Capítulo 3:
A Sabbat manda um oi

O brujah adentrou o apartamento olhando toda a decoração com desdém. Vez ou outra sacudia a cabeça em negação como se não acreditasse no que estava vendo. Quando diminuía o passo para observar melhor algum objeto, o Sheriff parava atrás dele como uma sombra causando desconforto no anarquista que apressava o passo em direção à mesa de LaCroix.

O ventrue e o brujah se encararam em silêncio. Sebastian fez um gesto para ele se sentar. O visitante deu uma olhada para o Sheriff. Sebastian ordenou que o brutamontes se afastasse. O brujah se sentou e soltou uma exclamação de prazer quando percebeu que a cadeira era muito mais confortável do que todas as camas em que já estivera em sua vida. Sebastian também se sentou e sorriu cordialmente.

— Com quem eu falo?

— Miguelito Pirulito.

— Ao que devo sua presença?

— Uma integrante dos anarquistas desapareceu tem uns dois dias. Segundo testemunhas, foi seqüestrada por um ogro e um homem loiro bem vestido.

— Ora, ora. Agradeço por eu ser o primeiro da lista de vocês quando mencionam um loiro bem vestido, mas sinto em informar que não fui eu.

O brujah encarou o Sheriff.

— O Coisa aqui também bate com as descrições.

— Los Angeles é uma cidade cheia de aspirantes a fisioculturista, todos tentando um lugar ao sol. Suas testemunhas podem ter se enganado.

O brujah sacudiu a cabeça em negação.

— Nah... Foi você e o Shrek aqui.

Sebastian o encarou com um sorriso congelado no rosto avaliando o quanto estava disposto a se indispor com os anarquistas por conta da cartomante que ele acabara de descobrir que também era uma anarquista.

— Vamos seguir sua linha narrativa por um momento. Digamos que eu tenha seqüestrado uma integrante do seu grupo. O que vocês pretendem fazer a respeito?

Miguelito hesitou por um instante antes de responder:

— Se ela estiver viva, nada. Mas só se devolver ela pra gente.

— E eu devo acreditar que uma facção de arruaceiros desprovidos de boas maneiras não vai tentar retaliar de alguma forma?

O brujah ia cuspir no chão em sinal de desprezo, mas o ventrue balançou um dedo em negativa enquanto emitia um som de advertência. Miguelito engoliu a saliva, derrotado.

— A gente não vai retaliar. Se você devolver ela viva.

— Sheriff, por favor.

O nagloper foi até a suíte, destrancou a porta com um cartão magnético, voltou trazendo a malkaviana e empurrou-a para uma poltrona perto da mesa.

O brujah a encarou um pouco espantado e apoiou-se na cadeira para se levantar, mas antes que completasse o gesto, Sebastian fez outro ruído de advertência. O anarquista voltou a encostar bem devagar.

— Karliah, este gentilhomme diz que você é anarquista.

— Não sou.

O brujah soltou um ruído de indignação.

— Diga a verdade — ordenou Sebastian com a voz firme, mas cordial de sempre.

Karliah não conseguiria resistir nem se quisesse, mas realmente falara a verdade.

— Não sou anarquista.

— Mas é claro que é! Não tem muito tempo que você e--

Sebastian ergueu a mão rapidamente num gesto para que o brujah se calasse.

— A mademoiselle disse que não é anarquista, isso é o suficiente. Você pode voltar para o seu grupo. — E fez um gesto para que o Sheriff escoltasse o brujah.

O nagloper levantou-o pelo braço, mas Miguelito desvencilhou-se de sua pegada e se aproximou da malkaviana apenas o suficiente para encará-la melhor.

— O que aconteceu contigo? As vozes te pegaram, cara?

— Sebastian me--

O ventrue emitiu outro ruído para que ela se calasse.

— Deixa ela falar! — gritou o brujah com um soco direcionado à mesa de madeira nórdica, que foi segurado pelo Sheriff antes que alcançasse a mobília.

— Ah... Aí está um anarquista que todos conhecem. Violento e socialmente inepto.

O brujah buscou se acalmar para não prejudicar a própria facção.

— Karliah — disse Sebastian —, responda a pergunta do balourd.

— Sebastian me seqüestrou, me deu cartas novas e sangue de bebês, e pagou meu aluguel; a Teia me chamou, outros vampiros me visitaram; e o Sheriff me trouxe pra cá. As vozes não me pegaram.

O brujah fez uma careta de estranhamento.

— Você tá diferente...

Ele a encarou por mais um momento intrigado com o porquê de a malkaviana não tê-lo reconhecido, até que o Sheriff o empurrou para fora da cobertura e fechou a porta atrás de si deixando o ventrue e a malkaviana sozinhos.

— Você não mentiu quando disse que não era anarquista.

— Não sou.

— No entanto, o brujah poderia jurar de pé junto que você é, e eu também não acho que ele estivesse mentindo.

Karliah continuou olhando para ele sem muita emoção. Sebastian deu de ombros levemente.

— Isso significa que eu tenho alguns informantes incompetentes para apresentar à morte final. — E levantando-se acrescentou: — Enquanto isso, quero que descubra quando o arqueólogo trará o sarcófago para Los Angeles.

Karliah se levantou e foi para a suíte pegar um de seus baralhos. Sebastian a acompanhou. Ela embaralhou e tirou algumas cartas sobre a cama.

— Quando as flores se abrirem.

— Primavera?

— Sim.

— Ano que vem, então. Quando, especificamente?

— Na primeira noite de super lua.

— Muito bem. Como você está se sentindo?

— Bem.

— Conseguiria me acompanhar à ópera?

— Não tenho roupa.

Sebastian sorriu.

— Isso nunca será um problema. Mandarei trazer alguns modelos e você escolhe.

Ele ia sair, mas voltou-se para ela.

— Como vai ser nossa noite hoje?

Ela embaralhou tudo e tirou mais algumas cartas.

— Violência.

Sebastian arregalou os olhos por um momento e recuperou a compostura em seguida.

— Por quê? Afinal é apenas um evento de networking com outros ventrue e alguns toreadores.

— Não é com eles.

— É com quem?

Karliah tirou mais uma carta.

— Sabbat.

Sebastian engoliu em seco sem deixar seu desconforto transparecer mais do que isso.

— Eles vão atacar a ópera? Mesmo sendo quem são, não sairiam com vida.

Karliah tirou outra carta.

— Não. O carro.

— Por quê?

Ela tirou mais uma carta.

— Por minha causa.

Sebastian a encarou sério por um instante.

— Clientes seus?

— Não, mas a mando de clientes meus.

— Porque você sabe demais?

Ela não precisou tirar nenhuma carta para responder.

— Sim.

— Se eles vão atacar o carro, então sabem que você estará comigo, e sabem qual o momento em que estaremos na rua e para aonde vamos, o que significa que temos um vazamento. Possivelmente neste prédio. — E olhando para Karliah: — Certo?

Ela embaralhou e tirou uma carta.

— Certo.

— Quem?

Tirou outra carta.

— Um dos vigias é um ghoul dos Sabbat.

— Qual deles?

Ela puxou outra carta.

— O que abandonou a família.

— Muito bem, vou cuidar disso e mandar trazer os vestidos. Você trate de se arrumar.

Sebastian saiu da suíte e trancou a porta. Ligou para a secretária, mandou trazer os modelos que ele já havia separado e contratar uma equipe de segurança da Camarilla. Chamou o Sheriff e mandou que ele extraísse o máximo de informação do ghoul antes de matá-lo. Chamou um outro vigia e mandou que preparasse o carro blindado em vez da limousine.

Aproveitou esse meio-tempo para se limpar dos resíduos das últimas horas e arrumar-se para a ópera. Quando terminou, pegou os vestidos que a secretária deixara na sala juntamente com os sapatos e jóias e levou para a suíte. Karliah havia tomado banho e estava enrolada na toalha sentada na cama aguardando. O cabelo e a maquiagem já estavam prontos. Sebastian dispôs tudo sobre a cama e ordenou que ela escolhesse um.

Karliah examinou cada um dos 5 vestidos e optou pelo rosa que sempre valorizou sua pele, mesmo depois de morta. Sebastian sorriu porque era o modelo que ele tinha mais gostado também. Sem nenhum pudor, ela jogou a toalha sobre a poltrona e começou a se vestir. Sebastian constatou que, se fosse vivo, talvez sentisse algo por ela, mas tinha certeza de que não seria algo muito profundo. Suas paixões em vida nunca foram avassaladoras, na verdade eram bem mornas, todas facilmente esquecíveis.

A malkaviana terminou de se arrumar e pegou as jóias correspondentes ao vestido que escolhera. Sebastian aproximou-se a passos largos.

— Deixe-me ajudá-la com isso.

O ventrue colocou o colar e as pulseiras nela. A Karliah coube apenas colocar os brincos e o anel. Quando terminou, Sebastian deu alguns passos para trás e pediu que ela desse uma volta.

— Confesso que você é uma visão encantadora, mademoiselle. Deve ter tido muitos pretendentes em vida, não?

— Só uns magos.

— Tremere?

— Aurora Dourada.

Sebastian abriu um pouco os olhos em espanto, mas logo seu semblante se transformou em curiosidade.

— Aleister Crowley? Eliphas Lévi? Papus? Os únicos nomes que eu ouvi falar.

— Sim, ele tentou. Não, ele morreu antes de eu nascer. Não, ele era casado.

— Quem foi o outro gentilhomme a tentar lhe cortejar?

Karliah deixou um minúsculo sorriso no cantinho da boca brotar por uns segundos e desaparecer nas circunstâncias do momento.

— Uma moça.

Sebastian deixou um breve ruído de espanto escapar.

— Alguém importante?

— Sim. Pra mim e pra ele.

— Ora, ora. Um triângulo amoroso. Quem diria...

— Não foi um triângulo, mesmo que Waite tenha tentado.

— E a mademoiselle? Correspondeu aos seus sentimentos?

— Sim.

— Alguém famosa?

— Sim, Pamela Colman Smith.

— Hum... Não reconheço os nomes.

Karliah deu de ombros.

— Enfim. Vamos à ópera — disse Sebastian oferecendo o braço a ela.

🦇🦇🦇

Saíram da garagem do prédio sentados no banco de trás. Além do motorista, estavam acompanhados por um segurança no banco do carona e mais quatro num outro carro que seguia atrás.

Até metade do caminho, tudo transcorreu normalmente. Mas quando tiveram que diminuir num trecho em que o trânsito se densificava, Karliah soltou um gemido de dor. Sebastian olhou para ela.

— O que foi?

— Eles estão por perto.

Sebastian mandou o segurança ficar em alerta. O funcionário avisou aos demais no outro carro pelo rádio. Karliah ficou ofegante e se encolheu no chão do carro tapando os ouvidos. Sebastian tentou puxá-la de volta, mas imediatamente juntou-se a ela quando os tiros começaram.

Uma profusão de gritos, buzinas e batidas soou do exterior quando os ocupantes dos veículos ao redor entraram em pânico tentando escapar do tiroteio.

Os seguranças do outro carro abateram todos os atiradores que vinham da pista contrária e o tiroteio cessou por uns instantes. Ao fundo só ecoavam os gritos humanos.

Um dos seguranças chamou no rádio perguntando como estavam todos. O segurança que estava no carona respondeu que estavam todos vivos.

Sebastian levantou-se tentando olhar para fora, mas as marcas de tiro nos vidros obstruíam a visão.

— Levante-se, Karliah, acabou.

A malkaviana gemia ainda tapando os ouvidos enquanto se balançava para frente e para trás compulsivamente.

Um projétil atravessou a parte mais danificada da janela traseira e acertou a cabeça do segurança que estava no carona. Por pouco não pegou no ventrue. Sebastian deitou-se no banco. O motorista acelerou, mas um segundo projétil o acertou e o carro bateu. Sebastian esticou-se por entre os bancos da frente e pegou o rádio do segurança falecido.

— Façam alguma coisa!

— É um sniper.

— Achem ele! — ordenou.

Os quatro saíram do carro e seguiram protegendo-se na frente dos outros veículos. Vez ou outra atiravam aleatoriamente na direção de onde vieram os tiros, mas não acertavam nada. As pessoas continuavam gritando, mas não tentavam mais sair dos carros, protegiam-se encolhidas no chão.

Um a um, todos os seguranças foram abatidos.

— Temos que sair daqui — disse Sebastian.

— Não.

— Como não? Eles vão vir atrás de nós.

Ela colocou o indicador sobre a boca num gesto de silêncio. Apesar da tensão, Sebastian decidiu acreditar nela.

Barulhos de pneu cantando ecoaram da pista contrária e aumentaram conforme se aproximavam. Os dois permaneceram encolhidos no veículo. O único ferido era o ego do ventrue que mentalmente jurava os Sabbat de morte.

O furgão veio pela pista contrária e deu uma freada brusca fazendo-o parar um pouco depois do carro de trás. Ruídos de passos pulando a divisão de concreto e se aproximando quase fizeram o ventrue entrar em frenesi, mas ele conseguiu se controlar quando a mão fria de Karliah segurou fortemente a dele. Com a outra mão, ela pegou o rádio e, com um gesto, mandou-o tapar os ouvidos. Pela primeira vez em sua não-vida, Sebastian obedeceu alguém que não era do Conselho, e usou sua fortitude para resistir à malkaviana.

Karliah balbuciou várias vezes um mantra numa língua desconhecida. Um dos atacantes abriu a porta do carro de trás, pegou o rádio e aumentou o volume para ouvir melhor.

Todos os sabbatianos que ouviram o mantra gritaram de horror. Um deles tentou arrancar os próprios ouvidos com tanta força que acabou acertando o cérebro e morrendo com as garras presas no crânio. O outro pegou duas facas e perfurou os dois tímpanos morrendo no processo. Um terceiro enfiou o cano do fuzil no ouvido fazendo a arma atravessar a cabeça. O quarto simplesmente usou uma pistola para atirar contra si mesmo.

Os dois sabbatianos mais afastados alvejaram o carro de trás e destruíram o rádio. Aproximaram-se lentamente, tentando não fazer barulho.

Ao longe, o ronco de várias motocicletas ficava mais alto conforme se aproximavam pela pista contrária.

— Merda, são os Anarquistas — reclamou um.

— Vamo embora — comentou o outro.

— A gente ainda não terminou aqui.

— Tu quer arriscar botar a gente em guerra com os anarques?

— E a gente já num tá?

— Eu tô indo.

— É melhor a gente não voltar de mão abanando não.

O outro teve uma idéia.

— Talvez sim. Descarrega essa merda toda neles e vamo embora.

Os dois alvejaram o veículo onde o ventrue e a malkaviana estavam, esvaziando todos os pentes de todas as armas. Fugiram da estrada segundos antes dos anarquistas pararem ao lado do carro na outra pista.

— Malditos sabbatianos — resmungou Jack Sorridente.

— Vamos atrás deles? — perguntou Miguelito Pirulito.

— Não. Depois a gente pega esses desgraçados.

— Sobrou alguém?

— Não sei.

— Eu vou ver — disse Damsel descendo da moto.

— Espera aí — falou Jack.

— Tem que ver se ela tá aí — reclamou Damsel.

— Aposto que aquele ventrue empinadinho armou isso pra matar ela — disse Miguelito Pirulito.

— Não sei se ele ia descer a esse nível — comentou Rodriguez. — É um desgraçado, mas fazer acordo com a Sabbat é baixo até pra ele.

Karliah se levantou devagar, mas não era possível ver direito com os vidros trincados. Ela tentou abrir a porta, mas estava emperrada. Sebastian tomou a frente para abrir e, ao mesmo tempo que empurrou, uma outra mão puxou pelo lado de fora.

— Nines Rodriguez — disse o ventrue.

— Sebastian LaCroix.

Os dois se encararam por alguns minutos. Ambos se controlando para não prejudicar a Máscara. O anarquista pronto para estraçalhar o ventrue ao mínimo movimento, e o camarilliano pronto para subjugar o brujah ao menor sinal de hostilidade.

— Eu quero sair — disse Karliah quebrando a tensão.

Rodriguez afastou-se do carro, mas sem tirar os olhos de Sebastian, que desceu também o encarando, e deu a mão à Karliah para ajudá-la a sair.

Quando a malkaviana desceu, Jack deu um assobio lisonjeiro e olhou de relance para Rodriguez.

— Você tá bem? — perguntou Nines enquanto a olhava de cima a baixo.

— Sim — respondeu a malkaviana com indiferença.

— Você sumiu — continuou ele.

— Não — respondeu ela sem entender.

— Viu? — falou Miguelito. — Eu disse que ela tava estranha!

— O que você fez com ela, ventrue? — perguntou Nines.

Sebastian deu um suspiro de deboche e sorriu com desprezo.

— Não fiz nada.

— Você seqüestrou ela.

— Pela definição original da palavra, sim. Mas além disso, não fiz nada.

— Sorte sua que tem esse gado todo aqui! — disse Miguelito. — Senão a gente ia arrebentar a sua cara.

— Miguelito — repreendeu Nines. E para Karliah: — Vem, vamos embora.

— Não.

Todos os anarquistas olharam para a malkaviana como se ela tivesse acabado de falar em um idioma de outro mundo. Sebastian sorriu.

— O que ele fez com você? — perguntou Nines.

— Me levou pra cobertura, me deu muitos oráculos, sangue de bebê, este vestido, estes sapatos e estas jóias. Agora tá me levando pra ópera.

Sebastian encarou Nines com um sorriso triunfante.

— Foi por isso, então, que você largou a gente? — perguntou Nines indignado.

— "A gente"? — comentou Jack com um sorriso malicioso.

Nines encarou o ancião com um olhar irritado e logo voltou-se para a malkaviana aguardando pela resposta.

— Não entendi — respondeu ela.

— Você abandonou a gente, os anarquistas, por causa disso? De jóias?

— Eu não sou anarquista. Nunca fui.

Nines soltou um gemido de indignação como se ela tivesse dado um tapa nele. Jack deixou um assobio de espanto escapar. Damsel resmungou alguma coisa incompreensível.

— Viu? Eu falei! — disse Miguelito.

Ao longe, sirenes anunciaram a polícia.

— Vamos embora, pessoal — disse Damsel já ligando a moto.

Nines deu um passo em direção a Sebastian e ergueu o dedo indicador para o ventrue.

— Escuta aqui, isso ainda não acabou. Eu vou descobrir o que você fez com ela e vai ser o fim do seu reinado aqui.

Sebastian devolveu a ameaça com o seu melhor semblante de superioridade.

— Guarde seu dedo onde o sol não toca, Rodriguez, se não quiser amanhecer como um dos monstros da Sabbat.

— Vamo embora, Nines — disse Jack. — Depois vocês trocam declarações de amor.

Nines deu uma última olhada em Karliah antes de pular a divisão de concreto, ligar a moto e sumir no horizonte junto com os outros.

Sebastian orientou a malkaviana a fingir nervosismo aos policiais e dizer que era uma gangue criminosa, mas ela preferiu simplesmente ficar catatônica e não dizer nada. Os policiais pegaram o depoimento do ventrue, anotaram as placas, tiraram fotos e cercaram o local. Sebastian persuadiu um deles a escoltarem-nos até a ópera.

Chegaram atrasados, todos já estavam assistindo à apresentação. As únicas cadeiras disponíveis eram duas na fileira da frente, onde seriam vistos chegando tarde. Mesmo assim, Sebastian ergueu o rosto e seguiu com Karliah até alcançarem seus assentos. Ele sabia que os outros vampiros iriam retaliar de alguma forma o seu atraso. Aproveitou o momento para se acalmar e juntar paciência.

🦇🦇🦇

No salão, garçons perambulavam entregando taças com sangue. Alguns ventrue cheiravam e não bebiam, aceitavam apenas por educação. Sebastian tomou um gole para experimentar.

— Argh. Moças jovens. Todas elas têm o mesmo sabor insosso — reclamou ele.

Karliah bebeu o conteúdo todo da sua taça de uma vez.

— Saudável.

Sebastian sorriu.

— De fato. Nenhum ventrue jamais serviria sangue dos miseráveis.

Quando outro garçom passou por eles, Karliah pegou outra taça e bebeu de uma vez.

— Devagar — disse Sebastian. — Eles são todos muito preocupados com as aparências.

— Ninguém veio falar com você.

— Estão me ignorando por ter chegado atrasado. Acham que eu os insultei.

— A gente tava tomando tiro.

— Eles não sabem.

— Conta pra eles, então.

— Não. Eles descobrirão em breve.

— Vá conversar com alguém então.

— Prefiro caminhar sob o sol do que me humilhar para essa gente.

— Por que veio então?

— Porque seria pior não ter vindo.

— Quer ajuda?

Ele a encarou com mais cuidado.

— Ajuda com o quê?

— Tem uma toreadora atrás do busto grego, com um vestido amarelo, que adoraria vir aqui conversar com você, mas acredita que eu sou o seu par. Ela acha você uma obra de arte no meio do deserto dessa reunião.

Sebastian sorriu.

— Não é muito diferente da minha vida anterior. Mas eu não quero que você se afaste de mim.

— Então vamos andando de fininho até lá. Eu nunca vi essas coisas — disse ela se referindo aos quadros e esculturas que estavam dispostos pelo salão.

Sebastian deu o braço a ela e os dois fingiram apreciar as obras uma por uma até chegarem perto do busto atrás do qual se encontrava a toreadora.

— Que interessante — disse Karliah no tom de voz mais monótono do mundo. — Você sabe quem é o artista, senhor LaCroix?

— Sinto muito, mademoiselle — respondeu Sebastian entrando no clima —, mas desconheço. Não sou versado em arte grega. Prefiro os franceses, se me permite uma confidência.

— Jamais teria imaginado, senhor — comentou Karliah com seu tom mais robótico. — Achei que preferisse os italianos.

Sem querer, Sebastian emitiu um ruído de desprezo pensando nos Giovanni.

— Com licença — disse a toreadora saindo de trás do busto —, se me permitem, é de Alkamenes de Atenas, esculpido no século 5 antes da Era Comum. Na verdade esta não é a original e sim uma cópia de algum escultor da antiga cidade de Pérgamo, onde hoje é a Turquia.

— Oh, que fascinante — comentou Sebastian. — Agradeço muito sua colaboração, madame...?

— Sara Mendez. Mademoiselle, por favor, monsieur.

— Pois não, mademoiselle — disse Sebastian.

A toreadora olhou para Karliah e sorriu. A malkaviana a encarou com seu semblante desprovido de vida.

— E sua acompanhante, tem nome?

— Karliah Karmen, minha cartomante.

A toreadora deixou um gemido de espanto escapar.

— Como nos velhos tempos — comentou ela.

— Tempos que nunca se foram, se os passarinhos estiverem corretos.

Sara sorriu maliciosamente.

— É verdade, monsieur LaCroix. No entanto, podemos concordar que nem todos os ocultistas são tão adoráveis assim.

— Foi o que ouvi dizer. De vez em quando o universo sorri para nós e encontramos um espécime funcional.

— Cuidado com ela, monsieur. Alguém pode querer seqüestrá-la.

Sebastian deu uma risada.

— E não apenas isso, mademoiselle.

— Suponho que alguma seita já ousou se mexer?

— A Sabbat nos atacou na estrada hoje.

A toreadora se espantou e olhou ao redor rapidamente procurando quais seriam os alvos daquela fofoca quentíssima, em seguida voltou-se para os dois.

— Sinto muitíssimo! Deve ter sido uma experiência horrível! Como conseguiram escapar?

— Karliah é muito habilidosa. Mesmo assim, quatro ainda conseguiram fugir.

— Vocês os viram?

— Não. Não conseguimos ver nada com os vidros trincados.

— Achá-los e executá-los seria um ótimo recado para a Sabbat.

— É verdade, mademoiselle. Deixo isso para quem tiver interesse.

— E você não quer mostrar para a Sabbat do que é capaz?

— Tenho outros planos em outro lugar no momento.

Ela ficou em silêncio o encarando por alguns instantes tentando decifrá-lo.

— Pretende sair de Los Angeles, monsieur?

— De jeito nenhum.

— Mas a Sabbat lhe atacou no seu território, e você não vai fazer nada?

— A oportunidade aparecerá no momento certo.

— Ou você irá fabricá-la — disse a toreadora olhando para Karliah.

— Ou... Ou... Ou... Tantas possibilidades, mademoiselle, que no momento estou brincando com a roleta russa do destino.

Sara sorriu educadamente e pediu licença se retirando.

— Ela vai contar pra todo mundo em troca de favores — disse Karliah.

— Não preciso ser médium para saber disso, mademoiselle.

— E não foram quatro, foram dois que fugiram.

— Eu sei.

— Por que você fez isso?

— Quero testar uma hipótese. Venha.

Os dois circularam pelo salão mais um pouco enquanto Karliah pegava uma taça de sangue de cada garçom que passava por ela, bebia tudo de uma vez e entregava ao garçom seguinte.

— Identifique todos que são mais simpáticos e antipáticos a mim — disse Sebastian.

Karliah fez uma lista de todos. Sebastian escolheu apenas as vampiras, tanto toreadoras como ventrue. Aproximou-se delas como Karliah sugeriu, da mesma maneira despretenciosa com que fizeram com Sara. Sebastian propositalmente deixou escapar que foram atacados pela Sabbat, mas a cada uma deu um detalhe inverídico diferente.

— E a sua cartomante não previu o ataque? — perguntou a última ventrue em quem eles chegaram.

— Eu não esperava um ataque, então por um lapso meu, não ordenei que ela investigasse o futuro sobre isso — mentiu Sebastian.

— E ela não pensou em fazer uma previsão geral? — perguntou olhando para Karliah.

Sebastian se retesou um pouco percebendo que Catarina Dubanowska não seria tão fácil de enganar como as outras, mesmo que fosse mais simpática a ele. A anciã, como a maioria dos vampiros, não aparentava sua idade. Vinha de uma família de nobres polacos e fora abraçada ainda na flor da idade, antes que tivesse filhos. Como seu irmão mais velho já havia dado três herdeiros para a família, o patriarca não viu necessidade de desperdiçar a beleza e a pureza de sua filha com algum dos pretendentes das outras famílias que, em sua opinião, eram a escória decadente da nobreza polaca. No entanto, ao contrário dos desejos do pai, Catarina sempre sonhou em casar formalmente e constituir família. Amaldiçoou-o quando entendeu o que ele havia lhe causado, mas não deixou que ele soubesse o ela sentia. Por isso, vivia procurando um príncipe encantado com quem pudesse governar alguma parte do mundo bem longe das garras de seu pai controlador, e vira em Sebastian LaCroix uma chance perfeita. Era bonito, um ventrue assim como ela, que já era Príncipe, que governava uma cidade bem longe de seu país de origem, e que não era um ancião, coisa que deixaria seu pai furioso, o que a fazia sentir prazer só de imaginar o velho segurando-se para não entrar em frenesi. Ela sabia que seu pai tentaria sabotar a união quando descobrisse, mas estava preparada para isso. Seu plano era muito mais mirabolante do que sua família poderia imaginar.

Sebastian relaxou um pouco quando percebeu que Karliah continuava com seu semblante de morta-vida e não responderia a pergunta.

— Ela só faz o que eu ordeno. O erro foi meu e paguei por isso.

Catarina o encarou com um meio-sorriso estudando-o.

— Muito corajoso de sua parte, monsieur, assumir uma fraqueza de intelecto.

Sebastian deu um rápido sorriso de irritação com o insulto embrulhado no elogio, mas evitou revidar.

— Às vezes estendo minha cordialidade a seres que merecem apenas o meu desprezo.

Catarina ficou um pouco desapontada com a resposta, pois esperava que Sebastian fosse mais impositivo, uma característica que seria crucial no seu noivo, considerando o pai que ela tinha.

— Me despeço aqui, monsieur LaCroix, que vocês dois tenham um fim de noite melhor que o começo.

— Igualmente, mademoiselle.

Assim que Catarina desapareceu no meio dos outros convidados, Karliah levou Sebastian para um canto vazio do salão.

— Ela quer você.

— Quem não quer, mademoiselle.

— Ela quer casar com você.

Sebastian deu uma risada.

— Não sei há quanto tempo você foi abraçada, mas saiba que nós, vampiros, não fazemos isso.

— Ela deseja muito isso, consegui sentir. Você era um pretendente bom, mas afrouxou e ela não gostou.

Sebastian a encarou com desdém.

— Afrouxei?

— Sim, ela quer alguém que tenha coragem de enfrentá-la.

— Por que uma ventrue ia querer isso?

— Porque ela tem medo de alguém que controla ela.

— Alguém que controla uma anciã... — comentou Sebastian para si mesmo com mais interesse.

O ventrue considerou a situação por um instante e decidiu que não havia mais nada a ser feito na festa para consertar a má impressão, mas poderia fazer isso longe dos olhos e ouvidos dos demais vampiros num momento mais propício.

Como já estava quase amanhecendo, um anfitrião ventrue fez um discurso sobre a nobreza de caráter dos convidados, sobre a importância da Camarilla e a manutenção da Máscara, desejou que todos ali tivessem se divertido e usufruído das conexões e despediu-se liberando todos os convidados para irem embora.

🦇🦇🦇

De volta à sua cobertura, Sebastian aproveitou para tomar um pouco de sangue, já que não havia consumido nada na festa e ofereceu para Karliah que recusou.

— Quero que você descubra tudo sobre Catarina Dubasnowska. Todos os problemas atuais que ela tem, e quem é que a controla e por quê.

Karliah assentiu como um robô jogada no sofá com os pés sobre a mesinha de centro.

— Sente-se direito.

— Quer que eu bote as cartas agora?

— Depois. Está quase amanhecendo, vamos dormir.

A malkaviana foi para a suíte. O telefone tocou e a secretária avisou que os anarquistas haviam ligado para convidar o ventrue e a cartomante para um encontro no Vesuvius, território elysium comandado por Velvet Velour.

— Qual o motivo?

— Eles não disseram, senhor.

— Amanhã eu decido isso. Está dispensada, Denise.

Sebastian desligou e massageou as têmporas já irritado com a facção inimiga. Mas como os primeiros raios de sol já se projetavam pelas frestas da cortina, ele decidiu ir dormir e resolver isso depois.