A forma do medo – Parte 1
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Sono Interrompido – Parte 1
Sono Interrompido – Parte 2 (final)
Chá Natalino 🎄
♠♥♣♦
— E por que você quer fazer parte da Guilda dos Magos? — perguntou o Argoniano, Skink.
— Honestamente? Preciso aprender magia e não tenho dinheiro. As aulas por fora são caras — respondeu Kláxia.
O Argoniano respirou fundo um pouco decepcionado.
— E por que você precisa aprender magia? Está fugindo de alguém? Vai nos causar problemas?
— Uma pessoa roubou um item da minha casa. Infelizmente trancas e cadeados não vão impedi-lo de tentar de novo. E eu não quero ter que me mudar.
Skink assentiu como se aquela resposta fosse suficiente.
— Muito bem, Kláxia, seja bem-vinda à Guilda dos Magos. Antes de se especializar em alguma escola, a gente requer que você se familiarize com a rotina da Guilda. Infelizmente não estamos com nenhum membro disponível pra te orientar aqui em Wolverine Hall, então vou ter que te mandar pra Caldera. Ernand Thierry é alquimista e está precisando de aprendizes.
— Eu sei alquimia.
— Mostre a ele então.
Kláxia deu de ombros conformada. Tudo tinha um preço. Com sorte conseguiria terminar a etapa de familiarização rápido e prosseguir para aprender outras escolas. Assinou os papéis de admissão e foi teleportada para Caldera.
🌸🌸🌸
O Breton a encarou de cima a baixo com um olhar de desdém.
— Você? Você sabe alquimia?
— Sim — respondeu a Bosmer com as mãos na cintura, também com desdém.
— Que especialização?
— Venenos.
— Ah! — exprimiu Ernand com um sorriso condescendente. — Ninguém compra venenos por aqui. Só poções de amor.
— Sei ótimos paralisantes.
Ernand a encarou como se ela tivesse chegado de outro mundo. Em seguida pegou um grosso livro de sua estante e colocou na frente dela.
— Vá estudar, aprenda poções de amor e depois volte aqui. Seu quarto fica no porão, primeira porta à esquerda.
Kláxia suspirou resignada, desceu as escadas, entrou em seu novo cubículo onde mal cabia uma cama e uma mesinha de cabeceira, sentou-se e começou a folhear o livro.
A maior parte das poções consistia em modificar a percepção do alvo para que visse o cliente de uma forma diferente e envolviam a coleta de partes do corpo como cabelo, unhas, sangue ou saliva. Outros serviam para que qualquer pessoa visse o cliente como charmoso e interessante. Uns poucos serviam para aumentar o desejo carnal de alguém. E apenas dois causavam um efeito zumbificante no alvo.
Kláxia bufou entediada. Utilizou os equipamentos da guilda e preparou algumas poções. Levou para Ernand que jogou tudo fora, disse que eram horríveis e entregou outros livros para ela. A Bosmer respirou fundo e passou uma semana trancafiada no cubículo estudando.
Novamente ela preparou algumas poções de acordo com as receitas dos livros, mas de novo Ernand detestou todas. Kláxia perdeu a paciência do seu jeito. Sorriu e disse que iria se dedicar mais.
À noite, quando todos estavam dormindo, ela preparou várias poções paralisantes e planejou substituir todos os líquidos dos frascos já prontos, mas não precisou se dar ao trabalho porque pela manhã Ernand disse que precisava visitar alguns clientes e ordenou que a Bosmer tomasse conta da loja.
Uma Redguard elegante e beirando a terceira idade entrou discretamente.
— Bom dia. O que deseja? — perguntou a Bosmer.
A mulher sorriu sem graça e sussurrou.
— Estou tendo alguns problemas com meu marido...
— Que problemas?
— Ele quer me largar...
— E a senhora quer que ele não te deixe, é isso?
A mulher sorriu sem graça e assentiu. Kláxia também sorriu, mas de um jeito maléfico.
— Eu tenho a solução perfeita para a senhora. Só um momento.
Foi até seu cubículo e pegou um dos frascos de poção paralisante.
— Aqui está. Misture com a janta dele. São 500 drakes.
A mulher a encarou espantada com o preço, mas logo colocou o dinheiro sobre o balcão, pegou o frasco e foi embora. Algumas horas depois, uma Imperial chegou.
— Bom dia, Ernand está?
— Não, saiu pra atender algumas pessoas. Posso ajudar?
A mulher suspirou cansada.
— Meu filho pequeno... É difícil, viu? Ele apronta o dia inteiro. Já quebrou quase todos os meus vasos com flores, quebrou uma vidraça, derrubou uma estante... Não importa quantos brinquedos a gente compre pra ele, o menino não sossega um minuto!
Kláxia sorriu sinistramente de novo.
— Eu tenho a solução pra senhora.
Voltou do cubículo com um outro frasco de poção paralisante e a entregou.
— Seu filho vai ficar mansinho como um guar recém-nascido. São 800 drakes.
Sem pestanejar, a mulher entregou o dinheiro, agradeceu efusivamente pela solução mágica e saiu às pressas. Não muito tempo depois, um jovem Nord chegou meio atrapalhado e nervoso, esbarrando na mobília e tropeçando no carpete.
— Em que posso ajudar?
— Me disseram que era um homem que trabalhava aqui.
— E qual é a diferença? — perguntou a Bosmer sem entender a confusão dele.
— É um assunto particular.
Alguns segundos se passaram até que ela entendeu a natureza do problema.
— Fica tranqüilo que eu já vi essas coisas muito mais vezes do que você já fez aniversário, rapaz. Agora desembucha. É alguma mancha? Algum cheiro estranho? Quer interromper a gravidez de alguma moça?
O rapaz gaguejou um pouco e desviou o olhar.
— Não, senhora. É que... é... é tudo muito rápido, entende?
— Hummmm! Entendo. Espere um minuto.
Ela foi até seu cubículo e voltou com um dos frascos.
— Quando você e a mulher estiverem naquela situação, você vai deitar de barriga pra cima e deixar ela montar em você. Aí você toma isso aqui e deixa acontecer. Entendido?
— Sim, senhora.
— Não tome antes, não vai funcionar.
— Entendido, senhora.
— São 100 drakes.
O rapaz contou cada uma das suas moedas com muito pesar, pegou a poção e foi embora. Perto do fim do dia, uma mulher Breton usando um vestido floral, ornamentada com muitas pedras naturais e cheirando a incenso de olíbano adentrou a loja.
— Boa tarde, me disseram para procurar o Ernand.
— Ele saiu. Posso ajudar?
— Sabe o que é, eu preciso meditar para realinhar meus vórtices energéticos, mas eu tenho dificuldade de ficar parada por muito tempo. Só de pensar em parar já me dá agonia. Eu cresci numa comunidade nômade. Nós vivíamos das apresentações artísticas que fazíamos nas cidades por onde passávamos. Desde pequena eu fazia de tudo. Era dançarina, tocava, cantava, bordava, tricotava, costurava, cozinhava, lavava, limpava... Enfim. Era uma vida muito feliz, sabe? Difícil, mas feliz. Aí, um dia, eu me apaixonei por um Orc, veja você, e--
Kláxia respirou fundo para não socar a mulher, sorriu e a interrompeu falando num tom alto, quase como um grito:
— Eu tenho o que a senhora precisa. Me dê um minuto.
Voltou do cubículo com um frasco.
— Assim que a senhorita se deitar para meditar, é só tomar um gole e pronto. Vai conseguir meditar por bastante tempo. São 1000 drakes.
— Oh! Uma solução milagrosa! Por que eu não vim aqui antes? Oh, pelos deuses, esse tempo todo sofrendo e--
— São 1000 drakes, senhorita — disse interrompendo a mulher de novo.
— Claro, claro.
A mulher revirou sua bolsa, entregou o dinheiro e guardou o frasco.
— Que os deuses lhe abençoem, Bosmer. Voltarei aqui se gostar do resultado.
Kláxia começou a rir, mas conseguiu conter a risada pela metade.
— Volte sim, senhorita. Tenha uma boa tarde.
Não demorou até que Ernand voltasse.
— Alguém veio me procurar?
— Nada importante não — respondeu disfarçando.
— Como assim "nada importante"? É óbvio que é importante! Quem veio me procurar?
— Não deram nomes. Disseram que voltariam depois.
— Mas quem? Imperiais? Khajit? Dunmers? Ricos? Pobres?
— Não prestei atenção.
— Não prestou atenção? É por isso que suas poções são horríveis! Me admira que tenha conseguido trabalhar tanto tempo em alguma guilda! Mas não me admira que não tenha permanecido em nenhuma delas! É cada uma que Skink me manda! Não é a primeira vez que aquele Argoniano me manda um troglodita. Não sei o que ele tem contra mim!
O Breton pegou outro livro da estante e a entregou.
— Vá pro seu quarto e estude isso aqui. Não quero ver a sua cara enquanto você não conseguir fazer uma poção de glamour minimamente decente. Agora vai! Vai, vai, vai!
Kláxia passou os dois dias seguintes em seu quarto alimentando-se de pão velho e cerveja, estudando os tomos que Ernand lhe entregara. Ela sabia sobre aquilo tudo, só não tinha paciência para aquele tipo de trabalho. Depois de viver uma vida altamente perigosa por muitos anos, o comum lhe era banal demais. Talvez pudesse roubar alguns livros sobre ilusão, conjuração e alteração e estudar sozinha.
Ernand esmurrou a porta do quarto.
— Kláxia, saia já daí e venha aqui agora!
Ela saiu do quarto e o encontrou na loja com alguns papéis na mão.
— Você sabe o que é isso?
— Papel.
Ele rosnou irritado.
— Sabe o que tá escrito aqui?
— Palavras.
— Registros! Dos seus absurdos! Você está arruinando a Guilda dos Magos! A senhora Kemanna Bestha pediu uma poção pra que o marido não abandonasse ela, e você deu um paralisante!
— Como ele vai abandonar a mulher se estiver paralisado?
— A senhora Javolea Ottiel pediu uma poção pra que o filho pequeno parasse de fazer bagunça em casa. E você deu um paralisante!
— Como a criança vai destruir a casa se estiver paralisada?
— O jovem senhor Fannolf Flauta-Dura pediu uma poção pra curar a ejaculação precoce... E de novo você deu um paralisante!
— Como ele vai gozar rápido se estiver paralisado?
— A última foi de uma moça que se queixava de dificuldade pra meditar porque não conseguia ficar muito tempo parada. E adivinhe só! VOCÊ DEU UM PARALISANTE!
— Ah, por favor, essa daí era óbvio, né.
— A reputação da Guilda, há séculos imaculada, agora carrega uma mancha horrorosa por sua causa!
— O marido não foi embora, a criança não destruiu a casa, o jovem não gozou e a moça teve muito tempo pra meditar. Onde o senhor vê derrota, eu só vejo sucesso. 😎
Com a mão no rosto e sacudindo a cabeça negativamente, Ernand resmungou:
— Não, não, não, não. Skink não vai fazer isso comigo não! — e olhando para ela, acrescentou: — Vá embora ainda hoje. Vá pra Balmora, Vivec, Akavir, sei lá! Mas vá pra bem longe daqui!
Kláxia pegou seu único pertence, a algibeira com seu diário e o contrato da Irmandade, e foi teleportada para a guilda de Vivec.
🌸🌸🌸
A Bosmer pediu informações sobre onde ou com quem poderia estudar e lhe mandaram conversar com Malven Romori. A Dunmer explicou que a guilda estava com falta de oraculistas, um serviço muito procurado pelas pessoas de baixa classe social, mas que mesmo assim rendia um bom dinheiro para a guilda.
— Leia todos — disse a Dunmer apontando para uma estante cheia de livros. — Seu quarto fica no fim do corredor, última porta à direita.
Kláxia pegou todos os livros que conseguiu carregar e foi para seu quarto, que era maior do que o cubículo em Caldera. Os livros ensinavam sobre como ler as cartas, borra de café e chá, as estrelas e interpretar eventos na vida de uma pessoa através do seu signo de nascimento.
Após um mês de dedicação total aos estudos, Malven decidiu testar a Bosmer e pediu que ela fizesse uma leitura das cartas para o futuro da guilda de Vivec. Kláxia contou que se tudo seguisse o curso natural, um espião seria desmascarado e a guilda teria um novo arquimago.
— Ah... Ranis comentou sobre isso comigo — disse Malven. — Ela suspeita que haja um espião na Guilda. Achei que fosse paranóia dela, mas talvez seja verdade... Quanto a um novo arquimago, não vou me importar com isso agora. No mais, muito bem, Kláxia, acho que você já pode começar a atender clientes.
A Dunmer colocou um aviso do lado de fora da guilda sobre serviços oraculares e logo apareceram novos clientes. Kláxia os atendia durante o dia inteiro. A princípio, tinha achado a nova função exótica e interessante, mas depois de um mês já estava totalmente entediada com as mesmas perguntas de sempre.
— Meu ex-marido vai voltar para mim?
— Meu ex-namorado ainda me ama?
— Quais são os sentimentos dele por mim?
— Ele vai me pedir em casamento?
— Meu marido está me traindo?
— Minha melhor amiga está apaixonada pelo meu noivo?
— Com quem eu vou me casar?
— Quantos filhos eu vou ter?
— Como eu vou morrer?
— Vou ficar rico?
Apesar de tudo, a Bosmer era sincera e falava o que ela via. Não era sua culpa que as respostas não eram o que os clientes queriam ouvir. Então não tardou em se acumularem reclamações sobre o serviço oracular da guilda fazendo a clientela diminuir.
— Kláxia, você não pode falar a verdade desse jeito — comentou Malven com muito mais paciência do que Ernand. — As pessoas vêm aqui procurando um conforto para suas dores e não a verdade nua e crua.
Kláxia assentiu e decidiu usar outra tática: mentia para todos os clientes dizendo tudo o que queriam ouvir, de um jeito bem dramático como só ela conseguia ter.
Não demorou para que as reclamações de previsões incorretas chovessem nos ouvidos de Malven Romori e os boicotes aos serviços da Guilda começassem.
— Kláxia, o que você estava pensando? Não pode mentir dessa forma! Isso vai acabar com a reputação da Guilda!
— Se eu não posso falar a verdade e nem mentir, eu vou fazer o quê? Latir?
— Você deve caminhar como uma bailarina entre a verdade e a omissão da verdade.
— Não sei dançar.
— Talvez o seu problema seja o fato de que você não é maga e nunca será — disse Malven finalmente sem paciência. — Com essa sua atitude deplorável, talvez tenha mais sorte sendo uma Telvanni.
— Não sou bem quista em território Telvanni.
— Sinto muito, mas você também não é bem quista na Guilda dos Magos — disse e em seguida sentenciou: — Você está excomungada. Pegue suas coisas e vá embora.
Kláxia voltou derrotada para sua ilha. Sentou-se em sua rede na varanda e pensou sobre roubar alguns livros de magia, mas estava tão chateada com aquela experiência que simplesmente desistiu de decidir qualquer coisa naquele momento.
Oh, estava indo tão bem! Vai desistir por quê? Só por causa de alguns tropeços?, disse uma voz desencorporada.
Kláxia deu um pulo da rede.
— Quem é você? O que está fazendo na minha cabeça?
Não estou na sua cabeça, mocinha. Sua mente é que está mais sutil e agora percebe os espíritos.
— Minha mente está sutil? O que isso significa?
Décadas de serviço a Nocturnal tiveram um preço. Se passar muito tempo tentando ser uma sombra, sua mente se adapta às novas circunstâncias e se sutiliza para facilitar a transição do plano terreno para o éter, respondeu a voz.
— Você é um espírito?
Sim, um dragão.
Kláxia olhou para o céu.
Oh, não. Não estou no seu mundo. Vivo no éter com outros dragões e seres.
— Mente sutil... Nocturnal... Eu me transformei numa morta-viva?
De jeito nenhum. Você agora é uma limiante. Aquela que vive entre os planos da existência.
— Por que agora?
Porque agora eu decidi emitir alguma opinião.
— Então quer dizer que você já me observava?
Faz bastante tempo.
— Por quê?
A existência no éter é muito entediante.
— E os outros?
Eles observam outros mortais, outras esferas de existência ou apenas dormem até serem chamados novamente.
— O que você quer comigo?
Nós dois podemos ganhar algo com essa interação. Posso te ensinar magia e você pode me entreter.
— Você sabe magia?
Nós, dragões, sabemos muito sobre magia.
— Ilusão? Conjuração? Alteração?
E outras escolas que vocês mortais nem imaginam.
— Qual seu nome?
Lokdrahzul.
— Muito bem, Lokdrahzul, temos um trato então?
Temos um trato, Kláxia.
— Quer dizer então que agora eu tenho o meu próprio dragão? — perguntou entusiasmada. — Todo mundo vai ficar com inveja de mim!
Não. Eu é que tenho uma Bosmer. E ninguém aqui está impressionado, respondeu Lokdrahzul.
— Mas e agora? O que faremos?
Primeiro você deve descobrir qual é o seu objetivo em aprender magia.
— Quero impedir futuros roubos na minha casa e, se possível, futuras invasões.
Muito bem. O próximo passo é listar quais são suas habilidades natas, assim saberemos com quais escolas você estará alinhada e, portanto, quais terá facilidade em aprender.
— Bom, eu faço venenos, sou furtiva, consigo matar qualquer um com qualquer objeto, consigo destrancar qualquer tranca física, consigo assustar as pessoas com alguns truques, consigo ouvir e diferenciar sons a uma distância considerável, e consigo desaparecer. Esse último é minha especialidade.
Considerando o que você quer e o que sabe fazer, sugiro as escolas de Ilusão e Alteração primeiro. Depois Misticismo e por último Conjuração.
— O que eu posso fazer de interessante com elas?
Muitas coisas. Inclusive, depois que dominar as escolas individualmente, você pode combiná-las para criar feitiços poderosíssimos.
— Parece legal. O que eu tenho que fazer primeiro?
Manipulação energética. É impossível fazer magia sem dominar isso. Mas o primeiro tópico dentro do capítulo Manipulação Energética é a Essência. Tudo o que existe possui algum tipo de essência, uma energia sutil ou densa dependendo da natureza do seu portador. Às vezes as pessoas chamam isso de espírito.
— Sutil. Você disse que minha mente estava assim.
Sim. A energia sutil é mais leve, delicada, difícil de perceber. Ao passo que a energia densa é pesada e grosseira, fácil de perceber mesmo para quem nunca mexeu com magia.
— E como eu faço pra perceber as energias?
Você precisa se concentrar na intensão de sentir a essência de algo. Pode ser uma planta, uma pedra, uma concha, um sapo, qualquer coisa. Sente-se confortavelmente, segure o objeto ou animal suavemente, feche os olhos e concentre-se em perceber qual sensação isso lhe passa. É quente? Frio? Áspero? Liso? Estático? Pulsante? Vibratório? Causa alguma emoção estranha como medo, nojo, tranqüilidade ou qualquer outra emoção? Que sentimento toma conta de você quando o segura? Sente que é algo bom, mal ou neutro? Você gosta ou desgosta disso?
— Entendi. Vou começar com uma pedra — disse pegando o primeiro cascalho que achou.
Sentou-se novamente na rede, fechou os olhos segurando a pedrinha, deixou-se relaxar e então começou a catalogar o objeto mentalmente. Redondo, leve, áspero...
Você não deve fazer uma lista mental das características do objeto. Você deve sentir. O sentir é como um segundo cérebro que você vai precisar desenvolver, aprender a confiar e aprender quando ele não estiver funcionando direito. Do mesmo jeito que às vezes você se pergunta se está ficando louca, chegará um momento em que você vai precisar reconhecer que está sentindo algo estranho e isso precisará ser investigado e solucionado.
A elfa ficou quase uma hora sentindo a pedra, mas não soube dizer se estava sentindo alguma energia ou apenas características físicas.
— Não tá funcionando — reclamou.
Você nem começou direito. Tente com uma planta.
Kláxia tentou com a planta, com um punhado de areia, conchas, um peixe que se sacudia enquanto ela o segurava debaixo d'água, e um cliff racer que ela agarrou pela cauda e que se debatia aterrorizado. Só parou quando anoiteceu. Trancou a casa, colocou vários móveis e quinquilharias atrás das portas e foi dormir.
No dia seguinte, Lokdrahzul avisou que ela deveria continuar com o treinamento e, não tendo mais nada para fazer da vida, Kláxia concordou.
Durante os meses seguintes, ela intercalava o treinamento com a venda de couro de cliff racer e cera de dreugh em Seyda Neen para conseguir comprar comida, água potável e alguns mantimentos.
Por que você não tem um jardim? Um alquimista sem jardim é como um bardo sem alaúde.
— Considerando a vida movimentada que eu tinha, quem ia molhar as plantas?
Bom, agora você pode. Além disso, poderá também plantar a própria comida. Isso reduzirá seus custos.
— E aumentará o tempo que eu gasto com manutenção. Tempo esse que eu não vou poder usar pra treinar.
Está com pressa de quê? Seu amigo não vai vir lhe procurar. Ele está muito ocupado com o trabalho e os assassinos que você contratou.
— Ele pode pagar alguém pra vir dar cabo de mim.
Não vai. Ele prefere gastar o dinheiro dele com entorpecentes e acasalamento.
Kláxia riu.
— Bom saber. Agora já posso dormir mais tranqüila.
Aos poucos, durante os meses seguintes, Kláxia aproveitava suas idas à cidade para trazer algumas mudas de plantas. Com a ajuda do conhecimento de Lokdrahzul, aprendeu novas técnicas de cultivo e receitas de adubos. Em pouco mais de 1 ano sua ilha já era auto-sustentável. Comprou alguns guars e scribs para produzirem esterco, e adaptou uma parte da caverna que havia na ilha para a criação de kwamas. A partir daí, a elfa passou a ir com menos freqüência à cidade, mas isso não a fez economizar tempo. Mesmo assim, ainda conseguia treinar todos os dias.
Após esse período, ela já podia sentir todos os seres animados e inanimados que populavam sua ilha.
Para o segundo tópico do capítulo de Manipulação Energética, será preciso que você realize o treinamento sempre do lado de fora da casa, em direção ao mar, para evitar acidentes.
Kláxia sentou-se na areia da praia. Era uma manhã de um dia ensolarado. As ondas do mar brilhavam sob a luz do sol. Ao seu redor, os animais estavam deitados tranqüilamente tomando seu banho de sol matinal. Uma brisa leve balançava os arbustos e as árvores das plantações. Os pássaros cantavam alegres.
— O que eu tenho que fazer?
Junte as mãos em forma de concha. Da mesma forma que você sente a essência das coisas, você deve acumular e concentrar essa sensação entre as suas mãos e deixá-la formar uma bolinha de energia. Quanto mais você se concentrar e direcionar essa sensação de energia para suas mãos, maior essa bola vai ficar. Se não agüentar segurar essa energia por muito tempo, arremesse a bola no mar.
Kláxia obedeceu. A princípio, não sentiu nada, mas continuou se concentrando. Depois de alguns momentos, sentiu um comichão e, num reflexo, acabou deixando a minúscula bolinha de energia cair na areia. Rapidamente ela se dissipou.
— Não funcionou — reclamou num muxoxo.
Enquanto você ainda não tiver muito controle e nem intenção o suficiente, a energia vai se dissipar rápido. Quanto maior o poder de controle e quanto mais inabalável for a sua intenção, mais permanente será a energia e conseqüentemente mais poderoso será o feitiço. Esse tipo de controle e intenção só poderão ser aprimorados com a prática diária. Não há atalhos.
Ao longo dos meses seguintes, Kláxia continuou se dedicando diariamente ao exercício. Ia para a praia todas as manhãs um pouco antes do sol nascer e parava um pouco antes do meio-dia para cuidar da casa, da plantação e dos animais. À noitinha, preparava um chá de comberry e sentava-se na rede para apreciar o céu estrelado.
Ah... Um chá quente. Parte essencial na jornada para ser uma maga.
— Estou começando a achar que é algum instinto natural. Eu nunca gostei de chá. Quando aceitava, era por educação.
Faz parte. A natureza tem formas peculiares de realinhar as energias.
— O que acontece depois?
De quê?
— Depois que eu aprender a proteger minha casa.
Você vai querer fazer alguma outra coisa. É a eterna sina dos mortais: desejos infinitos.
— Então o meu destino é ser eternamente insatisfeita?
Só as rochas estão plenamente satisfeitas.
— Por quê? Por que a existência é uma infinita insatisfação?
Porque o incômodo é a fonte do movimento. E a existência é movimento. O que não se move está morto.
— Então as pessoas felizes e satisfeitas são mortas-vivas?
Você já conheceu alguém que realmente estivesse feliz?
— Já.
Quem?
— Várias, ué.
Várias quem?
— Ah, sei lá. Um monte por aí.
Não existe satisfação, plenitude ou felicidade na vida. Mesmo que alguém não tenha sérios problemas, os pequenos desconfortos diários a mantêm em movimento. Se não mantivessem, ela morreria de inanição.
— Não existe felicidade?
Não. Felicidade é uma ilusão. Um conto de fadas que os anciões contam aos jovens para que estes não se encontrem com o desespero cedo demais.
— Pesado. Principalmente porque pessoas morrem na busca pela felicidade.
Efeito colateral de se manter uma civilização minimamente funcional.
— Vocês, dragões, já foram felizes em algum momento?
Nos resignamos ainda no início da existência.
Kláxia bebeu um pouco de chá enquanto pensava.
— Qual o propósito da existência então?
Não ser a estagnação da inexistência.
— Só isso?
A complicação é fruto da inconformação com a simplicidade.
Kláxia bufou irritada.
— Mas não deveria haver um propósito maior pra tudo?
Por que deveria?
— Oras, porque senão tudo isso, todo esse sofrimento, seria em vão!
A existência é inteira em si mesma. Existir já é o próprio propósito. A não estagnação da inexistência, como eu falei. Não existe propósito maior, pois isso estaria do lado de fora da existência, e não existe nada do lado de fora da existência, porque não existe nada na inexistência. Os dois lados são completos em si mesmos. Não há brechas.
Kláxia respirou fundo algumas vezes um pouco irritada.
— O que eu faço com essa informação?
O que você quiser. Não vou te dizer o que fazer com sua vida. Você é livre dentro das circunstâncias atuais.
Ela pensou por um momento enquanto terminava o chá.
— Você existe, não é, Lokdrahzul?
Se eu não existo, então você é uma esquizofrênica autodidata.
— Só mais um dos meus muitos títulos. Mas não é isso que eu quero dizer. Você está morto, mas mesmo assim existe, né?
Não estou morto. Estamos num outro plano de existência. Então sim, eu existo.
— Então a morte é uma inexistência?
Você sabe que não.
— Não sei. Ouvi falar de histórias sobre almas que foram para o Oblivion, mas isso não significa muita coisa, já que com magia podemos ir e vir de lá.
Existem muitos lugares para onde um morto pode ir. Inclusive, podem reencarnar.
— Já ouvi sobre isso também. Mas o quanto disso é verdade? Digo, quantas almas reencarnam? Duas? Três por milênio?
Milhões.
Ela deu uma risada de deboche.
— Milhões? Isso seria quase todo mundo!
Mas quase todo mundo reencarna. Poucos são os que não reencarnam.
— Achei que isso fosse reservado apenas para as almas dos importantes.
Apenas as histórias de destaque são passadas adiante, mas a reencarnação é para todos.
— E o que acontece nessas reencarnações todas? As que não têm destaque.
Em todas, inclusive nas que aparentam irrelevância, as almas aprimoram habilidades que foram aprendidas na vida anterior.
— Como assim?
Você, por exemplo, nesta vida é uma ladina e assassina bem sucedida. Mas uma maga iniciante. Isso significa que em outra vida você foi uma ladina ou assassina medíocre, e nunca sequer chegou perto de magia.
— Considerando meus fracassos aqui, eu devo ter sido uma Zé Ninguém na vida anterior.
Sim, assim como a maioria das pessoas. Poucos se destacam.
— Se for assim mesmo, então quer dizer que numa próxima vida eu seria uma maga assassina boladona?
Se você desenvolver suas habilidades lá, sim. Mas cada vida apresenta algumas possibilidades dentre as quais você pode escolher. E você não é só ladina e assassina, lembre-se de que quase enlouqueceu e virou um espectro de Nocturnal. Prevejo que você terá, pelo menos, duas opções proeminentes. Um caminho de loucura acentuada e outro de magia assustadora. A relevância ou atratividade de cada opção vai depender de desenvolver as habilidades mágicas aqui nesta vida. Pois se não for muito longe na magia agora, na próxima terá uma oportunidade de menor relevância.
— Então você está me dizendo que eu serei uma louca de manicômio na próxima vida? E perigosa ainda por cima! Trancada num hospício!
Oh, o drama, o exagero, a emoção! Você também poderia ser um tipo de palhaço de circo de terror. Daqueles que matam os turistas.
— Que vida de merda.
Fruto do que você cultiva aqui e agora.
Ela colocou a xícara sobre a bancada da varanda e ajeitou-se na rede.
— Eu vou ficar presa na minha cabeça, não é? Tipo um coma ou catatonia.
Não digo nenhuma dessas duas coisas, mas sua condição mental tem uma alta chance de não ser das melhores, já que você ainda não procurou ajuda aqui.
Kláxia suspirou fundo sonoramente.
— Estou cansada de me preocupar com coisas que eu não posso controlar.
É o primeiro passo para a sanidade.
— Vou dormir.
Isso também é muito bom.
— Acho que amanhã você já pode me ensinar o feitiço de tranca — disse não como uma sugestão, mas como um fato.
Concordo. Você evoluiu bastante na manipulação energética. Já pode começar a praticar com objetos fixos.
— Boa noite, Lokdrahzul.
Boa noite, Bosmer.
Na manhã seguinte, antes do Sol raiar, Kláxia juntou vários livros, jarros, urnas, barris e caixotes na praia. Os animais se deitaram perto para observar, mas longe o suficiente para não se envolverem.
Depois de dominar a manipulação energética, fazer um feitiço é fácil. O segredo está na intenção. Qualquer feitiço lançado precisa ter uma finalidade, um objetivo, uma missão. Para trancar, a intenção deve ser de fechar e permanecer fechado até que um contra-feitiço seja realizado.
A Bosmer segurou um dos livros, sentiu a essência do objeto e começou a concentrar energia nele com a intenção de que ele não se abrisse. Quando sentiu que o livro estava estranhamente pesado, colocou-o no chão.
— E agora?
Tente abrir.
Ela se sentou na frente do objeto com um pouco de entusiasmo e receio, como se pudesse explodir a qualquer momento.
Se você não intencionou que o livro danificasse o usuário de alguma forma, se foi só para que ele não abrisse, então é inofensivo.
Kláxia segurou o livro e tentou abri-lo, mas era como se alguém tivesse colado as páginas. Os olhos dela brilharam e ela olhou para cima como se quisesse olhar para o dragão, mas não havia nada ao seu redor.
Parabéns. Você realizou seu primeiro feitiço com sucesso, disse a voz desencorporada. Agora tente com os outros.
Ela passou a manhã trancando tudo o que levou para a praia. Pulava de alegria quando descobria que as coisas estavam mesmo trancadas. Quando terminou, perto do meio-dia, deixou tudo na praia e foi cuidar de seus afazeres na ilha.
No dia seguinte, teve uma surpresa desagradável. Uma ventania derrubara dos caixotes, barris, jarros e urnas, e espalhara os livros pela areia. E tudo estava aberto.
— O que aconteceu aqui? — perguntou desolada, achando que havia fracassado.
Foi o seu primeiro dia lançando esse feitiço. Ele não estava firme o suficiente e se dissipou. Completamente normal. Continue praticando.
Depois de 1 mês praticando apenas trancar as coisas, Kláxia sem querer se trancou do lado de fora de casa. Foi quando Lokdrahzul, depois de uma risada comedida, ensinou-a o feitiço de destrancar. A Bosmer treinou os dois feitiços por mais 1 mês, então o dragão passou uma lista de feitiços que incluía correr sobre a água, levitar, deixar seres animados e inanimados pesados ou leves, pular muito alto, cair devagar, fazer os animais fugirem ou seguirem ou se acalmarem, invisibilidade, efeito camaleônico, enxergar no escuro, cegueira, alucinação auditiva, silêncio, telecinesia, absorção e dispersão energética, e alguns feitiços de cura. Avisou que iria se ausentar por um tempo e que qualquer fracasso aparente não era um fracasso e sim os primeiros passos de uma longa jornada.
— Você volta, né?
Claro. Mas agora você precisa trilhar essa parte do caminho sozinha. Tudo o que eu lhe ensinei é suficiente para que você continue por si só. Quando estiver mais desenvolvida, eu voltarei para a segunda parte.
— Obrigada, Lokdrahzul, por tudo.
Eu que agradeço a oportunidade de passar meu conhecimento adiante. Mas não se despeça de mim, Bosmer, eu não estou indo embora.
Kláxia sentiu a energia dele se dissipar e desaparecer.