— E então? — perguntou Sebastian quando o Dr. Baumer saiu da suíte e fechou a porta.
O médico se sentou ao seu lado no sofá vermelho de renda dourada e serviu-se com o sangue que estava numa louça sobre a mesinha de centro. Saboreou por uns instantes estalando a língua, fez um ruído de aprovação e tomou o restante de uma vez.
— Da maternidade?
— Sempre o melhor, Doutor — respondeu e acrescentou um tanto irritado: — Mas me diga, como ela está?
— Ela vai ficar bem.
— O que ela tem, Doutor? — perguntou com um sorriso irritado.
— A Teia entrou em contato. Quando terminarem de passar a mensagem, ela vai acordar. Até lá, não há nada o que se fazer.
— Que mensagem estão passando?
— Você vai saber quando ela acordar. Ou não. — E serviu-se de mais sangue.
Sebastian forçou um sorriso cordial e conciliador, mas saiu apenas um sorriso impaciente.
— Eu o pago muito bem, Doutor Baumer, porque é o único aqui em Los Angeles que consegue lidar com os malkavianos e suas peculiaridades, mas isso não significa que seja insubstituível. Existem muitos outros como você na Europa.
— Então leve sua pupila para a Europa.
Os dois se encararam por um instante. O rosto inexpressivo do médico dava a impressão de que ele poderia ser tanto um psicopata, quanto um robô, um alienígena ou um malkaviano. Sebastian já sabia se tratar do último caso, mas ainda lhe era incômodo ter que puxar rios de paciência das suas entranhas para lidar com esse clã. Se ambos não fossem tão úteis, ele já os teria despachado para a morte final.
"É pior do que lidar com adolescentes", pensou o ventrue.
— Qual a freqüência dessas crises?
— Duas por ano. Três se ela for muito importante para a Teia.
— E o que eu faço quando isso acontecer?
— Coloque-a num lugar confortável para que não se machuque e aguarde.
— Alguma outra coisa que eu deva saber?
— Ela vai acordar um pouco desorientada e pode entrar em frenesi. Ou não.
Sebastian sorriu tentando se controlar.
— Ou não — sussurrou para si mesmo.
Massageou as têmporas por um minuto e levantou-se com um sorriso cortês.
— Muito bem, Doutor Baumer. Agradeço pela sua visita. O dinheiro será enviado para a mesma conta de sempre. Tenha um bom dia.
O médico colocou a taça sobre a mesinha e se levantou abotoando seu terno lilás.
— Na verdade, quero que você faça uma doação em meu nome para o hospital de pacientes com câncer terminal.
Sebastian o encarou surpreso com uma sobrancelha erguida. Não acreditava, nem por um instante, na bondade do coração de um malkaviano, especialmente um que em momento nenhum se incomodou de tomar sangue de bebês.
— Como o dinheiro sairá da minha conta e é rastreável, gostaria de saber o motivo da doação.
— Estou conduzindo um experimento e preciso que a diretoria do hospital seja persuadida ao meu favor.
Sebastian deu um belo sorriso de interesse, voltou a se sentar e fez um gesto para que o médico também se sentasse. Ele obedeceu.
— Favor, hã. Talvez eu possa persuadir a diretoria do hospital de uma maneira mais convincente. Claro, se você puder contribuir de outra forma. — E acrescentou de repente, num único fôlego: — O dinheiro desta consulta será enviado para a sua conta normalmente, óbvio.
— O que você quer?
— Acesso controlado à Teia.
O Dr. Baumer o encarou de cima a baixo como se fosse um de seus pacientes psicóticos.
— Não existe isso de acesso controlado à Teia.
— Com o seu impressionante currículo e mais de um século de experiência, não seria possível gerenciar o acesso à Teia?
— Não.
— Não? — perguntou Sebastian com um sorriso malicioso e sentindo-se no controle da situação novamente. — Pense mais um pouco, Doutor. Pelo futuro da Ciência.
— Nenhum malkaviano entra em contato com a Teia. A Teia entra em contato conosco.
— A comunicação é uma via de mão dupla, Doutor.
— Não nesse caso.
O rosto de Sebastian desmanchou voltando a adquirir um semblante de francês arrogante.
— Bom, como eu havia dito, o dinheiro será transferido para a sua conta, como de costume. Tenha um bom dia, Doutor Baumer — disse levantando-se e indicando a porta do apartamento.
O médico não insistiu sobre a doação e se retirou sem falar nada.
Sebastian sentou-se à sua escrivaninha e redigiu um e-mail para um de seus agentes ordenando que ele descobrisse o que a diretoria do hospital precisava. Em seguida, entrou na suíte e encontrou a malkaviana movendo-se pelo quarto como uma aranha de cabeça para baixo, com o ventre exposto e a cabeça ao contrário. A cena lembrou Sebastian de um filme de terror. Ela falava numa língua desconhecida enquanto grunhia e fazia outros barulhos indecifráveis. O ventrue decidiu chamar Beckett.
🦇🦇🦇
— E então? — perguntou Sebastian já sem paciência com aquela história toda.
Beckett fechou a porta da suíte, aproximou-se de uma estante cheia de livros e observou os exemplares como se procurasse algo que nunca havia lido. Sebastian ofereceu-o sangue, mas ele recusou.
— Não é nenhuma língua humana — disse o gangrel.
— Nenhuma língua humana? Ela está falando em alienígena?
— Talvez, mas deixe eu me corrigir. Não é nenhuma língua humana conhecida. Pode ser uma língua alienígena ou uma língua que só os malkavianos entendem. Talvez Elias Baumer consiga ajudá-la.
Sebastian riu com desdém e se sentou no sofá.
— Já tentei. Ele me disse para esperar passar.
— Então espere — disse e puxou um livro muito antigo. Folheou devagar, com cuidado, e constatou que já havia lido uma cópia mais moderna.
Sebastian suspirou irritado.
— Tenho assuntos para resolver que dependem da habilidade da malkaviana.
— Arranje outro oráculo.
Sebastian parou subitamente, como uma estátua. Beckett virou-se para encará-lo.
— Já ouvi falar da cartomante — disse o gangrel. — Ela atendeu alguns conhecidos meus.
— Você também?
— Não, mas talvez fosse útil na minha pesquisa.
— Quantos malkavianos ocultistas você conhece?
— Que eu já ouvi falar, poucos.
— Quantos estão disponíveis?
— De maneira tão tratável assim, nenhum. Você tem um artigo precioso em mãos, LaCroix.
— Entende agora por que eu quero que ela seja consertada o mais rápido possível?
Beckett deixou uma risada escapar.
— Nem todo preço se paga em dinheiro.
Sebastian sorriu e ergueu sua taça como num brinde.
— Tem certeza de que não quer se juntar a mim na bebida?
— Não, obrigado.
— É o melhor sangue que você provará.
— Eu sei. Dispenso. — Devolveu o livro para a estante e acrescentou: — Já falou com Alistair Grout?
— Ninguém sabe onde ele está.
— Na mansão?
— Ainda não encontrei ninguém que conseguisse entrar naquele manicômio. Pode estar lá, mas pode estar em qualquer outro lugar.
Beckett deu de ombros.
— Não há mais nada que eu possa fazer aqui. Então, se me permite, tenha um bom dia, LaCroix. — E saiu sem esperar que o ventrue o acompanhasse.
Sebastian colocou a taça de volta sobre a mesinha e entrou na suíte. Karliah estava caída no chão e contorcida de uma forma inumana. O ventrue se aproximou com cuidado. A malkaviana emitiu um gemido de desconforto. Sebastian endireitou os membros dela com gentileza, pegou-a no colo e colocou sobre a cama. Ela o encarou com um olhar distante de quem acabou de acordar.
— Como está?
Ela piscou algumas vezes tentando focar a visão e organizar a mente o suficiente para se tornar sociável novamente.
— Morta.
Sebastian riu.
— De certa forma, sim. Você se lembra do que aconteceu?
Karliah viu um mar de informações e imagens desconexas em sua mente.
— A Teia... me chamou.
— Sim. Qual foi a mensagem que lhe passaram?
Algumas imagens deslizaram para perto de outras como se tentassem se agrupar por assunto, mas não havia coesão cronológica. Ela não conseguia entender logicamente o que era aquilo, mas sentia do que se tratava.
— Gehenna.
Sebastian girou os olhos num gesto de tédio e impaciência. Levantou-se para sair, mas Karliah segurou seu braço. Conforme as imagens foram se alinhando na mente dela, a malkaviana disse:
— Desista do sarcófago.
Sebastian a encarou surpreso e sério.
— O sarcófago é minha única chance de conseguir o que eu quero.
Karliah sacudiu a cabeça negativamente.
— Não é. Existem outros meios.
— Você não sabe o que eu quero.
— Diminuir gerações pra ter controle total das Américas.
Ele tirou a mão dela que ainda o segurava e sentou-se na cama com um olhar raivoso, mas contido. Não totalmente por ter sido descoberto, mas também por descobrir que a malkaviana era mais poderosa do que havia pensado, e por concluir que jamais poderia deixá-la ver a luz do dia novamente.
— O sarcófago é a única maneira — insistiu o ventrue.
— Existe um Tremere que pode fazer isso sem precisar usar um antediluviano.
Sebastian sorriu.
— Então realmente tem um antediluviano naquele sarcófago?
— Não tenho certeza absoluta, mas parece que sim.
— Mesmo que haja outra forma, abandonar o sarcófago não é uma opção, pois o meu informante pode vender essa informação para outra pessoa se eu não der prosseguimento com as escavações.
— Ele já fez isso. Já tem alguém lá que começou a cavar há pouco tempo.
Sebastian se retesou, deixou uma careta de ódio transparecer e perguntou:
— Quem?
— Um arqueólogo chamado Anders Johansen.
— Consangüíneo ou rebanho?
— Rebanho — disse sentando-se na cama e ajeitando o cabelo.
Sebastian relaxou um pouco.
— Não vai ser tão difícil dominá-lo então.
— Mas tem um problema.
— Qual?
— Um crente tá te procurando.
Sebastian parou para pensar por um segundo.
— Ele tem a Fé Verdadeira?
— Sim.
— Ele sabe do arqueólogo?
— Sabe.
Sebastian se levantou e deu uma volta pelo quarto.
— Você descobriu tudo isso enquanto estava em contato com a Teia?
— Sim.
— Por que a Teia está querendo me ajudar?
— Não estão. Estão tentando evitar Gehenna.
— Gehenna é um mito.
— Não é.
— Por que um bando de malkavianos loucos, que poderiam se auto-exterminar sem pensar duas vezes, estariam tentando evitar o fim do mundo?
Karliah deu de ombros.
— Não sei.
— Quem é o antediluviano no sarcófago?
— Não sei.
— Ele está vivo? Se eu abrir o sarcófago, ele trará o fim do mundo?
— Não sei e não sei.
Sebastian suspirou irritado.
— O que você sabe então?
— Você não deve diablerizar o antediluviano; Johansen vai trazê-lo para os Estados Unidos; Um crente vai tentar te matar e, se não conseguir por meios comuns, vai usar Johansen e o sarcófago pra isso.
— Quem é o crente?
— Não conseguimos ver. A fé dele nos repele.
— Se o sarcófago vier para os Estados Unidos, eu vou, definitivamente, trazê-lo para cá e vou diablerizar o antediluviano. Ninguém vai me impedir. Não seria melhor a sua Teia não me avisar do crente e deixá-lo me matar antes que eu diablerize o antediluviano?
— Se trouxer o sarcófago pra cá, você, eu e quem mais estiver presente vamos morrer.
— Por que morreriam?
— O sarcófago será interceptado antes de vir pra Torre.
— Pelo crente?
— Jack Sorridente.
Sebastian lembrou-se da conversa que tiveram no dia anterior.
— Por que está me ajudando?
— Eu tenho alternativa?
— Com as informações que a Teia lhe passou, você poderia me deixar morrer e fugir. Voltaria a ter sua liberdade e ninguém a culparia pela minha morte, já que muitos aqui me odeiam, até mesmo dentro da Camarilla.
— Se você morrer, não vai ser sozinho.
Sebastian sorriu satisfeito em saber que a Teia da Loucura não estava sendo boazinha com ele, e sim apenas tentando salvar uma das suas. A história da Gehenna era só uma desculpa mesmo. No entanto, nada lhe tirava da cabeça que a Teia poderia tentar salvar Karliah sem revelar tantas informações assim para ele. Achou que a Teia tinha muito potencial, mas nenhuma estratégia. De novo pensou em como seria inestimável ter acesso a uma rede de informações sobre o futuro.
Ele voltou a sentar-se ao lado dela na cama. Tocou seus cabelos e seu rosto pálido. Se tivessem se conhecido antes do Abraço de ambos, ele poderia tê-la levado para conhecer sua família. Talvez até sentisse algo por ela e tivessem pequenos LaCroix que o atormentariam correndo pela casa. Morreriam de tifo, cólera ou de peste bubônica. Sebastian os enterraria no jazigo da família. Talvez fizessem outros filhos, ou talvez Karliah ficasse doente de tristeza e morresse de uma febre misteriosa, coisa que comumente acometia as mulheres. Ele iria para a guerra, como havia feito, e talvez ficasse de luto e se deixasse levar em um dos enfrentamentos encarando a morte. Ou então seria Abraçado como foi e sua vida decorreria da mesma forma até aquele momento. Ela seria apenas uma das muitas lembranças que já não lhe importavam tanto e, quem sabe, no futuro, quando ele tiver diablerizado o antediluviano, Karliah seja mesmo só mais uma das suas muitas lembranças insignificantes.
— Como é a Teia?
— É tudo.
— Tudo o quê?
— Tudo o que é, o que foi e o que será.
— Como é entrar nela?
— É como afundar num oceano de pensamentos, imagens, sons e informações.
— Você consegue navegar por ela?
— Não. Somos pescados pela Voz.
— Que voz?
— Não sei.
Sebastian respirou fundo buscando paciência.
— Você já acessou a Teia por conta própria?
— Não.
— Já tentou pelo menos?
— Não.
Sebastian sorriu um pouco irritado.
— Pois então tente. E quando sentir que está conseguindo, me avise. — Levantou-se para sair.
— Elias Baumer esteve aqui.
Sebastian virou-se para ela.
— Eu sei, fui eu que chamei.
— Não. Ele estava comigo na Teia. Aqui — disse indicando o quarto.
Sebastian aproximou-se dela lentamente com um semblante incrédulo e curioso.
— Você está me dizendo que Baumer entrou na Teia aqui com você? Que ele deliberadamente escolheu acessar a Teia daqui deste quarto?
— Sim e sim.
Sebastian gargalhou alto filtrando o ódio que estava sentindo. Depois respirou fundo, encarou a malkaviana e perguntou:
— Vocês já se conheciam antes?
— Não.
— Então como você sabia que era ele?
— Ele me buscou na Teia.
— Você me disse que não conseguia navegar pela Teia.
— Nós não, mas ele, pelo visto, consegue.
— Vocês quem?
— Eu e as vozes.
— Ela ouve vozes... — sussurrou para si mesmo controlando-se para não quebrar nada.
Sebastian esfregou as têmporas organizando todos os acontecimentos daquele dia. Chegou à conclusão de que Baumer estava tramando alguma coisa e decidiu que descobriria o que era. Além disso, precisava identificar e rastrear o tal arqueologista, pagar um espião para informar sobre Jack Sorridente e colocar um alerta sobre algum crente.
— Tô com fome — disse Karliah.
— Vou trazer algo para você.
— Quero sangue normal.
— O que eu tenho é o melhor.
— Não quero os bebês, quero normal.
— Vou providenciar, mademoiselle. Enquanto isso, tente acessar a Teia. — E saiu antes que ela pudesse falar ou contestar alguma coisa.
Trancou a porta da suíte, sentou-se à sua escrivaninha de novo, usou o telefone para pedir à sua secretária que mandasse sangue normal, e mandou vários e-mails para seus agentes com as novas missões. Assim que o primeiro agente voltasse com as informações do hospital, Sebastian começaria os preparativos para persuadir a diretoria ao seu favor. Depois faria o mesmo em todos os demais hospitais da Califórnia além das clínicas, asilos, casas de repouso, orfanatos e albergues. Estancaria todas as fontes de pacientes e cobaias que o Dr. Baumer pudesse ter. O malkaviano seria forçado a sair do estado ou submeter-se à sua autoridade e acessar a Teia como lhe havia proposto. Se optasse por sair, seria uma pena, mas não seria mais problema seu. Tendo pelo menos Karliah sob seu domínio, Sebastian ganharia de qualquer forma.
O telefone tocou, era a secretária avisando que um dos anarquistas estava no prédio e queria falar com ele.
— Sobre o quê? — perguntou o ventrue.
— Ele se recusa a dizer, senhor.
Sebastian suspeitava que tivesse a ver com a malkaviana, mas não tinha certeza. Ele tinha tantos esquemas em andamento que poderia ser sobre qualquer coisa. Achou interessante que eles tivessem mandado um agente para conversar em vez de comprarem uma briga como os selvagens que eram.
— Mande o Sheriff o acompanhar até aqui.