundar enquanto gritava de dor. Submergiu para procurar o segundo assassino e viu que o dreugh já rasgara sua carne e devorava-o.

Nadou como pôde para a margem e, como não conseguiria vestir a armadura, usou o pergaminho que o aprendiz deu a ela e transportou-se para a torre.

— A senhorita tem uma mania muito feia de ficar pelada por aí.

— Eles me encontraram, Tuvlos.

— Vou chamar o mestre.

Ela estava coberta de sangue. Nerevarine trazia uma poção, roupas e uma aprendiz que era curandeira. Fê-la vestir-se e falou:

— Danlusa vai cuidar do ferimento. Depois quero que você venha ao meu laboratório.

Kláxia apenas assentiu com a cabeça, estava tensa.

Algum tempo depois, o ferimento estava bem melhor. Nerevarine estava sentado em uma cadeira no laboratório, pensativo.

— Eu só consegui sete quilos de cera, eles me encontraram antes que eu pudesse terminar.

— Tudo bem, o restante eu mando algum adepto comprar com um herbanário qualquer.

— Mas eles não vendem cera fresca.

— Não precisa ser fresca.

— Você disse que tinha que ser cera fresca.

— E você disse que eu podia mandar você para qualquer lugar para fazer qualquer coisa.

Ela olhou para o teto e engoliu o aborrecimento, não adiantava descarregar sua raiva no Nerevarine, não era culpa dele que sua vida estava em constante risco. Aquilo estava começando a pesar em sua consciência.

— Isso está começando a ficar sério para você, não é? ─ perguntou ele.

Ela apenas assentiu com a cabeça.

— Eu tenho espiões no Império ─ hesitou antes de contar. — Se você quiser, posso mandar que um deles descubra quem contratou a Morag Tong.

— E depois o que eu vou fazer? Matá-lo? E o que acontece em seguida? O Império aumenta o prêmio pela minha cabeça em um zilhão de drakes e todo o Tamriel virá atrás de mim.

— O que você quer que eu faça?

— Não quero que você faça nada. Isso não é problema seu. Obrigada pela hospitalidade. Eu vou juntar minhas coisas e ir para qualquer lugar pensar no que fazer.

— Não estou expulsando você.

— Não. Eu é que estou saindo.

— Você não precisa sair. A quem você pedirá ajuda? Aos mercadores seus amigos? Até onde sei, eles podem aproveitar a ocasião da recompensa e matá-la sem hesitação.

— Por acaso você sabe como é viver sem poder confiar em ninguém?

— Por muito tempo, sim. Mas agora eu tenho amigos leais.

— Fico feliz por você.

— Deixe-me ajudar.

— Não há mais nada que você possa fazer. O que eu poderia pedir, você já está fazendo.

— Vou avisar a Tuvlos para preparar um aposento para você aqui em cima.

— Não, eu prefiro ficar com os guardas, caso alguém...

— Eles não ousariam.

— É a Morag Tong, eles irão além de ousar.

— Felizmente não é a Dark Brotherhood.

Ela riu.

— Ainda não.

— Não acredito! A Dark Brotherhood também? Pelos Oito Divinos, você deve ser a pessoa mais irritante que eu conheço!

— Não é isso. Eu pertenci à Irmandade e saí de uma maneira bem ruim. Mas parece que apesar de tudo, eu realmente consegui me desligar deles. Só que quem contratou a Morag pode tentar contratar a Irmandade também. Estou começando a me tornar um alvo desagradável, tanto para a própria Morag que já perdeu quatro assassinos como para a pessoa que os contratou.

— É uma possibilidade.

— Eu estava pensando em ir embora.

— Você não me ouviu? Eu acabei de falar que você pode ficar aqui.

— Não, digo ir embora para outra província.

— Acho que não adiantaria muito. Eles iriam atrás de você em qualquer lugar.

— Elsweyr.

— Você conseguiria viver no meio de tantos khajiit?

— Perfeitamente.

— Talvez... ─ ele estava pensativo e hesitante.

— O quê? ─ pergunto ela com curiosidade.

— Eu sou o Nerevarine, mas ainda não cumpri a profecia completamente. Ainda preciso subir a Montanha. Você poderia ir comigo. Creio que a Morag e os caçadores de recompensa não se arriscariam na Montanha por sua causa. Provavelmente esperariam que você morresse por lá.

— Olha, é uma boa idéia.

— E depois... ─ Ele hesitou.

— O quê? Me conta! ─ Ela já estava mais animada.

— Eu tenho planos de fazer uma expedição para Akavir. Você poderia vir comigo. Mas já aviso que talvez não tenha volta.

— Eu vou com você até o Oblivion.

Ele sorriu. Era a primeira vez que ela via o rosto dele com um sorriso.

— Bom, já que temos um acordo, eu já avisei a Tuvlos, você vai polir todas as minhas armaduras com a cera que coletou hoje.

— Você é tão piadista.

— Estou falando sério. Quero tudo muito bem polido. E amanhã você vai afiar todas as minhas espadas.

— Não acredito ─ disse, boquiaberta.

— Pois comece a acreditar. Seu ombro está bem melhor, já pode começar. Agora saia.

Kláxia balançou a cabeça negativamente, indignada. Saiu pensando em vários insultos.

— E é melhor ter cuidado com o que pensa, eu sinto seus pensamentos daqui.

— Hunf! ─ e se apressou em sair.

Capítulo 8

Uma gritaria fez Kláxia e alguns guardas acordarem. Do lado de fora havia dois cadáveres um pouco afastados da entrada principal da torre.

— O que houve? ─ perguntou ela a um dos guardas da ronda noturna.

— Caçadores de recompensa. Tentavam entrar na torre.

— Outra vez?

— Essa já é a quarta vez só essa semana ─ disse Tuvlos aparecendo de repente. — Acho que o Império aumentou o prêmio pela sua cabeça.

Ela parecia chateada.

— Oh, não fique assim, senhorita. Isso aqui era muito parado antes de você chegar ─ disse Tuvlos tentando animá-la — Os guardas sempre se queixavam de que recebiam um árduo treinamento e ninguém nunca tentava invadir a torre. Acredite, isso não é trabalho para eles, é diversão.

— Antes, nós corríamos atrás de eventuais ratos que fugiam do laboratório do mestre ─ respondeu um dos guardas.

— Por isso que os experimentos mais complicados são realizados na caverna. Assim as criaturas não fogem — completou Tuvlos.

— Oh, eu estou aqui há quase 2 meses e não sabia da caverna.

— O mestre pediu que mantivéssemos você longe dos experimentos dele. A senhorita tem uma habilidade inigualável de se meter em confusão.

Ela riu. De repente seu semblante se anuviou como o céu negro anunciando um mau presságio.

— O que foi, senhorita?

— De repente, me passou algo pela cabeça... Preciso falar com Nerevarine.

Ele estava no laboratório terminando de encantar alguns pergaminhos quando ela entrou.

— Estou atrapalhando?

— Não, já estava terminando mesmo.

— Eu estava pensando, já faz dois meses que eu estou aqui e até agora nenhum assassino tentou invadir.

— Eu lhe disse que eles não ousariam. Apenas os caçadores de recompensa são estúpidos o bastante.

— Eu não sei... ─ ela tocou a cicatriz. — Tem doído direto. Desde que eu vim para cá. Toda vez que eu ouço gritos lá fora, eu acho que é um deles.

Nerevarine segurou as mãos dela.

— Kláxia, eles nunca conseguirão entrar aqui. Simplesmente não há como passar pelos meus guardas. Para você ficar mais tranqüila, deixe-me contar, eles têm o treinamento normal de um guarda Telvanni e são mandados para cá. E antes de eu aceitá-los como guardas, eles treinam comigo.

Ela se espantou.

— Acho que agora você tem idéia do quanto está segura comigo. E, claro, sem contar os meus aprendizes.

— E você.

— Sim, e eu. ─ Ele sorriu — Eles nunca vão pegar você aqui.

— Eu agradeço tudo o que você tem feito por mim, mas eu não posso ficar presa nesta torre para sempre.

— É por isso que eu estou levando você comigo para a Montanha. E é por isso que eu preciso planejar todos os nossos passos. É muito arriscado.

— Eu entendo.

— Nós poderíamos sair para caçar juntos.

— Caçar o quê?

— Caçar os seus caçadores de recompensa. Acredito que seria bem divertido.

Ela sorriu.

— É, pode ser.

— Além de tirarmos um pouco você desta torre. Que tal fazermos isso hoje?

— Agora?

— É!

— Mas você tem aquelas coisas para planejar.

— Depois eu vejo isso, ainda tem tempo. Vamos arrancar algumas tripas.

— Adoraria! Mas como vamos fazer isso?

— Vou transportar nós dois até Ald'ruhn, você vai entrar numa taverna e esperar ser reconhecida. Quando você identificar os caçadores, você sai e vem até mim, eles vão lhe seguir e nós teremos uma boa luta. Um pouco rápida, mas uma boa luta.

— Você vai me esperar onde?

— Do lado de fora da cidade.

— Tá bem. Vamos ver o que acontece.

Nerevarine esperava do lado de fora de Ald'ruhn como combinado. Kláxia entrou no Rat in the Pot e todos olharam-na. Ela caminhou até o andar de baixo onde ficava seu amigo Aengoth.

— Kláxia! ─ Aengoth falou quase num grito de horror. E sussurrando: — O que você está fazendo aqui?! O Império colocou cartazes em todas as cidades, a recompensa pela sua cabeça é de 50 mil drakes!

— Uau! Eles capricharam. Me sinto lisonjeada.

— Lisonjeio não é bem o que você vai sentir quando uma lâmina atravessar a sua garganta. ─ Ele estava nervoso.

— Acalme-se, Aengoth. Eu estou bem.

— Está bem agora!

— Ei, acalme-se, Bosmer. Vim aqui por dois motivos, e um deles é que preciso do meu dinheiro.

— O quê? Por que não mandou um mensageiro? Eu não tenho 200 mil drakes aqui comigo. Preciso de uma semana para juntar tudo isso. Entenda, eu coloco o dinheiro para circular.

— Eu sei como é o esquema, mas como você sempre compra coisas para revender, achei que tivesse.

— É, mas eu não tenho.

— Quanto você tem aqui agora?

— 40 mil.

— Você me dá esses 40 mil e daqui a uma semana eu mando alguém pegar o restante.

— Para que você precisa desse dinheiro todo?

— Vou ajudar um amigo com uma expedição.

Aengoth tirou uma sacola de couro do cinto e entregou-a.

— É tudo o que eu tenho.

— Obrigada. Semana que vem eu mando alguém buscar o restante.

— Alguém quem?

— Um Telvanni, provavelmente.

— Tudo bem, só para eu saber.

— Você conhece o meu selo?

— Conheço.

— Eu mando uma carta junto com ele.

Dois Dunmers sentaram em uma mesa no andar de baixo e encararam-na.

— Kláxia, por favor, vá embora.

Do lado de fora da taverna havia os dois Dunmers, um nord e um orc seguindo-a. Ela encontrou logo o Nerevarine.

— Vem quatro aí.

Nerevarine desembainhou sua dai-katana e cortou a cabeça do primeiro Dunmer. O nord e o orc foram para cima dele, mas ele usava seus feitiços para confundi-los, divertia-se com a tortura mental. O segundo Dunmer avançou para cima dela. Nenhum dos dois parecia querer matar seu oponente. No entanto, não poderiam continuar naquilo a noite toda ou chamariam a atenção de mais pessoas. Nerevarine finalizou seus dois oponentes facilmente com um só golpe de sua katana. Kláxia pareceu lembrar-se de seus anos na Irmandade e finalizou seu oponente com um golpe baixo: jogou areia em seus olhos, agarrou-o por trás e quebrou o pescoço.

— Que tal irmos para outra cidade? ─ perguntou ele.

— Qual?

— Balmora fica aqui perto, o que acha de irmos até lá caminhando?

— Mesmo esquema?

— Dessa vez é melhor eu entrar com você.

Os dois caminhavam pelas estradas escuras quando ela se lembrou de avisá-lo:

— Desde que você falou da expedição eu venho pensando nisso. Você vai precisar de dinheiro, muito dinheiro.

— Não se preocupe com isso.

— Eu me preocupo sim porque conhecendo as três Grandes Casas como eu conheço, eu sei que não precisaria me preocupar com dinheiro se você fosse Hlaalu, mas você sendo um Telvanni, provavelmente tem muitas relíquias, antigüidades e preciosidades, mas não tem dinheiro. E eu tenho certeza de que você não quer vender nenhuma dessas coisas.

— Não pretendo vender nenhuma delas mesmo.

— Bom, sendo assim, você vai precisar de dinheiro e eu tenho bastante, o suficiente para bancar a expedição. Acontece que eu não posso ficar andando por aí de mercador em mercador, província em província, buscando o meu dinheiro. Eu já peguei 40 mil drakes com Aengoth, e daqui a uma semana ele terá os meus 160 mil restantes, e eu o avisei que um Telvanni iria buscar o que falta.

— Eu lhe agradeço, Kláxia. Vou pedir a Tuvlos que mande alguém.

— Eu também avisei que quem for buscar levará uma carta com o meu selo. Mas eu estava pensando, 200 mil drakes não são suficientes para uma expedição desse porte, então eu tinha pensado em escrever mais algumas cartas e você mandaria seus encarregados buscarem mais dinheiro com alguns outros mercadores.

— Então é melhor eu falar com Tuvlos assim que chegarmos, porque eu não sei quanto tempo ficaremos na Montanha.

— E eu vou escrever as cartas.

— Só por curiosidade, quanto você tem ao todo?

— Mais de 1 milhão de drakes.

— Não. Isso é impossível.

Ela deu uma gargalhada.

— É a mais pura verdade. Eu lhe disse que minha riqueza estava espalhada por todo o Tamriel. Eu tenho mercadores de confiança em muitas províncias.

— Como funciona?

— É tipo um investimento. Eu dou a eles uma quantia e eles colocam para circular. Comprando mercadorias, ampliando o negócio. E se algum dia eu precisar, eu apareço e retiro o dinheiro todo. É claro que eles precisam de um tempo para juntar o dinheiro dependendo da quantia que eu investi.

— Eu tenho cofres.

— Não sei se eu me sentiria segura guardando toda a minha riqueza mesmo nos seus cofres.

— Eu não aconselharia, se morrermos em Akavir, meus aprendizes vão ficar com tudo.

— Alguns deles estão realmente torcendo pela sua morte. Mas não Tuvlos.

— Vou levar Tuvlos.

— Ah, então é por isso! ─ Ela deu uma gargalhada.

— Como conseguiu todo esse dinheiro?

— Bom, quando eu era jovem, bem jovem mesmo, antes de resolver sair de Valenwood, eu trabalhava duro e treinava bastante. Depois eu conheci um elfo e ele tinha um amigo khajiit que tinha a mão leve. ─ Os dois riram — Ele me iniciou no mundo da ladinagem e cá estou.

— E com quem você aprendeu a lutar?

— Antes da Dark Brotherhood, eu aprendi a lutar lutando. Sabe, eu nunca precisei lutar. Sempre fui uma ótima ladra, nunca precisei derramar uma gota de sangue sequer. Bom, não enquanto eu estivesse trabalhando. Muitas vezes rolaram brigas, mas por motivos aleatórios.

— Quando voltarmos da Montanha, se quiser, eu posso treinar você.

— Seria ótimo! Mas eu sou um mocado atrapalhada com magia. Só consigo usar o básico.

— Com prática você pega o jeito. E pode ter certeza, não vou lhe dar um minuto de descanso.

— Assim espero, porque não agüento mais ficar naquela torre sem fazer nada.

— Polir todas as minhas armaduras e afiar todas as minhas espadas não foi trabalho suficiente?

— Tá brincando, né? Isso não é trabalho para uma elfa com as minhas habilidades. Eu preciso de ação!

Ele riu. Os dois ficaram a noite toda passando de cidade em cidade levando caçadores de recompensa para a emboscada. O sol estava nascendo em Nirn quando eles voltaram para a torre.

Capítulo 9

— Senhorita, tem uma carta para você ─ disse Tuvlos.

— Para mim!? Não conheço ninguém capaz de me mandar uma carta.

— O selo é do Grão-Mestre da Morag Tong. ─ Entregou-a e saiu.

Kláxia engoliu em seco. Nerevarine e ela se entreolharam.

— Abra e veja o que ele quer ─ disse Nerevarine.

Kláxia rompeu o selo, leu e seu semblante estava tão aterrorizado quanto o de um mortal diante dos portais do Oblivion.

— O que diz na carta?

— Um duelo, na Arena em Vivec...

— Você já matou quatro assassinos, matar mais um não será problema.

— Com ele. Ele me convocou pelo meu nome de família.

— Qual é o seu nome de família?

Ela rasgou a carta em pedaços bem pequenos.

— Quando é o duelo?

— Semana que vem.

— Eu posso treiná-la até lá.

— Se você não se importa, Nerevarine, eu preciso ficar um pouco sozinha.

Algumas horas depois, Nerevarine estava jantando no salão principal e Kláxia apareceu.

— Você já terminou de planejar nossa visita à Montanha?

— Faltam uns últimos ajustes. Sente-se, jante comigo.

— Estou sem fome. Será que dá tempo de resolver esse assunto com Govarys e depois lhe acompanhar?

— Dá tempo e sobra. Fique tranqüila. E ainda há tempo de treinar um pouco comigo.

— Não se preocupe com isso. Eu fui muito bem treinada na Irmandade. Eu tinha um caso de muitos anos com um Dunmer em um dos cargos mais altos da Dark Brotherhood, e ele me ensinou tudo o que sabia.

— Quer dizer que você luta melhor do que imaginei?

— Sim.

— Por que tantas cicatrizes?

— Govarys é meu ponto fraco. Eu fico vulnerável sempre que algo relacionado a ele está em jogo.

— Vocês...? ─ insinuou uma pergunta.

— Era para ter sido, mas não foi.

— O que aconteceu?

— Encarávamos nossos destinos de maneiras totalmente diferentes. Para mim, tudo sempre foi tão simples. Para ele, sempre houve um tom dramático que beirava a loucura. Eu fiz tudo o que estava ao meu alcance por ele.

— Você largou a Dark Brotherhood por ele?

— Não. Eu larguei a Irmandade por dois motivos, um deles era Govarys, mas ele não era o principal.

— E qual era?

— Eu não consigo fazer a mesma coisa por muito tempo. Preciso sempre mudar. Isso é da minha natureza. Eu saí de Valenwood muito jovem, viajei Tamriel quase todo. Quando fui para Mournhold, invadi a casa de uma pessoa que pertencia à Dark Brotherhood e foi assim que eu descobri a Irmandade. Depois que saí, resolvi entrar para a Guilda dos Ladrões, mas também não fiquei muito tempo.

— Você poderia entrar para a Grande Casa Telvanni.

— Você bem que ia gostar se isso acontecesse, não é?

Ele sorriu.

— Sim. Você poderia ser uma de minhas aprendizes. Eu tenho muita coisa para lhe ensinar.

— Imagino. Quem sabe depois que voltarmos da Montanha. Você estará mais tranqüilo. Talvez eu mude minha identidade e meus perseguidores acreditem que estou morta, e aí você poderá me treinar em paz.

— E depois iremos para Akavir.

— O que você pretende fazer em Akavir exatamente?

— É principalmente por estudo e exploração. Eu já aprendi tudo o que poderia aprender aqui, também preciso mudar.

— Uau. Enquanto eu mudo de província, você muda de continente.

Eles riram.

— Eu preciso mandar fazer outra armadura para mim. A minha ficou na outra casa, e eu não posso mais voltar lá.

— Varlosi Nerluso é o melhor ferreiro que eu conheço.

— Estava esperando mesmo que você oferecesse, os ferreiros que conheço estão inacessíveis agora que o Império aumentou o prêmio pela minha cabeça.

— Diga a ele como quer sua armadura, e ele fará a melhor armadura que você vestirá em sua vida.

— Obrigada.

— Você já escreveu as cartas?

— Já, e entreguei a Tuvlos.

A armadura que o ferreiro fez especialmente para ela era de couro, preta, com detalhes em ebony e ornamentada com prata. No capuz, tinha uma máscara que cobria o rosto do nariz para baixo, com os veios ornamentados em prata. E incrustado na altura do torso havia um rubi lapidado no formato de um crânio.

Capítulo 10

A Arena estava vazia, não havia nem os espectadores. A porta do outro lado abriu-se e Govarys apareceu vestindo uma armadura em ebony. Vendo que ela não usava um elmo e nem o capuz, removeu o seu e jogou num canto. Seu semblante era de raiva, disse:

— Por um breve momento pensei que você fosse fugir.

— Jamais. Você é um dos poucos que sabe meu nome de família. E o único com coragem suficiente para repeti-lo.

— Queria ter tido a chance de conhecer sua família além das histórias.

— Esse assunto não. Só me causa dor.

— Então eu sou o único que fica feliz imaginando um passado florido que nunca tivemos?

— Não é o passado real ou imaginário que me machuca, mas a idéia do futuro que não teremos.

— Sabe uma coisa que eu gostaria de ouvir uma última vez? Você dizendo o que sente por mim.

— Govarys, não precisa ser assim. Eu fujo para outra província.

— Não se acovarde agora, Bosmer. Você é a elfa mais corajosa que eu conheço. Você sabe que isso precisa ter um fim.

— Mas não precisa ser esse.

— Pegue suas armas.

A luta entre os dois assassinos era um espetáculo de desvios e contra-golpes hipnotizante. Ele lutava com uma espada longa e ela com duas adagas, sua arma preferida. Em um momento, Govarys cravou traiçoeiramente uma lâmina pequena entre as costelas de Kláxia. Ela gritou e se afastou. Ele sorria. No momento em que correu em direção a ela para desferir o último golpe, ela atirou um de seus dardos na garganta dele. Govarys engasgou-se, tossiu e caiu de joelhos. Kláxia levantou-se e caminhou calmamente em sua direção. Ele retirou o dardo, apertou o próprio pescoço e disse enquanto sentia o veneno queimar-lhe as veias:

— Você fez esse especialmente para mim, não foi? Você queria ter o meu último suspiro, ver nos meus olhos a vida se esvair enquanto a única coisa que eu carregaria comigo seria o abismo infinito desses seus olhos negros como o mais cruel desespero.

Ele sentia seu corpo queimar de dentro para fora, mas não conseguia se mover do pescoço para baixo.

— Eu fiz esse veneno há muito tempo, logo depois que você quase me matou, da primeira vez que nos conhecemos. Você nunca me amou, Govarys. Eu sempre fui aquele desafio irritante e persistente que alimentava seu ego e sua ânsia doentia por ser o melhor assassino de todos e ter bardos compondo canções sombrias em seu nome. Eu sempre fui um obstáculo no seu caminho até a fama e a fortuna. E quer saber por que você nunca será o melhor? Porque você subestima seus inimigos. Eu nunca subestimei você. Eu sempre tive bem claro em minha mente o quanto você pode ser traiçoeiro, desleal e desonrado. Todo aquele papo de evitar o meu assassinato por terceiros não era porque doía em seu coração, mas em seu ego. Você fazia questão de me mandar os novatos porque sabia que eu ia me livrar deles fácil. Eu não sou a melhor assassina de todas, mas o que me faz melhor que você é que eu já lutei ao seu lado, eu conheço a sua índole e o seu caráter. Mas você me subestimou. Você achou que eu nunca fosse capaz de matar você.

— Aquela conversa...

— Eu já amei você, Govarys, mas não amo mais.

Gentilmente ela puxou a mão dele que segurava o pescoço e deitou-o no chão. O veneno alcançou o cérebro, seu corpo debateu-se e ele morreu olhando nos olhos dela.

Antes de voltar para a torre, ela se transportou até seu esconderijo para pegar algumas coisas e despedir-se de sua vida antiga. Um futuro ao lado do Nerevarine a aguardava.

Observou sua casa ser consumida pelas chamas enquanto despedia-se de todos aqueles sentimentos. A lâmina ainda estava entre suas costelas, mas ela controlava o ferimento com poções, tempo o suficiente para livrar-se de tudo e voltar para a torre.

Nerevarine estava organizando novas poções e pergaminhos em seu laboratório e Tuvlos o ajudava quando Kláxia apareceu.

— Preciso da sua curandeira novamente. ─ Sentou-se na cadeira mais próxima.

— Vou chamá-la, mestre.

Nerevarine afastou a bagagem que Kláxia trazia e afrouxou sua armadura.

— Fico aliviado de saber que você ganhou o duelo.

— Não sei se eu teria ganhado se ele não tivesse me subestimado.

— Pelo visto foi você quem o subestimou.

— Não, eu contava com um golpe assim. Por isso precisava do melhor ferreiro de Vvardenfell.

— Quer dizer que se aproximou de mim por interesse?

— No começo, sim. Mas depois que lutamos contra os caçadores, eu percebi que poderia confiar em você. Percebi que você tinha honra e bom caráter. Acreditar em mim ou não fica a seu critério.

Tuvlos chegou com Danlusa e Nerevarine se retirou. No dia seguinte, ela estava treinando sozinha quando ele se aproximou.

— Eu sempre soube que você queria algo de mim. Só que eu imaginava que era algo de meus cofres.

— Eu poderia ter roubado você há muito tempo se eu quisesse ─ disse sorrindo.

— Você pode ter conseguido roubar do Neloth e da Therana, mas não conseguiria roubar de mim. E se você tivesse tentado, eu mesmo teria arrancado a sua cabeça.

— Eu não duvido. Ainda pretende me levar para a Montanha?

— Estou começando a achar que eles irão atrás de você até na Montanha.

— Por quê?

— Meus informantes me contaram que Eno Hlaalu é novamente Grão-Mestre da Morag Tong e que o antigo Grão-Mestre foi encontrado morto na Arena de Vivec e em seu corpo foi achado um pergaminho onde dizia que havia sido convocado para um duelo por uma Bosmer chamada Kláxia Baalivantrar. Eno escreveu um contrato para cada um dos melhores membros da Morag para assassinar a qualquer custo a elfa mencionada. Mas como um duelo não é um crime, esse pergaminho encontrado no corpo do ex-grão-mestre foi destruído. Agora você é oficialmente, a assassina do Grão-Mestre da Morag Tong.

— Mas você viu, foi ele quem me convocou!

— Você não precisa me explicar nada, eu sei a verdade. Aliás, você não precisa explicar nada para ninguém, já que ninguém acreditaria e você rasgou a única prova.

— Por que Eno Hlaalu assinaria um contrato de morte para mim? Já havia um contrato para mim na Morag. Não entendo...

— Sinto muito em lhe contar, mas não havia qualquer contrato na Morag Tong para a sua morte.

Kláxia estava em choque.

— Eu nunca subestimei a falta de caráter dele, mas eu nunca poderia imaginar algo assim. O que ele pretendia com isso?

— Tem mais. Larrius disse que limparia seu nome pelo favor que você fez a ele matando os membros da Camona Tong, mas não limpou.

— É, havia uma recompensa de 5000 drakes pela minha cabeça. E depois, inexplicavelmente, aumentou para 50 mil drakes.

— Existe uma explicação. Govarys Vloulu assinou um contrato para a morte de Larrius, e ele usou isso contra você. Govarys encontrou-se com Larrius e assegurou-o que enquanto ele fosse Grão-Mestre, nenhum membro da Morag encostaria em Larrius, contanto que este aumentasse a recompensa pela sua morte ao ponto de encurralá-la em algum lugar específico de Vvardenfell. Assim ele teria certeza de sua localização e quem poderia estar lhe ajudando. Não sei a que informações você teve acesso nos anos em que trabalhou para a Dark Brotherhood, mas acredito que tenha uma ligação com as intenções de Govarys.

— Além de tudo, ainda era covarde. Ele só não pôs qualquer que fosse o plano dele em prática porque soube que eu estava sob a sua proteção.

— Sim. Eu disse para você que eles não ousariam.

— Ele nunca mereceu ser grão-mestre.

— Na cabeça dele, a rivalidade das duas facções nunca acabou.

— Não. Ele apenas me usou o tempo inteiro.

Capítulo 11

Um mês depois, os dois arrumavam o que iriam utilizar na Montanha.

— Ansiosa por causa da nossa jornada?

— Um pouco. Você já terminou de planejar tudo?

— Sim. A primeira vez que explorei a Montanha foi para recuperar dois artefatos que eu precisaria, aproveitei para decorar os lugares por onde passei. Mas acredito que Dagoth Ur já saiba da minha intenção e teve tempo o suficiente para se preparar. É mais do que provável que seja muito difícil chegarmos até sua Cidadela.

— O que vamos encontrar pelo caminho?

— Provavelmente um exército de criaturas com corprus.

— Além de não poder encostar neles, tem mais alguma coisa que eu precise saber?

— Eu não me sinto seguro levando você para a Montanha sem antes treiná-la.

— Pode ficar tranqüilo que eu não vou fugir e lhe abandonar sozinho.

— Eu não me preocupo por mim.

— Fico tocada com a sua preocupação, mas vai acontecer comigo o que tiver de acontecer.

— Eu prezo pela nossa amizade inusitada.

— Eu aprecio isso, Nerevarine, mas todos nós, um dia, iremos morrer. Você precisa parar de achar que pode controlar tudo, santo elfo de Azura!

Ele sorriu.

— Essa é uma das coisas que vou sentir falta se um de nós dois morrer — disse Nerevarine.

— Primeiro, você não vai sentir falta disso se você morrer porque estará morto. Segundo, você não vai morrer.

— E se depender de mim, nem você.

— Não depende de você. Eu sentenciei a minha vida no momento em que escolhi ser uma assassina ladra em vez de uma aventureira espirituosa.

— Isso tudo será passado quando entrarmos naquele navio para Akavir.

— Assim espero.

Eles terminavam de preparar suas respectivas armaduras quando Kláxia se lembrou:

— Tuvlos me avisou que todos os aprendizes voltaram com a minha fortuna, tomei a liberdade de pedi-lo para guardar nos seus cofres.

— Tudo bem, ele já me avisou. Foi bom que eles tenham levado apenas um mês. Detesto mandar muitos aprendizes para longe quando preciso deixar a torre.

— Não entendi isso. Você adora se gabar do quão bem treinados são os seus guardas.

— Sim, são. E sim, me gabo. Mas o treinamento que dou a meus aprendizes é ainda pior, e por isso tenho muita confiança neles. Sei que se, por exemplo, uma horda de criaturas da Montanha atacasse minha torre, os guardas sucumbiriam, não tão facilmente, mas sucumbiriam. Porém os aprendizes são treinados para enfrentar até um Lorde Daedra se preciso for.

— Você parece uma mulher, excessivamente prevenido.

Nerevarine fez uma careta enfadonha, mas não agüentou e riu. Tuvlos apareceu.

— Mestre, suas poções ficaram prontas. Devo colocá-las em seus respectivos recipientes?

— Por favor, Tuvlos.

O aprendiz se retirou.

— Você não acha que está levando muita coisa?

— Apenas o que vou precisar, algumas poções e pergaminhos. Você é que não está levando quase nada.

— Só preciso da minha armadura nova e das minhas adagas.

— Deveria levar pelo menos algumas poções.

— Estou levando meus venenos.

— Nenhum deles irá funcionar nas criaturas de Dagoth.

— São venenos! Matam qualquer coisa viva! Tem certeza disso?

— Por que acha que tive todo o cuidado de manter você longe da caverna? Tivemos muito trabalho para capturar aquela criatura com corprus. Fiz inúmeros testes. Enquanto Fyr acredita que a corprus seja uma bênção, eu acredito que seja uma maldição. Já no momento do contágio, a vítima sente seus efeitos: redução dos reflexos e aumento de força. Após 5 horas, as dores começam, e a saúde mental do indivíduo decai num caminho sem volta. O tempo que leva para a transformação física a partir desse estágio só depende do quanto a vítima consegue controlar a dor, que não pode ser aliviada com poções. E curiosamente, depois que as dores começam, não há encantamento, veneno, poção ou mesmo qualquer outra doença que afete a vítima.

— Uma bênção e uma maldição. Nós ladrões estamos acostumados com isso.

— Não é brincadeira. A doença destrói a mente de um jeito irreversível. Quando Fyr me tratou, eu tive contato com os infectados no Corprusarium. Nenhum deles tem noção de seus atos e o Fyr não parecia animado com uma cura tão cedo. Eu só consegui ser tratado porque sou o Nerevarine. Se não fosse isso, eu acabaria como um deles.

— Eles pronunciam alguma palavra, qualquer coisa que dê para fazer contato?

— Não. São apenas gemidos característicos de dor ou confusão. Eles não conseguem pensar, fica claro quando você encontra um deles. Isso os torna extremamente agressivos. Acredito que apenas Dagoth Ur possa ajudá-los a controlar a doença, ou a bênção, mas...

— Quando você cumprir a profecia, o que vai acontecer com todas essas pessoas infectadas?

— As que estão sob os cuidados do Fyr terão um final piedoso. As demais provavelmente serão sacrificadas, como já são.

— Não fique com esse olhar perdido. Você não pode controlar tudo. Todos nós temos que morrer, um dia.

— Há formas melhores de morrer.

— Nenhuma forma de morrer é boa, a gente apenas acha que as mais rápidas são as melhores, mas no fim, não faz diferença, o resultado é o mesmo.

— Não me lembro de você ser tão conformista assim. Pelo contrário, eu conheci uma Bosmer muito insistente!

Ela riu.

— Sou insistente com o que vale a pena. Na Irmandade aprendemos a não nos importar com a morte, mas abraçá-la de onde ela vier.

— Quero que você faça algo por mim: na Montanha, não abrace a morte.

— Vocês magos precisam trabalhar esse orgulho que os impede de aceitar uma perda. Mas prometo fazer o possível para não morrer. Ainda estou muito curiosa sobre Akavir.

— Você fala de abraçar a morte, mas está fugindo dos assassinos da Morag Tong.

— Não era a minha hora.

— E como você poderia saber?

— Uma das coisas que aprendemos na Irmandade é meditar em Sithis. E às vezes ele se comunica conosco. Em uma dessas meditações, eu creio que acabei adormecendo, mas no sonho, ele falava comigo. Ele me disse que eu não precisaria temer meus inimigos, a minha morte não viria de um deles.

— E de onde viria?

— Da maldição do tempo roubado.

— O que isso significa?

— Não faço idéia.

No dia seguinte pela manhã, Nerevarine teleportou os dois. Estavam aos pés da Montanha, num momento solene, aguardando os portões de Ghostgate abrirem. Não podendo conter sua ânsia de falar descontroladamente, Kláxia se pronunciou:

— Preciso lhe dizer uma coisa antes de entrarmos...

Nerevarine permaneceu em silêncio esperando que ela dissesse que não poderia ir com ele, ou até mesmo que sua verdadeira natureza de assassina ladra viesse à tona e ela tentasse matá-lo para roubar seus itens, mas num tom sério e profundo, ela apenas falou:

— Foi uma honra.

O rangido de ferros e correntes anunciou que a Montanha estava pronta para recebê-los. Sem precisar andar muito já foi possível ver o exército de criaturas infectadas. Não demorou para Kláxia perceber o quanto eram inúteis seus dardos, tanto os comuns quanto os envenenados, que ela teimou em levar mesmo depois da explicação dele. Suas adagas eram suas melhores amigas e mesmo uma criatura afetada pela corprus não resistiria a um coração dilacerado. Por um momento, Nerevarine observou a ferocidade em seus golpes, não era nada suave ou prático como havia presenciado quando lutaram contra os caçadores de recompensa, ela realmente estava disposta a dar tudo de si para ajudá-lo naquela empreitada.

Era noite e eles haviam finalizado apenas a primeira onda de criaturas. A segunda onda era de ash slaves e ash zombies. Nerevarine entendeu qual era a estratégia de Dagoth Ur: Cansá-los. E ele temia que isso pudesse dar certo, não por si mesmo, mas por ela. Assassinos não são guerreiros, não estão acostumados a muito tempo de lutas ininterruptas. Costumam gastar sua energia com esquivas, velocidade e com uma carga de força muito grande para finalizar seu adversário rapidamente. Guerreiros sabem controlar sua energia para uma longa batalha. E ela estava começando a se cansar.

A horda avançava na direção deles e, antes que se engajassem na luta, Nerevarine aconselhou:

— Não use toda a sua energia com golpes muito fortes, você vai se cansar rápido e esse é o objetivo dele. Foque-se apenas em resistir o máximo de tempo possível.

Enquanto ela usava apenas suas adagas, ele mesclava golpes de sua katana e magia.

O dia havia raiado quando finalizaram a segunda onda. Kláxia estava visivelmente cansada. Ele gastara todas as suas poções consigo mesmo e com ela. Faltava pouco para que alcançassem a Cidadela de Dagoth Ur.

— Eu deveria ter adiado nossa visita e ter treinado você mesmo contra a sua vontade.

— Você não pode adiar seus planos em função minha. Eu fui estúpida em não aceitar seu treinamento, mas é possível que não fizesse tanta diferença. Seria pouco tempo de treino.

A terceira e última onda era de ascended sleepers1 e dreamers. Kláxia estava agüentando o máximo que conseguia, mas seus reflexos estavam mais lentos devido à fadiga. Para Nerevarine, não fazia sentido que a última e, por conseqüência, mais difícil horda contivesse dreamers. De repente, um grupo de ash ghouls surgiu nas colinas ao redor e afastado deles. Nesse momento, ele percebeu que o verdadeiro plano de Dagoth Ur era atingi-lo onde era mais fraco: em suas amizades. Kláxia estava distante, ele gritou para ela:

— Venha para trás da barreira mágica! Rápido!

Ela correu, mas um ascended sleeper a acertou com uma bola de fogo jogando-a para longe. Os demais ascended atacaram-no com magia obrigando-o a ficar dentro de sua barreira mágica. Ela se levantou e um ash ghoul, precisamente posicionado, atingiu-a com a bênção. Nerevarine se desesperou e gastou todo o seu poder mágico numa gigantesca e catastrófica explosão que pôde ser vista até de Caldera. As criaturas mais fracas foram desintegradas. Só restou ele, Kláxia e os ascended sleepers que agora estavam em menor número, mas o suficiente para fazer um estrago.

Ela sentia dificuldade em lutar, mas percebeu que não precisava se esforçar para acertá-los com força. Já o Nerevarine lutava em um violento e assustador frenesi.

Quando o último ascended foi destruído, Kláxia mal conseguia ficar de pé. Havia se passado muito tempo desde que fora infectada.

— Vamos, faltam poucos metros ─ disse ela.

— Descanse. Você não está em condições de lutar, sequer de ficar em pé.

— Eu consigo, vamos.

Caminhou o suficiente para cair sentada diante do portão da ruína.

— Kláxia, não insista, eu sei que você está com dores terríveis.

— Desculpa, Nerevarine, por desapontá-lo. Não consegui cumprir com meu papel de mercenária. Não posso ir adiante.

— Você não me desapontou. Eu nunca lhe trouxe aqui como mercenária, mas como amiga. Ouça, eu vou salvar você, eu vou lhe curar, só preciso que você resista mais um pouco.

— Não existe cura. Eu aceito o meu fim.

— Eu não aceito.

— Nerevarine... ─ Ela estava em visível sofrimento.

— Não.

— Eu tenho que dizer...

— Não! ─ Ele estava bastante abalado.

— Talvez a gente se encontre em outra vida.

— Eu não vou deixar você morrer!

— Não cabe a você e nem a ninguém. Todos nós precisamos morrer mais cedo ou mais tarde, aceite isso.

— Não é justo.

— E quem disse que deveria ser?

Num ato que surpreendeu-a além dos limites de uma surpresa comum, ele a abraçou.

— Eu preciso que você faça uma coisa por mim ─ pediu ela. — Quero que você me mate.

— Não posso fazer isso. Eu vou voltar por você, eu juro por todos os Divinos que eu vou voltar por você.

— Nerevarine, eu não estarei mais aqui quando você voltar. Eu preciso que você me mate.

— Não, Kláxia. Resista, eu vou voltar o mais rápido possível.

Enraivecido com o que Dagoth Ur havia feito e não podendo adiar mais aquele encontro, ele a abandonou do lado de fora da ruína. Cumprir a profecia não se tratava mais de uma tradição ou honra ao povo Dunmer, mas simplesmente de uma vingança.

Quando voltou, encontrou-a completamente transformada e sua própria adaga estava fincada na barriga. A criatura, totalmente fora de sua sanidade, atacou-o.

Aqueles olhos negros que um dia carregaram o brilho do infinito, estavam secos e opacos. As feridas começavam a se abrir.

Tudo o que estudou e ouviu de Fyr sobre a doença passou-lhe pela mente feito um raio, porém uma única frase predominava: "não existe cura". Não sabia o que fazer, queria levá-la para o Corprusarium, mas havia vários obstáculos e ele não queria deixá-la sozinha de novo e correr o risco de aventureiros sacrificarem-na. Assim, ele resolveu realizar o último pedido de sua amiga. Empurro-a para longe, desembainhou sua dai-katana e quando ela se aproximou novamente, a lâmina atravessou suavemente sua garganta separando a cabeça do corpo.

Nerevarine sentia um turbilhão de emoções e, apesar de tudo o que Kláxia parecia gostar de dizer, ele sentia principalmente como se a vida dela tivesse sido roubada antes do tempo.

Era sua amiga ali, deformada, perdida nos abismos de uma mente vazia, irrecuperável, morta. Aquilo pesou em seu coração. Seria uma daquelas dores que magos milenares costumam carregar por toda a vida, fazendo disso um culto à solidão.

FIM


Uma Rosa de Sangue

A Altmer rosqueou o último parafuso da última prótese do lote que a Legatus Rikke encomendou e colocou dentro de um caixote que seria enviado para Solitude. Com a guerra civil se espalhando por Skyrim, construir próteses para todos os soldados feridos era uma tarefa quase infinita, além de ser muito delicada considerando que também realizava o mesmo trabalho para o líder dos Nords rebeldes, Ulfric Stormcloak. Entretanto, apesar da rivalidade entre os dois lados, ambos os líderes apreciavam muitíssimo o trabalho meticuloso e impecável de Thalienn Tennoril e não lhe causavam tantos problemas além de breves indisposições.

Graças a décadas de dedicação estudando o maquinário Dwemer, a elfa descobriu como adaptar parte da lógica por trás da tecnologia secular para auxiliar os deficientes. No entanto, naqueles tempos de guerra, ela não tinha mais tempo de ir atrás do material, então sua amiga Angelique, que vivia viajando o tempo todo, ficava encarregada de abastecer seu inventário.

A Breton chegou tão silenciosamente que Thalienn deu um pulo assim que avistou aqueles olhos negros e fundos como os de um demônio encarando-a de um canto escuro. Angelique era reservada quanto à sua vida pessoal, mas a Altmer sabia que a amiga estava envolvida com algum – ou alguns – Daedras, passando por situações que ninguém deveria passar. Aos poucos, a elfa temia, sua amiga seria devorada viva pelos malditos demônios do Oblivion, mas nada do que dissesse poderia dissuadir a teimosa Breton. Cada alma traça o seu próprio destino, e por mais que apreciasse a presença de Angelique, a vida da amiga não lhe pertencia. Lamentar seu trágico fim seria tudo o que poderia fazer, e então sua própria vida voltaria a requerer sua total atenção.

— Os itens que pediu — disse Angelique colocando uma mochila sobre a mesa. E lançou um olhar para as próteses dentro de um caixote aberto: — Terminou tudo?

— Sim, mas não vai demorar muito até o Nord mandar um de seus auxiliares com uma nova ordem. E é melhor que ele não veja o que os imperiais encomendaram.

— Quer ajuda para pregar tudo?

A Altmer concordou e as duas se puseram a pregar todas as tampas dos caixotes. Quando terminaram, Thalienn instruiu sua auxiliar – uma jovem orsimer chamada Rogamoga – para enviar tudo a Solitude.

— Podemos celebrar agora ou você vai enfiar a cara em algum livro ou projeto de novo? — perguntou Angelique.

— Celebrar?

— Seu aniversário, oras.

Com tudo o que estava acontecendo, Thalienn havia perdido a noção do tempo. Não que isso fosse raro ou até mesmo um problema para um elfo, mas viver dentro de uma caverna, quase sem ver a luz do sol, tinha as suas desvantagens.

A Altmer encarou o fundo dos olhos opacos da amiga e estremeceu. Se ela não parasse com aquela vida, não sobraria nada da sua alma, nem mesmo para ser estraçalhada pelos Daedras.

— Acho que vou assistir a algum pôr-do-sol — disse a elfa. — Quase não me lembro mais.

— Isso não é uma celebração.

— Não faz diferença.

— É claro que faz. Só se chega aos 131 anos uma vez na vida. E, para alguns de nós, nunca se chega a essa faixa. Vamos sair.

Thalienn suspirou tirando o peso de mais de um século de vida dos ombros. Depois que saiu de Cyrodiil e foi para Skyrim, nunca mais comemorou nada de verdade. E não se lembrava como era celebrar o que quer que fosse. Sua vida se resumia aos estudos do maquinário Dwemer e ao trabalho com as próteses. Parou de praticar até mesmo a magia que tanto gostava quando fazia parte da Guilda dos Magos na cidade imperial.

— Celebrar como?

Angelique sorriu. Um sorriso macabro mesmo que Thalienn soubesse que essa não era a intenção da amiga.

— Pegue seu dinheiro. Vamos beber até vomitarmos o chão de alguma taberna.

— Não me parece muito saudável ou agradável — disse a elfa.

— Não é para ser. É para ser inesquecível. Por bem ou por mal.

A Altmer sacudiu a cabeça como se se livrasse de qualquer responsabilidade, pegou uma sacola de couro cheia de moedas, despediu-se de Rogamoga e acompanhou Angelique a cavalo até a cidade mais próxima.

Graças ao Dovahkiin, Whiterun havia se aliado aos Stormcloaks. A cidade estava cheia de guardas vestidos de azul. Algumas pessoas sorriam felizes e caminhavam leves. Outras viviam olhando por cima dos outros como se esperassem uma punhalada traiçoeira a qualquer momento.

As duas chegaram ao anoitecer, deixaram os cavalos no estábulo do lado de fora e seguiram para a taberna da Égua Estandarte. O movimento ainda estava fraco, então encontraram os melhores lugares logo ao balcão, ao lado de um homem que bebia solitário.

— Duas doses do que você tiver de mais forte aí — pediu Angelique para a taberneira, uma Nord chamada Hulda.

— E, para mim, um chá de--

— Ela vai beber o mesmo que eu — disse a Breton interrompendo a amiga.

Hulda colocou duas canecas e duas garrafas de cerveja na frente das duas. Angelique serviu a si mesma e à amiga que parecia não saber mais como manusear uma garrafa.

A Breton ergueu a caneca para brindar, mas Thalienn tomou um gole, fez uma careta e devolveu a caneca para o balcão.

— Um brinde — disse Angelique, irritada, para fazer a amiga lembrar dos bons modos —, ao seu aniversário.

Thalienn bateu sua caneca na da Breton e tomou mais um gole. Angelique engoliu sua bebida toda de uma vez e encheu sua caneca de novo.

Um homem que estava ao lado de Angelique puxou conversa.

— Meus parabéns, senhorita. Que muita saúde e aventura preencham a sua longa vida.

Thalienn agradeceu um tanto desconfortável. Preferia estar em sua caverna rosqueando parafusos.

— Sam Guevenne — disse o homem se apresentando.

— Angelique Evangevique — disse a Breton. E apontou para a Altmer: — Thalienn Tennoril.

— Muito prazer, senhoritas. Poderia eu recomendar algo mais refinado?

— Por favor — disse Angelique notando algo de familiar no homem, mas preferiu não dizer nada.

— Hulda, por gentileza, um Vinho Alto para as duas senhoritas por minha conta.

A taberneira colocou uma garrafa sobre o balcão e saiu para atender outros clientes.

Angelique entornou sua bebida de uma vez e encarou Thalienn para que fizesse o mesmo. A Altmer obedeceu e não achou o vinho tão ruim quanto a cerveja.

— Para deixar a celebração da aniversariante mais interessante — começou Sam —, eu gostaria de propor uma competição amigável. Se uma de vocês vencer, leva um cajado como prêmio. O que acham?

Thalienn ia recusar educadamente, mas Angelique aceitou em voz alta pelas duas e a elfa não quis fazer desfeita com o estranho que havia sido tão educado e respeitoso.

Sam pegou uma garrafa de sua mochila, serviu às duas e depois a si mesmo.

— Esse vinho aqui é o melhor que vocês vão provar. Envelhecido por muitos anos e com um toque secreto especial.

Os três entornaram suas bebidas de uma vez e repetiram o processo mais quatro vezes.

— Senhoriiiiiitas... — começou Sam. — Nunca imaginei que as damas respeitáveis desta sociedade tão gelada pudessem ser tão duronas no álcool!

Thalienn abraçava o balcão como se fosse cair de um barco. Angelique sorria um sorriso macabro para algo invisível que voava à sua frente.

— Olha... — continuou Sam —, acho que vocês ganharam, viu? Eu não consigo entornar mais nada, e vocês?

Angelique colocou a sua caneca em frente ao homem. Sam derrubou mais bebida fora do que dentro do recipiente. A Breton bebeu todo o conteúdo.

— Meus parabénnnnsssss — disse ele. — Ei, que tal se nós fôssemos para um lugar ótimo, não muito longe daqui, onde tem rios de vinho e árvores de comida?

As duas tentaram se levantar e falar alguma coisa, mas o mundo escureceu completamente e um silêncio as envolveu.

— Acordem, dupla de blasfemadoras bêbadas! — gritou uma voz feminina.

A visão turva das duas lentamente alinhava-se de volta. O clarão da luz do dia fazia a enxaqueca latejar como o tambor de um bardo eufórico.

— Onde estamos? — perguntou Thalienn. — Quem é você?

— Blasfemadoras? — perguntou Angelique.

— Eu sou Senna, sacerdotisa de Dibella. E é claro, é claro que não se lembram de nada! Blasfemadoras sim! Passaram a noite se esfregando e fazendo gestos obscenos com as estátuas de nossa adorada Dibella! Numa circunstância normal, Dibella não veria ofensa nesse erotismo barato, mas vocês duas estavam bêbadas e fora de controle. Olha o estrago que fizeram!

As duas olharam ao redor bem devagar, para não forçar a vista dolorida e sensível. A mobília estava derrubada, objetos quebrados e espalhados por todos os lados, líquidos e odores indecifráveis cobriam quase todas as superfícies do cômodo.

— Por acaso um homem chamado Sam Guevenne estava conosco? — perguntou Angelique.

— Até parece que eu vou dizer exatamente o que vocês querem saber e deixar as duas irem embora enquanto as suas bagunças ficam para trás. Não, não, não. Vocês duas limpam tudinho primeiro, pedem perdão pelo que fizeram e então eu decido se ajudo ou não. Podem começar — disse a sacerdotisa empurrando esfregões, baldes e panos para as duas.

Thalienn começou juntando os itens quebrados numa pilha perto da porta, mas uma das sacerdotisas bloqueou sua passagem.

— Eu mesma levo o lixo para fora. Vocês não saem daqui.

Angelique começou limpando com um pano molhado o líquido e os odores que cobriam as estátuas.

Aos poucos, com dificuldade e dor, as duas arrumaram tudo, esfregaram tudo e deixaram o cômodo quase como o encontraram.

Senna voltou e avaliou o trabalho.

— Muito bem. Agora, as desculpas.

Thalienn começou.

— Sinto muitíssimo por ter invadido seu templo e agido de uma maneira completamente irracional, ofensiva e vexatória. Sei que pode ser difícil de acreditar depois do que aconteceu, mas eu não sou assim normalmente. Sinto muito mesmo por ter lhe causado problemas, senhora, eu jamais faria isso se não tivesse aceitado todas as idéias ridículas de minha amiga aqui.

Angelique começou a sorrir da sua maneira macabra, mas a dor ainda era forte e o sorriso morreu no meio do caminho.

— Querida senhora sacerdotisa, peço desculpas pela bagunça. Isso não vai mais se repetir aqui neste lugar. Vou me lembrar de nunca mais voltar aqui, não se preocupe. — E olhando para as estátuas: — Senhora Dibella, peço desculpas pelo assédio sexual. Isso nunca havia acontecido antes e não vai acontecer de novo. Pelo menos não com um dos Aedra.

Senna balançou a cabeça e deu um meio sorriso.

— Suponho que não devo exigir muito de vocês duas. E Dibella nos ensina que o perdão é tão importante quanto o amor e as artes, então nós perdoamos vocês duas. Quanto ao que aconteceu ontem à noite, vocês duas chegaram aqui cantando, dançando, fazendo gestos obscenos e quebrando tudo o que encontravam, além de resmungarem alguma coisa sobre um casamento, uma cabra e Rorikstead.

Thalienn massageou as têmporas e respirou fundo algumas vezes. Os olhos negros e fundos de Angelique se arregalaram um pouco e ela quase conseguiu dar uma risada.

Senna entregou-lhes seus pertences e empurrou as duas para fora do templo.

Do lado de fora, Thalienn sentiu algo lhe espetar por debaixo da roupa, verificou sua algibeira e encontrou um papel dobrado.

— O que é isso? — perguntou Angelique.

Thalienn desdobrou o bilhete e leu.

— "Nós precisamos dos seguintes itens para consertar o cajado: um dedão de gigante, água benta, e penas de hagraven. Sam". Tinha que ser o seu amigo.

— Ele não é meu amigo — disse Angelique. — Mas tem algo... familiar nele.

— Água benta... — comentou a Altmer para si mesma.

Thalienn remexeu a mochila que a sacerdotisa lhe entregara e achou duas garrafas de vinho cheias de água.

— Faz sentido — comentou Angelique.

Remexendo mais um pouco, Thalienn encontrou um dedão de gigante que já começava a cheirar mal e algumas penas de hagraven.

— Pelos Divinos — disse Thalienn —, o que nós fizemos ontem?

Angelique riu, a dor de cabeça já começava a diminuir.

— O que quer que seja, a resposta deve estar em Rorikstead.

As duas pegaram uma carruagem para a vila e chegaram horas depois.

Assim que desceram, um redguard muito aborrecido aproximou-se das duas bufando e quase chorando.

— Vocês não têm decência! Mas tem muita cara-de-pau de aparecer aqui depois do que fizeram!

— Lá vamos nós — disse Angelique.

Thalienn tentou sorrir de forma tranqüilizadora, mas estava cansada demais para ser educada.

— O que nós fizemos desta vez? — perguntou a Altmer.

— Vocês seqüetraram minha Gleda e venderam a pobrezinha para um gigante! — O homem começou a chorar. — Não gosto nem de imaginar o que ele pode ter feito com ela a essa altura! Que os Divinos tenham misericórdia da minha pobre Gleda.

— Angelique, o que você fez comigo? — perguntou Thalienn voltando-se para a amiga com toda a raiva que a enxaqueca lhe concebia. — Nós seqüestramos e vendemos uma criança para uma criatura primitiva! Isso é tráfico de pessoas! Eu não saí de Cyrodiil para virar uma criminosa desprezível!

Angelique ficou parada sem expressar nenhuma emoção além de um par de olhos demoníacos que se abriram levemente.

— Criança? — comentou o homem. — Não, não. Minha Gleda é uma cabra. A minha cabra. A minha querida Gleda.

As duas amigas deslizaram os olhares incrédulos e um pouco enojados para o homem.

— Nunca mais eu conseguirei fazer o cruzamento de uma cabra tão boa quanto minha preciosa Gleda! — resmungou o homem secando as lágrimas. — É melhor vocês duas trazerem minha Gleda de volta antes que eu chame os guardas!

— Por acaso — começou Angelique —, uma de nós mencionou um cajado ou um homem chamado Sam?

— Ah, sim, falou sim. Vocês gritavam sobre um cajado enquanto corriam que nem loucas com a minha Gleda!

— O que a gente disse exatamente? — insistiu a Breton.

— Tragam a minha Gleda de volta e eu posso ver se quero me lembrar de mais alguma coisa.

— Para que lado nós seguimos, senhor? — perguntou Thalienn.

O homem apontou para umas colinas e voltou para sua fazendinha.

As duas seguiram colina acima.

— Eu não sei por que eu ainda vou atrás de você — disse Thalienn.

— Não, não me venha com essa carranca. Isso aqui é melhor do que meses de caverna escura. E olha que eu vivo metida em lugares escuros e úmidos.

Não muito longe dali, um gigante vagava cabisbaixo e, próximo dele, uma cabra viçosa comia grama como se nada de estranho tivesse acontecido em sua vida.

— Fique aqui — disse Angelique.

A Breton esgueirou-se silenciosamente pela campina, agarrou a cabra que deu um gritinho de espanto e voltou a passos largos, mas não tão silenciosos quanto antes. O gigante avistou as duas e começou a vocalizar e a sacudir sua clava enquanto se aproximava cautelosamente. Em seu pé, um dedão faltava e a ferida estava purulenta.

— Corra! — disse Angelique carregando a cabra no colo.

Assim que sumiram de vista, o gigante se resignou e voltou a vagar tristemente.

Não demoraram muito para retornar a Rorikstead. Angelique pôs a cabra no chão e ficou de joelhos respirando como se o ar do mundo tivesse desaparecido.

— Minha Gleda! — gritou o homem enquanto corria para abraçar seu animal. — Oh, minha preciosa Gleda! Intacta, nenhum pêlo faltando! — E, para as duas: — Eu não sei por que vocês roubaram minha Gleda, vocês deixaram um recado, mas a maior parte era um monte de coisas sem noção, a outra parte estava borrada por causa de vinho derramado e a única parte que dava para entender falava sobre "pagar Ysolda em Whiterun".

Thalienn pediu desculpas e as duas seguiram para Whiterun.

Assim que adentraram a cidade, Ysolda apressou-se até as duas e dirigiu-se à Altmer.

— Olha, eu entendo que é um momento especial, mas você me deve um anel.

Angelique sorriu e deslizou para uma penumbra porque a luz do sol ainda lhe incomodava a vista.

— Tudo bem — disse Thalienn —, quanto eu lhe devo?

— Não é bem por causa do dinheiro — disse Ysolda. — Você estava tão apaixonada que eu acabei lhe dando o anel de casamento para pagar depois. Mas se por acaso o casamento não acontecer, eu gostaria de ter o anel de volta. Era o melhor do meu estoque.

— Casamento? — perguntou a Altmer incrédula a princípio, depois apenas resignada.

— Sim, vocês duas saíram daqui correndo, você gritando que ia entregar para a sua noiva imediatamente. Não se lembra?

Angelique deu uma gargalhada, mas parou antes de terminar porque sua cabeça latejou com força.

— Não me lembro de nada.

— Uma pena. Você me contou uma história tão fofa de como vocês se conheceram no Bosque de Witchmist. Mas do jeito que você está avoada, não me admira que sua noiva tenha lhe abandonado.

— Obrigada, Ysolda — disse Thalienn tentando ser educada. — Eu vou lhe devolver o anel.

As duas pegaram uma carruagem para Windhelm e seguiram em silêncio para o Bosque de Witchmist. Angelique se segurava para não rir, e Thalienn se segurava para não lançar uma bola de fogo na cara da amiga. Chegaram ao anoitecer.

— Meu amooooor! — grasnou uma voz se aproximando. — Estava esperando você para consumar nosso amooooor.

A hagraven aproximou-se rebolando, sacudindo as penas e sorrindo com dentes amarelados. Tentou beijar Thalienn, mas a Altmer deu um pulo para trás. Angelique caiu no chão com uma crise de riso incessante.

— Desculpa incomodar, senhora? Senhorita? Dona? Moça? — começou Thalienn. — Mas poderia me devolver um anel que eu provavelmente lhe entreguei?

— Como é? — A hagraven empertigou-se e seu sorriso transformou-se numa careta hostil. — Você quer dar o meu anel para aquela vadia da Esmerelda, não é? Só por causa das penas negras dela? Não! Eu não vou deixar que ela roube você de mim!

Angelique contorcia-se no chão, babando e com falta de ar. A hagraven atacou Thalienn e a Altmer viu-se obrigada a neutralizá-la. Com um feitiço de paralisia, a criatura tombou no chão. A Altmer tirou um anel brilhante das garras da hagraven e correu para longe.

— Angelique, rápido!

A Breton arrastou-se como pôde e as duas fugiram antes que o feitiço desvanecesse.

De volta em Whiterun na manhã seguinte, Thalienn devolveu o anel que Ysolda havia lhe vendido.

— Uma pena que não tenha dado certo. Você estava tão empolgada com todos os convidados ilustres que iria convidar, com a cerimônia pomposa em Morvunskar e com a noite de núpcias. Você até mencionou algo sobre um cajado especial...

— Morvunskar? — perguntou Thalienn.

— Sim, foi onde você disse que a cerimônia aconteceria. Se não me engano, é uma fortaleza perto de Windhelm.

— Obrigada.

As duas pegaram uma carruagem para Windhelm de novo e seguiram a pé para o sudoeste até a fortaleza. O lugar estava cheio de magos mal encarados e, provavelmente, armados até o último fio de cabelo.

— Como vamos fazer agora? — perguntou Thalienn.

Angelique tirou dois vidrinhos de sua mochila e entregou um para a amiga.

— Invisibilidade. Beba.

Imediatamente, as duas desapareceram. Angelique sussurrou:

— Nos esgueiramos e se algo der errado, não hesite em atirar bolas de fogo. Mas evite esbarrar em alguma coisa ou alguém. Sam deve estar aí dentro em algum lugar.

As duas foram extremamente cuidadosas para não derrubar nada e não fazer barulho. Evitaram e desviaram de todos os magos enquanto avançavam pela fortaleza e desciam alguns lances de escadas.

De repente, uma esfera mágica surgiu no caminho delas. Do interior da esfera, um bosque místico transparecia. As duas entraram na esfera e atravessaram para um bosque dentro de uma caverna imensa. Música tocava ao fundo e uma iluminação emanava de um lado. As duas caminharam até lá e encontraram uma longa mesa com várias pessoas sentadas bebendo, conversando alto e rindo.

Sam aproximou-se delas.

— Finalmente! — disse o homem transformando-se abruptamente num Daedra. — Achei que vocês não iriam conseguir.

Angelique sorriu, ela sabia que tinha algo familiar naquele homem. Thalienn não gostou nem um pouco da situação, mas não estava com humor para arranjar briga com um Daedra.

— Uma aventura e tanto, Sanguine — disse Angelique. — Onde estamos?

— Imaginei que vocês não iriam se lembrar daqui — disse o Daedra. — Vocês tiveram uma noite e tanto da primeira vez. Dançaram em cima da mesa e tudo. E, definitivamente, merecem o cajado.

— Ah, sim — começou Angelique. — Nós trouxemos tudo para consertá-lo.

Sanguine riu e balançou a mão recusando os itens.

— Podem jogar tudo fora. Não é necessário. Eu só precisava de uma desculpa para mandar vocês duas pelo mundo espalhando um pouco de excitação por aí. E vocês se saíram muito bem. Não fico tão entretido assim há, pelo menos, uns cem anos!

— Isso tudo foi só uma pegadinha então? — reclamou Thalienn.

— Pegadinha? O Lord Daedric da Devassidão não lida com "pegadinhas". Isso pode ter começado como uma mera brincadeira, mas não demorei para perceber que uma de vocês seria uma portadora mais adequada para o meu cajado não tão sagrado.

— Esse cajado é literal ou metafórico? — perguntou Angelique.

A risada de Sanguine ecoou pela caverna mística.

— É um cajado real e muito especial. Mas então, qual de vocês duas vai ficar com ele?

— Ela é a aniversariante — disse Angelique. E dando-se conta de que vários dias haviam se passado: — Foi a aniversariante.

— É verdade — disse Sanguine. — Meus parabéns mais uma vez, senhorita. E, para uma elfa tão distinta, Sanguine lhe oferece uma Rosa.

O Daedra entregou um cajado no formato de uma rosa gigante. Thalienn não queria ter um item de um demônio consigo, mas o clima era tão leve e amigável, e o Daedra, apesar de tudo, foi tão educado e respeitoso que ela aceitou o cajado e agradeceu.

— Não tem de que — disse Sanguine. — Mas acho que está na hora de vocês irem. Não tem graça manter vocês duas presas aqui com o cajado.

O mundo se deformou ao redor das duas e o tempo e a gravidade desapareceram por um momento. Assim que recuperaram os sentidos, estavam de volta na taberna da Égua Estandarte em Whiterun, no chão de um dos quartos. Thalienn ainda segurava o cajado firmemente.

— Isso tudo aconteceu? — perguntou a Altmer.

— Pode apostar que sim. E sabe-se lá o que mais aconteceu que nós jamais saberemos.

Angelique ajudou a amiga a se levantar.

— Meus parabéns — disse a Breton. — Que esse cajado traga alguma alegria ou utilidade para você em sua caverna solitária.

— Não estou sozinha. Rogamoga é uma ótima companhia.

Angelique sorriu, mas de uma forma um pouco mais humana e menos demoníaca.

— Nos vemos por aí algum dia — disse a Breton.

Thalienn ia abraçar a amiga, mas a Breton já havia desaparecido do quarto. A elfa recuperou seu cavalo no estábulo e seguiu de volta para sua caverna onde descobriria o que o cajado podia fazer.


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