Assim que o Sol se pôs, Sebastian mandou a secretária marcar o encontro no Vesuvius o quanto antes. Os anarquistas escolheram aquela mesma noite e ele concordou. No horário marcado, ele, Karliah e o Sheriff chegaram à boate e foram levados por uma das dançarinas até o segundo andar a uma suíte privativa onde Velvet Velour e quatro anarquistas aguardavam.
Sebastian aproximou-se da toreadora, segurou sua mão e a cumprimentou.
— Belíssima como sempre me lembro, Madame Velour.
— Galante como sempre, monsieur LaCroix. Espero que as acomodações sejam do seu agrado.
— Melhor impossível, Madame.
Velvet aproximou-se de Karliah e a encarou dos pés à cabeça.
— Então essa é a cartomante que todos falam. É um prazer conhecê-la.
— O prazer é meu, Susan — respondeu a malkaviana no seu tom de voz robótico.
A toreadora se retesou como se tivesse sentido um calafrio na espinha. Seu rosto antes relaxado, contraiu-se num pesar profundo. Quase num sussurro, ela disse:
— Só existe uma parte do meu corpo em que eu não quero que ninguém entre, e essa parte é a minha cabeça. Esse outro nome... Nunca mais o repita. Ele pertence a uma jovem que morreu há muito tempo.
Diante do clima pesado, Sebastian tomou a frente.
— Peço desculpas pelos maus modos da minha cartomante, Madame. Apesar da severidade do ato dela, peço que acredite que não foi de propósito. Ela faz coisas assim de vez em quando.
Velvet sorriu tranqüilizando a todos e sentou-se numa poltrona mais afastada. A dançarina sentou-se no braço da poltrona ao seu lado.
— Já encontrei alguns malkavianos na minha não-vida. Sei que a mente deles é peculiar. Não se preocupe, monsieur LaCroix, eu não fiquei ofendida. Fiquem à vontade para tratarem de seus negócios. Não vamos interromper.
Sebastian sentou-se no sofá rosa em formato de boca de frente para os anarquistas no outro sofá. Karliah sentou-se ao lado dele. O Sheriff ficou de pé ao lado do Príncipe.
— E então, do que se trata isso? — perguntou o ventrue. — Da última vez que seu lacaio marcou uma visita, eu fui acusado de seqüestro.
— Você já confirmou o seqüestro — disse Nines Rodriguez.
— Sim, mas as circunstâncias mudaram agora.
Karliah o encarou intrigada.
— Posso ir embora?
— Não. Você ainda é minha convidada.
— Seqüestro, cárcere privado e trabalho escravo de uma integrante dos anarquistas — continuou Rodriguez. — Isso fica cada vez melhor.
— Não sou anarquista — disse Karliah num tom sereno, como se recitasse uma lista de mercado.
Sebastian encarou os vampiros com um sorriso de superioridade.
— Isso tudo é muito esquisito — comentou Miguelito Pirulito.
Nines assentiu.
— Foi por isso mesmo que eu trouxe alguém que entende dessas coisas. — E olhando para o ventrue: — Quero saber o que você fez com ela.
— De novo isso? Eu não fiz nada com ela. Se minha cartomante diz que nunca fez parte dos anarquistas, eu não tenho motivos para desconfiar. — E olhando para Karliah: — Tenho?
— Não. Eu nunca fui anarquista.
Nines bufou irritado e um tanto ofendido.
— Vamos acabar logo com isso — disse ele. E para a vampira que os acompanhava: — Yveline, faça a sua mágica.
A tremere levantou-se e caminhou cuidadosamente até a malkaviana como se esperasse que ela fosse dar o bote, mas Karliah simplesmente continuou sentada como uma boneca de pano que fora escorada num canto.
A vampira esticou as duas mãos para tocar a cabeça da malkaviana, mas parou no meio do caminho.
— Posso? — perguntou a tremere.
— Pode — respondeu a malkaviana.
— O que você vai fazer? — perguntou Sebastian.
— Vasculhar as memórias dela para verificar sua integridade.
Sebastian deu uma risada nervosa.
— Você não vai mexer nas memórias dela de jeito nenhum.
— Não me interessa os seus segredos, ventrue. — E olhando para Karliah: — Eu preciso apenas que ela se concentre no Rodriguez e não pense em mais nada.
Karliah murmurou um consentimento e encarou o brujah. Nines também a encarava, mas com apreensão. Balançava as pernas e tamborilava os joelhos tentando se acalmar.
A tremere segurou a cabeça dela gentilmente e começou a separar as energias que sentia. O que era a própria malkaviana, do que era Sebastian e todos que Karliah conhecera a fim de procurar a energia de Nines.
Conforme o tempo passava, Nines já havia tamborilado todas as músicas que conhecia; Miguelito já estava com os dedos sangrando de tanto cutucar o canto das unhas; e Jack fora para a janela fumar. Velvet e a dançarina observavam tudo com interesse.
— Alguma coisa? — perguntou Rodriguez já sem se agüentar.
— Tem algo errado...
— Eu sabia! — disse Miguelito.
A tremere pediu silêncio com um chiado e se concentrou buscando por uma evidência física das memórias de Nines no cérebro da malkaviana.
Depois de alguns minutos, ela soltou Karliah com um gemido alto, quase como um grito e deu vários passos para trás.
— O que você fez, cartomante? — perguntou a tremere mais para si mesma como uma exclamação do que uma pergunta de fato.
Nines e Miguelito se levantaram num pulo.
— Não entendi — respondeu Karliah.
— Quem fez o quê? — perguntou Nines.
Yveline pensou por uns instantes em como iria explicar o que descobriu.
— Há um rastro muito suave de você na mente dela — disse a tremere para Rodriguez. — Começa mais forte, de ontem, quando vocês se encontraram na estrada, e depois fica muito suave como um aroma longínquo que termina de repente.
— O que isso significa? Que apagaram as memórias que ela tinha de mim?
— Isso.
— Eu sabia que ele tinha feito alguma coisa! — disse Miguelito avançando para Sebastian.
O Sheriff deu dois passos para a frente e esticou a enorme mão freando o brujah inconseqüente.
— Eu concordei com esse encontro na minha boate porque vocês prometeram que não haveria confusão — disse Velvet com sua polidez sensual.
— Miguelito — chamou Rodriguez enquanto puxava o brujah para perto de si. — Aqui não. Agora não.
O brujah sentou-se respirando ofegante e rangendo os dentes. Jack continuava fumando na janela como se não estivesse prestando atenção a nada.
Nines deu alguns passos até o meio da suíte e encarou Sebastian.
— O que você fez...
Sebastian revirou os olhos irritado e ia puxar o ar para reclamar quando Yveline disse:
— Não foi o ventrue.
— E quem foi? — perguntou Nines.
— Encontrei algumas manchas perto do vazio onde ficavam essas memórias. Estudei um pouco do trabalho dele há muitos anos. Branimir Dragoslav.
— Nunca ouvi falar — disse Rodriguez.
— Só quem estuda mais a fundo conhece. O restante nunca ouviu mesmo.
— E quem é ele? — insistiu Rodriguez.
— É um tzimisce da Sabbat especializado em operações cerebrais.
Todos se entreolharam com os olhos arregalados. Até Jack parou de fumar e se aproximou.
— Então foi ele que apagou a memória dela? — perguntou Rodriguez.
— Não só isso. As memórias ficam gravadas fisicamente no cérebro. Quando um de nós apaga a memória de um humano, a gente não apaga de fato como se tivesse passado uma borracha. Na verdade a gente esconde essa memória da parte consciente do cérebro. A memória ainda está lá, só que escondida. No caso da malkaviana, as memórias dela foram literalmente arrancadas. O tzimisce arrancou um pedaço do cerebro dela. Não há nada que ninguém possa fazer pra recuperar essas memórias. Não tem mais nada lá, só um vazio.
Bem lentamente, os olhos de Nines deslizaram para Karliah com uma hesitação que beirava o medo. Quando o olhar dos dois se encontrou e ele conseguiu ver pela primeira vez que ela estava, de fato, vazia, seus olhos se tornaram vermelhos com as lágrimas de sangue que brotaram de sua besta interior ao se dar conta do que ele perdera.
— Foi tudo perdido? — perguntou ele à tremere, mas sem tirar os olhos da malkaviana. — Tudo?
— Sim. A única presença sua na cabeça dela é a ausência.
— Por que a Sabbat faria isso e depois deixaria ela solta? — perguntou Rodriguez. — Não faz sentido seqüestrar ela só pra isso.
— Não foi à força, Rodriguez — disse a tremere. — A remoção foi limpa, nada mais foi afetado, e o corte no crânio é quase imperceptível. Isso foi uma cirurgia voluntária. Ela escolheu passar por isso.
— Você deixou um maldito sabbatiano arrancar um pedaço da sua cabeça? — comentou Jack com uma risada espantada. — Você realmente é louca, mocinha.
— Por que você fez isso, Kaly? — perguntou Nines deixando o apelido escapar na frente de todos.
— Não sei — respondeu do seu jeito mecanizado.
— Então quer dizer que minha cartomante, do ponto de vista dela, não estava mentindo e nem os baderneiros — comentou Sebastian. — Só nos resta saber o motivo.
— Não é óbvio? — perguntou Velvet.
Todos voltaram suas cabeças para a toreadora. Ela continuou com sua voz melosa:
— O anarquista partiu o coração da cartomante. Ela não resistiu, afinal, quem resistiria perder um homem desses, não é? E então, numa dor agonizante e infindável, ela submergiu aos confins infernais do nosso mundo e vendeu a alma ao demônio em troca de um alívio para o sofrimento. Agora, o que um brujah fez para partir o coração de uma malkaviana está além das minhas capacidades imaginativas. Talvez ele queira compartilhar conosco?
Nines encarou o chão relembrando num segundo tudo o que ele e a malkaviana viveram e em que momento tudo começou a desmoronar.
Diante do silêncio de Nines, Sebastian disse:
— Você já conseguiu a informação que queria, Rodriguez, agora é a sua vez de compartilhar uma informação que queremos.
— No início era tudo incrível — começou Nines enquanto se sentava de volta no sofá. — A gente se dava muito bem. Mas depois de um tempo a gente começou a se desentender e nos afastamos. Eu não procurei por ela porque achei que ela quisesse um tempo pra pensar. Nunca imaginei que ela pudesse fazer uma coisa dessas — concluiu com meias-verdades.
— A história é um pouco mais profunda que isso, não? — perguntou Velvet.
— E não é da conta de ninguém — retrucou Nines num tom ameaçador.
A toreadora sorriu e não insistiu.
— Bom, já que esclarecemos tudo, está na hora de partirmos — disse Sebastian se levantando. — Agradeço à nossa ilustríssima anfitriã pelo encontro e me despeço de todos. Vamos, Karliah.
— Você ainda mantém ela como prisioneira — disse Nines se levantando também.
— Convidada permanente — corrigiu Sebastian. — Mesmo que fosse minha prisioneira, você faria o quê, Rodriguez? Entraria em guerra comigo e a Camarilla colocando a Máscara em risco? E por quem? Por uma cartomante que você desprezou?
Nines soltou um suspiro de raiva e escárnio ao mesmo tempo.
— Eu nunca desprezei ela. De tudo o que eu fiz, desprezo nunca esteve na minha lista.
— Então você fez alguma coisa que desencadeou esse absurdo, não foi só Karliah se afastando e precisando de um tempo para pensar.
— E o que isso te importa?
— Me importa muitíssimo, anarquista. O que quer que você tenha feito levou minha cartomante a fazer sabe-se lá que tipo de acordo com um sabbatiano para mutilar uma parte do corpo dela. Não sei o que mais pode ter acontecido e quais serão as conseqüências de tudo isso para mim no futuro.
Nines deu uma risada de deboche.
— É sempre assim com vocês, ventrue, né? Sempre pensando em vocês primeiro.
— E não foi isso que você fez a ponto de provocar Karliah a arrancá-lo da vida dela?
Nines levantou o dedo indicador para Sebastian.
— Você não sabe de nada, LaCroix. Nunca mais abra sua boca pra inventar nada sobre a gente.
— Eu já falei o que você deveria fazer com esse dedo, brujah. Sheriff--
— Cavalheiros — disse Velvet interrompendo e se aproximando dos dois —, se vão duelar pela donzela, façam isso lá na rua.
— Ninguém aqui vai duelar — disse Sebastian. — Minha cartomante e os eventos desta noite deixaram claro que ela não é mais uma anarquista e que obviamente não tem mais interesse em fazer parte da sua facção. Vocês dois não são mais um casal, eu cuido dela agora, então não há motivos para que vocês tentem tirá-la de mim.
— Meus clientes... — comentou Karliah.
— Eu sou seu cliente agora. Único e permanente, mademoiselle. Agora vamos. Não temos mais nada para fazer aqui.
Sebastian pegou a malkaviana pelo braço e seguiram para a porta acompanhados pelo Sheriff. Antes que saíssem, Nines chamou e a malkaviana virou-se para olhá-lo. Ele disse:
— Olhe nos meus olhos e me diga que você não sente nada. Que não sobrou nada da gente aí.
— Não sinto nada. Não sobrou nada — respondeu ela olhando-o nos olhos.
Nines deu um gemido discreto de dor. Sebastian sorriu.
— Acho que isso encerra de vez o assunto.
Nines o ignorou.
— Eu não desisti de você, Karliah.
— Tenha uma bela noite, Madame Velour — disse Sebastian abrindo a porta e agindo como se os anarquistas não estivessem ali.
— A gente vai dar certo — continuou Nines.
Sebastian empurrou Karliah para fora e saiu atrás dela.
— Eu ainda não sei como, mas a gente vai dar certo. Ouviu?
O Sheriff fechou a porta atrás deles, mas foi possível ouvir Karliah respondendo que sim.
🦇🦇🦇
De volta à cobertura, Sebastian mandou Karliah descobrir tudo sobre Catarina Dubanowska. Karliah botou as cartas e revelou sobre a relação com o pai e o desejo da anciã de contrariá-lo associando-se a algum ventrue que não fosse ancião, mas que já tivesse bastante poder.
— Fascinante — disse Sebastian. — Mas é claro que eu vou corrigir a primeira má impressão que deixei. Não será fácil enfrentar um ventrue ancião, pois existe uma enorme chance de que ele faça parte do Conselho, mas a recompensa vale a pena.
Ele foi para sua escrivaninha e mandou e-mails para seus agentes exterminarem os dois sabbatianos que os atacaram e todos os mandantes por trás do ataque.
— Você disse que não ia fazer nada — comentou Karliah.
Sebastian sorriu.
— Mudei de idéia. Quero que ela saiba que quando for do meu desejo, eu posso mudar de idéia. Isso mantém as coisas interessantes.
— Ela pode achar que você é volúvel.
— Ou imprevisível, o que seria uma boa característica considerando que o pai dela com certeza é mais tradicional.
No decorrer do mês, enquanto aguardava que os agentes concluíssem o trabalho, Sebastian aproveitou as habilidades da malkaviana para encontrar investimentos lucrativos e aumentar sua conta bancária e sua influência. Além disso, ela continuava insistindo para ter suas plantas e seu diário, e o ventrue dizia que estava resolvendo isso.
Sebastian patrocinou um filme que falava sobre família, comunidade, ordem e obediência e subornou os cinemas do estado para que tivessem mais sessões com esse filme do que com o filme indie dos anarquistas.
Averiguou que o arqueólogo Anders Johansen ainda estava ocupado no Egito escavando o sarcófago, e descobriu a identidade do crente que o vigiava. Um homem chamado Grünfeld Bach que pertencia à Sociedade de Leopoldo, uma facção dedicada ao extermínio de vampiros. Assim que viu uma foto dele, Sebastian lembrou que havia matado dois homens muito semelhantes e descobriu que eram o pai e o avô de Bach. Com a habilidade de Karliah, despachou mais alguns agentes para matar o crente antes que ele causasse problemas.
Um dia, a secretária avisou que um anarquista havia enviado um pacote para a cartomante. Sebastian mandou passar pelo raio-x por precaução e quando descobriram que era seguro, ele entregou para Karliah. Ela abriu e seu semblante permaneceu com o mesmo tédio de sempre.
— Deixe-me ver — disse Sebastian.
Era um anel
feito amadoramente com alguns arames de cobre enrolados que prendiam um pequeno quartzo rosa bruto. O ventrue riu.
— Patético. — E levantou-se para jogar no lixo.
— Não. Eu quero ficar com ele.
Sebastian a encarou com desprezo, mas devolveu o embrulho.
— Se gosta de jóias, era só ter me falado. Não precisa usar essa sucata.
— Eu gostei — disse colocando no dedo anelar esquerdo e verificando que havia ficado largo, então mudou para o polegar que era mais grosso.
🦇🦇🦇
Na noite seguinte, o ventrue a chamou e apresentou uma toreadora vestida elegantemente com um tailleur vinho e uma maleta grande e aveludada da mesma cor. A vampira colocou a maleta sobre a mesa e abriu revelando três andares de prateleiras com dezenas de anéis preciosos.
— Escolha quantos você quiser — disse Sebastian recostando-se no sofá com um sorriso triunfante.
— Só tenho dez dedos.
— Dez dedos e quatro ocasiões principais: casual, gala, formal e executiva. Portanto, no mínimo, quarenta anéis — disse a toreadora com um sorriso incentivador.
Karliah olhou todos os anéis, um por um, com cuidado. Pegou um de ouro rosé com uma lua e estrela
em safira rosa, experimentou e devolveu para a maleta.
— Tem algum anel do humor
?
A toreadora deu um sorriso sem graça e olhou para Sebastian com um semblante de confusão como se a malkaviana tivesse falado em outro idioma e ele pudesse traduzir.
— O que é um anel do humor? — perguntou o ventrue.
— Ele muda de cor conforme o nosso humor.
O ventrue olhou inquisitivamente para a toreadora e ela sorriu sem jeito, como se tivesse cometido alguma gafe.
— Peço desculpas, mas infelizmente não trabalhamos com bijuterias.
— Não gostou de nenhum? — perguntou Sebastian.
A toreadora pegou novamente o de lua e estrela que ela havia experimentado e colocou no dedo da malkaviana.
— Combinou perfeitamente — disse a vendedora. — Parece que foi feito exclusivamente para a senhorita.
Karliah realmente havia gostado do anel, mas também queria muito um anel do humor. Encarou seu dedo por um longo tempo até que Sebastian quebrou o silêncio com o sorriso que usava para concluir negócios.
— Ela vai ficar com esse.
A toreadora sorriu satisfeita e colocou sobre a mesa uma caixinha de anel em veludo rosa com detalhes em dourado. Em seguida fechou sua maleta, cumprimentou Sebastian com um aperto de mão, os dois combinaram que ele faria a transferência ainda naquela noite e a acompanhou até a porta. Quando voltou, a malkaviana ainda encarava o anel em silêncio.
O ventrue tirou o anel do dedo dela gentilmente, guardou na caixinha e guardou em seu bolso.
— Quero que você vista um daqueles vestidos bem bonitos e venha se encontrar comigo no terraço.
Karliah se levantou e foi para a suíte se arrumar. Enquanto isso, Sebastian fazia a transferência e respondia alguns e-mails. Assim que terminou, foi para o terraço aguardá-la.
Quando Karliah chegou com um vestido lilás de rendinha um pouco acima dos joelhos, Sebastian a olhou de cima a baixo, sorriu e puxou a cadeira para ela. A mesa estava arrumada com pratos, talheres, taças, dois castiçais com velas, uma bacia de gelo com uma bolsa de sangue, e um vasinho com uma mini kalanchoe
rosa ao centro. A malkaviana encarou a planta por uns minutos.
— É a minha kalanchoe
.
Sebastian sentou-se sorrindo.
— São todas as suas plantas — disse ele indicando uma estante no canto com todos os vasos dela. — Deixei aqui no terraço porque, ao contrário de nós, elas precisam de sol. Daqui em diante, você pode vir aqui todas as noites para cuidar delas.
— Não vou mais ficar trancada na suíte?
— Que anfitrião eu seria se deixasse minha convidada trancada no quarto o tempo todo?
— E o meu diário?
— No freezer, na cozinha, local que você também pode acessar a partir de agora.
— Minhas agulhas?
Sebastian sorriu enquanto servia o sangue da bolsa.
— Eu vou ficar com elas por mais algum tempo.
Karliah observou as plantas avaliando o estado delas.
— Depois de um mês sem eu cuidar, elas não morreram, estão bonitas — constatou.
— É porque eu as trouxe no dia seguinte, contratei um jardineiro e não lhe contei.
— Por quê?
— Porque eu precisava que você se adaptasse à vida que eu posso lhe dar. Além disso, caso você fugisse, suas plantas, seu diário e suas agulhas seriam meus reféns — disse ele com um sorriso e erguendo a taça para que ela brindasse.
Karliah encostou a taça na dele e os dois beberam um gole.
— Não é de bebês — disse ela.
— Não. É o que você chama de "sangue normal".
— Por que você gosta de sangue de bebês?
Sebastian encarou o vazio por um instante e seu rosto mudou completamente, como se estivesse vendo um fantasma tenebroso. Seu olhar voltou-se para a malkaviana na esperança de escapar das memórias que ele achara que tivesse enterrado muito bem.
— Se realmente quiser saber, você pode botar as suas cartas — e bebeu o restante do conteúdo da taça enchendo-a em seguida.
— Parabéns.
Antes que Sebastian pudesse perguntar por quê, o Sheriff apareceu no terraço e o entregou um envelope. O ventrue abriu e seu rosto se iluminou novamente.
— Os dois sabbatianos que fugiram foram mortos. Eram ghouls — disse ele. — Os mandantes também, que, segundo estas informações, eram seus clientes.
Karliah deu de ombros, bebeu o restante do sangue e esticou o braço para que Sebastian a servisse. O ventrue entregou o envelope para o nagloper e mandou-o destruir. Em seguida serviu a malkaviana.
— Além disso, faturei alguns bilhões na bolsa de valores.
— Parabéns.
— Graças às suas habilidades, mademoiselle.
— Sim.
Ele tirou a caixinha do anel de dentro do bolso, abriu, segurou a mão direita dela e colocou o anel no dedo anelar.
— Que este pequeno presente sele a nossa aliança.
— Aliança?
— Sim. Somos parceiros agora. O que me beneficia também lhe beneficia, o que me prejudica também lhe prejudica e vice-versa.
Karliah encarou as duas mãos. O anel de Sebastian na direita, o dos anarquistas na esquerda. Ambos de cores semelhantes, mas de materiais, belezas e significados tão diferentes. Duas vidas, duas realidades, dois mundos unidos através dela.
— Você vai doar alguma coisa para um hospital? — perguntou ela.
Sebastian a encarou surpreso por um segundo. Então sorriu brevemente.
— Sim, amanhã. Nós dois vamos. Quero que você vista o vestido azul claro, eu vou de terno azul escuro. Quando me perguntarem, anuncio que você é minha noiva. Assim poderemos aparecer em público sem que cause suspeitas.
Karliah balançou a cabeça negativamente.
— Vá sozinho. A imprensa vai aparecer. Quando a repórter perguntar se você está solteiro, diga que sim, que está procurando uma parceira pra dividir a vida com você.
Sebastian a observou tentando decifrá-la.
— Por que isso?
— Catarina Dubanowska vai ver e vai entrar em contato pra você convidar ela pra um jantar.
— Algum acordo sairá desse jantar?
— Sim.
Ela bebeu o sangue todo e esticou a taça para ele que a serviu. Desconfiado, perguntou:
— Mais alguma coisa?
— Ela quer atrair o pai que está em torpor em algum lugar da Polônia, diablerizar o velho e tomar conta de tudo. Ela passaria pra sexta geração.
Se Sebastian respirasse, ele teria prendido o ar naquele momento, então apenas arregalou os olhos um pouco.
— Você está propondo que eu espere a ventrue diablerizar o pai para então...
— Sim. Não precisa do sarcófago, eu falei.
— Você também falou sobre um tremere que podia diminuir gerações. Quem é ele?
— Não posso dizer agora.
Sebastian sorriu.
— Um dia então, já que a sexta geração ainda não é um antediluviano.
— Você não precisa disso. Com dinheiro e a sexta geração, você consegue ser presidente deste país e controlar a nação que quiser.
— O único problema disso é que se eu diablerizar um ventrue, o Conselho vai descobrir, a Camarilla também e eles vão me caçar.
— Se você cogitar diablerizar um antediluviano, os anarquistas vão te destruir antes que você consiga e ninguém vai tentar impedir eles.
Sebastian a observou por um momento e então usou seu poder de cooperação.
— Por que está me ajudando?
Karliah não resistiu.
— Porque estou entediada e porque um dia poderei ir pro Egito.
— O que você acha que vai acontecer quando tiver adorado seus deuses?
— Vou morrer e atravessar o pós-vida.
— Por que quer morrer?
— Qual o objetivo de viver?
— Realizar nossos desejos.
— Não desejo nada.
— Um dia você desejou tanto algo ou alguém que a decepção foi muito grande e lhe compeliu a arrancar um pedaço do seu corpo.
Karliah olhou para o anel enviado pelos anarquistas.
— Não sou essa pessoa que dizem.
— Eu queria ter chegado na sua vida mais cedo, mademoiselle. O que quer que Rodriguez tenha feito, foi um imenso desperdício de potencial.
Karliah deu de ombros e bebeu o restante do sangue. Os primeiros raios de sol começaram a despontar no horizonte, os dois terminaram o encontro e foram descansar cada um na sua suíte.
🦇🦇🦇
Como a malkaviana havia avisado, depois da inauguração de uma nova ala para pacientes com câncer terminal e a doação milionária para tratamentos gratuitos, uma repórter aproximou-se de Sebastian ao fim da sessão de fotos e perguntou o porquê daquilo.
— Venho de uma família humilde do interior. Vi muitos amigos, vizinhos e parentes morrerem por falta de tratamento e isso me afeta profundamente.
O ventrue pediu um momento levantando o dedo em direção à câmera e virou o rosto para o outro lado. Quando olhou novamente para a repórter, seus olhos e seu nariz estavam rosados.
— Quem dera se todas as pessoas influentes nesta cidade fizessem o mesmo, Sr. LaCroix.
— É o mínimo que eu posso fazer. E farei mais sempre que puder.
— Mas hoje é um dia feliz, onde a generosidade e o caráter prevaleceram. Me conta, Sr. LaCroix, há alguma sortuda que partilha da sua bondade?
Sebastian sorriu e logo os sinais da suposta tristeza desapareceram.
— Ainda não, mademoiselle, mas estou à procura de uma parceira para a vida toda. Infelizmente, como sou um homem muito atarefado, quase não encontro tempo para a busca.
A repórter sorriu mais animadinha.
— Ah, mas aposto que com a divulgação dessa notícia, as moças vão começar a aparecer.
— Espero que sim, mademoiselle. A solidão é perturbadora — disse com um semblante cansado —, só eu sei como me sinto todas as noites na minha cobertura sem nenhuma voz amiga, nenhum calor humano... Ninguém para compartilhar minhas dores, meus medos... É de enlouquecer qualquer um.
A repórter assentia comovida com o depoimento. Sebastian agradeceu a oportunidade, despediu-se dela, entrou no blindado e voltou para o prédio da Venture.
Na cobertura, encontrou Karliah na sala da tevê assistindo ao telejornal.
— Como eu me saí? — perguntou o ventrue sentando-se ao lado dela e colocando o braço ao redor do pescoço da malkaviana.
— Quase acreditei.
Sebastian sorriu e observou melhor o rosto robótico dela. Alisou a pele fria do queixo com delicadeza como se examinasse uma escultura ainda fresca que pudesse deformar sob um toque mais firme.
— Em outra vida, mademoiselle, será que nos apaixonaríamos e viveríamos desesperados para consumir um ao outro como os humanos?
— Não.
Sebastian emitiu um ruído de indignação e recolheu o braço. Empertigou-se ajeitando o terno e perguntou:
— Por que não?
— Eu já gostava de homens fora da curva mesmo antes do Abraço por um malkaviano.
Ele suspirou para livrar-se do ataque ao seu ego.
— É, mademoiselle... Receio que após o meu Abraço não tenha restado nenhum traço fora da curva.
— Restado?
Sebastian sorriu triunfante.
— A paciência que tenho com você, mademoiselle, não é apenas um presente do meu progenitor ventrue. Minha mãe era um pouco... diferente. Assim como você, porém muito mais instável. Meu pai se refugiava na côrte com os nobres enquanto eu cuidava dela durante as crises. Se não fosse o círculo social dele, talvez eu tivesse encontrado um progenitor malkaviano e tido um destino semelhante ao seu. É fascinante como um pequeno detalhe pode mudar uma vida inteira.
— Sim.
O telefone tocou na escrivaninha dele no outro cômodo e o ventrue foi atender.
— Ah... mademoiselle Dubanowska, que surpresa agradável ouvir sua voz.