Sono Interrompido – Parte 2 (final)
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4 de Last Seed – 3E 423
4 de Last Seed – 3E 424
Sono Interrompido – Parte 1
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Na manhã do dia seguinte, Kláxia vestiu sua armadura de couro completa, pegou suas duas adagas de vidro mais afiadas, algumas poções e venenos, o pouco dinheiro que tinha, uma algibeira de couro impermeável com seu diário dentro, e foi de canoa para Seyda Neen. De lá, pagou um silt strider para Vivec e foi direto conversar com Baissa, a Khajiit mercadora com quem tinha contrato.
— Então a Bosmer quer os 2 mil drakes que ela deixou investido com Baissa. Khajiit precisa de algumas horas para coletar todas as moedas. Talvez fosse melhor a Bosmer levar os 2 mil em mercadoria?
— Pra aonde eu vou só se lida com dinheiro vivo.
— Baissa vai fazer o que pode. Espere sentada ou vá passear.
— Eu espero. — E se sentou num banco em frente à barraca da Khajiit.
Seis horas depois, a mercadora voltou com uma sacola de pano cheia de moedas.
— Aí está. A Bosmer pode contar se quiser.
Kláxia agradeceu e passou uma meia hora contando. Constatando que estava tudo certo, pagou uma gôndola para Ebonheart e foi conversar com Agning, um taberneiro.
— Quatro mil drakes? Isso vai demorar algumas horas, Kláxia.
— Não tem problema, eu espero.
— Não quer alugar um quarto e comer alguma coisa?
A elfa aceitou, não ia gastar tanto assim e podia usar do pouco que trouxera consigo de sua casa. Além disso, estava com fome e queria cochilar antes de ir para Suran.
Mais rápido do que a Khajiit, o Nord bateu na porta umas três horas depois levando uma sacola de pano com as moedas. Sentou-se numa cadeira e pediu para ela contar na frente dele. Estava tudo certo. Kláxia agradeceu, pegou suas coisas, pagou uma gôndola de volta para Vivec e de lá pagou um silt strider para Suran.
Chegou no cair da noite e foi para a Casa das Delícias Terrenas da Desele.
— Não somos uma taberna. Se quiser um quarto, vai ter que pagar pela companhia.
Kláxia sorriu cansada e perguntou se uma tal de Roxandy ainda trabalhava lá. Desele confirmou e chamou a moça. Os seios desceram as escadas primeiro e depois a Breton apareceu. Realmente os boatos estavam certos. A elfa sorriu sem graça e pagou pela noite toda com a dançarina.
Chegando no quarto, a Bosmer explicou que precisava dormir, pois tinha uns negócios para tratar de manhã cedo. A moça fez uma careta de desaprovação, mas como sua comissão havia sido paga, acabou dando de ombros.
— Pode ser de conchinha? Pelo menos pra termos o que fazer — pediu Roxandy.
— Tudo bem — respondeu a elfa meio sem jeito.
As duas deitaram na cama de lado e Kláxia abraçou a dançarina. Suas sacolas de pano estavam bem protegidas dentro do torso da armadura na parte da frente. Parecia que a elfa era mais dotada do que realmente era.
Assim que os pássaros começaram a cantar, a Bosmer acordou, verificou se todos os seus pertences ainda estavam intocados e dirigiu-se para o mercado de Suran.
Passou em quatro mercadores e pediu a retirada de 6 mil drakes de cada um. Ficou quase o dia todo sentada à beira do lago debaixo de uma árvore aguardando.
À tarde, eles a chamaram para conferir as quantias. Como estava tudo certo, Kláxia pagou uma refeição e comprou uma tocha com o que lhe sobrara e seguiu durante a noite para Ald Sotha.
Chegou à meia-noite e apagou a tocha. Esperou até que seus olhos acostumassem com a escuridão e esgueirou-se até a entrada das ruínas que ficava submersa. Mergulhou e nadou alguns metros. Meia dúzia de slaughterfish morderam sua armadura e ficaram agarrados. Ela atravessou o portal da ruína e alcançou alguns degraus saindo da água. Matou os slaughterfish que estavam em sua armadura e jogou as carcaças de volta na água. O cheiro do sangue atraiu dezenas deles que devoraram a carne em segundos. A Bosmer ficou parada em silêncio na entrada apenas ouvindo os ruídos do interior.
No primeiro andar havia pelo menos cinco pessoas a julgar pelo barulho das botas e um falatório baixo; no segundo andar havia quatro pessoas ou entidades corpóreas; mas no último andar ela não conseguiu ouvir direito.
Kláxia guardou suas adagas e pegou a sacola de pano com 2 mil drakes. Caminhou lentamente até o centro do primeiro piso. Um Dremora a avistou e deu o alarme. Ela correu para a sala de onde tinha ouvido o falatório. Dois cultistas correram em sua direção com armas em punho. Ela desviou dos dois, escalou uma das pilatras, sacudiu a sacola com as moedas e gritou que tinha um contrato para a Irmandade Sombria e que precisava falar com Severa Magia.
Os cultistas desdenharam da quantidade de dinheiro e continuaram com uma postura hostil, mas não tentaram atacá-la no topo da pilastra. Os Dremoras também resolveram aguardar.
— Falem com ela, com Severa Magia. Eu tenho um contrato pra Irmandade e tenho muito mais dinheiro comigo, no meu corpo.
— Nada nos impede de matá-la e ficar com o dinheiro — disse um dos cultistas.
— Eu avisei a algumas pessoas que ia pagar um contrato — mentiu. — Vai ser interessante ver a reputação da Irmandade Sombria despencar quando potenciais contratantes souberem que são vítimas de latrocínio pelos membros. A Morag Tong vai tomar conta de tudo e vocês serão escorraçados de Morrowind. A Guilda dos Ladrões terá uma reputação melhor que a de vocês.
Um terceiro cultista havia acabado de chegar e cochichou com os outros dois por uns minutos.
— Desça daí, vamos levá-la até Magia — respondeu o primeiro.
— E quanto a eles? — fez um gesto em direção aos Dremoras.
— Eles vão fazer o que fizermos. Se você aprontar, eles vão te destroçar.
Kláxia deu um sorriso debochado e desceu da pilastra. Guardou a sacola de pano dentro da armadura e caminhou lentamente até os três cultistas. O primeiro seguiu na frente, os outros dois atrás, e os Dremoras voltaram para a sala central.
Os quatro desceram alguns lances de escada e chegaram ao segundo piso onde mais dois Dremoras acompanhavam Severa Magia.
O salão estava iluminado com poucos braseiros, deixando o ambiente mais escuro do que precisava. Perto de um deles, havia um colchonete no chão, uma mesa com uma cadeira, um baú pequeno, alguns objetos pessoais e uma garrafa de conhaque dagoth.
Os dois Dremoras se aproximaram com lanças em punho, mas aguardaram por algum sinal de hostilidade.
— Esta elfa diz que tem um contrato para a Irmandade — disse o cultista que liderou o grupo.
A Matrona Noturna se aproximou e examinou a Bosmer de cima a baixo.
— Kláxia Baalivantrar.
— Severa Magia.
— Cara de pau, no mínimo.
— Necessidade, na verdade.
— Desertora.
— Cliente agora. O mundo dá voltas.
Severa a encarou como se tentasse ler sua alma. Por fim, decidiu que estava mais curiosa pela proposta do que com raiva o suficiente para vingar a Irmandade.
— Contrato? — perguntou andando em direção à mesa e se sentando para terminar de beber seu conhaque dagoth.
— Faldrien Alvalorn, Bosmer de Vallenwood, Mestre da Guilda dos Ladrões.
Os cultistas se entreolharam, mas não era incomum colocar contratos em líderes de facções.
— Suponho que você tenha dinheiro.
— Trinta mil drakes.
Severa sorriu.
— Pela importância do contrato e pelo valor disponível, nós podemos mandar um Exterminador por vez até que o alvo seja executado. Mas não podemos mandar todos os Assassinos de uma vez, como aconteceu num contrato há muitos anos. Portanto, você pode demorar pra receber a notícia.
Kláxia sorriu.
— Ou ele morre, ou vive para sempre sendo atormentado por assassinos em suas noites de sono. Perfeito.
— Mais alguma coisa? — perguntou Severa.
— Sim. Quero acrescentar um detalhe.
A Matrona Noturna sorriu aguardando. A elfa continuou.
— Quero receber a cabeça e as duas mãos dele num mesmo pacote.
— Razoável. Só isso?
— Sim.
— Um, você estará protegida de uma perseguição da Irmandade apenas enquanto o contrato estiver aberto. Dois, se você morrer pelas mãos de outrem ou pelas do alvo, nós ainda vamos executar o contrato. Três, não cancelamos contratos. Quatro, se outro contratante marcou o mesmo alvo antes que você, a prioridade na evidência de execução é dele. Cinco, não roubamos um alvo e não somos correio, se precisar recuperar um item, contrate a Guilda dos Ladrões.
— Conheço as regras e concordo com elas.
— Estamos de acordo então?
— Sim.
Kláxia tirou todas as sacolas de pano da armadura e colocou sobre a mesa. Severa fez um gesto para que os cultistas contassem. Depois de quase uma hora, eles confirmaram que havia 30 mil drakes.
Severa tirou do baú folhas de papel em branco, tinta, pena, cera e um selo. Redigiu 3 contratos: um que ficaria com ela, um igual com Kláxia e um terceiro sem o nome da elfa que seria entregue para um subalterno da Irmandade. Mostrou os três para a Bosmer ler e depois os selou. A ladina guardou o seu dentro da algibeira de couro impermeável.
Severa Magia se levantou com o conhaque na mão, posicionou-se na frente do braseiro, e falou em voz alta para o além:
— Que nosso Pavoroso Pai, Padomay, o Criador Original, seja testemunha do contrato que agora jaz sobre o Bosmer de Vallenwood e Mestre da Guilda dos Ladrões, Faldrien Alvalorn! Que sua alma seja recebida no Vazio absoluto da existência. Hail, Sithis!
— Hail, Sithis! — disseram os cultistas em coro seguidos pela elfa.
Severa derramou um pouco de conhaque no fogo fazendo a chama aumentar e estalar.
— Pode ir agora.
Kláxia saiu sem dizer nada e seguiu viagem a pé para as terras Telvanni.