No Submundo de Plutão
A Sombra ainda o espreitava quando Erik acordou. Ela sempre ficava afastada, encarando-o como se quisesse que ele a notasse, que lhe desse atenção, que fosse até ela e a reconhecesse, mas Erik fingia que não a via. A sua vida inteira ele sabia da existência dela e a ignorava. Ele também sabia que ela estava separada de seu corpo, que era um homem sem sombra do mesmo jeito que os vampiros não possuem reflexo. Nas fotografias antigas, Erik sempre parecia ter sido inserido por um artista que se esqueceu de que ele era um objeto em três dimensões e que, portanto, deveria ter uma sombra. No entanto, ninguém além dele próprio havia notado isso.
Aos seus pés, na cama, Pluto se espreguiçou, mas não levantou. Erik chegou bem perto do cachorro e afagou sua cabeça. Os pêlos grisalhos escondiam que um dia o animal fora completamente preto.
— Ei, bom dia, carinha — sussurrou. — Parabéns, meu amigo. Que você tenha muita saúde e muitos anos de vida.
Pluto suspirou e virou-se de barriga para cima. Erik a esfregou.
— Agora que você é maior de idade e pode dirigir, beber e ser preso, o que você pretende fazer?
Pluto virou-se para o outro lado e se enroscou para dormir novamente. Erik sorriu.
— Obrigado, meu amigo — sussurrou. — Muito obrigado por me salvar durante todos esses 18 anos... Se não fosse por você e por ela, eu já teria pulado.
Ele se levantou e arrumou a cama de forma a não perturbar o sono de Pluto. Abriu a cortina e a janela, e encarou o mundo que corria 10 andares abaixo dele.
Por escolha de sua mãe, o quarto era todo pintado de azul escuro, o que dava a sensação de que o cômodo era muito menor do que realmente era. Ele sempre quis paredes brancas ou de um amarelo pálido, mas sua mãe o ignorava. Por 35 anos Erik viveu confinado naquele azul que o estrangulava e tirava de si toda a vontade de viver. Sempre que ele insinuava que o branco, ou qualquer outra cor, ficaria melhor, ela dizia que o azul escuro era a cor dos homens elegantes e poderosos. Nunca funcionou para ele, pois o único sentimento que Erik carregava como uma cruz era a impotência.
Despiu-se da blusa e cueca azuis, pegou sua toalha e dirigiu-se para o banheiro antes que sua mãe se trancasse lá por horas e o atrasasse para o trabalho.
Toda manhã, enquanto estava envolvido pelos vidros fumê do box e mergulhado no ruído da água, um profundo desespero emergia de suas entranhas. Era o mesmo sentimento de que sua vida estava passando e que ele não estava vivendo. Uma dor funda de inutilidade, desperdício e pena. Tantas coisas que ele poderia fazer, mas sua vida se resumia a trabalhar, voltar para casa e aturar sua mãe. Cuidar de Pluto era uma pequena distração nessa rotina estéril e imutável, como um assopro numa queimadura.
Ele abriu os olhos e as lágrimas quentes rapidamente se misturaram com a água gelada e desapareceram ralo abaixo para sempre. A Sombra o encarou novamente, os grandes olhos brilhantes e esbugalhados clamando por atenção, mas Erik a ignorou como sempre fizera. Na parede, as únicas sombras eram as do vidro e da água caindo. Erik notou, como sempre gostava de fazer, que ele não se encaixava naquele ambiente. Como se fosse um desenho animado no mundo real. Destoado, sem volume e sem profundidade. Aquele não era o seu mundo ou a sua vida. Ele estava preenchendo um espaço onde não cabia. Mas isso sempre lhe fora óbvio. O mistério era descobrir como sair dali e voltar para o seu mundo. Um mundo do qual sua mãe e o azul escuro não faziam parte.
Ele saiu do chuveiro e se enxugou. Desejou, como todos os dias desejava, que algo maior que si o absorvesse para fora de sua vida como aquela toalha absorvia a umidade. Que ele pudesse evaporar, percorrer o mundo e chover em outras terras. Correr por outros rios e desaguar no mar. Que o engoliria com o seu azul escuro.
Erik suspirou. Nem nas analogias ele conseguia escapar do maldito azul escuro.
No quarto, vestiu seu uniforme do supermercado e respirou fundo tentando inalar algum resquício de ânimo e paciência para enfrentar a crucificação matinal.
Atravessou o corredor e sentou-se no seu lugar na mesa da sala. Na cabeceira, uma fotografia do seu falecido avô ficava de pé sobre a mesa. Na outra ponta, invisível para todos, sentava-se a Sombra.
Sua mãe surgiu da cozinha trazendo uma vela, um prato e uma caneca velha de metal esmaltado, e arrumou tudo em frente à fotografia do avô. Fez mais algumas viagens da cozinha para a sala arrumando a mesa. Seu rosto era enrugado, não pela idade, mas por um desgosto tão profundo pela existência que acabava lhe conferindo 30 anos a mais na sua idade. O cabelo preso num coque baixo e as roupas de um século atrás, com um grosso cinto que não combinava com o conjunto, também contribuíam para o seu visual ultrapassado de uma época tão distante. Erik não sabia quantos anos a mãe tinha, mas sabia que ela não era idosa, pois o havia tido ainda muito jovem. Também não se importava com os gostos dela. Na verdade, ele achava tudo o que ela fazia insuportável. Detestava o cheiro de sabonete barato que ela tinha, as roupas com odor de tecido esquecido no fundo do guarda-roupas, o sabão em pó enjoativo, os móveis velhos, as paredes escuras, a voz dela, os trejeitos, o mau humor e, principalmente, a comida.
***
Quando era adolescente, Erik estava voltando da escola e decidiu cortar caminho por uma feira de produtores locais. Os cheiros de queijo, leite, milho cozido, frutas, madeira polida, tecidos novos e uma gama de outros odores que ele desconhecia, tomavam conta do ar. Ele desviava com cuidado dos produtos e dos transeuntes. O caminho acabou ficando mais demorado do que se tivesse seguido seu trajeto normal.
Perto das últimas barracas havia uma bacia cheia de caranguejos. Os animais passavam por cima uns dos outros tentando salvar suas vidas. Uma mulher acabava de sair com um balde pela metade. Quando Erik se aproximou, os animais cessaram sua fuga para encará-lo numa última súplica pelas suas vidas. Ele deu alguns passos adiante tentando seguir para casa, mas um peso no seu coração o fez parar e voltar lentamente.
Erik sentiu um aperto no peito vendo todos aqueles olhos negros o encarando. Queria salvá-los do seu fim. Devolvê-los ao mangue de onde foram tirados, e aos seus familiares. Ou então poderia criá-los num aquário adaptado. Dariam alguma vida ao seu quarto azul escuro. E lhe fariam companhia na sua existência tão desértica.
— Quanto é, moço?
— Precinho de fim de feira, jovem, a bacia toda por 5 reais.
Num impulso mais forte do que o medo que tinha da mãe, Erik pegou o dinheiro que era para comprar seu lanche durante a semana toda e entregou ao vendedor. Este transferiu tudo para um balde e o entregou. Erik seguiu para casa com o coração a mil por hora, planejando dezenas de maneiras de esconder os animais de sua mãe. Chegou até a pensar em jogá-los num bueiro perto de casa, pois havia estudado na escola que o esgoto desaguava no mar, então os caranguejos só precisariam seguir a correnteza de milhares de descargas até chegarem a uma praia, onde seriam livres.
Quando chegou em casa, correu para o quarto sem fazer barulho e deixou o balde, que já cheirava mal, atrás da porta. Trocou de roupa e espiou pela fechadura para ver se a mãe estava por perto. Não tendo sinal dela, foi para o banheiro e levou os animais. Lavou-os para tirar o cheiro forte e tomou seu banho normalmente. Na hora de sair, teve o mesmo cuidado e voltou para o quarto. Decidiu que no dia seguinte ia arranjar um punhado de terra do jardim da escola e colocar dentro do balde para deixar a vida dos animais menos odiosa. Colocaria mais água tentando imitar o lodaçal onde um dia viveram.
Matilde gritou que o almoço estava pronto. Erik saiu sorrateiro e fechou a porta. Almoçaram em silêncio, e parecia que a mãe não sabia de nada. Erik fez suas lições de casa no quarto, jantou e deitou-se. Na madrugada, revirou o lixo, pegou alguns restos de comida e jogou no balde para os animais. Alguns se atreveram a comer, mas outros já demonstravam sinais de que estavam morrendo.
Pela manhã, Erik catou os fugitivos pelo quarto, colocou-os de volta no balde, guardou este debaixo da cama e seguiu sua rotina normalmente. Foi para a escola, arranjou uma sacola plástica e, na hora da saída, recolheu um punhado de terra com a ajuda da amiga.
Quando chegou em casa, sua mãe estava na cozinha. Ele foi correndo para o quarto e fechou a porta. Olhou debaixo da cama e o balde havia sumido. Congelou por um segundo tentando se lembrar se havia colocado em outro lugar.
Matilde abriu a porta com um sorriso e disse que estava na hora do almoço. O rosto de Erik se contraiu num choro que ele engoliu.
— Ainda não tomei banho — sussurrou.
— Toma depois. Vem agora.
Ele se sentou à mesa. Matilde levou uma panela enorme e pôs em cima da mesa. Tirou a tampa. Os corpos dos caranguejos esquartejados em pequenos pedaços flutuaram para o topo. Erik pôs a mão na boca para não vomitar e não deixar o choro sair. Matilde colocou um prato fundo na frente dele e encheu com o ensopado de caranguejo. Entregou-lhe uma colher e ordenou:
— Coma. Tudo.
Erik respirou fundo algumas vezes, tossiu, olhou ao redor pensando em como escapar, no que dizer para ela, mas sua mãe ficou ao seu lado vigiando.
— Anda, Erik.
— O meu estômago... Eu vou passar mal.
Ela se curvou ao lado dele e sussurrou no seu ouvido:
— Você realmente acha que eu sou idiota? O que você pensou que ia fazer com esses bichos?
Os olhos de Erik encheram d’água, e ele os esfregou antes que as lágrimas escorressem.
— Mamãe, posso ser dispensado do almoço?
— Não. Você só sai daqui quando essa panela estiver limpa. Você não queria caranguejos? Pois então agora vai comer tudo.
Erik pegou um pouco da água do caldo e levou até a boca, mas o cheiro o fez ter um reflexo de vômito. Matilde perdeu a paciência, pegou um pedaço do caranguejo e enfiou na boca dele. Erik cuspiu. Ela pegou o mesmo pedaço, enfiou na boca dele de novo e tapou.
— VOCÊ VAI COMER TUDO! TUDO, TÁ ME OUVINDO? — gritou. — EU QUERO VER ESSE PRATO LIMPO, BRILHANDO!
Ela balançou a mandíbula dele simulando uma mastigação.
— ENGOLE ISSO!
Os dois lutaram. Erik tentava se soltar da mãe. Matilde forçava mais pedaços dentro da boca dele e o sufocava para que ele engolisse. Assim que Erik sem querer engoliu um punhado, imediatamente vomitou em cima do prato. Matilde arremessou o prato longe e puxou a panela para perto.
— SE VOCÊ VOMITAR NA PANELA, VAI COMER ISSO COM VÔMITO E TUDO, TÁ OUVINDO?
Sem conseguir controlar seu corpo, Erik vomitou de novo quando foi forçado a engolir. Matilde meteu a mão na panela, pegou os pedaços vomitados junto com os pedaços cozidos e forçou goela abaixo de novo. Para que ele bebesse o caldo, ela pegava com uma xícara e virava na garganta dele. Ele quase se afogava, tossia várias vezes e vomitava, mas ela continuava mesmo assim.
A sessão de tortura só parou quando a mesa inteira e metade da sala estavam vomitadas, e a própria Matilde já estava cansada de lutar com um adolescente. Erik chorava como uma criança derrotada. Os olhos vermelhos; o rosto, o pescoço e os pulsos cheios de hematomas que já ficavam roxos.
— Você nunca mais tente esconder nada de mim, tá me ouvindo? — falou baixo, perto do rosto dele.
Erik apenas assentiu como um cachorro traumatizado.
***
Matilde voltou da cozinha com um prato de cenoura, chuchu e abobrinha cozidos com uma pitada de sal e um copo com água, e colocou na frente dele. Fez uma última viagem trazendo café e dois pães com margarina. Colocou um dos pães no prato em frente à fotografia e serviu o café para ela e para o pai. Acendeu a vela com um isqueiro que tirou de dentro do sutiã e realizou uma prece. Sentou-se e os dois seres vivos iniciaram suas refeições.
Desde a morte do avô, há 27 anos, que esse ritual se repetia em todas as refeições. A gastrite de Erik também começou mais ou menos na mesma época e nunca mais o abandonou.
Levou uma colherada à boca sem assoprar o suficiente e cuspiu de volta no prato num reflexo.
— Mas é um imbecil mesmo! — reclamou Matilde. — Não sabe que tá quente não? Come isso todo dia e não sabe que tem que esperar esfriar?!
Erik não reagiu, apenas pegou outra colherada e assoprou mais vezes. Sua mãe continuou.
— Agora eu vou ter que avisar todo dia pra você assoprar, é? E o dia que eu não estiver mais aqui, que eu me juntar com meu paizinho no lar de nosso Senhor, se Deus quiser, como que vai ser? Quem é que vai te dizer que tá quente? Quem é que vai te preparar a comida, hein?
Erik permaneceu em silêncio.
— Eu tô falando com você, garoto! Olha pra mim! Não tem juízo, não?
Erik a encarou com o seu semblante mais robótico, pois qualquer músculo facial fora do lugar poderia lhe render uma surra.
— Como que você vai fazer, hein? Quando eu me for?
— Não sei.
Ela bufou irritada.
— Tá vendo, pai? Esse menino depende de mim pra tudo. Não consegue nem comer sozinho. O que eu faço, hein? O que eu faço com ele, meu pai? — E olhando de volta para Erik: — Você tem que rezar muito pra Deus me dar muitos anos de vida, porque sem mim você não vai durar muito!
Irritada, arrancou pedaços de pão e colocou na boca. Ainda sem engolir, continuou:
— No meu tempo, a gente tinha que aprender as coisas ainda criancinha. Não tinha essa história de depender da mãe pra tudo não. A gente tinha que fazer as coisas em casa, ser responsável, ter juízo. Eu te dei uma vida muito mole. Fui muito boazinha, perdoei demais. Se o chinelo tivesse cantado mais, se eu tivesse sido mais dura, mais severa, você não seria esse inútil que você é hoje. Meu Deus, me perdoe, mas eu criei esse menino muito mal. Não tem limite, não tem juízo, não tem responsabilidade, não tem nenhum dever. É só na vida boa. Passa o dia todo fora de casa--
— Trabalhando — sussurrou Erik interrompendo a mãe.
— Trabalhando — disse ela sorrindo. — Ouviu, Deus? Ouviu, pai? Trabalhando. Ele acha que eu não sei que ele passa o dia com aquela piranha do posto de gasolina. — E ajeitou o cinto.
Num rompante, que às vezes lhe acometia atravessando todas as barreiras que ele havia criado no seu interior para que nada escorresse para a realidade como um ovo furado que cheira a podre, Erik se irritou.
— Eu mal vejo ela. É daqui para o trabalho e de lá pra cá. Se eu passasse o dia todo com ela, teria sido demitido e não ia ter salário pra te dar — disse baixo e calmamente, respirando entre uma palavra e outra.
O cinto voou mais rápido do que num passe de mágica e o acertou na lateral do crânio, deixando a orelha e a bochecha avermelhadas.
— Tá me chamando de mentirosa? — gritou.
"Não, estou te chamando de burra", pensou Erik conseguindo segurar o pensamento dentro de si pois não queria chegar roxo no trabalho. De roxo já bastavam o sofá, a toalha da mesa e o estofado das cadeiras.
— Responde!
— Não.
— Você não me venha com essas gracinhas não, moleque! Eu sei que você fica de esfrega-esfrega com ela! Não venha me aparecer aqui com filho de rapariga pra criar não!
Erik era virgem e nunca havia tido nenhuma intimidade física nem com Faustine e nem com nenhuma outra mulher. A paixão dos dois era platônica porque ele sabia que, enquanto ainda vivesse aquela vida, Faustine jamais poderia ficar com ele.
— Tá ouvindo?!
— Sim — sussurrou.
Matilde continuou resmungando com Deus e o pai falecido sobre toda uma geração perdida e como no seu tempo tudo era melhor, e que as pessoas eram cordiais, trabalhadoras e bem sucedidas.
Erik terminou seus legumes em silêncio, pediu licença para sair da mesa, colocou o prato na pia, escovou os dentes e foi para o quarto. Acordou Pluto gentilmente e lhe colocou a coleira.
O cachorro saiu da cama com dificuldade, soltou um longo suspiro como se estar vivo pesasse uma tonelada. Olhou para Erik, que lhe deu um sorriso, e abanou a cauda sem muito entusiasmo.
— Vamos passear?
Pluto deu alguns passos em direção à porta e parou aguardando. Erik pegou alguns sacos de cima da cômoda e os dois saíram do quarto. Seguiram pelo corredor até a porta da frente. Matilde já havia recolhido a louça do café-da-manhã e a sala estava limpa. Eles saíram do apartamento e desceram de elevador.
Pluto foi para a sua moita preferida e fez suas necessidades no jardim do prédio. Erik recolheu os dejetos e jogou no lixo próximo. Saíram para dar uma volta no quarteirão. Era cedo, a rua estava vazia, apenas o caminhão de lixo se aproximava dobrando a esquina.
Os dois caminharam devagar pois Pluto já não se agüentava como antes. Toda vez que o cachorro olhava para ele em busca de aprovação, Erik sorria e lhe afagava a cabeça.
Quando voltaram, os lixeiros já haviam recolhido todos os sacos que naquele momento estavam sendo triturados pelo caminhão. Um forte odor se espalhou pela rua. Pluto espirrou e Erik tapou o nariz. Entraram no prédio e subiram.
Ao entrarem no apartamento, Pluto aguardou como de costume que Erik limpasse suas patas. Em seguida, ele soltou o cachorro que foi para sua cama dormir novamente. Erik encheu as tigelas com água e ração e seguiu para o trabalho.
***
Matilde terminou sua torturante sessão de constipação diária com hemorróidas inflamadas, deu descarga na miséria que saiu de si, lavou-se, foi para o quarto e trancou-se. As paredes eram metade rosa escuro na parte superior e marrom na parte inferior que imitava madeira. A roupa de cama e as cortinas eram de um marrom tão escuro que parecia preto. Nem a luz do sol conseguia clarear toda aquela escuridão decorativa. O armário de mogno era antigo, com fechaduras e chaves grandes e elegantes num bronze encardido, resultado dos anos que levaram o dourado embora. De uma porta da parte de cima no canto, ela tirou uma caixa de metal com uma pintura de biscoitos amanteigados na tampa que também estava desgastada pelo tempo. Pegou uma toalha de rosto da gaveta, colocou tudo sobre a cama e se ajoelhou no chão.
Tirou vários objetos aleatórios que só tinham valor para ela e os dispôs sobre a cama. Crucifixo de resina, terço de contas de madeira, um envelope com os dentes de leite de Erik, jóias encardidas, muitas fotografias, algumas cartas amareladas do pai de seu filho, um coelho de tricô dado por sua tia falecida, um bibelô de anjo com as asas quebradas que ela também guardava, e um saquinho de plástico transparente com um fecho hermético que carregava um pequeno bilhete de papel com a simples frase: "Estou cansada".
Ela encarou o bilhete e riu com desdém várias vezes até juntar saliva o suficiente para cuspir nele. O líquido escorreu e caiu na toalha.
— Cansada... — comentou debochadamente. — Você nunca soube o que era cansaço. Eu... Eu! É que sei muito bem o que é cansaço!
Balançou a cabeça negativamente várias vezes enquanto juntava saliva e cuspiu de novo.
— Uma vergonha... Ainda bem que não sobrou ninguém pra lembrar de você. Fraca, lerda, abestalhada, estrupícia. — E cuspiu de novo. — Vergonhosa... Vagabunda.
Um último cuspe voou acertando em cheio o bilhete. Matilde limpou com a toalha, guardou tudo de volta na caixa e trancou no guarda-roupas. Jogou a toalha no cesto de roupa suja e respirou fundo, com o queixo erguido, como se tivesse vingado a honra manchada de sua família.
***
Erik deu bom dia aos colegas e foi para o depósito pegar as caixas para repôr a sua seção. Voltou com um carrinho cheio de carnes, miúdos e outras partes de animais congelados e embalados em bandejas de isopor. Arrumou tudo no freezer e voltou para pegar as batatas fritas. Realizava seu trabalho calmamente, pois sua seção era uma das mais tranqüilas do mercado.
Perto da metade do turno, não havia mais o que repôr na sua seção, então era chamado pelo gerente para ajudar no açougue. Passava ali o restante todo do seu dia, nauseado com o cheiro de morte, a textura e aparência das vísceras, e carcaças que ainda remetiam ao animal original.
No entanto, Erik reconhecia sua hipocrisia quando sua boca enchia de água com o cheiro de carne assada que ele não podia nem sonhar em comer por causa da gastrite. Nem carne, nem batatas fritas e nada que fosse difícil de digerir ou que tivesse muita gordura. Uma vida inteira se alimentando de legumes cozidos e algumas frutas teve seu peso. A magreza de Erik era assustadora para aqueles que o viam pela primeira vez. Faustine brincava com ele chamando-o de "boneco palito" e dizendo que ia colocar uma coleira nele para que não saísse voando com o vento. Ele queria mesmo que ela lhe pusesse uma coleira e o levasse para bem longe, contra a sua vontade, para que ele não precisasse arcar com a conseqüência de abandonar sua mãe, pois sabia que ela iria até o inferno atrás dele e que o esfolaria por tamanha ousadia. Se Faustine o seqüestrasse, ele seria inocente, mas nem tanto, pois sua mãe ainda lhe culparia por ter falado com ela pela primeira vez.
Erik se perguntava se sua vida seria melhor se ele tivesse nascido mulher e entregado-se a um convento. Não teria conhecido Faustine e não teria resgatado Pluto, mas pelo menos estaria livre de sua mãe. Sua vida seria sem graça sem a amiga e o cachorro, mas ele honestamente não sabia se agüentar a mãe era um preço que podia e queria pagar. Às vezes, na realidade alternativa que criava em sua mente, ele se resignava por não ter conhecido Faustine e aceitava a culpa de nunca ter resgatado Pluto. Não aliviava em nada seu rancor e cansaço, pelo contrário, quando voltava para casa e via Pluto se abanando feliz, a consciência pesava tanto que ele abraçava o cachorro e desculpava-se por não agüentar mais e querer desistir de tudo, mesmo que apenas em sua cabeça.
Trabalhava ali há anos, mas nunca fez amizade com nenhum colega. Sua cara constante de defunto que esqueceu de deitar afastava as pessoas comuns. As olheiras fundas e escuras, a pele pálida, o cabelo relaxado e a postura curvada de um idoso de 100 anos não passavam confiança aos outros. Parecia um drogado.
No início, os colegas cochichavam a respeito dele pelas suas costas, mas depois de meses em que ele nunca disse mais do que bom dia, boa tarde e boa noite, e nunca reclamou ou causou problemas, os colegas aprenderam a ignorá-lo. Agiam como se ele fosse uma planta decorativa que inconvenientemente ocupava um espaço num canto onde poderia ter um sofá ou um bar.
O gerente só falava com ele para mandá-lo ajudar no açougue ou quando precisavam mudar seções de lugar. Erik só fazia além de sua função se fosse ordenado, caso contrário, arranjava um lugar fora do caminho e se escorava ou sentava ali até ter que voltar para repor algo. Se deixassem, ele passava horas vivendo em sua cabeça, num mundo em que só ele, Faustine e Pluto viviam. Era uma terra toda feita de guloseimas, onde coxinhas, risoles e quibes davam em árvores de palitos acebolados; brigadeiros, beijinhos, cajuzinhos e bichos-de-pé davam em arbustos de biscoito canudo; a grama era de batata frita; as casas e construções eram bolos; a rua era de biscoitos encaixados uns nos outros; lagos, rios e mares eram de refrigerante; as nuvens eram de algodão doce; os objetos eram de glacê; o sol e a lua eram uma pizza de muçarela; a neve era sorvete; a chuva era leite condensado; e os insetos eram balas.
Os três se esbaldavam sem nunca ficarem satisfeitos ou indigestos. Era uma eterna comilança onde não havia problemas. Vez ou outra, ele e Faustine tocavam-se intimamente dentro de uma das casas-bolo, mas começava a chover e os dois iam se esbaldar e lambuzar no leite condensado. Pluto passava a maior parte do tempo rolando nas batatas fritas, nadando no refrigerante e correndo atrás das balas. Um dia, sentindo-se um pouco culpado, Erik criou um mangue de patê para cachorro com sapos de petisco.
Às vezes não sabia como havia realizado todas as suas funções pois ficava completamente absorto naquele mundo. O dia desaparecia rápido e logo era hora de voltar para casa.
No fim do expediente, lavou as mãos, deu boa noite para os colegas pelos quais passou até a saída e voltou para casa andando. Durante o trajeto, parou num caixa 24 horas, viu que o pagamento já havia caído e sacou quase tudo, deixando apenas uns 20 Reais que sempre escondia da mãe. Seria o dia do desgosto pelo qual passava todos os meses.
Aproveitou para comprar uma coxinha numa lanchonete no meio do caminho com um trocado que guardara do mês anterior. Assim que acabou de comer, foi para o banheiro do local e se trancou num dos cubículos com uma privada. Curvou-se e aguardou. Não demorou para que o estômago devolvesse a coxinha quase intacta. Erik lavou as mãos, bochechou e cuspiu algumas vezes para disfarçar o odor de vômito que sua mãe com certeza sentiria se chegasse muito perto dele e retomou sua jornada até em casa.
Quando chegou, antes de se trocar ou comer, acordou Pluto delicadamente de novo para passear. O cachorro já não queria sair da cama, mas Erik não queria que ele tivesse que se segurar até a manhã do dia seguinte e nem arriscar ter um acidente dentro de casa, pois sua mãe certamente não lhe daria um minuto de paz. Então Erik colocou a coleira em Pluto e insistiu para que ele o seguisse. O cachorro saiu da cama e olhou com uma súplica para o dono. Erik o pegou no colo e só o colocou no chão no jardim do prédio perto da moita que ele gostava.
Pluto nem levantou a pata, deixou o xixi sair de pé, como se estivesse vazando. Quando terminou, Erik insistiu para ele fazer a outra necessidade, mas o cão continuou parado com um olhar de quem estava sofrendo algum castigo. Erik o pegou no colo e voltou para o apartamento.
— Vá tomar banho pra jantar — disse Matilde.
Erik foi colocar comida e trocar a água de Pluto, e percebeu que a ração estava intocada. Tomou seu banho e sentou-se à mesa onde a mãe já havia servido seu mingau. Uma comida que mais parecia chá de água suja do que mingau, pois não tinha consistência, nem gosto e nem cor. Na cabeceira da mesa, estava o jantar servido para a fotografia do avô, o mesmo prato de frango com quiabo que sua mãe comia.
— Seu salário já caiu?
— Sim — respondeu num sussurro. — Vou precisar tirar um pouco pra levar Pluto ao veterinário.
Matilde parou com a colher no meio do caminho até a boca e o encarou como se tivesse sido ofendida.
— Ele tá morrendo?
— Não tá com uma aparência boa.
— É frescura. Você mima muito esse bicho. Trata ele melhor do que me trata.
Erik respirou fundo e repetiu:
— Vou tirar um pouco pra levar Pluto ao veterinário.
— Eu ouvi! Acha que eu sou surda? Vai tirar quanto?
— Uns 40.
— De um salário de 500... — comentou com desdém. — E ainda tem os 30 que você tira todo mês da ração e das frescuras dele. — Ela sorriu irritada. — Vou ter que fazer milagre com esse dinheiro, né? Só de luz já são uns 70, fora o gás, água, condomínio e tudo o mais. Não era pro teu chefe já ter te dado um aumento não? Você trabalha lá há anos. Já era pra ter virado gerente.
Na ponta da mesa, a Sombra tremeu como se tivesse dado uma risadinha. Erik recebia aumento e entregava para a mãe, mas nunca contou qual era o valor real desses aumentos. Dos 20 que tirava para si, usava uma parte para comer besteiras na rua que acabava vomitando em seguida, e para juntar, pois acreditava que um dia poderia ir embora e recomeçar em outro lugar. Não sabia quando e nem como iria fugir da mãe, mas sonhava em poder fazer isso em algum momento futuro.
Às vezes imaginava que sua mãe conheceria um homem que quisesse uma mulher tradicional como ela e que dividisse consigo o inferno doméstico. Talvez aí ele pudesse ir embora sem que ela fosse atrás dele até o fim do mundo. Às vezes até desejava que esse homem fosse tão amargo quanto a mãe e o expulsasse de casa com o pretexto de que um homem de 35 anos não deveria mais morar com a mãe. Assim ele estaria livre e não precisaria lidar com as conseqüências de abandoná-la. Com o seu salário, encontraria um quitinete, chamaria Faustine e morariam os três juntos. Seriam uma família. Uma boa família. Nunca mais precisaria fazer as refeições olhando para o avô que tanto odiava.
— Se você fosse esperto e inteligente, já tinha virado gerente e a gente não ia precisar passar esse aperto todo. Mas Deus me deu um filho burro e imprestável. É karma, só pode.
Erik continuou sua janta em silêncio. Depois que terminou, escovou os dentes, tomou banho e entregou para a mãe o salário que havia sacado antes, menos a quantia que combinou com ela. Matilde bufou desdenhosa.
— Esse tempo todo e você ainda não se arranjou. Como vai ser quando eu ficar mais velha e não conseguir mais fazer as coisas, hein? Como que você vai sustentar a gente? Como você vai cuidar de mim? Responde!
— Não sei.
Ela riu irritada.
— Deus tá me punindo, é isso. Eu que dei tudo de mim por esse garoto... É assim que ele me trata... Com indiferença e desprezo...
Erik manteve seu semblante natural de manequim de loja e perguntou num sussurro:
— Posso ir me deitar?
— Não. Tenho que terminar os últimos detalhes de uma peça que a Sônia vai vir buscar hoje mais tarde.
Erik se sentou no sofá roxo da sala onde sempre precisava se sentar quando ia segurar o rolo de linha para a mãe tricotar. Matilde colocou a louça na pia, foi até o quarto e voltou trazendo uma bandeja com a peça e os materiais. Erik ergueu as duas mãos paralelamente e ela enrolou um punhado de linha nas duas. Sentou-se no outro sofá ao lado do dele, ligou a tevê e começou a tricotar em cima de partes da peça.
Erik encarava o vazio da parede verde escura à sua frente enquanto sua mãe vez ou outra fazia comentários indignados sobre o que se passava na tevê.
O interfone tocou, Matilde atendeu e disse que era para deixar subir. Aproveitou para amarrar uns laços na peça e colocar dentro de uma sacola de papel. Atendeu a porta quando a campainha tocou e mandou Sônia e a filha de 7 anos entrarem.
— A gente passou só rapidinho — disse a mulher. — Desculpa incomodar essa hora, mas é que eu passei mal o dia todo e amanhã tenho médico de manhã.
— Que isso, menina. Não se preocupa não. É muito sério?
— Olha, não sei, mas vai e volta. Eu ando muito cansada, quase que não consigo fazer as coisas de casa. Aí o Valter acha ruim, né, mas não reclama. Mas a gente sabe que eles não gostam, né?
Matilde fez um ruído de concordância e balançou a cabeça.
— Sei como é. Eles querem que a gente cuide o tempo todo, mas eles não mexem um dedo pra ajudar. Mas ainda bem que você teve uma menina, né, pra cuidar de você na velhice.
Sônia sorriu meio sem graça.
— Eu espero, mas é difícil, né, ela vai ter a família dela, as obrigações dela... Não quero ser aquelas idosas que são um peso pra família.
— Que isso, menina! É obrigação dela cuidar de você! — E para a criança: — Você vai cuidar da sua mamãe quando ela ficar velhinha, né?
A criança, em sua eterna inocência e sinceridade, soltou um sonoro:
— Eu não! Quero passear!
Matilde se empertigou como se fosse uma ofensa direcionada a ela:
— Mas que egoísta você, hein? Ingrata! — falou quase no mesmo tom que falava com o filho. — É obrigação sua cuidar da sua mãe! Obrigação dos filhos! Onde já se viu uma coisa dessas? Não querer cuidar da mãe? Vai cuidar sim! Sua irresponsável! Egoísta! Não pensa nos outros não? No sacrifício que a sua mãe faz por você? Deus tá vendo isso e não tá achando bonito não!
A menina abriu um berreiro e se escondeu atrás da mãe. Sônia não sabia se ria por ser uma estranha piada ou se saía correndo por ser um surto de loucura.
— Nós vamos indo agora — disse andando em direção à porta sem a peça.
— Essas crianças de hoje em dia... Espera aí, menina. Sua bolsa.
Entregou a sacola de papel para Sônia que saiu agradecendo sem graça e às pressas. Matilde trancou a porta resmungando irritada. Erik continuava sentado com as mãos erguidas apoiando o punhado de linha.
— Você ainda tá aí? Mas é um lerdo mesmo! Era só guardar a linha, garoto! Sou eu é que tenho que fazer tudo por você? Não consegue nem tirar a linha da mão? O que vai ser de você quando eu morrer?
Erik se manteve parado com o rosto e o corpo de um manequim. Qualquer movimento poderia lhe render uma cintada na cabeça.
— Responde!
— Não sei — sussurrou.
— Não sabe! E tem alguma coisa que você sabe? Parece que é retardado! Não sabe de nada, não faz nada! Só tem titica na cabeça!
Matilde tirou a linha das mãos dele e guardou na bandeja junto com os outros materiais.
— Você tem que botar o joelho no chão todos os dias e agradecer que eu cuido de você! Que eu sou uma mãe de verdade e não te abandonei e nem desisti de você, mesmo você sendo um inútil do jeito que você é!
— Posso me deitar?
— Vai logo, antes que eu perca minha paciência!
Ele aguardou que ela entrasse no quarto, pois não queria ficar muito perto dela no corredor. Então a passos largos, seguiu para o seu quarto e fechou a porta. Vestiu seu pijama e se aninhou na cama junto com Pluto.
A Sombra estava sentada sobre o peito de Erik quando ele acordou. Ela o encarava com olhos líquidos, como se fossem dois globos de vidro com água dentro. Ele escolheu ignorá-la como fazia todos os anos naquela data. Atravessou-a quando se sentou na cama.
Pluto estava deitado de lado. Um forte odor de excremento fez com que Erik terminasse de acordar totalmente.
— Ei, carinha, você não conseguiu se segurar durante a noite?
Ele colocou a mão no cachorro e sentiu a frieza.
— Pluto?
Empurrou o cachorro de leve e percebeu que a carne estava rígida, como se ele fosse feito de cera.
— MÃE! — gritou.
Havia quase 20 anos que ele não gritava, então sua mãe apareceu logo no quarto.
— O que tá acontecendo, garoto?
— O Pluto tá estranho — sussurrou.
Matilde examinou o animal e fez cara de nojo e irritação.
— E ainda se cagou...
— Eu vou limpar.
— Vai nada. Você não sabe fazer nada direito, vai ficar tudo imundo aí. Vai logo tomar banho!
Um pouco desorientado, Erik tirou a roupa na frente da mãe, coisa que não fazia desde a infância e pegou sua toalha.
— Amanhã eu vou levar ele no veterinário.
Matilde soltou um suspiro de escárnio.
— Deus já levou ele embora, garoto.
Erik trancou a porta do banheiro e entrou no box. A Sombra o encarava líquida, como se fosse a água escura de um pântano. Assim que a água do chuveiro lhe tocou, ele mergulhou num rio de lembranças antigas.
***
Um dia antes de fazer 19 anos, quando estava voltando do trabalho, deparou-se com um cachorro preto que havia sido atropelado há poucas horas. A rua estava deserta e o dia estava escurecendo. Viu algo se mexendo e achou que o cachorro pudesse estar vivo. Aproximou-se e sentiu uma dor funda na alma. De dentro da barriga do cachorro havia escorregado vários filhotes, talvez ainda prematuros, todos mortos, exceto um. O último se debatia tentando sair de dentro do cadáver da mãe, mas ainda estava preso dentro da placenta e não tinha forças para se libertar. Com as próprias mãos, ele rasgou a placenta e tirou o filhote. Pescou com o polegar e o indicador uma sacola plástica de dentro do bolso, colocou o filhote ali dentro e foi para casa pensando em como ia criar um cachorro escondido de sua mãe para que ela não fizesse com ele o que fez com os caranguejos.
Ainda no elevador, colocou o saco dentro da mochila cuidadosamente para não sufocar o bichinho, e entrou em casa. Foi tomar banho e levou suas roupas, toalha, um par de meias velhas e o saco plástico embrulhado nas roupas. Lavou o filhote na pia, secou com papel higiênico e colocou-o dentro das duas meias como se fosse um saco de dormir. Fez um cercado com alguns objetos em cima do balcão da pia para que o filhote não caísse e tomou o seu banho o mais rápido que pôde, mas não rápido demais a ponto de chamar a atenção da mãe. Secou-se, vestiu-se e voltou para o quarto. Sabia que precisava alimentar o filhote, mas não sabia como. Deixou-o em cima das cobertas da cama num cercado fofo e foi jantar.
Durante o jantar, perguntou à mãe se ele poderia levar um copo de leite quente para o quarto para tomar antes de dormir. Ela fez uma careta, mas não recusou.
Quando foi se deitar, ele fechou a porta, colocou o filhote no colo e inclinou o copo para que ele bebesse. O animal sentiu o cheiro e ficou agitado, mas ainda era jovem demais para conseguir beber normalmente, então Erik molhou o indicador e deixou pingar na boca dele. Depois de um tempo, sabendo que a mãe ia abrir a porta para saber por que ele ainda não havia apagado a luz para dormir, Erik abriu as cortinas com cuidado deixando a luz do poste iluminar o quarto e apagou a luz. Voltou para a cama e continuou alimentando o filhote. Só parou quando o próprio animal se recusou a beber. Deitou-se de barriga pra cima e colocou-o sobre seu peito. Dormiram nessa mesma posição a noite toda.
Durante as semanas seguintes, improvisou um cercadinho dentro do guarda-roupas, onde sabia que sua mãe não olhava, com pedaços de papel higiênico forrando o chão e deixava apenas uma fresta aberta para entrar ar. Comprou a menor mamadeira que encontrou, alguns potes de fórmula infantil, e sempre pedia um copo de leite morno para tomar antes de dormir. Misturava a fórmula no copo, enchia a mamadeira, dava ao filhote que sempre largava um pouco. Erik depois completava a mamadeira e deixava inclinada no cercado próximo ao filhote. Mantinha as portas do guarda-roupas abertas durante a noite. Pela manhã, encontrava-o bebendo e quando ele terminava, forrava o chão com pedaços novos de papel higiênico e jogava os sujos fora antes que sua mãe visse. Numa noite, enquanto ajudava a mãe com um tricô, passava na televisão uma matéria sobre um desenho infantil com um cachorro chamado Pluto. Decidiu que esse seria o nome do filhote.
Um dia, voltou do trabalho, seguiu sua rotina normal, foi para o quarto com o copo de leite e, quando abriu o guarda-roupas, o filhote havia sumido. Procurou no quarto todo e não encontrou. De repente, sua mãe abriu a porta.
— Perdeu alguma coisa? — disse com um ar triunfante.
Ele balançou a cabeça, não para responder a pergunta, mas como uma confirmação para si mesmo de que ela havia descoberto.
— O que a senhora fez com Pluto?
Ela riu.
— Já tem até nome o resto de aborto!
As mãos de Erik tremeram.
— Eu devia ter colocado lá na rua pro lixeiro levar.
— O que a senhora fez com Pluto?
— Dei pra outra pessoa.
— Que pessoa? — perguntou já pronto para sair.
— Olha como você fala comigo, garoto!
— Pra quem a senhora deu o meu cachorro?
— Seu? Não é seu não! Você não pediu minha permissão!
— Pra quem a senhora deu? — Dirigiu-se para a porta do apartamento.
— Se você for atrás dele, você vai ver só!
— Pra quem?
— Você tá achando que é quem pra agir assim? Você é um moleque que ainda nem largou as fraldas! Você me trate com respeito porque fui eu que te pari! Se não fosse por mim você não estaria aqui!
Erik saiu do apartamento e tocou a campainha do apartamento ao lado. Um homem barrigudo com uma lata de cerveja na mão abriu.
— Boa noite, desculpe atrapalhar, mas o senhor ganhou um filhotinho de cachorro hoje?
O homem fez uma expressão de confusão e negou. Erik agradeceu e tocou a campainha do apartamento seguinte. Sua mãe saiu com o cinto na mão.
— Pára de incomodar os outros, garoto! Ou eu vou te dar uma surra!
Conforme as pessoas atendiam, ele perguntava sobre Pluto, mas todos negavam. Ele agradecia e partia para o próximo. Matilde olhava incrédula e furiosa a persistência dele. Segurava o cinto com força, mas não queria bater nele em público pois odiava quando faziam fofoca dela. Erik pegou o elevador para o último andar e uns minutos depois a mãe apareceu. Ele bateu em todos os apartamentos. Quando chegou no último, uma mulher jovem atendeu e de dentro vieram ruídos de televisão e crianças. Avistando Matilde, ela disse:
— Matilde! As crianças amaram o filhote, já até deram nome pra ele. Rex.
— Boa noite, desculpe incomodar. Meu nome é Erik, esse filhote é meu, fui eu que resgatei ele da rua, era eu que estava cuidando. Minha mãe deu ele sem me consultar. A senhora poderia devolver meu cachorro?
O clima pesou tanto que Matilde ficou vermelha, suando e com um olho tremendo. A jovem sorriu sem graça, olhou para dentro do apartamento algumas vezes e falou:
— As crianças gostaram tanto dele, estão brincando. Até já deram nome. Elas iam ficar arrasadas se eu tentasse tirar o Rex delas.
— O nome dele é Pluto e ele é meu. Pode me devolver, por favor? — disse baixo, mas com firmeza.
— Desculpa, Fernanda, não sei o que deu nele hoje — disse Matilde segurando o pulso do filho com tanta força que a mão dele ficou roxa. — Nós já estamos indo. Desculpa pelo incômodo. Venha.
Erik se soltou da pegada da mãe.
— Com licença — disse ele passando pela jovem e entrando no apartamento.
— Que isso? Tá louco? — falou a mulher puxando-o pela camisa, mas sem muita assertividade.
Erik seguiu o barulho das crianças e as encontrou num quarto jogando Pluto para cima e depois forçando-o sobre um cavalo de brinquedo. O filhote gritava tentando fugir. O sangue de Erik ferveu e ele respirou fundo para não chutar as crianças para longe. Entrou no quarto a passos largos e pegou Pluto que reconheceu seu cheiro e desesperadamente procurou se aninhar ao seu pescoço.
— Dá licença. Esse cachorro é meu.
As crianças gritaram, choraram e disseram que o animal não era dele. Uma tentou impedi-lo de sair, mas Erik a empurrou, ela caiu no chão e abriu o berreiro. A jovem veio atrás falando alto:
— Você é louco? O que tem na cabeça? Invadindo a casa dos outros e roubando um cachorro?
— Não é roubo. Ele é meu.
Um homem imenso com braços tão grossos quanto coxas e uma barriga inchada e dura, entrou com tudo no apartamento com uma arma em punho.
— O que tá acontecendo aqui, Fernanda?
— Esse maluco veio roubar nosso cachorro!
— Devolve o cachorro e sai daqui. Não quero ter que me alterar. — E engatilhou a arma.
— Esse cachorro é meu. Fui eu que resgatei ele da rua há quase um mês. Minha mãe deu ele pra sua esposa sem falar comigo. Ela tem essa mania. Em momento nenhum eu quis me desfazer dele. Ele é meu. Peço desculpas pela confusão que minha mãe causou, mas o cachorro é meu e eu só saio daqui com ele ou num caixão.
O homem encarou Erik e apesar de se sentir afrontado com a confusão toda, pensou que um cachorro vira-lata não valia o aborrecimento todo de ter que chamar a polícia, prestar depoimento, deixar as crianças traumatizadas atirando num desconhecido na frente delas e tudo o mais.
— Você nunca mais apareça nesse andar, tá ouvindo?
Erik pensou que gostaria de nunca mais aparecer no prédio, mas infelizmente era um jovem que não tinha meios de viver sozinho.
— Não tenho a menor intenção de voltar aqui.
O homem concordou e deixou-o passar. Erik saiu do apartamento com Pluto em seu colo que ainda tremia dos maus-tratos que sofreu na mão das crianças e escondia o focinho na dobra do braço dele. Matilde o aguardava do lado de fora, a cabeça já roxa de tanto ódio. Ele passou por ela e foi para o elevador. Ela entrou junto, a mão que segurava o cinto tremia.
Assim que entraram no apartamento, ela se soltou. O primeiro golpe foi nas costas de Erik. Ele se curvou para frente para proteger Pluto. Os próximos golpes acertaram a cabeça, os braços e as pernas. Enquanto ele andava até o quarto para depositar Pluto em sua cama em segurança para receber o espancamento em paz, Matilde o batia sem parar. Ele defendia Pluto como podia.
— VOCÊ BEBEU? FUMOU? TÁ FICANDO MALUCO?
Só se ouvia o zunido do cinto cortando o ar e o estalo quando acertava a carne de Erik. A cada palavra, uma cintada.
— COMO PÔDE ME HUMILHAR ASSIM NA FRENTE DOS OUTROS? TÁ ACHANDO QUE EU SOU QUEM, SEU DESGRAÇADO?
Erik conseguiu colocar Pluto na cama em segurança, recebendo todos os golpes nas costas e nas pernas. Então virou-se e andou na direção de sua mãe para que ela saísse do quarto e ele apanhasse longe do cachorro. Fechou a porta, passou por ela enquanto era flanqueado pelo cinto e foi para a sala.
— VOCÊ NÃO TEVE EDUCAÇÃO NÃO? EU NÃO TE EDUQUEI DIREITO NÃO? VOCÊ NÃO PENSA NOS OUTROS NÃO? COMO PÔDE FAZER ISSO COMIGO, SEU INFELIZ?
O cinto acertava a cabeça, o rosto, o peito e a barriga dele. Erik não se mexeu, não gritou, não reclamou. Apenas fechava os olhos quando via o cinto indo em direção ao seu rosto e protegia sua virilha com as duas mãos. Permaneceu em pé recebendo a surra como se fosse um manequim de academia de polícia.
— EU DEI O CACHORRO SEM A SUA PERMISSÃO? QUEM VOCÊ PENSA QUE É? É VOCÊ QUE TINHA QUE PEDIR A MINHA PERMISSÃO!
Num canto escuro da sala, a Sombra assistia à cena com duas labaredas de fogo que saíam pelos olhos.
— VOCÊ NUNCA PENSA EM MIM! NÃO TEM UM PINGO DE CONSIDERAÇÃO! EU QUE TE CARREGUEI NA BARRIGA POR 9 MESES! FIQUEI COM AS PERNAS ABERTAS COM UM MONTE DE MÉDICO OLHANDO ATÉ VOCÊ ME RASGAR PRA SAIR!
Algumas gotículas de sangue já começavam a atravessar a pele dele e a manchar a roupa.
— VOCÊ ACHA QUE É QUEM SEM MIM? VOCÊ É UM IMBECIL! DEZOITO ANOS E AINDA PRECISA DA MÃE PRA FAZER TUDO! NO MEU TEMPO, TODO MUNDO DA SUA IDADE JÁ TINHA CASA E FAMÍLIA!
— Tipo a senhora?
Matilde rosnou e, segurando o cinto com as duas mãos, acertou o rosto de Erik com tanta força, que fez um corte enorme na bochecha por onde o sangue jorrou espirrando no tricô branco que ela estava fazendo, nos móveis, no tapete, nas roupas dela e dele, e até nos cabelos dela que nessa época eram soltos.
Do pescoço para baixo, parecia que Erik estava vestido com uma blusa de gola rolê vermelho vivo. Matilde encarou sua obra e deu um passo para trás limpando o sangue do rosto. Ela respirava ofegante. Erik não chorou e não reclamou, permaneceu em pé encarando-a.
Então, tendo ofertado seu sangue no altar do sacrifício, ele perguntou baixo e no tom mais calmo que conseguiu:
— Agora eu tenho a permissão da senhora pra ficar com o meu cachorro?
Ela bufou com ódio, incrédula e cansada.
— Fica com essa merda desse cachorro — falou ofegante, porém num tom mais baixo. — Mas eu não vou mover um dedo por ele. Você vai dar comida, água, banho, veterinário e vai limpar tudo o que esse inútil sujar. Eu não quero ter um pingo de trabalho com esse animal miserável, tá me ouvindo? Você quer a porra de um cachorro? Então a responsabilidade é sua! Se ele se engasgar e você não estiver em casa, ele vai morrer porque eu não vou encostar nele!
— Eu vou ter que abater uma quantia do meu salário pra cuidar dele — disse quase num sussurro.
Ela riu com ódio.
— Abate. Mas depois não reclama que não tem as coisas direito aqui em casa!
Erik nunca havia reclamado e isso não ia mudar.
***
Novamente as lágrimas quentes foram levadas pela água fria. Mesmo depois de 18 anos Erik ainda se lembrava da sensação de ter rompido a placenta da mãe morta e sentido o filhote quente, pequeno e gosmento em suas mãos.
Apesar de todos os problemas, o Erik do passado era resistente e corajoso. Enfrentou a mãe para ter o que queria e foi bem sucedido dentro do possível. Questionou-se sobre quando havia perdido essa parte de si. Concluiu que não foi do dia para a noite, mas ao longo de uma vida inteira maçante, onde nada acontecia, onde todos os seus esforços eram direcionados para sobreviver um dia de cada vez sem nunca conseguir realizar seus sonhos. Aos 36 anos, sentia as esperanças e o seu tempo se acabando, e que não iria conseguir nem ao menos se livrar de sua mãe e sobreviver sozinho. Esse desespero e desolação que aumentavam a cada dia, minavam sua energia e vontade de viver, fazendo-o pensar em se jogar pela janela freqüentemente. As únicas coisas que o impediam eram Pluto e Faustine. Agora metade do que o mantinha vivo havia sido retirado dele.
Assim que terminou de se arrumar, a foto do avô já havia sido servida com café, pão e uma vela acesa.
— Vá se sentar — disse Matilde da cozinha.
A Sombra decidiu se sentar na frente de Erik sobre a mesa. Matilde veio da cozinha carregando um prato com uma vela de aniversário enfiada numa batata cozida inteira e pôs na frente dele. O prato ficou escondido nas entranhas da Sombra. Acendeu a vela com o isqueiro que tirou do sutiã e começou a cantar num ritmo lento demais para a paciência dele, com palmas espaçadas e estrondosas como se quisesse chamar a atenção dos vizinhos.
— Parabéns pra você... Parabéns pra você... Nesta data querida... Muitas felicidades... Muitos anos de vida... É ra, tim, bum, Erik! Erik! Erik! — E começou uma sessão de palmas que quase fez o sangue dele ferver. — Faz um pedido em voz alta e assopra.
Não havia muito o que pedir naquele dia, Pluto não poderia ser trazido de volta, e a única outra coisa que ele desejava não podia ser pedida em voz alta na frente da mãe. Pensou por um momento e encontrou algo que seria bom se acontecesse e que não lhe renderia uma sessão de espancamento.
— Desejo ficar curado do estômago — sussurrou e assoprou a vela.
Matilde fez uma careta de desaprovação e foi resmungando até a cozinha pegar os talheres e pôr o restante da mesa.
— Você devia ter pedido pra gente ganhar na loteria! Ou pra você ser promovido, arranjar um emprego melhor... Qualquer coisa! — Sentou-se e preparou seu pão. — E digo mais, esse estômago aí é frescura. Antigamente não tinha nada disso. As pessoas eram fortes e comiam de tudo. Essa sua geração é tudo um bando de frouxo! Qualquer coisa já ficam melindrados! — Mordeu o pão e completou mastigando: — Eu criei você muito mal, foi muito mimado. Sempre fiz todas as suas vontades. Agora olha aí, um fresco aviadado.
Erik não se manifestou. Naquele dia, o mercado ia fechar mais cedo para balanço deixando-o livre para visitar Faustine que não via há meses, mas essa única gota de felicidade que o dia poderia lhe proporcionar foi ofuscada pela perda.
— O que a senhora fez com Pluto?
— Botei no lixo.
Ele a encarou com um misto de dor e indignação.
— Como assim no lixo?
— Oras, e a gente tem quintal pra enterrar? Queria que eu esquartejasse o cachorro e botasse nos vasos de planta? Tá na lixeira do prédio pra ser levado!
Erik se levantou num impulso tão brusco que quase derrubou a vela do avô.
— Ô, garoto! Você vai fazer o quê? Vai enterrar onde?
Ele pegou sua mochila no quarto e desceu às pressas. Antes que conseguisse chegar ao portão do prédio, o caminhão já havia recolhido e estava seguindo para o fim do quarteirão. O cheiro de podridão se espalhara pela rua. Erik correu sem pensar, não sabia o que faria se alcançasse o cadáver de Pluto. O caminhão parou para recolher outra lixeira e então ele viu. O corpo de Pluto estava sendo triturado dentro da caçamba junto com o lixo de todo mundo. As costelas e o crânio estourando e espirrando as vísceras para todo lado.
O soco que veio de dentro da sua alma foi tão forte que ele se curvou para frente e vomitou. Dezoito anos que terminaram irreconhecíveis num caminhão de lixo, sem que ele jamais pudesse botar flores em seu túmulo e saber que o que viera da natureza voltaria para ela. Seu melhor amigo apodreceria num lixão. Erik se sentiu ingrato, como se fosse sua culpa o destino de Pluto. Pensou que não deveria ter chamado a mãe, apenas enrolado o corpo de Pluto num lençol, colocado dentro da mochila e ido enterrar em algum lugar. Mesmo que chegasse atrasado ao trabalho, teria sido a escolha correta. Mas sua inação e covardia acabaram condenando o descanso do cachorro a um destino não merecido.
***
Aos 7 meses de gestação, Nádia esperou o marido sair para trabalhar e levar a filha para a escola para poder ficar sozinha em casa. Pegou um potinho pequeno de manteiga que ela usava para guardar restos de comida na geladeira e encheu com soníferos, analgésicos e algumas bolinhas pretas de veneno para rato. Pegou um copo com água e foi para o quarto.
Na mesinha de cabeceira do seu lado da cama havia um abajur, um terço católico, um bloco de notas e uma caneta. Depositou o copo e o pote em cima da mesinha, e anotou no bloco: "Estou cansada". De dois em dois, tomou todos os comprimidos e as bolinhas. Deitou-se na cama, fechou os olhos e não tardou a morrer.
Quem a encontrou foi a filha de 8 anos. Na verdade, primeiro a menina encontrou o irmão que havia escorregado de dentro do cadáver e estava pendurado para fora da cama pelo cordão umbilical. Era um corpinho quase desenvolvido que estava cinza, gosmento e fedendo a podridão. Matilde afastou as moscas que começavam a limpar as patas para fazer a refeição. Chamou pela mãe, tocou-a e percebeu que ela também estava cinza e com um cheiro estranho. Viu a anotação, arrancou a folha do bloco e guardou em sua mochila. Quando ia sair do apartamento para pedir ajuda a uma vizinha, seu pai abriu a porta.
— Como foi a aula hoje? — perguntou com um sorriso e deu um beijo na cabeça dela.
— O meu irmão é um menino.
— Como é?
— Mamãe tá doente — disse apontando para o quarto.
Alcebíades correu para o quarto e congelou com a cena. Quando os hormônios começaram a fazer efeito, ele pegou o filho pendurado e colocou deitado ao lado da mãe. Saiu do apartamento a passos largos e chamou um dos vizinhos. O homem era um policial aposentado e entrou com ele no apartamento. Examinou a cena e disse que parecia suicídio mesmo. Como naquela época ninguém tinha telefone, o homem avisou que ia arranjar um carro ou um médico e saiu.
Alcebíades deixou Matilde com a esposa do homem. Ela só voltou para casa no dia seguinte quando estava tudo limpo e arrumado.
A princípio guardava o bilhete da mãe num caderno. Muitos anos depois, passou a guardar numa sacola plástica e então num saquinho zip-lock. Seu pai nunca soube por que a esposa fizera aquilo, Matilde nunca contara sobre o recado. Ele não se casara de novo mesmo ainda sendo jovem. Nos primeiros anos, pagava empregadas e cozinheiras para cuidar de tudo, mas quando Matilde ficou adolescente, ele deixou a menina incumbida das tarefas domésticas.
Nunca havia brigado com ela e sempre foi muito carinhoso. Quase todo dia ela pedia para dormir com ele na cama, e o pai nunca negou. Trabalhava de dia, e à tarde ficava sentado de frente para a janela ouvindo rádio, às vezes lendo o jornal, mas sempre com um cachimbo ou charuto na boca. Quando Matilde terminava de preparar a janta, eles se sentavam à mesa, ceavam, ele agradecia e elogiava a comida, depois ia fazer sua higiene pessoal e se recolher.
Um dia, ainda jovem, ela conheceu um rapaz a caminho da escola que dizia que ia se casar com ela. Ele tinha 18 anos e já trabalhava. Matilde disse que só iriam casar se o pai dela aprovasse e o jovem concordou. Ela o levou para conhecer Alcebíades. Os dois conversaram e o pai gostou do jovem. Concordou com o namoro, mas sempre em casa e à vista de todos. Por exigência dela mesma, Raul levou-a para conhecer seus pais. Eles combinaram de almoçarem junto com Alcebíades algum final de semana. Os encontros aconteciam uma vez ao mês e tudo parecia seguir como ditava o figurino: Raul ficava de uma a duas horas com Matilde na sala assistindo à novela ou ouvindo rádio e conversando sobre assuntos banais.
Depois que Alcebíades relaxou com a presença do genro prometido, passou a concordar em deixar Matilde ir para a casa dos futuros sogros e ficar sob a vigilância deles. Daí em diante, ela passou a testemunhar discussões, desentendimentos e até algumas agressões entre os familiares. A sogra se desculpava com ela e empurrava marido e filho para outro cômodo. Conforme o tempo foi passando, às vezes apenas o sogro estava em casa para vigiá-los ou apenas a sogra. Por fim, os dois ficavam sozinhos.
No início, Raul a beijava timidamente. Depois, começou a acariciá-la de maneiras proibidas. Ela o empurrava e dizia que não era dessas. Raul pedia desculpas e dizia que estava ansioso para finalmente se casarem. Ela se sentia lisonjeada e passava a deixar algumas carícias, mas sem exageros.
Um dia, Raul disse que estava chateado com ela pois a havia visto conversando com um homem na saída do colégio. Matilde explicou que era um professor que havia lhe pedido para ajudar uma outra aluna com a matéria. Raul insistiu e disse que ela estava pensando em traí-lo. Matilde negou, afirmou que jamais faria algo do tipo, que o amava e iria se casar com ele. Então Raul pediu para que ela provasse o quanto o amava e abaixou as calças. Ela congelou sem saber o que fazer. Ele se deitou sobre ela e foi abrindo caminho pelas roupas e pelas pernas até consumar o ato. Disse a ela que finalmente eles pertenciam um ao outro e que ninguém jamais iria separá-los.
A princípio, ela se sentiu violada, mas conforme o tempo foi passando e Raul continuava visitando sua casa e conversando com seu pai amigavelmente, ela relaxou e passou a concordar com o que acontecia na casa dos sogros quando ficavam sozinhos. Depois de dois meses que sua menstruação não vinha, ela ficou preocupada, mas tinha medo de conversar com alguém, então guardou a informação para si. No terceiro mês, percebendo um aumento em sua barriga, resolveu contar para Raul. Ele sorriu e a tranqüilizou, disse que avisaria aos pais e que o casamento aconteceria antes que ela não coubesse mais no vestido, mas estranhamente pediu uma semana antes que ela contasse para Alcebíades. Matilde concordou e aguardou.
Quando contou para o pai, este ficou em silêncio por um momento fumando seu cachimbo, e então disse:
— Chame ele aqui. Quero conversar com os pais dele.
Matilde concordou e foi até a casa do namorado, mas encontrou tudo fechado e o quintal vazio. Olhou pelas frestas da janela, os móveis haviam sumido, a casa inteira estava vazia.
Contou ao pai. Ele e o homem que era policial aposentado vasculharam o local, fizeram perguntas, mas ninguém sabia o que havia acontecido com a família.
Matilde esperava a notícia de que havia ficado viúva antes de se casar, mas seu pai lhe falou a verdade de uma vez:
— Ele te comeu e fugiu.
Ela desabou em prantos no colo do pai que a reconfortou e disse que, ao contrário da mãe e do noivo, ele jamais a abandonaria. Que os dois cuidariam dessa criança e que ela jamais ficaria desamparada.
Alcebíades morreu 8 anos depois, numa cama de hospital, gritando de dor com câncer nos ossos.
Matilde pulou de emprego em emprego por anos, até que Erik, aos 18 anos, foi trabalhar num supermercado e ela resolveu se dedicar a bordar e tricotar para que os dois tivessem uma renda extra.
***
Matilde terminou o martírio intestinal no banheiro, lavou-se e trancou-se no quarto. Pegou a lata de outrora, pôs sobre a cama com a toalha por baixo, espalhou os objetos e encarou o bilhete da mãe que ela guardava dentro de um saquinho zip-lock.
— Covarde — e cuspiu. — Você nunca foi mãe de verdade. Uma mãe nunca abandona os filhos! — Outro cuspe. — Uma mãe de verdade nunca fica cansada dos filhos, nunca desiste. Ela sempre fica lá pro que der e vier! — Terceiro cuspe. — EU sou mãe de verdade, EU continuo cuidando do meu filho mesmo depois de adulto. Eu nunca vou abandoná-lo! Ele sempre me terá por perto até o dia em que Deus me levar! — Quarto cuspe. — Como você era patética. Sempre de muxoxo e resmungando pelos cantos. Tudo te dava trabalho, tudo doía, tudo era demais. Parecia feita de papel, qualquer coisa e já rasgava, desmanchava. Como você era inútil. Tão inútil que qualquer outra podia fazer o que você fazia, e fizeram! Papai pagou, depois eu assumi. Dava trabalho? Claro que sim, mas eu nunca reclamei. Dava graças a Deus de ter papai pra nos prover. Você sempre foi ingrata. — Quinto cuspe. — Abandonou seus filhos... Matou um filho! Tudo porque estava cansada! Eu desejo que você nunca tenha paz e passe a eternidade queimando no Inferno pra pagar o que fez!
E cuspiu uma última vez. Limpou e guardou tudo. Jogou a toalha molhada no cesto de roupa suja e seguiu com sua rotina como se nada tivesse acontecido.
***
Ao meio-dia, o mercado fechou para balanço e Erik foi dispensado. Como havia planejado, seguiu para o trabalho de Faustine. Assim que chegou ao posto de gasolina, a amiga estava saindo para o almoço. Quando o avistou, ela abriu um enorme sorriso e esperou parada que ele se aproximasse dela.
— Feliz mais um ano de vida, balão de hélio.
Erik sorriu tímido.
— Obrigado — sussurrou.
Ela deu um passo até ele e o abraçou com delicadeza.
— Saiu cedo — comentou ela.
— Dei sorte.
— Quero te mostrar uma coisa.
Segurou-o pela mão e levou-o para a parte de trás do posto. Num depósito, em meio a várias estantes e caixotes fechados, estava uma caixa de papelão num canto. Uma gata tigrada ronronava enquanto amamentava um filhote minúsculo e todo preto.
— Essa é a Samara. Ela adora ficar deitada naquele poço ali atrás — disse Faustine acariciando a cabeça da mamãe felina. — E essa preciosidade aqui é Perséfone. Conseguimos arranjar gente pra adotar os outros filhotes que eram tigradinhos assim igual a mãe, mas é muito difícil arranjar alguém que queira adotar gatos pretos, e depois ainda descobrimos que ela é paralítica das duas patas de trás. Duplamente rejeitada. A gente tá cuidando delas. Provavelmente vão ficar aqui pelo posto mesmo e virarem mascotes. Se eu pudesse, adotaria, mas não posso. O Wesley reclamou só de eu mencionar...
Erik sorriu tristemente. A cena da gata se misturou com a lembrança de quando resgatou Pluto.
— O que houve?
— Pluto morreu.
Faustine engoliu um gemido e tapou a boca com a mão.
— Quando? Como?
— Hoje de manhã. Simplesmente morreu. Ele fez 18 anos ontem.
— Ah... Tadinho. Mas viveu muito e teve uma vida boa graças a você.
— Eu que tive alguma vida graças a ele.
Antes que Faustine pudesse abraçá-lo, uma mulher com uma barriga enorme aproximou-se.
— Erik, quanto tempo. Tudo bom?
— Oi, Lúcia. Tudo bem, e você?
— Cansada. Isso pesa muito — disse apontando para a barriga.
— Tá de quantos meses?
— Oito. Já, já eu vou ter que pedir a licença.
— Parabéns antecipado.
Lúcia riu.
— Obrigada, meu filho. Ah, você já conheceu a Samara e a Perséfone?
— É, Faustine me mostrou. Daqui a pouco vocês conseguem alguém pra adotar a gatinha.
— Olha, se não fosse o bebê, eu levaria as duas lá pra casa, mas eu não vou poder mesmo. Vou ver com a minha cunhada se ela aceita levar as duas pro sítio dela.
— Vai ser melhor pra elas — comentou Erik.
— É, tem bastante espaço, bastante natureza. Mas enfim, vai lá almoçar, menina.
— Tô indo — disse Faustine. — Só vim mostrar as duas pro Erik.
— E eu vim aqui pegar uma bobina nova.
— Deixa que eu pego — disse Faustine revirando uma das caixas.
Entregou a bobina para Lúcia que agradeceu, despediu-se de Erik e afastou-se caminhando como um pingüim.
— Tô indo almoçar, vem comigo? — disse Faustine.
Ele assentiu. Os dois pararam numa lanchonete ao lado do posto. Ela pediu hambúrguer com batata frita e um refrigerante grande. Após averiguar que não havia nada ali que pudesse comer, ele comprou apenas uma água mineral. Seguiram para uma praça perto dali que estava vazia e sentaram em um dos bancos de concreto.
O aroma das batatas era tão bom que Erik acabou roubando duas de Faustine. Ela sorriu enquanto mastigava um pedaço do hambúrguer e o ofereceu, mas ele recusou.
Depois de engolir com a ajuda do refrigerante, ela perguntou:
— Melhorou do estômago?
Erik negou. Quando ela foi dar a segunda mordida no hambúrguer, a aba do casaco caiu de seu ombro revelando um hematoma roxo escuro.
— Como estão as coisas com o Wesley? — perguntou Erik.
Vendo que ele olhava para seu ombro, Faustine mexeu o braço para ajeitar o casaco.
— Na mesma — respondeu com o canto da boca enquanto mastigava.
O estômago de Erik começou a revirar e doer.
— Já volto — disse ele e correu para o banheiro da lanchonete.
Vomitou o que antes eram duas batatas fritas, lavou o rosto, bochechou e voltou para a praça. Faustine já havia terminado de comer e jogava os papéis no lixo.
— Já foi ao médico?
Ele negou.
— Não adianta.
— Sabe o que é isso? Gastrite nervosa. E você sabe por quê.
Erik se sentou no banco e encarou o vazio. Ela chegou mais perto dele e disse:
— Eu vou fugir do Wesley.
Ele a encarou sobressaltado, mas não surpreso. Ela continuou:
— Tenho medo... Do que mais pode acontecer.
Abriu o casaco e levantou a blusa até a altura das costelas mostrando todos os hematomas e cortes. Um destes era recente e estava costurado com uma linha preta grossa. Erik não contou, mas havia mais de 10 pontos.
Ele a encarou nos olhos e o sentimento de impotência que carregava como sua cruz lhe pesou ainda mais. Curvou-se para frente, apoiou os cotovelos nos joelhos e voltou a encarar o vazio. Faustine ajeitou a blusa, fechou o casaco e se encostou no banco.
— Avisei algumas pessoas no trabalho que eu ia pedir as contas e já tá tudo resolvido. Semana que vem eu vou embora.
— Ele não vai deixar você sair.
— É por isso que eu não contei pra ele. No dia, eu vou sair como se fosse pro trabalho e não volto mais.
— Se eu não tivesse vindo aqui hoje, eu nunca mais ia ter notícia sua?
Faustine negou.
— Lúcia sabe, eu pedi pra te avisar se a gente não se visse antes. Até parece que eu ia abandonar você assim.
Ela colocou o braço ao redor do pescoço dele. Erik aconchegou-se nela, mas não apoiou a cabeça no seu ombro para não machucá-la. Ela o beijou demoradamente na bochecha e depois nos lábios.
— Foge comigo.
Ele suspirou como se estivesse passando mal.
— Não posso.
— Por que não? O Pluto já se foi, você tem o seu dinheiro, pode simplesmente sair pra trabalhar e não voltar mais.
Erik sentiu uma pontada em algum lugar de seu corpo. Não era culpa, não era dor na consciência, era como um cordão invisível apertando sua alma, e que ele não sabia como cortar.
— Ela vai atrás de mim até o inferno e nunca vai deixar a gente em paz.
— Só se ela souber pra aonde fomos. E ela não vai saber.
— Ela vai descobrir.
— E daí? Se ela fizer escândalo na porta da nossa casa, é só a gente ignorar.
— Eu não quero que ela vá atrás da gente, Faustine.
— Deixa um recado então anotado em algum lugar. "Não venha me procurar". Qualquer coisa assim.
— Ela não vai desistir assim. Você não conhece ela.
Faustine sorriu.
— Lembra na escola, quando a gente se conheceu, que eu te chamei pra sair, e você disse que não podia porque sua mãe não deixava, e a gente conversou sobre os nossos pais e eu disse que queria ter a sua mãe porque a minha cagava e andava pra mim?
Erik assentiu. Ela continuou:
— Pois então. Retiro o que eu disse. A sua mãe e a minha são duas desgraçadas.
Erik baixou a cabeça. Sentia-se culpado por nunca ter podido morar junto com Faustine. Assim que ela fez 18 anos, sua mãe disse que ela precisava trabalhar ou então ir para outro lugar e parar de dar trabalho. Faustine fez os dois. Morou por um tempo com algumas amigas, mas depois seguiram caminhos separados, então Faustine arranjou um namorado e foi morar com ele e os amigos dele. Depois ficou pulando de namorado em namorado até encontrar Wesley que no início lhe dizia belas palavras, até recitava poemas, mandava flores e chocolate, ursinhos de pelúcia e algumas bijuterias. Disse que ela era tudo o que ele havia pedido a Deus e chamou-a para morar com ele com a promessa de que iriam se casar na igreja, terem filhos, e que ela nunca mais precisaria trabalhar na vida porque ele tinha um plano para ficar rico e sustentaria a casa.
Dentro de Faustine, ela sabia que aquilo era uma armadilha, que ele fazia e dizia tudo o que os filmes de romance ensinavam que um homem deveria fazer, que nada daquilo era genuíno, que ele não gostava dela, mas a alternativa de viver na rua ou num albergue era muito mais fria e assustadora. Além disso, desde aquele dia no parque de diversões que o sonho dela era se casar com Erik e ir morar com ele. De preferência longe da mãe dele. Mas quase 20 anos haviam se passado e o amigo ainda não havia resolvido sua vida e ela não podia mais esperar, então aceitou ir viver com Wesley. Nos primeiros meses, enquanto ela ainda estava desconfortável, o namorado foi um amor e fez o que podia para que ela se sentisse bem. Era carinhoso, dava presentes, era prestativo e estava sempre de bom humor. No momento em que Faustine decidiu aceitar que talvez pudesse ser feliz mesmo que não o amasse, as brigas começaram. Eram pequenos desentendimentos no início sobre bobagens domésticas, até que escalou para discussões e ofensas por ciúmes dele. Wesley jurava que ela estava o traindo, que ela não o amava, que tinha amantes e que ele ia descobrir. A primeira agressão aconteceu quando Faustine descobriu que era Wesley quem estava traindo e com qualquer mulher que lhe cruzasse o caminho. O soco a acertou no estômago assim que ela jogou na cara que a paranóia dele era projeção. Em seguida, ele a acudiu, limpou o vômito dela do chão e pediu milhares de desculpas, chegou a deitar no colo dela e chorar pedindo perdão e dizendo que não sabia o que tinha acontecido. Disse que não podia viver sem ela e pediu para continuarem juntos. Não tendo para aonde ir, Faustine o perdoou.
Nos 3 meses seguinte, Wesley voltou a ser o príncipe encantado dos contos de fada. Até que outra crise de ciúmes escalonou para outra agressão física. O humor dele voltou a variar com muita freqüência até que Faustine parou de se espantar. Ela simplesmente aceitara que aquele era seu destino e que talvez nunca teria a chance de ser feliz ao lado de Erik.
Então as perversões sexuais começaram. Faustine recusava, reclamava, brigava, mas no fim se via obrigada a ceder por não ter alternativas. No fundo de sua alma ainda existia uma pequena esperança de que Erik iria conseguir enfrentar sua mãe e um dia aparecer de repente chamando-a para fugir com ele, mas esse dia nunca chegou e ela percebeu que talvez ela mesma devesse fugir dali, mesmo que tivesse que morar num albergue.
Conversando com algumas conhecidas, ficou sabendo que do outro lado do estado, perto do litoral, havia uma cidade pequena que tinha quitinetes baratinhos e oportunidades de emprego por causa de uma possível exploração de petróleo. Não tinha como viajar para investigar melhor, então gastou grande parte do seu salário fazendo telefonemas do posto para locatários e possíveis contratantes. Em pouco tempo conseguiu um local barato para morar e um emprego. Já estava tudo arranjado.
— Tenho uma coisa pra você — disse ela. — Mandei fazer tem bastante tempo.
Entregou para ele um saquinho de papel que estava fechado com uma fita adesiva transparente. Erik abriu e virou o conteúdo na palma de sua mão. Era um colar relicário com um pingente de coração. Dentro, em uma metade do coração, havia uma pequena fotografia de Faustine segurando uma boneca de pano velha; e na outra metade, um desenho bem infantil de um boneco palito com o cabelo cacheado e o uniforme do supermercado.
— Você nunca tira foto, eu tive que improvisar.
Erik sorriu triste e inclinou-se para abraçá-la, mas Faustine tocou-lhe as bochechas e o beijou novamente.
— Vem comigo. Por favor.
— Não posso — sussurrou.
— Você me prometeu. Não posso mais esperar, Erik. Já esperei 20 anos. Cumpra a sua promessa, por favor. Por nós dois.
Há 20 anos, quando tinham 15 anos, numa das raras ocasiões em que Matilde o deixara sair, Erik pôde ir ao parque acompanhando um casal de amigos da mãe que levava os filhos. Ele já havia avisado Faustine que talvez a mãe o deixasse ir e que eles poderiam se encontrar lá. Não demorou até que ela os achasse. O casal percebeu que os dois eram amigos, deram alguns trocados para ele comprar algodão doce ou tentar jogar em alguma das barracas, e depois se mantiveram afastados com os filhos.
Erik caminhou com Faustine até uma máquina que dava um brinquedo para quem conseguisse pescá-lo. Ele gastou todas as moedas na máquina até que na última vez conseguiu pescar uma boneca de pano que entregou para a amiga. Faustine o abraçou.
— Você quer casar comigo? — pediu ele.
— Quero! — respondeu pulando.
— Quando a gente for adulto, a gente vai morar junto, bem longe daqui.
— Promete?
— Prometo. E a gente vai ter um cachorro — disse ele com a última empolgação que ainda lhe restava da juventude.
— E um gato!
— E eles nunca vão brigar. Serão amigos.
— Sim! — disse a menina com um sorriso que Erik nunca mais viu depois daquele dia.
Ela apertou a boneca contra si e disse:
— Eu nunca vou perder ela. Vai ser minha pra sempre.
Depois desse encontro, a vida aconteceu carregando-os para existências quase completamente separadas um do outro. A energia e o prazer de viver haviam desaparecido, só sobrara uma esperança etérea como o ectoplasma de um sonho nebuloso de um dia poderem ser felizes juntos. Mas aos 35 anos, o tempo não estava mais correndo a favor deles.
— Me perdoe — sussurrou Erik.
Faustine o encarou séria como se quisesse desvendá-lo.
— Você ainda gosta de mim? Tudo bem se não gostar. Eu vou entender.
A pergunta o acertou como uma colonoscopia revirando suas tripas.
— A verdade?
— Lógico.
— Eu só não me joguei da janela até agora por causa de você e de Pluto.
Os olhos dele encheram de água, mas o calor de meio-dia secou a umidade num instante. Faustine o beijou uma última vez e sussurrou no ouvido dele:
— Resolva o que tiver pra resolver com sua mãe e depois venha me procurar. Eu não posso ficar aqui.
— Eu sei. Eu vou. Eu prometo.
Ela se afastou dele e o encarou nos olhos.
— Duas promessas.
— Que eu vou cumprir.
Faustine apontou para o colar.
— Vista.
Erik fechou os olhos e respirou fundo por causa de uma pontada no estômago.
— Não posso — sussurrou.
Ela concordou já sem muita paciência e levantou para voltar ao trabalho.
— Você ainda tem a boneca? — perguntou ele guardando o colar no bolso e levantando-se.
— É claro que eu tenho. Eu prometi. — E seguiu para o posto.
— Faustine.
Ela parou e olhou para ele.
— Eu ainda não sei como, mas eu vou sair daqui também. E vou te encontrar lá.
Ela assentiu.
— Vou te esperar.
Ele tentou sorrir, mas se sentia culpado por decepcioná-la, por perder Pluto e por não saber como se livrar das amarras da mãe.
Acompanhou-a de volta ao posto e abraçaram-se uma última vez. Atrás de Faustine, a Sombra o encarava com olhos líquidos e sangüíneos como os dois aquários de uma carnificina. Ela voltou ao trabalho e ele andou pela cidade até dar a hora em que normalmente voltaria para casa.
Dali em diante, todos os dias, Erik ia para o trabalho com o relicário no bolso da calça e tirava quando chegava em casa. Escondia dentro de uma meia na gaveta antes de ir tomar banho. Antes de dormir, pegava o colar para ver a foto de Faustine sob a luz do poste e sorrir com o seu desenho.
Um dia, acordou enquanto caía da cama. A Sombra havia sentado sobre seu peito e parecia pesar uma tonelada. Erik permaneceu preso ao chão sem conseguir respirar. A princípio, achou que estivesse infartando, pois seu peito doía e o coração batia rápido e descompassado como se estivesse tropeçando enquanto tentava fugir de seu peito. Depois pensou que talvez pudesse ser o estresse daquela vida que finalmente estava cobrando seu preço, mas as racionalidades sobre o evento repentino desapareceram com a maré de um sentimento profundo de desespero. Era como se ele estivesse em alto mar, à deriva, no escuro, sob uma tempestade. A Sombra deitou-se sobre ele enquanto Erik chorava com um medo que era sobre-humano. Dos globos oculares saíram dois tentáculos que lentamente se aproximaram dos ouvidos dele. A boca se abriu e dois bracinhos se projetaram para fora segurando um par de olhos cegos e mortos. Erik se debateu para tentar se soltar e acabou batendo os pés no chão com força e fazendo um barulho alto que sua mãe poderia ouvir.
No pânico para evitar chamar a atenção de Matilde, Erik conseguiu buscar forças para se soltar de vez da Sombra. Rolou para o lado e se levantou num pulo. Apoiou-se na parede para recuperar o fôlego e acalmar o coração.
Despiu-se e foi tomar banho, mas não conseguiu se lavar direito pois a Sombra tentava abraçá-lo o tempo todo.
Arrumou-se, comeu o desjejum insosso de sempre na presença da mãe mal-humorada e da odiosa fotografia do avô, escovou os dentes e foi trabalhar.
Era mais um dia maçante como todos os outros, exceto pela Sombra que fazia de tudo para chamar sua atenção. Começou com tentáculos escuros que saíam de baixo dos freezeres da sua seção; gosmas escuras que gotejavam de cima das caixas do depósito; os olhos vítreos que sangravam a cada corte das carnes no açougue; e os golpes de mata-leão que ela acertava em todos os fregueses que se assemelhavam ao Wesley, namorado de Faustine. Por fim, ela se sentou em seus ombros e curvou-se para frente encarando-o de cabeça para baixo e fazendo jorrar dos globos oculares vários corações necrosados que se misturavam com a carne que ele ensacava para os clientes.
Erik permaneceu firme na sua decisão de ignorá-la. Ele nunca se questionou se acreditava ou não em seres sobrenaturais, também nunca foi devoto de nenhuma divindade, nunca se apegou a religião nenhuma e só ia à igreja quando Matilde o forçava. No entanto, ele abria uma exceção para a Sombra, pois achava que ela fosse um demônio que o escolhera para assombrar.
De repente, a Sombra desapareceu. Erik sentiu um calafrio como se a ausência fosse mais assustadora do que a presença. Ao longe, na entrada do mercado, Lúcia conversava com o gerente e os dois lançavam olhares tensos para ele. Seguiram até o açougue. O gerente o chamou num canto e pediu que ele lavasse as mãos. Quando voltou, Lúcia segurava o choro e as mãos dela tremiam tocando a barriga.
— Tudo bem, Lúcia?
A mulher tomou um fôlego tão demorado quanto um sobrevivente de um afogamento.
— Faustine morreu. Acidente de moto. O velório vai ser amanhã, às 18h00.
Os ouvidos de Erik entupiram e ele não ouviu mais nada além de um zumbido agudo. Em cima do freezer dos frangos, a Sombra ia derretendo a cada lágrima que deixava escapar, inundando as carnes com sua escuridão.
O gerente gesticulava, mas Erik não ouvia, apenas o encarava como se já não fizesse parte do mundo daquelas pessoas. De repente, o homem colocou a mão no braço dele e Erik voltou a si com um sobressalto. O gerente puxou a mão num reflexo e repetiu o que disse:
— Olha, se quiser, pode tirar o restante do dia de folga.
Faltava apenas uma hora para terminar o expediente. Erik balançou a cabeça negativamente. Agradeceu a Lúcia pela disposição em avisá-lo e voltou para o açougue.
Enquanto embalava um pedaço de carne, seu braço caiu no chão. Erik encarou o membro como se fosse algo alienígena que nunca havia lhe pertencido. O outro braço caiu junto com o saco de carne. Em seguida, seu nariz e seus olhos pularam do seu rosto e aterrissaram em cima da bancada. Um dos olhos quicou e caiu dentro do moedor e desapareceu. Sua cabeça foi tombando para o lado aos poucos até despencar do pescoço e bater no chão com o barulho de um coco seco. O olho sobre a bancada assistiu às pernas que também caíram derrubando o tronco. Seus pedaços desconexos não reconheciam mais o corpo que um dia habitaram juntos.
— Erik — chamou um dos outros açougueiros enquanto pegava do chão o saco que ele havia deixado cair. — Vai pra casa, cara.
— Eu tô bem — respondeu num sussurro enquanto pegava a faca para preparar outro pedido.
O açougueiro segurou a mão dele com firmeza e retirou a faca.
— Faz um favor pra todo mundo aqui e vai pra casa, mano.
Por um momento, ele permaneceu parado encarando a parede sem saber como se mover para ir para casa.
— Vai pra casa, Erik — disse o homem uma última vez e o empurrou gentilmente para fora do açougue.
Erik tropeçou algumas vezes até chegar à pia. Os braços ficaram parados ao lado de seu corpo sem saber como se articularem para lavar as mãos.
Uma funcionária se aproximou e perguntou se havia acabado o sabão. Erik não se mexeu. Ela conferiu e viu que tinha sabão. Perguntou se estava tudo bem com ele, mas diante do silêncio, saiu com medo de que ele surtasse ou gritasse com ela.
Uma das mãos agarrou o sabão e ficou parada como se o restante da programação não tivesse sido escrita. Aos poucos, a outra mão deu alguns espasmos e moveu-se em direção à torneira. Sem força e sem jeito para segurá-la, precisou de algumas tentativas para abri-la. Erik encarou a água caindo fraca.
Um outro funcionário, já em vias de se aposentar, se aproximou quando percebeu o que estava acontecendo.
— Deixa eu te ajudar com isso, filho.
O homem lavou as mãos dele, tirou o avental e ajudou-o a vestir a mochila.
— Dia difícil, né? Essa vida é braba mesmo. Mas a gente não pode desistir. Você é jovem, tem a vida toda pela frente. O que dói hoje vai parar de doer amanhã. Dê tempo ao tempo e a você mesmo. Se cuida, rapaz. — Deu dois tapinhas no ombro dele e saiu.
Cambaleante, Erik trilhou o caminho de casa. A Sombra deslizava ao lado dele como uma gosma escorregadia. Ao passar numa calçada irregular, ele tropeçou, caiu e ficou deitado no chão por um tempo.
Um senhor idoso que varria a varanda de sua casa saiu para acudi-lo.
— Meu deus! Eu já reclamei com o prefeito várias vezes! Se machucou, rapaz? Eles não têm vergonha, esses políticos. As pessoas correndo risco aí e ninguém faz nada.
Erik se levantou com a ajuda do homem, agradeceu num sussurro, e retomou a caminhada.
Assim que chegou na frente do prédio, buscou forças para agir como se ainda tivesse motivo para viver. A última coisa que gostaria de receber naquele momento era uma surra. Entrou em casa e seguiu com sua rotina noturna normalmente, segurando-se ao máximo para não deixar nenhuma parte sua escapar e causar confusão.
Antes de dormir, encarou a foto dela com a boneca de pano. Faustine parecia menor que a boneca, que depois de um momento passou a ocupar a foto toda. Perguntou-se o que Wesley teria feito com os pertences dela. Queria pedi-lo para ficar com a boneca. Precisaria esconder da mãe ou carregar consigo na mochila o tempo todo, mas de qualquer forma, ter a boneca lhe daria algum conforto. Adormeceu segurando o colar.
No dia seguinte, acordou na mesma hora de sempre e travou na cama. Todos os músculos de seu corpo doíam. A princípio achou que era gripe, mas conforme persistia nos movimentos, conseguiu levantar-se apesar das dores. Sentia-se pesado e fraco. Fez o desjejum na presença da mãe e da fotografia do avô. Deu um sobressalto quando viu a Sombra atacar a foto com uma voadora.
— Que que houve, garoto?
— Cãibra — mentiu.
— Claro, não senta direito. Fica aí todo curvado. Endireita essa postura!
Erik obedeceu sem reclamar, ainda não estava de bom humor para levar uma surra. Escovou os dentes e foi trabalhar.
Assim que deu 17h, ele se lavou, tirou o avental, pegou sua mochila e foi para a funerária. Lá encontrou Lúcia, duas outras colegas de trabalho e uma quarta mulher que não conhecia. Lúcia o abraçou de lado com um braço só por causa da barriga.
— Que bom que você veio. Essa é a Solange, assistente social. Foi ela que nos ajudou com tudo e arranjou a cremação com a prefeitura.
Erik se retesou.
— Vão cremar Faustine?
— O cemitério tá cheio, e mesmo assim a gente não ia ter dinheiro pra pagar um jazigo. Tentei procurar pela família, mas não encontrei ninguém. Aquele Wesley é um horror de se lidar. Foi isso que a gente conseguiu fazer por ela.
— Cremar é um ato de respeito também — disse a assistente. — Vocês podem jogar as cinzas num lugar que a pessoa gostava ou podem guardar em casa. Muitas vezes as famílias enterram, depois não conseguem pagar, e os ossos do ente querido são removidos e jogados numa vala comum como indigentes. Com as cinzas, vocês podem dar um destino mais digno.
Conscientemente Erik concordava com a mulher, mas suas vísceras se contorceram só de pensar em ver Faustine virando pó.
Assim que uma família saiu do crematório com uma urna, foi a vez deles. Uma das colegas fez uma oração sobre o caixão de Faustine enquanto todos davam as mãos. Erik sabia que podia chorar, mas não conseguia. Depois de todos aqueles anos reprimindo o que sentia, a vontade de chorar só lhe vinha naturalmente sob a água do banho.
— Não vamos esperar o namorado dela? — perguntou a assistente.
— Mandei avisar — disse Lúcia. — Mas duvido que venha.
— Posso começar então? — perguntou o agente.
Lúcia e as colegas assentiram. O agente funerário empurrou o caixão para dentro da fornalha e o processo começou. Os cinco aguardaram na ante-sala por algumas horas. No final, o agente entregou uma urna para a assistente social.
— Onde vocês vão depositar as cinzas? Existia algum lugar que ela gostava?
Lúcia e as duas colegas do trabalho olharam para Erik.
— Praia. Ela gostava da praia.
Solange estendeu a urna para Erik pegar e ele se assustou. Lúcia interviu e pegou a urna.
— Vou levar comigo. Quando eu e o Rogério formos pra praia, a gente solta lá.
Eles se despediram e Erik aguardou do lado de fora até o marido de Lúcia ir buscar as mulheres.
Era noite e ele sabia que ia levar uma surra por chegar tarde em casa. Caminhou devagar sem vontade de voltar para a sua vida. Tudo o que amava não fazia mais parte dela. Talvez fosse melhor aguardar um caminhão e se jogar na frente dele.
Pegou o colar no bolso e olhou a foto de Faustine. A boneca parecia estar com as cores mais vivas, quase pulsantes, como se estivesse respirando. Erik então decidiu passar na casa de Wesley para pegar a boneca.
Chamou no portão. O local era minúsculo, espremido entre um prédio comercial de dois andares e uma farmácia. O muro era alto e não dava para ver o lado de dentro. Um carro velho, com a pintura desgastada estava estacionado na calçada. Wesley atendeu descalço, vestindo apenas uma bermuda. Era um homem grande e muito forte, com braços imensos como se ficasse o dia todo na academia. Erik nunca soube com o que ele trabalhava.
— Opa, entra aí.
Erik teve que se espremer para passar por ele.
— Segue em frente.
O corredor era longo e largo o suficiente para uma pessoa por vez. As paredes eram de concreto chapiscado e altas. Erik andou bastante até chegar num quadrado com uma tampa redonda de concreto no chão e um cubículo que era o quitinete. Em cima da tampa havia um vaso com uma planta morta.
— Ah, isso aí era Faustine que regava, mas... Né... É isso aí.
— Você não tem água?
— Só a que vem da rua. Esse poço aí é seco.
— Pra regar a planta.
— Ih, cara. Eu não. Trabalho da porra. E pra que, né. Isso aí é coisa dela. Mulher tem dessas coisas de querer cuidar, né.
— Você não foi ao velório.
— Pô, cara... — e fez uma cara de choro junto com a voz embargada, mas Erik notou que não saiu uma única lágrima. — Eu não ia agüentar ver o corpo dela num caixão... — Fungou o nariz, mas o som era de vias nasais limpas e secas. — Foi tudo tão de repente, ninguém esperava por isso... Eu não sei o que fazer...
— E o que estava fazendo antes de eu chegar?
— Entra aí, pô. Eu tava relaxando, sabe? Essa história acabou comigo. Tô sem força pra nada.
Erik entrou no quitinete. Havia 3 cômodos: sala e quarto juntos, cozinha e banheiro separados. Na sala havia um guarda-roupas numa parede, um sofá-cama na outra e um móvel com uma tevê grande na parede em frente. Um filme adulto estava pausado de forma que só dava para ver um borrão do que os atores estavam fazendo.
— Senta aí.
Erik se sentou no sofá-cama. Wesley se sentou no braço do sofá ao lado dele.
— Eu precisava relaxar, entende? — disse indicando o filme.
Erik não falou nada.
— Quer uma cerveja? Pra gente conseguir engolir essa história.
— Não posso beber.
— Que isso, cara. Claro que pode. Vai fazer desfeita justo hoje?
Erik não recusou, simplesmente deu de ombros. Wesley se levantou e foi para a cozinha. Ele nunca havia entrado ali. Não sabia o que Faustine precisou agüentar para sobreviver. O local todo era muito escuro e abafado, provavelmente nem o som escapava dali. O que explicava por que ela estava sempre machucada e nenhum dos vizinhos nunca chamara a polícia.
O guarda-roupas era novo, mas de um compensado barato que iria mofar e estufar em breve necessitando ser trocado. O ventilador de teto rebolava perigosamente. O móvel da tevê parecia ter a mesma idade e material do guarda-roupas. O aparelho já devia ter alguns anos. O sofá-cama estava bem desgastado com vários rasgos no estofado e lascas de madeira aparecendo.
Jogadas debaixo de pacotes vazios de salgadinhos e restos de comida do seu lado no sofá, havia umas fotografias polaroid estranhas. Erik não queria bisbilhotar, mas as imagens eram assustadoramente familiares. As fotos mostravam Faustine amarrada ao sofá-cama e dois homens ao redor rindo e segurando bebidas. Em algumas fotos Wesley estava batendo nela com um cabo de vassoura. Em outras, estava a violentando brutalmente. Nas últimas, ele a estrangulava. E na última foto estavam os dois homens e Wesley rindo e fazendo poses obscenas sobre o cadáver dela.
De pé na porta da cozinha, Wesley o encarava segurando uma lata de cerveja numa mão e o engradado com 5 na outra. Erik apertou as fotos e sem querer as amassou. Lançou um olhar para a porta calculando se ele conseguiria correr até o portão, abrir e fugir sem que Wesley o alcançasse. Pretendia ir até a polícia e exigir que a justiça fosse feita.
Assim que atravessou a sala, uma lata de cerveja estourou com o impacto na sua cabeça. Erik cambaleou e caiu de joelhos. Tentou se arrastar para fora, mas o engradado o acertou em cheio na cabeça fazendo-o desmaiar.
***
O mundo bamboleava ao redor de Erik. Os sons iam e vinham numa maré circular. Ao fundo, o cheiro de pano e papel queimado o chamavam de volta à realidade.
Com muito custo, conseguiu se sentar e abrir os olhos. Ainda estava na entrada da sala da casa de Wesley. Este acabava de sair do poço por uma corda amarrada num gancho na parede e esvaziou um balde num monte de terra da altura da sua cintura ao lado do poço.
Erik sentia uma pressão no fundo do crânio e tocou a cabeça. O líquido vermelho e pegajoso grudou em sua mão. Ele tentou se levantar, mas caiu. Começou então a arrastar-se em direção ao corredor que dava para a rua. Wesley chutou um amontoado de pano queimado para dentro do poço. Quando viu que Erik tentava escapar como uma lesma, riu.
— Você que ama tanto ela, já vai poder dizer isso cara a cara.
Erik continuou se arrastando.
— Onde pensa que vai? Até a polícia? — Deu uma risada. — Com que prova? Eu queimei as fotos, os negativos e todas as porcarias dela que ainda tavam aqui. Inclusive aquela boneca fedida que dormia com ela. Não sobrou nada.
Wesley pegou a pá, foi até Erik e chutou-o na barriga. Erik vomitou uma gosma estomacal e sentiu deslizar para fora o conteúdo do seu intestino e bexiga.
— E ainda se cagou o filho da puta.
Wesley chutou as costelas. Erik encolheu-se numa posição fetal.
— Mesmo que você conseguisse ir na polícia, meu amigo lá resolveu tudo pra mim. Até me explicou como que eu tinha que fazer com a moto dela pra não abrir investigação. Aí você chega lá e vai acontecer o quê? Eles te passam e colocam na minha conta. E eu não tô afim de ficar devendo eles não. Já deu um trabalho da porra pagar aquele corno do Ternura. E se é pra você passar de qualquer jeito, então eu mesmo resolvo isso aqui e agora, de graça pra mim. — E erguendo a pá no alto, acrescentou: — Dá um beijinho na cocota por mim.
O mundo e Erik se apagaram com o golpe.
***
As águas do rio depositaram o corpo de Erik nos portões do parque de diversão. Não era dia nem noite. Estava preso num limbo entre a existência e a inexistência. Os muros já sem cor ruíam aos poucos como se tivessem uma eternidade para desabar completamente. Os portões enferrujados e emperrados não demonstravam qualquer sinal de que um dia foram pintados. No chão, ervas daninha atuavam como o piso que um dia aquele parque tivera. Os brinquedos desbotados, enferrujados e despedaçados se espalhavam como cadáveres num campo de guerra.
O chão tremeu compassadamente, uma vez após a outra. Fraco a princípio, e então mais forte, fazendo o estômago de Erik vibrar.
O amontoado de pano, lã e fibra siliconada que um dia foi a boneca, aproximou-se de Erik e pegou-o no colo. Gigante, queimada e descosturada, a boneca de Faustine ninou-o como ela própria fora ninada antes. Acariciou-lhe os cabelos, colocou-o por sobre o ombro e deu tapinhas nas costas.
Erik acordou desorientado. Aquele lugar e aquele cheiro eram ao mesmo tempo familiares e estranhos. O parque e o cheiro de Faustine misturavam-se com a desolação e o cheiro de fumaça. Porém, algo mais fundo lhe causava esse estranhamento, algo que não era absorvido pelos sentidos comuns, uma sensação profana.
Sorrateiramente, como uma cobra, um tentáculo vermelho com a ponta no formato do chapéu de um cogumelo atravessou o parque desviando dos obstáculos, enroscou-se na perna da boneca e puxou derrubando-a de costas com um estrondo seco. Erik ergueu o corpo e olhou para trás. Uma esfera gosmenta de onde saíam inúmeros tentáculos pulsava no horizonte. Conforme os dois foram se aproximando puxados pelo monstro, Erik percebeu que ele era feito de pedaços misturados de centenas de homens, braço de um com perna de outro, uma cabeça aqui, um tronco desmembrado acolá. Uma sopa de entulho humana. As cabeças abriam a boca, gemiam e colocavam a língua para fora. O coro tenebroso de uma perversão impronunciável.
De repente, o monstro ergueu o cadáver nu de Faustine que estava tão esburacado quanto um queijo suíço. Erik gritou pela amiga e levantou-se sobre a boneca, que ainda estava sendo arrastada, para pular em direção à esfera humanóide, mas os tentáculos o agarraram pela cintura antes que ele alcançasse o chão. Posicionaram-no de frente para o cadáver enquanto violavam as perfurações. Erik tentava se soltar arranhando os tentáculos, puxando, beliscando, mas isso não parecia afetar o monstro. Então três tentáculos se aproximaram dele e mostraram os dentinhos afiados que saíam da boca minúscula no topo do chapéu. Rasgaram a camisa de Erik e cravaram os dentes em seu peito. Começaram a penetrar lentamente enquanto ele gritava e puxava os tentáculos para longe de si em vão, pois sua mão escorregava numa gosma branca. Então, de repente, penetraram seu peito com força como se quisessem alcançar sua alma. Erik gritou tão alto que sua voz ecoou pelo parque várias vezes até desaparecer.
Enquanto tentava arrancar os tentáculos do peito, estes se soltaram com força fazendo-o gritar novamente. Levavam consigo o coração ensangüentado de Erik que ainda batia. As veias, artérias e os ligamentos resistiram o quanto puderam ao puxão. Desesperadamente, Erik agarrou-os e puxou várias vezes conforme suas mãos escorregavam no sangue. Quando a primeira artéria arrebentou, o sangue espirrou como um leque e pintou o monstro de vermelho. Ao fundo, os demais tentáculos consumiam o que sobrava do corpo de Faustine que diminuía de tamanho a cada mordida.
Erik agarrou o coração puxando-o para si, mas os tentáculos eram mais fortes e, num último esforço, terminaram de arrancá-lo de seu peito. O sangue jorrou de todas as artérias e veias com a mesma força de seu grito, tingindo o parque inteiro com sua dor rubra.
O resto de Faustine foi arremessado longe quando a boneca arrancou um dos tentáculos. Usando o membro decepado, ela espancou o monstro até este deixar Erik cair. Continuou espancando o monstro com toda a sua força de giganta fazendo-o guinchar de pavor e deslizar para o horizonte onde os dois desapareceram, mas ainda podia-se ouvir seus ruídos.
Erik engatinhou pelo parque tateando o chão e chamando por Faustine. Encontrou o corpo dela tão pequeno quanto uma lembrança e jogado nos restos de um carrossel. Com apenas dois dedos, ergueu o corpinho quase irreconhecível de tantas perfurações e colocou sobre seu joelho. Do bolso, tirou o colar relicário que a amiga havia lhe dado, abriu, guardou o que restara dela ali dentro e vestiu o colar. O pingente em formato de coração balançou em frente ao rombo em seu peito onde ficava seu órgão. As artérias e veias necrosadas penduravam-se para fora como os restos de um trauma desenterrado.
— Erik! — gritou um menino enquanto era arrastado para longe.
Erik correu até ele por entre os brinquedos arruinados.
— Erik! Não me deixe! — gritou desaparecendo dentro de um vasto lago.
Erik se jogou e tentou nadar, mas a água começou a girar com cada vez mais força e velocidade criando um redemoinho largo como uma tempestade em alto mar. De vez em quando o menino colocava a cabeça para fora e gritava. Erik tentava nadar até ele, mas a água era mais forte. Aos poucos, o nível foi baixando e a água foi desaparecendo, até que o menino sumiu debaixo da terra. O fluxo também levou Erik embora por um gigantesco ralo.
Conforme descia, a água se tornava mais espessa, arrastando-o para baixo com dificuldade. Em certo ponto, Erik ficou preso entre umas raízes num lamaçal argiloso. Agarrou-se a elas e escalou no escuro até alcançar o interior da árvore. Espremeu-se por entre a madeira e alcançou uma fenda por onde entrava uma luz fraca. Colocou a cabeça para fora, contorceu-se até se livrar da árvore e caiu no chão.
— Erik! — gritou novamente o menino.
A fraca luz não era o suficiente para ver além de alguns passos diante de si. O restante do lugar era um breu total. Erik girou procurando de onde vinha o som.
— Erik! Ele vai fazer aquilo de novo!
Erik sentiu seu estômago revirar. Sentiria o coração bater mais rápido se não fosse o vazio em seu peito. No entanto, seu sangue escorreu pelas veias e artérias necrosadas do rombo como se o coração ainda bombeasse.
Ele girava sem saber para onde ir.
— Pára, por favor! — disse o menino. — Eu não gosto disso, vovô.
Erik vomitou. Deu alguns passos ao redor de si e percebeu que havia um canto da escuridão que o repelia até os ossos, então reuniu toda a coragem que achou não ter mais e correu naquela direção. Os ruídos de líquido e pele ressecada ficavam mais altos conforme ele se aproximava.
— Erik! — gritou o menino chorando.
Erik o encontrou sendo enrolado por uma imensa serpente bege.
— Erik, não me deixe aqui! — disse o menino logo antes de desaparecer nas curvas da serpente.
— Ah... Que bom que você veio visitar o vovô — disse uma voz na escuridão. — Faz tanto tempo que eu não te vejo, meu filho.
A serpente olhou para Erik do alto, a estranha cabeça se fazendo visível na escuridão conforme se aproximava com movimentos sinuosos. A primeira coisa que Erik viu foi a careca brilhante, depois a pele flácida e enrugada, por último os olhos maldosos que ele nunca mais esqueceria. A cabeça do avô chegou bem perto de Erik e deu uma volta ao redor dele cercando-o com seu corpo de serpente.
— Não se preocupe, o vovô sempre estará aqui — disse sorrindo.
Erik abaixou-se e correu para fora do cerco, mas a cauda da serpente derrubou-o com um golpe na cabeça.
— Não fuja, meu filho. Vovô te ama tanto.
Antes que Erik conseguisse se levantar, a serpente enrolou-se nele e o manteve pendurado de cabeça para baixo como se fosse um casulo. Erik tentou empurrar, mas não conseguia se mexer, então fez a única coisa que poderia: mordeu a serpente e arrancou um pedaço cuspindo em seguida. O avô grunhiu, mas não o soltou. Erik continuou arrancando pedaços até que a serpente não agüentou e o deixou cair já quase partida ao meio. Erik correu até onde o menino estava preso e soltou-o a dentadas. Pegou-o no colo e olhou ao redor sem saber para onde correr. O que sobrou da serpente arrastou-se até eles.
— Não magoe o vovô, querido. Eu te amo tanto...
Erik segurou o menino firmemente e correu para longe de forma que a escuridão engolisse a serpente. Várias vozes soaram por todos os lados:
— Erik, volte para o vovô. Não tem para onde correr, meu bem.
Da escuridão, várias serpentes surgiram com a cabeça do avô sorrindo. Erik correu para o único canto escuro que estava vazio. As serpentes os seguiram numa corrida sinuosa. Algumas davam o bote e colocavam a longa língua bifurcada para fora.
Erik correu o mais rápido que conseguia carregando o menino que pesava bastante.
— Eles estão nos alcançando! — disse o menino com um grito.
Erik ouviu seus pés batendo no chão com o mesmo barulho oco dos tamancos da mãe. Ele parou e deu alguns chutes no chão com o calcanhar. Um quadrado se deslocou com as batidas indicando um alçapão.
— Eles estão vindo — disse o menino.
Erik o colocou no chão e tateou o quadrado em busca de uma forma de abrir. Sem nenhum tipo de maçaneta, ele mandou o menino pular numa quina fazendo a quina oposta levantar-se. Agarrou a beirada e levantou o alçapão. Empurrou o menino para baixo primeiro e desceu em seguida. Saiu num corredor todo branco com a porta do alçapão sob os seus pés, mas na forma de uma porta normal de madeira deitada no chão. Certificou-se de trancá-la, a única que possuía uma chave.
Pegou o menino no colo e olhou ao redor. O corredor seguia branco à frente deles com uma porta preta no final. Dos dois lados, no teto, no chão e atrás deles havia muitas portas igualmente brancas. Uma mulher jovem vestida com roupas antigas abriu a porta do lado deles, encarou algo à frente dela e voltou de fininho fechando a porta. Do outro lado, a porta se abriu e a mesma cena se repetiu. Em seguida, uma após a outra, todas as portas, inclusive as do teto e as do chão, abriram-se passando a mesma cena da mulher.
— Mamãe? — sussurrou o menino.
A porta atrás deles se abriu e a mesma mulher apareceu. A primeira porta ao lado deles se abriu novamente e Erik decidiu seguir em frente antes que tudo se repetisse. Segurou o menino firmemente e desviou das portas no chão evitando também encostar nas portas da lateral. Alcançou a última porta que era preta e entrou.
Era um quarto conhecido. Um quarto no qual ele nunca mais entrou. O menino estava sentado no coloco de um homem numa poltrona de costas para ele.
— Erik... — sussurrou o menino chorando.
— Que bom que estamos só nós dois, meu bem — disse o avô. — É sempre melhor assim. Sua mãe vai demorar na rua. Pega aqui, pega, meu lindinho.
A porta se abriu e a mulher do corredor entrou, encarou a cena por um momento e saiu de fininho fechando a porta sem fazer barulho.
Erik havia se esquecido daquilo, mas naquele dia vira a mãe, e por mais que já não a agüentasse mais, ela era o rosto que ele mais queria ver naquele momento. Achava que ela o salvaria, brigaria e gritaria como ela sempre fazia e colocaria um fim naquilo. Mas sua mãe amava o pai demais a ponto de entregar o filho aos lobos.
Com todo o ódio que carregava dentro de si, Erik deu um passo pronto para tirar o menino de lá, mas começou a engasgar. Caiu no chão, atrás da poltrona, sufocando. Tossiu deixando sair uma água salgada. Debateu-se várias vezes como se tomasse um choque. Por fim colocou a mão na garganta e puxou. Tirou uma enguia viva e segurou-a com as duas mãos, o peixe debatia-se e lhe dava choques. Erik se levantou e golpeou a cabeça do avô com o peixe várias vezes. O velho levantou-se.
— A porta! — disse Erik para o menino.
O menino correu e tentou abrir a porta, mas estava trancada. O avô virou-se lentamente revelando um rosto no formato de uma água-viva com os tentáculos apontados para frente.
— Meu menino está crescendo, ficando um mocinho — disse uma voz desencorporada.
Erik golpeou o avô novamente, mas este segurou a enguia com uma força que Erik não esperava. Os tentáculos agarraram seu braço e o queimaram. A mulher jovem abriu a porta novamente e reprisou a cena. O menino aproveitou para escapar. A porta se fechou.
Erik agarrou os tentáculos com a outra mão resistindo à queimadura e puxou violentamente arrancando-os. O avô grasniu como um animal ferido. Erik pegou a enguia e o espancou repetidamente. Só parou quando a mulher abriu a porta. Correu, esgueirou-se por trás das pernas dela e saiu.
Estava na sala de sua casa, mas tudo era gigante e a decoração era mais antiga. Sentiu-se como um boneco que ganhara vida e estava solto pela casa. Não conseguia subir nos móveis pois não os alcançava, mas rapidamente descobriu que isso era uma vantagem. Ao longe, um monstro com várias cabeças cuspia veneno e mordia parte da mobília tentando alcançar algo atrás de um armário. Erik se escondeu atrás do sofá e correu até a outra ponta para ver melhor.
— VOCÊ É UM INÚTIL MESMO! — gritou uma das cabeças de sua mãe fazendo o ácido chover de sua boca corroendo uma parte do armário.
As nove cabeças eram enormes, muito maiores do que os pescoços finos e compridos que as sustentavam. Pareciam balões presos num mesmo amarrado.
— TUDO SOU EU QUE TENHO QUE FAZER! — disse outra cabeça fazendo chover mais ácido.
— É UM IMPRESTÁVEL — disse a terceira e abocanhou um pedaço da madeira.
— UM LERDO — disse a quarta juntando-se à anterior e arrancando um pedaço da porta.
— UM FRESQUINHO.
— SÓ SABE CHORAR.
— SAIA DAÍ, GAROTO.
— É, SEU IMBECIL.
— SAIA JÁ DAÍ.
— NÃO SABE FAZER NADA DIREITO.
— ESTAMOS TE VENDO, SEU ANIMAL.
Encolhido numa fresta atrás do armário, o menino gritou por Erik. Todas as cabeças da hidra materna se voltaram para o sofá e rosnaram. Ele correu para a outra ponta, mas as cabeças o cercaram. Correu de volta para o outro lado de onde podia ver o menino, mas as cabeças o fecharam. Ele fingiu correr para o outro lado de novo e as cabeças foram para lá. Então ele aproveitou a vantagem e correu para fora do sofá em direção ao menino. Pegou-o no colo e correu por trás do armário em direção à cozinha. As cabeças os seguiram derrubando móveis, cuspindo ácido e xingando-os.
No caminho, Erik percebeu que as maçanetas de todas as portas eram altas demais e que jamais as alcançaria. Entrou no armário debaixo da pia por uma fresta entreaberta. Os dois conseguiram deslizar a porta fechando-se lá dentro. Erik colocou o menino sentado sobre um pacote de sabão. O barulho da hidra materna cuspindo seu ácido e se chocando contra a porta do armário era tão aterrorizante que fazia tremer suas vísceras. Erik sabia que aquilo não iria agüentar muito, então ajoelhou-se na frente do menino e o encarou.
— Estou com muito medo, Erik — disse o menino chorando.
— Eu sei, e tá tudo bem ter medo. As coisas pelas quais você passou, ninguém deveria passar. Foi horrível, você estava sozinho, indefeso, sem saber onde errou e nem o que fazer pra consertar. Sempre apavorado, tentando prever o que ia aborrecer ela, como acalmar ela, como fazer ela feliz.
O menino assentiu fungando. Limpou o nariz e deu um sobressalto com a hidra espancando a porta.
— Mas sabe de uma coisa? Não era obrigação sua cuidar dos sentimentos dela. Ela era adulta, você não. Nunca foi responsabilidade sua. Você fez muito mais do que era pra fazer. Nunca foi culpa sua que ela sempre foi desequilibrada. Ela sempre esteve errada por se apoiar em você e por exigir que você atingisse uma perfeição que nem ela seria capaz de atingir. Porra, ela seria uma das últimas na lista. Você fez o que você conseguia e o que você sabia. Não há erro e não há culpa nenhuma nisso. Você entende?
O menino fungou e assentiu de novo.
— Quanto ao que ele fez... — Erik respirou ofegante, não com medo, mas com ódio. — Não importa o que os outros digam, você não tem obrigação de perdoar ele. O que ele fez foi um crime. Você era uma criança. Aquilo era perversão. Ele era um criminoso. Nunca foi culpa sua. E não havia como você se defender, não com aquela idade. Você fez o que era possível naquelas circunstâncias. Você não tem do que se envergonhar. Eu sei o quanto isso dói, eu sei o que você está sentindo. Você jamais estará sozinho nessa dor. Mas olha pra mim, olha dentro dos meus olhos. Nada do que aconteceu jamais será apagado. Você vai ter que conviver com isso todos os dias pro resto da sua vida. Só que agora você não é mais esse menino indefeso. Você é um homem, um adulto perfeitamente capaz de se defender. Você entende?
Antes que o menino pudesse assentir, a hidra chocou-se de novo contra a porta. Ele encarou Erik, enxugou os olhos e assentiu.
— Eu nunca vou deixar nada de ruim acontecer com você. Nunca mais. Só que eu preciso que você me ajude. A gente não pode mais viver desse jeito. A gente precisa ir embora. A Faustine, o Pluto... Eles nunca mais vão voltar. — A voz de Erik ficou carregada. — Mas nós dois ainda estamos vivos e precisamos seguir em frente. Só que eu preciso que você me ajude.
— Como?
— Eu preciso que você confie em mim. Eu preciso que você entenda e aceite que eu sou capaz de cuidar de nós dois. Você pode fazer isso por mim? Eu sei que você vai sempre sentir um medo enorme, mas isso não pode mais controlar a gente. Você precisa confiar em mim.
O menino fungou e falou com convicção:
— Eu confio em você, Erik.
— Nós temos que trabalhar em equipe daqui pra frente. Eu não vou mais deixar você sozinho no escuro, mas você também vai ter que me deixar agir. Entendeu?
— Sim.
Erik e o menino se abraçaram. A porta do armário, já empenada, entortava a cada pancada da hidra. Então Erik pegou a mão do menino e comeu. Mastigou a pele, os músculos e os ossos e engoliu. O menino o encarava com um semblante sereno, com total confiança. Pouco a pouco, Erik devorou o menino completamente. Através do rasgo na sua camisa, uma barriga enorme se projetou para fora, como se estivesse grávido.
Enquanto pensava em como ia enfrentar o monstro, uma mão fria tocou seu ombro. Atrás dele, a Sombra se misturava à escuridão, mas ele conseguia ver os olhos lilases brilhando. O braço de Erik ficou mole, esticou como chiclete e se esparramou no chão. A Sombra tocou o outro ombro e o braço derreteu. Tocou a cabeça e esta tombou lentamente para trás como cera derretida. Por último, tocou o rombo onde ficava o coração e o corpo inteiro se desmanchou e ficou empoçado no chão.
A Sombra pegou os pés de Erik e calçou-os. A imagem de Erik assumiu seu lugar como sombra, e a Sombra assumiu o lugar do Erik de carne e osso. Ela encostou-se num canto atrás de uns galões e aguardou. A hidra arrombou a porta do armário derrubando os produtos de limpeza. Olhou tudo e não viu Erik e nem o menino.
— CADÊ ESSES DESGRAÇADOS? — gritou uma das cabeças.
— FUGIRAM PELO RALO?
— ERIK! SEU VIADINHO!
— APAREÇA!
A Sombra correu para fora arrastando Erik ao seu redor conforme a luz o projetava para um lado e para o outro. A hidra o viu e chocou-se contra o chão repetidamente tentando mordê-lo. As cabeças se machucaram, perderam alguns dentes, quebraram o nariz, mas continuaram se jogando no chão.
— VOLTA AQUI, MOLEQUE.
— VOCÊ VAI LEVAR UMA SURRA QUE NUNCA MAIS VAI ESQUECER.
A Sombra chegou na sala e se posicionou contra a luz de forma que a figura de Erik ficasse em pé em frente ao armário de bebidas. A hidra se jogou com toda a sua fúria e cortou-se em vários lugares com os cacos de vidro.
— VOCÊ VAI APANHAR TANTO...
— ... QUE NUNCA MAIS VAI CONSEGUIR ANDAR!
A Sombra correu para o outro lado de forma que a imagem de Erik ficasse em frente à cortina da janela entreaberta. Do lado de fora, cobras gigantes rondavam o quintal sibilando e agitando o chocalho.
A hidra rosnou, gritou e jogou-se em direção à imagem de Erik. Enrolou-se na cortina e caiu pela janela. As cobras a agarraram e cada uma devorou uma cabeça.
A Sombra puxou o fio de um abajur derrubando-o no chão e arrastou até a área de serviço. Ligou o objeto na tomada e o endireitou até que a imagem de Erik ficasse em direção à porta. Ela caminhou devagar de maneira que Erik passasse por baixo da porta como uma folha de papel. Assim que ele atravessou por completo, a Sombra voltou a assumir seu lugar como uma sombra no chão e também deslizou por baixo da porta.
***
O corpo todo de Erik doía. Mover um dedo era uma tortura. Tossiu e quase se engasgou com a terra. Inclinou-se para levantar num reflexo, mas era como se houvesse um colchão pesado em cima dele. A última coisa da qual se lembrava era de um chute de Wesley. Entendendo o que estava acontecendo, levantou os braços com dificuldade apesar da dor e cavou de baixo para cima. Engasgava-se com a terra e tossia sempre que tentava respirar. Pôs a mão para fora e limpou a terra que cobria o rosto. Cuspiu-a longe e respirou fundo várias vezes. Sentou-se e tocou o peito. O rombo não estava mais lá. E nem o colar. Apalpou os bolsos desesperadamente até sentir o volume do pingente de coração. Suspirou aliviado. Empurrou a terra toda para longe de si e encontrou o que restara da boneca queimada. Apalpando ao redor, encontrou sua mochila, uma tesoura de ponta afiada e uma picareta. Guardou a boneca e a tesoura na mochila e colocou-a nas costas. Pôs-se de pé com dificuldade e tateou a parede ao redor. Estava no fundo do poço. Olhou para cima. Nenhuma luz entrava, estava fechado ali.
A parede era rugosa, com alguns vincos e pontas protuberantes. Com o auxílio da picareta, escalou o poço. Ao chegar no topo, com uma força que desconhecia ter, empurrou a tampa de cimento e saiu.
A luz do poste não era suficiente para iluminar o quintal da casa de Wesley, mas a escuridão não era mais sua inimiga. Pegou a tesoura de ponta e largou a mochila no chão. A porta da frente estava destrancada. Erik entrou tão silenciosamente que por um momento sentiu o mundo virar e ele próprio volta a ser uma sombra.
Wesley dormia profundamente no sofá-cama. A estática da tevê era a única iluminação ambiente. Erik sentou-se sobre Wesley. Ainda sonolento, este abriu os olhos e viu um ser que era metade homem onde a luz da tevê projetava ruídos naquele rosto, e metade sombra absoluta.
Erik furou-lhe o olho que enxergava o lado iluminado. O mundo escureceu para Wesley e, antes que pudesse entender o que estava acontecendo, Erik furou-lhe o outro olho manchando a existência de vermelho. Perfurou a barriga de Wesley tantas vezes que uma sopa de sangue, fezes e urina se formou na cavidade abdominal.
Erik dobrou o sofá-cama em cima de Wesley e arrastou o móvel inteiro para fora. Abriu totalmente a tampa do poço e empurrou o móvel com o cadáver para dentro. Um barulho seco soou quando a quinquilharia atingiu o fundo. Arrastou a tampa de volta e fechou o poço. Lavou as mãos e a tesoura na pia da cozinha. Com o pano de prato, esfregou a picareta toda e largou no chão. Limpou a maçaneta e a porta, desligou a tevê, guardou a tesoura na mochila, saiu, limpou o portão e jogou o pano de prato numa lixeira pública.
Durante a noite não era possível discernir nenhuma mancha no uniforme escuro, então ninguém que passou por ele percebeu sua presença imunda.
A julgar pelo silêncio no bairro, Erik presumiu que deveria ser de madrugada. Apertou o interfone e o porteiro deixou que ele entrasse. Erik subiu às pressas. Abriu a porta do apartamento com todo o cuidado para não fazer barulho. A casa estava totalmente escura. Deixou a tesoura em cima da mesinha da entrada, foi até a lavanderia e jogou a mochila dentro do tanque. Foi para o quarto com a boneca, enrolou-a numa toalha e deixou sobre a cama. Foi para o banheiro e lavou todos os cantos de sua alma. No quarto, pegou outra mochila, guardou a boneca, a carteira e seus documentos. Decidiu deixar para trás todas as roupas escuras que sua mãe comprara para ele, vestiu-se apenas com uma jaqueta, tênis, calça jeans e uma das suas muitas blusas azul escuro. Planejava comprar roupas claras em algum outro lugar. Então colocou o relicário no bolso e saiu do quarto sem fazer muito barulho.
A luz da sala-de-estar se acendeu. Sua mãe o encarou vestida com um roupão de dormir e uma careta de raiva.
— Tá achando que isso aqui é puteiro que você entra e sai a hora que quiser?
Erik não disse nada. A tesoura brilhou em cima da mesinha perto da porta.
— Onde você estava?
— Por aí.
— Por aí?! — e deu uma risada de desgosto. — Eu aqui, a noite toda, preocupada com você e você "por aí"!
Erik ajeitou a mochila nas costas.
— E tá pensando que vai sair de novo?
— Vou.
— Vai... Vai sim. Quero ver você sair de novo. Tá achando que eu sou palhaça? Que eu não sei que você estava com aquela piranha do posto?
Erik alcançou a mãe com dois passos e a encarou de cima para baixo.
— Aaah! — Gemeu em tom de escárnio. — Virou o machão agora. Tá vindo pra cima de mim assim... Arranjou essa coragem onde? Na xereca daquela vagabunda?
A mão de Erik voou em direção à mãe, mas parou a um palmo antes de alcançá-la. Matilde deu uma gargalhada debochada.
— Foi só comer uma buceta que agora tá se achando o Super-Homem! Ah, mas isso não vai ficar assim mesmo! — E pegou o cinto que estava sobre o sofá atrás dela.
— Não vale a pena — disse Erik para si mesmo enquanto caminhava para a porta.
— Não vale a pena? — ecoou a mãe com um tom de voz mais alto, mas que ainda não era um grito. — Você tá pensando que vai pra onde com essa atitude toda?
— Embora.
— Embora?! — E gargalhou com um semblante de absoluto choque. — E vai viver de quê? Você é um inútil, um imprestável. Não consegue fazer nada sozinho. Tudo precisa de mim. Vai viver como, Erik? Tá louco? A rameira do posto te deu alguma droga? Tá retardado?
— Já era pra eu ter ido embora há muito tempo.
Matilde gargalhou de novo. De repente o encarou analisando a situação.
— Você ia embora escondido. Sem falar nada comigo... Ia me deixar aqui sem saber o que aconteceu com você... — comentou incrédula.
Erik assentiu em silêncio. Ela sentiu um pouco de tontura e apoiou-se no encosto do sofá.
— Exatamente como ele fez... — disse transtornada. — Seu pai me abandonou quando eu tava grávida...
Já irritado, Erik respirou fundo.
— Meu pai me abandonou também.
— Meu deus... Depois de tudo o que eu fiz por você, tudo o que eu sacrifiquei por sua causa... Você ia embora sem nem me dizer nada. Simplesmente ia sumir, sem consideração nenhuma por mim...
— Eu nunca pedi pra nascer.
Matilde deu um grito abafado, horrorizada, e pôs a mão na boca. De repente o terror virou ódio. Ela agarrou o cinto e bateu no rosto de Erik com toda a força. Ele não se mexeu, apenas respirou ofegante e a encarou com uma raiva acumulada de muitos anos. Ela bateu de novo.
— VOCÊ JÁ ESQUECEU, SEU CRETINO, QUE SEM MIM VOCÊ NÃO É NADA? — disse batendo nele repetidamente. — É GRAÇAS A MIM QUE VOCÊ TÁ VIVO, SEU DESGRAÇADO!
— Tô vivo sim — disse Erik em alto e bom som, com a voz que achou que nunca tivesse. — Mas eu nunca fui feliz.
Matilde cessou o espancamento e deu uma risada incrédula.
— O POBREZINHO... O COITADINHO DO MARMANJO NUNCA FOI FELIZ. Ó, MEU DEUS. FODA-SE A MÃE DELE QUE SACRIFICOU A VIDA POR ELE. FODA-SE A IDIOTA AQUI QUE SEMPRE CUIDOU DELE, SEMPRE LIMPOU AS MERDAS DELE, SEMPRE DEU CASA, COMIDA E ROUPA LAVADA. FODA-SE ESSA IMBECIL DA MATILDE. ESSA ESCRAVA ABNEGADA. PORQUE O PRINCIPEZINHO TÁ INFELIZ, COITADINHO. A VACA DA MÃE DELE NÃO SE SACRIFICOU O SUFICIENTE. A VAGABUNDA DA MÃE DELE NÃO TRABALHOU O SUFICIENTE, NÃO RALOU AS JUNTAS DAS MÃOS ESFREGANDO CUECA SUJA O SUFICIENTE. NÃO PREPAROU A COMIDA DELE O SUFICIENTE.
Erik deu um passo para trás e viu a tesoura com o canto dos olhos.
— VOCÊ NÃO TEM CONSIDERAÇÃO NEM PELO SEU AVÔ? QUE TE CRIOU COMO SE FOSSE UM PAI? PORQUE AQUELE LIXO DE HOMEM FOI EMBORA.
O sangue de Erik ferveu e deixou avermelhadas as bochechas pálidas.
— Você sabia. Você sempre soube de tudo e nunca fez nada.
Matilde deu um passo para trás e o encarou de cima a baixo espantada. Um silêncio súbito engoliu sua voz. No espaço entre os dois desenrolou-se a memória em que ela abria a porta, via o filho e o pai no quarto dele e fechava a porta saindo.
Erik deu um passo à frente. Matilde engoliu em seco.
— Você sabia o que ele fazia comigo quando me deixava sozinho com ele e mesmo assim nunca, NUNCA... — gritou. — Fez nada para impedir. Agora você ousa vir reclamar de consideração e sacrifício? VOCÊ ME JOGOU AOS LOBOS COMO UMA OVELHA OFERTADA PRA SACRIFÍCIO PORQUE VOCÊ ERA MEDROSA DEMAIS PRA SAIR DA ABA DO PAPAI PEDÓFILO! FRACA! COVARDE! TRAIDORA!
O cinto voou em direção ao rosto de Erik, mas ele o agarrou antes de ser acertado. Com um puxão tão forte quanto o que deu na tampa do poço, ele arrancou o cinto da mão de Matilde.
Então, num acesso de fúria que ele jamais achou que fosse capaz de ter, Erik deu uma surra na mãe com o cinto. Primeiro Matilde gritou de susto e incredulidade, e ficou paralisada por um momento processando a informação. Depois gritou de pânico e pavor enquanto o filho a açoitava repetidamente.
— E QUER SABER DE UMA COISA? — gritava Erik nos breves intervalos entre um açoite e outro. — QUANDO AQUELE VELHO MALDITO TAVA MORRENDO DE CÂNCER NO HOSPITAL, GRITANDO DE DOR, EU GOSTEI! — disse a última palavra pronunciando as sílabas com todas as nuances fonéticas. — EU FIQUEI MUITO SATISFEITO! FOI O MAIS PRÓXIMO QUE EU CHEGUEI DE ACREDITAR QUE EXISTE UM DEUS! EU APROVEITEI CADA MINUTO, CADA GRITO DAQUELE SOFRIMENTO E ME SENTI VINGADO! FOI O MELHOR MOMENTO DA MINHA VIDA!
Matilde caiu no chão ainda gritando, mas de ódio. Os golpes lhe acertavam no seu ego.
— ENTÃO, DONA MATILDE, EU NÃO PRECISO QUE VOCÊ CUIDE DE MIM. QUANDO EU PRECISEI DE UMA MÃE, EU TIVE UM GENERAL.
Os braços, pernas e o rosto dela começaram a sangrar. Ela entrou em pânico, gemendo como se tivesse alguma deficiência mental, e tentou se levantar, mas Erik a acertou nas pernas e ela caiu novamente batendo o rosto na quina do sofá e quebrando um dente.
— AGORA VOCÊ SABE COMO É SER INDEFESA E IMPOTENTE, TÃO VULNERÁVEL, PRECISANDO DESESPERADAMENTE DE EMPATIA, E ENCONTRANDO APENAS CRUELDADE.
Na força do imenso ódio pela vida que Matilde carregava, ela agarrou uma ponta do cinto e começou a puxar ainda deitada.
— ME DÁ! — gritou ela. — FOI MEU PAI QUE ME DEU! ME DÁÁÁÁ!
Erik não soltou a outra ponta, arrastou a mãe pela sala e agarrou a tesoura. Matilde tentou se levantar ainda puxando o cinto. Erik cortou-o no meio fazendo a mãe cair novamente e bater a parte de trás da cabeça no chão. Ela se arrastou para o tapete, chorando de ódio, sem saber como puni-lo. Ele arremessou a outra metade do cinto sobre ela e guardou a tesoura.
— Não venha atrás de mim. Nunca mais me procure. Eu não quero ver a sua cara nunca mais. De agora em diante eu sou órfão — e saiu batendo a porta.
Estava quase amanhecendo quando Erik saiu do prédio. Caminhou até o posto e parou num caixa 24 horas para sacar uma parte do seu dinheiro. Sentou-se num dos bancos na frente da loja do posto e aguardou o horário comercial.
Quando Lúcia chegou acompanhada do marido, deu um sorriso triste para Erik.
— O que tá fazendo aqui a essa hora?
— Queria te pedir três coisas.
— Claro, meu filho.
— Você já jogou as cinzas dela no mar?
— Não, ainda não tive tempo.
— Posso ficar com ela?
Lúcia o olhou confusa, mas sabendo que Faustine não tinha ninguém próximo além dele, concordou.
— Você pode trazer a urna pra ele, amor? — perguntou ao marido.
— Claro, mas tem que ser rapidinho agora.
— Tudo bem — disse Erik. — Não vou sair daqui agora.
O marido deu um beijo na testa de Lúcia e saiu com o carro.
— Qual era a segunda coisa?
— Eu gostaria de adotar a Samara e a Perséfone.
Lúcia sorriu e seus olhos encheram d'água lembrando-se de Faustine.
— A Samara já foi adotada, mas ninguém quer a Perséfone.
— Eu quero.
Lúcia assentiu contente entre as lágrimas. Os dois seguiram para os fundos do posto. Ela abriu a porta do galpão e os dois ouviram os miados desesperados da gatinha. Arrastando-se com imponência, ela saiu de trás de uns caixotes e começou a esfregar a cabeça nos pés de Lúcia.
— Aqui tem a ração dela, é de filhote. Ali tá a caixa de transporte e as vasilhas. Nessa sacola tem uns jornais, uns brinquedos e a carteira de vacinação dela. Eu arrumaria isso pra você se eu conseguisse me abaixar.
— Que isso, Lúcia. Pode deixar que eu arrumo.
Erik se abaixou e estendeu a mão para a gatinha. Ela cheirou, olhou bem nos olhos dele por um segundo como se examinasse sua alma, deu um miado alto e longo, e jogou-se na mão dele se esfregando. Erik fez carinho nela e a pegou no colo.
— Oi, Perséfone.
A gatinha miava e ronronava esfregando a cabeça na roupa dele.
— Parece que ela tava te esperando.
Os dois se encararam sabendo o que aquilo teria significado para Faustine.
— Qual era a terceira coisa?
— Você pode separar uma camisa branca pra mim? Vou pagar.
— Tá bom. Eu vou indo, quando terminar me dá um oi lá na frente.
— Tudo bem. Obrigado, Lúcia.
Ela saiu. Erik esperou a gatinha comer, beber água e se aliviar numas folhas de jornal. Em seguida forrou a caixa de transporte com mais jornal, colocou-a lá dentro junto com alguns brinquedos, guardou as vasilhas dentro do saco e colocou este na mochila. Carregou a caixa até a parte da frente, acenou para Lúcia e esperou do lado de fora enquanto ela trazia a urna e a blusa num saco transparente. Erik guardou a urna na mochila e colocou devagar no chão. Tirou a jaqueta e trocou de blusa ali mesmo. Lúcia não comentou sobre os hematomas pelo corpo dele. Erik fez uma bola com a blusa azul escura e arremessou na lixeira. Vestiu a jaqueta e a mochila, e entregou o dinheiro à Lúcia.
— Obrigado, Lúcia, por tudo.
— Dê um final digno a ela.
— Vou dar.
— Boa sorte, Erik.
— Obrigado.
Os dois sorriram um para o outro e ela voltou ao trabalho. Enquanto ele caminhava até a lanchonete perto do posto, sua sombra o acompanhava no chão normalmente. Erik pediu hambúrguer, coxinha, batata frita, um refrigerante e uma garrafa d'água. Pagou, sentou-se nas mesas do lado de fora, colocou a mochila sobre a mesa e a caixa de transporte ao seu lado, colada à sua perna. Guardou a garrafa na mochila e devorou o lanche todo como se não comesse há anos.
Encostou-se na cadeira e respirou fundo bem devagar algumas vezes. Uma sensação de leveza e liberdade o preencheram como se fizessem uma hemodiálise na sua alma. Na rua, o trânsito de carros e pessoas começava a se intensificar. Os pássaros e as cigarras também iniciavam seu dia.
Pegou do bolso o relicário. Encarou a foto de Faustine enquanto sentia a patinha de Perséfone atravessar a grade da caixa e agarrar sua calça. Vestiu o colar e colocou para dentro da blusa. Apalpou por fora para ter certeza de que ia ficar ali por muito tempo. O relevo do coração era visível por baixo da camisa.
Um dos atendentes saiu da lanchonete e foi perguntar se Erik queria mais alguma coisa enquanto recolhia o lixo.
— O ônibus que vai pro litoral passa por aqui?
— Passa na rodoviária. Daqui a pouco deve chegar, mas faz várias paradas até lá.
Erik agradeceu, pegou suas coisas e caminhou até a rodoviária. Comprou duas passagens, aguardou umas duas horas e então embarcou. Colocou a mochila no assento da janela presa pelo cinto de segurança, e a caixa de transporte entre os seus pés no chão. Assim que o ônibus partiu, ele deixou o mundo do lado de fora se transformar em vários borrões coloridos e fechou os olhos. Finalmente cumpriria sua promessa de morar com Faustine e um pet no litoral.
FIM