Capítulo 1 (3 horas)
Capítulo 1
Os magos não gostam de mim porque ouso ser o primeiro — e único — Synnoldyr a ter aprendido magia. E, para piorar, fi-lo muito mais rápido do que qualquer humano jamais conseguiu. Nenhum deles esconde que eu sou uma abominação que não deveria existir. Para eles, a existência funciona como um certo equilíbrio. Os Synnoldyr já são os seres mais fortes que existem, e adicionar magia a isso causa um perigoso desequilíbrio. No entanto, nunca vi o mundo desabar só porque uso minha magia para ter as mais belas plantas que qualquer par de olhos já viu. Bem, não apenas para isso. Realizo cirurgias e modificações cosméticas na elite egadiana que tem desavenças com os magos. Acredito que isso também some a tudo de odioso que meu ser engloba. Entretanto, obviamente, nem todos os magos me detestam. Alguns acreditam que a única forma de aprimorar-se é trocando conhecimento. Enquanto eles me ensinam a manipular plasma e gases, eu os ensino a construir um Fyrdenzyr. Infelizmente, nessas três décadas em que tenho morado em Egádia, nenhum deles conseguiu construir sequer um esboço de Fyrdenzyr. Apenas um deles demonstrou avanço no quesito memória e visualização espacial, mas o restante... É de entristecer. Adoraria duelar mentalmente com os humanos e descobrir outras maneiras criativas de esconder um casulo mental.
Apesar de tudo, adoro Egádia e seu povo, com duas exceções: o supremo calor maldito que derrete meus nervos durante o dia; e a falta de comida. Os egadianos não têm escravos na mesma quantidade que Myrtandyr — ou até mesmo Velda, segundo o que ouvi — e como os egadianos e os urukkatianos são abençoados por minha adorada Deusa Maltannia, não posso devorá-los. Lanias e eu comemos suínos, bovinos, caprinos, eqüídeos e alguns símios. Durante duas décadas, tenho ouvido minha amada irmã reclamar em todas as refeições. Frente ao risco de enlouquecer, aprendi a ignorá-la. Contudo, também sinto falta de uma dieta mais humana. Quanto às demais partes que compõem uma refeição myrtandyriana, Egádia oferece excelente espécimes. Exceto o vinho que eles chamam de myrtandyriano, mas que é feito de jabuticaba e não de amora preta. Na primeira vez em que pus esse sacrilégio em minha boca, devolvi do jeito que havia engolido e quase decapitei o taberneiro. Atualmente, consumo apenas vinho de tâmara que é uma das melhores bebidas que já degustei, perdendo apenas para o nosso inigualável vinho de amora preta. Quanto aos cogumelos, eu mesmo cultivo os que consumimos. Depois que adquiri habilidades mágicas, não há safra que não fique perfeita.
E foi com esses cogumelos que preparei o jantar que meus amigos agora saboreiam. Lombo suíno assado ao molho de damascos e laranja; salada de cogumelos com repolho, cenoura, cebola, salsa, abacaxi e óleo de gergelim; refogado de cogumelos com açúcar mascavo, alho, espinafre e pimentão; e coração, cérebro e fígado suínos crus para Lanias e eu. Tudo acompanhado de vinho de tâmara.
Os cinco convidados deixam escapar suspiros e gemidos de prazer enquanto enchem todos os cantos de suas bocas. Fecham os olhos e mastigam devagar. Sabem que detesto quando a comida é engolida às pressas sem ser degustada apropriadamente, característica que adquiri com mestre Vallun. Afinal, de nada adianta o paladar se não for usado.
— Meu caro amigo, isto está fabuloso — diz Harani.
Sorrio enquanto levo um pedaço de coração à boca e mastigo até que se torne uma pasta e desça pela minha garganta sem esforço.
— Onde aprendeu a cozinhar assim? — pergunta Shadif, meu mais novo amigo.
— Há mais de um século em Myrtandyr, quando eu ainda era um jovem aprendiz.
Ele suspira e arregala um pouco os olhos.
— Perdoe-me se acho um pouco difícil de me acostumar com a idéia de alguém vivendo por tanto tempo — diz ele.
— Não se preocupe — diz Harani —, todos nós passamos por isso em algum momento. Daqui a pouco você acostuma.
Shadif sorri um pouco acanhado. Não quer passar a imagem de um plebeu, mas mal sabe ele que não me importo com nenhuma dessas formalidades, contanto que a polidez e o respeito estejam presentes em abundância.
— Não se acanhe, Shadif — digo. — Qualquer curiosidade que tenha, é só perguntar. Não há motivos para fingir que eu não gosto de falar sobre Myrtandyr e minhas experiências sempre que uma chance aparece. Não é, cavalheiros?
Os demais dão risadas leves em concordância, exceto minha amada Lanias que, como de costume, está de mau humor com algo que só a Deusa sabe o que é. Pelo menos ainda não reclamou de nossa refeição.
"Estou sendo punida por todos os meus atos, passados e futuros", diz ela para mim telepaticamente.
Os empregados sobem os degraus antes de passar pela porta. Espalham-se pela sala caminhando com cuidado para não derrubar o líquido das jarras nos meus tapetes. Enchem nossas taças e depositam as jarras ao centro da mesa. Um outro empregado traz óleo para as lamparinas e sai assim que termina. A brisa gélida da noite dança pela sala aliviando o calor. Através das janelas da torre, as estrelas cintilam no veludo azul do céu. Inspiro o aroma de terra molhada que vem de fora e saboreio o vinho. O olhar enraivecido de Lanias ferve ao meu lado por tê-la ignorado, mas não olho para ela. Esta é uma noite para os amigos, uma das poucas noites em que podemos todos nos reunir. Ela já teve duas décadas para reclamar, hoje é uma noite de descontração.
— Senhores, eu poderia introduzir uma questão que me incomoda há algum tempo? — pergunto aos meus amigos.
— Sempre, meu amigo — diz Harani. — Do que se trata?
As cinco cabeças se voltam para mim aguardando. Todos bem trajados em sobretudos com estampas de cores vivas, anéis, colares, tiaras e, suspeito, braceletes de magnetita escondidos nas mangas. Duvido que meus amigos humanos aceitariam ficar em uma sala comigo e Lanias sem nenhuma proteção mental. No entanto, por mais impressionante que seja, nunca tentei ler suas mentes. Afinal, que relacionamento poderíamos ter se eu não lhes tratasse melhor do que o porco que jaz sobre esta mesa?
— Podemos todos concordar que Maltannia criou todos os corpos celestes exceto o Sol e as estrelas? — pergunto. Eles confirmam. — Assim sendo, se Ela e Nammunih nos esculpiram do lodo e da areia, respectivamente, poderiam as duas ou uma Delas ter feito o mesmo em algum outro corpo celeste?
Eles se entreolham confusos e curiosos.
— Você quer saber se existiria alguma vida em Alcaad, Rassaad ou até mesmo em Namuaad? — pergunta Harani com os olhos brilhando.
— Precisamente.
— Talvez haja vida em Alcaad — diz Shadif, pensativo. — Pelo que observamos da superfície, é coberta de impactos de asteróides, mas poderia haver vida no subterrâneo. Se apenas a vontade dos Deuses é necessária, não vejo por que não.
— Eu diria que poderia haver vida em alguns planetas e satélites — diz Mardeen. — Mas não em todos. Zarmallun, por exemplo, é feito de gás. E, considerando seu tamanho, a gravidade seria esmagadora. Se houver vida em Zarmallun, são apenas minúsculos organismos que não são afetados pela gravidade. Entretanto, Alcaad e Rassaad parecem ter o mesmo tamanho de nosso mundo, então acredito que seja possível. Mas não acho que seja provável, pois os dois satélites sofrem com incessantes impactos de asteróides.
— Como Shadif disse, no subterrâneo — comenta Daamir.
— Mesmo que assim fosse — continua Mardeen —, sua população teria iniciado na superfície e depois dirigido-se para o subterrâneo. E nenhuma de nossas observações mostrou qualquer construção ou sinal de natureza na superfície. Onde estariam as plantas? A água? Os animais? Estaria tudo no subterrâneo? É improvável.
— Não existe vida em nenhum planeta gasoso e em nenhum corpo rochoso que tenhamos observado — diz Sumayl categórico.
— De onde vem toda essa certeza? — pergunto.
— Considerando o que sabemos da vida aqui em Mirlantus, ela precisa, dentre alguns ingredientes, de água e ar — continua ele. — Mirlantus tem água na superfície, mas Alcaad, Rassaad, Kallaad e Trebaad não. Isso significa que não possuem atmosfera. Sem atmosfera: sem ar e sem água. E sem esses dois: sem vida. Agora, se vocês quiserem discutir se já houve atmosfera em algum desses corpos, aí é outra história.
— E se eles fugiram para o subterrâneo antes que a atmosfera desaparecesse? — pergunta Harani.
— Se isso aconteceu — responde Sumayl —, então foi há tanto tempo que não há mais resquícios do que poderia ter havido na superfície.
— Mas por que as Deusas não criariam vida em outros lugares? — pergunta Harani. — Por que só aqui em Mirlantus?
— A esfera divina é a única pela qual não me interesso — diz Sumayl e bebe um gole de vinho como que para encerrar o assunto.
— Os motivos divinos nos serão para sempre desconhecidos, Harani — diz Shadif.
— Mas e se — começa Harani, mas eu o interrompo.
— E se não há vida em outros lugares apenas porque nós somos os primeiros? — pergunto.
— Faz mais sentido — diz Mardeen.
Antes que algum de nós possa acrescentar mais alguma idéia, Lanias arrasta sua cadeira ruidosamente e levanta-se com o maior dos mau humores. Mesmo que todos saibam desde sempre que os Synnoldyr são muito altos, meus amigos retesam-se um pouco ante a altura de minha irmã que lhes parece quase descomunal. Não ajuda nem um pouco o fato de ela sempre carregar uma postura arrogante e irritada, como se estivesse prestes a pisotear o mundo.
— Esta reunião é desagradável e desinteressante, se me dão licença... — diz caminhando para a porta, o elegante vestido preto rendado balançando com cada passo. Meus amigos apenas acenam com a cabeça um pouco desconcertados com a grosseria. Ela pára à porta e volta-se para mim. — Espero você em nossos aposentos em alguns minutos.
— Vai esperar muito mais do que isso, minha querida — digo rispidamente.
Ela tenta fulminar-me com um olhar, mas devolvo o descontento no mesmo nível. Meus amigos afundam seus rostos nas taças de vinho e remexem a comida no prato sem saber como reagir. Lanias e eu sustentamos nossos olhares repreensivos lançados um ao outro. Por fim, ela estala a mandíbula, dá-nos as costas abruptamente e desaparece no fim do corredor. Apenas os grilos e as cigarras ousam se pronunciar como se nada tivesse acontecido. A brisa cada vez mais gélida dissipa o calor quase totalmente. Apesar do desentendimento, o clima é bem mais agradável e apresso-me em elevar os ânimos. Esta noite é para mim e meus amigos. Nada destruirá o pouco tempo que me sobra para apreciar companhias que não sejam minha irmã sanguessuga.
— Perdoem minha irmã geniosa — digo. — O calor não faz bem a ela. — Eles sorriem polidamente, mas o fluxo de idéias foi interrompido derradeiramente. — Os senhores me acompanhariam até a sacada? Está uma noite fabulosa. Tragam suas taças.
Alguns sorriem genuinamente e vamos todos para a sacada. As Jóias de Maltannia são a constelação mais evidente do tapete celestial. Todos a observamos com reverência.
— Em Myrtandyr — começo eu —, em determinada época do ano, as Jóias se alinham com Zarmallun durante o eclipse diário e temos a mais bela visão da conjunção. É a única vez em que o céu diurno perde sua nebulosidade.
— Vocês, Synnoldyr, parecem muito apegados à sua terra — diz Shadif. — Não sei se eu sentiria tanta falta de Egádia assim.
Os outros soltam ruídos de concordância.
— Egádia, Trivus e Malgaan não parecem tão diferentes assim — digo. — Acredito que Velda, Kallireat e Urukkat também sejam semelhantes. Mas Myrtandyr é diferente de tudo neste mundo.
— Ouvi dizer que cheira mal — diz Harani.
Os outros três se entreolham rapidamente como se eu pudesse atacar. Sorrio polidamente.
— Myrtandyr é uma terra pantanosa — explico. — Em alguns locais, os pântanos exalam gases desagradáveis ao olfato. Mas isso não acontece em todos os locais.
— Como vocês constroem cidades subterrâneas em um terreno pantanoso? — pergunta Mardeen.
— Graças à extraordinária engenhosidade de nossos anciões — digo. — Infelizmente, não era minha área de atuação, então não posso oferecer explicações detalhadas.
Ao sul, Nul Barmal pinta uma sombra negra sobre as estrelas. É como se Maltannia projetasse sua bocarra divina para nos devorar.
— O que vocês acham da teoria de que Char Dandi está uma polegada mais baixo a cada ano? — pergunto.
— Teoria? — pergunta Daamir num tom de escárnio. — Eles pegaram as lunetas mais baratas e montaram essa teoria.
— Eles usam a posição de Char Dandi relativo às estrelas — explica Sumayl —, mas esquecem que elas também mudam de posição, assim como nosso ponto de vista em relação a elas também muda por causa da translação. É óbvio que o asteróide vai aparecer numa posição diferente em épocas diferentes.
Shadif balança a cabeça com veemência enquanto estala a língua em reprovação.
— Se vocês querem refutar a teoria — começa ele —, e, sim, é uma teoria embasada, ao menos entendam como ela funciona em vez de cuspir asneiras.
— Nos ilumine com seu vasto conhecimento em evidências anedóticas então, Shadif — diz Daamir.
Assisto à rusga bebericando meu vinho. Adoro essas discussões, não é à toa que procuro passar a maior parte de meu tempo na Academia, mas infelizmente Lanias ocupa um espaço muito grande na minha vida.
Devo esquecê-la agora, quero apreciar este infreqüente momento em paz.
— Uma das medições, a principal — continua Shadif —, é feita da parte inferior de Char Dandi até o solo. Como existe uma bolha de ar quente impenetrável, não há saída ou entrada de areia levada por tempestades, logo, não há alteração na altura do solo. E se um de vocês mencionar que o solo pode estar afundando, não respondo por meus atos! Pois se este fosse o caso, essa distância seria maior a cada ano, e não menor. — Harani puxa ar para fazer uma pergunta, mas Shadif não dá espaço. — E mesmo que estivesse entrando areia na bolha, isso significaria que esta se rompeu e, por conseqüência, o ar quente seria expelido e Char Dandi cairia ainda mais rápido.
— Por que, exatamente, uma polegada por ano? — pergunta Mardeen. — Se Char Dandi estivesse mesmo caindo, essa distância dobraria de tamanho, pelo menos.
— Não é exatamente uma polegada — diz Shadif. — É uma polegada e um milímetro a mais a cada ano.
— Como se mede um milímetro há uma distância dessas? — pergunta Harani apertando os olhos para enxergar Nul Barmal na escuridão noturna.
— Pergunte aos anões — diz Shadif. — Todos os telescópios são deles.
— E se os anões estiverem errados nas contas? — pergunta Harani ingenuamente.
Todos nós o encaramos espantados. Os anões são os seres mais precisos que existem. É mais fácil o mundo estar errado do que os anões.
— Em todos esses anos que trabalhei na Academia — diz Shadif —, eu nunca vi um anão errar.
Todos nós concordamos com ruídos.
— Os anões sabem para o que vocês estão usando os telescópios deles? — pergunta Daamir.
— Foram eles que perceberam a discrepância primeiro — explica Shadif. — Por mais que defendamos esta teoria, não é fruto de nosso trabalho. Vocês querem ouvir a história?
— Uma história de ninar sobre Char Dandi? — pergunta Daamir ironicamente. — Mas é claro!
Eu e os outros confirmamos.
— Um dos anões tinha uma amante humana que ele visitava todo primeiro dia de cada semana. — Meus amigos deixam sorrisos de deboche escapar e eu me reteso, se alguém tentar interromper, será acotovelado rudemente. — Em uma dessas visitas, ela contou que teve um pesadelo em que Char Dandi caía e todo o mundo explodia. — Olhos rolam nas órbitas, mas ninguém interrompe. — O anão explicou que isso jamais aconteceria, mas a amante não se convenceu, afinal, o que que um anão poderia saber de magia? Nem um pouco ofendido, o anão pôs-se a observar o asteróide todos os dias e fazer as mais variadas medições a fim de apaziguar sua amante com evidências concretas que ele poderia explicar e que não tinham nada a ver com magia. Mas, infelizmente, a mulher estava certa. Depois de dez anos, ele analisou todos os dados e constatou que Char Dandi descia uma polegada e um milímetro a mais todos os anos.
Aguardamos em silêncio pelo restante da história, mas é o fim.
— E a amante? — pergunta Harani. — O que ele disse para ela?
— Dizem que depois de dez anos, quando ele voltou a visitá-la, ela já havia se casado com outro e constituído família. Disse que nunca havia sonhado uma maluquice daquelas, e o expulsou de sua casa a vassouradas.
Rimos comedidamente e lembramos de bebericar nossos vinhos.
— Senhor Loius — chama um empregado que entrou sem que ouvíssemos. Aceno para que ele fale. O homem está suando e ofegante. — A senhora Lanias mandou dizer que se o senhor não se recolher imediatamente, ela vai começar a arrancar partes de nós que não precisamos tanto como orelhas e dedos do pé e a cada minuto que passar partes mais importantes serão arrancadas — diz o homem de uma vez como se estivesse lendo uma carta.
— Está ficando bastante frio e tarde — diz Mardeen. — Melhor irmos mesmo.
— É, eu ainda tenho alguns documentos para assinar e selar — diz Daamir.
— E eu preciso visitar os mercadores que ainda estão atendendo para levar dois ramos de pata-de-cobra para minha esposa fazer uma de suas loções — diz Shadif.
— Conheço um mercador que atende fora do horário — diz Harani. — É amigo de minha família. Posso acompanhá-lo agora, se quiser.
— Seria ótimo, Harani. Obrigado.
— Eu também preciso me recolher — diz Sumayl. — Gosto de me levantar antes do Sol.
Um a um, eles me cumprimentam, agradecem pelo jantar e lançam promessas de uma nova reunião no mês seguinte. Agradeço suas presenças e os observo desaparecerem no fim do corredor junto com o empregado.



Em nosso aposento, Lanias penteia seu longo cabelo preto sentada à penteadeira.
— Graças à sua grosseria, meus amigos foram embora.
— Amigos? — pergunta ela num tom agudo, quase gritando. — Eles são comida, Loius.
— Eles são abençoados, Lanias.
Sento-me no sofá de frente para a sacada e esfrego as têmporas. Disseram-me que isso ajudava a aliviar a tensão, mas não está ajudando.
— E daí? Comemos mesmo assim.
— Não, não comemos. Nunca comeremos.
— Ou o quê? Algum ancião vai nos condenar ao Der Lyrius? — pergunta num tom irritado. — Estamos longe demais de Myrtandyr para essa conversa, Loius.
— Lá ou aqui, a regra é a mesma: não se come abençoados.
— O que você acha que aconteceria? A Deusa desceria dos céus e bateria na nossa cabeça com um cajado?
— Não sei o que a Deusa faria, Lanias — digo suspirando. — Mas nós seríamos julgados por assassinato pelos egadianos.
— Só se fôssemos pegos — diz ela me encarando pelo espelho com um sorriso no rosto.
— Lanias, pelos Deuses, o que você fez?
— Ninguém vai sentir falta de alguns mendigos — diz ainda sorrindo.
Afundo a cabeça em minhas mãos.
— A Deusa não vai deixar você impune, Lanias. Até mesmo os anciões respeitam a bênção! — digo mais alto do que gostaria.
— Você disse o mesmo depois que presenteei Jenfel com minha loção especial. E, até hoje, a Deusa nunca me puniu.
Não respondo de imediato. Para ser sincero, não estou tão ultrajado assim e também não sei o que fazer. Lanias suga minha energia como se eu fosse sua comida. Não tenho mais forças para me indignar e nem para ficar surpreso com suas atitudes. Mas me surpreende que a Deusa não a tenha castigado. Bom, a Tanneiver sempre disse que o tempo dos Deuses é diferente do nosso. Talvez seja essa a explicação.
— O tempo dos Deuses não é igual ao nosso — digo. — Talvez a Deusa ainda esteja fazendo uma lista de todas as suas transgressões. E, se este for o caso, não quero estar por perto quando sua sentença for aplicada.
— O que você quer dizer com isso? — Imediatamente pára de pentear os cabelos e vira-se para me encarar.
— Vou para Qandanajar.
— Quando?
— Agora.
— Não tem barcos a essa hora.
— Convenço alguém ou vou a pé — digo sem pensar e então me dou conta do absurdo. É uma distância e tanto.
— Você não vai me deixar — diz ela entre os dentes. — Eu não o permito.
— Eu nunca poderia lhe deixar nem se eu quisesse. E você não faz idéia do quanto eu tenho desejado colocar uma imensurável distância e um longínquo tempo entre nós, Lanias. Mas eu nunca poderia, não é? Você arranjaria um jeito de me atormentar mesmo que eu vivesse em outro sistema solar!
Surpreendentemente, um silêncio recai sobre nós. De minha irmã saem apenas uma respiração ofegante e lágrimas de sangue que acrescentam um tom azulado à sua pintura.
Uma coruja pousa na grade da sacada e olha dentro dos meus olhos. Perco-me nas profundezas escuras daquelas duas esferas negras.
Capture-me com suas garras impiedosas, ó criatura noturna, e me dê de comer aos seus filhotes num ninho escondido e inacessível para todos os seres que habitam esta gigantesca bola de lodo e areia. Deixe-me ser devorado e digerido por jovens aves que crescerão imponentes, encontrarão companheiros fiéis e porão ovos que eclodirão em réplicas que repetirão esse padrão indefinidamente. Quero ser parte do sangue de sua linhagem e sobrevoar o mundo com todos vocês até que o último espécime morra e, com ele, minha inexistência se inicie.
— Loius? — chama-me com a voz trêmula.
A coruja chirreia, abre as asas e se joga ao vento.
— Vou para Qandanajar. Volto quando você tiver se acalmado.
Saio sem ouvir resposta. Desço os oito lances de escadas da torre até alcançar a rua. Na quietude humana, a natureza brota sonoramente. Grilos, cigarras, corujas, sapos e morcegos trafegam na escuridão sob o veludo azul negociando tréguas, preparando emboscadas, formando alianças, declarando seus sentimentos com presas recém-abatidas, construindo ninhos, anunciando o fim da seca e estabelecendo seu território. Se eu gritasse com toda a minha força, será que todas essas vozes se calariam? Não testo minha idéia, pois requer toda a energia que eu não tenho mais.
Atravesso o rio com minha velocidade sobrenatural correndo por cima da água. Alcanço o outro lado num instante e adentro a floresta. Seria muito mais rápido seguir de barco até Naibar e depois pegar uma carruagem até Qandanajar, mas gosto de andar, especialmente à noite, cortando a brisa gélida com meu corpo. É o único momento de sossego que tenho e a única forma de me transferir para Myrtandyr sem, de fato, fazê-lo.
Noto que esqueci minha bolsa com as moedas. Não poderei alugar nem um quarto numa taberna. Mas isso não é problema. Posso descansar em algum telhado durante a noite e ficar na Academia durante o dia. Talvez até consiga passar a noite na Academia. Certamente os anões não estranhariam, talvez até me dessem as boas vindas. Bom, talvez nem tanto. Por mais inteligentes, brilhantes e competentes que sejam, os anões não são os mais amigáveis ou praticantes das boas maneiras cívicas. Mas eu gosto que seja assim. Depois de mais de um século convivendo com Lanias, aprendi a apreciar o distanciamento social.
Às vezes eu me pergunto: eu amo Lanias? Ou eu a aturo pela obrigação que tenho com nosso clã? Eu gosto dela, mas, se algum dia houve amor, agora só resta um tronco apodrecido no meio de um deserto seco e rachado. Às vezes eu me forço a amá-la, mas é como arremessar porcos de uma torre esperando que eles levantem vôo, o resultado é sanguinolento e visceral. Entretanto, sentimentos opostos afloram quando penso em Marius. Convivemos pouco, mas sinto falta de sua presença equilibrada e seus modos atenciosos e serenos. Marius sempre foi o mais tranqüilo de nós três. Não gosto de pensar no que lhe aconteceu.
Uma luz se acende sobre minha cabeça. Não consigo identificar a fonte por entre as copas das árvores, mas ela atravessa o céu para o leste silenciosamente. Não pode ser um asteróide, eu não veria a olho nu. E não pode ser um meteoro, pois não tem o rastro luminoso. É apenas uma imensa luz cruzando o céu como um vaga-lume gigante. Volto parte do caminho até onde as árvores ainda não haviam começado. A luz segue a uma velocidade constante e numa direção paralela demais em relação ao chão para ser um objeto que está caindo. Ela aproxima-se de Nul Barmal, dá uma volta completa ao redor do asteróide e desce lentamente na Cordilheira de Badivraaq. Pelos Deuses! O que é aquilo? Submerjo em minha mente como se fosse ao Fyrdenzyr, mas paro no meio do caminho, apenas o fato de poder submergir já prova que eu estava consciente e o que vi realmente aconteceu. Assim sendo, emerjo novamente. Aquilo não foi um fenômeno natural. Também não existem vaga-lumes tão grandes, nem pântanos próximos para gerar alucinações visuais. E pessoas não voam. Poderia ser uma manifestação de Maiitt? Por que a Deusa se manifestaria enquanto todos dormem e ninguém poderia vê-La e adorá-La? Jamais saberei os motivos divinos, então decido não questionar. Mas, honestamente, não acredito que aquilo seja uma manifestação divina. É algo para o qual ainda não temos nome ou informações. Pelos Deuses, eu teria tanto para compartilhar com meus amigos! Dias e noites acordados elaborando hipóteses! Talvez até pudéssemos convidar os anões e fazer amizade com eles. Ó, seria maravilhoso!
Sigo para o leste. Uso minha velocidade sobrenatural o máximo que consigo. A distância que eu percorreria em uma semana, percorro em duas horas. Estou esgotado. Ainda não cheguei ao sopé da cordilheira. Faço uma pausa e caço pequenos animais. Sem alimentar-me de animais maiores, não poderei usar minha velocidade novamente. Portanto, a próxima parte da viagem demorará uma quantidade imprevisível de tempo. Ainda é noite e minhas únicas companhias são os insetos. Eles percorrem meu corpo e voam ao redor de minha cabeça, mas não me mordem. Meu sangue não lhes é apetitoso.
A cordilheira é um trabalho magnífico. É quase tão alta quanto a distância de Nul Barmal ao chão. Percorre toda a extensão do continente para o norte e para o sul. Ao norte, adentra o mar em muitos quilômetros dividindo as águas. Quanto ao sul, ninguém sabe. A neve é um obstáculo competente. Ao contrário de Myrtandyr cujas montanhas são amarronzadas como a lama que cobre todo o território, a Cordilheira de Badivraaq é totalmente verde, coberta de vegetação até o topo. Do outro lado, situa-se Urukkat, um território dividido em norte, centro e sul, cujos povos digladiam-se há centenas de anos pelo controle dos recursos naturais. Por causa disso, há muitos séculos, muito antes de Nul Barmal nos visitar, a poderosa confraria dos Anduserai erigiu a cordilheira para que os urukkatianos jamais invadissem Egádia e destruíssem tudo o que seu povo havia construído.
Ando até o dia raiar e finalmente alcanço o sopé da montanha. O topo desvanece entre as nuvens, e uma floresta antiga sobe a montanha até perder de vista. Eu não poderia correr nem se quisesse com todas essas árvores no caminho, mas elas são de ótima ajuda durante a escalada.
Submerjo parcialmente ao Fyrdenzyr. Ainda tenho controle do meu corpo e estou atento ao que acontece ao meu redor, mas não percebo o tempo da mesma forma. É como uma pintura que se move, mas sem ser devagar ou rápido. Quando não estamos olhando, ela se move instantaneamente e, quando olhamos, ela parece inerte. Imagens de meu Fyrdenzyr escorrem para a realidade. Sei que Lanias está pintando um quadro ao meu lado sem precisar olhar para ela. Uma pincelada na tinta, outras três num espaço limpo para tirar o excesso e várias pinceladas longas na tela como se penteasse um precioso cabelo. Avanço pela montanha e a imagem de Lanias flutua sobreposta à realidade. Do meu outro lado, Marius está sentado sobre uma rocha diante de um lago e medita para a Deusa.
Meus pés sangram. Emerjo para o Fyrdenver. Bolhas cobrem minhas mãos e me impedem de fechá-las apropriadamente. Atrás de mim, Egádia se estende como uma tapeçaria. A sensação é de que sou um gigante e poderia aterrorizar todos se pisasse em uma cidade. No céu, quase posso tocar em Nul Barmal. É tão grande quanto uma montanha e terrivelmente belo. Não sobraria nada se caísse.
Caço pequenos animais e sento-me num tronco para comê-los e apreciar a vista. O céu está limpo e rosado com o Sol vermelho bem no topo. Não faço idéia de que dia seja ou por quanto tempo escalei. Várias partes de meu corpo tremem involuntariamente, mas ainda mantenho o controle. Pela distância do chão e do topo a mim, calculo que esteja quase na metade da escalada. Aguardo alguns dias neste local caçando o que encontro à minha volta. Preciso que as feridas fechem antes de poder continuar.
Submerjo totalmente ao Fyrdenzyr.
— Você voltou para mim, meu amado — diz Lanias com um sorriso acolhedor e um tom doce na voz.
Beijamo-nos amorosamente e permanecemos abraçados por um longo tempo em meio a um campo de tulipas roxas que se estende a perder de vista.
— Você está machucado — diz ela acariciando minha mão como se o simples toque tivesse poder curativo.
— É por uma boa causa.
— O que está aprontando desta vez?
— Não sei o que é ainda e por isso mesmo preciso descobrir o que é.
— Tenho certeza de que vai descobrir, meu amor. — E beija minha testa. — Vamos nos banhar em Mel Nielun?
— Agora não — digo acariciando seus cabelos. — Preciso me alimentar e continuar a escalada.
Ela sorri amigavelmente e me abraça.
— Estarei aqui quando você voltar.
— Eu sei. — E a beijo uma última vez.
Emerjo para o Fyrdenver. Se ao menos a Lanias verdadeira fosse tão amável assim...
Cicatrizes secas marcam meus pés e minhas mãos como um esboço apagado de uma ferida que não existe mais. Considerando o tempo que levamos para regenerar e a minha fome, eu devo ter ficado submerso por quase uma semana. Caço e continuo minha escalada. A montanha está cada vez mais íngreme e só consigo avançar subindo pelas árvores e me pendurando nos cipós. Enrolo meu braço em cada um e dou um puxão para verificar se está firme e assim prossigo.
Submerjo parcialmente. A imagem de Jenfel me amamentando se sobrepõe à realidade. Ela cantava para mim enquanto alisava meus cabelos pretos, e vez ou outra, beijava-me a testa. Durante este ato, a Tannei entrou em minha mente e me ajudou a construir meu Fyrdenzyr.
— Este é um espaço divino — começou ela. Estávamos na negritude vazia e cheia de possibilidades do plano mental. — Uma ponte divina entre você e a Deusa. Sempre que precisar de orientação, pode submergir e meditar sobre Maltannia. As respostas não virão imediatamente ou de maneira óbvia, mas, do jeito Dela, a Deusa lhe responderá, você só precisa ficar atento. — Jenfel se afastou um pouco de mim, mas o volume de sua voz manteve-se o mesmo, como se ela estivesse bem próxima. — Vamos, construa um chão.
— Não sei como — disse o meu jovem e imaturo eu.
— Pode copiar qualquer chão. Lembra-se do tapete onde estamos deitados agora? — Confirmei. — Reproduza-o aqui, debaixo de nossos pés.
Esforcei-me como se estivesse empurrando o mundo com as mãos, mas nada aconteceu.
— Não, não, Loius. Não se trata de força, trata-se de concentrar-se na visualização. Veja o tapete sob nossos pés e ele aparecerá.
Procurei me lembrar do bordado do tapete. Várias rosas pretas e brancas entrelaçadas por galhos roxos numa moldura cruzada azul escura. Conforme me lembrava, a negritude do espaço desvaneceu em cores e, sob nossos pés, o tapete apareceu. Era do mesmo tamanho do verdadeiro.
— Muito bem! — disse Jenfel com um largo sorriso. — Agora expanda o tapete até desaparecer de vista.
Estiquei o tapete deformando-o. Não consegui expandir muito além de nós. O resultado foi um tanto feio.
— Assim nunca daria certo mesmo, meu bem. Multiplique o padrão do tapete como se estivesse um ao lado do outro.
Encolhi o tapete para o tamanho inicial. A tarefa parecia levar mais tempo para acontecer do que as anteriores. Voltei ao nível inicial e fiz brotar vários tapetes que surgiram mais facilmente do que o primeiro. Mas, à uma distância um pouco maior do que da primeira vez, não consegui mais criar nenhum tapete.
— Por enquanto está bom, mas eu estou cansada de ficar em pé. Por que não cria uma almofada gigante e bem macia?
Visualizei uma das almofadas sobre a qual estávamos deitados e a fiz brotar em tamanho natural. Comecei a esticá-la e distorcê-la.
— Não precisa esticar nada, meu belo. Apenas veja a almofada como se estivesse olhando bem de perto.



O cipó arrebenta. Submerso entre o Fyrdenver e o Fyrdenzyr, a queda não acontece imediatamente, mas ao mesmo tempo já aconteceu. Pairo no ar como se pudesse voar ao mesmo tempo que um galho atravessa minhas costas e sai pela barriga. Céu e terra são um só. Meus irmãos e todas as Tannei caminham de um lado para o outro de ponta-cabeça com folhagens atravessando seus corpos. Fyrdenver e Fyrdenzyr tornam-se uma mesma imagem que desaparece no escuro e no silêncio.



Corujas chirreiam ao meu redor acompanhadas de vários insetos conhecidos e desconhecidos. Ao fundo, ecoa uma vocalização peculiar. Abro os olhos. Não sei que noite é. Estou de cabeça para baixo. O galho está pintado de azul.
A dor é como um cachorro de rua que você alimentou algumas vezes: sempre que lhe vê, vem pular ao seu redor lhe impedindo de andar. Ou você o chuta e finge que ele não existe, ou cede e lhe dá atenção. Eu cedo. Garras malditas encravam-se pela minha carne e percorrem todo o meu corpo me rasgando de dentro para fora. Cada movimento é como uma marretada. Acredito que seria muito pior se eu precisasse respirar constantemente como os humanos. Com as pernas, empurro-me para a ponta do galho e o peso do meu corpo encarrega-se do restante. Caio mais alguns metros e aterrisso num tronco largo e firme. As garras dançam uma valsa dentro de mim com luvas de espinhos.
Se eu não encontrar comida apropriada logo, vou definhar e entrar num tipo de hibernação até que, um dia, a última gota de energia do meu corpo vai se esvair e eu vou morrer permanentemente.
Submerjo. Alguns raios de sol do entardecer atravessam as altas vidraças do meu museu e pintam tapetes de luz no chão de madeira mogno escura entre as estantes. As plantas cobrem os móveis, enroscam-se pelos instrumentos musicais e sobem pelas paredes até o teto de onde descem em espiral pelo centro, os galhos engrossando até formarem uma poltrona suspensa em forma de gota. Sento-me nela.
Não tenho energia suficiente para voltar e nem para seguir adiante. Tampouco posso permanecer caído neste tronco. O que eu posso fazer? Orar para a Deusa não vai adiantar, pois Ela nunca responde. Deve haver algo que eu possa fazer. Sempre há. Mestre Vallun dizia que não existe problema sem solução, é da natureza de ambos andarem de mãos dadas. E, se acaso não houver solução, então não há problema, é apenas uma questão de perspectiva.
Já que não posso me alimentar de animais apropriadamente, eu poderia comer cogumelos. Existiriam cogumelos nesta montanha?
Um galho agarra um livro de uma das estantes e põe aberto em minha frente. É um livro sobre as florestas de Egádia e toda a vegetação já catalogada. Antes de os Anduserai erigirem a Cordilheira de Badivraaq, havia uma extensa floresta que ligava Egádia e Urukkat. A maioria dos cogumelos catalogados dessa floresta são de clima quente e úmido. Agora que seu ambiente mudou, eles provavelmente já morreram. Os que possivelmente sobraram, são todos venenosos. Como eu não estou em condições de explorar a montanha colecionando cogumelos não catalogados, esta possível solução está descartada.
O galho traz outro livro. Animais catalogados. A maioria não existe mais ou eu já as teria encontrado em minha escalada. As espécies que ainda existem são de pequenos roedores que estão longe de ser uma refeição apropriada. Mais adiante há uma sessão só para símios com descrições de seus hábitos alimentares e comportamentais, gravuras, e sons característicos. Uma espécie de babuínos albinos era particularmente conhecida por sua vocalização que imitava a comunicação dos selvagens. Quem eram esses selvagens, eu não sei. Como o livro foi escrito por vários magos egadianos numa era antes da separação das duas nações, eu diria que os urukkatianos seriam os selvagens aqui. No entanto, eu me lembro desses babuínos de um livro de mestre Vallun. O galho me traz o livro dela e comparo as duas descrições. Esses babuínos albinos existiam por toda Myrtandyr em eras imemoriais, quando os anciões eram os únicos seres inteligentes num mundo desprovido de humanos e anões. Eles se alimentavam apenas desses babuínos. Acordavam de seus Fyrdenzyr durante uma semana por século e devoravam o máximo de babuínos que conseguiam. Conseqüentemente, levaram os animais à extinção. Ou assim se acreditava, já que as gravuras e as descrições são extremamente semelhantes. No livro de mestre Vallun, há a notação musical da vocalização dos babuínos. Vários galhos se deslocam para os instrumentos musicais e reproduzem a notação. É o mesmo som que ouvi quando acordei!
Um galho segura à minha frente a moldura de um quadro. Na tela em branco, repassa a memória de quando acordei de cabeça para baixo. As corujas chirreavam, os insetos zumbiam e, ao fundo, a vocalização ecoava abafada.
Repasso a memória mais algumas vezes. O som veio do norte, alguns metros dali, abafado. De dentro de alguma caverna, talvez? Bom, considerando que eu caí, então teria que subir diagonalmente.
Emerjo. A ferida está fechada e cicatrizada, mas minha energia está baixa. Não consigo mais enxergar no escuro. É o fim da tarde, o Sol já está quase totalmente escondido atrás do mundo, mas alguns raios escapam, o suficiente para pintar o céu de rosa escuro. Escalo com mais cuidado do que antes, sem submergir. Alcanço o ponto de onde acredito ter vindo o som. As rochas abrigam uma abertura de um metro. O interior é completamente escuro. Espremo-me pela passagem. A caverna alarga-se no interior o suficiente para que eu consiga me sentar. Breves gemidos com som de "u" ecoam e uma movimentação arrasta cascalhos no fundo da caverna. Um odor peculiar de mofo e carne molhada chega até mim. Concentro-me em minha audição. Respiração. Soluços. Corações batendo. Oito corações batendo. Arrasto-me para o fundo da caverna e paro quando um sonoro e grave "u" soa como um aviso. Cascalhos agitam-se e alguns passos se aproximam. Aromas de macho, fêmeas, leite, urina e medo alcançam minhas narinas. O odor do macho é bastante acentuado e sinto o calor de seu corpo mesmo que haja uma considerável distância entre nós. Pêlos farfalham e outro "u" soa, desta vez, autoritário e vindo de cima. Pelo ruído da areia sendo pisada com força, calculo que o macho deva ser tão grande e pesado quanto um humano. Eu poderia me alimentar apenas dele e poupar o restante do bando, com sorte, um dos filhotes é um macho e poderia continuar a linhagem. Entretanto, devorar todos restauraria minha energia completamente e ainda me daria uma boa reserva para voltar a Darlib. Talvez eu pudesse comer apenas os adultos e levar os filhotes comigo, tenho certeza de que Harani construiria um espaço seguro para eles e, depois de alguns anos, os números aumentariam. Assim, a extinção seria evitada.
Ou posso comer o macho e uma das fêmeas, de preferência a que está sem filhotes. E, na volta, como as outras duas fêmeas e levo os filhotes para Darlib. Mas talvez, se eu comer o macho, considerando que eu já encontrei seu ninho, as fêmeas poderiam abandonar esta caverna e eu não as encontraria quando voltasse. Poderia haver algum outro grupo por perto?
O macho grita um "u" agressivo e arremessa uma pedra que bate em meu ombro e cai em meu colo. Sim, é preciso agir.
Arremesso a pedra de volta e o macho enlouquece. Avança sobre mim e rolamos no chão de cascalhos. Vários gritos compõem uma sinfonia escandalosa. Ele me dá socos na cabeça e no peito. Meu rosto se transforma e exponho meus dentes. Ele solta um último urro quando rasgo seu pescoço. Dreno todo o sangue antes que seque; quebro o crânio com uma pedra e devoro o cérebro; destroço o tórax e consumo fígado, coração, baço e pâncreas. Os rins, juntamente com o intestino, são as partes mais detestáveis do corpo, por isso são relegadas ao cultivo de cogumelos, mas desperdiçar esse material não me parece apropriado neste momento, então como os dois rins, mas poupo-me do martírio intestinal. A textura esponjosa e o forte odor amoníaco são repulsivos, mas a fome não é uma donzela requintada.
As fêmeas ainda gritam, mas não se aproximam, pelo contrário, tentam desaparecer no fundo da caverna. Sento-me e recosto na parede. Minha visão noturna ressurge gradativamente, como uma gota de corante se espalhando na água. O babuíno é largo e mais forte que um humano. Os pêlos brancos cobrem o corpo quase todo, exceto pelo tórax e abdômen.
Devo comer todos ou não? Acredito que se cultivássemos estes símios, nossa dieta não seria prejudicada e nossas relações com os humanos seriam levemente mais agradáveis.
No fundo da caverna, as fêmeas se espremem umas contra as outras. São um pouco menores que o macho e também cobertas de pêlos brancos. Os filhotes têm o tamanho de um palmo e meio e não sobreviveriam sem as mães. Talvez seja melhor deixar a natureza seguir seu curso. Sempre haverá a possibilidade de uma expedição para capturar alguns espécimes, mas preciso levar uma prova de sua existência. Exponho minhas garras e esfolo o cadáver, sua pele será mais que suficiente. Quando termino, empurro o corpo para fora e o arremesso montanha a baixo, não há necessidade de as pobres coitadas das fêmeas terem de lidar com o cadáver do parceiro na entrada do ninho.
Sigo com a escalada, renovado, mas desta vez, não submerjo. Percorro todo o trajeto prestando total atenção a cada cipó e galho. Paro ocasionalmente para me alimentar de pequenos animais e apreciar a vista. Levo vinte e sete dias para chegar ao topo.
O Sol começa a despontar no leste e os primeiros raios rosados inundam o céu gerando um reflexo multicolorido no vasto lago que cobre a cordilheira de um lado a outro. No centro, uma esfera de metal perfeitamente polida e reflexiva flutua silenciosamente acima da água, fixa no ar. Tiro minhas roupas e as deixo junto com a pele do babuíno na margem. Nado até a esfera que é tão grande quanto uma carruagem e seus cavalos somados. Não há portas ou janelas, é como se um ferreiro tivesse criado uma perfeita esfera de metal. Estico o braço para tocá-la e sou puxado para cima. Fico colado à esfera sem conseguir me soltar, meu cabelo também gruda na superfície como se tivesse vontade própria. O metal é liso e quente. Uma vibração expande-se do centro da esfera até a borda e me atinge com toda a força. Sou arremessado por cima da água e caio na margem. Raios caminham no exterior da esfera como fios de cabelo balançando caoticamente com o vento.
"O plasma é o estado mais selvagem da matéria", soa a voz de Daamir em minha mente. "Não é possível dominá-lo. Você precisa senti-lo, abraçá-lo e guiá-lo para o que você quer. Mas, para isso, terá que dar sua alma a ele e sobreviver ao processo".
Seria estupidez gastar toda a minha energia tentando controlar o incontrolável sem saber fazê-lo, então desisto de minha idéia antes de sequer pô-la em prática.
Visto minha roupa e sento-me sobre uma pedra. Escuto, aspiro, observo, sinto. Quero guardar a esfera em meu Fyrdenzyr para compartilhá-la com meus amigos assim que eu voltar. Poderemos gastar dias tentando decifrar a razão de sua existência; por que está aqui; como chegou aqui; o que está fazendo aqui; de onde veio; quando vai embora e para onde; se existem outros iguais e quantos são.
A esfera veio do oeste. Poderia ter vindo de Myrtandyr? Poderia ser alguma engenhoca que Fynzar Zannorian construiu com a ajuda dos anões? Se for, estou agindo feito um tolo. Esquadrinho o local até um raio de um quilômetro ao meu redor. As únicas mentes que encontro são de animais. Se houvesse algum Synnoldyr dentro da esfera, mesmo que tivesse as barreiras mentais erguidas, eu o encontraria. Assim sendo, só consigo pensar em duas possibilidades: uma, devo ter levado uns dois meses para alcançar o topo, portanto, se havia alguém na esfera, teria tido muito tempo para sair. Duas, de alguma forma, a esfera seria controlada remotamente. Os magos conseguem mover materiais à uma determinada distância, não seria loucura acreditar que Fynzar e os anões tenham conseguido algo similar.
Mas qual seria o propósito disso? Estudar Nul Barmal? Bem, daqui, a visão do asteróide é perfeita e aterrorizante. É muito maior do que aparenta visto do chão. Sua superfície é marcada por milhares de crateras e partes arrancadas. Possui um formato levemente ovalado e é da cor de terra seca. Mas nós já sabemos disso tudo há muito tempo, graças aos anões. O que mais haveria para saber? Talvez pudéssemos plantar no asteróide? Se ao menos pudéssemos alcançá-lo. Mas é claro! A esfera pode alcançar Nul Barmal, logo, poderia levar alguém até lá para cultivar seu solo. Se for cultivável. Poderia haver metais e pedras preciosas nele? Se houver, consigo entender o propósito de criar algo tão intrigante quanto esta esfera para minerá-lo. Que jóias maravilhosas poderia Nul Barmal esconder? Tantas perguntas e quase nenhuma resposta.
Do outro lado da cordilheira, a visão de todo o território de Urukkat é belíssima. Um verde claro e esparso cobre uma porção do norte e do sul. Ao centro, um vasto deserto divide a região. Para o horizonte, no leste, consigo avistar apenas o topo de algumas montanhas da Cordilheira de Abippi Akbuli.
Durante a semana seguinte em que permaneço no topo, a esfera não se manifesta e ninguém aparece. Talvez eu possa convencer Harani a financiar uma expedição. Muitos homens e magos Lasdi poderiam levar a esfera para Darlib.
Amarro a pele do babuíno em minha roupa e ponho-me a descer a montanha. Alimento-me do que encontro pelo caminho e levo um pouco mais de um mês para alcançar o sopé da montanha. Alimento-me de alguns macacos e chacais que encontro e sigo para Darlib. Caminho abrigando-me na sombra das árvores e levo ainda mais tempo do que antes para percorrer a mesma distância. Aproveito as noites para cobrir uma distância maior. Em pouco mais de uma semana avisto as construções de Darlib. Devo ir direto para casa. Espero que Lanias não tenha enlouquecido com minha ausência.
O calor me envolve como um felpudo casado de pele. Transpiro como gelo derretendo na brasa, mas não posso parar agora. Preciso ir para casa. As pessoas me lançam olhares irados e resmungam insultos. Outras apontam para mim e gritam pelos guardas.
Meu sangue e minha carne fervem, tombo paralisado ao chão. Um egadiano, com o uniforme lilás e dourado e uma imponente tiara de magnetita, aproxima-se com o punho cerrado e erguido. É um mago do tipo Resdi, que domina líquidos. E, a julgar pelo fato de que trabalha na Guarda, domina apenas um estado da matéria, ou seja, sofre humilhações dos magos superiores e, portanto, vai descontar em mim toda a ira de um ego repetidamente ferido.
Sangro por todos os meus orifícios.
Guardas comuns me prendem com algemas, tiara, mordaça e correntes, tudo de magnetita. O mago me liberta de sua pegada visceral e paro de sangrar. Os guardas me arrastam pelas ruas onde as pessoas se aglomeram para cuspir e arremessar esterco em mim por todo o caminho até o prédio da Guarda. Colocam-me em uma cela sozinho. Consigo me mexer o suficiente para me sentar e empurrar alguns dejetos que se penduram em minha roupa, mas não posso falar ou remover as amarras.
— Só para confirmar, você é Loius Voidyrian? — pergunta-me o Resdi com um sorriso desdenhoso.
Confirmo. Se eu não fosse, ele estaria morto antes do anoitecer e, certamente, haveria uma batalha entre os magos e os poucos Synnoldyr que insistem em viver neste caldeirão. Mas imagino que este mago já tenha alcançado o limite de sua tolerância e agora apenas queira ver o mundo queimar. Ele faz um sinal e os outros guardas nos deixam a sós. Na cela de frente para a minha, um tipo criminoso encara-me por entre as barras. Seu sorriso banguela não diminui em nada seu semblante hostil. Veste apenas uma calça puída e imunda. Eu poderia entrar em sua mente e criar uma distração para trazer o comandante da Guarda e conseguir respostas, mas toda esta magnetita em meu corpo me impede.
O Resdi dá um passo para o lado e fica entre nós dois. Ele ergue e fecha o punho como antes. Meu sangue ferve novamente. Perco controle do meu corpo e caio no chão. A dor não se aproxima de ser empalado por um galho, mas tampouco é ignorável. Minha garganta emite gemidos contra minha vontade.
— Bestas malditas, selvagens e imundas — diz ele. — É o que vocês todos são. Char Dandi deveria ter caído em Myrtandyr e livrado o mundo de sua presença abominável.
Sangro novamente. Sem comer e perdendo fluidos desse jeito, vou entrar em hibernação em pouco tempo. Se ao menos eu pudesse fazer algo.
O criminoso gargalha roucamente.
— Sopa de sanguessuga — diz enquanto me encara do outro lado de sua cela.
— Silêncio! — briga o Resdi.
O mago ergue seu outro punho e tortura o prisioneiro do mesmo jeito. O homem não revida, arrasta-se para o canto da sela e deita-se em posição fetal, em silêncio, sua calça manchada de vermelho. O mago volta-se para mim. A vida esvai-se de meu corpo junto com meu sangue e suor.
— Vocês dois deveriam receber a pena de morte, mas o prefeito não quer iniciar uma guerra. Uma pena, porque nós ganharíamos num piscar de olhos.
De repente, ele me liberta de sua pegada. Tento levantar-me, mas escorrego em meus fluidos e bato a cabeça na quina da cama de pedra. Meus gemidos me pertencem novamente.
— Se dependesse de mim — ele continua —, aquela vagabunda da sua amante sofreria bem devagar, uma gota por vez, até que desistisse de viver.
Oh, Lanias, o que você fez?
— Fid-Resdi, o que você está fazendo? — pergunta uma voz masculina grave, porém tranqüila.
— Comandante Vahdat — diz o Resdi que agora descobri ser da posição mais baixa de todas. — Capturei o fugitivo. Loius Voidyrian.
O comandante se aproxima da minha cela e observa o interior como se fizesse um registro mental de todos os objetos, eu incluído. O homem é um grande exemplar humano com quase dois metros de altura; forte constituição física; uniforme e postura impecáveis; perfeitamente escanhoado; cabelo curto; a pele negra como a de todos os egadianos; e uma tiara simples de magnetita envolvendo a testa. Provavelmente um mago, e não um Resdi da mais baixa categoria, mas possivelmente um Ada-Resdi, o terceiro mais alto.
— Higienize o prisioneiro e leve-o até minha sala.
— Agora mesmo, comandante.
O imponente homem retira-se e dois guardas surgem. O Fid-Resdi saca uma chave da sua manga, abre a cela e os dois guardas me arrastam para uma saleta com uma torneira alta. Colocam-me de pé, rasgam minhas roupas com suas facas e me lavam com um sabão de banha de porco. Detesto esse odor de cachorro molhado, mas não estou em condições de pedir sais de banho.
Minha alta estatura não os intimida, e vendo que eu não tenho órgãos genitais como os humanos, todos eles deixam escapar risadas desdenhosas.
— É isso que eles chamam de macho? — comenta o primeiro.
— Vai ver as fêmeas é que carregam as bolas — diz o segundo.
— Pelo estrago que a puta dele fez, ela deve ter umas vinte bolas — diz o primeiro.
— Ele é que deve ficar de quatro para ela — diz o segundo.
Os dois guardas gargalham e me esfregam com violência. O Fid-Resdi me encara com seu sorriso cheio de nojo.
Eles me enxugam de qualquer jeito, apenas para que eu não fique pingando no chão. O mago me paralisa novamente e os guarda retiram as algemas e correntes para me vestir com roupas velhas e puídas, mas limpas e cheirosas, por mais estranho que seja. Em seguida, me acorrentam e algemam de novo. O mago me liberta e os dois guardas me arrastam pelo corredor. O outro criminoso ainda está deitado no canto. Subimos algumas escadas e atravessamos outro corredor. Paramos em frente a uma porta e o Fid-Resdi bate. A voz do comandante nos manda entrar.
A sala é comprida e de um tamanho confortável, abrigando uma mesa espaçosa com duas cadeiras de um lado e a poltrona do comandante do outro, ao fundo; dois sofás de dois lugares um de frente para o outro ao centro; uma pequeníssima mesa de centro entre os sofás; uma estante repleta de livros em uma parede; e nenhuma decoração, nenhum tapete, cortinas, quadros ou plantas. Apenas o essencial. Sobre a mesa, um bloco de papel e uma caixa de madeira que provavelmente contém uma pena, um vidro de tinta, um pedaço de cera e o selo de metal.
Os guardas me colocam sentado em uma das cadeiras de frente para o comandante, fazem uma reverência e saem. O Fid-Resdi continua de pé atrás de mim. O comandante me encara como se procurasse algum traço de humanidade. Em seguida, faz um sinal para o Fid-Resdi que remove a mordaça. Movo meus lábios e minha mandíbula, mas não digo nada.
— Pelo que os antigos sempre contaram, os sanguessugas não fogem abandonando seus parceiros.
Minha sobrancelha se franze. Ele me lança um olhar interessado.
— Você não abandonou sua parceira?
— Não.
— Segundo os relatos que recolhemos, você ficou fora por uns quatro meses após o surto dela.
— Estava fazendo uma pesquisa de campo — respondo. — Saí antes do surto dela, acredito eu.
— Você não tem idéia do que aconteceu, tem?
— Não.
— Sua parceira matou mais de oitenta pessoas num surto de cólera há uns quatro meses.
Oh, Lanias...
Involuntariamente, fecho meus olhos e respiro fundo. Acredito que minha reação espontânea tenha convencido o comandante. Ele deixa uma risada gutural escapar de maneira polida. Encaro-o.
— Foi por isso que não me casei — diz ele com um sorriso no canto dos lábios.
— Não nego que Lanias tenha feito isso, mas sei que eu não matei ninguém, já que eu nem mesmo estava aqui. Então por que estou sendo tratado desta forma?
— Você deve ter percebido que a população não está muito feliz com os sanguessugas. — Confirmo. Ele continua: — Depois de uma carnificina dessas, não posso deixar seu tipo solto por aí.
— Compreensível. O que vocês fizeram com Lanias?
— Ela está sob custódia no porão da prefeitura.
— E agora?
— Por mim, Lanias receberia a pena capital e você seria exilado de Egádia, mas eu apenas mantenho a ordem. Quem faz as leis é o Conselho.
Eu já ouvi falar do Conselho. Um grupo de magos da alta classe, políticos e os membros sêniores das famílias mais ricas. Mas eles nunca aparecem em nenhum evento, ninguém sabe exatamente quem são, e fazem de tudo para manterem-se inacessíveis. De qualquer forma, nossas vidas estão nas mãos do prefeito, a autoridade máxima em Darlib.
— Você será escoltado até a prefeitura e, de lá, não será mais problema meu. Sugiro que mande alguém recolher seus pertences e não ponha seus pés em minha cidade novamente — diz com um tom franco e firme.
Confirmo.
— Uma coisa antes, se me permite, comandante. — Ele assente em silêncio. — Eu trouxe uma pele comigo, de um animal que cacei. Gostaria de reaver essa pele.
O comandante olha inquisitivamente para o Fid-Resdi.
— Deve estar na sala de banho — responde o mago inferior.
O comandante faz um sinal para ele. O mago abre a porta atrás de mim e os guardas me arrastam para fora do prédio até uma carruagem. Aguardamos um tempo e o Fid-Resdi entra na carruagem e joga a pele do babuíno em cima de mim. Ele faz um sinal para os guardas e a carruagem inicia sua viagem.
— Vocês nunca deveriam ter saído de Myrtandyr. — Não digo nada, ele continua. — Por que você e sua porca assassina vieram para Egádia?



Era um dia ameno como todos os outros. O Voidyr já havia passado e eu estava em uma das câmaras da fortaleza subterrânea de mestre Vallun auxiliando Loimia com a irrigação dos arbustos de amora.
— Teríamos mais tempo para outros experimentos se mestre Vallun aceitasse a instalação do sistema de irrigação que os anões ofereceram — disse eu.
— Ela ia aceitar, mas eu a dissuadi — disse Loimia.
— Por quê?
— Estas plantas estão acostumadas a um ambiente muito diferente deste — começou ela. — Imagine que você tenha vivido sua vida inteira em algum lugar e, de repente, é transportado para outro que é o exato oposto e forçado a trabalhar sozinho, sem saber o que está acontecendo. Estes arbustos precisam de nós até que dêem frutos. E então, as novas sementes estarão prontas para viver neste novo ambiente sem nossa presença constante.
Sorri.
— Acha que estou ficando insana como Fynzar? — perguntou ela.
— Perdoe-me se minha reação pareceu deboche — disse eu. — É que você trata essas plantas melhor do que tratamos uns aos outros.
— Estranho não deveria ser eu tratar bem as plantas.
— Concordo plenamente.
— Você e Lanias deveriam submergir ao Fyrdenzyr antes de discutir — disse ela cortando o assunto.
Senti meu rosto se contrair, mas não era um sorriso.
— Acredite, eu sempre tento, mas Lanias tem uma inclinação para o drama.
— Então as runas acertaram na designação do mestre dela.
— Talvez. Lanias é tão egocêntrica que poderia ser aprendiz de Luiton Bonvulian.
Ficamos em silêncio por um momento. O único som sendo o da água atingindo o solo do canteiro.
— Você a ama? — perguntou-me Loimia e imediatamente pôs-se a pedir desculpas. — Sinto muito, não era para ter saído desse jeito. É claro que você a ama, o que eu quis dizer é que--
— Eu entendo — disse eu interrompendo-a. — Às vezes eu tenho a mesma dúvida. Eu a amo, claro. Se alguém a ameaçasse, eu arrancaria sua cabeça. Mas não ignoro que amá-la exige muita energia. Então às vezes me pergunto se a amo absolutamente e ou se a amo simplesmente porque devo.
— Ela desconfia de seus sentimentos?
— Creio que não. E, para ser honesto, acredito que seja melhor que ela não desconfie, porque não sei do que ela seria capaz.
Um silêncio mórbido brotou entre nós assim que uma idéia nos atingiu ao mesmo tempo. Eu não ousei pronunciá-la, mas Loimia sempre teve um temperamento mais franco.
— O que você acha que aconteceu com Landon Zannorian? — perguntou ela.
Eu queria responder, eu queria dizer que, provavelmente, algum de seus inimigos o envenenou. E, acima de tudo, eu queria acreditar em minhas desculpas, mas nenhuma palavra se formou.
Ficamos em silêncio por algum tempo até que Loimia decidiu mudar de assunto novamente.
— Você ama mestre Vallun?
Meu sangue esquentou como se fosse feito de fogo líquido. A mestre e eu sempre tivemos o cuidado de esconder o que fazíamos no silêncio da solidão, enquanto todos estavam ocupados dando graças ao Voidyr. No entanto, eu não tinha certeza se Loimia se referia a isso ou à devoção natural de um aprendiz para com seu mestre.
— Mestre Vallun é brilhante e prodigiosa. Sou grato por ter sido designado a ela.
— Não é a isso que me refiro.
Encarei-a por um momento. Seu semblante escondia o sorriso suave de alguém que já havia passado por uma situação similar.
— Amor é uma palavra e um sentimento que eu prefiro reservar aos membros de meu clã — respondi.
Ela assentiu como se entendesse perfeitamente o que eu queria dizer e como se compartilhasse de meu sentimento.
— E você, já amou ou ama? — perguntei.
Seu semblante derreteu-se enquanto ela encarava imagens na escuridão.
— Da mesma forma que eu jamais contarei a ninguém sobre você e a mestre, espero a mesma decência de você sobre o que vou dizer agora.
Assenti em silêncio.
— Ainda amo, tanto que poderia dar a minha vida por elas.
— Elas? Quantas?
Loimia sorriu da mesma forma como quando via uma de suas plantas florescer.
— Duas. Minha irmã, Vanlyn, e uma outra Synnoldyr que prefiro não mencionar por segurança.
— Vanlyn é aprendiz de Zelgon Zannorian, correto?
— Sim.
— Você a vê com freqüência?
— Raramente. E apenas a Deusa sabe o quanto sinto a falta dela.
— Vanlyn sabe sobre a outra?
— Nós três sabemos sobre nós três.
— Você vê a outra com mais freqüência?
— Há muitos anos não a vejo. — Seu semblante desmanchou-se novamente.
— Existe algum motivo para isso?
— Sim. Os Zannorian — disse com um sorriso azedo e macabro que eu nunca havia visto antes.
No momento em que eu ia pedir para ela elaborar mais sobre o assunto, Lanias entrou pela porta como um furacão.
— O que está fazendo aqui? — perguntou num grito agudo, como se tivesse se espetado num espinho. — Estou há horas procurando por você!
— Estou regando as plantas.
— Isso não é tarefa para você. Foi Vallun que mandou?
— Não. Gosto de cuidar das plantas.
Lanias encarou Loimia com suspeita e deu alguns passos na direção da Sardurian. Esta deixou seu sorriso mais malicioso aflorar e disse:
— Não se preocupe comigo, Lanias. Se eu tivesse que seduzir um de vocês dois, seria você.
Minha irmã parou abruptamente e empertigou-se desconcertada. Era a primeira vez que eu via Lanias sem saber como agir, e ela parecia adorável assim. Só a Deusa sabia o quanto eu gostaria que minha irmã fosse mais fácil de amar.
— Quero conversar com você — disse-me Lanias.
— Estou ocupado agora.
— Pode ir, Loius — disse Loimia. — Por mais que sua companhia seja agradável, prefiro ficar a sós com meus pensamentos.
Seguimos para meu aposento. Sentei-me na poltrona e encarei minha irmã que andava de um lado para o outro do cômodo.
— O que é desta vez, Lanias?
Ela me encarou como se eu fosse vítreo, translúcido, aquoso. Calafrios estremeceram a carne de meu corpo todo.
— Você não respondeu minha pergunta. — Arrisquei.
— Precisamos ir embora o mais rápido possível. — Sua voz era afiada e fria como uma faca.
— Por quê?
— Já passou da hora de você se libertar de mestre Vallun.
— Ainda tenho muito a aprender, Lanias.
— Você pode aprender em qualquer outro lugar.
— Duvido que existam criaturas que saibam tanto quanto mestre Vallun.
— Os anões.
— Não são dos mais sociáveis — disse eu.
— Não me interessa. Vamos para Trivus.
— Se o que dizem for verdade, aquilo lá é um pesadelo — disse eu. — Você, mais do que ninguém, jamais conseguirá viver em Trivus.
— Egádia, então — disse Lanias. — Qualquer lugar, menos Myrtandyr.
— Por que isso de repente?
— Não é de repente. Já venho pensando nisso há algum tempo. O que Myrtandyr fez por nós além de nos arrancar Marius? Não vou perder você.
— Você não vai me perder, Lanias. Eu não fiz nada que me condenasse ao exílio ou, pior, ao Der Lyrius. Você está ficando tão paranóica quanto Marbel Zannorian.
O rosto de Lanias estremeceu com a transformação que ela suprimiu. Caminhou até mim e encarou-me dentro de meus olhos.
— Ninguém vai tirar você de mim — disse num sussurro. — Nem mesmo a Deusa. Menos ainda um Zannorian.
Engoli em seco. Poderia minha irmã saber o que estava acontecendo? Pelos deuses! Eu não podia arriscar.
— Vamos embora o mais rápido possível, minha amada.
Ela assentiu e atravessou-me com o olhar mais uma vez antes de sair.



O Fid-Resdi tem uma compleição agradável aos olhos, mas uma personalidade tão descartável quanto uma folha seca, e um humor mais inflamável do que álcool, por isso, prefiro evitar aborrecer-lhe.
— Lanias e eu viemos para Egádia atraídos pelas idéias magníficas e pelo esplendoroso avanço científico — digo. — Amo minha terra natal, mas, infelizmente, Myrtandyr apodrece como um cadáver. Atribuo essa situação à obsolescência de nossos anciãos.
Ele assente e encara pela janela a cidade que corre do lado de fora da carruagem. Respiro aliviado por não vazar sangue por todos os meus orifícios novamente.
— Egádia deveria fechar as portas para o mundo todo — diz ele.
Não acho que isso seja uma boa idéia, mas evito provocar. Ele continua:
— Todas as vezes que algum outro povo pisou em nossa terra, só houve destruição e morte.
Não é bem verdade se considerarmos que os anões nunca guerrearam com ninguém, mas novamente me mantenho calado. Isso não é um diálogo.
— Este mundo só sabe tirar, tirar e tirar de nós sem oferecer nada em troca. Se não fosse pelos Anduserai, os urukkatianos teriam nos escravizado e Char Dandi teria destruído tudo. E se não fosse pelos poucos magos que sobraram, os kallireanos teriam matado a todos.
A última frase não é exatamente correta. Pelo que me lembro sobre a Guerra do Remorso, os magos invadiram Kallireat alguns dias antes de os kallireanos aportarem em Egádia. É até possível dizer que os dois povos atacaram-se ao mesmo tempo. Mas pretendo manter o pouco de sangue que ainda tenho.
— E agora os sanguessugas consumindo tudo o que vêem pela frente.
Engulo minha vontade de dizer que não é bem assim.
— Deveríamos neutralizar os anões e tomar Velda antes que nos invadam.
Não acredito que neutralizar os anões seja possível ou inteligente. A contribuição deles para o mundo é inigualável.
— E depois queimaríamos os sanguessugas.
Minha mandíbula estala involuntariamente, para a minha surpresa. Ele quer que eu me descontrole, assim ele teria uma desculpa para me matar.
— O que sobrasse, daríamos aos porcos.
Do lado de fora, a cidade passa como uma pintura borrada. Quando tento focar-me em algum ponto fugidio, meus olhos doem. Então apenas deixo as listras coloridas entrarem e saírem de meu campo de visão sem me apegar a nenhuma delas.
— E quanto às fêmeas, tenho certeza que elas têm algum orifício que podemos usar.
Ele quer me desestabilizar, mas ignora que meu controle mental é vastamente superior à sua mente primitiva.
— Talvez sua amante até goste do que eu tenho a oferecer — diz num sussurro.
Ah, sim, Lanias adoraria eviscerá-lo. Sem dúvida.
— Ou talvez você goste.
Truque barato.
— Não, não. Com você, seria melhor queimá-lo bem devagar, com uma tocha ou uma vela. Tenho um amigo que é Lasdi, ele iria adorar fritá-lo.
Por causa desta tiara de magnetita circundando meu crânio, não posso submergir.
— Não se acanhe, eu sei que vocês têm medo de fogo. Todo mundo sabe.
A praça em frente ao prédio da prefeitura desponta no horizonte. Abençoada seja. O cocheiro diminui e pára em frente à escadaria. Um guarda abre a porta da carruagem e nos encara.
— Qual o motivo da visita?
— Trago o parceiro da sanguessuga homicida.
O guarda me observa de cima a baixo, faz um sinal para mim e afasta-se da porta. Eu desço carregando a pele do babuíno. O guarda entra no prédio e nós o seguimos.
Passamos por várias pessoas, salas, corredores, atendentes, mais guardas, e alguns magos, até que sou levado para o porão e trancafiado em uma cela totalmente fechada, escura e sem janelas.
Evito respirar, pois o odor de excrementos é tão forte que suspeito já ter se tornado um gás tóxico. Eventualmente eu terei que respirar, mas vou agarrar-me à esperança de que vão me tirar daqui alguns momentos antes da minha próxima e necessária aspiração.
— Loius? — Sussurra uma voz por uma fresta na parede.
Aproximo-me do concreto quebrado e olho para o interior da outra cela. Um olho me encara de volta. Lágrimas de sangue escorrem por ele.
— A Deusa me ouviu! Você voltou para mim!
Os soluços de Lanias atravessam a fresta e me atingem.
— Fale comigo, Loius.
Não vou respirar este ar e estou de mau humor. Tateio o chão da cela com meus pés desnudos e encontro um espaço que me parece livre de excrementos. Sento-me e recosto na parede.
— Eles o amordaçaram? Murmure para mim.
Não, eu desperdiçaria preciosos milímetros cúbicos de ar.
— Pelos deuses, meu amor, me responda de alguma forma! Não posso submergir.
Gostaria que não fosse problema meu, mas infelizmente você é problema meu, Lanias. Entretanto, considerando as circunstâncias, posso me dar o luxo de ignorá-la impunemente.
— Quando você não voltou no dia seguinte, eu disse a mim mesma que alguma estrela ou pedra muito interessante havia cruzado seu caminho e lhe feito esquecer por um instante nosso compromisso — começa ela. — Mas então uma semana se passou e você não havia voltado. Escrevi para seus amigos, apenas Harani Alssi me respondeu e disse que não tinha contato com você desde o jantar da última vez. — Ela funga algumas vezes antes de continuar. — Duas semanas passaram. Escrevi novamente para todos. Novamente apenas Harani respondeu, e da mesma forma. Só podia ser um complô. Você havia me abandonado e seus amigos estavam acobertando. Viajei até Qandanajar, visitei a Academia e exigi falar com todos eles. Sumayl Mahdavi me recebeu de mau humor e disse que não tinha notícias suas desde o último jantar. Era uma armação. Tentei ler a mente dele, mas ele usava alguma peça de magnetita. Exigi que ele me deixasse ler sua mente para ter certeza, mas ele se recusou. Destruí o escritório dele e ameacei matá-lo se ele não me provasse que seu testemunho era verdadeiro. Com um movimento simples e elegante, ele tirou o ar do meu peito. — Lanias deixa um riso curto escapar. — Eu sorri, afinal, você não havia contado para eles que não precisamos respirar. Sempre achei que eles soubessem mais sobre nós do que eu sei sobre você. — Ela faz uma pausa e funga mais um pouco. — Avancei com todo o meu ódio, mas meu corpo parou involuntariamente. Eu só conseguia mover meus olhos e mais nada. Esquadrinhei a sala e encontrei mais duas mentes além da de Sumayl. Estavam atrás de mim, à porta, mas eu não podia me virar. Usei quase toda a minha força para me soltar, foi quando ouvi a voz de Mardeen Qasemi: 'Chame os outros, Harani, não sei quanto tempo mais posso agüentar'. Passos correram até mim e então vi Harani. 'Nós não sabemos do paradeiro de Loius, leia a minha mente e verá que é verdade'. Sumayl gritou: 'Está louco, Harani? Ela vai lhe matar!'. Harani disse: 'Não vai, eu confio que ela me tratará com o mesmo respeito que Loius trata a todos nós'. Ele tirou um bracelete de magnetita de dentro da manga e entregou a Sumayl. Li sua mente e você não estava lá para além das memórias do último jantar. Pelo menos Harani falara a verdade. Mas e os outros? Bem, eles não responderam minhas cartas e não me deixaram ler suas mentes. Com certeza escondiam algo.
Ela se cala. Ouço sua respiração, o farfalhar de seu cabelo, e seu peito bater lentamente.
— Mardeen desmaiou e me vi livre de sua pegada — continua. — Acusei-os de omitirem notícias sua. 'Não sabemos de Loius, sua louca', esbravejou Sumayl. Decidi matá-lo, era o único jeito de conseguir informações sobre seu paradeiro, ou até mesmo de fazer você sair de seu esconderijo. Mas assim que cravei minhas garras no ombro de Sumayl, paralisei novamente. Daquela vez, não conseguia mover nem mesmo meus olhos. Senti minhas vísceras vazarem por todos os meus orifícios, assim como uma pressão enorme em meus ossos como se eu estivesse sendo esmagada por uma tonelada de pedra. Fui arrastada para fora sem que ninguém me tocasse. Na praça, uma multidão se juntou para assistir. Dois magos do tipo Lumesdi, acredito, considerando que não deixaram uma gota de suor escapar enquanto faziam aquilo tudo comigo, me ergueram uns dois metros no ar. 'Ninguém aqui sabe do seu amante, mas a julgar pelo seu comportamento, não é surpresa que ele tenha lhe abandonado', disse um deles. 'Você está terminantemente exilada de Qandanajar, e se ousar pisar nesta cidade novamente, separaremos a carne dos seus ossos', disse o outro. E então me arremessaram ao norte, em direção a Naibar. — Ela respira fundo. — Caí no meio da estrada com quase todos os meus ossos quebrados. Várias pessoas se aglomeraram ao meu redor, mas ninguém me ajudou. Encarei a dor com o que ainda restava de mim e me arrastei para a floresta. Devorei os animais que arriscaram se aproximar e, eventualmente, me recuperei. Caminhei de volta para Darlib, para nossa casa e chorei. Chorei mais sangue do que aqueles dois magos arrancaram de mim. Um mês e nada de você voltar. Roguei à Deusa e prometi que se Ela não me trouxesse você de volta, eu expurgaria todos deste mundo. — Lanias engole em seco e respira fundo outra vez. — Comecei pelos nossos serventes. Expandi para nossos vizinhos imediatos e suas famílias. E assim continuei até que os magos da Guarda me capturaram. Estou aqui há não sei quanto tempo. Não sei se é dia ou noite. Não submerjo desde aquele sangrento dia. — A voz de minha irmã falha e as palavras seguintes saem tremidas e agudas. — Você queria tanto que a Deusa me punisse pelo que fiz a Jenfel, Landon e Vallun que Ela lhe ouviu, meu amor.
Um momento. Vallun? Mestre Vallun morreu dias depois que saímos de Nyl Belfyn, como Lanias poderia ter feito isso? Sobre Landon, eu já desconfiava, mas mestre Vallun também?
Lanias, maldita seja! Maldita, maldita, maldita! Mil vezes maldita!
A porta do corredor se abre com um estrondo e uma luz invade minha cela por debaixo da porta. Passos e sombras se aproximam e abrem a porta da cela. Dois guardas me arrastam para fora. Assim que a luz do dia me envolve, inspiro profundamente. Suor, perfumes, comida, lactação e flatulência, mas pelo menos não estão em níveis tóxicos.
Sou levado até o último andar. Metade é uma recepção com sofás, uma mesa de chá, um atendente e duas pessoas que aguardam confortáveis em seus assentos. A outra metade do andar é uma sala ampla e ricamente mobiliada e decorada. Cortinas coloridas repousam nas extremidades de uma janela alta de vidros cor de âmbar. A madeira dos móveis exala um odor de antigüidade, mas sua aparência é nova e polida. Um incenso de patchuli queima num canto. Colocam-me sentado em um sofá de frente para outro. Deixo a pele do babuíno no chão, perto de meus pés. Os guardas saem e fecham a porta. Em vez de livros, as estantes que preenchem todas as paredes carregam vasos, pequenas plantas ornamentais, bustos, esculturas, pequenas pinturas e outros artigos decorativos. Nenhuma delas possui um livro sequer. A escrivaninha é coberta de itens, mas dispostos com algum nível de organização. Numa mesa próxima, um jogo de chá repousa em meio a vários potes de vidro com pães, castanhas e frutas secas. Ao longe, um leve aroma de sangue não-humano. Seria ótimo devorar qualquer coisa e repor todo o fluido que perdi.
O aroma de sangue fica mais forte. A porta se abre e um homem entra carregando uma grande taça de cerâmica com tampa, coloca-a sobre a mesa de chá e senta-se de frente para mim. Ele se veste com tanto tecido que me parece viver num frio eterno. As mãos carregam anéis em todos os dedos, e braceletes, sendo um de magnetita. Na testa, uma tiara de ouro cravejada com minúsculas pedras preciosas. Rico, mas nem tanto.
— Loius Voidyrian, correto?
Confirmo.
— Me chamo Thamir Afshar Tavali abi-Darlib. Sou o prefeito.
— Prazer em conhecê-lo, prefeito.
— Eu diria o mesmo, mas as circunstâncias não são das melhores, não é?
Não digo nada e nem me mexo. Por que ele trouxe uma taça de sangue?
— Ouvi dizer que você não foi tratado com muita hospitalidade pela Guarda do Comandante Vahdat.
Continuo imóvel.
— Trouxe algo para você beber. Acredito que seja de seu gosto. Sangue de canguru.
— Canguru? — pergunto sem querer. Cangurus vivem no deserto de Urukkat, não em Egádia. Nunca havia ouvido falar de criadores de canguru por aqui.
— Sim, é parecido com um coelho, mas enorme e feio.
Resisto à ânsia de dizer que eu sei o que é um canguru. Não vale minha pouca energia.
— Adoraria ofertar-lhe esta cortesia, mas vai depender mais de você do que de minhas intenções.
— Por que está negociando nossa soltura em vez de nos condenar à guilhotina?
— Eu pensei muito em fazer isso mesmo, mas então consultei alguns amigos e decidi mudar de idéia.
— Meus amigos não são influentes o suficiente para lhe convencerem a nos soltar. Talvez Harani, mas não os outros.
Ele sorri.
— Não consultei seus amigos.
— Ainda mais inacreditável, considerando que os magos não gostam de mim.
— Eu não disse que meus amigos eram magos — diz ele sorrindo novamente.
— Acho pouco provável que um Synnoldyr interceda por outro clã. Na maior parte das vezes, simplesmente não nos importamos.
— Pelo que me foi confidenciado, os Voidyrian são famosos e apreciados por seus feitos.
Executamos membros dos Zannorian. Gostando ou não, realmente somos conhecidos. Mas apreciados? Isso depende muito de a quem se pergunta.
— O que temos de fazer? — pergunto.
— Você aprendeu a usar magia, correto?
— Sim.
— Lasdi, Vosdi, Resdi ou Susdi?
— Thanasdi — respondo.
Ele ergue as sobrancelhas e assente impressionado.
— Qual combinação?
— Gases, líquidos e sólidos.
Ele sorri satisfeito e assente novamente.
— Veja bem — diz sentando-se na ponta do sofá bem perto de mim e sussurrando —, eu tenho um pequeno problema que gera uma grande decepção para minha esposa. Você entende?
Encaramo-nos por um minuto até que eu, finalmente, entendo do que se trata. Já ouvi sobre isso antes, mas não dei atenção. Os humanos sofrem constantemente com seus corpos imperfeitos. Síndromes, doenças, deformidades, partes que são grandes demais, partes que são pequenas demais. Nós jamais saberemos o que é passar por isso já que não somos submetidos aos possíveis erros da concepção. A Deusa nos esculpe sempre perfeitos.
— Preciso me alimentar antes de proceder — digo.
— Claro, claro — diz sorrindo.
Ele se levanta, pega a taça e me entrega.
— Sinto muito se estiver frio.
Tiro a tampa e inalo. Nada nunca teve um aroma tão delicioso. Talvez sangue humano, mas não estou em posição de reclamar. Bebo com dificuldade, pois já começou a coagular. Algumas partes, mastigo antes de engolir, mesmo assim, é revigorante. Sinto minha pele se aquecer e ganhar uma cor rosácea. O prefeito também percebe o mesmo, pois me observa interessado. A taça é grande, mas não imaginei que caberia tanto conteúdo assim.
Quando termino, ele retira a taça de minhas mãos e deposita sobre a mesa de chá.
— Podemos começar? — pergunta ele.
— Agradeço muitíssimo a sua cortesia, prefeito, mas gostaria de confirmar alguns pontos antes.
Ele balança os pés um tanto contrariado.
— Que pontos?
— Resolvo seu problema e nós dois, Lanias e eu, somos liberados?
Ele sorri e pára de balançar os pés.
— Você faz isso para mim e libero apenas você.
Eu sabia que não seria tão fácil.
— E o que eu preciso fazer para que Lanias seja liberada?
O prefeito deixa um largo sorriso brotar e espalhar por seu rosto.
— Alguns amigos gostariam de utilizar suas habilidades. — Faz uma pausa e acrescenta: — Por um tempo.
— Quanto tempo?
— Pelo tempo que eles julgarem necessário.
— E durante esse tempo, Lanias permanece naquela cela? Inalando aquele odor nocivo?
Ele me encara como se tentasse encontrar algo fora do lugar.
— Meu irmão é viúvo — começa ele. — Sua mulher sofreu um acidente depois de enlouquecer. Ela era um pouco descontrolada do mesmo jeito que sua amante também é, e causou muitos problemas ao meu irmão do mesmo jeito que imagino que Lanias tenha causado a você. Ou estou errado e esta foi a primeira vez que ela fez algo assim?
Não respondo.
— Foi o que imaginei — diz ele sorrindo. — Veja bem, quando minha cunhada morreu, meu irmão rejuvenesceu. Cantava, dançava, freqüentava jantares sociais e outros eventos. Desde que se casou, eu não o via brilhar tanto. Talvez lhe faça bem deixar sua amante de castigo naquela cela, inalando ares desagradáveis.
— Lanias é parte de meu clã e, por mais difícil que ela possa ser, não vou deixá-la nessa condição específica.
Ele sorri e assente.
— Que condição você gostaria de propor?
— Prisão domiciliar. Em uma nova casa, já que dificilmente seremos bem-vindos em nossa casa atual.
O prefeito pensa por um momento e murmura consigo mesmo.
— A maioria de meus amigos não reside em Darlib. Neste caso, creio que posso arranjar uma nova residência para os dois em Naibar, já que Lanias foi exilada de Qandanajar. No entanto, como muitos de meus amigos vivem na capital, você precisará passar muito tempo fora. Quem vai garantir que Lanias não vai surtar de novo e escapar?
— Tenho certeza de que você tem muitos contatos e pode contratar um ou dois magos. Resdi ou Susdi seria suficiente — digo.
— Isso sairia de sua conta — diz ele sorrindo maliciosamente.
Sendo Lanias minha responsabilidade, não vejo problemas.
— Justo — digo.
— Muito bem, quando podemos começar?
— Não me leve a mal, prefeito, mas eu gostaria de me lavar apropriadamente, vestir minhas próprias roupas e fazer uma refeição generosa. E, além disso, preciso consumir uma grande quantidade de gordura para poder usar minhas habilidades. Apenas sangue não é suficiente.
— Entendo perfeitamente — diz ele com um sorriso um tanto traiçoeiro. — E gostaria que você compreendesse que sua amante não sairá daquela cela enquanto meu problema não for resolvido.
Eu detesto este sentimento que aflora dentro de mim. Não é vingança, é algo mais sútil. É o mesmo que sentir vontade de dar um empurrão em quem acabou de lhe empurrar. Talvez o nome apropriado seja retribuição. Depois de todos esses anos aturando os caprichos de Lanias, eu gostaria que ela aturasse alguns dos meus caprichos. Não acredito que a causariam tanto sofrimento como os dela me causaram.
— Entendo perfeitamente, prefeito. Não tenho pressa. Como você adivinhou corretamente, a Guarda do Comandante Vahdat não me tratou muito bem. Portanto, eu gostaria de recuperar minha dignidade e postura antes de poder cuidar de seu problema. Ademais, também acredito que você gostaria que o mago que será responsável pela sua satisfação conjugal esteja em plena forma antes de operá-lo, não é mesmo?
Ele sorri, mas seus olhos comprimem-se em curiosidade.
— Está quase na hora do jantar, que tal se você me acompanhasse até minha residência para se lavar, vestir e comer? Meu alfaiate pessoal poderia coser-lhe um magnífico traje. Incluído na sua conta, claro. O que me diz?
— Não dispenso bons jantares.
— Excelente! — diz ele sorrindo. — Meu auxiliar irá lhe acompanhar até minha casa e ajudar-lhe no quer for necessário. Chegarei em menos de uma hora. — E se encaminha para a porta.
— Prefeito — chamo e mostro todas as correntes que me prendem.
— Vou liberá-lo num instante.
Ele me deixa sozinho por um momento e volta com um jovem e dois guardas. O jovem libera-me das correntes e da tiara. Em seguida, sou levado a uma carruagem acompanhado do auxiliar e logo chegamos à residência do prefeito. O mordomo recolhe a pele do babuíno e nos encaminha para um quarto de hóspedes. Depois que os serventes preparam o banho, o auxiliar se recusa a sair e sou obrigado a me lavar em sua presença. O jovem mantém-se de pé observando-me com o queixo erguido, como se fosse melhor do que eu. Posso estar errado, mas é provável que seja um Susdi, especialista em sólidos. Entretanto, prefiro não testá-lo.
Quando termino meu banho, o jovem abre a porta e entram um homem quase idoso, mas bastante elegante e uma meia dúzia de serventes carregando um baú e algumas malas. Assim que tudo é disposto pelo quarto, ficamos apenas eu, o jovem e o homem. Este abre uma mala e tira uma fita métrica. Sou medido de tudo quanto é jeito. Em seguida, ele arruma sobre a cama vários pedaços de tecidos azul-escuro, preto, branco e prata. Faz leves marcações em cada peça com um pedaço de giz e, então, balança as mãos como se tocasse um instrumento. Os tecidos dançam sobre a cama, separando-se e unindo-se novamente. Num instante, um traje completo e belamente adornado repousa sobre a cama como se sempre tivesse existido.
O alfaiate me encara como se eu lhe devesse uma salva de palmas.
— Belíssimo — digo.
Ele faz uma leve mesura como se meu elogio fosse pagamento o suficiente, e então abre o baú e tira um par de sapatos novos. O auxiliar ajuda a me vestir. Em seguida, o alfaiate caminha ao meu redor mexendo alguns dedos no ar, e o tecido responde se ajustando melhor ao meu corpo. Assim que está tudo terminado, o alfaiate guarda suas ferramentas e o auxiliar chama os serventes.
Sigo o jovem até o salão de refeições. O prefeito e uma mulher levantam-se ao nos ver chegar.
— Ah, Rasil nunca desaponta! Belíssima peça! — E, virando-se para a mulher: — Este é o mago de quem lhe falei. Loius Voidyrian. — E para mim: — Esta é minha esposa, Sameera.
— Encantado, senhora — digo com uma leve mesura.
— Igualmente, senhor — diz ela com modos comedidos.
Nós quatro nos sentamos e somos logo servidos. Os humanos comem vegetais cozidos, carne de bode assada, frutas frescas e vinho de tâmara. Para mim, do caprino, servem apenas as vísceras cruas, e de um suíno, as vísceras também cruas, um pote de cerâmica cheio de banha e um jarro com sangue. São duas bandejas cheias. Coração, cérebro, fígado, rins, intestino, pâncreas, bexiga, e todo o restante. Seleciono apenas o que normalmente comemos e ignoro o restante dos órgãos.
— Eu não sabia o que era de seu gosto, então ordenei que colocassem tudo — diz o prefeito.
— Agradeço muitíssimo a cordialidade e a hospitalidade, prefeito.
Eu adoraria devorar um humano, mas confesso que a refeição é mais que apropriada. Quando termino com os órgãos, como a banha de colherada e finalizo com o sangue que, infelizmente, já coagulou. Terminamos todos praticamente ao mesmo tempo.
Não quero abusar da boa vontade do prefeito, mas o aroma do vinho de tâmara é irresistível.
— Prefeito, se não for pedir demais, eu poderia saborear um cálice desse vinho?
— Vocês apreciam vinho? — pergunta ele espantado e faz um sinal para o servente.
— Apenas o de amora preta, nativo de Myrtandyr, e o de tâmara.
— Nós temos vinho myrtandyriano, se preferir.
Meu estômago se revolta, mas consigo domá-lo antes que um acidente aconteça.
— Receio que o vinho myrtandyriano que Egádia produz não seja semelhante ao original — digo.
— Pelo que eu sei, a receita é a mesma — diz a esposa, Sameera.
— Não exatamente — digo e acrescento logo para mudar de assunto: — Depois que vim morar em Egádia, bebo apenas vinho de tâmara. É um dos melhores. — E sorrio como que para encerrar o assunto.
O servente coloca em minha frente uma taça cheia. Inalo um dos melhores aromas que já experimentei e aprecio lentamente cada gole. É levemente mais doce do que o que Lanias e eu costumamos consumir.
— É de Amaravastu? — pergunto.
— Um ótimo paladar que você tem. — Ele assente impressionado. — É o único que eu gosto.
— Eu prefiro o vinho de damasco — diz Sameera.
— Muito seco — comenta o prefeito.
— Vejo que o prefeito gosta de um sabor mais adocicado — digo.
— Até demais — diz Sameera. — Já está criando barriga.
— São poucos os prazeres da vida — diz ele.
O olhar que ele me lança não é necessariamente hostil, mas também não é amigável. Serve para lembrar-me de que este momento não nasceu de cortesia social, mas de uma transação comercial. A comida, minha roupas, minha quase liberdade, tudo isso é para que eu esteja no meu ápice físico para concluir nossa transação da melhor maneira possível para ambos, pois sei que se eu cometer algum erro, o futuro pode ser tanto escuro e fétido quanto claro e sangrento.
— O jantar e as companhias estão ótimas, agradeço muitíssimo — digo no meu tom mais cordial. — Mas receio que o prefeito e eu deveríamos retomar os negócios.
— Não se preocupem — diz Sameera —, eu já estou acostumada.
Levantamo-nos eu, o prefeito e seu auxiliar, e seguimos para seu escritório. A sala é quase uma cópia de sua outra sala na prefeitura, as únicas diferenças sendo as janelas que são mais baixas e as decorações nas estantes.
O auxiliar fecha as cortinas e tranca a porta. Em seguida, nós três nos sentamos nos sofás.
— Você está ciente de como o procedimento funciona? — pergunto.
— Não, preciso estar? Existe algum efeito colateral?
— Existe, mas talvez seja desejável.
Ele faz um gesto impaciente.
— Como eu havia explicado previamente, eu preciso de gordura para realizar o procedimento, mas, para mim, a gordura serve apenas como fonte de energia para tal. No seu caso, a gordura servirá como material para modelagem. E, além dela, também precisarei retirar algum material de seus músculos e sangue. Não será uma quantidade perigosa, mas pode ser que você se sinta fraco e cansado após o procedimento. No entanto, como acabou de se alimentar, em algumas horas se sentirá melhor.
— Vai doer? — pergunta um pouco receoso.
— Será indescritivelmente desagradável. Se preferir, posso entrar em sua mente e distraí-lo do incômodo.
O prefeito e o auxiliar se entreolham.
— Se ele tentar qualquer coisa que não deve, quebre todos os seus ossos e leve-o ao Comandante Vahdat — diz o prefeito para seu auxiliar.
— O senhor tem certeza de que é uma boa idéia? — pergunta o jovem. — Algumas canecas da vodca dos anões lhe anestesiaria com mais segurança.
— Eu morreria se bebesse esse troço. Prefiro que o sanguessuga entre em minha mente. — E vira-se para mim. — Sem ofensa.
— É preciso um pouco mais do que palavras para me ofender, prefeito — digo com o meu melhor sorriso.
— Tudo bem, vamos logo com isso — diz ele se despindo da parte inferior e do bracelete de magnetita que entrega ao auxiliar. — Quero, mais ou menos, deste tamanho. — Faz um gesto com as duas mãos. — É possível?
— Perfeitamente.
Ao meu ver, não há nada de errado com seu genital. Possui uma aparência saudável e sem deformidades. E, a julgar pela falta de um odor desagradável, presumo que o prefeito também seja asseado.
— Posso chamá-lo pelo primeiro nome? — pergunto.
— Sim.
— Muito bem, Thamir, concentre-se em minha voz e olhe dentro dos meus olhos. Não tenha medo, isto não dói e vai acabar antes que você perceba.
Ele treme um pouco quando meus olhos ficam completamente negros. Todos os humanos têm a mesma reação. Por algum motivo, encarar o âmago da escuridão lhes causa um profundo desconforto.
Seguro seus ombros da maneira mais gentil possível.
— Você sabe me dizer por que gosta tanto do vinho de tâmaras de Amaravastu, especificamente?
— É mais doce — responde ele um pouco confuso.
— E você gosta de bebê-lo com qual prato?
— Com uma sobremesa de creme de pêssegos, manga e mel.
Consigo acessar as memórias do prefeito com sua refeição preferida, mas ainda não estamos ligados. Eu poderia fazer isso simplesmente invadindo sua mente, como todos os Synnoldyr fazem, mas acredito que não há necessidade de ser tão violento.
— Pode descrever o sabor?
— O gosto do mel é dominante. Consigo distinguir o gosto suave e característico do pêssego e, por último, um gosto mais acentuado de manga.
Sinto o mesmo gosto. Assistindo às memórias, é como se eu e o prefeito fôssemos um só saboreando a mesma refeição. Estamos ligados. Podemos nos comunicar telepaticamente.
"Em Myrtandyr, nós temos uma sobremesa que é feita com cacau, amora preta, uva preta, melaço e sangue de porco", digo em sua mente. Na verdade, é com sangue humano, mas ele não precisa saber disso agora. Projeto minha memória em sua mente e ele saboreia a iguaria.
"Não sei se eu ia querer comer isso todos os dias, mas não é tão ruim quanto sua aparência", diz ele.
— Monitore os batimentos dele — digo ao auxiliar. — Qualquer alteração, me avise.
O jovem coloca dois dedos na jugular do prefeito. Sem tocá-lo, começo puxando a gordura que se depositou na barriga para a região pélvica. Um procedimento simples devido à proximidade e à localização superficial. O corpo do prefeito não se mexe, mas em sua mente, ele ainda está comendo a sobremesa.
"Gostaria de provar o verdadeiro vinho de amora preta, Thamir?"
"Nós temos vinho myrtandyriano aqui em Egádia", diz ele mastigando os últimos pedaços da sobremesa e colocando o prato sobre a mesa. Estica-se na poltrona e descansa os braços cruzados sobre a barriga.
"Perdoe-me a possível hostilidade, mas esse sacrilégio é qualquer coisa, menos vinho myrtandyriano", digo de pé, enquanto encho duas taças com o jarro que fiz brotar. Compartilho com ele apenas um pedaço de meu Fyrdenzyr, uma sala totalmente branca e simples para situações como esta. Sirvo-lhe o vinho e sento-me na poltrona de frente para ele enquanto saboreio minha taça.
"Pelos deuses! É muito diferente", diz ele com os olhos um pouco arregalados. Endireita-se na poltrona e beberica novamente para ter certeza de que provou corretamente da primeira vez.
Agora começa a parte mais delicada. Com minhas mãos abertas flutuando sobre seu corpo, localizo tecido, sangue e outros fluidos que vou precisar e começo a trazê-los das pernas para a região pélvica. Preciso fazer sem pressa, pois um deslocamento abrupto poderia causar trombose, embolia, deformações e, em casos mais graves, gangrena.
Na sala branca, faço brotar um barril pequeno com uma torneira sobre a mesa.
"Prepare-se para o gosto mais único que você vai sentir em toda sua vida, Thamir", digo e encho duas novas taças. Sirvo-lhe e volto a me sentar em minha poltrona. Ele leva a taça à boca e seu rosto explode num assombro total.
"Isto... Isto é o verdadeiro néctar dos deuses! Isto! Isto aqui, é a melhor bebida que já experimentei", diz alarmado.
"E é a única que você vai experimentar, pois não existe nada igual", digo erguendo a taça num brinde. Ele faz o mesmo gesto, mas rapidamente leva a taça de volta à boca.
"O que é isto?", pergunta entre um gole e outro.
"Vinho de amora preta envelhecido em setecentos anos".
Ele dá uma risada de deboche.
"Você inventou esse sabor. Nenhum vinho pode envelhecer tanto tempo assim".
"Na verdade, mestre Vallun inventou este sabor. Foi um complexo método que envolveu câmaras subterrâneas desprovidas de ar, nenhum contato com a luz solar após a colheita, desidratação das amoras antes da maceração e vários outros procedimentos para chegar a este ponto. Eu nem era nascido quando ela começou este processo. Seu objetivo era criar um vinho milenar", explico. "Às vezes, ela abria um dos diminutos barris em ocasiões especiais. Pouquíssimas pessoas no mundo já provaram e eu tive a honra de ser uma delas".
Ele me encara um tanto desconfiado.
"Se este vinho existe mesmo, muitas pessoas matariam para tê-lo", diz com os olhos brilhando.
"É por isso que ninguém de fora do círculo de mestre Vallun sabe que esse vinho existe", digo com um sorriso malicioso. "E se você contar a alguém o que eu lhe contei, ninguém acreditará porque, como você mesmo disse, nenhum vinho pode envelhecer tanto tempo".
"De qualquer forma, acho que você inventou isso", diz ele saboreando o restante do vinho.
Tudo o que eu preciso está na região pélvica, que agora está inchada e avermelhada. Mesmo que eu não possa me apressar, também não posso me demorar. Guio os fluidos para a base do membro e começo a alocá-los de forma que o falo se expanda para fora e diametralmente.
O novo tecido é de um marrom bem mais claro e parece que o prefeito colocou um bracelete em seu órgão. Conforme a expansão ocorre no diâmetro do falo, uma linha do mesmo marrom claro surge no sentido longitudinal. Escondo essa linha na parte inferior, mas ainda é possível vê-la. Com o tempo, a pele escurecerá naturalmente e nenhum tipo de marca restará.
"Já foi a Trivus, Thamir?"
"Não, nunca tive tempo para sair de Egádia".
"Os anões têm uma sobremesa que eles comem todos os dias no desjejum junto com vodca de batatas", começo. "É um bolo feito de pão velho, arroz, aveia e milho. A isso, eles acrescentam ovos, nata, limão, muita manteiga e quantidades perigosas de açúcar. Depois de assado, eles jogam uma mistura de melaço com manteiga derretida e extrato de baunilha por cima e polvilham com canela e noz-moscada em pó".
"Uma mistura e tanto, mas não me parece ruim".
"Não é tão horrível quanto parece. Prove", digo apontando para uma fatia que fiz brotar na mesa próximo a ele.
O prefeito leva um pedaço à boca e seu rosto toma formas diferentes. Assim que prova o segundo pedaço, seu semblante torna-se mais amigável à iguaria.
"Eu poderia comer vez ou outra, mas não todos os dias", sentencia
.
Finalizo usando a gordura que movi da barriga para nivelar a pele na região pélvica e nas coxas. O inchaço sumiu, assim como a barriga protuberante da qual Sameera havia reclamado. O pênis agora é duas vezes e meia maior do que antes. Um exagero, mas minha liberdade depende disso, então aqui está um enorme e desnecessário órgão genital. Espero que Sameera fique satisfeita. E o prefeito também, obviamente.
Sinto meu estômago quase vazio. Todo aquele pote de gordura que comi às colheradas foi absorvido pelo meu corpo e gasto neste procedimento. Porém, graças ao sangue, ainda posso aguardar mais algum tempo antes de me alimentar novamente.
"Thamir, você se lembra de como chegamos aqui?"
"Você me perguntou qual prato eu gosto para acompanhar o vinho de tâmara".
"E antes disso, onde estávamos?"
Sua imagem desvanece de meu Fyrdenzyr conforme ele se lembra. Voltamos ao seu escritório.
— Como se sente? — pergunto.
— Sonolento.
Sorrio amigavelmente e me sento no outro sofá.
— É assim mesmo, nós viajamos profundamente em nossas mentes — digo. — Correu tudo bem. Veja se era exatamente isso que queria.
Um pouco desorientado, ele olha para seu auxiliar que indica sua metade inferior. O prefeito encara o próprio corpo como se não lhe pertencesse. Eu já ouvi falar de pessoas que entraram em choque após uma cirurgia e rejeitaram o próprio corpo. Terminaram de maneira trágica.
Eu fiz o que eu podia da maneira mais gentil possível, mas não posso controlar como a mente do prefeito vai reagir a seu renovado órgão.
Aos poucos, conforme sua consciência se estabelece de volta, uma expressão de surpresa começa a se formar. Cuidadosamente, ele toca seu pênis e deixa um suspiro curto e agudo escapar. Apalpa o órgão todo examinando sua consistência. Toca e esfrega ligeiramente as partes mais claras.
— Não dói.
Sorrio um tanto aliviado.
— Isso é ótimo, prefeito. Foi um procedimento delicado.
— É permanente?
— Bom, conforme sua idade avança, haverá mudanças físicas naturais, mas posso dizer com certeza que seu falo não regredirá ao estado anterior, se é isso que quer saber.
Ele assente aliviado e confiante. Levanta-se para vestir suas calças e cai sentado no sofá. O auxiliar põe-se de pé, pronto para triturar meus ossos.
— Minhas pernas fraquejaram.
— Eu tive que retirar material das suas pernas — explico.
Ele toca as pernas.
— Estão macias. Minhas pernas sempre foram duras.
— Eu nivelei o formato de suas pernas com a gordura que tirei da barriga, caso contrário, suas pernas ficariam mais finas. Conforme continuar se alimentando e seguindo sua rotina normalmente, suas pernas retornarão à forma normal. E se continuar saboreando doces como costuma fazer, a gordura vai voltar a se acumular em sua barriga.
O prefeito levanta a blusa e admira sua barriga lisa. Então uma sombra passa pelo seu rosto.
— Se minhas pernas e minha barriga vão voltar ao normal, o que garante que meu pênis continue assim?
— Quando subtraímos algo de uma parte do corpo humano, a tendência é que volte a seu estado natural. Mas quando adicionamos algo em uma parte que não estava lá antes, a tendência é que fique do jeito que a deixarmos. O que eu tirei das suas pernas e coloquei em seu pênis, ficará ali. O que suas pernas perderam, será reposto quando retomar sua rotina.
— E se não acontecer assim?
— Você sabe onde estarei e poderá me prender ou me mandar para a guilhotina.
— Se não acontecer assim, gostaria de tê-lo por perto para manutenção.
A cirurgia não regredirá. É permanente. Mas eu já deveria ter desconfiado que, provavelmente, nunca pagarei a dívida de Lanias.
— Estarei em Naibar, há poucas horas de carruagem.
— Sim, estará — diz com um tom autoritário.
A prisão não será só para Lanias, eu também já deveria ter desconfiado.
— Prefeito, se me permite uma curiosidade, por que não contratou um mago da Academia? Por que eu?
Ele puxa as calças ainda sentado e ergue o corpo para vestir a parte final. Ajeita as roupas e esfrega as pernas como se estivesse com frio. O auxiliar volta a se sentar.
— Os magos e eu temos idéias divergentes sobre assuntos importantes.
A julgar pela ostentação e pela negociação por fora da lei sobre a liberdade de Lanias e a minha, eu presumo que o prefeito não seja tão honesto assim. E considerando que os magos, em sua maioria, detestam corrupção, esquemas e atividades ilícitas, eu não ficaria surpreso se eles não quisessem ser amigos do prefeito.
— Prefeito, se não precisar de mim para mais nada, gostaria de poder me recolher. Sei que é tarde, mas tenho algumas coisas para discutir com Lanias.
Ele me encara em silêncio por um momento como se estivesse se decidindo.
— Você pode ficar aqui esta noite. Sozinho. Eu vou me recolher com minha esposa e, amanhã, se estivermos satisfeitos com seu trabalho, mando alguém arranjar o restante do nosso acordo. A não ser que você queira voltar para aquela cela.
Normalmente, eu jamais deixaria Lanias numa condição parecida, mesmo que ela me aborreça e espante meus amigos. Mas eu ainda não digeri o que ela fez com mestre Vallun e o que isso representa para todos nós, então não me sinto culpado de não me apressar para retirá-la de tal situação e menos ainda de não querer me juntar a ela.
— Agradeço muitíssimo sua generosidade, prefeito, em me deixar dormir em sua bela casa esta noite.
Ele sorri mecanicamente.
— Eu disse sozinho, mas na verdade Sarir vai vigiá-lo no primeiro turno — diz inclinando a cabeça para o auxiliar.
— Não tenho objeções — digo com um sorriso agradável.
O prefeito se levanta devagar, apóia-se no jovem e flexiona um joelho por vez. Assim que se sente confiante, caminha cuidadosamente até a porta e nós dois o seguimos. Ele se dirige para um corredor e o auxiliar me guia de volta ao quarto de hóspedes. O jovem tranca a porta e a janela, arrasta uma poltrona para o meio do quarto, de frente para cama e acomoda-se.
Deito-me na cama sem tirar minha roupa e submerjo.
Mestre Vallun e eu havíamos acabado de praticar o coito e ainda estávamos submersos no Fyrdenzyr dela. No céu noturno, as estrelas cintilavam intensamente como gigantes e poderosos vaga-lumes. Uma garoa de pétalas de rosas roxas fluorescentes caía devagar e suavemente. Debaixo de nós, um macio tapete de flores se estendia ao infinito. Grilos cricrilavam e uma brisa aconchegante soprava e assobiava. Nossas mãos acariciavam uma à outra enquanto encarávamos o espetáculo celestial.
— Há muito tempo, Fynzar e eu convidamos alguns anciões para uma confraternização. Todos os Zalluian e alguns Vynbelian — começou ela. — Após o banquete do Voidyr, Gerdan Zalluian veio me pedir para compilar todo o meu conhecimento num único tomo que ele levaria para a biblioteca de Nyl Tannei. A princípio, achei que ele tivesse enlouquecido e me recusei a fazê-lo. Gerdan, então, explicou que havia uma chance de todos nós morrermos, mas que não havia necessidade de sermos esquecidos e, portanto, deveríamos gravar todo o nosso conhecimento em tomos e armazená-los seguramente em Nyl Tannei. Assim, uma pequena parte de nós existiria para sempre. Eu disse a ele que, logicamente, não poderia compartilhar tudo o que sabia, mas que talvez tivesse algumas receitas para passar aos outros. Ele sorriu e disse que qualquer coisa era melhor que nada. Escrevi sobre cogumelos e suas propriedades curativas, nutritivas, degenerativas e mortíferas. Acrescentei várias receitas de loções e decocções, além de cuidados na extração das substâncias. Ele levou o tomo para Nyl Tannei onde minha irmã aceitou guardar de bom grado. É a única cópia com quase todo o meu conhecimento sobre cogumelos. Além de Loimia, ninguém mais sabe os segredos dos cogumelos. Mas isso vai mudar. Quero ensinar a você tudo o que eu sei.
— Será uma honra, mestre.
— Sim, será. Quando terminarmos, você e Loimia serão os únicos Synnoldyr a saber tudo o que eu sei.
— E quanto a Rannyr?
Ela deixou um som aborrecido escapar.
— O Dalgonian é de um tipo que eu não gosto. Não tem respeito por nada, não admira nada, não é reverente a nada. Não é que eu queira que ele seja tão devoto quanto minha irmã, só queria que ele, pelo menos, reconhecesse a beleza de tudo que Maltannia e Nammunih esculpiram. Mas isso nunca vai acontecer porque Rannyr, provavelmente, é um Rassare.
Eu me pus sentado involuntariamente e encarei-a espantado. Seus longos cabelos pintados de roxo balançavam delicadamente com a brisa. Apesar de ter algumas rugas aqui e ali — afinal, após quase seis mil anos de vida, quem não as teria? — a mestre ainda era uma visão belíssima de se observar.
— O que a faz pensar assim, mestre?
— Indiferença e tédio. Nada o abala, nada o excita. Deveria ter sido aprendiz dos Vulturian. Seria melhor aproveitado.
— Você acha que ele é uma ameaça?
— Esse é o problema. Eu não sei o que move Rannyr.
— Por que não o libera?
— Porque se eu liberá-lo no nível de ignorância que ele se encontra, estarei carimbando minha incompetência como mestre.
— Mas se não quer ensiná-lo e não quer liberá-lo, como vai resolver isso?
— Um dia encontrarei a resposta — disse ela se sentando de frente para mim, duas mechas do cabelo roxo escorregaram para frente e cobriram os seios. — Agora, me diga, você sabe por que o oeste da Cordilheira de Farnul Myrler é um deserto?
— Porque ninguém nunca explorou o outro lado?
Ela deixou um suspiro desapontado escapar.
— Porque o outro lado é tomado por garras-das-sombras. O cogumelo cresce em ambiente úmido e pedregoso. Devora tudo o que for orgânico. O único ser vivo que ainda cresce por lá são os líquens, mas não é com estes que o garra-das-sombras faz simbiose. Suspeito que seja com as raízes que engolem os infelizes que são condenados ao Der Lyrius.
Foi impossível não pensar em Marius e em tudo o que aconteceu a ele, mas como não era culpa da mestre, engoli minha tristeza e mantive-me em silêncio.
— Oh! Que indelicadeza a minha — disse ela apertando minha mão contra seu seio. — Depois de tantos séculos convivendo com Fynzar, acabei perdendo um pouco do meu tato social. Vou me lembrar de não mencionar nada que esteja ligado a esse evento com o seu clã.
Essa foi toda a desculpa que a mestre era capaz de proferir. Eu até poderia ficar ainda mais ofendido, mas nenhum ancião se desculpava. Talvez apenas para a Tanneiver, e detestavam fazê-lo.
Apesar de a sentença que condenou meu irmão ter vindo de um Zannorian, nunca senti vontade de culpar o clã inteiro pelos atos de um. E mesmo que sentisse, não seria justo. Landon estava apenas cumprindo a lei. Mesmo assim, não deixei de observar que apenas os Synnoldyr neófitos é que eram condenados por seus crimes. Um ancião jamais condenava outro ancião, mesmo que não se dessem bem. Eles fazem as leis, eles julgam todos os outros. E ninguém tem classe o suficiente para julgá-los. Só a morte poderia pôr um fim nessa era de impunidade parcial.
— O garra-das-sombras canibaliza os seus? — perguntei tentando afastar pensamentos ingratos.
— Oh, excelente pergunta. Sim, canibalizam, mas só os que já começaram a apodrecer. Os brotos são sempre poupados.
— Se ele escapar do oeste de Farnul Myrler, destruiria o mundo todo — disse eu me dando conta da situação.
— Destruiria o nosso continente todo, mas não o mundo. Talvez o continente de Augeli também, se conseguisse se espalhar. O garra-das-sombras morre em clima quente ou com muita incidência solar.
— Se ganhasse senciência, seria um Synnoldyr.
Ela deixou uma risada divertida escapar.
— Infelizmente, não liberamos esporos.
— Melhor assim. Não creio que um mundo cheio de Synnoldyr fosse uma boa idéia — disse eu.
— Por que não?
— O que comeríamos?
Ela sorriu e sentou-se. Uma mancha colorida tomou forma no ar à nossa frente. Era um babuíno albino.
Emerjo. Como pude me esquecer disso? Tantas lembranças que eu guardei nas profundezas de meu Fyrdenzyr porque não podia — ou não queria — ter de lidar com as emoções que elas evocavam. Eu não posso dizer a mim mesmo que amei mestre Vallun, mas jamais seria capaz de viver comigo mesmo se não reconhecesse o fato de que ela foi mais importante do que um mestre normalmente seria. Se eu tivesse a chance de trocar a vida de Lanias pela de Vallun, eu trocaria?
Um tremor percorre meu corpo e afasto o pensamento. Não quero saber qual seria minha escolha. Não importa mais. Mestre Vallun ensinou-me tudo o que sei sobre plantas, animais, venenos e elixires, e por isso sou tão grato que jamais poderia quantificar.



Um jovem diferente me encara da poltrona. Senta-se com a coluna ereta, mas carrega uma expressão de tédio. Pelas frestas da janela, intensos raios de sol penetram o quarto.
— Que horas são? — pergunto.
— Uma hora depois do desjejum.
— Por que não me chamou?
— Não é minha obrigação.
Suspiro.
— O prefeito requisitou minha presença ou deixou alguma mensagem?
— Também não é minha obrigação.
Respiro fundo.
— Posso sair do quarto ao menos?
Ele me indica a porta. Assim que me levanto, ele também o faz. Do lado de fora, apenas uma servente regando os vasos de planta.
— Com licença, poderia me informar onde está o prefeito?
Ela balança a cabeça negativamente e continua com sua tarefa como se eu não fosse mais do que uma mosca.
Desço as escadas e o novo jovem me segue. Paro à porta do escritório e bato. Ninguém responde. Bato novamente.
— Ele está em reunião – diz Sameera chegando sorrateiramente.
— Peço desculpas. Só gostaria de saber se está tudo bem, se ainda precisam de mim.
— Pode ir, Dheeraj — diz ela para o jovem.
— O pai me designou para tomar conta dele.
Eu deveria ter percebido a semelhança, se houvesse alguma. O jovem parece ser filho apenas da mãe. Poderia isto ter relação com o problema do prefeito? Bom, não é da minha conta.
— E você já cumpriu com sua função.
Ela faz um gesto com a cabeça e o jovem obedece com a típica má vontade das proles.
— Por favor, Loius, me acompanhe.
Sigo-a pelos corredores cheios de quadros e plantas até um extenso jardim interno na parte posterior da casa. Sentamo-nos num banco de metal debaixo de uma mangueira. A brisa da manhã é quente e abafada, prenunciando o calor que está por vir.
— Meu marido não sabe agradecer — começa ela —, mas o que você fez por nosso casamento... Obrigada, Loius.
Eu não tive escolha, mas não vou recusar um agradecimento genuíno.
— Fico aliviado de saber que tudo deu certo e que você está satisfeita.
Ela sorri sem graça e encara as plantas ao nosso redor.
— Foram vinte anos de dificuldade, mas nos mantivemos amigos. Foi o que salvou nossa relação.
Pergunto-me onde que o adultério se encaixaria nisso e se o prefeito sabia.
— Como você deve ter notado, Dheeraj não parece muito com o pai — diz ela adivinhando meu pensamento. — Dois anos depois do nosso casamento sem nenhum filho, nós decidimos viajar para Amaravastu. Thamir tem amigos e alguns familiares por lá. Numa tarde, pouco antes do anoitecer, um vendedor me convidou para ver seu mostruário de tecidos. Eu era ingênua e acompanhei o homem até os fundos de sua loja. Ele me atacou. A princípio, eu lutei, mas em seguida lembrei que se eu não desse um filho a Thamir, sua família poderia nos forçar a um divórcio, então deixei acontecer. Não contei a ninguém o que ocorreu. Thamir desconfia que eu tive outro homem, mas nunca procurou saber. Para conceber nossa filha, eu visitei um templo das Trebellitas. Uma Soror trouxe um pote de cerâmica com um líquido branco e espesso e introduziu em mim com os próprios dedos. Ainda estava morno. Thamir sabe que estive no templo e sabe que as Trebellitas tratam de assuntos femininos, mas nunca me perguntou nada.
Ela se mantém em silêncio por um momento digerindo memórias.
— Esta noite foi a primeira que vimos um ao outro como marido e mulher. Obrigada, Loius, de verdade.
— Não precisa me agradecer, Sameera, só me tire uma dúvida.
— Qualquer coisa.
— Por que nunca procuraram um mago antes? Por que esperar todo esse tempo?
— Thamir fez alguns inimigos até chegar ao cargo de prefeito. Quando nos casamos, ele já possuía uma fama polêmica.
— E sua família aceitou que você se casasse com um homem... polêmico?
— A família dele tem uma posição melhor que a nossa.
Um servente vem comunicar que o prefeito quer falar comigo. Despeço-me de Sameera e acompanho o servente até o escritório do prefeito.
— Sente-se — diz apontando uma das cadeiras do outro lado da mesa.
— Aconteceu alguma coisa, prefeito?
— Aconteceram muitas coisas — diz com um sorriso malicioso.
— Fico aliviado em saber.
— Agora é minha vez de cumprir com a minha parte da barganha. — Separa alguns papéis lacrados e documentos carimbados, coloca dentro de um envelope de couro e me entrega. — Aqui está tudo o que você precisa para se mudar para Naibar com sua amante. Já despachei um empregado para liberá-la e levá-los de barco até lá. O que restou de seus pertences já foi enviado. Lanias está lhe esperando na prefeitura.
— Obrigado, prefeito, por manter sua palavra. Quando serei chamado novamente?
— Quando qualquer um de nós quiser — diz com um sorriso hostil.
— Como saberei que é um de vocês?
Ele deixa outro sorriso amargo estampar seu rosto. Não insisto.
— Estou livre para ir agora?
Ele faz um gesto para a porta.
— Dheeraj vai acompanhá-lo até a prefeitura e de lá, meu empregado os guiará a Naibar.
Faço uma mesura cordial e me retiro. Na porta, o mordomo me entrega a pele do babuíno. Dheeraj me aguarda na carruagem. Subo e seguimos em silêncio para a prefeitura.
Assim que chegamos, o filho do prefeito me diz para ficar na carruagem enquanto ele sai e conversa com um dos guardas. Pouco tempo depois, um homem entra na carruagem, encara-me de cima a baixo, deixa uma risada de deboche escapar, mas não diz nada. Mago, sem dúvida. Um guarda traz Lanias acorrentada e vestida com o mesmo tipo de roupa em que me puseram no prédio do comandante Vahdat, tira as correntes dela e aponta para a carruagem. Ela se senta ao meu lado, mas eu não a encaro. Olho pela janela do outro lado.
O mago faz um sinal para o cocheiro e seguimos viagem novamente.
— Loius? — sussurra ela com a voz falhando.
A Deusa tece situações interessantes. Agora, posso ignorar Lanias o quanto eu quiser sem medo das conseqüências porque se ela ficar histérica, o mago certamente quebrará seus ossos ou a fará vazar por todos os seus orifícios.
— Não me ignore, meu amor. — Sua voz é um fio agudo de desespero. — O que aconteceu com você?
Eu tenho muito para dizer a ela, mas um nó no meu estômago atrasa a vontade de falar.
A viagem inteira, observo o exterior da carruagem e ouço Lanias fungando e engolindo as lágrimas.
Chegamos às balsas e o mago nos indica uma cabine privativa. É um cubículo que mal tem espaço para nossas pernas, mas tem uma janela, pelo menos. Continuo o restante da viagem observando a margem do rio.
Ela toca meu braço, mas afasto-me com violência e suspiro irritado. Sinto seus olhos me agarrarem e gritarem, mas continuo encarando o exterior.
— Para onde estamos indo? — pergunta ela ao mago.
Com o canto dos olhos, vejo que o homem a encara de cima a baixo com um sorriso de escárnio e também volta-se para a janela.
Lanias se dá por vencida e encolhe-se no assento.
Em outro momento, eu não tardaria um segundo em abraçá-la, confortá-la e sacrificar meus desejos, relacionamentos, responsabilidades e vida por ela, mas agora, depois do que ela fez a mestre Vallun, meu instinto protetor falha sempre que penso em aplicá-lo a ela.
Depois de uma longa viagem de balsa e outra de carruagem, chegamos à nossa nova casa. O mago conversa com os guardas e faz um gesto para eu mostrar os documentos que o prefeito me entregou. Eles me dão as chaves e vão embora.
É uma construção pequena no porão de uma fábrica de tintas. Descemos dois lances de escadas até alcançarmos a entrada. O interior é escuro, abafado, úmido e infestado de mofo. Muito semelhante a Myrtandyr. Não sei se foi um agrado do prefeito ou se queria nos torturar. Os humanos sempre falham em entender que o que os incomoda não necessariamente nos incomoda também.
— Acenda as lamparinas — ordena o mago parado à porta.
Num súbito lampejo de vivacidade, Lanias tenta se mostrar útil e acende todas as lamparinas num instante na velocidade sobrenatural.
Nossa nova casa é um único cômodo grande e vazio. Num canto, há alguns baús, quadros encostados na parede, e cestos com tintas, pincéis e outras ferramentas.
Lanias avança para os quadros e verifica sua integridade. Em seguida confere as ferramentas e tintas. Só depois de constatar que seus materiais estão intactos, é que ela abre os baús e procura por roupas.
Minhas plantas, meus cogumelos. Nenhum deles veio. Vou ter de recomeçar meu jardim do zero. Sem um sistema de iluminação apropriado, elas jamais sobreviveriam aqui dentro. Talvez eu possa usar algum espaço no terraço.
— Podemos ver o terraço? — pergunto ao mago.
— Pertence à fábrica.
— Não posso usar o terraço?
— Esse é o seu espaço — diz fazendo um gesto para o interior do porão.
— Eu sou botânico e micólogo. Preciso das minhas plantas e cogumelos.
— Compre outras.
— E cultivo onde?
— No seu cu.
Uma atmosfera mórbida arrebata tudo ao nosso redor. Não respiro. Lanias também não. O peito do mago sobe e desce rápido, seus dedos agitam-se no ar como se não quisessem cair da mão, seus olhos pulam de mim para Lanias repetidamente.
Nunca conheci um mago com tal linguajar, mas como dizem, há uma primeira vez para tudo. Eu até poderia me ofender, se partilhasse da mesma anatomia dos humanos.
"Todo problema tem uma solução. Se não tem solução, não é um problema, mas apenas uma questão de perspectiva", soa a voz de mestre Vallun em minha mente. Eventualmente encontrarei uma forma de voltar a cultivar minhas plantas e cogumelos. Um problema de cada vez. Primeiro, precisamos nos instalar. Depois, preciso ter uma conversa com Lanias.
Suspiro. Lanias volta a respirar. O mago relaxa os ombros e dá um passo para trás. Vasculho os baús. A maioria contém apenas os pertences de Lanias.
— Suas roupas estão ali — diz minha irmã apontando para dois baús mais afastados enquanto prepara um de seus vestidos.
Encontro algumas peças de vestuário, mas nada que forme um conjunto. Pernas de um terno, sobretudo de outro. Um pé de cada par de sapato. Meus chapéus totalmente amassados. Nenhuma escova, abotoadeira, ou relógio de bolso.
Tenho um pouco mais de sorte no segundo baú onde encontro quase todas as minhas poções, elixires, loções e venenos. Mas alguns recipientes estão quebrados...
Lanias sempre teve mais sorte do que o restante de nós. Seu vestido está perfeito e tem um par completo de botas. Ela caminha até o outro lado do cômodo e encara o chão como se estivesse construindo algo no Fyrdenzyr. Tirando as lamparinas que o prefeito distribuiu generosamente, não temos mais nada. Não há mobília, não há tapetes e nem cortinas, afinal, que janelas elas poderiam cobrir? Mas alguns tapetes fariam bem na ausência de um piso. O chão é de concreto batido. E nem se deram ao trabalho de colorir. Um cinza manchado pela umidade e pelo mofo preto, o favorito da Deusa. Se esta morada está saindo da minha conta, pelo menos não vou dever muito mais.
— Daqsha Qafal? — pergunta uma voz feminina.
— Sim? — responde o mago do lado de fora.
— Sou Lavanya Maaryia Shaqoran abi-Naibar. O prefeito me contratou para acompanhar dois Synnoldyr.
Interessante, ela não nos chamou de sanguessuga. Por que não? Tirando meus amigos, todos os magos nos chamam por apelidos que eles julgam ofensivos.
O recém-nomeado mago faz um conjunto de expressões e gestos para a jovem maga e vai embora. Ela nos encara do lado de fora, as duas mãos segurando uma maleta em frente ao corpo; o cabelo preso num coque baixo; roupas masculinas, calças, sapatos baixos, nenhuma jóia visível, nenhuma pintura. Seu único odor é de sabão de banha de porco. Nunca conheci uma fêmea, de qualquer espécie, que fosse tão indiferente à própria vaidade. Até as miseráveis se arrumam como podem. Mas já conheci pessoas que mantinham sua aparência neutra para evitar chamar atenção. Geralmente criminosos.
— Entre — digo. — Seja bem-vinda. Loius Voidyrian — digo fazendo uma mesura. — Lanias Voidyrian. — Indico minha irmã.
— Lavanya Shaqoran.
Ela pisa devagar como se o chão pudesse afundar a qualquer momento. Seus olhos percorrem todos os agrupamentos de mofo e suas vizinhanças esparsas. Sua mão sobe ao nariz quando uma lufada de ar concentrado atinge seu rosto carregando os gases pantanosos de um local que jamais viu a luz do sol. Sua cabeça gira de um lado ao outro procurando pelos móveis que o consciencioso prefeito não enviou.
— Não temos camas — digo. — E duvido que tenhamos. Espero que tenha trazido algum cobertor.
Seus olhos descem para o mofo preto que cobre um considerável perímetro do chão. Seria um crime colocar um pedaço de tecido neste chão.
— Se você tiver dinheiro, aconselho a comprar alguma esteira — digo. — É o máximo que teremos.
Seu rosto tenta se esconder do meu olhar.
— Nós também não temos dinheiro, porque minha adorada irmã decidiu que seria uma ótima idéia transformar moedas em pinturas, esculturas e jóias que ficaram para trás quando ela decidiu dar cabo de sua façanha letal.
— Eu achei que você tivesse me abandonado... — diz num sussurro, mas tenho certeza que Lavanya conseguiu ouvir.
— E se eu tivesse morrido? Você também iria matar todo mundo, por décadas até descobrir meu paradeiro?
— Eu me descontrolei, meu amor...
— A água é molhada.
— Se você tivesse morrido, eu subiria ao plano divino e desafiaria a própria Deusa para um duelo.
— Morreria antes de tentar.
— Só haveria Ela para me matar.
— Tenho certeza de que, se você pedisse com jeitinho, Ogmanoch lhe concederia esse desejo — digo pronunciando o nome do temido Deus da Morte que meu povo tanto odeia e evita.
Lanias grita e tapa a boca com as duas mãos. Lavanya arregala os olhos espantada com o grito, não com o nome.
— Loius, o que aconteceu com você?
Ela se aproxima num piscar de olhos, mas evita me tocar como se eu fosse um animal ferido.
— Você aconteceu, Lanias. Você sempre aconteceu. Você aconteceu com Jenfel por minha causa. Você aconteceu com Landon só a Deusa sabe por quê. E você aconteceu com mestre Vallun. Por minha causa. O que você faria no meu lugar?
— Loius, eu--
— O você faria no meu lugar, Lavanya? Seu amante paranóico e ciumento ataca todas as pessoas que lhe são caras e destrói a sua vida e a sua carreira, o que você faria?
— Eu o mataria.
Seu rosto impassível é prova de que ela não está mentindo.
— Mesmo que ele pertencesse ao seu clã?
Ouço seu coração subir até a garganta. Ela engole em seco. Pelo menos o prefeito mandou alguém interessante.
— Você tem idéia do que fez quando matou mestre Vallun?
— Tudo o que Vallun criou era tão impressionante e grandioso — diz Lanias encarando o teto. Que também é decorado com mofo preto e marcas de infiltração. — Minha arte nunca poderia se comparar às criações dela.
— Maldita seja, Lanias — digo por entre os dentes. — Mestre Vallun não era artista, vocês duas nunca poderiam ser colocadas lado a lado!
— Você sempre gostou dos seres vivos, Loius. Nada que eu faço tem vida. Mestre Landon fez questão de deixar isso bem claro.
— Eu nunca disse que não gostava da sua arte.
— E nunca disse que gostava.
Repasso milhares de memórias num segundo. Eu nunca disse que gostava.
— Agora é culpa minha? Você faz besteira e eu sou o responsável?
Lanias me encara dentro dos olhos como se visse algo pela primeira vez.
— Nós nunca nos apreciamos, Loius. Tirando o coito, nós nunca nos adoramos.
Nós nunca nos adoramos.



Quando ela me trancou na adega em Nyl Tannei, nós éramos recém-nascidos e não havíamos passado pelo ritual de maturidade ainda. Lanias não queria que o primeiro coito dela fosse com uma das Tannei, queria que fosse comigo ou Marius, mas nosso irmão sempre foi totalmente leal às regras divinas. Ela me chamou para mostrar um livro que surrupiara do quarto da Tanneiver. Era um livro com gravuras de vários atos sexuais entre dois ou mais Synnoldyr. Quando eu tentei sair da adega para devolver o livro antes que a Tanneiver desse por sua falta, Lanias nos trancou e me empurrou ao meu Fyrdenzyr. Meu casulo ainda estava exposto, não havia onde esconder. Nós fizemos tudo o que um par de Synnoldyr poderia fazer de acordo com o livro. Assim que terminamos, ela devolveu o livro e eu fiquei ali, me sentindo aberto como uma ferida mortal; abandonado numa ilha cercada por lava; numa jaula de vidro.
Perguntei a Jenfel como era o coito. A Tannei sorriu e segurou minha mão carinhosamente.
— É a união de duas almas num clímax divino. Mil flores se abrindo para o beijo dos pássaros. O ronco de mil trovões no fundo do estômago. A escuridão do Voidyr engolindo e silenciando o mundo. O vazio cheio de possibilidades de um Fyrdenzyr imaculado.
A decepção em meu rosto deve ter sido chocante, pois a Tannei apertou minha mão com força e perguntou se algo havia acontecido. Foi ali que descobri o véu da dissimulação que aprendi a carregar pelo resto de minha vida e desconversei.



— Talvez não haja nada para adorarmos — digo.
Uma lágrima azul pinta uma linha fina na lateral de seu rosto.
— Não diga isso. Ainda há algo entre nós.
— Além do ressentimento, o que mais poderia haver?
— Por que você me odeia tanto, meu amor?
— Para ser ódio, eu precisaria investir muita energia, e eu não tenho mais energia. Você suga a minha vida, Lanias. Gota por gota eu perco a vontade de viver toda vez que você surge em minha mente.
Ela explode em lágrimas e soluços sentada sobre o mofo preto do chão.
— Olha o que você fez comigo, Lanias! — Abro os braços englobando nosso novo lar. — Pouquíssima dignidade me sobrou!
— Loius!
— O que mais eu tenho que perder para você desistir de mim?
— Pelos deuses, meu amor!
— O que mais eu tenho que arrancar da minha vida e sacrificar no altar do seu egocentrismo para ser deixado em paz de uma vez por todas?!
O eco devolve-me meus gritos como o recibo de uma longa transação.
Lanias se arrasta e abraça minhas pernas.
— Eu não planejei esta vida... Perdoe-me, meu amor. Pelos deuses, me perdoe. Eu não tenho mais nada.
Perdão. A última coisa que ela quer tirar de mim.
— Uma vez que eu lhe perdoe, não sobrará mais nada, Lanias. Eu não terei mais nada. Você entende o que isso significa?
Ela recolhe alguma dignidade que ainda lhe resta, levanta-se e seca o rosto com as duas mãos, mas a pele continua manchada de azul.
— Toda vez que você demonstrava cansaço durante nossa jornada juntos, eu tinha medo de que nossa caminhada terminasse e lhe chicoteava com meus receios e inseguranças. Nunca me passou pela mente que você só quisesse descansar um pouco, na sombra, no frescor da noite — diz ela num lapso de sabedoria que me causa uma surpresa genuína. Onde estava essa Lanias durante todos esses anos?
— E levou mais de um século para entender isso? — Minha pergunta sai mais ríspida do que planejei.
— Você sempre foi tão perceptivo e sensível. E Marius tão corajoso e forte. Eu? Eu sempre fui bela, mas muitas outras também o eram. Algumas, muito mais.
— O mesmo serve para percepção, sensibilidade, coragem e força.
— Marius matou um Zannorian, ninguém nunca havia feito isso antes. Você era o melhor aprendiz de Vallun. E eu jamais seria tão boa quanto Delvon Zannorian.
— Nem você e nem ninguém.
— Exatamente. Eu falhei como qualquer um falharia. Como uma qualquer.
Uma vida de ressentimentos empilhados por todos os lados não nos deixa ver as paredes nuas que nos cercam. Esse tempo todo e eu nunca percebi que Lanias era sedenta de um propósito. O propósito de Marius era servir à Deusa. O meu era descobrir o inominável. Mas Lanias nunca teve um propósito, nem mesmo um objetivo. Ela vivia para não ficar sozinha.
As piores amarras são aquelas que nós nos impusemos.
— Eu lhe perdôo, Lanias, mas esta é a última coisa que você terá de mim.
Seus lábios tremem, mas ela consegue impedir as lágrimas.
— Não vou mais desapontá-lo, meu amor.
— Nem se quisesse.
Um soluço se abafa no canto. Lavanya está sentada sobre um dos baús com as costas para nós, mas consigo ver pelos movimentos dos braços e das costas que se esforça para controlar suas emoções.
— Lavanya, por que não vai comprar sua esteira?
Ela põe-se de pé num pulo. Não há lágrimas, mas os olhos estão úmidos. Ela gagueja com uma voz aguda e eu me lembro. Não temos dinheiro. Não posso oferecer minhas roupas ou as de Lanias em troca de algumas moedas, os egadianos vestem-se totalmente diferente. Também não tenho plantas ou cogumelos.
Minhas poções! Nas mãos certas, elas nos renderão o suficiente para sobrevivermos até que um dos amigos do prefeito me chame.
— Você conhece algum mercador por aqui?
Ela assente.
— Sua mala, esvazie e me dê.
Ela obedece e encho com uma seleção de elixires e venenos mais populares.
— Leve e não aceite menos do que trezentos dairivat.
— Não posso deixar vocês sozinhos. E ninguém vai pagar trezentos dairivat por poções de alguém que eles não conhecem.
— Muito bem. Lanias, limpe o rosto. Você, nos espere lá fora.
Assim que encontro as chaves, tranco o porão que duvido que alguém tenha interesse em roubar, e nós três seguimos para o mercado de Naibar. As pessoas nos lançam olhares curiosos e hostis, mas não cruzam nosso caminho. É meio-dia e o sol de Egádia está a todo vapor com sua tortura fumegante. Lanias cobre a cabeça e o rosto com seu lenço de seda roxo. Eu ajeito o chapéu que o alfaiate do prefeito fez. Lavanya não parece se incomodar, sua pele marrom escura é uma bênção da Deusa para sobreviver sob essa estrela vermelha e sádica.
A loja é grande e cheia de quinquilharias subindo pelo chão, brotando das paredes, caindo do teto, surgindo dos cantos, conquistando mesas, balcões e cadeiras. Até as cadeiras que também estão à venda. Admira-me que não tenha nada flutuando no ar. Tenho certeza de que seria possível apoiar uma coisa ou outra na quantidade de poeira que preenche o ambiente. Aguardamos do lado de fora enquanto Lavanya fala com o dono.
— Ele quer ver seus produtos — diz ela e desaparece dentro do ninho de rato.
Faço um gesto para Lanias entrar primeiro.
— Estou bem aqui fora.
Continuo imóvel na mesma posição. Ela suspira e calcula como vai colocar suas longas e bem torneadas pernas dentro daquele muquifo. Piso onde ela pisa. Que os Deuses me livrem de derrubar alguma coisa.
Desviamos dos entulhos com nossos corpos alongados e magros num balé feio e improvisado. Não sei dizer se a loja é grande ou se dar um passo leva o mesmo tempo que cruzar uma cidade inteira. Conforme avançamos, um odor de mofo, poeira e esgoto nos alcança.
— É por aqui — diz Lavanya passando por cômodos, entrando e saindo de pilhas de cacarecos como um camundongo ágil em seu habitat natural.
Chegamos a um portal coberto por uma cortina. Lavanya levanta o pano manchado de gordura e nos aponta o outro lado: um corredor que se estende a perder de vista, entulhado até o teto.
— Você primeiro — digo à jovem.
Quero ver onde ela vai pisar, mas suas pernas humanas são tão rápidas e coordenadas como as de uma centopéia. Sigo Lanias novamente. De qualquer forma, não teríamos espaço para mudar de lugar.
Como pode uma espécie acumular tanta quinquilharia assim? É tanta poeira que meus olhos ardem. Evito respirar e vejo que Lanias partilha de meu sentimento. Este lugar é a antítese de Myrtandyr. Pelo menos, em nossa terra pantanosa, tínhamos apenas o mofo.
Mas há uma luz no fim do corredor. Uma porta de madeira lascada se abre para fora, onde somos cercados pelos muros de barro de um quintal tão grande quanto três cavalos lado a lado. Quintal? Os muros são mais altos do que o mais alto dos coqueiros. Mais parece um poço do que um quintal.
Uma grade de ferro com várias roupas penduradas escala o poço conforme um homem puxa algumas cordas e correntes. Assim que alcançam o topo, ficamos na sombra, quase no escuro. Num dos cantos, habita uma mesa de madeira que nunca foi movida de lugar desde que chegou há, provavelmente, um século. A poeira somada à água da chuva formou uma argila que mantém a coitada da mesa irremovível. O tampo é encerado e liso, mas duvido que seja cera. A julgar pelo estado da cortina, deve ter sido polida por décadas de gordura e suor humanos. Debaixo dela há uma banqueta que não pertence ao conjunto que, um dia, a mesa possivelmente estreou.
— Qaasim, Loius — diz Lavanya.
Não nos cumprimentamos. O homem me encara de cima a baixo como se eu fosse uma mobília que não vale a pena ser revendida, mas, pelo sorriso desdentado, aparenta gostar das pernas de Lanias.
Ele aponta com o queixo para a mala que carrego.
— Posso? — pergunto apontando para a mesa.
Ele confirma e eu abro a mala. Ajeito os vidros e faço um gesto para ele averiguar. Qaasim mastiga algo invisível, escarra e cospe no outro canto da parede, longe de nós. Lanias se contrai como se estivesse na presença de uma fogueira descontrolada. Lavanya continua imóvel com as mãos guardadas atrás das costas.
O homem dá uma olhada para meus elixires e solta um gemido de desdém.
— São as melhores poções que verá na sua vida — digo. — Sou alquimista há mais tempo do que você existe.
O homem lança outro gemido, mas de descrença. Lavanya faz um gesto negativo com a cabeça. Eu nunca tive tato para lidar com os imbecis. A Academia é o meu lugar e preciso voltar a ver meus amigos e freqüentar nossos círculos ou, talvez, eu enlouqueça como minha irmã.
— Experimente uma gota deste aqui. — Ergo um vidrinho com um líquido azul.
O homem me encara como se eu o tivesse por idiota. Refreio minha vontade de confirmar sua pergunta silenciosa.
— Chame um de seus assistentes. Tenho certeza de que você tem um ou dois dos quais não gosta muito.
— Você prova.
— Receio que não terá efeito em mim.
Um gemido de incredulidade.
— Este elixir ajuda na performance íntima masculina.
Careta de incompreensão, silêncio.
— Isto faz o seu pau ficar duro feito uma pedra.
— Ah! — Um gemido tão aberto quanto uma planta carnívora.
A risada que se segue ao gemido é perturbadora. Um olhar de soslaio para Lanias acompanha a risada que se esvai no fundo da garganta. O homem grita algo indecifrável na direção do corredor. Um moleque bem mais jovem e magricela que Lavanya chega correndo.
— Bebe isso — diz o homem.
Com o conta-gotas, coloco uma gota debaixo da língua do jovem.
— Pode botar mais! Isso aí faz efeito não — diz o homem.
— Uma quantidade maior pode tanto ser extremamente doloroso quanto matá-lo do coração.
— Que nada. Menino é forte!
— Por que não testamos uma gota primeiro e, se não houver efeito, tentamos um pouco mais?
Gemido de desdém.
— E agora?
— Aguardamos alguns minutos — digo. — Talvez seja menos embaraçoso para o jovem se ele aguardar no banheiro ou num quarto sozinho.
— Tá duro ou não tá, Muneen? — pergunta apalpando o jovem.
Que os Deuses tenham piedade de mim.
— Tá é coçando — diz o menino.
— Tu é fresco. Foi um tantinho de nada.
— Tá coçando.
— Pára de botar a mão, moleque!
— Existe a chance de haver um formigamento inicial que pode ser confundido com uma sensação de coceira ou ardor — digo, mas sou ignorado.
— Tu tá ficando duro, Muneen.
— Tá quente.
— Pára de reclamar, teu fresco.
— Tá latejando.
— Põe para fora, deixa eu ver isso aí.
Misericórdia.
Não sei se o jovem realmente expõe sua intimidade porque desvio o olhar. O homem solta uma interjeição no idioma egadiano que mal consigo decifrar, mas pela entonação, minha poção funcionou. Como eu já sabia que funcionaria.
— Quanto você quer? — pergunta com emoção na voz.
— Trezentos dairivat pela mala toda. É o melhor negócio que você fará.
Gemido de desdém seguido de uma risada de deboche. Estupidez minha. Alguém com esse acúmulo de objetos certamente acumula experiência de negociação.
— Duzentos e setenta e cinco pela mala toda.
— Vinte e cinco. Vidro azul.
— Duzentos e cinqüenta a mala toda.
— Que mais tem aí?
— Curas para diarréia, constipação, infertilidade, doenças de pele...
— Lepra?
— Também.
— Tosse?
— Todos os tipos.
— Praga?
— Tenho venenos também.
— Tudo de gota?
— Sim, são concentrados. Uma gota é suficiente para um adulto. Não recomendo nada daqui para crianças e mulheres grávidas.
Gemido de deboche.
— Cinqüenta tudo.
A risada de deboche me contagia.
— Duzentos e vinte e cinco tudo.
— Setenta e cinco.
— Duzentos.
— Cem.
— Cento e setenta e cinco.
— Cem.
— Cento e cinqüenta e não falamos mais nisso.
— Cem.
— Eu já estou no prejuízo aqui. Só de material...
— Cem ou vai embora.
— Cem então — digo contrariado.
Ele sorri e me dá alguns tapas no ombro. Tem menos dentes do que eu imaginei.
Eu poderia ter entrado em sua mente, mas ele perceberia e a situação não seria agradável para nenhum de nós. De qualquer maneira, cem dairivat é melhor que nada.
Ele manda o jovem no estado delicado chamar alguém. Em seguida, uma mulher, reclamando só a Deusa sabe de quê, chega trazendo uma bolsinha de onde ele tira as cem moedas e me entrega. Lavanya apressa-se em colocar os vidros sobre a mesa e pegar sua mala. O homem encara os recipientes sem rótulo e resmunga.
— Ah, sim, claro — digo. — Se você trouxer papel e tinta, posso ajudá-lo com isso.
Ele grita algo mais longo em direção ao corredor e uma jovem que poderia ser sua filha chega trazendo cola, pedaços de papel, pena e tinta. Ela sorri para nós e, pela ausência de alguns incisivos, confirmo que é mesmo a filha do mercador.
Os dois discutem um nome para o vidro azul. Ela escreve com uma caligrafia mais bonita que si mesma, passa o pincel com cola no papel e gruda no vidro. Em seguida, sorteiam um outro recipiente e me encaram.
Assim que termino de nomear os frascos, deixamos o local com a mesma dificuldade com que chegamos.
Seguimos Lavanya até a loja de outro mercador. Este vende tecidos, pedaços de couro, almofadas de ervas, cestos e esteiras de palha. Compramos três esteiras e uma almofada de camomila por uma moeda. Lavanya faz questão de carregar sua almofada e esteira junto com a mala. Entrego uma esteira para Lanias que faz uma careta, mas carrega sem reclamar.
Olhares curiosos, e alguns hostis, nos seguem por todo o caminho de volta, mas ninguém nos incomoda.
Descemos a escadaria da fábrica de tintas e chegamos à nossa nova casa. Destranco a porta e entramos. Um bafo de ar quente proveniente das lamparinas que deixamos acesas nos recepciona. Lavanya escolhe um canto para si e estira sua esteira por cima de uma camada de mofo preto. Lanias arrasta seus baús para um canto afastado. Abro minha esteira entre meus baús de qualquer jeito e me deito. Não me resta muito o que fazer a não ser aguardar ser chamado por um dos amigos do prefeito. Ainda temos noventa e nove moedas. Espero que não demore muito. Seria ótimo se eu pudesse cozinhar para meus amigos e conversar até muito depois do cair da noite.
Cozinhar.
— Você já comeu hoje, Lavanya? — Às vezes me esqueço que os humanos precisam comer com mais freqüência.
— Sim, o desjejum.
— E a refeição do meio-dia?
— Não estou com fome.
— Se não comer, como vai nos impedir de fugir?
Ela se senta e me encara com um semblante de poucos amigos.
— Só tenho que impedir a ela — diz apontando o queixo para Lanias. Minha irmã continua ajeitando seus pertences nos baús sem se incomodar.
— Lanias é mais forte do que você pensa.
Ela desvia o olhar, não de mim, mas de suas memórias.
— Já tive de lidar com gente pior.
— Essas pessoas já mataram alguém?
— Fizeram pior.
O prefeito me mandou essa jovem por algum motivo. Não que eu ache que o prefeito tenha a inteligência de um Synnoldyr para artimanhas, mas tem algo nela que nem todas as pessoas possuem. Seu olhar fugidio me lembra o de Sameera, a esposa do prefeito.
— Quem lhe contratou?
— O prefeito daqui.
— Não foi o de Darlib?
— Não, por que seria?
Naibar é uma cidade com fortes relações comerciais com Qandanajar, onde fica a Academia e a maior concentração de magos do país inteiro. Mas se o prefeito de Naibar e o prefeito de Darlib possuem uma relação amistosa, o que me parece ser o caso, então o prefeito de Naibar é uma pessoa com ligações com os magos e os corruptos. Isso significa que precisamos ser extremamente cuidadosos aqui. Não acredito que um deslize pudesse ser pago com trabalho não remunerado. Certamente o prefeito de Naibar mandaria atear fogo na fábrica conosco dentro e diria que foi um terrível acidente. Posso estar errado, mas não vou pagar para ver.
— Você conhece bem o prefeito? — pergunto.
— Por que está me perguntando isso? — A respiração dela se torna ofegante.
— Me fale sobre o seu clã, os Shaqoran.
— Não tenho motivo.
— O motivo é nos conhecermos melhor.
— Não existe razão para isso.
Suspiro. Tenho certeza de que acabei de inalar um agrupamento de mofo.
— A razão é convivermos em harmonia. Afinal, se lutássemos, eu lhe destruiria.
Ela solta um gemido de desdém, parecido com o do mercador.
— Não conseguiria se aproximar.
— Tem certeza? — Movo minha mão e um dos meus pés de sapato sem par voa em direção a ela e cai em seu colo.
Ela prende a respiração e seus olhos se arregalam como se fossem pular das órbitas.
— Você é um mago! Mas como isso...
— Aprendi do mesmo jeito que você.
— Achei que só os humanos pudessem...
— Achou errado.
— Os anões também?
— Os anões são uma espécie complicada. Não acredito que seja impossível, mas improvável. Eles gostam demais de seus brinquedos.
— Qual a sua denominação?
— Thanasdi.
Um gemido agudo de espanto pula de sua garganta.
— E você? — pergunto.
— Susdi — diz com um tom de inferioridade.
— Se quiser, posso lhe ensinar sobre os líquidos e os gases.
— Por que faria isso? — pergunta com genuína confusão.
— Os Synnoldyr gostam de ter aprendizes.
— Jamais serei sua aprendiz — diz com um nojo tão forte que quase faz o meu estômago embrulhar.
— Não preciso tocá-la para lhe ensinar. Na verdade, não precisamos nem estar na mesma sala.
Ela toca algo em seu peito por dentro da roupa, provavelmente um amuleto de magnetita.
— Claro, para que isso fosse possível, nenhum dos dois pode estar carregando peças de magnetita.
— Não quero ninguém em minha mente.
— Não preciso entrar em sua mente para lhe ensinar, apenas se fizéssemos isso em cômodos separados, o que não há necessidade. Posso ensinar-lhe daqui mesmo. — E mudando de assunto: — Onde você mora?
— Para que quer saber?
Esfrego meus olhos e minha testa.
— Um dia — começa Lanias —, mestre Landon e eu discutimos. Ele me estrangulou e me arremessou contra a parede. Envenenei seu vinho. Não me arrependo. Faria de novo. — E volta a dobrar seus vestidos com uma precisão maníaca.
O silêncio é tão forte que juro que posso ouvir o mofo se reproduzindo.
Eu não sabia exatamente o que havia acontecido para que minha irmã matasse seu mestre, mas sabia que houvera algum tipo de provocação. No entanto, mestre Landon era um dos mais sensatos, se não o mais sensato, de todos os anciões. Se ele agiu dessa forma, também houve alguma provocação, ainda mais conhecendo minha irmã como eu conheço.
Surpreendentemente, Lavanya relaxa os braços no colo.
— Não é crime recuperar nossa dignidade — diz Lanias.
Tecnicamente, é crime, sim, dependendo de como essa dignidade é reavida. Mas não vou atrapalhar a mensagem.
As duas se entreolham como se compartilhassem um segredo. É a primeira vez que vejo minha irmã dar alguma importância para um humano.
— Ainda gostaria de aprender sobre os líquidos e os gases?
— Talvez ela se interesse pelos venenos — diz Lanias. — Silenciosos, poderosos e irrastreáveis.
Entendi. Se não pode ligar-se a mim, tentará ligar-se a outro, mesmo que seja um humano. Jogarei esse jogo. Afinal, não tenho mais nada a fazer.
— Existe um veneno tirado de um cogumelo branco que só cresce em Velda, que quando inalado, desidrata os órgãos causando morte — conto. — Uma morte dolorida, mas rápida.
Lanias sorri como se aceitasse o desafio.
— Bulbusia Albinia — diz ela. — Amador.
— Amador? Já viu um corpo vivo secar em minutos? É uma visão terrível — digo a última frase para Lavanya.
A jovem demonstra perigoso interesse com seus olhos apertados e seus ouvidos atentos.
Lanias termina de arrumar suas roupas e arrasta sua esteira para perto de nós.
— O mais elegante é o garra-das-sombras — diz ela. — Derrete qualquer material orgânico com o qual faça contato.
— Elegante? Tão grosseiro quanto estripar um porco.
Que mestre Vallun me perdoe.
Lanias me lança um olhar afiado.
— O que você sugere que tenha elegância?
— Rosa-rochosa. Tem aroma e sabor de erva doce e, portanto, pode ser adicionado a pratos e bebidas sem levantar suspeitas.
— E leva uma semana para matar — diz Lanias com um suspiro aborrecido.
— Sim, a vítima começa a ficar progressivamente mais fraca até ficar de cama. Há tosse com muco e, nos estágios finais, com sangue. Febre, alucinação, edemas e hematomas inexplicáveis. Os órgãos internos incham até se romperem, e o cérebro vaza pelo nariz.
As duas me encaram com uma careta de reprovação.
— Falho em ver a elegância nisso, meu amor.
— Nossas definições diferem.
— Existe um muito interessante — diz minha irmã. — Suor de sapo-da-chuva. Causa a paralisia de todos os músculos e, conseqüentemente, morte.
— Em quanto tempo? — pergunta Lavanya.
— De cinco a dez minutos.
A jovem maquina algo em sua cabecinha humana. Se as duas continuarem se entrosando assim, vão me trazer mais aborrecimento.
"Lanias, não instigue a menina", digo telepaticamente.
"Ela tem direito de destruir quem a machucou".
"Isso também se aplica às famílias de suas vítimas?"
Minha irmã me lança um olhar cortante.
"Por quanto tempo você ainda vai mencionar isso?"
"Até eu terminar de quitar a sua dívida".
— Quero aprender sobre os líquidos e os gases — diz Lavanya. — Mas não vou ficar sozinha com você e não quero ninguém em minha mente.
— Combinado — digo com um sorriso amigável.
— E gostaria de aprender sobre os venenos também.
— Tenho muito a lhe ensinar — diz Lanias com um sorriso quase orgulhoso.
— Temos. — Eu a corrijo. — Mas os venenos vão ter de esperar porque não temos os ingredientes e ferramentas.
— Ainda temos noventa e nove moedas — diz Lanias.
— Que precisam nos sustentar até que eu seja chamado.
— Eles vão lhe pagar? — pergunta minha irmã.
— Bom, deveriam, pelo menos uma quantia simbólica.
— Você esclareceu isso com o prefeito?
— Não exatamente...
— Loius...
— Bom, se eu vou trabalhar para pagar por seus crimes, você vai trabalhar para prover para nós.
— Com que material?
— Dê seu jeito.
— Divida as moedas comigo.
— Por que eu deveria? Saíram das minhas poções.
— Loius, não se faça de difícil. Estamos nisso juntos.
— Não sou eu quem complica as coisas. E eu sei muito bem que estamos nisso juntos, caso contrário, eu estaria muito bem com meus amigos na minha casa.
Lanias me encara com um olhar ressentido.
— Se eu pudesse consertar tudo, eu consertaria.
— Até Vallun? Jenfel? Aquele dia na adega?
— Loius... — Ela me encara com um semblante confuso. — Se me despreza a esse ponto, por que nunca disse nada? Por que me iludiu durante todo esse tempo?
Rio como um saco de papel estourado.
— Eu iludi você?
— Tudo o que passamos, todas as palavras, as promessas, tudo o que construímos no Fyrdenzyr.
Repasso todas as nossas memórias juntos. Lanias era um presença reconfortante quando precisávamos lidar com outros clãs, principalmente os anciões. Eu sabia que ela jamais deixaria nada de desagradável ser feito contra mim. Mas isso não era amor, porque ao mesmo tempo, eu me sentia preso numa jaula que ela carregava para onde bem entendesse.
Depois do que aconteceu com Marius e de toda a situação com os anciões, um pavor começou a brotar dentro de mim como uma trepadeira. Quanto mais eu tentava arrancar, mais ele se agarrava no meu ser e cobria tudo. Então se Lanias era corajosa para fazer o que fez com uma Tannei, eu estaria a salvo sob sua asa.
O covarde dos Voidyrian sempre fui eu.
— Nós dois somos culpados de usar um ao outro — digo.
— Eu nunca usei você. Eu sempre o amei. E ainda o amo.
— Então o que aconteceu com Marius nunca a abalou?
— Marius? Nosso irmão nunca foi um de nós, Loius. Marius nos trairia se a Deusa pedisse.
— E você não?
— Não. Eu nunca conseguiria.
— E se a punição fosse o Der Lyrius?
Ela esfrega os braços e encolhe-se sobre a esteira.
— Não sei o que eu faria, mas não trairia você.
Pezinhos leves e rápidos descem a escadaria exterior e um menino bem pequeno, magrelo como um graveto e vestido com roupas imundas pára à porta, nos encara por um instante e estende um papel selado.
— Louis Voador! Mensagem para Louis Voador!
Lavanya e minha irmã seguram suas risadas. Alcanço o jovem e pego a mensagem.
— Loius Voidyrian. — Ele me ignora e continua com a mão estendida com a palma para cima. — Não tenho tostões.
Ele não dá sinal de que vai sair. Suspiro. Entrego-lhe uma das moedas que adquiri com a venda das poções. Ele abre um sorriso cariado e agradece.
— Muito obrigado, senhor Louis Voador! — E corre escadaria a cima.
Lavanya e minha irmã deixam suas risadas escaparem enquanto eu leio a mensagem.
Chamaram-me mais rápido do que eu poderia imaginar.
— É um dos amigos do prefeito — digo a elas. — Devo ir a Qandanajar.
— Tão rápido assim? — comenta Lanias.
— Agora eles têm uma mina de ouro mágica nas mãos. Bom, comportem-se. Este é só o primeiro de muitos. E só a Deusa sabe por quanto tempo.
Paro, confuso. Normalmente, eu prepararia uma bagagem com alguns pertences. Lavaria a poeira de minha pele e vestiria roupas limpas, mas as circunstâncias são diferentes agora.
— Lanias, um espelho.
Minha irmã me entrega seu espelho de mão que, surpreendentemente, veio com os baús dela. Meu rosto está imundo da poeira e não temos água para nos lavarmos.
Antes que eu me pronuncie, Lanias me entrega um lenço. Limpo meu rosto o melhor que posso e tento expulsar a camada de terra que se formou em minha vestimenta, mas sem sucesso.
Como eu não sei por quanto tempo ficarei em Qandanajar, entrego a Lanias quarenta moedas e digo que é para comprarem comida e água.
Qandanajar. Finalmente voltarei a freqüentar minha adorada Academia. Poderei rever meus amigos e contar-lhes o que vi na montanha.
A pele!
Dobro-a e amarro com o cadarço de um dos espartilhos de Lanias que ela me cede antes que eu sinta a necessidade de amarrar meu fardo. Deixo uma alça mais larga para enfiar meu braço e a cabeça.
— Comportem-se.
Lanias assente em silêncio, mas Lavanya apenas me encara com a mente em outro lugar.
Pego uma carruagem para a capital e chego antes do anoitecer. Peço informações sobre o local da mensagem em uma taberna e sou direcionado à outra parte rica da cidade, a parte que os magos da Academia não gostam de lembrar que existe. A parte que fica para o sul e trata de assuntos e negócios que estão além da lei e do conhecimento público. A parte que alguns dizem que adora o Deus Rassar e coisas piores.
Ao contrário do que pensei, as ruas são muito bem iluminadas com braseiros grandes e altos. Pessoas transitam como se o mundo não tivesse problemas e a hora não fosse tarde. Olhando mais de perto, elas trocam embrulhos por outros embrulhos menores, alguns com odores metálicos, outros com odores de pedras, pérolas, plantas, cogumelos e bebidas.
Sigo até o fim da rua como me foi orientado e encontro a construção mencionada na mensagem. Uma casa de dois andares cujo segundo andar cobre a calçada com sua sacada. Bato na porta e aguardo. Um jovem bem arrumado atende.
— Meu nome é Loius Voidyrian. Recebi esta--
— Entre.
Um grande salão parece ser o único cômodo do térreo. Uma música animada emana do palco com os músicos. Serventes apressam-se de um lado para o outro com bandejas. As pessoas transitam com roupas muito elegantes, vestidos bufantes, ternos impecavelmente cortados, chapéus e máscaras que lhes cobrem o rosto todo.
Subimos a escada que fica no outro lado do salão. O segundo andar é silencioso e parece vazio, mas tem tantos quartos que eu não poderia dizer com certeza. Damos várias voltas até chegarmos a um quarto solitário no fim do corredor. O jovem bate na porta e anuncia minha chegada para alguém que não consigo ver.
— Entre.
Eu entro, mas ele não me acompanha. A porta se fecha atrás de mim. O cômodo está totalmente escuro, mas consigo ver cinco figuras. Duas sentadas lado a lado em um sofá; uma sentada no outro sofá fumando um charuto urukkatiano; uma figura grande e corpulenta tomando conta da porta; e uma pequena encolhida num canto. Exceto pelos dois últimos, as figuras vestem-se com as roupas elegantes que avistei no salão, inclusive as máscaras.
— Loius Voidyrian — comenta uma voz masculina sentada ao lado de uma figura de vestido bufante.
— Senhor...?
— Você não precisa saber quem somos. Ouvi dizer que o seu tipo consegue enxergar no escuro.
— Sim, enxergamos o suficiente.
— Consegue dizer o que vestimos, por exemplo?
— Sim. Você veste um terno com um sobretudo um palmo acima dos joelhos, uma cartola alta, luvas, sapatos de cano curto, meias de lã, e um corpete apertado no abdômen.
— Muito bem. De que cor?
— Não é assim que nossa visão funciona.
— Você não saberia dizer qual a cor de nossa pele, por exemplo?
— Não. Precisaria de alguma fonte de luz para isso.
— Você pode fazer uma cirurgia no escuro?
— Dependendo da cirurgia, sim.
— Aumento de seios, por exemplo.
— É uma das mais fáceis, mas vou precisar de--
— Você pode fazer no escuro ou não?
— Sim, posso.
— Você vai precisar ingerir gordura.
— Sim. E como o seio é feito também de uma camada de gordura, a mulher também precisará ingeri-la.
— Atrás de você.
Perto da porta, há um gabinete com uma tigela de louça com uma tampa. Abro e o cheiro de banha de porco invade minhas narinas.
— Tem uma colher na gaveta.
Pego a colher e me ponho a ingerir o conteúdo todo. Não sei exatamente por quê, creio que seja por causa da circunstância, mas meu estômago revira-se e debate-se toda vez que engulo uma colherada disto.
Com dificuldade, consumo tudo.
— A senhorita também precisará de gordura — digo para o homem.
— Preocupe-se com a sua capacidade.
— É que esta gordura que eu ingeri é uma fonte de energia para minha magia, eu não posso criar gor--
— Tire a roupa.
— Como é?
— Só fale quando eu lhe dirigir a palavra.
A mulher ao lado dele se levanta e tira o vestido. Seu corpo é arredondado e gordura é o que não lhe falta. Não tira a máscara e nem a gargantilha de magnetita.
— Pode começar — diz o homem para mim.
— Haverá um indescritível desconforto e, provavelmente, mal-estar seguido de pânico. Será muito mais fácil e rápido se eu puder tranquilizá-la entrando em sua mente.
O homem faz uma batida rítmica na mesa ao seu lado e a figura grande e corpulenta amordaça e agarra firmemente a mulher que não apresenta resistência.
— Comece.
Os seios dela me parecem perfeitamente normais, mas os humanos têm algum problema nos olhos ou na mente. Talvez em ambos.
Trago a gordura dos braços para as axilas, a mulher geme de dor. Logo em seguida, ajeito tudo nos seios. Estes estão um terço maior. Paro e faço menção de perguntar se está bom.
— Continue.
— Ela não tem muita pele nos seios, se eu colocar toda a gordura dela nessa região, a pele vai se romper e ela vai morrer.
— O que você pode fazer?
— Posso pegar a pele das regiões de onde tirarei a gordura, mas é um processo demorado.
— Não estamos com pressa.
A outra figura que fuma um charuto, acende outro.
Trago a pele que sobrou dos braços com delicadeza. O grito da mulher é abafado pela mordaça. A figura corpulenta lhe segura com muita força com um braço ao redor da cintura e o outro apertando os dois pulsos erguidos acima da cabeça.
Repito todo o processo trazendo gordura e pele das pernas, ancas e costas para a barriga. A mulher desmaia e meu trabalho se torna levemente mais fácil já que ela não se debate mais. A figura corpulenta a mantém erguida pelas axilas.
De pouco a pouco, transfiro a pele extra e a gordura para os seios e ajeito tudo de forma que os mamilos fiquem centralizados. Fiz o meu melhor para não danificar o tecido mamário, teria certeza se a circunstância não fosse tão inapropriada.
Assim que eu termino, o homem do charuto já fumou metade de uma caixa.
Aí está um par de seios tão grandes quanto o de uma vaca. Totalmente desnecessário, mas eu cansei de compreender os humanos.
— Está pronto.
— Quanto tempo até que você precise refazer?
— É permanente. Achei que--
— Tanto melhor.
O homem bate na mesa novamente, mas num ritmo diferente. A figura corpulenta repousa a mulher sobre o sofá e estende a mão com duas moedas para mim.
— Pelo que nos foi informado, seu serviço é gratuito para nós, mas como é permanente, fique com esse agrado.
Agrado. Dois malditos dairivat por uma cirurgia dessas! Eu sempre cobrava de cinco mil a dez mil dairivat dependendo do problema...
Maldita seja Lanias.
Tento pronunciar algum agradecimento, mas não sai nada. Minha sensação é de que são eles que estão me devendo um favor.
O homem bate na mesa e a figura corpulenta abre a porta e me empurra para fora.
Um outro jovem me acompanha até a porta. O salão está vazio. Não sei quanto tempo se passou.
Sigo de volta para o centro de Qandanajar. Paro em frente a Academia. As portas ainda estão abertas e há luzes saindo de quase todas as janelas.
Nada me impede de entrar. Daamir, Sumayl e Mardeen provavelmente estão aqui, eles sempre gostaram de ficar até mais tarde. Sentávamos na sala de Sumayl e discutíamos até o raiar do dia.
A sala de Sumayl. Lanias destruiu a sala de Sumayl.
Não sei como eu poderia me desculpar com eles, não sei nem se aceitariam. Não tenho o que oferecer em compensação, mas também não sei se vão querer alguma. No entanto, em algum momento nós vamos ter de decidir o que vai ser de nossa amizade depois de tudo o que aconteceu. Posso estar me preocupando à toa e, na verdade, nada muda além de um "me desculpe pela louca da minha irmã". Mas pode ser que não seja tão simples assim.
O prefeito disse que seus amigos moravam em Qandanajar, isso significa que eu terei de visitar esta cidade muitas vezes por muito tempo. É melhor que acertemos isso logo, assim, se eu tiver de evitar um deles, saberei de uma vez, em vez de descobrir quando nos cruzarmos numa situação desagradável.
Entro e aspiro profundamente. Odor de coisas velhas e novas. Papel, tinta, cera, óleo, metal, álcool, madeira, e perfumes dos mais variados.
A sala de Sumayl fica no segundo andar, perto da escada. Assim que faço a curva, vejo a porta aberta, a luz acesa e sombras se mexendo. Paro à porta. Ele, Daamir e um mago Lumesdi discutem acaloradamente sobre ilusões de ótica. Não quero interromper, sinto falta dessas discussões, dessa atmosfera, mas é preciso resolver nosso problema logo.
Bato na porta. Seus olhos voltam-se para mim e seu silêncio me reduz a uma criança desobediente. Sinto-me pequeno, impotente, culpado e nu.
— Quem chamou você aqui? — pergunta o Lumesdi com a mão já erguida.
— Ninguém. Vim a Qandanajar a trabalho e pensei que deveria procurar meus amigos para conversar.
— Amigos? — pergunta Sumayl.
Daamir solta uma risada de deboche e nem olha para mim.
— Onde está Mardeen?
— Não é da sua conta — diz Sumayl.
— Ele está bem?
— Se está vivo e funcional? — pergunta o Lumesdi. — Sim. Você já pode ir agora.
— Sinto muitíssimo pelo que aconteceu e, acreditem, vou pagar por isso durante muito tempo.
— Não nos interessa — diz Sumayl.
— Você e sua besta deveriam ter sido exilados de Egádia — diz o Lumesdi.
— E Harani? Ele está bem? Eu soube que--
— Harani está ótimo e é o único que lembra da sua existência — diz Sumayl. — Agora, vá embora.
— Eu fui exilado de Darlib e não posso visitar Harani, vocês poderiam avis--
— Não — diz o Lumesdi. — E se você não sair por bem agora, vou fazer o mesmo que fiz com a sua cadela.
Desapareço usando minha velocidade sobrenatural. Sento-me na beirada da fonte no centro da praça e encaro o céu noturno.
Não foi uma surpresa considerando que os magos detestam desordem e confusão. Uma parte de mim concorda com eles. A outra começa a guardar rancor por ter achado que amizades deveriam sobreviver a esse tipo de situação.
Harani é o único que ainda pensa em mim, talvez seja o único que sempre foi meu amigo de verdade. E eu sempre tive pouca paciência para ele porque nunca foi um estudioso, e sim um burguês de família riquíssima. Quem diria. Gostaria de me sentar com ele e pedir mil desculpas pelo que aconteceu, mas não posso nem visitá-lo.
Um punhado de mendigos conversam ao redor de um braseiro. Aproximo-me e cumprimento-os.
— Você conhecem Harani Nasatya Alssi abi-Darlib? — pergunto. — Sempre freqüentávamos a Academia juntos. Ele é mais ou menos desta altura--
Todos respondem efusivamente que conhecem.
— Ele sempre dá moeda pra gente — diz o mais desdentado de todos.
— Poderiam entregar uma mensagem a ele?
Eles se entreolham e eu ofereço uma moeda a cada um.
— Que mensagem?
— Que o amigo dele, Loius Voidyrian, está morando em Naibar, no porão de uma fábrica de tintas.
— Louis Voiti, Naibar, porão, fábrica — diz um deles para si mesmo.
— Loius Voidyrian. Em Naibar, no porão de uma fábrica de tintas.
— Fábrica de tinta — repete a única mulher do grupo.
Todos eles repetem partes da mensagem e eu me afasto. Se alguma coisa remotamente parecida com a informação original chegar a Harani e for o suficiente para que ele me encontre, será ótimo.
Pego outra carruagem de volta para Naibar. Chego antes do Sol raiar. Lavanya dorme em sua esteira e Lanias está submersa em seu Fyrdenzyr.
O prefeito deveria ter mandado dois magos para se revezarem vigiando Lanias, mas imagino que ele não queria gastar muito e, provavelmente, gostaria que déssemos motivo para que ele nos mandasse para a guilhotina.
Num canto, o chão está sujo de tinta no formato retangular de uma tela. Um pouco mais adiante há uma cesta com frutas e alguns jarros com água. Pelo menos isso Lanias fez direito.
"Como foi lá?", pergunta-me ela telepaticamente.
Sento-me em minha esteira, encaro seus olhos negros e submerjo. Nos encontramos em seu Fyrdenzyr, onde as montanhas são roxas, a relva é azul, os rios são rosa, o Sol é lilás, o céu muda de cor o tempo todo, as árvores e plantas são pretas, os frutos são laranja, os animais são todos dourados, as flores são brancas, eu sou verde e ela é ciano. Sei que Lanias tem uma câmara parecida com a minha, mas ela gosta dessa explosão de cor. Eu detesto isso.
"Estranho, inapropriado, mas bem sucedido", respondo.
"Eles lhe deram alguma compensação?"
"Dois dairivat".
Raios vermelhos percorrem o céu e trovoadas soam.
"Então você ainda tem as cinqüenta e oito moedas que restaram?"
"Não, paguei uma mensagem para Harani".
"Você foi até a Academia?"
"Sim".
"E como foi?"
"Não somos mais amigos. Creio que nunca tenhamos sido".
"Perdoe-me, meu amor. Eu não queria destruir suas amizades".
"Não queria? Você nunca gostou deles".
"O que aconteceu com você, Loius?"
"De novo isso?"
"Digo, por que desapareceu? Onde você estava? O que houve? Tem a ver com essa pele que você carrega de um lado para o outro?"
Conto a ela tudo o que aconteceu na montanha e mostro minhas memórias da esfera metálica.
"Se eu pudesse desfazer o tempo como se desfaz um crochê, eu teria ido com você e lhe ajudado a trazer essa esfera".
"O propósito de ter saído sozinho naquela noite era ficar sozinho, longe de você por algumas horas, mas algo maior me desviou desse caminho".
Ela fica em silêncio e esculpe mais alguns arbustos. São os mesmos arbustos que eu ajudei Loimia a cultivar na fortaleza de mestre Vallun, mas completamente pretos, sem flores e sem frutos.
"Como foi o dia com Lavanya?"
"O que sobrou das moedas que você me deu, usei para comprar algumas telas. Pintei algumas paisagens e vendemos pela rua. As pessoas nos deram três moedas por cada uma. Foi humilhante".
Lanias sempre gostou de se gabar de que seus trabalhos vendiam por grandes somas de pérolas negras, mesmo que eu nunca tenha achado que fossem tão maravilhosos assim. O que ela cria de sua memória, é uma cópia perfeita, mas tudo o que tenta criar do nada, é apenas medíocre. Não é à toa que ela sempre era requisitada para fazer retratos e bustos de pessoas vivas.
"Pensasse nas dificuldades antes de matar pessoas por capricho".
"Eu me descontrolei e paguei por isso, Loius".
"Pagou?"
"Quatro meses sozinha, sem poder submergir, naquele buraco, respirando aquele ar e comendo tripa de porco. Você agüentaria?"
Tudo bem, realmente é um tipo de punição. Só acho que ainda não foi o suficiente.
"Eu tive muito tempo para pensar em tudo o que se passou", continua ela. "Quando perdemos Marius, eu já tinha que agüentar os descontentamentos de mestre Landon. Para Jullie e Rennia, ele só tinha elogios, mas para mim era só a possibilidade de melhorar num futuro longínquo. Todos os dias as mesmas lições enfadonhas sobre pressão do pincel, tonalidades de roxo, marrom e cinza, sombra e luz, anatomia, temperatura e umidade da argila, pressão do cinzel no mármore, tratamento do couro, acabamento do couro para capas de códices e tudo o mais que essas atividades envolvem... Quase um século disso, Loius. Eu não agüentava mais. Um século ouvindo que eu tinha potencial, só precisava me esforçar mais. Um século pintando pessoas e esculpindo bustos com perfeição e ouvindo que eu tinha potencial. Até Luiton Bonvulian encomendou um retrato e ficou fascinado, mas mestre Landon sempre repetia que um dia eu me tornaria uma artista. Nossa relação começou a se deteriorar mais perto do fim. Uma vez, copiei uma pintura de Delvon Zannorian sobre a criação do mundo, coloquei a minha cópia no lugar e escondi a original. Depois de muitas discussões, eu contei a ele que a pintura na parede era a minha cópia e que a original estava escondida na adega. Ele quase enlouqueceu. Apesar de a pintura não ter sido danificada, eu tive que ouvir calada muitas injúrias direcionadas a mim enquanto aprendiz, enquanto Synnoldyr neófita, enquanto fêmea e enquanto indivíduo. Não revidei. O fato de ele não ter percebido a minha cópia ali, exposta para todos, por tanto tempo, já foi prova o suficiente de que eu era uma excelente artista e que ele era um velho cego e rabugento".
"Delvon sempre foi o ponto fraco dos Zannorian, especialmente de Landon", digo.
Ela assente com um sorriso de deboche e raiva.
"A gota d'água foi nossa última discussão. Pedi para ser liberada de sua tutelagem, pois já não agüentava mais o cheiro daquele lugar, aquela atmosfera de obsolescência, a névoa sufocante de Delvon Zannorian por todos os lados, as mesmas lições dia após dia, a compensação financeira do meu trabalho servindo para financiar uma fantasia de um carcomido Synnoldyr que não enxergava que o seu tempo já havia acabado, aquelas duas aberrações das Dalgonian... Tudo. Eu não agüentava mais Tol Nyllan, Loius".
Ela faz um gesto e sua memória flutua à nossa frente. Landon Zannorian em seu escritório selando documentos. A imagem de ambos refletindo nas dezenas de jarras de cobre super polidas que abrigavam flores de todas as cores, e nos vidros que protegiam os quadros. Lanias se aproxima bem arrumada, como sempre me lembro.
— Mestre Landon, posso interrompê-lo por alguns minutos?
O Zannorian suspira e manda minha irmã fechar a porta e se sentar em um dos sofás. Ele sai de sua mesa e senta-se de frente para ela.
— O que é desta vez, Lanias?
— Sou sua aprendiz a quase um século e já provei muitas vezes o meu valor como artista. Os Bonvulian são prova disso, sem contar todas as esculturas vendidas para a nobreza de Velda. Por isso, gostaria de ser liberada de sua tutelagem.
— Você tem potencial, mas não está pronta ainda. Um dia, quem sabe?
Sinto o ódio de minha irmã emanar de sua pele. Ela o encara com os olhos de um predador.
— Há quase um século que você me diz a mesma coisa, mestre. Quando é que vai perceber que eu sou tão boa quanto Delvon?
O Zannorian estala a mandíbula e respira fundo. Seu irmão ainda lhe é uma ferida aberta que ele não gosta de reconhecer.
— Só porque copiou uma pintura de Delvon não significa que é uma boa artista. Afinal, o mérito é do compositor ou do copista?
— Até para copiar é preciso saber o que se está fazendo.
— Mas, minha bela, a História não se lembra dos copistas.
— Artistas também são esquecidos, principalmente quando se tornam obsoletos.
— Você ainda tem muito o que aprender, Lanias. Não vou liberá-la.
Minha irmã o encara como um açougueiro escolhendo as melhores partes para esquartejar.
— Vocês todos são patéticos, arcaicos, obsoletos. Delvon não era o único artista que Myrtandyr produziu. Zarrai Bonvulian também era. E ambos morreram pelas mãos de seu irmão. Estou começando a achar que é uma habilidade dos Zannorian destruir ou diminuir o que é bom, seja por uma arrogância irracional ou por puro medo de se tornar irrelevante.
— Muito cuidado com suas próximas palavras, Voidyrian.
— Ninguém jamais conseguirá ser melhor do que Delvon porque você não deixa. Você fica remoendo uma arte de tempos imemoriais que só tem sentido para seu clã e uma meia dúzia de anciões sem um pingo de conexão com a realidade. Uma masturbação mental infinita com as migalhas de um cadáver que ninguém se importa ou se lembra mais. Eu já sou melhor do que Delvon e serei muito mais com ou sem a sua tutelagem. Preferivelmente sem esta. Ou você me libera ou--
Landon a esbofeteia.
— Ou o que, sua ratazana de fossa?
O rosto dele está totalmente transformado, as duas fileiras de oitenta dentes expostos, o nariz dilatado e achatado, as orelhas pequenas e pontiagudas, os olhos esticados diagonalmente para cima, a mandíbula descolada do crânio, a língua longa serpenteando para fora.
Ele agarra Lanias pelo pescoço, aperta até que a cabeça de minha irmã fique azul escura e tapa os olhos dela para evitar que submerjam.
— Você nunca será um milésimo do que Delvon foi! Sempre tão entorpecida pela sua juventude e pelo que vê no espelho que está cega para sua inabilidade imutável! Não consegue enxergar o abismo de sua mediocridade petulante e infinita! Sua incompetência vergonhosa é uma afronta a todos os Synnoldyr!
Ele arranca Lanias do sofá e bate a cabeça dela no chão várias vezes.
— Você jamais criará sobre o desespero, a dor e o horror como Delvon criou! Você é tão insensível quanto uma pedra! Você é pintora de nobres e vasos de planta! Você nunca será uma artista, nunca será reconhecida ou apreciada! Você nunca será!
E arremessa minha irmã contra a parede.
— A próxima vez que você mencionar o nome de meu irmão... Sentenciei um Voidyrian ao Der Lyrius, não vai me custar nada sentenciar outro.
Minha irmã treme como se atingida por um raio. Lágrimas azuis banham seu vestido florido. Suas unhas entalham linhas fundas no piso de madeira. Ela encara a parede e geme baixo como um animal ferido.
— Jamais vou liberar você. Seu lugar é aqui, com minhas serviçais, pintando flores e frutas; esculpindo rosas em sabonetes de banha de porco. Você jamais sairá de Tol Nyllan. E como punição para a sua vaidade descabida e delirante, você fará jejum de um ano inteiro.
Landon sai da sala a passos sonoros. Minha irmã arrasta-se até seu quarto agarrando-se às paredes e encarando os próprios pés, pois sabe que destruirá qualquer ser vivo que cruze seu campo de visão. Deita-se em sua cama e encolhe-se reunindo os cacos de seu ego ferido.
Não posso dizer que eu não reagiria de maneira parecida e, certamente, não posso dizer que nenhum Synnoldyr jamais reagiria assim. Mas, ao mesmo tempo, eu jamais trataria mestre Vallun dessa forma e, tenho quase certeza, nenhum outro Synnoldyr seria corajoso ou imbecil o suficiente para tratar seu mestre assim. Então, da mesma forma que Landon provocou Lanias, minha irmã indubitavelmente também o provocou. Eu poderia ficar aqui rastreando a origem da provocação de ambos, mas não tenho interesse em fazê-lo.
Ela faz um gesto e a memória desvanece.
— Por que nunca me mostrou isso antes? Sente-se culpada?
— Culpada não seria a palavra apropriada. Eu queria muito ser liberada de uma vez por todas e nunca mais pisar em Tol Nyllan novamente. Então, se eu não fizesse o que eu fiz, minha única saída seria a deserção. Talvez os Bonvulian me acolhessem como acolheram a aprendiz de Fynzar, mas talvez não. Eles pareciam apreciar a existência de mestre Landon, quase todos pareciam gostar dele. Então duvido que alguém me acolheria. Eu teria que abandonar Myrtandyr, você e Marius.
— Tenho certeza de que algumas pessoas optariam pelo exílio ao assassinato.
Ela me encara com um olhar entediado. Lanias não é algumas pessoas.
— E quanto a mestre Vallun? Ela também lhe humilhou?
— Ela jamais iria liberá-lo.
— Como pode saber disso?
Lanias faz outro gesto e uma nova memória surge.
Mestre Vallun experimenta com algumas plantas e ácidos em uma de suas câmaras. O longo cabelo roxo preso num coque frouxo no topo da cabeça. Veste o típico sobretudo de couro que sempre usava quando manipulava seus experimentos. Lanias bate à porta que se encontra aberta. A mestre diz para entrar.
— Ah, Lanias! O que posso fazer por você?
— Como vai sua pesquisa para criar plantas no subterrâneo?
— Ora, ora! Vai muito bem, por que quer saber?
— Curiosidade. Já teve algum resultado?
— Só o tempo dirá.
— Loius contribui para a sua pesquisa?
— Oh, muitíssimo! Ele e Loimia são aprendizes preciosíssimos.
Lanias caminha pela câmara observando vidros, potes e ferramentas, mas duvido que esteja prestando atenção.
— Se pudesse fazer um julgamento sobre Loius, o que diria de seu conhecimento?
— Ora, ele é um aprendiz formidável. Não há nada que eu ensine que ele não aprenda num piscar de olhos. Muito dedicado e inteligente. A Deusa sempre me manda os melhores. — A mestre pensa um pouco e se corrige: — Com uma exceção.
— Você não gosta muito do Dalgonian, não é?
— Temos naturezas opostas. Não sei qual foi a intenção da Deusa quando o designou para mim. Ele deveria ter ido com os Vulturian para Velda.
— Por que não o libera?
— Jamais poderei, ele não aprendeu nada.
— Assim sendo, você poderia liberar Loius, não é?
A mestre lança uma risada cheia de veneno e deboche. Encara minha irmã com um olhar espinhoso por um momento e então volta-se para suas plantas.
Lanias faz um gesto e a memória desaparece.
Eu conheço aquela risada. Era a risada da divergência. Mestre Vallun não tinha planos de me libertar. Talvez porque eu fosse uma ajuda incalculável, talvez porque éramos amantes.
— Eu sabia que vocês eram amantes desde o momento em que pisei em Nyl Belfyn. O jeito como vocês se olhavam, a forma como ela falava de você, a reação dela toda vez que eu mencionava seu nome. Era tudo o que acontecia com Landon e a Tanneiver quando alguém mencionava seus amantes. E imagino que fosse o que acontecia comigo quando alguém falava de você.
— Por que demorou tanto para agir?
— Eu não queria matar mestre Landon e nem Vallun. Fui forçada a tal.
A desculpa dos assassinos. Típico.
— Eu tentei dissuadir Vallun depois daquele dia. Uma insinuação aqui, uma idéia ali, mas ela sempre me lançava aquele olhar hostil e mudava de assunto. Ela jamais iria liberá-lo, do mesmo jeito que seu irmão não iria me liberar. A morte era a única solução.
— Poderíamos ter desertado.
— Poderíamos, Loius? Se eu tivesse sugerido deserção, você teria aceitado? Teria ido comigo para qualquer outro lugar?
Não, eu não teria. Riria da idéia e fingiria que nunca a ouvi. Continuaria agarrado a mestre Vallun e nossas plantas. Mas agora que sei que ela não tinha planos para me liberar, quanto tempo eu agüentaria ser seu amante antes de me cansar? Teria nosso relacionamento se tornado difícil e sangrento como o meu e de Lanias? Ou eu seria feliz, tranqüilo e sem um pingo de ambição como outros aprendizes por aí?
Depois que aprendi tudo o que aprendi aqui em Egádia, depois de tudo o que eu vi, depois de todas as possibilidades teorizadas, todas as teorias experimentadas, eu não consigo me ver preso na pantanosa Myrtandyr, enfiado debaixo da terra cuidando de plantas e animais para o resto da minha longa vida.
Lanias deixa um suspiro de desprezo escapar. Ela me conhece bem, mesmo que ache que não.
— Qual é a sua teoria? — pergunta-me ela.
— Sobre o quê?
— A esfera. O que acha que pode ser? Uma construção de Fynzar? Estariam os Zannorian nos procurando?
— A princípio, achei que poderia ser uma construção de Fynzar, mas agora, não sei por quê, acho que não tem a ver com Myrtandyr. Pode ser que seja algo dos anões. Aliás, não duvido que seja. Existe uma torre dos anões para o sudeste. Vuzkegrum, se não me engano. Combina perfeitamente com o percurso.
— Quer dizer que os anões finalmente descobriram como voar?
— Bom, eu não sei se é algum equipamento deles — digo. — Mas tem grandes chances de ser.
— Você deveria mandar uma mensagem para um deles perguntando, da Academia.
Ela só pode estar brincando comigo. Lanço-lhe um olhar irritado.
— Eles não querem me ver nem pintado de ouro, Lanias.
— Por isso eu disse uma mensagem em vez de uma visita.
— Não tenho mais energia para tentar me envolver com ninguém da Academia. É como se eles tivessem me traído.
— Se serve de consolo, também achei que eles lhe aceitariam de volta. Afinal, quem cometeu todos os erros fui eu, não você.
O Fyrdenzyr de Lanias continua mudando de cor como se eu tivesse levado um soco nos olhos, e meu estômago se revolta. O som da água dos rios também está mais alto do que deveria.
— Preciso emergir.
— Loius. — Ela segura meu braço com força. — Fica comigo. Tem muito tempo que não... Por favor, fique comigo.
Encaro seus olhos cianos. Por que ela tem essa mania de nos pintar com cores tão horrendas?
Não sei se consigo praticar o coito com ela novamente. Nem tenho mais pensado nisso. Antigamente, eu posso dizer que gostava e que não a rejeitava, mas agora... Não tenho mais nenhuma vontade de viver dentro de mim. Tudo o que eu gostava está se tornando uma frustração atrás da outra.
— Não consigo mais.
— Não consegue mais mesmo ou só por enquanto?
— Apenas não consigo, Lanias.
Emerjo. Estamos com água pela barriga. Está chovendo. Viemos morar no porão exatamente no único dia do ano que chove. Estou pagando por todos os crimes que ainda vou cometer.
Lanias emerge logo em seguida e se levanta com um pulo.
— Meus vestidos!
— Nossos pertences, Lanias. Eu também tenho roupas.
Quando procuramos por nossos baús, encontramos todos em cima de cadeiras. Lavanya incluída. A jovem está encolhida perto da porta olhando a chuva cair com uma tranqüilidade que jamais imaginaria que um humano tivesse. O som da água é tão forte que ela não percebe nossa conversa.
Perto de onde sua esteira ficava, está uma cadeira com um caixote cheio de frutas e alguns jarros de água potável.
— Essa imundície... tocando o meu corpo!
Deixo Lanias enlouquecendo com os dejetos que flutuam na água e me aproximo da maga.
— De onde todas essas cadeiras surgiram?
Ela me encara com um sobressalto como se voltasse de outra realidade.
— Das suas moedas.
— Você roubou nosso dinheiro?
— Vocês dois apagaram por dois dias e a comida tinha acabado. Preferia que eu tivesse deixado suas roupas molhando? — pergunta observando um punhado de fezes descer as escadas junto com folhas e pedaços de tecido.
— De jeito nenhum! — grita Lanias. — Sou eternamente grata por ter roubado nossas moedas para salvar meus vestidos!
— Nossas roupas — corrijo.
Lanias vaga de um lado para o outro sem saber o que fazer ou onde ficar.
— Comprei sangue de porco para vocês, mas já deve ter estragado. O jarro menor.
Lanias abre a tampa, inala e tenta acalmar o estômago.
— Poderia ter comprado o porco ainda vivo — diz minha irmã.
— Era o porco ou as cadeiras.
— Você fez a escolha mais sábia, não discuto. — E se esforça para engolir a gosma meio apodrecida.
Faço o mesmo, mas submerjo parcialmente e fico entre o Fyrdenzyr e o Fyrdenver. Escolho uma memória de um banquete agradável e engano meu paladar.
Nós dois dividimos o conteúdo e tomamos tudo sem reclamar. Bebemos um pouco da água potável, bochechamos e cuspimos no lago que se forma em nossa nova casa.
— Sabe de uma coisa? — comento com Lavanya. — Este é o momento perfeito para aprendermos sobre líquidos!
A jovem me encara com um olhar desconfiado e pergunta:
— Por que não empurra a água toda para fora junto com o lixo e os cocôs?
— Porque eu não estou alimentado o suficiente para isso. E porque é a senhorita quem vai praticar magia.
Os olhos dela se arregalam e sua face marrom escura adquire um tom rosáceo.
— Alguma coisa errada?
— Eu não sei mexer com líquidos — diz com uma arrogância dissimulada.
Essa menina é cheia de segredos.
— Ainda, mas vai aprender rapidinho.
Ela me lança um olhar cheio de dúvidas e um pouco assustado.
— Não tenha medo. O princípio é o mesmo dos sólidos só que um pouco mais desordenado e, conseqüentemente, mais difícil de dominar.
Pego um cadarço de um dos meus sapatos e seguro diante dela.
— Vamos, mexa este cadarço.
— Não estou afim.
— Você disse que queria aprender sobre os líquidos.
— Eu quero...
— Qual o problema?
— Nada! Só não quero fazer magia agora!
— E se Lanias escapar?
— Só se houver necessidade. E ela não vai escapar.
— Eu jamais abandonaria vocês dois — diz minha irmã ainda tão perdida quanto uma barata sem as antenas.
— Tudo bem, não precisa fazer magia agora. Mas veja. — Balanço o cadarço sem tocá-lo e o mantenho no ar por alguns instantes. — Você pode manipular os líquidos e gases da mesma forma. Só precisa de mais concentração e energia, pois são estados mais ativos e desordenados da matéria. E da mesma forma que você sente a presença de sólidos, também sente a presença dos outros estados. Não tem nada de diferente aqui. Uma vez que você tenha dominado os sólidos, dominar os outros estados é uma questão de prática.
Ela pisca de um jeito peculiar e desvia o olhar do meu rosto. O que tem de errado com ela?
— Vamos, me paralise.
— Não quero.
— Lavanya, eu vou machucar você se não me paralisar.
— Já falei que eu não quero!
— Me paralise agora! — Transformo completamente o meu rosto e minha voz soa como a de um monstro das histórias infantis.
Com um pulo, Lavanya alcança o outro lado da sala e grita de pavor, tremendo e chorando.
Quando dominamos um estado da matéria, também dominamos o medo. Porque o que quer que esteja querendo nos machucar, com certeza respira, tem fluídos e ossos, logo, pode ser parado ou desmembrado com um simples gesto. Nenhum mago se encolhe no canto tremendo e chorando. Nenhum.
Lanias me encara boquiaberta, mas não diz nada. Está tão interessada quanto eu.
Recolho meu rosto, tiro a cadeira do caminho e fecho a porta. As lamparinas ainda queimam, então nos enxergamos bem. Lavanya cobre o rosto com as mãos tentando abafar seu choro. Aproximo-me devagar, mas mantenho uma distância segura para ela.
— O prefeito sabe disso?
— Não — diz com a voz trêmula e aguda. — Por favor, não conte.
Um sotaque totalmente diferente surge em sua voz. Esfrego meus olhos e minhas têmporas. Um problema de cada vez.
— Como conseguiu mentir para o prefeito?
— Ele não me pediu prova nenhuma. Apenas me deu seu endereço e me disse para arrancar os ossos da fêmea se a vagabunda fizer alguma coisa — diz a última frase como uma citação.
— Mas como ele chegou a você ou vice-versa?
Ela se debulha em lágrimas novamente.
— Ele conhecia a família da verdadeira Lavanya.
Oh, isso fica cada vez mais complicado.
— Comece do começo, jovem. De onde você é?
— De Urukkat — diz num sussurro.
Eu deveria ter percebido antes, é um sotaque muito peculiar.
— Como veio parar aqui?
— Eu fugi.
— De quê? De quem? Por quê? Quando?
— Da família do meu pai. Eles nos deram para um homem rico em troca de algumas terras, mas o homem... O homem machucava a gente. Nós éramos bem pequenas.
— Nós quem?
— Eu, minhas irmãs e nossas mães.
— Pelos Deuses... — comenta Lanias.
— Vocês todas conseguiram fugir?
Ela se encosta na parede e chora tanto que, por um momento, acho que ela vai ter um ataque.
— Teve um momento em que nós nos juntamos com um outro grupo de mulheres e moças que também fugiam. Mas eles nos caçaram... Eles... Eles nos caçaram... Eu era pequena, entrei numa caverna e engatinhei no escuro... Eu... Muito escuro... Eles eram liláses... Dois olhos liláses... Tinha cheiro de flor... Ela disse para eu continuar e nunca olhar para trás ou voltar... Não sei como consegui chegar aqui.
— Loius...
Lanias e eu nos entreolhamos. Quando Maltannia projeta sua imagem no nosso mundo, seus olhos são liláses e brilhantes como duas jóias ao sol, e um aroma de damas-da-noite preenche o ambiente. A Deusa adora acolher mulheres e crianças. Não é à toa que muitas mulheres urukkatianas fogem para Nyl Tannei ou Tol Nyllan, onde Landon Zannorian proibia a entrada de homens.
— Como foi parar na vida da verdadeira Lavanya?
— Os pais dela me recolheram, eu era bem pequena. Nós tínhamos a mesma idade. Eu ficava com os serventes e trabalhava em troca de casa e comida. A casa era enorme e eles tinham vários serventes. Mas o pai dela...
A suposta Lavanya volta a chorar novamente.
— Ele fazia isso com as outras moças também.
— E a mãe da Lavanya? — pergunta Lanias.
— Não sei. Lavanya e eu não éramos próximas. Eu era servente. Lavanya estudava para ser maga.
— Você tentou fugir alguma vez? — pergunto.
Ela assente.
— Eles me encontraram e me trouxeram de volta.
Ela desencosta da parede e levanta a blusa. Várias cicatrizes pelo dorso.
— Um dia eu tentei conversar com a Lavanya e pedir a ela para conversar com os pais, mas ela riu e disse que eu tinha que apanhar se desobedecesse mesmo.
Ela encosta na parede novamente e respira fundo.
— Um dia, eles colocaram na rua todos os serventes homens e as mulheres mais velhas. Ficamos apenas eu e as outras jovens. Eles nos encorajavam a dedurar se alguma de nós planejasse fugir. Foi como viver muitos anos no Fosso de Ogmanoch. — Limpa o nariz com a manga da blusa e continua: — Há mais ou menos um ano, eles deram uma festa para comemorar que a filha havia sido aceita na Academia. Todos beberam muito e alguns desmaiaram. Eu esfaqueei todos eles enquanto dormiam — conta ofegante e assustada, encarando memórias que não podemos ver. — E matei as outras moças também.
Ela treme violentamente, os dentes batendo, o corpo descontrolado. Lanias tenta se aproximar, mas a jovem joga-se contra a outra parede.
— Queimei os corpos, enterrei as cinzas no jardim e limpei a casa toda. Vesti as roupas de Lavanya e a imitei na frente do espelho. Quando perguntavam onde a família estava, eu dizia que tinham viajado a negócios. Ninguém nunca suspeitou. Eu falava com arrogância e desdém, era grossa e empinada como a verdadeira Lavanya. Ninguém nunca percebeu a diferença. Foi assim que eu enganei o prefeito.
— Qual o seu nome? O nome que sua mãe lhe chamava — pergunta Lanias.
— Não sei. Nosso pai nos chamava de "essas meninas".
— Mas sua mãe com certeza sussurrava algum nome no silêncio da noite.
— Eu não sei.
— Lembra-se do nome de sua mãe? Como as outras mulheres a chamavam?
Ela nega.
"Lanias, ela deve ser de Skantur, sul de Urukkat. Lá, as mulheres não têm nome".
"Não foi isso que ouvi sobre Urukkat".
"Sobre o norte, talvez. Mas o sul é um pesadelo".
— Não tem problema, vamos encontrar um nome lindo que será só seu — diz minha irmã com um tom de voz maternal que eu nunca ouvi antes.
— Que nome? — pergunta a jovem secando as lágrimas.
— O que você quiser.
A chuva pára de cair e só nos resta o silêncio. Abro a porta e recebo a brisa gélida da noite.
— Você ainda quer aprender magia? — pergunto num tom baixo.
— Quero, se puder.
— É claro que pode — digo tentando ser agradável.
"Loius, ela deveria ter um quarto com uma cama e uma banheira com água quente".
"É mesmo? Então diga a ela que a culpa de estarmos nadando na merda não é minha".
"Você está de mau humor".
"Oh, não me diga. É um crime, considerando a situação?"
"Por que está de mau humor?"
"Lanias, olhe ao seu redor! Nossa casa, se é que podemos chamar isso de casa, alagada; merda e lixo boiando ao nosso redor; uma maga que não é maga e matou tanta gente quanto você e o prefeito não sabe de nada! Não é de se espantar que vocês duas estejam se dando tão bem".
"Não tenho que aturar seu mau humor".
— Ah, você tem, sim! Isso tudo é por sua causa!
A jovem se espanta com minha voz e Lanias me lança um olhar hostil.
— Por que está tão irritado? Não é por causa da água ou da imundície.
— Eu tenho duas assassinas sob meu teto e já estou pagando pelo crime de uma delas. Eu não quero ter de ser responsabilizado pelo crime da segunda.
— O que você quer dizer com isso? Quer botá-la na rua?
— Ninguém sabe e ninguém vai descobrir — diz a jovem. — Ninguém desconfiou até agora. Só vocês dois sabem. Por favor, não contem para ninguém.
— Por que aceitou esse trabalho? — pergunto. — Você poderia ter simplesmente fugido para outra cidade, para Trivus ou Velda. Ou até mesmo para Myrtandyr. Por que tomou o lugar da Lavanya e aceitou um trabalho que talvez fosse dela?
— Eu não sei o que fazer...
"Loius, essa menina nunca teve alguém para guiá-la. Imagine um jovem Synnoldyr abandonado--"
— Pare de falar na minha cabeça!
A suposta Lavanya se sobressalta com meu grito, Lanias comprime os olhos aborrecida.
De novo os mesmos pés descendo a escadaria correndo.
— Mensagem para Louise Veado! Mensa--
Antes que o menino diga mais alguma coisa, usando minha velocidade sobrenatural, agarro-o pelo pescoço num piscar de olhos e o ergo encostando sua cabeça no teto. Meu rosto se transforma e uso minha voz monstruosa para gravar uma idéia em sua mente e ouvidos.
— Meu nome é Loius Voidyrian e se você errar mais uma vez, eu vou comer o seu fígado, arrancar seu coração do peito e beber o sangue vivo direto da artéria!
Do menino, vazam fezes e urina. Arranco a carta de sua mão e o arremesso na escada. Ele se coloca de pé chorando e corre por sua vida.
— Se eu não voltar, não me procurem. Se matarem alguém, não contem comigo.
— Loius--
— Não! Chega.
Deixo as duas para trás e avanço com minha velocidade até o centro da cidade. Paro para respirar o ar gélido e úmido da noite. Um clima semelhante ao de Myrtandyr, mas não me traz mais nenhum conforto como trazia antes.
Não tenho mais dinheiro, nem mais esteira de palha e, honestamente, não tenho mais sapatos. Estão encharcados e cheirando a fossa. Eu não sei mais o que fazer. Abro a mensagem e leio. Alguém em Qandanajar novamente. Há um endereço mais detalhado e uma ordem para encontrar alguém numa taberna. Será uma longa caminhada, mas vou andando até a capital. Como não há perigo de cair e ser empalado por um galho, submerjo parcialmente.
Havíamos acabado de chegar em Trivus e o calor era tão avassalador quanto o de Egádia. O que faltava em poeira, sobrava em maresia. Mas nós ainda iríamos descobrir isso. Menessa era uma cidade portuária apinhada de gente transbordando pelas janelas e portas. Mas essa era a característica de todas as cidades de Trivus que nós só descobriríamos quando atravessássemos a capital e partíssemos para Egádia do porto de Brevona.
Quando finalmente conseguimos colocar os pés e o restante de nossos corpos dentro de uma taberna, pedimos um quarto e recebemos como resposta que todos os quartos estavam alugados. Perguntamos onde poderíamos encontrar quartos e nos mandaram procurar debaixo da ponte. Saímos com a mesma dificuldade com que entramos, mas com o acréscimo da ofensa. Perguntamos a alguns funcionários do porto onde poderíamos conseguir quartos. Indicaram-nos a taberna, explicamos que estava cheia, mandaram-nos procurar debaixo da ponte. Que povo grosseiro. Perguntamos a alguns vendedores ambulantes e recebemos a mesma ofensa.
— Melhor caminharmos até a capital — disse Lanias. — Todos parecem sofrer de mau humor crônico.
— Não aceito isso. Se há tanta movimentação assim, então deve haver a mesma quantidade de quartos. Afinal, quem perderia uma oportunidade dessas de fazer dinheiro?
Caminhamos para o leste em direção à capital perguntando a todos e obtendo sempre a mesma resposta. A noite caiu e nossa situação não havia mudado. Finalmente chegamos à periferia de Menessa. Um rio largo cortava a cidade e uma longa, alta e imensa ponte cruzava o corpo d'água até o outro lado. Debaixo da ponte havia uma hospedaria...
A arquitetura me era totalmente desconhecida e um tanto impossível. Os quartos eram cubículos pendurados debaixo da ponte e acessados por uma caixa de metal que descia e subia levando as pessoas. Os anões eram os únicos que operavam o maquinário, e faziam-no com destreza e rapidez. Quando chegou a nossa vez na fila, perguntamos se ainda tinha algum quarto vago.
— Quatro moedas.
— Um quarto para duas pessoas.
— Um quarto, quatro moedas.
— Para duas pessoas.
— Dois quartos, oito moedas.
— Um quarto para duas pessoas — repeti.
— Um quarto, quatro moedas. Dois, oito.
— Um quarto então. Um quarto, quatro moedas, correto?
— Um quarto, quatro moedas.
— Ela pode entrar comigo no meu quarto?
— Tudo seu no seu quarto, quatro moedas.
— Aqui — entreguei-lhe as moedas que ele guardou numa caixa como um faminto esconderia doces. — Obrigado.
Entramos na caixa de metal junto com outras pessoas. Um anão apertou os botões e nos direcionou para nossos quartos. Chamar de cubículo seria um eufemismo ridículo. O quarto era uma caixa de metal construída para alguém do tamanho de um anão, obviamente. Não conseguíamos ficar de pé, a cama mal nos agüentava sentados, e deitar era uma ilusão. Talvez tivesse sido melhor pedir dois quartos. Mas o pior de tudo, o pior de tudo que já havíamos experimentado até aquele momento, só foi descoberto quando tentamos submergir e não conseguimos. A maldita lata anã era feita de magnetita! Se não era totalmente feita de magnetita, então possuía quantidades consideráveis do mineral.
— Fizeram isso para proteger a si mesmos e, conseqüentemente, os humanos que se hospedarem aqui.
— Lanias, o que vamos fazer até amanhã?
— Descansar nossos pés.
— Como?
— Colocando para cima.
— Como?
Minha irmã se contorceu ao meu redor e conseguiu deitar-se numa metade da cama e colocar suas belas pernas dobradas para cima. Contorci-me do mesmo jeito e a imitei. Não era horrível, mas estava longe de ser bom.
Conversamos sobre nossos planos, fantasiamos sobre como seria Egádia e contamos as horas até o amanhecer.
No dia seguinte, contorcemo-nos novamente para sair do cubículo e pegamos um trem até a capital.
Ah, os trens! Criaturas maravilhosas e rápidas, mas também são um punhado de caixas de metal uma atrás da outra. Só pode ser um fetiche. Os anões são famosos por suas obsessões. E superprotetores também, não compartilham com ninguém suas invenções.
Chegamos à capital em uma hora. Trissa conseguia ser mais apinhada de gente que Menessa. Quase não havia maresia ou poeira, mas havia suor e pele demais. A cidade inteira era um emaranhado de telas e caixas de metal por todos os lados. Era quase meio-dia e havia luzes acesas nas ruas de chão porque, logo acima, tinha ruas de metal como gaiolas empilhadas, e a quantidade de gente nos andares de cima era tanta que a rua de chão ficava escura como se fosse noite.
Gotas de suor e pedaços de elementos indecifráveis caíam pelos diminutos espaços da tela acima de nós que rangia perigosamente a cada passo da massa de pessoas. Nas laterais da rua, espremidos em cubículos que pareciam um mercado, estavam as caixas de metal que subiam e desciam operadas por anões. A cidade inteira era uma coleção de gaiolas e latas. Todos os odores do mundo invadiam minhas narinas impiedosamente.
— Não solte a minha mão, Loius.
— Se ao menos eu soubesse onde estão minhas mãos...
Precisávamos chegar à estação de trem do outro lado da cidade, mas mal conseguíamos mover nossas pernas. Eventualmente, como um milagre da natureza, a massa de pessoas nos arrastou pela cidade inteira até a estação e conseguimos embarcar. Pagamos mais caro para ir no vagão dos ricos. Não toleraríamos passar mais tempo espremidos dentro de outra lata.
— Estão só de passagem ou pretendem se mudar? — perguntou uma mocinha sorridente que nos ofereceu um cálice de vodca de batatas.
Bebida atroz.
— Que tipo de ser vivo exerceria a pretensão de morar num local como este? — perguntei horrorizado com a idéia.
— Eu e minha família moramos aqui — disse com um sorriso orgulhoso.
— De onde vocês vieram e por quê?
— Não viemos de lugar nenhum. Sempre moramos aqui. Eu nasci aqui.
— Como isso foi possível?
Ela deixou uma risadinha escapar antes de explicar.
— Meus pais são donos de uma loja de comida rápida no centro de Trissa. Eu nasci ao meio-dia, quando minha mãe estava preparando um ensopado para os clientes. Caí dentro de um balde de peixe. Meu pai me colocou em cima do balcão, os clientes deram os parabéns, ele cortou o cordão umbilical e jogou no balde da lavagem dos porcos. Minha mãe me colocou dentro da roupa dela e me amamentou ali mesmo. Ela gosta de se gabar dizendo que fez a comida com uma mão e cuidou de mim com a outra.
— Que história... aterrorizante, minha jovem.
— Espero que você não pretenda ter seus filhos da mesma forma — comentou Lanias.
— Oh, não. Meus filhos vão nascer neste trem, é certo. Mais vodca?
Balançamos a cabeça negativamente e esboçamos sorrisos falsos.
— Qualquer coisa, é só me chamar, viu?
— Muito obrigado, jovem.
A viagem foi um pouco mais tranqüila, mas ainda não podíamos submergir. Os anões são irritantemente super precavidos.
Chegamos a Brevona tão rápido quanto havíamos chegado a Trissa. Bem menos populosa que as outras duas, a cidade cheirava a incensos, frutas secas e aos mais diversos tecidos. A maioria dos transeuntes tinha a pele marrom escuro, provavelmente egadianos e urukkatianos já que pouquíssimos veldanianos iam para Egádia. E, desde que pisáramos em Trivus, não avistamos nenhum Synnoldyr. Não era surpresa, considerando tudo.
— Loius, precisamos de um quarto confortável.
— Não me diga. O dia que você encontrar algo remotamente semelhante a um quarto e não a uma lata, você me avisa.
Surpreendentemente, conseguíamos andar naturalmente e encontramos uma taberna no centro que possuía quartos disponíveis. Alugamos um e tivemos a agradável surpresa de encontrar uma cama de casal confortável.
Largamo-nos sobre os lençóis e rolamos pelo colchão como cães na lama.
Submergimos e comemoramos. Praticamos o coito que havia um mocado de tempo que não praticávamos e Lanias continuou submersa descansando.
Eu estava faminto e desci para o salão. Sentei-me ao balcão e pedi vísceras e sangue crus. O anão me olhou de cima a baixo e me trouxe uma bandeja com vários tipos de coração e um balde de sangue.
— Abençoado seja.
— Não não não. Bênção não. Moeda sim. — E bateu no balcão compulsivamente com uma colher de pau até que eu me desfizesse da quantidade apropriada de moedas.
— Passagem? — perguntou-me um anão bem vestido ao meu lado que bebia prazeirosamente sua vodca de batatas numa caneca quase do seu tamanho.
— Sim, nós não conseguiríamos viver por aqui.
Ele emitiu um ruído de compreensão e sorveu mais um pouco da sua bebida tenebrosa.
— Você é do Vinhedo ou do Pântano?
Apesar do sotaque, o seu veldaniano era mais completo do que o dos outros anões.
— Sou de Myrtandyr, sim.
— A família da minha mulher é de Dhuggrum.
— Visitei apenas duas vezes para negociar alguns ingredientes. É uma torre bem pomposa — comentei.
— Grande, robusta.
— Sim, sim. Muito.
— Você faz o quê?
— Sou alquimista.
— Você faz o quê?
Sorri, os anões são um tanto alienados quanto ao restante do mundo.
— Elixires, venenos e outros remédios.
— Para caganeira? — perguntou com um olhar esperançoso.
— Você está sofrendo disso?
— Meu irmão. Não sai do quarto há dias. Temos que ir para a terra da areia.
— Eu tenho um elixir para movimentos intestinais exagerados. Duas gotas são o suficiente.
— Como põe as tripas pelo cu a todo instante, merece um galão!
Ah... O linguajar eufórico dos anões.
— Acredite, duas gotas são o suficiente. Por que não visitamos seu irmão quando eu terminar de comer?
— Quanto vai querer?
— Não quero nada, cortesia da casa, digamos assim.
Ele rosnou com um olhar de suspeita.
— Nem puta dá de graça.
— Tudo bem, minha irmã ainda não se alimentou. Você paga uma refeição igual a minha para ela e eu forneço quantas gotas o seu irmão precisar.
— Então sim — disse abrindo um sorriso satisfeito.
O anão sorveu mais um pouco de sua bebida e ergueu a caneca para o meu lado.
— Mudrik.
— Loius Voidyrian.
— Louise?
— Loius — disse eu com um sorriso sem graça.
— Nome de mulher.
— Não exatamente. Para ser feminino, teria de ser "Loias".
— Os penteador de coqueiro tudo tem nome de mulher — disse com uma concordância incorreta.
— Depende muito de a quem se pergunta.
Assim que terminei minha refeição e Mudrik terminou sua vodca, pegamos o elixir no meu quarto e seguimos para o seu.
Antes de abrir a porta, ele parou solenemente e me encarou com uma profunda seriedade.
— Prepara que fede mais que cu de porco.
Suprimi o impulso de perguntar como obteve tal conhecimento específico e entramos.
O recinto cheirava terrivelmente e prendi a respiração.
— A desgraça nem para abrir a janela!
Mudrik arreganhou as janelas, e aproveitei para colocar a cabeça para fora. Seu irmão gemia agachado num balde.
— Preciso de platéia para cagar não, Mudrik.
— Louise é curandeiro.
— Acredito, com essa pele linda que ela tem.
— Louise é macho.
— Com nome de mulher? Esses penteador de coqueiro...
Um escabroso barulho se seguiu.
— Vou esvaziar a merda, você dá as gotas para Rudrik. — E saiu carregando dois baldes cheios.
— Que veneno é esse aí?
— Não é veneno. É um elixir para fortalecer seu corpo e diminuir o excesso de movimento intestinal.
— Vou parar de botar as tripas pelo cu?
— Sim, mas precisa se alimentar e beber bastante água. Água potável, não vodca.
— Nunca botei uma gota de água na boca na vida! Não é por causa de um cu frouxo que eu vou começar.
Suspirei e me arrependi.
— Tudo bem, mas precisa repor todo o líquido que está perdendo.
— Arok! Vou beber os galão tudo desse lugar.
Pinguei duas gotas sob sua língua, ele juntou saliva e engoliu.
— Tem gosto de nada.
— Tem um gosto um pouco amargo, mas creio que a vodca tenha destruído suas papilas gustativas.
— Rá! Louise é fresca que nem mulher.
— Meu nome é Loius Voidyrian.
— Nhé, nhé. Nome de mulher é tudo igual.
Outro barulho espalhou-se pelo recinto juntamente com o odor.
— Louise tem mulher?
— Sim, tenho uma companheira.
— Ela tem nome de mulher?
— Sim, de fato. Lanias Voidyrian.
— Você já disse seu nome, Louise.
— Esse é o nome de minha irmã.
— É o mesmo nome! E a sua mulher?
— Lanias é minha amante.
Ele parou de repente com os olhos arregalados e o que estava saindo dele também parou de repente.
— Você profana sua irmã?
— É mais uma questão lingüística do que biológica. Lanias é parte de meu clã e, portanto, nas linguagens humanas, ela é minha irmã. Mas não temos vínculo de sangue como os humanos e anões. Temos uma palavra própria para isso em nosso idioma, mas não tem tradução para qualquer outro. Então usamos as palavras irmão, irmã e amante intercambiavelmente para nos referir a nossos amantes dentro de nosso clã. É complicado.
— Mas ela é sua irmã? Da sua família?
— Do meu clã, sim. Família não é o termo apropriado para o que os Synnoldyr têm.
— Mas clã é família!
Esfreguei os olhos e aproveitei para respirar com a cabeça para fora da janela.
— Como eu disse, é complicado.
Mudrik voltou trazendo os baldes limpos.
— Louise profana Louise — contou seu irmão.
— É o quê?
— Louise profana a irmã.
— A irmã de quem?
— De Louise.
— Louise profana a irmã dele mesmo?
— Isso. Louise o nome dela.
— Louise é macho, já falei.
— Tem uma Louise fêmea também que Louise aqui profana.
— Tem duas Louise? — perguntou Mudrik.
— Sim, cabeça de peixe, tem duas Louise. Louise aqui profana a outra Louise.
— Mas a outra Louise é irmã de quem?
— Desta Louise aqui.
— Espera. Louise aqui tem uma irmã chamada Louise que ele profana? — perguntou Mudrik novamente.
— Isso!
Tapei os olhos e o nariz. Infelizmente, eu não tinha mais mãos para tapar os ouvidos.
Mudrik deixou escapar um xingamento tenebroso em sua própria língua.
— Maldito profanador de irmãs! Por que faz uma coisa dessas, Louise?
— Ele disse que a família dele não é uma família.
— Percebi! Pervertidos os penteador de coqueiro tudo.
— Você deve uma refeição para minha irmã — disse eu sem muita paciência.
— A coitada da Louise que você profana. Aqui, dê comida a ela pelo menos. — E me entregou uma quantidade generosa de moedas.
— Quando vou parar de botar as tripas pelo cu?
— Em algumas horas, mas precisa se alimentar.
— E beber. Louise falou que tenho que beber muita vodca.
— Não foi isso que eu falei.
— Vou buscar, Rudrik. Não saia daqui.
Voltei para nosso quarto e entreguei as moedas para Lanias, mas não contei a história toda. Submergimos novamente e passamos um tempo juntos. Quando descemos, no dia seguinte, Lanias fez sua refeição enquanto eu tomava conta de nossa bagagem.
— Louise! — chamou Mudrik.
Ao seu lado estava Rudrik que parecia bem disposto. Ambos carregavam suas bagagens.
— Como está se sentindo, Rudrik?
— Meu cu está arrebentado, mas parei de cagar. Seu veneno funcionou!
Seu hálito cheirava a vodca. Era surpreendente que não estivesse bêbado.
— Fico feliz de saber.
— Vamos para a terra da areia no próximo navio — disse Mudrik.
— Nós também. Estou só aguardando Lanias terminar sua refeição.
— A Louise está com você? — perguntou Rudrik.
Indiquei Lanias que limpou os lábios com um guardanapo de pano e os cumprimentou.
— Tão linda e tão profanada — comentou Rudrik.
"Não vou nem perguntar", comentou Lanias para mim.
Os dois se despediram e saíram.
Assim que conseguimos chegar ao porto e embarcar, ouvi vozes familiares na cabine ao lado da nossa. Abri a portinhola que nos separava e espiei pela fresta. Se não eram os dois anões!
Escancarei a portinhola.
— Olá, cavalheiros.
— Louise! — gritou Rudrik. — Que coincidência!
— Os Deuses gostaram de nossa dinâmica — comentei.
— Os deuses que beijem a minha bunda! — rosnou Rudrik.
— Se eu encontrar um deus morrendo na rua, piso na cabeça dele até matar! — disse Mudrik quase espumando.
— Quanto ódio, senhores.
— Se os deuses beijarem meu cu e passar a dor, posso até ser bonzinho.
Não era surpresa a falta de fé e respeito dos anões pelas divindades. Convivi com alguns em Nyl Belfyn. Mestre Vallun e Fynzar adoravam realizar festas e banquetes para eles. Regados a muito álcool, claro.
— Louise está junto com Louise? — perguntou Rudrik.
— Sim, ela está aqui ao meu lado.
Afastei-me e Lanias agitou os dedos para eles.
— Viajam a trabalho para Egádia? — perguntei.
— Minha mulher inventou de construir telescópios — disse Mudrik.
— Sua mulher é engenheira?
— Engenheira óptica, a safada. Rudrik e eu que vamos ter que construir a tranqueira toda do telescópio.
— Para qual cidade vão?
— Amaravastu — respondeu Rudrik. — E as Louise?
— Para o interior. Darlib, perto da capital.
— Vão ficar debaixo da pedra? — perguntou Mudrik com um grito.
— Sim, queremos uma visão privilegiada de Nul Barmal.
— Aquele troço está caindo! — continuou Mudrik com a voz alterada.
— São boatos, apenas. E se cair mesmo, vocês acham que estão a salvo em qualquer lugar de Egádia?
— O troço cai um dedo por ano — disse Rudrik. — Cair devagar destrói muito não.
— Ouvi dizer que é um asteróide bem grande. A destruição certamente atingiria a costa.
— Não não não — disse Rudrik. — Velocidade é destruição.
Eu ouviria uma explicação semelhante alguns anos mais tarde na Academia.
Ah, a Academia... Emerjo abruptamente. É dia em Qandanajar. Meus pés estão esfolados e a dor está se tornando uma companheira ciumenta. O endereço na mensagem indica um lugar no centro, uma taberna. Visitei o local poucas vezes, pois meus amigos não gostavam da clientela. Sempre preferiam combinar um jantar na casa de um de nós.
A taberna está aberta, mas vazia. Os empregados lavam o chão e esfregam canecas e pratos. Um rapaz pára em minha frente me impedindo de entrar. Pergunto pelo nome que me foi dado na mensagem e ele me indica um quartinho nos fundos da taberna. Encontro um homem delgado, alto, perfeitamente escanhoado, elegante e vestido com um terno cinza impecável. Ele me encara de cima a baixo.
— Sou Loius Voidyrian. Fui convocado por esta mensagem.
Entrego a ele o papel agora sujo e amassado. Ele lê o conteúdo, dobra e guarda em sua algibeira.
— Acompanhe-me por gentileza, senhor Voidyrian.
Seguimos para uma carruagem pequena e discreta que aguarda na sombra de uma frondosa mangueira.
A viagem é silenciosa e rápida. Avançamos para o sul de Qandanajar novamente, mas para uma região mais discreta em suas atividades ilícitas. Pelo que eu ouvia de meus amigos, era uma região freqüentada por homens, em sua maioria. Casados e solteiros.
Chegamos a um casarão e também parece ser dia de limpeza, pois tudo está molhado e vários serventes esfregam chão, paredes e até o teto. A arquitetura é diferente de tudo que Egádia normalmente produz. Pelo que me lembro dos livros, assemelha-se à arquitetura de Velda, com salões espaçosos cercados por pilastras lisas e fálicas. Muitas pilastras. Pilastras em quantidades desnecessárias. O telhado é abobadado e adornado com esculturas cheias de curvas que se parecem com galhos de um vinhedo. As paredes são mais brancas que a neve. O chão é de mármore branco. O pouco de colorido provém de excessivas quantidades de rosas cor-de-rosa que adornam tudo o que é possível adornar, em vasos e treliças; e de um gramado tão verde que chego a me questionar se é real ou uma ilusão de ótica.
Piso no chão recém-lavado e me desculpo com os serventes pela sujeira que arrasto atrás de mim. Passamos por uma galeria cujas paredes são cobertas de espelhos do chão ao teto e o centro é preenchido com camas. O conjunto que o alfaiate do prefeito fez para mim se perdeu sob muitas camadas de poeira e dejetos. Meu cabelo é um punhado grudento de pêlo varrido. Pareço um mendigo.
Pelos Deuses, como eu sinto falta da minha dignidade...
Atravessamos um jardim arquitetado como um labirinto, porém curto. Entramos num salão cercado por pilastras, mas sem paredes. O teto é uma redoma de vidro tão limpo e brilhante que nem parece existir. O chão também é de mármore branco. Meus olhos doem.
Uma idosa de pele marrom escura, enfiada num vestido tão branco quanto as paredes e tão bufante quanto buquês de flores, borda uma toalha igualmente branca, sentada num sofá branco, acompanhada de duas serventes de pele marrom escura e vestidos brancos e folgados que deixam seus seios escaparem quando se curvam.
— Madame Uddina, o convidado. Loius Voidyrian — diz meu guia.
Faço uma mesura e evito encarar a brancura de tudo, primeiro porque toda essa iluminação queima meu cérebro e segundo porque tenho medo de sujar alguma coisa só de olhar.
Sinto seus olhos percorrerem a imundície que me acompanha há dias. Ela faz algum gesto para o homem e este encosta a ponta do dedo de leve em mim e indica um caminho.
Seguimos até uma casa de banho.
— Por gentileza, banhe-se pelo tempo que quiser. Não temos pressa.
— Muitíssimo obrigado.
Livro-me das roupas e adentro a piscina que emana um aroma de frutas e flores. Esfrego tudo várias vezes e sinto a água gélida acariciar minha pele. Prendo a respiração e mergulho. Observo a pintura do teto por debaixo d'água. Soldados egadianos atiram lanças em monstruosos homens rosados de cabelos cor de fogo. Magos direcionam raios de sol que atingem os inimigos e os transformam em pilhas de carvão. A Guerra do Remorso. Uma mancha vergonhosa e ingrata na história dos egadianos.
Várias cabeças me observam de fora da piscina. Ponho minha cabeça para fora da água e ouço gemidos de susto e alívio. Servos carregam toalhas e roupas. As minhas não estão mais onde deixei.
— Achamos que estivesse morto, senhor Voidyrian — diz o homem do terno cinza.
— Desculpem-me, é que tem bastante tempo que não me banho assim.
— Compreensível. Se já terminou, por gentileza, vista essas roupas. Madame Uddina está lhe aguardando.
Todos eles saem e visto-me com privacidade. O corte do conjunto é bonito e as meias são de um algodão bem macio e agradável. As feridas nos meus pés já começaram a cicatrizar, mas ainda doem. O sapato tem uma sola grossa e macia, é como pisar em vários travesseiros. Uma bênção para meus pés. Todo o conjunto é branco.
Encontramos Madame Uddina em outra parte do casarão. Um varandão coberto com um teto abobadado e pintado como o da casa de banho. Não presto atenção na pintura. Estou leve e encaro a idosa nos olhos. Ela faz um gesto para eu sentar no sofá, que é branco.
— Muitíssimo obrigado pela oportunidade do banho, Madame.
— Eu que agradeço por não se opor, Loius. Posso lhe chamar assim?
— Por favor.
— Recebi uma ótima recomendação sua de um amigo distante.
— Eu faço o que posso com o que me é oferecido — comento humildemente.
— E nós todos. Isso se chama viver.
Os cabelos dela são longos e brancos, mas não sei se naturais ou pintados, a julgar pela obsessão com a cor...
— O que posso fazer pela senhora?
— Quantos anos você acha que eu tenho?
— Uns sessenta?
— Gentileza sua. Tenho oitenta e sete.
— A senhora, certamente, não aparenta sua idade.
— Agradeço o elogio. Se me permite, quantos anos você tem?
— Um século e três décadas, mais ou menos.
— E um rosto de um jovem de trinta. Quero chegar na sua idade com o mesmo rosto. E o mesmo corpo.
Ah, uma cirurgia rejuvenescedora. Arriscada, demorada e temporária.
— O procedimento é demorado, arriscado e, receio, não muito durável.
— Não estou com pressa. Levei oitenta anos para ficar assim, não espero um milagre. Sobre os riscos, estou ciente, mas envelhecer também é arriscado. E quanto à durabilidade, quanto tempo você estima que levará para eu começar a envelhecer novamente? Meses? Semanas?
— Uma vez que seus órgãos estejam rejuvenescidos, eles vão levar o tempo normal que um ser humano leva para chegar à sua idade.
Ela franze o cenho e me encara séria.
— Está me dizendo que se você me rejuvenescer para os meus vinte anos, eu só vou voltar a ter este corpo de agora, novamente, daqui a sessenta anos?
— Exatamente.
Ela deixa uma gargalhada longa, elegante e agradável animar o ambiente.
— Meu bom Synnoldyr, isso é mais do que eu esperava ter.
Ela não me chamou por um apelido desagradável. Que senhora adorável! Claro, eu não chamaria a pessoa responsável pela minha saúde de nada que pudesse ofender sua honra, seria uma estupidez sem tamanho. Esta senhora pode ser muitas coisas, mas estúpida não consta na sua lista.
— A senhora gostaria de começar logo?
— Claro, do que precisamos?
— Primeiro, a senhora precisa se alimentar fartamente, até quase não agüentar, várias vezes por dia.
— Imagino que exista um motivo para isso.
— Sim, a comida que você ingerir servirá como material para rejuvenescer todas as pequenas partes de seu corpo.
— E quanto aos meus ossos? Eles já não são mais os mesmos.
— Arrumarei seus ossos também. Para eles, recomendo leite batido com farinha de gergelim e banho de sol.
— Não será problema. E para a pele?
— Uvas, castanhas, muitas folhas, tutano e sementes de borago. Este último pode ser importado de Velda.
— Mais alguma coisa?
— Vou precisar me alimentar também para ter energia para realizar os procedimentos, mas vou precisar de bastante gordura.
— Eu já havia sido informada sobre isso, e sobre as terríveis tigelas de banha de porco que você teve que consumir a colheradas. Se não for proibitivo para sua natureza exótica, meus cozinheiros têm idéias muito mais saborosas para a ingestão de bastante gordura.
— Oh, Madame Uddina, assim você me deixa mimado.
— Se me for possível, não imagino por que não o faria — diz com um sorriso charmoso. — Zihayl, reserve um quarto para Loius.
O homem de roupa cinza faz uma mesura e se retira.
Sou levado até meu quarto e faço minhas refeições nele. Durante a noite, Zihayl me recomenda, educadamente, que eu não saia do quarto para nada. Se precisar de algo, devo informar um dos serventes que ficará à minha porta.
Pela janela observo muitas luzes vindas do casarão, música e uma grande movimentação. Risadas, gemidos e palavras explícitas temperam o clima gélido da noite.
Deito-me e acaricio os lençóis macios e cheirosos. Eu deveria me sentir culpado por usufruir disso tudo enquanto Lanias está vivendo naquele porão, mas não chegamos a esse ponto por ação minha, então inalo cada centímetro cúbico do delicioso aroma deste lugar e aprecio sem pressa.
Um servo bate à porta e deixa uma bandeja sobre a mesinha. O cheiro é maravilhoso. Carne assada e ensopado de vísceras. Não gosto de carne cozida, mas assim que corto a carne assada, um filete de sangue escorre como uma lágrima. O interior está perfeitamente cru. Que os Deuses abençoem esse cozinheiro. Devoro tudo, inclusive o ensopado que não me é muito agradável, mas que está imensuravelmente melhor do que sangue podre num jarro. Noto que as vísceras nadam em gordura. De fato, é uma das melhores formas de ingerir grandes quantidades de gordura. Que Madame Uddina possa viver por muitos séculos.
Quando o dia nasce, sou liberado para caminhar. Os serventes estão esfregando o chão, as paredes e o teto de novo. Encontro a Madame bebendo a mistura que sugeri de leite com farinha de gergelim enquanto pega sol sob a redoma de vidro. Meus olhos doem. Cumprimento-a, estico-me em um dos sofás e coloco uma almofada sobre meus olhos.
— Dormiu bem?
— Nós não dormimos, mas descansei muitíssimo bem. Muito obrigado por sua hospitalidade, Madame.
— Você notou algo ontem à noite?
— Notei que é a segunda vez que seus serventes esfregam o teto e confesso que é difícil parar de pensar no porquê.
— Alguns de meus clientes têm muita saúde.
— Ah! Imagino que sim. Ainda assim, é um feito e tanto.
— Muitos feitos são alcançados dentro das paredes de minha casa.
— Madame, se me permite perguntar, por que tanto branco?
Ela suspira e permanece em silêncio por um longo tempo avaliando lembranças que não ouso pedi-la para compartilhar.
— Não gosto de sujeira escondida.
— Interessante resposta, ainda mais se for considerar algumas das amizades que a senhora possui.
— Não escondo o que eu faço em minha casa, mas não mando na casa dos outros.
— A senhora não sente uma pontinha de agonia em ter de lidar com eles?
— Como você mesmo disse, eu faço o que posso com o que me é oferecido.
Sorrio e a almofada se move um pouco.
— Como vai seu relacionamento com sua amante? — pergunta-me ela.
Tiro a almofada para encarar seu rosto, mas meus olhos doem e volto a cobri-los.
— Por que a senhora está me perguntando isso?
— Foi-me informado que você entrou nessa enrascada por causa de um deslize emocional de sua amante. E após observar que você não transpira uma gota de remorso pelo conforto que lhe ofereço, surgiu-me a curiosidade sobre o estado de seu relacionamento.
— Péssimo. Discutimos sempre. Problemas antigos ainda nos assombram. Mágoas brotam e afloram a todo instante... E eu não sinto mais o que sentia antes. Honestamente, não sinto mais nada. Sou um poço seco. Dei a ela tudo o que eu tinha, não me sobrou mais nada.
— Pelo contrário, meu belo. Sobrou-lhe tudo. Você ainda tem sua vida, sua saúde, suas habilidades, seu intelecto e sua experiência. Pode recomeçar onde e quando quiser. Quando a dívida estiver quitada, claro.
— Lanias nunca me deixará partir.
— Uma vez que você desapareça, ela não será mais problema seu e não poderá lhe encontrar.
— A senhora está sugerindo que eu fuja e me esconda?
— Estou sugerindo que você deixe-a no passado, onde ela já se encontra. Assim que ela perceber que está sozinha em definitivo, será forçada a seguir adiante.
— Foi exatamente isso que ela não fez. Ela matou muitas pessoas, Madame.
— E está pagando por isso, não?
— Não o suficiente.
— Para o que você está passando por causa dela, talvez não. Mas para ela própria, é mais que suficiente.
— Como pode ter tanta certeza disso? A senhora não conhece Lanias.
— Conheci pessoas como ela. Elas infligem sofrimento porque tudo os machuca.
— Não simpatizo com o procedimento.
— E nem deveria. É um método deplorável, mas é a única forma que eles têm de lidar com a própria sensibilidade.
— A senhora quer dizer que devemos simplesmente deixá-los machucar tudo e todos porque eles são incompetentes demais para lidar com as próprias emoções?
— De jeito nenhum. Eles vão pagar pelos seus atos de uma forma ou de outra. Para os que são ligados a eles, minha sugestão é o abandono. Só quando se atinge o fundo do poço é que as pessoas fazem um inventário de suas vidas e descobrem a imensa coleção de seus erros e delitos.
— E então?
— E então ou eles escolhem recomeçar de uma maneira mais digna ou eles acabam com tudo de uma vez.
— Mas pôr um fim na própria vida é uma fuga muito fácil. Os Deuses lhe acolhem e a eternidade é mais doce que mel.
— É isso o que pensa, meu belo? E se os deuses não acolhem ninguém? E se não há nada para nos acolher além do frio e da escuridão desoladores?
Sento-me, seguro a almofada como se fosse um chapéu para barrar o sol e a encaro.
— A senhora partilha da crença dos anões de que não há Deuses ou o outro lado?
— Você já falou com alguém do outro lado?
Nem quando Jenfel me guiava, eu não conseguia meditar sobre Deusa. Lanias jura que Maltannia conversa com ela, mas eu nunca senti nada. Creio porque todos os Synnoldyr crêem, mas minha experiência sempre me provou o contrário.
Gostaria de conhecer outros Synnoldyr com os mesmos sentimentos.
— Mas se o outro lado não está lá e não há ninguém para nos acolher, qual é o propósito de tudo isto?
Ela deixa sua gargalhada elegante nos fazer companhia novamente.
— Essa é a pergunta de ouro. A pergunta que tem todas as respostas e ao mesmo tempo nenhuma.
— A senhora tem medo de morrer. — Eu queria que soasse como uma pergunta, mas acaba soando como uma afirmação.
— E você não tem?
Medo seria um eufemismo. Desde que botei os pés neste mundo, um profundo horror da morte cerca tudo o nós fizemos. Não sei se é porque toda a nossa história gira em torno da imortalidade ou se é porque todos temos pouca fé na idéia de que seremos acolhidos no seio da Deusa.
— Meu povo orbita a idéia de que podemos recuperar nossa imortalidade. Acredito que isso seja um pânico descomunal da morte.
— Recuperar? Tem certeza de que algum dia já foram imortais?
— Os anciões contam histórias do início dos tempos, quando não existiam humanos e nem anões. Faziam competições de luta e o perdedor era desmembrado. Assim que a cabeça e os demais pedaços eram colocados juntos, o Synnoldyr voltava a se levantar como se nada tivesse acontecido. Em alguns casos, conseguiam regenerar membros inteiros.
— Como as estrelas-do-mar.
— Não exatamente, mas bem parecido.
— E o que mudou?
— Não podemos mais regenerar membros perdidos e se cortarem nossa cabeça ou nos queimarem, é o fim.
— Não muito diferente de nós.
— Um dos problemas é justamente esse. Para os Synnoldyr, isso foi uma inferiorização de nossa espécie.
— O que você acha que é pior, todos morrerem igualmente ou serem igualmente imortais?
— Se todos fossem igualmente imortais, teríamos um sério problema de super população — digo.
— Discordo. As pessoas têm filhos justamente porque podem morrer a qualquer momento e precisam deixar sua marca no mundo. Se todos fossem imortais, ninguém mais teria filhos. Afinal, quem é que agüentaria um ou cinco fardos pela eternidade?
— Interessante pensamento, Madame, pois os Synnoldyr não podem se reproduzir. Pergunto-me se esta foi a idéia da Deusa.
— Acredito que um predador imortal que se reproduz seria uma desvantagem impossível de se manter a longo prazo, pois a comida acabaria, e o que aconteceria? Canibalismo? Seria o fim de tudo.
— Talvez esse fosse o propósito da Deusa.
— Então para que desperdiçar tempo e espaço?
— Talvez Ela estivesse entediada?
— É possível, se você quiser muito acreditar que deuses existem e olham por nós.
— Se a senhora duvida tanto disso, como explica a nossa existência? Nascemos de um lago de água negra.
— Também se achava que os sapos brotavam do lago, mas depois descobriu-se que botavam ovos na água.
— A senhora acha que alguém põe ovos em Mel Nielun?!
— Não seria uma surpresa.
— Seria extremamente desconcertante!
Ela ri de meu terror.
— Está quase na hora do almoço, por que não me acompanha?
— Adoraria.
Ela segura meu braço e caminhamos até uma saleta com uma mesa redonda e quatro cadeiras. Sentamo-nos e, aos poucos, os serventes trazem a louça, os talheres, bebidas e, por fim, a comida. A Madame segue minha sugestão novamente e come um ensopado de tutano com salada de folhas, uvas e semente de borago. Nem pergunto como conseguiu importar tão rápido, provavelmente conhece alguém que já comercializava as sementes.
Para mim, os serventes colocam uma iguaria que consiste em vísceras mais nobres curtidas em azeite e sal com um toque de ervas. Não é ruim, mas seria melhor se estivessem cruas.
Para beber, um vinho escuro com um aroma muito familiar.
— Este vinho...
— Um vinho de amora preta muito apreciado em alguns círculos que freqüento. Importei de Myrtandyr, espero que seja de seu agrado.
Meu rosto e meus olhos devem ter desabrochado como flores sob a luz da manhã porque a Madame sorri espantada e recosta-se para me observar degustar o vinho.
O líquido desce pela minha boca e garganta trazendo memórias e sensações que eu havia guardado bem fundo em meu Fyrdenzyr.
Tem gosto de casa, intrigas, segredos, antigüidade, amores, traições, histórias e um tipo indescritível de paz. Um prazer que eu havia quase esquecido.
— Que a Deusa lhe abençoe, Madame, e lhe dê muitos séculos de vida!
— Séculos não, assim eu ficaria muito rabugenta — diz rindo.
Passamos a refeição conversando sobre trivialidades para balancear o teor profundo da conversa da manhã.
Pela tarde, a Madame me avisa que não abrirá seu casarão naquela noite.
— Se a senhoria quiser, podemos começar hoje então.
— Existe mais alguma coisa que você precisa?
— A senhora conhece algum curandeiro de confiança? Seria bom ter alguém para verificar seus batimentos, pressão e estado geral enquanto eu realizo os procedimentos.
Ela sorri um tanto decepcionada por eu achar que ela não é precavida o suficiente para ter um curandeiro particular. Ela manda Zihayl buscar o homem.
— Há uma última coisa. O procedimento é indescritivelmente desconfortável, então sugiro duas possibilidades: um, que a senhora me deixe entrar em sua mente para distraí-la da dor. Ou dois, consuma algum opiáceo.
— Você se perderia em minha mente. — Um sorriso mais pesado adorna seu semblante. — Tenho vários opiáceos. Vou deixar meu curandeiro escolher o tipo e a quantidade apropriados.
Decidimos realizar o procedimento no quarto da Madame. Um local espaçoso tanto para os lados quanto para cima. A cama é imensa, com um dossel exageradamente alto e cortinas rosa de veludo. A única coisa não branca no quarto todo.
Os serventes amarram as cortinas nos quatro cantos do dossel. A Madame se deita e estica os braços e pernas. O curandeiro senta-se à cabeceira de forma a poder verificar seus batimentos pela jugular facilmente.
Ela bebe uma combinação de opiáceos sob indicação do curandeiro e aguarda fazer efeito enquanto respira profundamente de olhos fechados.
— Vou começar pelos ossos dos braços e pernas — digo perto de seu ouvido. — Se houver tempo, trabalho seu crânio e as costelas.
— E o meu quadril?
— A coluna e o quadril precisam de um dia inteiro para cada um. São regiões delicadas, complicadas e problemáticas.
Ela assente em silêncio e aguardamos.
Assim que o curandeiro me sinaliza que ela está inconsciente, começo pelos pés. Trabalho os ossos de forma que a porosidade desapareça e atenuo as deformidades. Conserto joanetes e um esporão do calcâneo.
Subo pela fíbula e a tíbia, mas não há muito para mexer além da porosidade. Nos joelhos, me demoro mais, pois a deformidade é bem acentuada e a cartilagem está quase totalmente gasta. Preciso sair do plano de consertar apenas os ossos primeiro porque os nervos também estão bastante danificados. Se eu consertar apenas os ossos e não mexer nos nervos, a Madame ficará impossibilitada de andar até que cheguemos nessa parte, então prefiro arrumar isso logo.
O sol já deu lugar à noite e os serventes circundam o quarto acendendo lamparinas, mas o escuro não me atrapalha nem um pouco.
Subo para o fêmur e não demoro tanto, pois, novamente, só preciso lidar com a porosidade.
Terminado os dois lados, passo para o braço direito e começo pela mão. A Madame tem uma artrite mediana que ainda não lhe roubou os movimentos completamente, mas preciso consertar isso. Trabalho cada uma das falanges e suas articulações, passando pelos metacarpos, o emaranhado de ossos do pulso, rádio, ulna e, por fim, o úmero. Faço o mesmo com o braço esquerdo.
— Quanto tempo mais vai levar? Ela está quase acordando — diz o curandeiro.
O céu noturno ganha seus primeiros tons de rosa da manhã.
— Eu trabalharia o crânio, mas é melhor que ela acorde para sabermos se há alguma seqüela.
— Você não mencionou que haveria seqüelas.
— Todas as cirurgias e tratamentos podem deixar efeitos colaterais e seqüelas. Você, mais do que todos, deveria saber disso.
Não era minha intenção ser grosseiro, mas acaba escapando. Talvez porque estou cansado do procedimento excessivamente minucioso.
— É melhor você sair para eu poder examiná-la — diz o curandeiro.
Obedeço e sou guiado para o quarto em que tenho ficado. Peço um pouco de vinho e uma servente traz um cálice sem demora.
— Pode deixar o jarro?
Ela me encara pensativa e, com um pouco de hesitação, deixa o jarro sobre a mesinha e sai.
Reponho um pouco de ânimo a cada gole de vinho de amora preta enquanto assisto ao nascer do maldito sol vermelho. Apesar de detestável, é um espetáculo muito bonito. Mas uma vez que o sol tenha nascido completamente, a luminosidade é torturante.
— Madame Uddina quer falar com você — diz a servente.
Sigo-a até o quarto. A Madame está sentada com uma mesinha de desjejum no colo, mas em vez de comida, tem papéis, pena e tinta.
— Alguma coisa errada? Como está se sentindo?
Ela me lança um olhar e um sorriso iluminados.
— Sente-se — diz batendo na cama.
O curandeiro me encara de uma poltrona com um semblante rancoroso.
— Está sentindo alguma dor? — insisto.
— Há muito tempo, depois de fugir de Urukkat, eu vivi em Brevona por alguns anos. Há noite eu alugava meu corpo para os viajantes solitários e, durante o dia, comprava materiais para tapeçaria e vendia minha arte por alguns trocados na rua. Um dia, um anão muito aborrecido que morava ali havia muito tempo, me perguntou por que eu gastava o dinheiro que fazia à noite se o retorno da tapeçaria não compensava. Eu respondi que a minha arte era a única parte de mim que eu podia vender sem morrer por dentro. Numa tarde, ele me convidou para o seu cubículo e eu achei que queria um pedaço de mim, mas ele colocou uma pena na minha mão e me ensinou a pintar cenários inteiros usando apenas uma cor de tinta. Conforme fui me aprimorando, conseguia vender os desenhos por muito mais do que a tapeçaria. Expandi os cenários para o retrato dos viajantes e, finalmente, consegui me sustentar sem precisar morrer toda noite.
Ela me entrega um papel com o meu rosto pintado em pontos de diferentes tamanhos. Alguns borrados e tortos, mas nem a ferrugem do tempo e da artrite são capazes de ofuscar a delicada habilidade que ela ainda tem.
— É belíssimo... Madame, eu--
— Quando a velhice se instalou e minhas mãos começaram a entortar, eu não conseguia mais pintar. Você me deu de volta o meu único amor.
Não tenho palavras e, de qualquer forma, elas não são necessárias.
Madame Uddina tira o desenho da minha mão e instrui um servente sobre como emoldurar e cobrir com seda. E então me lembro do mofo e do esgoto em nosso porão. Nenhum gesto de carinho sobreviveria naquele ambiente.
— Madame, não quero parecer ingrato ou rude, mas minha residência atual não é amigável a peças delicadas. Que tal se a senhora emoldurasse, pusesse um vidro e pendurasse num salão onde suas visitas pudessem apreciar sua arte? E, se possível, eu adoraria visitar vocês duas.
Ela sorri compreensiva.
— É uma ótima idéia. Também gostaria que você me visitasse em outras circunstâncias, como amigo.
— Madame, você precisa se alimentar. Passou muito tempo inconsciente e com opiáceos fortes no corpo — diz o curandeiro.
— Vou deixá-la se recuperar — digo me levantando. — Continuamos quando estiver se sentindo melhor.
— Estou ótima! Façam o desjejum comigo vocês dois. Está um dia lindo e, pela primeira vez em muitos anos, meus ossos não doem. Bem, o quadril ainda dói, mas só quando ando.
Ajudamos Madame a se levantar e seguimos para a saleta do dia anterior. Compartilhamos histórias engraçadas sobre os anões e algumas situações peculiares.
Esta noite, ela também não recebe convidados. Antes de eu me recolher, ela manda me chamar. Encontro-a sentada diante do meu retrato. A moldura é prateada com entalhes de rosas. Lanias iria adorar.
— Você pode consertar os meus olhos?
— Vou consertar tudo o que a velhice tocou. Inclusive, a senhora precisará ser cuidadosa ou ficará grávida.
Ela me encara assustada como se um monstro a tivesse ameaçado.
— Você acha que é possível?
— Perfeitamente, pois vou regenerar seu corpo para o estado original.
— Estado original... — repete desapontada.
— A senhora era estéril?
— Não sei se eu nasci assim ou se foi depois do que fizeram comigo quando eu ainda vivia em Urukkat.
— Descobriremos em breve.
— Se eu nasci normal, você acha que é possível? Mesmo depois do que me fizeram?
— Eu não sei o que fizeram à senhora. Se arrancaram alguma coisa, então eu não tenho como regenerar um tipo de tecido que não existe mais em seu corpo. Mas se o dano foi diferente, é muito provável que seja consertável.
— Veremos então — diz com um semblante resignado, de alguém que não quer ter esperanças para evitar uma possível decepção.
Na manhã seguinte, continuamos com o procedimento. O curandeiro administra a mistura de opiáceos e eu começo trabalhando seu crânio. Removo as próteses dentárias instaladas pelos anões — um trabalho muito bom, por sinal — e regenero cada um de seus dentes. Corrijo a porosidade e sigo adiante.
O trabalho é bem mais simples e rápido nas costelas. Passo para a coluna e preciso corrigir a deformidade, a porosidade e a cartilagem gasta de cada vértebra por vez. É um trabalho de formiga.
A noite levanta-se majestosa e eu ainda estou na metade da coluna.
— Ela vai acordar.
— Ainda não terminei. Dê mais da mistura para ela.
— Poderia matá-la.
— Ela vai ter de ficar na cama até a próxima sessão — digo.
— A escolha deveria ser dela.
Concordo com ele. Termino com a cartilagem e aguardo até que a Madame acorde.
— Como se sente? — pergunto.
— Do mesmo jeito de ontem.
Ela tenta se sentar, mas nós dois a impedimos.
— Não houve tempo para terminar a sua coluna hoje e, por isso, receio que a senhora terá de ficar na cama até a nossa próxima sessão.
Ela nos encara com um olhar aborrecido e remói pensamentos que não compartilha conosco.
— Você ainda poderia entrar em minha mente?
— Madame Uddina, eu não aconselharia--
Ela faz um gesto com a mão e o curandeiro se cala.
— O ponto positivo de me deixar entrar em sua mente é que podemos fazer pausas em momentos mais convenientes e não no meio da sessão, além de ser mais seguro e mais rápido. O ponto negativo é que terei acesso a tudo o que a senhora quer esconder. Traumas, crimes, segredos, seus e dos outros. Tudo o que a senhora sabe, eu poderei saber se eu espiar. Eu não vou espiar sua mente, mas a senhora não tem como saber o que eu vou fazer uma vez que eu tiver acesso.
Ela me encara nos olhos como se fizesse um inventário de tudo o que sabe sobre mim e calcula todos riscos.
— Eu não tenho muito mais a perder mesmo.
— Madame Ud--
— Daqui em diante é ladeira a baixo.
Ela retira seu amuleto de magnetita e entrega para a servente.
— A única coisa que posso fazer agora, Loius, é esperar que sua honestidade não seja apenas uma dramatização.
— Só o tempo lhe responderá. Mas agora, aconselharia que a senhora se alimentasse. E fizesse suas necessidades deitada.
Ela rosna, mas não oferece objeção. O curandeiro e eu saímos do quarto e aguardamos do lado de fora. Assim que terminam, uma das serventes nos chama de volta.
Sento-me ao lado dela e seguro seu rosto com ambas as mãos.
— Vai doer?
— A senhora não vai nem perceber — digo sorrindo amigavelmente.
— Eu tenho que fazer alguma coisa?
— Quando conseguiu se sustentar com seus desenhos, o que sentiu?
— Alívio. Liberdade. Leveza.
— E com o que gastou a maior soma de dinheiro que havia obtido até aquele momento?
— Paguei duas horas numa casa de banho para damas. Elas nos limpavam da cabeça aos pés, arrumavam nosso cabelo, nossas unhas, tiravam os pêlos que não gostávamos e até limpavam entre os nossos dentes. O local era quente, úmido e cheirava a sais de banho. Foi a primeira vez que senti o cheiro de um sal de banho.
Consegui, estamos ligados.
Evito olhar a nudez das damas, mas não consigo evitar um sorriso quando vejo a jovem Madame Uddina brincando com a espuma do banho.
"Você não deveria estar aqui", diz aborrecida.
"Eu não estou aqui exatamente, mas isso não importa. Mostre-me o que fez depois do banho".
Ah, Brevona... Sempre empoeirada e cheia de maresia. Caminhamos entre os transeuntes até uma loja de roupas.
"Desde que vi esse vestido pela primeira vez, um ano antes, eu o visitei todos os dias e sussurrava que um dia ele seria meu".
Ela gira como uma dançarina em frente a um espelho rachado. Seus dentes brancos e sua risada de moça exteriorizando toda a felicidade que sentia. O vestido esvoaça de um lado para o outro. Ela, então, observa seus pés com desgosto e voltamos a caminhar.
"Foi difícil achar um sapato que coubesse em meu pé por causa da quantidade e do tamanho dos calos que eu tinha".
Percorremos a cidade toda até encontrar um sapateiro egadiano. O homem manipula sapatos com tanta habilidade que quase parece um ilusionista fazendo um truque elaborado. Madame tem o seu pé medido de todo o jeito e o homem diz para ela voltar no dia seguinte.
Um aroma delicioso nos alcança.
"Eu sempre evitava passar nesta rua. O aroma era uma tortura. Eu salivava mais que um camelo. Mas agora eu posso pagar".
Ela pede uma refeição completa e sinto o gosto de sua mastigação.
Termino a coluna. Avanço para o quadril.
À noite, visitamos um teatro. É uma peça cômica, mas Madame debulha-se em lágrimas.
"Tudo é tão grandioso e belo e alegre e vivo. As pessoas riem e os artistas parecem se divertir com o que fazem. Eu nunca havia visto algo assim. Não existem teatros em Urukkat. Não existe arte em Urukkat".
Sua voz tremula e Brevona desvanece dando lugar a uma terra ainda mais arenosa e seca. Ossos cobrem a argila com a qual as casas são feitas. Homens cobertos de ossos e peles caminham numa procissão para o oeste. Carregam espadas, machados e facas na cintura. Alguns levam lanças também.
"Madame, melhor voltarmos para Brevona. A senhora estava feliz no teatro com os bobos--"
"Eles vão caçar", sua voz está aguda de medo.
"Não temos que ver isso. Os bobos, Madame, um deles havia acabado de tropeçar, vamos voltar".
Seu corpo na cama se torna ofegante.
"Eu não fui a única moça a tentar fugir".
"Madame, não podemos ficar aqui".
"Eles nos caçam do mesmo jeito que caçam javalis", ela arregala os olhos e começa a tremer. O vestido florido desaparece e dá lugar a retalhos de pele sujos de sangue. "As fugitivas não servem mais para procriar. Estão manchadas. Mas ainda têm coragem correndo em suas veias. É preciso consumir essa coragem".
"Madame Ud--"
Hienas rosnam e salivam. Um dos homens toca um berrante e o restante entoa um cântico. É uma prece a Ogmanoch.
Seu corpo começa a suar.
— Mas que merda você está fazendo com a mente dela?
— Não sou eu! Ela está indo para esse caminho sozinha.
— Traga-a de volta!
— Já estou tentando!
— Se ela morrer--
— Cale a boca!
Os homens soltam os animais e os seguem. A poeira levanta-se com a agitação de dezenas de pés. O chão treme.
"É preciso consumir a coragem".
"Os sais de banho, o vestido florido, seus desenhos!"
Sangue escorre de seus pés e mistura-se com a areia formando uma lama entre os dedos.
A hienas são mais rápidas e arrastam uma mulher de dentro de uma caverna. Os homens a apunhalam com suas lanças enquanto gritam o nome de Ogmanoch e dedicam-lhe a alma dela.
"É preciso consumir a coragem".
Uma a uma, as outras mulheres e moças são abatidas e os homens arrastam seus corpos para um acampamento improvisado.
"É preciso consumir a coragem".
Montam uma fogueira grande, esquartejam os corpos, enfiam pedaços em espetos, assam e erguem para o céu.
"A coragem, a força, a rapidez. O que é de minha presa é agora meu por direito. A Ogmanoch, a essência. Ao caçador, a vivência", recita Madame Uddina. Sua voz soando nas bocas daqueles homens.
Eles devoram toda a carne, assim como coração, cérebro, olhos e língua. O restante das vísceras é jogado aos animais. Os ossos são limpos e levados de volta para a aldeia.
O lençol está encharcado.
— Você tem que parar com isso agora!
— Não posso.
— Ela vai ter um ataque, sanguessuga!
— O quadril dela está derretido sob minhas mãos! Se eu não terminar de rearranjá-lo, ela nunca mais vai andar ou sentar!
— Vou acordá-la. Isso é uma insanidade.
— Não! — grito e transformo meu rosto.
As serventes gritam e correm de um lado para o outro sem saber o que fazer.
— Não pode acordá-la assim — digo com minha voz monstruosa. — A mente dela está muito longe, você a mataria! Eu vou trazê-la de volta se você parar de me atrapalhar!
O homem empalidece e se deixa cair sentado no chão ao lado da cama. Algumas serventes desmaiam e outras abraçam-se e choram.
As hienas farejam mais alguém. Os homens se entreolham e aguardam. Os animais avançam. Os homens tocam o berrante novamente e entoam o cântico.
"A coragem está em cada canto".
"Madame Uddina, ouça minha voz. A senhora está deitada em sua cama, em seu casarão, cercada pelas suas serventes leais e seu curandeiro de confiança. A senhora não está aqui".
"A menina não pode escapar", diz ela e um homem ao mesmo tempo. "É filha de quem?", continuam as duas vozes juntas. "É filha da sorte. A sorte será nossa também".
Uma menina corre em direção a uma campina para o oeste. A turba segue. As hienas a alcançam e jogam seu corpo magro de um lado para o outro. Ela consegue se levantar e alcança o rio. As hienas a agarram, mas ela se joga na água. Os homens gritam xingamentos e entram no rio. A correnteza ganha força e as hienas abandonam sua presa.
"Madame Uddina, volte comigo para o seu quarto branco e limpo".
A jovem Madame está encharcada e vomita água. Os homens arremessam lanças, mas não conseguem acertar a criança. O rio a leve embora.
Ela se afoga de pé ao meu lado. Na cama, a idosa não parece respirar. Não gosto de invadir a mente dos humanos, mas não há outro jeito.
Puxo a sala branca de meu Fyrdenzyr ao nosso redor e ocupo sua mente por inteiro. Dispo-lhe de sua imagem jovem e deixo-a com sua imagem idosa atual. Estendo um espelho debaixo dela enquanto vomita. Ela vê seus cabelos brancos e a água desaparece. Encaramo-nos por um momento.
"Loius?"
"Sim, Madame. Bem-vinda ao meu Fyrdenzyr".
"Seu o quê?", pergunta olhando ao redor. "É tudo branco".
"Uma feliz coincidência".
"Onde estamos?"
"Dentro da minha mente dentro da sua mente".
"Eu... me perdi".
"Entendo".
"Eu nunca vou para lá. Eu nunca mais fui para lá".
"Compreensível".
"Eu estou na minha cama?"
"Não pense nisso agora, preciso que fique aqui comigo por mais um momento".
"Há algo errado?"
"Agora não mais. Gostaria de ver um Voidyr?"
"O que é isso?"
"É um eclipse que ocorre todos os dias em Myrtandyr. É um belo espetáculo quando assistido de Mel Nielun".
"O lago onde os sapos colocam os ovos?"
"Algo assim".
"Mostre-me".
Faço um gesto e uma das paredes se desfaz mostrando a sacada do templo e o lago abaixo de nós cercado pelas montanhas. Madame se aproxima da imagem com os olhos e a boca abertos.
"Já começou?"
"Ainda não. É deste lago que todos os Synnoldyr nascem".
"E quem põe os ovos?"
"Ninguém. A Deusa nos esculpe do lodo".
"É o que a sua mãe lhe contou", diz com um ar malicioso.
Uma sombra avança pelas montanhas como um líquido negro engolindo tudo.
"O que é aquilo?"
"Está começando".
A sombra nos alcança e a imagem fica completamente negra.
"Um tanto decepcionante".
"É assim que a senhora vê e é assim que eu vejo".
Faço um gesto e mostro a ela como é ver no escuro. Enquanto ela se espanta com a visão, finalmente consigo terminar o quadril.
"Madame, precisamos ir. Lembre-se de sua cama, seu casarão".
A imagem dela desvanece e voltamos ao Fyrdenver.
Ela se espanta com o quanto sua cama está encharcada. O curandeiro corre para ela e verifica seus batimentos e pressão.
— Estou bem, homem.
— Esse sanguessuga quase lhe matou, Madame!
Ela o encara com o semblante fechado e aborrecido.
— Não usamos esse linguajar na minha casa.
— Peço desculpas, mas ele fez algo com sua mente. Eu--
— Loius não fez nada com a minha mente. Eu visitei lugares que eu achei que tivesse guardado bem fundo.
— O que está sentindo? Dói em algum lugar?
Ela tenta se sentar, mas o curandeiro a impede.
— A Madame pode se sentar se quiser — digo me jogando na poltrona, exausto.
A idosa se ajeita na cama e respira fundo.
— Meu quadril não dói mais.
— Louvados sejam os Deuses — digo um tanto ácido.
Peço licença e vou para o quarto descansar.
Na manhã seguinte, fazemos o desjejum juntos, mas sem o curandeiro. Não conversamos muito apesar de a Madame estar de bom humor e ter pintado mais alguns desenhos.
— Você já terminou com todos os meus ossos?
— Sim, só restam os tecidos, ou seja, o seu corpo inteiro.
— Que sedativo vamos usar?
— O que a senhora prefere?
— Bom, se os opiáceos são perigosos e minhas lembranças também, podemos ir para sua sala branca.
— Deveríamos ter começado por ela, não é?
— Há algum risco nela?
— Não, a senhora acessa suas memórias de maneira controlada e, se algo indesejável entrar, eu posso expulsar, pois estaremos dentro da minha mente.
— Então é isso que eu quero. Meu curandeiro precisa estar presente?
— Depende. Quando eu estiver mexendo nos seus órgãos vitais, seria melhor que ele estivesse presente, sim.
O tecido mole é mais fácil de manipular do que os ossos, então as sessões seguintes acontecem sem problemas. Em minha sala de visitas, mostro-lhe sobre Myrtandyr, a Academia e outras partes da minha vida. Algumas coisas ela gosta, outras nem tanto, mas não há incidentes. Levo em torno de uma semana para terminar de regenerar todos os seus tecidos. O resultado é um tanto surpreendente. A Madame foi, ou melhor dizendo, é uma mulher muito bonita.
Ela examina seu corpo totalmente rejuvenescido diante do espelho. O curandeiro me encara com um pouco de rancor e inveja.
— Isto é real, não é? Já saímos da sua sala branca, não saímos?
— Sim, é real. Não estamos mais em meu Fyrdenzyr. Esse é o seu corpo regenerado para seu estado original.
Ela testa a elasticidade e flexibilidade de seus membros e se espanta positivamente com algo que prefiro não perguntar. Coloca a mão na barriga e uma nuvem passa pelo seu rosto.
— Você conseguiu consertar?
— Pelo que verifiquei, não falta nada, Madame. Talvez a senhora pudesse testar? Se estiver funcionando, já sabe qual será o resultado.
— A esperança dói mais do que a verdade, Loius.
— Divirta-se, mas de forma precavida. Encontre um parceiro agradável, mas que seja de confiança. Se Maiitt lhe abençoar com um fruto, goze de sua felicidade.
Ela cobre seu corpo com um lençol e se dirige a mim.
— Você nunca terá idéia do que fez por mim.
— Sua satisfação é o suficiente.
— Para mim não é.
Ela entrega ao curandeiro uma bolsa de pano recheada de moedas e o dispensa. Ficamos a sós. Ela fecha a porta, tira um quadro da parede e mexe numa portinhola de ferro. Fecha, coloca o quadro no lugar e caminha até mim.
— Isto é um título de uma propriedade que recebi como pagamento há muitos anos. Nunca a utilizei e guardava simplesmente porque me pertencia. Nunca tive interesse nela. É sua agora.
— Madame, eu não posso aceitar, por vários motivos. Primeiro, porque meu trabalho é quitar uma imensurável dívida e, segundo, porque não me sinto confortável recebendo um pagamento tão alto assim.
— O valor é atribuído tanto pelo vendedor quanto pelo comprador. Você decide o valor mínimo, eu decido o valor máximo. Aceite ou irá me ofender sem volta.
— Muitíssimo obrigado, Madame. A sua generosidade é sem igual.
— Depois que se instalar em sua nova casa, venha me visitar e pegar seu retrato. Se puder, traga sua amante para eu desenhá-la também.
— É pouco provável que Lanias queira ser desenhada, especialmente por alguém tão talentosa. Mas agradeço novamente pelo retrato e pela imensa recompensa. Com certeza virei visitá-la e pegar meu retrato.
— Todas as dificuldades são temporárias, Loius.
— É o meu único consolo, Madame.
— Posso abraçá-lo?
Eu não gosto que os humanos me toquem, mas não consigo encontrar nenhuma desculpa que não soe como uma extrema descortesia.
Aproximo-me e abro os braços. Ela se joga em mim com toda sua força recuperada.
— Que os seus deuses lhe sejam justos, Loius Voidyrian.
— E que a senhora encontre o que perdeu, Madame Uddina.
Fazemos uma mesura um para o outro e saio. Zihayl me acompanha até a carruagem que me leva de volta para Naibar. Chego ao entardecer.
A cena que encontro quando adentro o porão me é surpreendente. A suposta Lavanya dormindo abraçada com Lanias em uma esteira de casal.
Quando eu penso que já vi de tudo...
E ainda tem mais, o mofo foi raspado! O recinto cheira a incenso de patchuli, tem uma mesa com quatro cadeiras no centro e um espelho de chão. Sobre a mesa, um cesto de frutas frescas, jarras de água, três tigelas, três canecas e três talheres. Meus baús estão arrumados num canto e os de Lanias no outro. As roupas da jovem estão penduradas num cabideiro perto dos baús de minha irmã.
Não sei o que aconteceu, mas estou satisfeito que aconteceu sem que eu precisasse estar presente. Só espero que não me cause problemas no futuro.
Sento-me em minha nova esteira e leio o título. A Madame assinou a transferência para o meu nome. O endereço é em Zathana, uma cidade para o oeste daqui. Não sei se poderíamos nos mudar para lá por causa do acordo com o prefeito. Acredito que seus contatos tenham o endereço daqui para onde mandam suas mensagens. Será que o prefeito aceitaria uma mudança de endereço? Ou será que consideraria uma tentativa de fuga? Não quero aborrecê-lo, mas também não quero ofender Madame Uddina. E também não quero mais viver num porão que enche de merda toda vez que chove. Pelo menos não chove mais que duas vezes no ano, mas uma vez que alague já é muito.
Vou visitar o local e depois escrevo ao prefeito perguntando se estaria de acordo com a mudança e se poderia atualizar seus contatos. Acredito que não se aborreceria com o aviso, afinal, seria sinal de minha boa-fé.
Em cima de um de meus baús, há um envelope selado.
É o selo de Harani!
Abro a carta tão euforicamente que acabo rasgando um pedaço.
Meu querido amigo Loius,
Estou muito feliz de saber que está de volta e está bem. Quando Lanias surgiu desesperada na Academia, depois de tantos meses sem notícias suas, temi o pior.
Recebi a mensagem que deixou para mim, como pode perceber. Gostaria muito de ver-lhe e ouvir sobre tudo o que lhe aconteceu.
Também gostaria que me ajudasse com algo que me ocorreu enquanto estava desaparecido. É inacreditável e belo, mas selvagem e desconhecido.
Soube que foi exilado de Darlib e que não deveria voltar, mas imploro que encontre um amigo meu que é mercador, Sulitan Harat, que mora na periferia de Darlib, e o deixe trazer-lhe de maneira discreta até minha residência, preciso muito de sua ajuda.
Aguardo ansiosamente,
Harani Alssi.
Ah, meu amigo, sempre envolvido em algo que não deveria. É claro que vou ajudá-lo. Tanto pela amizade quanto pela curiosidade. E também porque quero compartilhar com ele sobre a esfera, o babuíno e tudo o mais.
Lanias emerge e se senta na esteira com cuidado para não acordar a falsa Lavanya.
— O que houve com suas roupas?
— Provavelmente descartadas junto com a camada de sujeira que jamais poderia ser removida.
— Está tudo bem?
— Me diga você. De onde tudo isso surgiu?
— Pegamos emprestado sem intenção de devolver — diz com um sorriso tentando amenizar a situação.
— Não. Não quero mais saber. É a sua vez de assumir a responsabilidade de seus atos.
— Loius... — E suspira entediadamente.
— Não me venha com esses suspiros, você não tem direito de ficar entediada com minhas reclamações.
— Você chega de bom humor, trocamos uma dúzia de palavras e você volta a ficar de mau humor. Não pode ser apenas eu.
— Tudo bem, Lanias. Você assuma o controle do que acontecer aqui e lide com as conseqüências do que você e Lavanya fizerem. Faça o que quiser com minhas roupas e o restante das poções. Eu só quero isto. — Sacudo o título junto com a carta de Harani. — E isto. — Coloco a pele em minhas costas.
— Lyndellia.
— O quê?
Ela gesticula com a cabeça na direção da jovem.
— Lyndellia Voidyrian.
Flor bela e inteligente nascida num eclipse. Não. Eu não estou com cabeça para isso. Que Lanias lide com seu lado maternal sozinha. Eu preciso de um tempo.
Dou-lhe as costas sem dizer nada e saio.
Estou bem alimentado graças à imensa hospitalidade de Madame Uddina, creio que posso usar minha velocidade sobrenatural para ir até Darlib. Tenho certeza de que Harani me receberá com um banquete que reporá minhas energias.
Caminho normalmente até uma rota não movimentada e então uso minha velocidade. Num instante chego a Darlib. Ainda é dia. Não me lembro de ter conhecido nenhum Sulitan Harat, então vou perguntando até descobrir o homem. Minha roupa totalmente branca chama a atenção de todos e espero que ninguém alerte o prefeito. Não quero confusão, só quero encontrar meu amigo e conversar. Não estou pedindo muito, Deuses. O que custa me ajudar a encontrar meu amigo? Eu nunca peço nada. Quantas vezes eu realizei uma prece em um século e três décadas? Nunca. Se alguém estiver me ouvindo, eu só quero encontrar meu amigo e conversar! Só isso!
Começa a chover.
Puxo a pele e cubro a frente de minha algibeira dentro da qual estão o título e a carta de Harani. As pessoas gritam e dançam na chuva. Outras procuram abrigo e assistem ao espetáculo climático incomum. Ninguém mais presta atenção em mim. Sigo a direção que me deram para a loja de Sulitan Harat. Não demoro a encontrar, fica bem na periferia mesmo. Eu esperava algo como a loja do vendedor conhecido de Lavanya — Lyndellia —, um local apinhado de quinquilharias, mas não é isso que encontro. Vários caixotes fechados empilham-se do lado de fora e dentro do estabelecimento. Uma jovem faz anotações num livro-caixa e a poeira está controlada.
— Com licença, sou amigo de Harani Alssi, chamo-me Loius Voidyrian.
Ela dá um pequeno sorriso sem desgrudar os lábios e me indica um corredor. Atrás da única porta aberta, encontro dois homens conversando.
— Sulitan Harat?
O mais alto, de barba grisalha, solta um ruído de confirmação.
— Sou amigo de Harani Alssi--
Ele faz um gesto para eu me calar, sussurra algo com o outro homem, os dois apertam-se as mãos e o segundo vai embora. Sulitan faz um gesto para eu entrar e fechar a porta.
— Como é seu nome mesmo?
— Loius Voidyrian.
— Posso chamá-lo só de Voidyrian? Não vou tentar pronunciar o primeiro.
— Obrigado. Sim, pode.
— Harani me avisou sobre sua possível visita. Me diz uma coisa, o quão desconfortável você fica em lugares fechados, escuros e sem ar?
Sorrio.
— Depende da quantidade de tempo.
— Cinco minutos? Menos?
— Não, consigo ficar até um dia inteiro nessa situação. Mas se puder respirar vez ou outra, posso ficar mais tempo. É claro, se houver uma enorme necessidade.
— Não se preocupe, vai levar uns quinze a vinte minutos até a mansão de Harani. Mas você vai ter que ficar preso dentro de um caixote. Não posso arriscar.
— Minha vida e meu destino inteiramente em suas mãos?
— Você não tem que confiar em mim, eu trabalho para Harani.
— Então não há discussão. Faça o que for necessário.
Sigo-o até uma outra sala onde há caixotes abertos. Dentro de alguns, peças de ouro, bustos de mármore, pinturas, jarros de azeite, e até alguns queijos. Essas mercadorias podem muito bem ter sido obtidas de forma legal, mas não creio que tudo o que Sulitan transporta seja legal. E se ele e Harani são amigos, meu amigo seria expulso da Academia se fosse descoberto.
Entro em um caixote e deito-me abraçado à pele do babuíno. Sulitan martela os pregos fechando a tampa. Uma mistura de agitação, receio, acolhimento e medo tentam aflorar, mas eu a reprimo. Será que foi isso que Marius sentiu quando selaram-no num caixão e o enterraram vivo debaixo da Cordilheira de Farnul Myrler? A julgar pela quantidade de décadas que se passou, espero que ele tenha morrido e retornado ao seio da Deusa, pois se ainda estiver vivo, eu não quero imaginar seu sofrimento. A morte durante a hibernação é extremamente lenta e enlouquecedora.
Submerjo, não quero pensar nisso e não quero contar os minutos.
Assisto a uma memória de mestre Vallun me ensinando como criar um sistema de comunicação por notas musicais. Cada nota corresponde a um significado e o conjunto delas transmite a mensagem em forma de melodia.
Loimia e eu praticávamos, entre uma tarefa e outra, apenas murmurando sons guturais. Lanias detestava quando fazíamos isso e só sossegou quando ensinei a ela.
Ensinei tantas coisas a Lanias... E as que não ensinei, ela bisbilhotou nas inúmeras vezes que ficamos em meu Fyrdenzyr. Admira-me que não tenha aprendido mais sobre alquimia e até mesmo magia, pois me assistiu trabalhar várias vezes e sempre deixei este conhecimento exposto quando submergíamos. Minha irmã é caprichosa e teimosa. Aprende apenas o que quer, quando quer e do jeito que quer. Não adianta forçá-la ou atrapalhá-la. Ela faz o que quer no momento em que quer. E eu a detesto por isso. Render-se aos seus ímpetos sem pensar é a mais baixa e primitiva das fraquezas. Nos deixa mais próximos dos animais, humanos incluídos.



Um pé-de-cabra invade o espaço entre as madeiras e a tampa se abre.
— Chegamos — diz Sulitan.
— Quanto tempo se passou?
— Um quarto de hora.
Saio da caixa e piso nas pedras que compõem o caminho até a entrada da mansão. Um dos serventes me cumprimenta e me leva até a sala de Harani.
— Loius! Meu amigo!
Abraçamo-nos, algo raro de acontecer. Ele dá alguns tapas em minhas costas e sorri com todos os dentes.
— O que aconteceu com você, meu amigo? Sente-se, sente-se. Por onde andou? O que houve? Está precisando de alguma coisa? Dinheiro? Um empréstimo?
— Estou... sobrevivendo. É bom rever você, Harani. É muito bom rever você. Sinto muitíssimo por tudo o que Lanias fez. Ela lhe machucou?
— Oh, não, não, não. Estou ótimo! Ela apenas vasculhou minha mente procurando por você. Fiquei um pouco tonto, mas passou alguns minutos depois. Nunca mais senti nada. Estou ótimo. Mas me conte, o que aconteceu?
Estico a pele molhada sobre o sofá.
— Sabe o que é isto? Consegue adivinhar?
— É uma pele de um animal branco. Um cavalo? Uma vaca?
— Observe os braços, pernas, cabeça.
— Que animal estranho. Um camelo?
— Um babuíno albino.
— Babuíno albino? Nunca ouvi falar.
— Há muito tempo, milhares de anos, quando os anciões eram as únicas pessoas em todo o mundo, eles se alimentavam destes babuínos.
— Mas isso foi em Myrtandyr, não?
— Sim, foi, mas lembro-me de ter lido sobre os Anduserai terem encontrado e catalogado uma espécie de babuínos que eram completamente brancos, albinos. Nada mais foi registrado a respeito, então acredito que pensaram que estivesse extinto. Mas não está! Encontrei uma família numa caverna na Cordilheira de Badivraaq.
— E o que estava fazendo lá?
— Era isso o que eu queria tanto contar para vocês! Depois daquele jantar, Lanias e eu discutimos e eu saí para uma caminhada. Foi então que uma forte luz passou por mim no céu, do oeste para o leste, deu uma volta completa em Char Dandi e seguiu para a cordilheira. Passei muito tempo escalando, tive alguns problemas, mas consegui chegar ao topo. Encontrei uma esfera lisa de metal flutuando sobre a água!
— Algum grupo de magos trabalhando?
— Pensei algo parecido, mas não tinha nenhuma mente por perto. Quando toquei a esfera, ela me puxou para si e depois me arremessou longe. Raios de plasma contornavam toda a esfera. Eu não tinha como movê-la, então deixei lá. Quer que eu lhe mostre?
— Loius, pode ser coincidência, mas algo esquisito aconteceu comigo praticamente na mesma época.
— O que houve?
— Preciso lhe mostrar.
Estico os braços para tocar sua face para submergimos, mas ele se levanta num pulo.
— Não, preciso lhe mostrar agora mesmo, aqui, no quarto de hóspedes! Venha!
Sigo-o apressado pelos corredores. Antes de abrir a porta, ele segura a maçaneta e sussurra para mim.
— Eu a encontrei no mercado. Ela caiu do céu, estava muitos ossos quebrados, vomitando, quase morta. Mandei meus guardas trazerem-na e tenho tomado conta dela desde então.
Ele abre a porta e entramos. Uma figura feminina observa o imenso jardim da mansão sentada à janela.
— Gotkia, temos visitas.
— Gotkia?
Ele faz um ruído para eu ficar quieto. A figura levanta-se, tão alta quanto Lanias; cabelos pretos longos e lisos; a pele marmórea como a dos Synnoldyr; o corpo esguio como o dos Synnoldyr; a postura ereta e altiva dos Synnoldyr. Se eu a encontrasse pela rua, julgaria ser uma de nós. Mas tem algo diferente nela, algo que é perturbadoramente exótico. Algo que... não parece ser... daqui. Os olhos, talvez? O nariz um tanto pequeno demais? Não sei dizer.
Ela me encara tão espantada como eu devo estar. Seus movimentos são lentos e graciosos. O vestido laranja realça seu exotismo. Um odor que nunca senti em minha vida mistura-se com o perfume de Harani, os incensos, os óleos e sais de banho. Não consigo identificar esse odor e não consigo categorizá-lo. Não posso dizer se é terroso, frutal, floral, metálico, azedo, doce ou amadeirado. É como se fosse um gosto ou uma cor nunca antes experimentado.
— Sou Loius Voidyrian.
Faço uma mesura e ela continua me encarando como uma estátua, os olhos mais abertos que o normal. Repito a frase em meu idioma. Ela deixa um gemido agudo e breve escapar, mas não emite nenhuma outra reação.
— Você já tentou conversar com ela?
— É lógico que sim! Ela não fala. Nós nos comunicamos por alguns sinais.
Harani mostra-me os sinais de comer, beber, dormir, lavar-se e outros básicos.
— Então você não sabe de onde ela é e nem o que faz aqui?
— Ela me disse que está procurando o amante dela. Marido. Prometido. Algo assim.
— Disse?
— Do nosso jeito ela explicou.
— E de onde ela é?
— É aí que fica confuso e por isso que queria tanto que você viesse. Ela me explicou algo que não faz sentido, mas ela insiste nisso. Vou lhe mostrar.
Harani estica a mão para ela e a tal Gotkia pega a mão dele e os dois caminham até o escritório. Eles param diante de um globo com todos os continentes do mundo. Harani aponta para ele mesmo, diz seu próprio nome e aponta para Egádia no globo. Gotkia observa. Em seguida, ele aponta para mim, diz meu nome e aponta para Myrtandyr. Por fim, aponta para ela, diz seu nome e aguarda. Gotkia caminha sem pressa até a escrivaninha, pega duas esferas de vidro coloridas que enfeitam a mesa, entrega a esfera vermelha para Harani, vai até a janela, ergue a esfera azul para o céu e aponta para si mesma.
Pelos Deuses!
— Harani, onde encontrou--
— Ela caiu do céu no meio do mercado!
— Ela... Abençoada se a Deusa!
— O que tem em mente, Loius?
— Preciso de um papel e tinta. Rápido.
Harani coloca tudo em cima da mesa de centro. Sento-me no sofá, desenho nosso sistema solar tal qual o conhecemos e pego uma esfera de vidro vermelha de cima da mesa. Aproximo-me devagar de Gotkia, mostro-lhe o desenho e seguro a esfera vermelha em cima de onde desenhei o sol.
Ela observa o desenho com interesse. Mando Harani entregar a ela papel e tinta. Ela desenha um círculo descomunalmente grande no centro e vários outros círculos menores ao redor, um após o outro. Por fim, coloca a esfera de vidro azul em cima do grande círculo central.
Minhas mãos tremem e deixo a esfera e o desenho caírem sobre o tapete felpudo.
— Loius, o que está havendo?
Ela poderia estar nos pregando uma peça, é claro que preciso pensar nisso, mas não acho que seja o caso. Ela tem uma névoa fina que a envolve, uma aura anti-natural.
— O que está acontecendo, Loius?
— Você tem uma dessas esferas de metal e um copo com água?
Ele traz o que peço o mais rápido possível. Mostro a esfera de metal para ela e seguro acima do copo d’água. Gotkia me lança um olhar diferente, como se pressentisse algum perigo. Baixinho, faço o som das vibrações que ouvi. Ela se empertiga e dá um passo para trás. Seus olhos estão apertados como os de um predador. Ela sabe que eu sei.
— Ela está usando alguma peça de magnetita?
— Não, justamente porque eu queria que você descobrisse o que aconteceu com ela! Tem alguma idéia?
— Não acredito que seja uma Synnoldyr ou uma humana.
— Se não for uma Synnoldyr, então é uma humana.
— Por que tem tanta certeza?
— Porque eu a vi nua e ela é normal.
— Normal como? Ela tem uma genitália?
— Sim, um par de seios normais, uma genitália feminina normal, um corpo normal. Deveria ser diferente?
Encaro a figura à nossa frente. Eu não sei o que ela é, mas duvido que seja humana e, pela presença de uma genitália, certamente não é uma Synnoldyr.
— Tenho que entrar na mente dela.
— Finalmente!
Harani guia Gotkia até o sofá e todos nos sentamos. Tento tocar sua face, mas ela evita meu toque de todo jeito. Sento-me no outro sofá de frente para ela e curvo-me de forma a ficar bem próximo, mas ainda a uma distância confortável para ela.
Vou precisar ser um pouco mais agressivo do que normalmente sou quando entro na mente dos humanos, principalmente porque não sei o quão avançada a mente dela é e porque não quero que ela fuja antes de eu conseguir respostas.
Chamo seu nome e nos encaramos. Ela não desvia o olhar. Ou sabe que sua mente é superior ou desconhece o que está para acontecer.
Submergimos. Empurro-a para sua mente, mas não encontro resistência ou barreira.
A areia é branca como neve e cobre tudo o que a vista alcança. O céu é branco e cegante. O sol é imenso e possui uma coroa azul. O calor é de ferver os ossos e evaporar os pensamentos. Esferas de metal flutuam de um lado para o outro. Não há ninguém. Debaixo da terra, as casas são de metal como as caixas dos anões. Um rio de água alaranjada e espessa engole a cidade toda. Gotkia e uma figura masculina entram em uma esfera e flutuam para fora. Uma esfera de metal maior engole as menores e voa em direção oposta ao sol. A escuridão aumenta e acentua o brilho das estrelas. O céu se expande ao redor e as estrelas transformam-se em milhares de linhas brilhosas. Todos dormem. As linhas diminuem até se tornarem pontos novamente. Posso ver as Jóias de Maltannia e o nosso sol vermelho. Uma esfera menor sai da maior e flutua até o nosso mundo, mas é atingida por Nul Barmal. Rodopia e cai para além das montanhas de Kallireat, no norte de gelo. Todos ainda dormem. Gotkia é acordada por um som ondulante e símbolos brilhantes que flutuam em sua frente. Como não encontra a figura masculina, entra em uma esfera pequena e aproxima-se de nosso mundo. Examina Nul Barmal e encontra vestígios da esfera. Decide esconder a sua na Cordilheira de Badivraaq. Desenha outros símbolos brilhantes no ar, a esfera se acende e mil raios explodem. Gotkia cai do céu no meio do mercado de Darlib.
Volto a mim com Harani me sacudindo e chamando meu nome.
— O que está havendo? — pergunto tonto, meus olhos ardem, meus membros formigam.
— Vocês ficaram horas grudados um de olho no outro. Gotkia deu um grito e saiu correndo que nem uma louca de volta para o quarto! O que você fez com ela?
— Harani, você não deveria ter acolhido essa criatura.
— Criatura? Está louco, Loius? É uma mulher! E você descobriu de onde ela é?
— Sim...
— E então?
— Ela não é daqui.
— Eu não precisei ler a mente dela para descobrir isso. Velda? Malgaan? Kallireat? Pelos Deuses, de onde ela é, Loius?
— Ela não é deste planeta! — respondo aos gritos. — Ela não é nem deste sistema solar! Ela não é, nem de longe e nem por nenhuma forma de medida que conhecemos, uma de nós!
Harani me encara paralisado e pálido. No reflexo das portas de vidro das estantes, noto que meu rosto está transformado. Recolho-me e peço desculpas.
— Harani, perdoe-me, eu não quis... Jamais... Eu não queria fazer isso... Você deve mandá-la embora. Não sabemos o que o povo dela quer de nós.
Ele engole em seco e tenta recuperar a compostura. Não parece ofendido pela minha transformação, apenas assustado.
— Ela procura pelo amante.
— Sim, procura, mas ele não está aqui em Egádia. Se ainda estiver vivo, está bem longe.
— Onde? Velda? Myrtandyr?
— Acho melhor não se envolver mais nisso, Harani. Faça seus sinais e mande-a embora.
— Não posso.
— Claro que pode.
— Ela está grávida do meu filho.
Não sei se sou eu ou o mundo acabou de virar do avesso e de ponta-cabeça ao mesmo tempo. É como tentar montar os milhares de pedacinhos de uma pintura rasgada.
— O que você acabou de dizer?
— Nós nos apaixonamos. Eu sei que ela tem um amante, mas aconteceu. Quero encontrá-lo para acertarmos isso. Nós vamos nos casar, ela será a mãe dos meus filhos.
Caio sentado no sofá, sinto minha cabeça flutuar, e ao mesmo tempo ser pressionada como se presa debaixo de um pedregulho.
— Harani, você enlouqueceu?
— Não! Você enlouqueceu! Ela é uma mulher doce e maravilhosa e será a mãe dos meus filhos.
— Harani, ela não é nada que conhecemos.
— Você enlouqueceu, Loius. Não é novidade vindo de um Synnoldyr. Vocês nunca foram sãos.
— Harani...
Minha mente está pesada e lenta, não consigo colocar os pensamentos um após o outro, assim que pego o segundo, o primeiro desaparece e não consigo lembrar.
— Harani, eu...
— Loius, por favor, vá embora. Eu preciso de um tempo com a minha prometida. Não sei o que fez a ela, talvez precise de um curandeiro. Por favor, vá embora. Uma carruagem o levará até às balsas, pegue uma e volte para Naibar.
Obedeço sem pensar. Alguém me coloca na carruagem e joga a pele do babuíno em cima de mim. Sons caóticos transbordam do mundo. Braços me largam no chão perto das balsas. Alguns pés tropeçam em mim e outros desviam. Tudo escurece e o frio me envolve.
Os Deuses responderam minha pergunta. Existe vida fora de Myrsynmal. Bem longe daqui, mas existe. Existiriam outros deuses? Deve existir, pois, caso contrário, quem os criaria? Não poderiam surgir espontaneamente. Seu mundo também deve ter sido criado por uma divindade. Talvez compartilhamos os mesmos Deuses? Ela se parece tanto com uma Synnoldyr, mas ao mesmo tempo tem a anatomia humana. Poderia ter sido criada por Maltannia? Talvez uma criação Dela e de Nammunih?
Por quê? Por que criá-los, destruir seu mundo e abandoná-los? Estaria Gotkia e seu povo procurando pelos seus deuses ou pelos nossos? Procurariam por deuses ou por um mundo novo, uma casa nova? Por que a figura masculina desceu aqui?
Se os telescópios que os anões construíram conseguem encontrar planetas tão distantes além do nosso, por que ainda não avistaram a esfera maior? Pelo que vi nas lembranças, ela chegou antes de Nul Barmal, antes de muita história. Como ainda não foi avistada?
Eu preciso de respostas. Não posso continuar assim.



Minhas mãos estão molhadas e quentes. Deixo cair um peso. É um veado. Umedeço o sangue seco em minha boca, mas não tenho muita saliva. Ao meu redor, a luz do sol atravessa a copa das árvores como tiras de um tecido brilhante. Não me lembro de ter andado até aqui. Meus pés não estão feridos. Usei minha velocidade? Minhas roupas estão sujas de sangue e lama. O sol está alto, é meio-dia, mas de que dia? O som de uma correnteza. Sigo o som e dou de cara com um rio de líquido quente, espesso e alaranjado como ferro em brasa. O rio engole as árvores. Os animais fogem. Eu fujo. O sol desce e nos toca, tudo se torna branco e não consigo ver mais nada.



Grilos, cigarras e corujas fazem festa ao meu redor. Cuspo areia. Está escuro e não há ninguém por perto. Sigo em direção a uns prédios. Alcanço uma praça. Mendigos encontram-se ao redor de um braseiro. Há luzes saindo das janelas do prédio. Entro. Odor de coisas velhas e novas. Papel, tinta, cera, óleo, metal e madeira. Eu conheço este lugar.
Subo as escadas até o último andar. Vozes. Entro em uma das salas e tranco a porta. Silêncio.
— Quem é você e o que quer aqui? — pergunta uma voz com um forte sotaque.
É um anão. Dois. Cinco anões. Eles armam-se com réguas, busto de pedra, garfos, maçarico e um vidro que presumo ser ácido.
— Maldito filho de uma égua, o que você quer? — berra o que segura um par de réguas.
— Respostas.
Eles se entreolham.
— Resposta de quê?
— Por que os telescópios não avistaram a esfera?
Eles se encaram sem entender.
— Que esfera? Que merda você tá dizendo? Tá envenenado? Doente? Morrendo?
— Há uma esfera em nosso sistema solar. Ela chegou antes de a Deusa nos atirar Nul Barmal. Por que vocês não viram essa esfera? Como ninguém viu essa esfera?
— Ele enlouqueceu — diz o que segura um busto.
— Não enlouqueci! — grito e sinto meu rosto se transformar.
Eles apertam suas armas improvisadas.
— Maldito sanguessuga filho duma puta descadeirada! Saia da porta ou vamos acabar com você!
— Não antes de vermos a esfera no telescópio. Ela tem que estar lá.
— O telescópio fica no terraço, seu puto!
— Vamos todos para o terraço ver a esfera.
— Planetas? — pergunta o que segura o vidro com ácido. — Você quer ver os planetas? Ele quer ver os planetas.
— Não é um planeta, é uma esfera de metal.
— Ele tá em outro lugar, não sabe mais o que tá fazendo — diz o do busto.
— Há uma esfera de metal neste sistema solar! — grito com minha voz monstruosa.
Eles rosnam, mas não têm para onde fugir.
— Por que acha que tem uma esfera de metal aqui? — pergunta o que segura dois garfos apontados para mim.
— Eu vi.
— Viu onde? Como? Onde tá a esfera?
— Ela veio de fora e parou antes de Zarmallun.
— Seria na órbita de Ogmaad?
— Não dê idéias pra ele, Nuzbik! — reclama o do busto.
— É possível.
— É toda de metal? — continua Nuzbik.
— Sim.
— Nós avistamos uma lua toda de metal orbitando Ogmaad.
Caio sentado no chão.
— Eu disse que ele queria ver a porra dos planetas! — diz o do vidro de ácido.
— Ele quer ver uma lua — diz o do busto.
— Eu vou com você ao terraço e você me diz se aquela lua é a sua esfera, pode ser?
— Tá louco, Nuzbik? — grita o do busto. — Ele vai te matar e beber teu sangue todo!
— Se não for, a gente procura até encontrar essa esfera. Se ela estiver lá, nós temos que ver.
— Maldita seja a arrombada da sua mãe, Nuzbik! — grita o das réguas.
— Vamos lá, levanta.
Obedeço e abro a porta. Saímos os dois juntos, mas ouço quando ele sussurra em sua língua para os outros chamarem os magos.
Subimos até o terraço. Ele opera o telescópio e aponta para Ogmaad. Olho, não tem nada lá.
— Você disse que estaria aqui — falo baixo, mas ainda estou transformado. Minha voz sai como um rosnado gutural.
— Eu disse que ela orbita Ogmaad. Se você não tá vendo, é porque tá do outro lado.
Avanço sobre ele e arranco seus acessórios e roupas. Ele me atravessa com uma barra de ferro. Sem magnetita, invado sua mente e mostro tudo o que me aconteceu. A esfera sobre a água, Gotkia e suas memórias.
Ele cai estatelado no chão, os olhos arregalados, babando.
— Maldito Voidyrian! — grita uma voz atrás de mim.
— Eu vi a esfera! Harani pode provar!
— Harani está morto, sanguessuga!
— Harani está vivo, eu o vi. Eu conversei com ele.
— Eu poderia mandá-lo para a fogueira agora mesmo, mas várias testemunhas viram uma mulher apunhalar Harani com uma lança e matar todos os serventes. Dê graças aos Deuses pelas testemunhas!
Gotkia...
O Lumesdi faz alguns gestos, arranca a barra de ferro da minha barriga e ergue-me no ar.
— De hoje em diante, você e todos os Voidyrian, sejam eles quantos forem, estão proibidos de entrar em Qandanajar! Se qualquer um de vocês for avistado na cidade, a fogueira os aguarda!
Ele quebra todos os meus ossos, drena meu sangue até quase o ponto de hibernação e me arremessa em direção a Naibar.
Vôo como um pássaro, leve, sem corpo, sem mente, sem problemas, até atingir o chão com um impacto tão forte que sou empurrado ao meu Fyrdenzyr.