Sono Interrompido – Parte 1
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4 de Last Seed – 3E 423
4 de Last Seed – 3E 424
♠♥♣♦
Kláxia observava a chuva naquela tarde de verão, deitada na rede da varanda de sua casa, numa ilha a oeste de Seyda Neen. Não havia ninguém num raio de 500km e isso a relaxava de uma maneira quase proibida. A espuma, que levantava no mar assim que as gotas atingiam a água, desaparecia no ar com uma explosão molhada conforme outras gotas a acertavam. O som do bombardeio aquático a deixava sonolenta, como se voltasse a habitar um útero divino que a protegia dos males terrenos.
No entanto, como tudo que é bom acaba, seu sossego foi perturbado pelo ladino que brotou do ar bem na sua frente.
— Você é muito difícil de achar! — reclamou o Bosmer enquanto se recuperava do teleporte apoiando-se na pilastra e respirando fundo.
— Pelo visto, não o suficiente.
Faldrien deu uma gargalhada longa e exagerada. Só parou quando estava prestes a tossir.
— Rodei pelos Telvannis até encontrar um que aceitasse me mandar pra cá. E ainda tive que prometer favores.
— É porque eu avisei que destruiria todos os experimentos deles se mandassem alguém pra me perturbar.
Faldrien riu exageradamente de novo e se sentou na bancada que cercava a varanda.
— Como eu estava com saudade desse seu bom humor.
— Que é inexistente.
— Nah, não seja tão ranzinza consigo mesma. Seu espírito é muito jovial e todo mundo gosta de você.
Kláxia o encarou com um desdém tão forte que as rugas na testa quase atravessaram o crânio. Instintivamente ela tocou a cicatriz no tórax que Govarys lhe causara décadas antes.
— Tá com algum contrato nas costas? — perguntou ela.
— Eu? Que isso! Me dou bem com todo mundo — comentou com um sorriso quase angelical.
— O que você quer, Faldrien?
— Eu? Nada! Estava com saudades da minha amiga e quis visitar. Não posso?
— Não. Se eu quisesse visitas, teria convidado.
— Deixa disso, minha amiga. Todo mundo gosta de ter companhia.
— Você subestima meu tempo de serviço a Nocturnal.
— Essa louca não tá com nada! A moda agora é Molag Bal, tá todo mundo seguindo.
Kláxia recolheu suas rugas de desdém e apertou os olhos com desconfiança.
— Como diriam meus anciões, eu não sou todo mundo.
Faldrien riu forçadamente de novo, mas dessa vez durou pouco. Talvez até ele próprio já estivesse perdendo a paciência.
— Ah, mas de vez em quando é bom seguir umas modas, deixar a vida nos levar, aproveitar qualquer oportunidade que aparecer...
— Oportunidade de quê?
— Por exemplo, de fazer uma grana extra.
— Passo. Tenho dinheiro mais que suficiente.
Faldrien riu, mas de nervoso.
— Mas grana fácil assim, você nunca mais verá.
— Um, não existe grana fácil. Dois, não existe grana fácil. Três, não existe grana fácil.
— Com esse seu mindset tão low assim, me admira que tenha tantos assets. Nem a melhor das networkings agüenta um overload por tanto tempo.
Os globos oculares da elfa reviraram com tanta força nas órbitas que quase produziram eletricidade.
— Fale com Augustus, talvez ele esteja interessado.
Faldrien deu uma risada irritada.
— Ele vai querer cobrar impostos.
— Ah. Uma grana extra fácil e que não paga imposto. Nem na Guilda era assim. Sempre tinha, pelo menos, uma taxa de operação.
— Minha amiga, é por isso que tô te falando que esse negócio é muito bom. Não tem imposto e nem taxa nenhuma.
— Então por que você não faz isso?
— Mas eu já fiz! Ganhei uma nota preta!
— E por que veio compartilhar comigo ao invés de ficar quieto e fazer mais notas pretas?
— Porque você é minha amiga, viemos de Vallenwood e já pertencemos à mesma Guilda. Somos farinha do mesmo saco.
— Discordo quanto à farinha. Estou mais pra cinzas de ossos.
Faldrien forçou tanto a risada que acabou soando como deboche.
— E estou começando a discordar quanto à amizade — completou ela.
Faldrien esticou os lábios para sorrir, mas acabou apenas mostrando os dentes numa careta.
— Tá vendo? Esse seu bom humor pode lhe render muito mais do que rendeu pra mim!
— Passo de novo. Não preciso de mais dinheiro.
— Quanto você tem?
— Mais ou menos 1 milhão de drakes.
Faldrien riu e tossiu ao mesmo tempo.
— Se você investir isso tudo, vai receber 5 vezes mais!
— Meu dinheiro já está investido. Não sou louca de guardar uma quantia dessas debaixo do colchão.
— Mas não está investido nesse negócio que rende cinco vezes mais.
— Não está, e não preciso desse rendimento todo.
— Mas quem não ia querer ganhar cinco vezes o que já tem?
— Eu não quero.
Faldrien se levantou, esfregou o rosto, respirou fundo, andou de um lado para o outro na varanda e então a encarou.
— Em quê você investiu seu dinheiro?
— Mercadores.
— Quanto eles te pagam de interest?
— De que?
— De juros. Quanto é o juros?
— Nenhum. O dinheiro só circula e eu retiro com eles quando quiser. Possuem guardas que eu não pago, e produtos com os quais eu não me importo. Assim tenho dinheiro sempre que eu quiser, em qualquer lugar de Morrowind sem me preocupar com ladrões.
— O benefício não vale a pena. Você está perdendo dinheiro.
— Não mesmo.
— É claro que está! Poderia ter 5 milhões, mas está se apegando a 1!
— Deixar de ganhar é diferente de perder.
— Todo dinheiro que a gente deixa de ganhar, a gente está perdendo, porque sempre existe um gasto futuro.
— Se o gasto é futuro, então ele não existe.
— Esquece a semântica! Pensa que você pode ficar mais rica do que é agora!
— Não preciso.
— Claro, não precisa, mas pode e deveria!
— Na sua cabeça.
— Na minha e na de todo mundo.
— Que “todo mundo” é esse com quem você tá se metendo, Faldrien?
O elfo olhou para o céu que já prenunciava a noite.
— Está ficando escuro. Não podemos conversar lá dentro? Que tal você me oferecer uma bebida?
Irritada, Kláxia se levantou e os dois entraram. Na sala de estar, havia um barzinho num canto com sujamma, shein, mazte, greef, flin, conhaque cirodiílico, conhaque vintage, conhaque dagoth, skooma, cerveja e hidromel. Os dois últimos de Skyrim. Do outro lado, uma escrivaninha onde ela escrevia cartas e seu diário. Sobre um papel descansava seu selo de metal. Faldrien olhou de relance para o objeto enquanto entrava atrás da anfitriã.
Kláxia acendeu os braseiros deixando a sala bastante iluminada. Indicou uma das duas poltronas no centro para que o Bosmer se sentasse, parou em frente ao bar e pegou uma caneca.
— Vai querer o quê?
— Skooma.
Kláxia serviu o drink. Faldrien sorveu num único gole e pediu outro. A elfa o encarou irritada e preparou o segundo. O Bosmer bebeu de uma vez e pediu mais um. Ela bufou e preparou o terceiro. Ele engoliu tão rápido quanto os anteriores e pediu o quarto.
— Já chega, né?
Faldrien sorriu como uma criança que tenta se fazer de fofinha.
— Mais unzinho, por favor — pediu com as mãos juntas.
Ela respirou fundo, caminhou até o bar e ouviu um barulho de móvel quebrando e porta batendo. Num único movimento, deixou a louça cair, agarrou suas adagas e virou-se. Faldrien não estava mais na sala. Sua escrivaninha estava fora do lugar e o selo havia sumido.
— Maldito elfo desgraçado! — rosnou com toda a sua raiva. — Seu destino me pertence agora, Faldrien Alvalorn!
Ela sabia que ele iria falsificar cartas em seu nome e passar por todos os mercadores retirando o dinheiro dela. Ele poderia ir tanto para o norte seguindo por Balmora, ou pelo sul passando por Vivec e Ebonheart. No entanto, esta última via o levaria para território Telvanni onde poderia ficar encurralado pelos amigos em comum. Seria melhor seguir por Balmora para o norte e depois pagar alguém para resgatar o dinheiro das cidades do sul. Kláxia então optou por seguir para o sul e resgatar alguma coisa antes que o ladino mandasse alguém.
Ela também sabia que seu dinheiro estava praticamente todo perdido. Contudo, precisava de somente 30 mil drakes...
... Para contratar a Irmandade Sombria.