4 de Last Seed – 3E 424

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Kláxia vestiu o colar encantado com resistência total a vampirismo, também guardou no bolso uma poção de cura para a doença e pegou o pergaminho de teleporte que Devullian enviara junto com o convite para a festa. Do lado de fora, dois mercenários Orc já aguardavam com a cadeira de tortura que ela roubou da sede da Irmandade Sombria como havia prometido ao mago no aniversário do ano anterior.

Ela se aproximou dos Orcs e recitou as palavras do pergaminho. Os três foram transportados para o lado de fora de uma caverna na Montanha Vermelha. O chão tremia com o som da música alta que subia abafado do interior. O céu vespertino estava nublado, mas sem prenúncio de tempestade.

Na entrada, um cartaz avisava: “Peça permissão antes de morder”.

— Se tem placa, tem história — comentou um dos Orcs.

— Eu é que não entro aí — disse o outro indo embora.

Kláxia encarou as unhas disfarçadamente enquanto falava:

— Entra sim. Tanto entra que vai levar essa cadeira e colocar aos pés do aniversariante. E vai fazer isso porque eu sei em qual acampamento você vive e quem entra na sua tenda na calada da noite e sai antes do amanhecer.

O primeiro Orc encarou o segundo com desconfiança. O medroso voltou com uma careta de ódio e ajudou o primeiro a carregar a cadeira.

Os três entraram e foram recebidos por uma explosão sensorial de Raw Black Metal, luzes vermelhas, lufadas de ar quente e odores alcoólicos, metálicos, frutais, florais e corporais também.

Seguiram pelo corredor até a primeira câmara onde uma banda tocava para uma multidão que se chocava uns contra os outros numa aparente dança tribal. Mulheres Dunmers vestidas com roupas pretas justas e adornadas com enfeites de espinhos metálicos rebolavam sensualmente dentro de gaiolas penduradas no teto.

Kláxia deu um pulo e se agarrou em uma das gaiolas para tentar avistar Devullian, mas o mago não estava ali. Um estranho homem carmesim com dois pares de chifres a encarou da gaiola ao lado e ergueu uma caneca num cumprimento. A elfa o ignorou e pulou no chão. Os três então se espremeram por entre a multidão seguindo para a próxima câmara.

Uma banda tocava mais baixo para que as pessoas nas mesas e nos bares pudessem conversar. De longe, ela avistou Fjorn bebendo com o estranho homem carmim no bar.

— Aposto que você não consegue beber Cama de Seda — disse o chifrudo para o Nord enquanto lhe empurrava uma mistura de conhaque cirodiílico e flin.

O guerreiro riu.

— Em Skyrim, quando eu era piá, meu pai fazia a gente tomar hidromel com ovo cru e sangue de urso pra gente crescer forte! Isso aí é fichinha.

E tomou em um único gole todo o conteúdo.

— Muito bem — disse o homem vermelho. — Algo um pouco mais forte, então. Que tal Coma Profundo, uma combinação perigosa de sujamma, greef, mazte e shein?

Assim que Fjorn pegou a caneca, uma Nord vampira seminua se aproximou dele.

— Oi, bonitão. Posso morder esse seu braço forte?

— Só se tu quiser perder os dentes, madame.

A vampira fez uma careta e saiu em busca de outra vítima. O guerreiro bebeu tudo de uma vez e, por mais que fosse resistente, seu corpo sentiu um pouco quando a bebida chegou no sangue. Uma leve tontura o acometeu por uns segundos.

— Bah, até que é boa, mas é fraquinha.

O homem sorriu.

— Uma surpresa então.

Kláxia se aproximou do Nord.

— Fjorn, viu Devullian?

— Falei com ele tem umas horas.

— E cadê ele?

— Tá com umas sanguessugas por aí.

Kláxia respirou fundo e saiu. Ao longe, ela ouviu o homem vermelho dizer:

— Morte Súbita. Uma combinação do Coma Profundo com conhaque Dagoth e com uma bebida muito comum entre os Khajiit. Prove.

Na câmara seguinte, apenas dois bardos tocavam baixo para que as pessoas também pudessem conversar. No palco ao centro, mulheres e homens Dunmers faziam um show sensual com pouca roupa.

Kláxia viu Augustus, já um pouco alterado, sentado num sofá num canto conversando com o homem vermelho e foi até lá.

— Não tem diferença, tudo é de comer — disse o homem chifrudo.

— É claro que tem diferença — retrucou Augustus. — Bolos levam líquen vermelho para fermentação, e pães levam levedura de hypha facia.

— E se colocar levedura de hypha facia no bolo?

Uma jovem vampira Breton chegou mais rápido e se jogou ao lado do Imperial.

— Você é tão cheiroso… Posso chupar seu sangue um pouquinho?

Augustus levantou a manga e ofereceu o braço.

— Só um pouco, senhorita, pois vou precisar desse sangue depois. — E para o estranho homem vermelho: — Como eu estava dizendo, se você colocar levedura de hypha facia na massa, será um pão e não um bolo!

— Pão, bolo… É tudo a mesma coisa.

— Com todo o respeito, meu senhor, o senhor nunca saiu de Vvardenfell, então não sabe que bolo é bolo e pão é pão.

— Bolo de pão — comentou o homem sobre a iguaria feita com restos de pão.

Augustus o encarou com sangue nos olhos. O homem sorriu.

— Pois bem, se é briga que o senhor quer, então é briga que o senhor vai ter.

O Imperial empurrou a vampira sobre o sofá, levantou-se um pouco cambaleante, arregaçou as mangas, ergueu os punhos, mostrou o esquerdo e com uma voz enrolada disse:

— Este é o Castrador. — Mostrou o direito e continuou: — E este é o Arrombador. Qual dos dois o senhor quer tomar primeiro?

— Augustus! — chamou Kláxia.

— Estou ocupado — disse sem olhar para a elfa.

— Você viu Devullian?

— Tá por aí. Agora, meu equivocado senhor, levante-se e permita-me dar-lhe uma boa sova.

Kláxia afastou-se abrindo caminho por entre a multidão que assistia ao show. O túnel para a câmara seguinte se dividia em cinco caminhos totalmente escuros.

— Ô, dona, a gente não pode deixar isso aqui e ir embora não? — perguntou o primeiro Orc.

— É, esse lugar é maligno — comentou o segundo olhando vultos imaginários.

— Um, eu paguei pra que vocês deixassem a cadeira aos pés dele. Dois, se forem embora antes de cumprirem o acordo, eu vou contar pra todos os acampamentos que vocês são dois bundas-moles cagões que tem medinho de escuro. Vocês serão renegados pra sempre.

Os dois Orcs rosnaram e seguraram firmemente a cadeira enquanto a elfa se decidia por qual caminho seguir. Analisando a entrada de cada uma das passagens ela notou que apenas uma continha resquícios do uso de magia e instrumentos mágicos. Deduziu que se houvessem armadilhas, já haviam sido desarmadas por alguém que passara por ali antes. Por precaução, pegou algumas pedras e arremessou para dentro do túnel. Como suspeitara, pelo ruído, elas se chocaram contra alguns objetos de metal e outras pedras, mas nada além disso aconteceu.

— É por aqui, venham.

Os dois Orcs hesitaram um pouco antes de segui-la. A Bosmer parou no meio do corredor e os encarou irritada, mas eles não conseguiam vê-la por causa da escuridão.

— Minha paciência não é infinita.

Os dois a seguiram. Caminharam bastante até chegarem a um salão sem música, mas com muitos gritos. No centro, em cima de um palco, alguns Dunmers eram açoitados por mulheres Argonianas totalmente nuas. A princípio Kláxia achou que estavam sendo castigados, mas quando um deles deixou escapar um pedido para que uma das Argonianas o açoitasse com mais força, a ladina entendeu que não deveria demorar muito ali.

Deu uma olhada na câmara que continha várias camas ao redor do palco, e avistou Devullian esparramado numa delas abraçado com várias Dunmers e falando com alguém vestido numa armadura daédrica que estava de pé e de costas.

Numa cama ao lado estava o estranho homem vermelho. Pimpolho, o scamp, aguardava quieto perto de um abajur vestido com seu terno com gravata borboleta e uma cartola.

— Isso ainda vai sair do controle — disse uma voz conhecida na armadura daédrica.

— Eu apenas proporcionei a liberdade — disse Devullian. — Como cada um vai usá-la não é da minha conta. E nem da sua, Telvarys.

— Estou avisando como amigo. Nós dois já passamos por muita coisa.

— Aprecio o gesto, mas é desnecessário. Ninguém aqui é menor de idade.

— Finalmente! — gritou a elfa. — Meus parabéns ao mago mais controverso de toda Morrowind, rivalizando até com o próprio Fyr que se clonou e casou consigo mesmo na forma de filhas, se eu me lembro bem dessa maluquice… Te desejo mais anos de vida que o próprio Fyr! E aqui está o presente que eu prometi ano passado.

Ela fez um gesto para os Orcs que deixaram a enorme cadeira ao lado da cama e saíram correndo.

— A cadeira de tortura usada pela Irmandade Sombria. Absolutamente não me responsabilizo por quem quer que venha tentar pegar de volta. Divirta-se!

— Que bom que cumpriu sua parte no acordo, querida. Assim eu não preciso ter trabalho de retalhar o scamp.

— A propósito, vou levá-lo de volta. Preciso de um assistente.

— É todo seu.

— Pimpolho, vem com a mamãe.

O scamp caminhou até ela e lhe entregou sua coleira.

— Você ainda mantém nosso filho assim? Como se fosse um bicho?

— Ele nunca reclamou.

— Pobrezinho — disse ela retirando a coleira dele. — Você é bonzinho, não é? Vai se comportar direitinho, não vai?

O scamp tirou o chapéu e a cumprimentou.

— Bom, eu já vou indo — disse Telvarys. — Passei só pra dar os parabéns. Tem muita coisa pra resolver em Tel Aruhn.

— Que os deuses lhe acompanhem, meu amigo — disse Devullian.

— A sua imunidade a festas me fascina — disse o homem vermelho para o arquimagistrado. — E me aborrece também.

— Entre na fila, Sanguine — respondeu o Altmer.

— Sanguine?! — gritou Kláxia dando um pulo.

As paredes tremeram com a gargalhada do Daedric Prince.

— E quanto a você, Bosmer, admiro sua obstinação para cumprir uma missão, mas também não gosto que ignore toda essa diversão ao seu redor.

— Já me diverti muito mandando algumas almas para o Oblivion — disse ela. — Você já deve ter recebido algumas.

— Oh, sim. Mas a diversão está aqui, em Nirn. Juntem-se a nós.

Conhecendo a fama de Sanguine, Kláxia e Telvarys se entreolharam. A Bosmer perguntou:

— Nós temos permissão para sair?

O Daedra Prince sorriu.

— Esta festa muito me satisfaz, então vou deixar que vocês saiam. Além disso, seus dois amigos me divertiram o suficiente.

— O que você fez com eles? — perguntou Telvarys.

Sanguine sorriu.

— Saiam antes que eu mude de idéia.

Telvarys teleportou os três para a entrada.

— Você procura Augustus — disse ele. — Eu vou atrás de Fjorn. Nos encontramos aqui.

Junto com Pimpolho, Kláxia foi até a câmara onde havia visto o Imperial pela última vez e o encontrou desmaiado, com profundas olheiras e uma palidez sinistra. Com a ajuda do scamp, arrastou-o com grande dificuldade pelas câmaras até a entrada.

— Fjorn bebeu muito, mas vai ficar bem — disse o arquimagistrado checando os sinais vitais do Nord também desmaiado.

— Nossa! Augustus tá muito pesado! — reclamou a elfa soltando o Imperial e se escorando na parede para recuperar as forças. — É essa comilança toda.

— Não é não.

O mago fez um gesto como se enxotasse um inseto. O efeito camaleônico desapareceu revelando a jovem Breton com os dentes cravados na coxa do Imperial.

— Saia de perto dele agora ou vou decorar o corredor com suas vísceras — disse o arquimagistrado apontando um dedo de onde saíam fagulhas elétricas.

A vampira se levantou com cara de poucos amigos e desafiou-o.

— Se fizer isso, vai ter que se entender com Devullian.

— Conheço ele há mais tempo do que você existe. Isso não será problema.

Resignada, a vampira fez uma careta e voltou para a festa.

— Vampirismo — disse o mago examinando o amigo.

— Eu tenho uma poção pra isso.

— Dê a ele.

Kláxia administrou a poção no Imperial e tapou-lhe o nariz para que ele engolisse. Augustus tossiu um pouco e em alguns minutos recuperou sua aparência normal apesar da ressaca.

— Tem como você nos deixar em Balmora? — perguntou a elfa.

— Sem problemas.

Telvarys teleportou a elfa e o scamp para a grande cidade, deixou Augustus aos cuidados do Culto Imperial em Ebonheart, e administrou uma poção em Fjorn para que o Nord acordasse antes de devolvê-lo à sua família. Por fim voltou a Tel Aruhn onde suas obrigações o aguardavam.

Já Devullian só reapareceu depois de alguns meses. Dizem os boatos que o mago e um homem vermelho foram os únicos sobreviventes da festa.