Sono Interrompido – Parte 1

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4 de Last Seed – 3E 424


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Kláxia observava a chuva naquela tarde de verão, deitada na rede da varanda de sua casa, numa ilha a oeste de Seyda Neen. Não havia ninguém num raio de 500km e isso a relaxava de uma maneira quase proibida. A espuma, que levantava no mar assim que as gotas atingiam a água, desaparecia no ar com uma explosão molhada conforme outras gotas a acertavam. O som do bombardeio aquático a deixava sonolenta, como se voltasse a habitar um útero divino que a protegia dos males terrenos.

No entanto, como tudo que é bom acaba, seu sossego foi perturbado pelo ladino que brotou do ar bem na sua frente.

— Você é muito difícil de achar! — reclamou o Bosmer enquanto se recuperava do teleporte apoiando-se na pilastra e respirando fundo.

— Pelo visto, não o suficiente.

Faldrien deu uma gargalhada longa e exagerada. Só parou quando estava prestes a tossir.

— Rodei pelos Telvannis até encontrar um que aceitasse me mandar pra cá. E ainda tive que prometer favores.

— É porque eu avisei que destruiria todos os experimentos deles se mandassem alguém pra me perturbar.

Faldrien riu exageradamente de novo e se sentou na bancada que cercava a varanda.

— Como eu estava com saudade desse seu bom humor.

— Que é inexistente.

— Nah, não seja tão ranzinza consigo mesma. Seu espírito é muito jovial e todo mundo gosta de você.

Kláxia o encarou com um desdém tão forte que as rugas na testa quase atravessaram o crânio. Instintivamente ela tocou a cicatriz no tórax que Govarys lhe causara décadas antes.

— Tá com algum contrato nas costas? — perguntou ela.

— Eu? Que isso! Me dou bem com todo mundo — comentou com um sorriso quase angelical.

— O que você quer, Faldrien?

— Eu? Nada! Estava com saudades da minha amiga e quis visitar. Não posso?

— Não. Se eu quisesse visitas, teria convidado.

— Deixa disso, minha amiga. Todo mundo gosta de ter companhia.

— Você subestima meu tempo de serviço a Nocturnal.

— Essa louca não tá com nada! A moda agora é Molag Bal, tá todo mundo seguindo.

Kláxia recolheu suas rugas de desdém e apertou os olhos com desconfiança.

— Como diriam meus anciões, eu não sou todo mundo.

Faldrien riu forçadamente de novo, mas dessa vez durou pouco. Talvez até ele próprio já estivesse perdendo a paciência.

— Ah, mas de vez em quando é bom seguir umas modas, deixar a vida nos levar, aproveitar qualquer oportunidade que aparecer...

— Oportunidade de quê?

— Por exemplo, de fazer uma grana extra.

— Passo. Tenho dinheiro mais que suficiente.

Faldrien riu, mas de nervoso.

— Mas grana fácil assim, você nunca mais verá.

— Um, não existe grana fácil. Dois, não existe grana fácil. Três, não existe grana fácil.

— Com esse seu mindset tão low assim, me admira que tenha tantos assets. Nem a melhor das networkings agüenta um overload por tanto tempo.

Os globos oculares da elfa reviraram com tanta força nas órbitas que quase produziram eletricidade.

— Fale com Augustus, talvez ele esteja interessado.

Faldrien deu uma risada irritada.

— Ele vai querer cobrar impostos.

— Ah. Uma grana extra fácil e que não paga imposto. Nem na Guilda era assim. Sempre tinha, pelo menos, uma taxa de operação.

— Minha amiga, é por isso que tô te falando que esse negócio é muito bom. Não tem imposto e nem taxa nenhuma.

— Então por que você não faz isso?

— Mas eu já fiz! Ganhei uma nota preta!

— E por que veio compartilhar comigo ao invés de ficar quieto e fazer mais notas pretas?

— Porque você é minha amiga, viemos de Vallenwood e já pertencemos à mesma Guilda. Somos farinha do mesmo saco.

— Discordo quanto à farinha. Estou mais pra cinzas de ossos.

Faldrien forçou tanto a risada que acabou soando como deboche.

— E estou começando a discordar quanto à amizade — completou ela.

Faldrien esticou os lábios para sorrir, mas acabou apenas mostrando os dentes numa careta.

— Tá vendo? Esse seu bom humor pode lhe render muito mais do que rendeu pra mim!

— Passo de novo. Não preciso de mais dinheiro.

— Quanto você tem?

— Mais ou menos 1 milhão de drakes.

Faldrien riu e tossiu ao mesmo tempo.

— Se você investir isso tudo, vai receber 5 vezes mais!

— Meu dinheiro já está investido. Não sou louca de guardar uma quantia dessas debaixo do colchão.

— Mas não está investido nesse negócio que rende cinco vezes mais.

— Não está, e não preciso desse rendimento todo.

— Mas quem não ia querer ganhar cinco vezes o que já tem?

— Eu não quero.

Faldrien se levantou, esfregou o rosto, respirou fundo, andou de um lado para o outro na varanda e então a encarou.

— Em quê você investiu seu dinheiro?

— Mercadores.

— Quanto eles te pagam de interest?

— De que?

— De juros. Quanto é o juros?

— Nenhum. O dinheiro só circula e eu retiro com eles quando quiser. Possuem guardas que eu não pago, e produtos com os quais eu não me importo. Assim tenho dinheiro sempre que eu quiser, em qualquer lugar de Morrowind sem me preocupar com ladrões.

— O benefício não vale a pena. Você está perdendo dinheiro.

— Não mesmo.

— É claro que está! Poderia ter 5 milhões, mas está se apegando a 1!

— Deixar de ganhar é diferente de perder.

— Todo dinheiro que a gente deixa de ganhar, a gente está perdendo, porque sempre existe um gasto futuro.

— Se o gasto é futuro, então ele não existe.

— Esquece a semântica! Pensa que você pode ficar mais rica do que é agora!

— Não preciso.

— Claro, não precisa, mas pode e deveria!

— Na sua cabeça.

— Na minha e na de todo mundo.

— Que “todo mundo” é esse com quem você tá se metendo, Faldrien?

O elfo olhou para o céu que já prenunciava a noite.

— Está ficando escuro. Não podemos conversar lá dentro? Que tal você me oferecer uma bebida?

Irritada, Kláxia se levantou e os dois entraram. Na sala de estar, havia um barzinho num canto com sujamma, shein, mazte, greef, flin, conhaque cirodiílico, conhaque vintage, conhaque dagoth, skooma, cerveja e hidromel. Os dois últimos de Skyrim. Do outro lado, uma escrivaninha onde ela escrevia cartas e seu diário. Sobre um papel descansava seu selo de metal. Faldrien olhou de relance para o objeto enquanto entrava atrás da anfitriã.

Kláxia acendeu os braseiros deixando a sala bastante iluminada. Indicou uma das duas poltronas no centro para que o Bosmer se sentasse, parou em frente ao bar e pegou uma caneca.

— Vai querer o quê?

— Skooma.

Kláxia serviu o drink. Faldrien sorveu num único gole e pediu outro. A elfa o encarou irritada e preparou o segundo. O Bosmer bebeu de uma vez e pediu mais um. Ela bufou e preparou o terceiro. Ele engoliu tão rápido quanto os anteriores e pediu o quarto.

— Já chega, né?

Faldrien sorriu como uma criança que tenta se fazer de fofinha.

— Mais unzinho, por favor — pediu com as mãos juntas.

Ela respirou fundo, caminhou até o bar e ouviu um barulho de móvel quebrando e porta batendo. Num único movimento, deixou a louça cair, agarrou suas adagas e virou-se. Faldrien não estava mais na sala. Sua escrivaninha estava fora do lugar e o selo havia sumido.

— Maldito elfo desgraçado! — rosnou com toda a sua raiva. — Seu destino me pertence agora, Faldrien Alvalorn!

Ela sabia que ele iria falsificar cartas em seu nome e passar por todos os mercadores retirando o dinheiro dela. Ele poderia ir tanto para o norte seguindo por Balmora, ou pelo sul passando por Vivec e Ebonheart. No entanto, esta última via o levaria para território Telvanni onde poderia ficar encurralado pelos amigos em comum. Seria melhor seguir por Balmora para o norte e depois pagar alguém para resgatar o dinheiro das cidades do sul. Kláxia então optou por seguir para o sul e resgatar alguma coisa antes que o ladino mandasse alguém.

Ela também sabia que seu dinheiro estava praticamente todo perdido. Contudo, precisava de somente 30 mil drakes...

... Para contratar a Irmandade Sombria.