Fanfiction

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4 de Last Seed – 3E 423

A Bosmer acordou num pulo, acreditando que havia dormido demais. O mundo do lado de fora da janela estava tão escuro quanto a noite. Do térreo soava o tilintar comedido de vários talheres nas louças de barro. Sem se lavar ou trocar a armadura de couro por algo mais apropriado, a elfa desceu as escadas pulando vários degraus por vez.

Os hóspedes da taberna faziam o desjejum em silêncio, um em cada mesa, com cara de poucos amigos. Os braseiros estalavam animados iluminando o recinto.

— Bom dia — disse o taberneiro. — Vai querer o quê?

— Que horas são?

— Umas 9h da manhã.

— E essa escuridão toda?

— Eclipse — respondeu com um dar de ombros.

Kláxia riu. Um eclipse justamente no dia do aniversário de Devullian. A elfa checou seus pertences nos bolsos e certificou-se de que os dois ingressos estavam lá. Num gole só, absorveu uma caneca de suco de comberry, colocou duas moedas sobre o balcão e saiu.

Do lado de fora, no pátio oeste de Balmora, uma multidão de Khajiit estava ajoelhada dando graças ao sol eclipsado pela Masser. As fêmeas entoavam um cântico desesperado enquanto tocavam seus ventres freneticamente. Os machos se curvavam até encostar a cabeça no chão, em seguida jogavam os braços para o céu e rugiam.

A Bosmer entrou na Guilda dos Magos, pagou um teleporte para Sadrith Mora e seguiu para a torre do amigo em Tel Vampiris. Escalando o cogumelo por fora, a elfa estranhou não ter sido triturada por nenhum feitiço. Adentrou a torre pela janela do terraço e não encontrou ninguém. O interior era ainda mais escuro do que o mundo exterior e a decoração preta e vermelha não contribuía em nada. Por sorte, ela conseguia enxergar um pouco no escuro e começou a procurar por Devullian. Usando uma poção de levitação, entrou e saiu de vários túneis e não encontrou uma viva alma.

Pensou que ele talvez tivesse ido comemorar na taberna de Tel Aruhn, mas não era do feitio do Dunmer misturar-se com os forasteiros. Logo lembrou-se que o amigo havia lhe contado sobre uma masmorra no subterrâneo da torre. Kláxia encontrou a entrada atrás de uma falsa pilha de ovos de Kwama e seguiu pelo corredor escuro.

O som dos gemidos foi aumentando conforme ela se aproximava. Assim que chegou à câmara, a Bosmer encontrou o Dunmer suspenso em várias correntes sendo açoitado com chicotes, machadinhas, maças e até lanças, por várias mulheres Dunmeri com a metade superior de seus corpos vestida em blusas de látex que possuíam duas aberturas redondas para os seios que ficavam expostos. A metade inferior estava totalmente desnuda. Algumas delas tinham os pêlos pubianos tão longos, que estavam trançados e presos por fitas vermelhas. Não era possível ver seus rostos pois a blusa cobria completamente a cabeça. A Bosmer se perguntou como elas conseguiam respirar e, aproximando-se, notou que havia uma pequena abertura sobre a boca com uma gradinha de arames.

Pelos gemidos do Dunmer, não era possível saber se ele estava em êxtase ou desmaiando.

— Devullian — chamou a Bosmer.

As mulheres pararam, mas não se viraram para ela. Apenas pararam como se seus corpos tivessem perdido o espírito.

O Dunmer se balançou um pouco e lentamente as correntes giraram fazendo-o encarar a elfa.

— Ah... Querida Kláxia... Quer se juntar a nós?

— Agradeço o convite, mas passo. Vim te chamar para a gente comemorar seu aniversário.

— Já estou fazendo isso.

— Eu tenho uma idéia muito melhor.

— Duvido.

A elfa puxou os ingressos do bolso, balançou no ar e guardou novamente.

— Um evento em Dagon Fel – disse ela.

— Dispenso.

— Poxa! Vim até aqui para celebrar contigo e você me dispensa assim?!

— Dispenso o evento, não você, querida. Aliás, já lhe convidei para se juntar a nós.

— Planejei isso há tanto tempo. Desde o início do ano. E você vai me fazer essa desfeita?

— O aniversário é meu, querida.

— Eu sei, mas a gente nunca faz nada juntos.

O Dunmer fez um gesto com a cabeça em direção a uma mesa cheia de armas.

— Escolha uma e faremos algo juntos.

— Mas isso é tão chato, Devullian. Minha profissão é torturar, esfolar e matar pessoas. Era. Era minha profissão. Pensa comigo, a última coisa que um padeiro quer fazer em seu tempo livre é pão.

— Você acabou de dizer que não é mais padeira.

— Vamos para Dagon Fel, por favooooor! — pediu com as mãos juntas.

— Só se você me prometer que vai usar suas habilidades do tempo de seguidora de Sithis em mim.

— Isso é tão chato — disse ela bufando entediada.

— Então nada feito.

O Dunmer se balançou novamente e girou para o lado oposto, dando as costas para ela.

— E se eu ensinar para suas... amigas? Servas? Namoradas? Escravas? Possuídas? Desencarnadas? Necromantadas?

— Clientes.

— Clientes?!

— Temos um acordo complicado.

A elfa balançou a cabeça para se livrar da confusão.

— Mas e se eu ensinar para as suas clientes? Várias mãos aplicando a mesma técnica não seria melhor do que apenas uma?

— Nesse ponto você tem razão, querida. Tudo bem. Vou com você até Dagon Fel e depois você ensina tudo o que sabe para todas as minhas clientes.

Devullian se contorceu todo e conseguiu se desvencilhar das correntes que o suspendiam. As mulheres continuaram paradas como zumbis.

— Por que sua torre está desprotegida? — perguntou a Bosmer.

— Não está — disse ele enquanto regenerava seus ferimentos.

— Não encontrei armadilha nenhuma até aqui.

— Você não as encontrou porque a torre deixou você entrar. E só deixou porque eu a encantei assim. Como pretende nos levar para Dagon Fel?

A Bosmer sorriu sem graça.

— Você é um mago... — comentou ela deixando a idéia no ar.

Devullian suspirou.

— O aniversário é meu. Não deveria ficar por minha conta.

— Mas é tão mais fácil! A não ser que você queira caminhar comigo por horas até Sadrith Mora, depois pegar um barco até Dagon Fel por mais 12 horas...

— Vamos de teleporte mesmo.

Assim que terminou de vestir seus acessórios, o mago segurou a mão da ladina e teleportou os dois para uma rua perto do centro de Dagon Fel. Ele tapou o rosto com a mão se protegendo do sol forte que atingia as pedras claras do chão e refletia em seus olhos que já estavam desacostumados do dia.

Kláxia arrastou o amigo até uma taberna perto dali. Ao contrário do que se poderia pensar, apesar de ser manhã, o local estava quase cheio de pessoas que não eram bêbados ou viajantes, mas idosos de todas as raças.

A Bosmer entregou os ingressos ao Orc que vigiava a entrada e arrastou o Dunmer para uma mesa aos fundos, de onde eles poderiam observar o salão todo.

Na parte da frente, um palanque estava arrumado com vários caixotes fechados em frente a uma cortina que ocultava algo atrás do palco.

Uma Nord de meia-idade subiu no palanque e anunciou:

— Bem-vindos ao Oitavo Bingo VIP de Dagon Fel!

Alguns idosos urraram de emoção como um viciado em skooma sofrendo de abstinência. Outros aproveitaram os gritos para tossir secreções suspeitas em paninhos que foram guardados novamente em seus bolsos.

O semblante de Devullian se deformou numa emoção difícil de descrever que poderia conter todos os piores sentimentos da existência.

Kláxia aplaudia discretamente, mas com um sorrisinho de criança que visita um zoológico pela primeira vez.

Devullian encarou a amiga por um longo tempo enquanto respirava fundo para refrear o ímpeto de reduzi-la a pó.

— Você me tirou da minha sessão de bondage para me trazer a um Bingo, querida?

— Isso é tãããão legal! A gente pode ganhar um monte de coisa!

— Tipo o quê?

— Não sei. Os prêmios são secretos.

O Dunmer ficou parado, incrédulo, pensando por alguns segundos.

— Isso quer dizer que a gente pode ganhar desde um inhame das cinzas até um bebê traficado pelo mercado negro?

A Bosmer parou por um momento para a analisar a situação sob a nova perspectiva.

— Isso. Mas pense pelo lado positivo, você poderia dar uma boa vida para esse bebê que foi arrancado dos pais tão cruelmente.

— Seria uma situação horrorosa, querida. Jura que você não parou para pensar nisso antes de comprar esses ingressos?

— Eu não comprei os ingressos — revelou ela com um sorrisinho sem graça.

— Ganhou em alguma aposta?

— Roubei de um bebum em Caldera.

— Ahn... Por quê?

— Estava entediada e o bolso dele estava no meu campo de visão.

— Você disse que tinha planejado isso desde o início do ano.

— Metade disso é verdade. Desde o início do ano que estou planejando de a gente fazer algo juntos. Só que até ontem eu não havia conseguido pensar em nada interessante.

Devullian massageou as têmporas, chamou um garçom e mandou trazer quantas garrafas de sujamma coubessem sobre a mesa.

— Se vou participar de um Bingo ilegal, que seja anestesiado.

Uma jovem Dunmer passou por todas as mesas entregando as cartelas com números e um lápis. A Bosmer rapidamente agarrou as cartelas e deu uma reboladinha de emoção na cadeira.

— Pode colocar um feitiço de sorte nessas cartelas? — perguntou ela aos sussurros.

— Não — respondeu Devullian e voltou a esvaziar as garrafas de sujamma.

— Então depois não reclama se a gente ganhar um bebê!

A Nord de meia-idade começou a sortear os números, e os idosos se alvoroçaram checando e rabiscando as cartelas.

Devullian se questionava por que simplesmente não se teleportava dali de volta para Tel Vampiris e suas clientes. Então lembrou-se do acordo com a Bosmer: ela ensinaria suas técnicas de tortura às clientes dele. Devullian esperava que aquele sacrifício valesse a pena.

— Ganhamos! — gritou a Bosmer de repente.

Todos os idosos a encararam com desprezo. A jovem Dunmer de outrora tirou a cartela sorteada da mão dela, conferiu, acenou para a Nord no palco e fez um gesto para que Kláxia a seguisse.

— Nossa primeira ganhadora — disse a Nord abrindo a tampa de um caixote. — O seu prêmio é...

Kláxia subiu no palco empolgada. Os idosos se esticaram para ver o que eles poderiam ter ganhado. A jovem Dunmer enfiou outra cartela na mão de Kláxia. Devullian chamou o garçom que renovou as garrafas de sujamma.

— Uma suculenta num vasinho! — anunciou a Nord.

Os idosos deram de ombros, pois já cultivavam muitas suculentas importadas de Ald'ruhn. Kláxia deu uns pulinhos de felicidade, era a primeira vez que era sorteada para receber algo que não era uma facada. Voltou para a mesa, colocou a suculenta entre as garrafas e sorriu para o amigo.

— Viu? Eu não te falei que seria legal?

— Só se for para você, querida.

— Não se preocupe, o próximo prêmio é seu!

Devullian resmungou entre um gole e outro, e o Bingo continuou. Vários outros idosos ganharam enquanto o Dunmer continuava se anestesiando com as sujammas.

Assim que sua bexiga encheu demais, ele foi ao banheiro. Quando voltou, Kláxia estava com o sorriso louco de antes. Enfiou a cartela na mão dele e gritou empurrando o mago para o meio do salão:

— Ganhamos de novo!

A jovem Dunmer conferiu a cartela e guiou Devullian até o palco.

— Muito bem — disse a Nord de meia-idade —, nossos itens menores acabaram. Agora vamos passar para os prêmios maiores — disse e entregou uma coleira para ele.

Devullian sorriu.

— Bom, isso eu poderia usar com minhas clientes...

— Ah, o senhor tem uma loja? — perguntou a Nord. — O Pimpolho será muito útil então! Ele é adestrado e inteligente. Sabe fazer um cafezinho e assar batatas! Chame ele.

Devullian encarou a mulher com um olhar embriagado e se perguntou se a sujamma já havia começado a afetar seus sentidos.

— Pimpolho — chamou a Nord —, venha conhecer seu novo mestre.

A coleira se mexeu e de trás da cortina surgiu um Scamp vestido como um burocrata Imperial, de calça comprida, blusa social com gravata borboleta, um colete azul escuro e uma cartola da mesma cor.

Os idosos rosnaram e xingaram baixo. Pimpolho era exatamente o que eles queriam! Mas o mago anti-social o ganhou. A sorte definitivamente não estava com eles.

Alguns encararam Devullian analisando se poderiam nocauteá-lo, mas desistiram depois de notar que ele usava um anel da Grande Casa Telvanni. Ninguém ali era louco pelo Pimpolho a esse ponto. Seria melhor se resignar e pedir aos deuses que algo similar ao Scamp adestrado também estivesse escondido atrás da cortina.

A jovem Dunmer empurrou Devullian e o Pimpolho de volta para a mesa e o entregou outra cartela. O mago se sentou encarando o Scamp que parecia ter saído de um desfile de moda em Cyrodiil e concordou que seria melhor evitar sujammas pelo resto da vida porque aquele sonho já havia passado dos limites.

Kláxia tomou a cartela da mão dele enquanto sorria animada.

— Eu te falei que ia ser legal! Agora você tem um pet adestrado! De graça! Todo mundo vai te invejar, Devullão!

Pela mente do mago só passou a cena da chacota que se tornaria entre os outros Telvannis. Therana e Dratha tomando chá e rindo dele. "Tão assustador e maléfico, tem um servo chamado Pimpolho que ele ganhou num Bingo!", diriam elas entre uma gargalhada e outra.

O Arquimagistrado, Neloth e Fyr numa sauna. "Eu tinha até um certo respeito por Devullian", diria um deles, "mas agora só me resta o desprezo. Um Bingo? Como um velho Imperial? Pff!". E os outros dois concordariam.

— Vamos embora — disse ele segurando o pulso da Bosmer com muita força.

— Minha nossa! — reclamou ela tentando se soltar em vão. — Pra que isso?

Assim que notou que iriam se teleportar, ela tratou de agarrar a suculenta e o Scamp.

O último som que ouviram foi o gemido de consternação dos idosos.

Apareceram no saguão da torre em Tel Vampiris. Devullian se jogou numa poltrona e logo um servo apareceu lhe trazendo um chá. O Scamp pediu desculpas numa língua enrolada enquanto passava mal com o teleporte, quase vomitou sobre o tapete preto.

— Você bebeu muito — disse a Bosmer. — Mas pelo menos o evento valeu pelos prêmios!

— Nós temos um acordo — disse Devullian já se sentindo melhor com o chá. — Deixe seu conhecimento aqui e leve o Scamp.

— Jamais tirarei Pimpolho de você! É a cara do pai!

As mãos do mago brilharam levemente numa cor alaranjada.

— Venho visitar nosso filho todos os meses — disse ela segurando uma risada. — Posso lhe pagar uma pensão alimentícia se precisar.

— Se a pensão for uma sessão de bondage por mês, posso pensar no seu caso.

— O caso não é meu, querido. Pense em nosso filho! — falou como uma atriz de novela hammerfelliana e apontou para a criatura.

O Scamp se agachou para descansar um pouco. Seus olhos tentavam se acostumar com a escuridão.

— Não vou cuidar dele, querida.

Kláxia pensou por um momento e disse:

— Existia um aparelho de tortura na sede da Irmandade em Mournhold. Posso arranjar um jeito de trazer para você, se você criar o nosso Pimpolhinho. Além disso, mantenho minha parte do nosso acordo prévio.

— Como era esse aparelho? — perguntou interessado.

— Você só vai saber se aceitar criar o Pimpolho. Virei visitar todos os meses.

Devullian encarou o Scamp que agora, sob a escuridão, parecia um palhaço deformado. Não seria tão difícil criar um pet scamp que já viera adestrado. Só precisaria de uns feitiços de vigilância caso a criatura soubesse mais que sua aparência transparecia. Mas isso também não seria um problema pois a torre era encantada e inteligente. Além disso, possuía servos vivos e mortos.

— Tudo bem, querida. Seu conhecimento pelo Bingo, e o aparelho pelo Scamp.

Os dois apertaram as mãos e seguiram para a masmorra onde Kláxia desenhou em vários papéis, para as clientes, as torturas que aprendera em seus tempos de assassina na Irmandade Negra.

Em seguida se despediu de Devullian com a promessa de que lhe traria o tal aparelho.

4 de Last Seed – 3E 424

Kláxia vestiu o colar encantado com resistência total a vampirismo, também guardou no bolso uma poção de cura para a doença e pegou o pergaminho de teleporte que Devullian enviara junto com o convite para a festa. Do lado de fora, dois mercenários Orc já aguardavam com a cadeira de tortura que ela roubou da sede da Irmandade Sombria como havia prometido ao mago no aniversário do ano anterior.

Ela se aproximou dos Orcs e recitou as palavras do pergaminho. Os três foram transportados para o lado de fora de uma caverna na Montanha Vermelha. O chão tremia com o som da música alta que subia abafado do interior. O céu vespertino estava nublado, mas sem prenúncio de tempestade.

Na entrada, um cartaz avisava: "Peça permissão antes de morder".

— Se tem placa, tem história — comentou um dos Orcs.

— Eu é que não entro aí — disse o outro indo embora.

Kláxia encarou as unhas disfarçadamente enquanto falava:

— Entra sim. Tanto entra que vai levar essa cadeira e colocar aos pés do aniversariante. E vai fazer isso porque eu sei em qual acampamento você vive e quem entra na sua tenda na calada da noite e sai antes do amanhecer.

O primeiro Orc encarou o segundo com desconfiança. O medroso voltou com uma careta de ódio e ajudou o primeiro a carregar a cadeira.

Os três entraram e foram recebidos por uma explosão sensorial de Raw Black Metal, luzes vermelhas, lufadas de ar quente e odores alcoólicos, metálicos, frutais, florais e corporais também.

Seguiram pelo corredor até a primeira câmara onde uma banda tocava para uma multidão que se chocava uns contra os outros numa aparente dança tribal. Mulheres Dunmers vestidas com roupas pretas justas e adornadas com enfeites de espinhos metálicos rebolavam sensualmente dentro de gaiolas penduradas no teto.

Kláxia deu um pulo e se agarrou em uma das gaiolas para tentar avistar Devullian, mas o mago não estava ali. Um estranho homem carmesim com dois pares de chifres a encarou da gaiola ao lado e ergueu uma caneca num cumprimento. A elfa o ignorou e pulou no chão. Os três então se espremeram por entre a multidão seguindo para a próxima câmara.

Uma banda tocava mais baixo para que as pessoas nas mesas e nos bares pudessem conversar. De longe, ela avistou Fjorn bebendo com o estranho homem carmim no bar.

— Aposto que você não consegue beber Cama de Seda — disse o chifrudo para o Nord enquanto lhe empurrava uma mistura de conhaque cirodiílico e flin.

O guerreiro riu.

— Em Skyrim, quando eu era piá, meu pai fazia a gente tomar hidromel com ovo cru e sangue de urso pra gente crescer forte! Isso aí é fichinha.

E tomou em um único gole todo o conteúdo.

— Muito bem — disse o homem vermelho. — Algo um pouco mais forte, então. Que tal Coma Profundo, uma combinação perigosa de sujamma, greef, mazte e shein?

Assim que Fjorn pegou a caneca, uma Nord vampira seminua se aproximou dele.

— Oi, bonitão. Posso morder esse seu braço forte?

— Só se tu quiser perder os dentes, madame.

A vampira fez uma careta e saiu em busca de outra vítima. O guerreiro bebeu tudo de uma vez e, por mais que fosse resistente, seu corpo sentiu um pouco quando a bebida chegou no sangue. Uma leve tontura o acometeu por uns segundos.

— Bah, até que é boa, mas é fraquinha.

O homem sorriu.

— Uma surpresa então.

Kláxia se aproximou do Nord.

— Fjorn, viu Devullian?

— Falei com ele tem umas horas.

— E cadê ele?

— Tá com umas sanguessugas por aí.

Kláxia respirou fundo e saiu. Ao longe, ela ouviu o homem vermelho dizer:

— Morte Súbita. Uma combinação do Coma Profundo com conhaque Dagoth e com uma bebida muito comum entre os Khajiit. Prove.

Na câmara seguinte, apenas dois bardos tocavam baixo para que as pessoas também pudessem conversar. No palco ao centro, mulheres e homens Dunmers faziam um show sensual com pouca roupa.

Kláxia viu Augustus, já um pouco alterado, sentado num sofá num canto conversando com o homem vermelho e foi até lá.

— Não tem diferença, tudo é de comer — disse o homem chifrudo.

— É claro que tem diferença — retrucou Augustus. — Bolos levam líquen vermelho para fermentação, e pães levam levedura de hypha facia.

— E se colocar levedura de hypha facia no bolo?

Uma jovem vampira Breton chegou mais rápido e se jogou ao lado do Imperial.

— Você é tão cheiroso... Posso chupar seu sangue um pouquinho?

Augustus levantou a manga e ofereceu o braço.

— Só um pouco, senhorita, pois vou precisar desse sangue depois. — E para o estranho homem vermelho: — Como eu estava dizendo, se você colocar levedura de hypha facia na massa, será um pão e não um bolo!

— Pão, bolo... É tudo a mesma coisa.

— Com todo o respeito, meu senhor, o senhor nunca saiu de Vvardenfell, então não sabe que bolo é bolo e pão é pão.

— Bolo de pão — comentou o homem sobre a iguaria feita com restos de pão.

Augustus o encarou com sangue nos olhos. O homem sorriu.

— Pois bem, se é briga que o senhor quer, então é briga que o senhor vai ter.

O Imperial empurrou a vampira sobre o sofá, levantou-se um pouco cambaleante, arregaçou as mangas, ergueu os punhos, mostrou o esquerdo e com uma voz enrolada disse:

— Este é o Castrador. — Mostrou o direito e continuou: — E este é o Arrombador. Qual dos dois o senhor quer tomar primeiro?

— Augustus! — chamou Kláxia.

— Estou ocupado — disse sem olhar para a elfa.

— Você viu Devullian?

— Tá por aí. Agora, meu equivocado senhor, levante-se e permita-me dar-lhe uma boa sova.

Kláxia afastou-se abrindo caminho por entre a multidão que assistia ao show. O túnel para a câmara seguinte se dividia em cinco caminhos totalmente escuros.

— Ô, dona, a gente não pode deixar isso aqui e ir embora não? — perguntou o primeiro Orc.

— É, esse lugar é maligno — comentou o segundo olhando vultos imaginários.

— Um, eu paguei pra que vocês deixassem a cadeira aos pés dele. Dois, se forem embora antes de cumprirem o acordo, eu vou contar pra todos os acampamentos que vocês são dois bundas-moles cagões que tem medinho de escuro. Vocês serão renegados pra sempre.

Os dois Orcs rosnaram e seguraram firmemente a cadeira enquanto a elfa se decidia por qual caminho seguir. Analisando a entrada de cada uma das passagens ela notou que apenas uma continha resquícios do uso de magia e instrumentos mágicos. Deduziu que se houvessem armadilhas, já haviam sido desarmadas por alguém que passara por ali antes. Por precaução, pegou algumas pedras e arremessou para dentro do túnel. Como suspeitara, pelo ruído, elas se chocaram contra alguns objetos de metal e outras pedras, mas nada além disso aconteceu.

— É por aqui, venham.

Os dois Orcs hesitaram um pouco antes de segui-la. A Bosmer parou no meio do corredor e os encarou irritada, mas eles não conseguiam vê-la por causa da escuridão.

— Minha paciência não é infinita.

Os dois a seguiram. Caminharam bastante até chegarem a um salão sem música, mas com muitos gritos. No centro, em cima de um palco, alguns Dunmers eram açoitados por mulheres Argonianas totalmente nuas. A princípio Kláxia achou que estavam sendo castigados, mas quando um deles deixou escapar um pedido para que uma das Argonianas o açoitasse com mais força, a ladina entendeu que não deveria demorar muito ali.

Deu uma olhada na câmara que continha várias camas ao redor do palco, e avistou Devullian esparramado numa delas abraçado com várias Dunmers e falando com alguém vestido numa armadura daédrica que estava de pé e de costas.

Numa cama ao lado estava o estranho homem vermelho. Pimpolho, o scamp, aguardava quieto perto de um abajur vestido com seu terno com gravata borboleta e uma cartola.

— Isso ainda vai sair do controle — disse uma voz conhecida na armadura daédrica.

— Eu apenas proporcionei a liberdade — disse Devullian. — Como cada um vai usá-la não é da minha conta. E nem da sua, Telvarys.

— Estou avisando como amigo. Nós dois já passamos por muita coisa.

— Aprecio o gesto, mas é desnecessário. Ninguém aqui é menor de idade.

— Finalmente! — gritou a elfa. — Meus parabéns ao mago mais controverso de toda Morrowind, rivalizando até com o próprio Fyr que se clonou e casou consigo mesmo na forma de filhas, se eu me lembro bem dessa maluquice... Te desejo mais anos de vida que o próprio Fyr! E aqui está o presente que eu prometi ano passado.

Ela fez um gesto para os Orcs que deixaram a enorme cadeira ao lado da cama e saíram correndo.

— A cadeira de tortura usada pela Irmandade Sombria. Absolutamente não me responsabilizo por quem quer que venha tentar pegar de volta. Divirta-se!

— Que bom que cumpriu sua parte no acordo, querida. Assim eu não preciso ter trabalho de retalhar o scamp.

— A propósito, vou levá-lo de volta. Preciso de um assistente.

— É todo seu.

— Pimpolho, vem com a mamãe.

O scamp caminhou até ela e lhe entregou sua coleira.

— Você ainda mantém nosso filho assim? Como se fosse um bicho?

— Ele nunca reclamou.

— Pobrezinho — disse ela retirando a coleira dele. — Você é bonzinho, não é? Vai se comportar direitinho, não vai?

O scamp tirou o chapéu e a cumprimentou.

— Bom, eu já vou indo — disse Telvarys. — Passei só pra dar os parabéns. Tem muita coisa pra resolver em Tel Aruhn.

— Que os deuses lhe acompanhem, meu amigo — disse Devullian.

— A sua imunidade a festas me fascina — disse o homem vermelho para o arquimagistrado. — E me aborrece também.

— Entre na fila, Sanguine — respondeu o Altmer.

— Sanguine?! — gritou Kláxia dando um pulo.

As paredes tremeram com a gargalhada do Daedric Prince.

— E quanto a você, Bosmer, admiro sua obstinação para cumprir uma missão, mas também não gosto que ignore toda essa diversão ao seu redor.

— Já me diverti muito mandando algumas almas para o Oblivion — disse ela. — Você já deve ter recebido algumas.

— Oh, sim. Mas a diversão está aqui, em Nirn. Juntem-se a nós.

Conhecendo a fama de Sanguine, Kláxia e Telvarys se entreolharam. A Bosmer perguntou:

— Nós temos permissão para sair?

O Daedra Prince sorriu.

— Esta festa muito me satisfaz, então vou deixar que vocês saiam. Além disso, seus dois amigos me divertiram o suficiente.

— O que você fez com eles? — perguntou Telvarys.

Sanguine sorriu.

— Saiam antes que eu mude de idéia.

Telvarys teleportou os três para a entrada.

— Você procura Augustus — disse ele. — Eu vou atrás de Fjorn. Nos encontramos aqui.

Junto com Pimpolho, Kláxia foi até a câmara onde havia visto o Imperial pela última vez e o encontrou desmaiado, com profundas olheiras e uma palidez sinistra. Com a ajuda do scamp, arrastou-o com grande dificuldade pelas câmaras até a entrada.

— Fjorn bebeu muito, mas vai ficar bem — disse o arquimagistrado checando os sinais vitais do Nord também desmaiado.

— Nossa! Augustus tá muito pesado! — reclamou a elfa soltando o Imperial e se escorando na parede para recuperar as forças. — É essa comilança toda.

— Não é não.

O mago fez um gesto como se enxotasse um inseto. O efeito camaleônico desapareceu revelando a jovem Breton com os dentes cravados na coxa do Imperial.

— Saia de perto dele agora ou vou decorar o corredor com suas vísceras — disse o arquimagistrado apontando um dedo de onde saíam fagulhas elétricas.

A vampira se levantou com cara de poucos amigos e desafiou-o.

— Se fizer isso, vai ter que se entender com Devullian.

— Conheço ele há mais tempo do que você existe. Isso não será problema.

Resignada, a vampira fez uma careta e voltou para a festa.

— Vampirismo — disse o mago examinando o amigo.

— Eu tenho uma poção pra isso.

— Dê a ele.

Kláxia administrou a poção no Imperial e tapou-lhe o nariz para que ele engolisse. Augustus tossiu um pouco e em alguns minutos recuperou sua aparência normal apesar da ressaca.

— Tem como você nos deixar em Balmora? — perguntou a elfa.

— Sem problemas.

Telvarys teleportou a elfa e o scamp para a grande cidade, deixou Augustus aos cuidados do Culto Imperial em Ebonheart, e administrou uma poção em Fjorn para que o Nord acordasse antes de devolvê-lo à sua família. Por fim voltou a Tel Aruhn onde suas obrigações o aguardavam.

Já Devullian só reapareceu depois de alguns meses. Dizem os boatos que o mago e um homem vermelho foram os únicos sobreviventes da festa.

Sono Interrompido – Parte 1

Kláxia observava a chuva naquela tarde de verão, deitada na rede da varanda de sua casa, numa ilha a oeste de Seyda Neen. Não havia ninguém num raio de 500km e isso a relaxava de uma maneira quase proibida. A espuma, que levantava no mar assim que as gotas atingiam a água, desaparecia no ar com uma explosão molhada conforme outras gotas a acertavam. O som do bombardeio aquático a deixava sonolenta, como se voltasse a habitar um útero divino que a protegia dos males terrenos.

No entanto, como tudo que é bom acaba, seu sossego foi perturbado pelo ladino que brotou do ar bem na sua frente.

— Você é muito difícil de achar! — reclamou o Bosmer enquanto se recuperava do teleporte apoiando-se na pilastra e respirando fundo.

— Pelo visto, não o suficiente.

Faldrien deu uma gargalhada longa e exagerada. Só parou quando estava prestes a tossir.

— Rodei pelos Telvannis até encontrar um que aceitasse me mandar pra cá. E ainda tive que prometer favores.

— É porque eu avisei que destruiria todos os experimentos deles se mandassem alguém pra me perturbar.

Faldrien riu exageradamente de novo e se sentou na bancada que cercava a varanda.

— Como eu estava com saudade desse seu bom humor.

— Que é inexistente.

— Nah, não seja tão ranzinza consigo mesma. Seu espírito é muito jovial e todo mundo gosta de você.

Kláxia o encarou com um desdém tão forte que as rugas na testa quase atravessaram o crânio. Instintivamente ela tocou a cicatriz no tórax que Govarys lhe causara décadas antes.

— Tá com algum contrato nas costas? — perguntou ela.

— Eu? Que isso! Me dou bem com todo mundo — comentou com um sorriso quase angelical.

— O que você quer, Faldrien?

— Eu? Nada! Estava com saudades da minha amiga e quis visitar. Não posso?

— Não. Se eu quisesse visitas, teria convidado.

— Deixa disso, minha amiga. Todo mundo gosta de ter companhia.

— Você subestima meu tempo de serviço a Nocturnal.

— Essa louca não tá com nada! A moda agora é Molag Bal, tá todo mundo seguindo.

Kláxia recolheu suas rugas de desdém e apertou os olhos com desconfiança.

— Como diriam meus anciões, eu não sou todo mundo.

Faldrien riu forçadamente de novo, mas dessa vez durou pouco. Talvez até ele próprio já estivesse perdendo a paciência.

— Ah, mas de vez em quando é bom seguir umas modas, deixar a vida nos levar, aproveitar qualquer oportunidade que aparecer...

— Oportunidade de quê?

— Por exemplo, de fazer uma grana extra.

— Passo. Tenho dinheiro mais que suficiente.

Faldrien riu, mas de nervoso.

— Mas grana fácil assim, você nunca mais verá.

— Um, não existe grana fácil. Dois, não existe grana fácil. Três, não existe grana fácil.

— Com esse seu mindset tão low assim, me admira que tenha tantos assets. Nem a melhor das networkings agüenta um overload por tanto tempo.

Os globos oculares da elfa reviraram com tanta força nas órbitas que quase produziram eletricidade.

— Fale com Augustus, talvez ele esteja interessado.

Faldrien deu uma risada irritada.

— Ele vai querer cobrar impostos.

— Ah. Uma grana extra fácil e que não paga imposto. Nem na Guilda era assim. Sempre tinha, pelo menos, uma taxa de operação.

— Minha amiga, é por isso que tô te falando que esse negócio é muito bom. Não tem imposto e nem taxa nenhuma.

— Então por que você não faz isso?

— Mas eu já fiz! Ganhei uma nota preta!

— E por que veio compartilhar comigo ao invés de ficar quieto e fazer mais notas pretas?

— Porque você é minha amiga, viemos de Vallenwood e já pertencemos à mesma Guilda. Somos farinha do mesmo saco.

— Discordo quanto à farinha. Estou mais pra cinzas de ossos.

Faldrien forçou tanto a risada que acabou soando como deboche.

— E estou começando a discordar quanto à amizade — completou ela.

Faldrien esticou os lábios para sorrir, mas acabou apenas mostrando os dentes numa careta.

— Tá vendo? Esse seu bom humor pode lhe render muito mais do que rendeu pra mim!

— Passo de novo. Não preciso de mais dinheiro.

— Quanto você tem?

— Mais ou menos 1 milhão de drakes.

Faldrien riu e tossiu ao mesmo tempo.

— Se você investir isso tudo, vai receber 5 vezes mais!

— Meu dinheiro já está investido. Não sou louca de guardar uma quantia dessas debaixo do colchão.

— Mas não está investido nesse negócio que rende cinco vezes mais.

— Não está, e não preciso desse rendimento todo.

— Mas quem não ia querer ganhar cinco vezes o que já tem?

— Eu não quero.

Faldrien se levantou, esfregou o rosto, respirou fundo, andou de um lado para o outro na varanda e então a encarou.

— Em quê você investiu seu dinheiro?

— Mercadores.

— Quanto eles te pagam de interest?

— De que?

— De juros. Quanto é o juros?

— Nenhum. O dinheiro só circula e eu retiro com eles quando quiser. Possuem guardas que eu não pago, e produtos com os quais eu não me importo. Assim tenho dinheiro sempre que eu quiser, em qualquer lugar de Morrowind sem me preocupar com ladrões.

— O benefício não vale a pena. Você está perdendo dinheiro.

— Não mesmo.

— É claro que está! Poderia ter 5 milhões, mas está se apegando a 1!

— Deixar de ganhar é diferente de perder.

— Todo dinheiro que a gente deixa de ganhar, a gente está perdendo, porque sempre existe um gasto futuro.

— Se o gasto é futuro, então ele não existe.

— Esquece a semântica! Pensa que você pode ficar mais rica do que é agora!

— Não preciso.

— Claro, não precisa, mas pode e deveria!

— Na sua cabeça.

— Na minha e na de todo mundo.

— Que "todo mundo" é esse com quem você tá se metendo, Faldrien?

O elfo olhou para o céu que já prenunciava a noite.

— Está ficando escuro. Não podemos conversar lá dentro? Que tal você me oferecer uma bebida?

Irritada, Kláxia se levantou e os dois entraram. Na sala de estar, havia um barzinho num canto com sujamma, shein, mazte, greef, flin, conhaque cirodiílico, conhaque vintage, conhaque dagoth, skooma, cerveja e hidromel. Os dois últimos de Skyrim. Do outro lado, uma escrivaninha onde ela escrevia cartas e seu diário. Sobre um papel descansava seu selo de metal. Faldrien olhou de relance para o objeto enquanto entrava atrás da anfitriã.

Kláxia acendeu os braseiros deixando a sala bastante iluminada. Indicou uma das duas poltronas no centro para que o Bosmer se sentasse, parou em frente ao bar e pegou uma caneca.

— Vai querer o quê?

— Skooma.

Kláxia serviu o drink. Faldrien sorveu num único gole e pediu outro. A elfa o encarou irritada e preparou o segundo. O Bosmer bebeu de uma vez e pediu mais um. Ela bufou e preparou o terceiro. Ele engoliu tão rápido quanto os anteriores e pediu o quarto.

— Já chega, né?

Faldrien sorriu como uma criança que tenta se fazer de fofinha.

— Mais unzinho, por favor — pediu com as mãos juntas.

Ela respirou fundo, caminhou até o bar e ouviu um barulho de móvel quebrando e porta batendo. Num único movimento, deixou a louça cair, agarrou suas adagas e virou-se. Faldrien não estava mais na sala. Sua escrivaninha estava fora do lugar e o selo havia sumido.

— Maldito elfo desgraçado! — rosnou com toda a sua raiva. — Seu destino me pertence agora, Faldrien Alvalorn!

Ela sabia que ele iria falsificar cartas em seu nome e passar por todos os mercadores retirando o dinheiro dela. Ele poderia ir tanto para o norte seguindo por Balmora, ou pelo Sullon passando por Vivec e Ebonheart. No entanto, esta última via o levaria para território Telvanni onde poderia ficar encurralado pelos amigos em comum. Seria melhor seguir por Balmora para o norte e depois pagar alguém para resgatar o dinheiro das cidades do sul. Kláxia então optou por seguir para o Sullon e resgatar alguma coisa antes que o ladino mandasse alguém.

Ela também sabia que seu dinheiro estava praticamente todo perdido. Contudo, precisava de somente 30 mil drakes...

... Para contratar a Irmandade Sombria.

Sono Interrompido – Parte 2 (final)

Na manhã do dia seguinte, Kláxia vestiu sua armadura de couro completa, pegou suas duas adagas de vidro mais afiadas, algumas poções e venenos, o pouco dinheiro que tinha, uma algibeira de couro impermeável com seu diário dentro, e foi de canoa para Seyda Neen. De lá, pagou um silt strider para Vivec e foi direto conversar com Baissa, a Khajiit mercadora com quem tinha contrato.

— Então a Bosmer quer os 2 mil drakes que ela deixou investido com Baissa. Khajiit precisa de algumas horas para coletar todas as moedas. Talvez fosse melhor a Bosmer levar os 2 mil em mercadoria?

— Pra aonde eu vou só se lida com dinheiro vivo.

— Baissa vai fazer o que pode. Espere sentada ou vá passear.

— Eu espero. — E se sentou num banco em frente à barraca da Khajiit.

Seis horas depois, a mercadora voltou com uma sacola de pano cheia de moedas.

— Aí está. A Bosmer pode contar se quiser.

Kláxia agradeceu e passou uma meia hora contando. Constatando que estava tudo certo, pagou uma gôndola para Ebonheart e foi conversar com Agning, um taberneiro.

— Quatro mil drakes? Isso vai demorar algumas horas, Kláxia.

— Não tem problema, eu espero.

— Não quer alugar um quarto e comer alguma coisa?

A elfa aceitou, não ia gastar tanto assim e podia usar do pouco que trouxera consigo de sua casa. Além disso, estava com fome e queria cochilar antes de ir para Suran.

Mais rápido do que a Khajiit, o Nord bateu na porta umas três horas depois levando uma sacola de pano com as moedas. Sentou-se numa cadeira e pediu para ela contar na frente dele. Estava tudo certo. Kláxia agradeceu, pegou suas coisas, pagou uma gôndola de volta para Vivec e de lá pagou um silt strider para Suran.

Chegou no cair da noite e foi para a Casa das Delícias Terrenas da Desele.

— Não somos uma taberna. Se quiser um quarto, vai ter que pagar pela companhia.

Kláxia sorriu cansada e perguntou se uma tal de Roxanny ainda trabalhava lá. Desele confirmou e chamou a moça. Os seios desceram as escadas primeiro e depois a Breton apareceu. Realmente os boatos estavam certos. A elfa sorriu sem graça e pagou pela noite toda com a dançarina.

Chegando no quarto, a Bosmer explicou que precisava dormir, pois tinha uns negócios para tratar de manhã cedo. A moça fez uma careta de desaprovação, mas como sua comissão havia sido paga, acabou dando de ombros.

— Pode ser de conchinha? Pelo menos pra termos o que fazer — pediu Roxanny.

— Tudo bem — respondeu a elfa meio sem jeito.

As duas deitaram na cama de lado e Kláxia abraçou a dançarina. Suas sacolas de pano estavam bem protegidas dentro do torso da armadura na parte da frente. Parecia que a elfa era mais dotada do que realmente era.

Assim que os pássaros começaram a cantar, a Bosmer acordou, verificou se todos os seus pertences ainda estavam intocados e dirigiu-se para o mercado de Suran.

Passou em quatro mercadores e pediu a retirada de 6 mil drakes de cada um. Ficou quase o dia todo sentada à beira do lago debaixo de uma árvore aguardando.

À tarde, eles a chamaram para conferir as quantias. Como estava tudo certo, Kláxia pagou uma refeição e comprou uma tocha com o que lhe sobrara e seguiu durante a noite para Ald Sotha.

Chegou à meia-noite e apagou a tocha. Esperou até que seus olhos acostumassem com a escuridão e esgueirou-se até a entrada das ruínas que ficava submersa. Mergulhou e nadou alguns metros. Meia dúzia de slaughterfish morderam sua armadura e ficaram agarrados. Ela atravessou o portal da ruína e alcançou alguns degraus saindo da água. Matou os slaughterfish que estavam em sua armadura e jogou as carcaças de volta na água. O cheiro do sangue atraiu dezenas deles que devoraram a carne em segundos. A Bosmer ficou parada em silêncio na entrada apenas ouvindo os ruídos do interior.

No primeiro andar havia pelo menos cinco pessoas a julgar pelo barulho das botas e um falatório baixo; no segundo andar havia quatro pessoas ou entidades corpóreas; mas no último andar ela não conseguiu ouvir direito.

Kláxia guardou suas adagas e pegou a sacola de pano com 2 mil drakes. Caminhou lentamente até o centro do primeiro piso. Um Dremora a avistou e deu o alarme. Ela correu para a sala de onde tinha ouvido o falatório. Dois cultistas correram em sua direção com armas em punho. Ela desviou dos dois, escalou uma das pilatras, sacudiu a sacola com as moedas e gritou que tinha um contrato para a Irmandade Sombria e que precisava falar com Severa Magia.

Os cultistas desdenharam da quantidade de dinheiro e continuaram com uma postura hostil, mas não tentaram atacá-la no topo da pilastra. Os Dremoras também resolveram aguardar.

— Falem com ela, com Severa Magia. Eu tenho um contrato pra Irmandade e tenho muito mais dinheiro comigo, no meu corpo.

— Nada nos impede de matá-la e ficar com o dinheiro — disse um dos cultistas.

— Eu avisei a algumas pessoas que ia pagar um contrato — mentiu. — Vai ser interessante ver a reputação da Irmandade Sombria despencar quando potenciais contratantes souberem que são vítimas de latrocínio pelos membros. A Morag Tong vai tomar conta de tudo e vocês serão escorraçados de Morrowind. A Guilda dos Ladrões terá uma reputação melhor que a de vocês.

Um terceiro cultista havia acabado de chegar e cochichou com os outros dois por uns minutos.

— Desça daí, vamos levá-la até Magia — respondeu o primeiro.

— E quanto a eles? — fez um gesto em direção aos Dremoras.

— Eles vão fazer o que fizermos. Se você aprontar, eles vão te destroçar.

Kláxia deu um sorriso debochado e desceu da pilastra. Guardou a sacola de pano dentro da armadura e caminhou lentamente até os três cultistas. O primeiro seguiu na frente, os outros dois atrás, e os Dremoras voltaram para a sala central.

Os quatro desceram alguns lances de escada e chegaram ao segundo piso onde mais dois Dremoras acompanhavam Severa Magia.

O salão estava iluminado com poucos braseiros, deixando o ambiente mais escuro do que precisava. Perto de um deles, havia um colchonete no chão, uma mesa com uma cadeira, um baú pequeno, alguns objetos pessoais e uma garrafa de conhaque dagoth.

Os dois Dremoras se aproximaram com lanças em punho, mas aguardaram por algum sinal de hostilidade.

— Esta elfa diz que tem um contrato para a Irmandade — disse o cultista que liderou o grupo.

A Matrona Noturna se aproximou e examinou a Bosmer de cima a baixo.

— Kláxia Baalivantrar.

— Severa Magia.

— Cara de pau, no mínimo.

— Necessidade, na verdade.

— Desertora.

— Cliente agora. O mundo dá voltas.

Severa a encarou como se tentasse ler sua alma. Por fim, decidiu que estava mais curiosa pela proposta do que com raiva o suficiente para vingar a Irmandade.

— Contrato? — perguntou andando em direção à mesa e se sentando para terminar de beber seu conhaque dagoth.

— Faldrien Alvalorn, Bosmer de Vallenwood, Mestre da Guilda dos Ladrões.

Os cultistas se entreolharam, mas não era incomum colocar contratos em líderes de facções.

— Suponho que você tenha dinheiro.

— Trinta mil drakes.

Severa sorriu.

— Pela importância do contrato e pelo valor disponível, nós podemos mandar um Exterminador por vez até que o alvo seja executado. Mas não podemos mandar todos os Assassinos de uma vez, como aconteceu num contrato há muitos anos. Portanto, você pode demorar pra receber a notícia.

Kláxia sorriu.

— Ou ele morre, ou vive para sempre sendo atormentado por assassinos em suas noites de sono. Perfeito.

— Mais alguma coisa? — perguntou Severa.

— Sim. Quero acrescentar um detalhe.

A Matrona Noturna sorriu aguardando. A elfa continuou.

— Quero receber a cabeça e as duas mãos dele num mesmo pacote.

— Razoável. Só isso?

— Sim.

— Um, você estará protegida de uma perseguição da Irmandade apenas enquanto o contrato estiver aberto. Dois, se você morrer pelas mãos de outrem ou pelas do alvo, nós ainda vamos executar o contrato. Três, não cancelamos contratos. Quatro, se outro contratante marcou o mesmo alvo antes que você, a prioridade na evidência de execução é dele. Cinco, não roubamos um alvo e não somos correio, se precisar recuperar um item, contrate a Guilda dos Ladrões.

— Conheço as regras e concordo com elas.

— Estamos de acordo então?

— Sim.

Kláxia tirou todas as sacolas de pano da armadura e colocou sobre a mesa. Severa fez um gesto para que os cultistas contassem. Depois de quase uma hora, eles confirmaram que havia 30 mil drakes.

Severa tirou do baú folhas de papel em branco, tinta, pena, cera e um selo. Redigiu 3 contratos: um que ficaria com ela, um igual com Kláxia e um terceiro sem o nome da elfa que seria entregue para um subalterno da Irmandade. Mostrou os três para a Bosmer ler e depois os selou. A ladina guardou o seu dentro da algibeira de couro impermeável.

Severa Magia se levantou com o conhaque na mão, posicionou-se na frente do braseiro, e falou em voz alta para o além:

— Que nosso Pavoroso Pai, Padomay, o Criador Original, seja testemunha do contrato que agora jaz sobre o Bosmer de Vallenwood e Mestre da Guilda dos Ladrões, Faldrien Alvalorn! Que sua alma seja recebida no Vazio absoluto da existência. Hail, Sithis!

— Hail, Sithis! — disseram os cultistas em coro seguidos pela elfa.

Severa derramou um pouco de conhaque no fogo fazendo a chama aumentar e estalar.

— Pode ir agora.

Kláxia saiu sem dizer nada e seguiu viagem a pé para as terras Telvanni.

Chá Natalino 🎄 – 3E 424

Kláxia chegou a Tel Vampiris pela manhã. O céu estava nublado e o clima abafado. Alguns empregados varriam o chão, tiravam o lixo, cuidavam do jardim e transportavam alguns animais para a caverna da vila.

Ela se aproximou de um dos guardas e pediu para ser anunciada a Devullian. Depois de uns minutos, o mago veio recebê-la.

— Por que não entrou logo, querida? Pra que essa formalidade toda?

— Eu não avisei que vinha.

— E por que veio? Não estou reclamando, apenas curioso.

— É fim de ano, vim tomar um chá com você e colocar as fofocas em dia.

Devullian sorriu e chamou-a para entrar. Na sala de visitas, mandou alguns empregados prepararem uma mesa de chá. Mesmo com vários braseiros e tochas acesas, o local era escuro por conta da decoração preta e vermelha que o mago tanto gostava. O cômodo no interior do cogumelo gigante era arredondado, com quatro sofás vermelhos ao redor de uma mesinha de centro preta. Algumas plantas erguiam-se dos vasos, outras se espalhavam pelas paredes e algumas escorriam do teto. Quase não dava para ver as flores coloridas por causa do escuro da decoração.

Devullian sentou-se em um sofá e Kláxia no outro ao lado dele.

— E o Pimpolho? — perguntou o mago.

— Está ajudando uma amiga curandeira.

O mago sorriu sabendo que tinha mais alguma coisa que ela queria contar, algo mais importante. Os empregados serviram uma mesa de chá farta com quase todos os tipos de guloseimas. Devullian serviu chá para a Bosmer e preparou o seu.

— E aí, como estão as coisas? — perguntou ele.

— Faldrien roubou meu selo.

Devullian a encarou espantado por um segundo.

— E por que você não o esquartejou, querida?

— O miserável tomou 3 skoomas, quando eu vi, já tinha sumido.

— Ele entornou 3 skoomas na sua frente e você não achou nem um pouco suspeito?

— Fui eu que servi as skoomas...

— Ele te pediu 3 doses de skooma e você não suspeitou de nada?

— Não. Eu só queria que ele fosse embora.

— Tortura tá aí é pra isso.

— Eu tava tranqüila na minha rede, Devullian, não tava pensando em violência...

— Vai fazer o que agora?

— Já paguei um contrato pra ele na Irmandade. Qualquer resquício de amizade acabou.

— É o mínimo.

— Mas gastei meu dinheiro todo nisso, e como Faldrien roubou o restante, agora vou ter que voltar a trabalhar.

— Faz parte.

— Estou cogitando aprender magia pra colocar um feitiço de invisibilidade nas coisas importantes. Faldrien sabe onde eu moro e eu não quero ter que me mudar. Mas a Guilda dos Magos cobra alguns rins pelas aulas.

— Por que não pediu a Telvarys? Vai ser muito melhor aprender magia na Telvanni do que naquela Guilda de palhaços de festa infantil.

— Não tenho mais contato com ele.

— Vocês brigaram?

— Não sei o que aconteceu direito. Parece que foi tudo coisa da minha cabeça, um grande delírio.

Devullian deu uma gargalhada que Kláxia nunca havia ouvido antes. Pensava até que o mago fosse incapaz de rir.

— Não vai me dizer que você se apaixonou feito uma adolescente?

Kláxia rosnou.

— Achei que depois de adulta essas coisas não aconteciam mais — reclamou ela.

— Você se apaixonou, ele te deu um fora e você ficou com dor de cotovelo ouvindo aquelas músicas cafonas de Cyrodiil?

— Antes fosse. Na verdade foi pior.

— O que houve? — perguntou e começou a preparar bem lentamente o lanche para que desse tempo de montar e comer até que ela terminasse de contar a história toda.

Kláxia apoiou a xícara no colo e encarou o vazio.

— Foi uma paixão que veio do nada. Eu não estava esperando por isso. Guardei pra mim pois já havia tido problemas antes, com Govarys — disse e tocou a cicatriz no tórax. — Não sei dizer como, mas um dia ele me pediu em casamento.

— Telvarys? Telvarys te pediu em casamento? — perguntou incrédulo.

— É. Eu cheguei à conclusão de que tudo aquilo foi um delírio meu. Nada aconteceu de verdade, eu deveria estar sob efeito da skooma.

— E o que aconteceu?

— Eu aceitei. Estava feliz. Não. Feliz não. Estava eufórica. Agitada. Entusiasmada. E então as coisas degringolaram.

— Como?

Ela respirou fundo bem devagar juntando as peças que compunham o quadro do passado.

— Era só eu que iniciava as conversas, era só eu que tinha assunto, era só eu que procurava coisas interessantes pra compartilhar com ele, que me virava do avesso pra contar piadas e fazê-lo rir, que inventava assuntos só pra ter o que conversar com ele. Mas ele nunca investiu um fiapo do que eu investi. Ele nunca iniciava as conversas, ele nunca tinha assunto, ele nunca procurava coisas que talvez eu achasse interessante pra compartilhar comigo, ele nunca se esforçou pra me fazer rir, ele nunca inventou pretextos só pra poder ficar conversando comigo. Nada. Ele nunca investiu naquele pseudo-relacionamento. E quando eu reclamava, ele ficava irritado, e era eu que tinha que pedir desculpas por querer ter a atenção dele, nunca foi ele a me pedir desculpas pela indiferença e pela falta de responsabilidade afetiva na mini-relação. Não fui eu que o pedi em casamento. Não fui eu que dei falsas esperanças. Não fui eu que alimentei a ilusão. Meu erro foi ter acreditado nele. Foi ter insistido pra ser tratada com alguma consideração por uma pessoa que só dizia o que dizia por tédio ou diversão. Talvez pra se sentir melhor com o próprio ego. Às minhas custas.

Ela parou pra respirar e tomar um gole de chá. Devullian mastigava interessado.

— Pra testar se eu estava louca, fiquei umas semanas sem entrar em contato. Ele só apareceu pra falar comigo num feriado pra me desejar felicidades como se eu fosse uma conhecida qualquer. Eu me aborreci, reclamei e ele achou ruim. Veio passivo-agressivamente dizer "te mandei um oi, desculpa se não foi suficiente pra ti". Meu sangue ferveu, Devullian.

— Também pudera, né.

— Me afastei dele. Só que eu não agüentei muito tempo e voltei me rastejando e me humilhando por ele. É claro que ele ficou muito satisfeito. Mas eu não estava mais eufórica e entusiasmada. Não. Eu estava triste, infeliz e cansada. Não estava gostando daquele arranjo. Só ele ficava com a parte boa da micro-relação que era receber atenção total, ter os sentimentos dele levados em consideração o tempo todo, decidir me ignorar quando eu não estava o agradando, ser entretido sempre que quisesse, e receber conforto emocional sem nunca precisar retribuir. Enquanto eu só ficava com o lado ruim da relação: todas as responsabilidades e nenhuma recompensa. Era como se eu fosse uma escrava afetiva, um cachorro que ele estava adestrando. Eu desmoronei, lógico, ninguém agüentaria uma nano-relação dessas por muito tempo. Mas teve uma outra coisa que contribuiu para minha ruína psicológica...

— O quê? — perguntou Devullian já preparando um segundo lanche.

— Há muito tempo eu tive um casal de amigos Bretons, Sebainsten e Antonnia Amellose, do qual me afastei por discussões bobas com ele e porque ela estava ficando cada vez mais difícil de conviver.

— Como assim?

— Ela tinha mania de perseguição. Eu sempre me desdobrava para dar atenção a ela, mas se eu demorasse um minuto que fosse, por qualquer motivo, ela reclamava que eu não gostava mais dela, que estava conspirando contra ela junto com o irmão (que ela sempre detestou), que eu estava diferente, que eu não era a mesma de antes e mil e uma observações sem pé nem cabeça. Bastava que eu me ausentasse para ir ao banheiro que as reclamações começavam. Eu nunca nem ousei ficar uma semana sem falar com ela. Só que isso foi me desgastando. Antes, nos primeiros 10 anos de amizade, eu achava tudo muito divertido e engraçado, mas depois eu fui cansando...

— Agüentou muito, querida e ainda foi simpática.

— Quando as discussões com o Sebainsten começaram, eu resolvi me afastar dos dois. Muitos anos se passaram, senti saudades e fui procurá-la. Ela foi bastante agressiva comigo, disse que não tinha amigos e que era pra eu ir embora. Insisti, disse pra ela que apesar de tudo, eu ainda gostava dela e queria que fosse feliz. Ela não acreditou, me acusou de falsidade e mentira, mas continuei insistindo porque percebi que ela não estava bem. Aos poucos ela me aceitou de volta, mas ainda bastante agressiva. Em um determinado momento, ela me disse "assim que meus pets morrerem, eu vou me matar, já tenho tudo planejado".

Devullian soltou um ruído de espanto.

— E o que você fez?

— Na hora, eu congelei. Depois, pesquisando em alguns livros, vi que deveria contar a um parente próximo que ela tinha planos de suicídio. Engoli meu orgulho e fui atrás do Sebainsten. Não usei a palavra "suicídio", mas deixei subentendido que ela poderia machucar a si mesma. Foi então que ele me contou o que eu não esperava.

— O quê? — perguntou Devullian preparando um terceiro lanche só de doces.

— Sebainsten contou que há muito tempo ela vinha piorando e que nada do que ele fazia dava jeito. Que toda vez que ele tentava convencê-la a procurar um mago, ela ficava muito agressiva e fazia da vida dele um inferno. Deu a entender que ela o agredia fisicamente. Contou que ela saiu do emprego porque alegava que os colegas ficavam rindo dela pelas costas e que todo mundo a odiava. Ele havia conhecido todos do trabalho, e eles gostavam dela. Era tudo paranóia. Disse que gostaria que ela voltasse a falar com o irmão e a amiga de infância, mas que ela dizia que os dois estavam tramando contra ela. E então contou que ele próprio já havia tentado se matar duas vezes e fazia tratamento com um mago. Eu fiquei me sentindo mal, pois não sabia de nada daquilo. Pedi desculpas por aborrecê-lo, contei que não guardava rancores das discussões, e ele disse que também não guardava rancor. Passou-se alguns dias, Antonnia veio falar comigo cheia de ódio.

Kláxia parou pra beber um pouco do chá pois já estava ficando rouca.

— Disse quase espumando de raiva "você não tinha que ter falado nada pro Sebainsten! Você sabe que ele tem o mesmo problema que eu e foi se meter num assunto que não é da sua conta! Muito ridícula você, reaparecer depois desse tempo todo, depois de ter brigado com ele por babaquice sua, pra vir se meter na nossa vida fingindo que se preocupa! Eu não quero ajuda, se quisesse, teria pedido! E você, fique de boca caladinha e bem longe do Sebainsten, não vai contar nada disso pra ele, ele já tá passando mal, se ele se matar, a culpa vai ser sua!".

Um silêncio mórbido preencheu a torre, nem os insetos se atreveram a dar demonstrações de vitalidade. Quase num sussurro, Kláxia continuou:

— Eu entrei em pânico. Contatei o Sebainsten e pedi desculpas por atormentá-lo com aquele assunto e disse que se precisasse de alguém pra conversar, eu estava ali. Ele agradeceu, disse que eu não precisava me preocupar porque eu havia feito a coisa certa. Isso não me tranqüilizou. Eu fiquei 3 dias passando mal de tanto chorar, me sentindo culpada de ter ido colocar ainda mais peso nas costas dele. Quando eu melhorei um pouco, queria uma opinião de alguém de fora da situação, então fui falar com Telvarys. O que eu não sabia é que ele tinha ouvido um comentário que eu havia feito uns dias antes sobre estar sofrendo uma desilusão amorosa. Então antes que eu pudesse contar o que havia acontecido, Telvarys me disse que estava tudo acabado porque ele não queria ficar se aborrecendo comigo.

— Tsk, tsk, tsk...

— Meu mundo desabou, Devullian.

— Era de se esperar, querida.

— Eu estava esgotada, não tinha forças pra mais nada, então eu larguei tudo e voltei pra minha ilha perto de Seyda Neen e fiquei por lá uns 3 meses. É claro que, antes de eu ir embora, eu tive que me desculpar com o princesinho do arquimagistrado, porque a responsabilidade nunca foi igualitária. Ele sempre agiu como se fosse um santo, como se sempre estivesse certo, como se todos os males da microscópica relação fossem causados única e exclusivamente por mim. Como se a imaturidade, irresponsabilidade, falta de compromisso e consideração da parte dele, e o ego gigantesco não tivessem contribuído para esse estrago todo. Mas é claro que, pra ele, eu sou a vilã, eu não fui compreensiva o suficiente, eu não pensei no lado dele--

Kláxia se interrompeu para gargalhar da própria desgraça.

— ... Eu não tive empatia por ele, eu não tive consideração pelos sentimentos dele...

Ela riu de novo.

— ... Enfim, eu sozinha fui uma monstra na vida dele pior do que Molag Bal e Mehrunes Dagon juntos. Pobre São Telvarys, tão injustiçado, tão maltratado, tão escorraçado pela vilanesca Bosmer que agia como um cachorro caramelo...

Ela jogou a mão na testa e virou a cabeça para trás como as atrizes hammerfellianas faziam.

— Ó, céus! Ó, vida! Pobre São Telvarys! Que a justiça seja feita e um raio caia sobre a minha cabeça!

Os dois se calaram para ouvir, mas nenhum raio caiu. Eles riram.

— Que drama cirodiílico, querida. Mas você melhorou, não é?

— Eu passei esses últimos dois anos esperando que magicamente Telvarys fosse reconhecer a parte dele na catástrofe do milimétrico relacionamento e vir me procurar dizendo que pensou muito a respeito de tudo, que reconhecia suas más atitudes, que estaria disposto a melhorar e consertar seus erros, que me desculpava e que também me pedia desculpas, e se poderíamos pelo menos voltar a ser amigos, mas ainda bem que eu não fiquei esperando em pé. O princeso ainda deve estar achando que sou eu que tenho o dever de me arrastar até ele como um cadáver reanimado, sem um pingo de amor-próprio, implorando pelo perdão dele e pra voltar a servi-lo como uma escrava argoniana. Mas eu aproveitei esse tempo todo pra pensar no que eu realmente quero da minha vida, e cheguei à conclusão que eu quero alguém igual a mim. Que esteja disposto a me dar tudo o que eu dei a ele e não foi o suficiente. Que faça por mim tudo o que eu fiz por ele. Que se esforce por mim como eu me esforcei por ele. Nós dois sabemos que ele nunca será essa pessoa, porque ele vai continuar agindo como um moleque mimado que quer todas as recompensas de um relacionamento sem nenhum trabalho ou aborrecimento. E não existe nada nesse mundo que só tenha lado bom e nenhum lado ruim. Foi por isso que eu nunca fui atrás dele e nem vou. Já fiz demais.

Devullian assentiu com a cabeça enquanto tomava um chá para ajudar na digestão.

— O que ainda me deixa com muita raiva é que toda essa catástrofe emocional não teve propósito nenhum. Eu nunca tive valor pra ele. Isso tudo foi só um passatempo porque ele estava entediado e com o ego ferido por causa da ex. Assim que eu fui embora, ele já arranjou outras pra ficarem orbitando ele. Eu fui apenas uma gota num oceano de gente insignificante.

— Ah. Oi. Terminou? — disse Devullian para uma figura sombria na porta atrás de Kláxia.

A elfa se virou para cumprimentar o visitante e deu de cara com o Dunmer.

— Oi — disse ela.

— Oi — respondeu ele.

— Sullon e eu estamos trabalhando num experimento — disse Devullian tentando explicar o clima constrangedor. — Terminou?

— Não.

Kláxia virou pra frente sem ter o que dizer.

— Está com fome? — perguntou Devullian.

— Não.

— Venha comer — ordenou o anfitrião.

Sullon obedeceu e se sentou na poltrona de frente para Kláxia. Ela permaneceu de cabeça baixa encarando a xícara de chá no colo. Devullian preparou um lanche e entregou ao Nerevarine.

— Vou buscar mais biscoitos — disse o anfitrião já saindo.

— Tudo bem? — perguntou a elfa.

— Sim — respondeu entre uma mordida e outra.

— E a vida, como vai?

— Movimentada.

Ela ficou em silêncio bebendo o restante do chá. Os ruídos de digestão eram a única coisa que se ouvia. Mesmo monossilábico, o Dunmer a encarava como se estivesse aguardando para dar o bote. Já a Bosmer, evitava encará-lo.

— Você tá com raiva de mim? — perguntou ela sem olhar para ele.

Sullon riu com desdém.

— Houve um momento na minha vida em que eu sofri muito por você — disse. — Porque você era uma das pessoas mais importantes pra mim. Só que depois desses anos todos, eu aprendi a viver sem você. E agora--

— Eu sou só uma gota num oceano? — perguntou ela interrompendo e encarando-o nos olhos.

— Nem isso — disse rindo um tanto irritado. — Desculpa, mas eu nem lembro mais que você existe. Muita coisa tem acontecido na minha vida e não tem mais espaço pra você.

Ela sorriu conformada.

— Eu evaporei.

— Muitas vezes.

Ela assentiu com um sorriso de quem assume a própria culpa.

— Não tenho raiva de você, Sullon, acho que nunca tive, nem mesmo nos momentos de crise. Eu só acho que nós dois nunca fomos compatíveis mesmo. Esperávamos coisas diferentes das nossas naturezas. Eu esperava de você o que só eu podia me dar, e você esperava de mim o que só você podia se dar. E nenhum dos dois nunca soube o que era essa coisa que o outro queria. Não ajudou que você falava demais, mas nunca o que realmente precisava ser dito. E também não ajudou que eu desaparecia sempre que deveria dizer alguma coisa.

— Se é o que você acha.

— O que seria então, se não isso?

— Nada.

Sabendo que ele sempre falava e explicava demais, a elfa constatou:

— Você está com raiva de mim.

— Aí seria dar muita importância pra algo insignificante.

Ela parou para pensar por um momento, para tentar entender aquela situação pelo ponto de vista dele, algo que nunca lhe pareceu possível.

— Então você acha que eu não ter raiva de você significa que você é insignificante pra mim?

— Você foi embora.

— Não fui embora por raiva e nem por achar que você seria insignificante. Não acho. Eu fui embora porque havia muitas vozes na minha cabeça falando ao mesmo tempo, e como você falava demais, eu não conseguia mais pensar. Precisava ficar sozinha.

Ele riu irritado.

— Podia ter avisado.

— E você teria me deixado em paz?

— Não.

Ela o encarou irritada.

— Vai começar...

— Ninguém deveria ficar sozinho, é horrível — disse ele.

— Existem muitos momentos em que eu preciso ficar sozinha.

— Uma meia-hora já tá bom.

— Não pra mim. Às vezes as coisas levam meses pra fazer sentido.

— E por que elas têm que fazer sentido? Só deixa as coisas pra lá do jeito delas.

— Não posso. Eu preciso entender pra assimilar e seguir adiante. Não posso deixar as coisas voando na minha cabeça como um enxame numa colméia.

— Por que não? Abelhas são legais.

Kláxia suspirou irritada.

— Eram essas bobeiras que me cansavam...

Sullon se irritou.

— Você quer falar sério? Tá bom. Vou falar sério. Você não pode entrar na vida das pessoas, ser legal com elas e depois ir embora tentando carregar tudo com você. Uma parte sua sempre vai ficar com as pessoas, e a outra parte vai fazer falta, como um deficiente físico. Tá, a analogia não foi boa, mas você entendeu.

Kláxia respirou fundo pensando em como explicar o que sentia.

— Eu acho que as pessoas vão parar de pensar em mim no momento em que eu desaparecer. E se continuarem lembrando, eu acho que elas vão esquecer em pouco tempo. Eu realmente acredito nisso, é uma crença muito profunda. A idéia de alguém sentir a minha falta é um conceito irreal. E não é por baixa auto-estima ou coisa assim não, é porque eu não consigo mesmo conceber esse sentimento de falta. Como alguém poderia sentir a minha falta? Por que sentiria? Não faz sentido pra mim.

— Você não sente falta das pessoas? Saudade?

— Sinto, mas passa, porque tem que passar. A saudade é como o luto, a dor diminui com o passar do tempo, porque tem que diminuir. Se não diminuir, a pessoa enlouquece. E eu gasto muita energia pra não enlouquecer. Então as coisas que eu sei que vão me atrapalhar, como saudade, luto ou alguma outra dor, eu guardo num baú e enterro. Às vezes, como zumbis, elas saem de baixo da terra e me atacam. Aí eu tenho que desaparecer mais alguns meses pra devolver os defuntos sentimentais pros seus túmulos. E mais alguns meses entendendo como e por que eles saíram.

— Eu não guardo e não enterro nada, deixo eles fazerem o que quiserem.

— Não consigo viver assim — disse ela. — As coisas precisam estar organizadas, cada pensamento, cada sentimento no seu devido lugar. Não consigo viver com o enxame psicológico orbitando a minha cabeça.

— Mas você já tentou deixar eles soltos?

Kláxia sorriu um pouco desdenhosa.

— Não posso.

Sullon a encarou com uma expressão triste, mas resignado, como se aceitasse as coisas como elas eram.

— O que você quer fazer agora? — perguntou ele.

— Não sei.

Devullian entrou na sala carregando uma bandeja de biscoitos.

— Finalmente ficaram prontos — disse o mago e colocou sobre a mesa. — Estão fresquinhos, saíram do forno agora.

— Obrigada pela refeição, Devullian — disse Kláxia. — Mas preciso ir agora.

— Já? Mas nem chegou direito. Fique mais um pouco, querida.

— Não posso, tenho que procurar trabalho.

— Mercenária? — perguntou Devullian.

— Não. Vou entrar pra Guilda dos Magos.

Os dois magos fizeram uma careta.

— Como eu disse, seria melhor se você entrasse pra Telvanni, mas você não vai fazer isso mesmo...

— Abandonou Telvarys — disse Sullon, e diante do olhar perplexo da elfa, acrescentou: — Fiquei sabendo.

Kláxia colocou a xícara em cima da mesa e se levantou.

— Bem... Bom final de ano pra vocês. — E para Devullian: — Ano que vem eu passo aqui, com Pimpolho. Ele quer visitar.

— Venha sim, querida. Vou ficar esperando.

Ela olhou para Sullon.

— Tchau.

— Tchau.

Um empregado acompanhou a ladina até a porta e de lá ela foi para Sadrith Mora para se alistar na Guilda dos Magos.

A forma do medo – Parte 1

— E por que você quer fazer parte da Guilda dos Magos? — perguntou o Argoniano, Skink.

— Honestamente? Preciso aprender magia e não tenho dinheiro. As aulas por fora são caras — respondeu Kláxia.

O Argoniano respirou fundo um pouco decepcionado.

— E por que você precisa aprender magia? Está fugindo de alguém? Vai nos causar problemas?

— Uma pessoa roubou um item da minha casa. Infelizmente trancas e cadeados não vão impedi-lo de tentar de novo. E eu não quero ter que me mudar.

Skink assentiu como se aquela resposta fosse suficiente.

— Muito bem, Kláxia, seja bem-vinda à Guilda dos Magos. Antes de se especializar em alguma escola, a gente requer que você se familiarize com a rotina da Guilda. Infelizmente não estamos com nenhum membro disponível pra te orientar aqui em Wolverine Hall, então vou ter que te mandar pra Caldera. Ernand Thierry é alquimista e está precisando de aprendizes.

— Eu sei alquimia.

— Mostre a ele então.

Kláxia deu de ombros conformada. Tudo tinha um preço. Com sorte conseguiria terminar a etapa de familiarização rápido e prosseguir para aprender outras escolas. Assinou os papéis de admissão e foi teleportada para Caldera.

O Breton a encarou de cima a baixo com um olhar de desdém.

— Você? Você sabe alquimia?

— Sim — respondeu a Bosmer com as mãos na cintura, também com desdém.

— Que especialização?

— Venenos.

— Ah! — exprimiu Ernand com um sorriso condescendente. — Ninguém compra venenos por aqui. Só poções de amor.

— Sei ótimos paralisantes.

Ernand a encarou como se ela tivesse chegado de outro mundo. Em seguida pegou um grosso livro de sua estante e colocou na frente dela.

— Vá estudar, aprenda poções de amor e depois volte aqui. Seu quarto fica no porão, primeira porta à esquerda.

Kláxia suspirou resignada, desceu as escadas, entrou em seu novo cubículo onde mal cabia uma cama e uma mesinha de cabeceira, sentou-se e começou a folhear o livro.

A maior parte das poções consistia em modificar a percepção do alvo para que visse o cliente de uma forma diferente e envolviam a coleta de partes do corpo como cabelo, unhas, sangue ou saliva. Outros serviam para que qualquer pessoa visse o cliente como charmoso e interessante. Uns poucos serviam para aumentar o desejo carnal de alguém. E apenas dois causavam um efeito zumbificante no alvo.

Kláxia bufou entediada. Utilizou os equipamentos da guilda e preparou algumas poções. Levou para Ernand que jogou tudo fora, disse que eram horríveis e entregou outros livros para ela. A Bosmer respirou fundo e passou uma semana trancafiada no cubículo estudando.

Novamente ela preparou algumas poções de acordo com as receitas dos livros, mas de novo Ernand detestou todas. Kláxia perdeu a paciência do seu jeito. Sorriu e disse que iria se dedicar mais.

À noite, quando todos estavam dormindo, ela preparou várias poções paralisantes e planejou substituir todos os líquidos dos frascos já prontos, mas não precisou se dar ao trabalho porque pela manhã Ernand disse que precisava visitar alguns clientes e ordenou que a Bosmer tomasse conta da loja.

Uma Redguard elegante e beirando a terceira idade entrou discretamente.

— Bom dia. O que deseja? — perguntou a Bosmer.

A mulher sorriu sem graça e sussurrou.

— Estou tendo alguns problemas com meu marido...

— Que problemas?

— Ele quer me largar...

— E a senhora quer que ele não te deixe, é isso?

A mulher sorriu sem graça e assentiu. Kláxia também sorriu, mas de um jeito maléfico.

— Eu tenho a solução perfeita para a senhora. Só um momento.

Foi até seu cubículo e pegou um dos frascos de poção paralisante.

— Aqui está. Misture com a janta dele. São 500 drakes.

A mulher a encarou espantada com o preço, mas logo colocou o dinheiro sobre o balcão, pegou o frasco e foi embora. Algumas horas depois, uma Imperial chegou.

— Bom dia, Ernand está?

— Não, saiu pra atender algumas pessoas. Posso ajudar?

A mulher suspirou cansada.

— Meu filho pequeno... É difícil, viu? Ele apronta o dia inteiro. Já quebrou quase todos os meus vasos com flores, quebrou uma vidraça, derrubou uma estante... Não importa quantos brinquedos a gente compre pra ele, o menino não sossega um minuto!

Kláxia sorriu sinistramente de novo.

— Eu tenho a solução pra senhora.

Voltou do cubículo com um outro frasco de poção paralisante e a entregou.

— Seu filho vai ficar mansinho como um guar recém-nascido. São 800 drakes.

Sem pestanejar, a mulher entregou o dinheiro, agradeceu efusivamente pela solução mágica e saiu às pressas. Não muito tempo depois, um jovem Nord chegou meio atrapalhado e nervoso, esbarrando na mobília e tropeçando no carpete.

— Em que posso ajudar?

— Me disseram que era um homem que trabalhava aqui.

— E qual é a diferença? — perguntou a Bosmer sem entender a confusão dele.

— É um assunto particular.

Alguns segundos se passaram até que ela entendeu a natureza do problema.

— Fica tranqüilo que eu já vi essas coisas muito mais vezes do que você já fez aniversário, rapaz. Agora desembucha. É alguma mancha? Algum cheiro estranho? Quer interromper a gravidez de alguma moça?

O rapaz gaguejou um pouco e desviou o olhar.

— Não, senhora. É que... é... é tudo muito rápido, entende?

— Hummmm! Entendo. Espere um minuto.

Ela foi até seu cubículo e voltou com um dos frascos.

— Quando você e a mulher estiverem naquela situação, você vai deitar de barriga pra cima e deixar ela montar em você. Aí você toma isso aqui e deixa acontecer. Entendido?

— Sim, senhora.

— Não tome antes, não vai funcionar.

— Entendido, senhora.

— São 100 drakes.

O rapaz contou cada uma das suas moedas com muito pesar, pegou a poção e foi embora. Perto do fim do dia, uma mulher Breton usando um vestido floral, ornamentada com muitas pedras naturais e cheirando a incenso de olíbano adentrou a loja.

— Boa tarde, me disseram para procurar o Ernand.

— Ele saiu. Posso ajudar?

— Sabe o que é, eu preciso meditar para realinhar meus vórtices energéticos, mas eu tenho dificuldade de ficar parada por muito tempo. Só de pensar em parar já me dá agonia. Eu cresci numa comunidade nômade. Nós vivíamos das apresentações artísticas que fazíamos nas cidades por onde passávamos. Desde pequena eu fazia de tudo. Era dançarina, tocava, cantava, bordava, tricotava, costurava, cozinhava, lavava, limpava... Enfim. Era uma vida muito feliz, sabe? Difícil, mas feliz. Aí, um dia, eu me apaixonei por um Orc, veja você, e--

Kláxia respirou fundo para não socar a mulher, sorriu e a interrompeu falando num tom alto, quase como um grito:

— Eu tenho o que a senhora precisa. Me dê um minuto.

Voltou do cubículo com um frasco.

— Assim que a senhorita se deitar para meditar, é só tomar um gole e pronto. Vai conseguir meditar por bastante tempo. São 1000 drakes.

— Oh! Uma solução milagrosa! Por que eu não vim aqui antes? Oh, pelos deuses, esse tempo todo sofrendo e--

— São 1000 drakes, senhorita — disse interrompendo a mulher de novo.

— Claro, claro.

A mulher revirou sua bolsa, entregou o dinheiro e guardou o frasco.

— Que os deuses lhe abençoem, Bosmer. Voltarei aqui se gostar do resultado.

Kláxia começou a rir, mas conseguiu conter a risada pela metade.

— Volte sim, senhorita. Tenha uma boa tarde.

Não demorou até que Ernand voltasse.

— Alguém veio me procurar?

— Nada importante não — respondeu disfarçando.

— Como assim "nada importante"? É óbvio que é importante! Quem veio me procurar?

— Não deram nomes. Disseram que voltariam depois.

— Mas quem? Imperiais? Khajit? Dunmers? Ricos? Pobres?

— Não prestei atenção.

— Não prestou atenção? É por isso que suas poções são horríveis! Me admira que tenha conseguido trabalhar tanto tempo em alguma guilda! Mas não me admira que não tenha permanecido em nenhuma delas! É cada uma que Skink me manda! Não é a primeira vez que aquele Argoniano me manda um troglodita. Não sei o que ele tem contra mim!

O Breton pegou outro livro da estante e a entregou.

— Vá pro seu quarto e estude isso aqui. Não quero ver a sua cara enquanto você não conseguir fazer uma poção de glamour minimamente decente. Agora vai! Vai, vai, vai!

Kláxia passou os dois dias seguintes em seu quarto alimentando-se de pão velho e cerveja, estudando os tomos que Ernand lhe entregara. Ela sabia sobre aquilo tudo, só não tinha paciência para aquele tipo de trabalho. Depois de viver uma vida altamente perigosa por muitos anos, o comum lhe era banal demais. Talvez pudesse roubar alguns livros sobre ilusão, conjuração e alteração e estudar sozinha.

Ernand esmurrou a porta do quarto.

— Kláxia, saia já daí e venha aqui agora!

Ela saiu do quarto e o encontrou na loja com alguns papéis na mão.

— Você sabe o que é isso?

— Papel.

Ele rosnou irritado.

— Sabe o que tá escrito aqui?

— Palavras.

— Registros! Dos seus absurdos! Você está arruinando a Guilda dos Magos! A senhora Kemanna Bestha pediu uma poção pra que o marido não abandonasse ela, e você deu um paralisante!

— Como ele vai abandonar a mulher se estiver paralisado?

— A senhora Javolea Ottiel pediu uma poção pra que o filho pequeno parasse de fazer bagunça em casa. E você deu um paralisante!

— Como a criança vai destruir a casa se estiver paralisada?

— O jovem senhor Fannolf Flauta-Dura pediu uma poção pra curar a ejaculação precoce... E de novo você deu um paralisante!

— Como ele vai gozar rápido se estiver paralisado?

— A última foi de uma moça que se queixava de dificuldade pra meditar porque não conseguia ficar muito tempo parada. E adivinhe só! VOCÊ DEU UM PARALISANTE!

— Ah, por favor, essa daí era óbvio, né.

— A reputação da Guilda, há séculos imaculada, agora carrega uma mancha horrorosa por sua causa!

— O marido não foi embora, a criança não destruiu a casa, o jovem não gozou e a moça teve muito tempo pra meditar. Onde o senhor vê derrota, eu só vejo sucesso. 😎

Com a mão no rosto e sacudindo a cabeça negativamente, Ernand resmungou:

— Não, não, não, não. Skink não vai fazer isso comigo não! — e olhando para ela, acrescentou: — Vá embora ainda hoje. Vá pra Balmora, Vivec, Akavir, sei lá! Mas vá pra bem longe daqui!

Kláxia pegou seu único pertence, a algibeira com seu diário e o contrato da Irmandade, e foi teleportada para a guilda de Vivec.

A Bosmer pediu informações sobre onde ou com quem poderia estudar e lhe mandaram conversar com Malven Romori. A Dunmer explicou que a guilda estava com falta de oraculistas, um serviço muito procurado pelas pessoas de baixa classe social, mas que mesmo assim rendia um bom dinheiro para a guilda.

— Leia todos — disse a Dunmer apontando para uma estante cheia de livros. — Seu quarto fica no fim do corredor, última porta à direita.

Kláxia pegou todos os livros que conseguiu carregar e foi para seu quarto, que era maior do que o cubículo em Caldera. Os livros ensinavam sobre como ler as cartas, borra de café e chá, as estrelas e interpretar eventos na vida de uma pessoa através do seu signo de nascimento.

Após um mês de dedicação total aos estudos, Malven decidiu testar a Bosmer e pediu que ela fizesse uma leitura das cartas para o futuro da guilda de Vivec. Kláxia contou que se tudo seguisse o curso natural, um espião seria desmascarado e a guilda teria um novo arquimago.

— Ah... Ranis comentou sobre isso comigo — disse Malven. — Ela suspeita que haja um espião na Guilda. Achei que fosse paranóia dela, mas talvez seja verdade... Quanto a um novo arquimago, não vou me importar com isso agora. No mais, muito bem, Kláxia, acho que você já pode começar a atender clientes.

A Dunmer colocou um aviso do lado de fora da guilda sobre serviços oraculares e logo apareceram novos clientes. Kláxia os atendia durante o dia inteiro. A princípio, tinha achado a nova função exótica e interessante, mas depois de um mês já estava totalmente entediada com as mesmas perguntas de sempre.

— Meu ex-marido vai voltar para mim?

— Meu ex-namorado ainda me ama?

— Quais são os sentimentos dele por mim?

— Ele vai me pedir em casamento?

— Meu marido está me traindo?

— Minha melhor amiga está apaixonada pelo meu noivo?

— Com quem eu vou me casar?

— Quantos filhos eu vou ter?

— Como eu vou morrer?

— Vou ficar rico?

Apesar de tudo, a Bosmer era sincera e falava o que ela via. Não era sua culpa que as respostas não eram o que os clientes queriam ouvir. Então não tardou em se acumularem reclamações sobre o serviço oracular da guilda fazendo a clientela diminuir.

— Kláxia, você não pode falar a verdade desse jeito — comentou Malven com muito mais paciência do que Ernand. — As pessoas vêm aqui procurando um conforto para suas dores e não a verdade nua e crua.

Kláxia assentiu e decidiu usar outra tática: mentia para todos os clientes dizendo tudo o que queriam ouvir, de um jeito bem dramático como só ela conseguia ter.

Não demorou para que as reclamações de previsões incorretas chovessem nos ouvidos de Malven Romori e os boicotes aos serviços da Guilda começassem.

— Kláxia, o que você estava pensando? Não pode mentir dessa forma! Isso vai acabar com a reputação da Guilda!

— Se eu não posso falar a verdade e nem mentir, eu vou fazer o quê? Latir?

— Você deve caminhar como uma bailarina entre a verdade e a omissão da verdade.

— Não sei dançar.

— Talvez o seu problema seja o fato de que você não é maga e nunca será — disse Malven finalmente sem paciência. — Com essa sua atitude deplorável, talvez tenha mais sorte sendo uma Telvanni.

— Não sou bem quista em território Telvanni.

— Sinto muito, mas você também não é bem quista na Guilda dos Magos — disse e em seguida sentenciou: — Você está excomungada. Pegue suas coisas e vá embora.

Kláxia voltou derrotada para sua ilha. Sentou-se em sua rede na varanda e pensou sobre roubar alguns livros de magia, mas estava tão chateada com aquela experiência que simplesmente desistiu de decidir qualquer coisa naquele momento.

Oh, estava indo tão bem! Vai desistir por quê? Só por causa de alguns tropeços?, disse uma voz desencorporada.

Kláxia deu um pulo da rede.

— Quem é você? O que está fazendo na minha cabeça?

Não estou na sua cabeça, mocinha. Sua mente é que está mais sutil e agora percebe os espíritos.

— Minha mente está sutil? O que isso significa?

Décadas de serviço a Nocturnal tiveram um preço. Se passar muito tempo tentando ser uma sombra, sua mente se adapta às novas circunstâncias e se sutiliza para facilitar a transição do plano terreno para o éter, respondeu a voz.

— Você é um espírito?

Sim, um dragão.

Kláxia olhou para o céu.

Oh, não. Não estou no seu mundo. Vivo no éter com outros dragões e seres.

— Mente sutil... Nocturnal... Eu me transformei numa morta-viva?

De jeito nenhum. Você agora é uma limiante. Aquela que vive entre os planos da existência.

— Há quanto tempo você me observa?

Faz bastante tempo.

— Por quê?

A existência no éter é muito entediante.

— E os outros?

Eles observam outros mortais, outras esferas de existência ou apenas dormem até serem chamados novamente.

— O que você quer comigo?

Nós dois podemos ganhar algo com essa interação. Posso te ensinar magia e você pode me entreter.

— Você sabe magia?

Nós, dragões, sabemos muito sobre magia.

— Ilusão? Conjuração? Alteração?

E outras escolas que vocês mortais nem imaginam.

— Qual seu nome?

Lokdrahzul.

— Muito bem, Lokdrahzul, temos um trato então?

Temos um trato, Kláxia.

— Quer dizer então que agora eu tenho o meu próprio dragão? — perguntou entusiasmada. — Todo mundo vai ficar com inveja de mim!

Não. Eu é que tenho uma Bosmer. E ninguém aqui está impressionado, respondeu Lokdrahzul.

— Mas e agora? O que faremos?

Primeiro você deve descobrir qual é o seu objetivo em aprender magia.

— Quero impedir futuros roubos na minha casa e, se possível, futuras invasões.

Muito bem. O próximo passo é listar quais são suas habilidades natas, assim saberemos com quais escolas você estará alinhada e, portanto, quais terá facilidade em aprender.

— Bom, eu faço venenos, sou furtiva, consigo matar qualquer um com qualquer objeto, consigo destrancar qualquer tranca física, consigo assustar as pessoas com alguns truques, consigo ouvir e diferenciar sons a uma distância considerável, e consigo desaparecer. Esse último é minha especialidade.

Considerando o que você quer e o que sabe fazer, sugiro as escolas de Ilusão e Alteração primeiro. Depois Misticismo e por último Conjuração.

— O que eu posso fazer de interessante com elas?

Muitas coisas. Inclusive, depois que dominar as escolas individualmente, você pode combiná-las para criar feitiços poderosíssimos.

— Parece legal. O que eu tenho que fazer primeiro?

Manipulação energética. É impossível fazer magia sem dominar isso. Mas o primeiro tópico dentro do capítulo Manipulação Energética é a Essência. Tudo o que existe possui algum tipo de essência, uma energia sutil ou densa dependendo da natureza do seu portador. Às vezes as pessoas chamam isso de espírito.

— Sutil. Você disse que minha mente estava assim.

Sim. A energia sutil é mais leve, delicada, difícil de perceber. Ao passo que a energia densa é pesada e grosseira, fácil de perceber mesmo para quem nunca mexeu com magia.

— E como eu faço pra perceber as energias?

Você precisa se concentrar na intensão de sentir a essência de algo. Pode ser uma planta, uma pedra, uma concha, um sapo, qualquer coisa. Sente-se confortavelmente, segure o objeto ou animal suavemente, feche os olhos e concentre-se em perceber qual sensação isso lhe passa. É quente? Frio? Áspero? Liso? Estático? Pulsante? Vibratório? Causa alguma emoção estranha como medo, nojo, tranqüilidade ou qualquer outra emoção? Que sentimento toma conta de você quando o segura? Sente que é algo bom, mal ou neutro? Você gosta ou desgosta disso?

— Entendi. Vou começar com uma pedra — disse pegando o primeiro cascalho que achou.

Sentou-se novamente na rede, fechou os olhos segurando a pedrinha, deixou-se relaxar e então começou a catalogar o objeto mentalmente. Redondo, leve, áspero...

Você não deve fazer uma lista mental das características do objeto. Você deve sentir. O sentir é como um segundo cérebro que você vai precisar desenvolver, aprender a confiar e aprender quando ele não estiver funcionando direito. Do mesmo jeito que às vezes você se pergunta se está ficando louca, chegará um momento em que você vai precisar reconhecer que está sentindo algo estranho e isso precisará ser investigado e solucionado.

A elfa ficou quase uma hora sentindo a pedra, mas não soube dizer se estava sentindo alguma energia ou apenas características físicas.

— Não tá funcionando — reclamou.

Você nem começou direito. Tente com uma planta.

Kláxia tentou com a planta, com um punhado de areia, conchas, um peixe que se sacudia enquanto ela o segurava debaixo d'água, e um cliff racer que ela agarrou pela cauda e que se debatia aterrorizado. Só parou quando anoiteceu. Trancou a casa, colocou vários móveis e quinquilharias atrás das portas e foi dormir.

No dia seguinte, Lokdrahzul avisou que ela deveria continuar com o treinamento e, não tendo mais nada para fazer da vida, Kláxia concordou.

Durante os meses seguintes, ela intercalava o treinamento com a venda de couro de cliff racer e cera de dreugh em Seyda Neen para conseguir comprar comida, água potável e alguns mantimentos.

Por que você não tem um jardim? Um alquimista sem jardim é como um bardo sem alaúde.

— Considerando a vida movimentada que eu tinha, quem ia molhar as plantas?

Bom, agora você pode. Além disso, poderá também plantar a própria comida. Isso reduzirá seus custos.

— E aumentará o tempo que eu gasto com manutenção. Tempo esse que eu não vou poder usar pra treinar.

Está com pressa de quê? Seu amigo não vai vir lhe procurar. Ele está muito ocupado com o trabalho e os assassinos que você contratou.

— Ele pode pagar alguém pra vir dar cabo de mim.

Não vai. Ele prefere gastar o dinheiro dele com entorpecentes e acasalamento.

Kláxia riu.

— Bom saber. Agora já posso dormir mais tranqüila.

Aos poucos, durante os meses seguintes, Kláxia aproveitava suas idas à cidade para trazer algumas mudas de plantas. Com a ajuda do conhecimento de Lokdrahzul, aprendeu novas técnicas de cultivo e receitas de adubos. Em pouco mais de 1 ano sua ilha já era auto-sustentável. Comprou alguns guars e scribs para produzirem esterco, e adaptou uma parte da caverna que havia na ilha para a criação de kwamas. A partir daí, a elfa passou a ir com menos freqüência à cidade, mas isso não a fez economizar tempo. Mesmo assim, ainda conseguia treinar todos os dias.

Após esse período, ela já podia sentir todos os seres animados e inanimados que populavam sua ilha.

Para o segundo tópico do capítulo de Manipulação Energética, será preciso que você realize o treinamento sempre do lado de fora da casa, em direção ao mar, para evitar acidentes.

Kláxia sentou-se na areia da praia. Era uma manhã de um dia ensolarado. As ondas do mar brilhavam sob a luz do sol. Ao seu redor, os animais estavam deitados tranqüilamente tomando seu banho de sol matinal. Uma brisa leve balançava os arbustos e as árvores das plantações. Os pássaros cantavam alegres.

— O que eu tenho que fazer?

Junte as mãos em forma de concha. Da mesma forma que você sente a essência das coisas, você deve acumular e concentrar essa sensação entre as suas mãos e deixá-la formar uma bolinha de energia. Quanto mais você se concentrar e direcionar essa sensação de energia para suas mãos, maior essa bola vai ficar. Se não agüentar segurar essa energia por muito tempo, arremesse a bola no mar.

Kláxia obedeceu. A princípio, não sentiu nada, mas continuou se concentrando. Depois de alguns momentos, sentiu um comichão e, num reflexo, acabou deixando a minúscula bolinha de energia cair na areia. Rapidamente ela se dissipou.

— Não funcionou — reclamou num muxoxo.

Enquanto você ainda não tiver muito controle e nem intenção o suficiente, a energia vai se dissipar rápido. Quanto maior o poder de controle e quanto mais inabalável for a sua intenção, mais permanente será a energia e conseqüentemente mais poderoso será o feitiço. Esse tipo de controle e intenção só poderão ser aprimorados com a prática diária. Não há atalhos.

Ao longo dos meses seguintes, Kláxia continuou se dedicando diariamente ao exercício. Ia para a praia todas as manhãs um pouco antes do sol nascer e parava um pouco antes do meio-dia para cuidar da casa, da plantação e dos animais. À noitinha, preparava um chá de comberry e sentava-se na rede para apreciar o céu estrelado.

Ah... Um chá quente. Parte essencial na jornada para ser uma maga.

— Estou começando a achar que é algum instinto natural. Eu nunca gostei de chá. Quando aceitava, era por educação.

Faz parte. A natureza tem formas peculiares de realinhar as energias.

— O que acontece depois?

De quê?

— Depois que eu aprender a proteger minha casa.

Você vai querer fazer alguma outra coisa. É a eterna sina dos mortais: desejos infinitos.

— Então o meu destino é ser eternamente insatisfeita?

Só as rochas estão plenamente satisfeitas.

— Por quê? Por que a existência é uma infinita insatisfação?

Porque o incômodo é a fonte do movimento. E a existência é movimento. O que não se move está morto.

— Então as pessoas felizes e satisfeitas são mortas-vivas?

Você já conheceu alguém que realmente estivesse feliz?

— Já.

Quem?

— Várias, ué.

Várias quem?

— Ah, sei lá. Um monte por aí.

Não existe satisfação, plenitude ou felicidade na vida. Mesmo que alguém não tenha sérios problemas, os pequenos desconfortos diários a mantêm em movimento. Se não mantivessem, ela morreria de inanição.

— Não existe felicidade?

Não. Felicidade é uma ilusão. Um conto de fadas que os anciões contam aos jovens para que estes não se encontrem com o desespero cedo demais.

— Pesado. Principalmente porque pessoas morrem na busca pela felicidade.

Efeito colateral de se manter uma civilização minimamente funcional.

— Vocês, dragões, já foram felizes em algum momento?

Nos resignamos ainda no início da existência.

Kláxia bebeu um pouco de chá enquanto pensava.

— Qual o propósito da existência então?

Não ser a estagnação da inexistência.

— Só isso?

A complicação é fruto da inconformação com a simplicidade.

Kláxia bufou irritada.

— Mas não deveria haver um propósito maior pra tudo?

Por que deveria?

— Oras, porque senão tudo isso, todo esse sofrimento, seria em vão!

A existência é inteira em si mesma. Existir já é o próprio propósito. A não estagnação da inexistência, como eu falei. Não existe propósito maior, pois isso estaria do lado de fora da existência, e não existe nada do lado de fora da existência, porque não existe nada na inexistência. Os dois lados são completos em si mesmos. Não há brechas.

Kláxia respirou fundo algumas vezes um pouco irritada.

— O que eu faço com essa informação?

O que você quiser. Não vou te dizer o que fazer com sua vida. Você é livre dentro das circunstâncias atuais.

Ela pensou por um momento enquanto terminava o chá.

— Você existe, não é, Lokdrahzul?

Se eu não existo, então você é uma esquizofrênica autodidata.

— Só mais um dos meus muitos títulos. Mas não é isso que eu quero dizer. Você está morto, mas mesmo assim existe, né?

Não estou morto. Estamos num outro plano de existência. Então sim, eu existo.

— Então a morte é uma inexistência?

Você sabe que não.

— Não sei. Ouvi falar de histórias sobre almas que foram para o Oblivion, mas isso não significa muita coisa, já que com magia podemos ir e vir de lá.

Existem muitos lugares para onde um morto pode ir. Inclusive, podem reencarnar.

— Já ouvi sobre isso também. Mas o quanto disso é verdade? Digo, quantas almas reencarnam? Duas? Três por milênio?

Milhões.

Ela deu uma risada de deboche.

— Milhões? Isso seria quase todo mundo!

Mas quase todo mundo reencarna. Poucos são os que não reencarnam.

— Achei que isso fosse reservado apenas para as almas dos importantes.

Apenas as histórias de destaque são passadas adiante, mas a reencarnação é para todos.

— E o que acontece nessas reencarnações todas? As que não têm destaque.

Em todas, inclusive nas que aparentam irrelevância, as almas aprimoram habilidades que foram aprendidas na vida anterior.

— Como assim?

Você, por exemplo, nesta vida é uma ladina e assassina bem sucedida. Mas uma maga iniciante. Isso significa que em outra vida você foi uma ladina ou assassina medíocre, e nunca sequer chegou perto de magia.

— Considerando meus fracassos aqui, eu devo ter sido uma Zé Ninguém na vida anterior.

Sim, assim como a maioria das pessoas. Poucos se destacam.

— Se for assim mesmo, então quer dizer que numa próxima vida eu seria uma maga assassina boladona?

Se você desenvolver suas habilidades lá, sim. Mas cada vida apresenta algumas possibilidades dentre as quais você pode escolher. E você não é só ladina e assassina, lembre-se de que quase enlouqueceu e virou um espectro de Nocturnal. Prevejo que você terá, pelo menos, duas opções proeminentes. Um caminho de loucura acentuada e outro de magia assustadora. A relevância ou atratividade de cada opção vai depender de desenvolver as habilidades mágicas aqui nesta vida. Pois se não for muito longe na magia agora, na próxima terá uma oportunidade de menor relevância.

— Então você está me dizendo que eu serei uma louca de manicômio na próxima vida? E perigosa ainda por cima! Trancada num hospício!

Oh, o drama, o exagero, a emoção! Você também poderia ser um tipo de palhaço de circo de terror. Daqueles que matam os turistas.

— Que vida de merda.

Fruto do que você cultiva aqui e agora.

Ela colocou a xícara sobre a bancada da varanda e ajeitou-se na rede.

— Eu vou ficar presa na minha cabeça, não é? Tipo um coma ou catatonia.

Não digo nenhuma dessas duas coisas, mas sua condição mental tem uma alta chance de não ser das melhores, já que você ainda não procurou ajuda aqui.

Kláxia suspirou fundo sonoramente.

— Estou cansada de me preocupar com coisas que eu não posso controlar.

É o primeiro passo para a sanidade.

— Vou dormir.

Isso também é muito bom.

— Acho que amanhã você já pode me ensinar o feitiço de tranca — disse não como uma sugestão, mas como um fato.

Concordo. Você evoluiu bastante na manipulação energética. Já pode começar a praticar com objetos fixos.

— Boa noite, Lokdrahzul.

Boa noite, Bosmer.

Na manhã seguinte, antes do Sol raiar, Kláxia juntou vários livros, jarros, urnas, barris e caixotes na praia. Os animais se deitaram perto para observar, mas longe o suficiente para não se envolverem.

Depois de dominar a manipulação energética, fazer um feitiço é fácil. O segredo está na intenção. Qualquer feitiço lançado precisa ter uma finalidade, um objetivo, uma missão. Para trancar, a intenção deve ser de fechar e permanecer fechado até que um contra-feitiço seja realizado.

A Bosmer segurou um dos livros, sentiu a essência do objeto e começou a concentrar energia nele com a intenção de que ele não se abrisse. Quando sentiu que o livro estava estranhamente pesado, colocou-o no chão.

— E agora?

Tente abrir.

Ela se sentou na frente do objeto com um pouco de entusiasmo e receio, como se pudesse explodir a qualquer momento.

Se você não intencionou que o livro danificasse o usuário de alguma forma, se foi só para que ele não abrisse, então é inofensivo.

Kláxia segurou o livro e tentou abri-lo, mas era como se alguém tivesse colado as páginas. Os olhos dela brilharam e ela olhou para cima como se quisesse olhar para o dragão, mas não havia nada ao seu redor.

Parabéns. Você realizou seu primeiro feitiço com sucesso, disse a voz desencorporada. Agora tente com os outros.

Ela passou a manhã trancando tudo o que levou para a praia. Pulava de alegria quando descobria que as coisas estavam mesmo trancadas. Quando terminou, perto do meio-dia, deixou tudo na praia e foi cuidar de seus afazeres na ilha.

No dia seguinte, teve uma surpresa desagradável. Uma ventania derrubara dos caixotes, barris, jarros e urnas, e espalhara os livros pela areia. E tudo estava aberto.

— O que aconteceu aqui? — perguntou desolada, achando que havia fracassado.

Foi o seu primeiro dia lançando esse feitiço. Ele não estava firme o suficiente e se dissipou. Completamente normal. Continue praticando.

Depois de 1 mês praticando apenas trancar as coisas, Kláxia sem querer se trancou do lado de fora de casa. Foi quando Lokdrahzul, depois de uma risada comedida, ensinou-a o feitiço de destrancar. A Bosmer treinou os dois feitiços por mais 1 mês, então o dragão passou uma lista de feitiços que incluía correr sobre a água, levitar, deixar seres animados e inanimados pesados ou leves, pular muito alto, cair devagar, fazer os animais fugirem ou seguirem ou se acalmarem, invisibilidade, efeito camaleônico, enxergar no escuro, cegueira, alucinação auditiva, silêncio, telecinesia, absorção e dispersão energética, e alguns feitiços de cura. Avisou que iria se ausentar por um tempo e que qualquer fracasso aparente não era um fracasso e sim os primeiros passos de uma longa jornada.

— Você volta, né?

Claro. Mas agora você precisa trilhar essa parte do caminho sozinha. Tudo o que eu lhe ensinei é suficiente para que você continue por si só. Quando estiver mais desenvolvida, eu voltarei para a segunda parte.

— Obrigada, Lokdrahzul, por tudo.

Eu que agradeço a oportunidade de passar meu conhecimento adiante. Mas não se despeça de mim, Bosmer, eu não estou indo embora.

Kláxia sentiu a energia dele se dissipar e desaparecer.

A forma do medo – Parte 2 (final)

Quase uma década havia se passado desde a última vez que a Bosmer conversou com o dragão. Ela treinou durante todos os dias, sem pular nenhum. Por conta própria, comprou alguns livros sobre magia para aprender sobre outras escolas e praticou sozinha.

Como suas plantações e animais haviam prosperado muito, ela comprou um barco que usava para viajar pela costa de Vvardenfell vendendo seus produtos. Foi obrigada a legalizar seu negócio por conta dos ovos de kwama e aproveitou para colocar em prática um feitiço de charme. Conseguiu a habilitação com o Duque em Ebonheart por um terço do preço original. O Dunmer ficou tão encantado que a convidou para um jantar a dois, mas a Bosmer disse que não podia porque precisava catar cocô de guar para adubar as plantas.

Durante todo esse tempo, ela nunca tivera notícias de Faldrien ou da Irmandade sobre o contrato. Achou que todos os envolvidos haviam se esquecido e decidiu parar de se lembrar daquilo também.

Numa semana em que não ia precisar viajar a barco para vender seus produtos, a Bosmer aproveitou para praticar a última escola que faltava: Conjuração. No livro dizia que para conjurar qualquer criatura do Oblivion era preciso ter raiz de Nightshade; partes de algum ser vivo, sendo sangue ou coração as melhores, mas qualquer uma servia; uma bacia com água limpa; vinho; um cristal virgem; sal; e 12 velas. Depois de reunir todos os ingredientes, as instruções diziam para desenhar um círculo grande no chão com o sal, acender as 12 velas ao redor, colocar a bacia com água no centro do círculo, colocar o cristal dentro da água e, enquanto recitasse o encantamento várias vezes, colocar a parte do animal por cima do cristal, regar com vinho, queimar a raiz de nightshade nas 12 velas e colocar sobre o pedaço do animal. Assim que terminasse, um Dremora apareceria dentro do círculo e faria tudo o que o conjurador mandasse.

Kláxia reuniu todos os ingredientes e materiais. Como parte de animal, optou por um pedaço de carne que havia guardado numa lata de banha. Como sal, comprou sal ígneo porque era o que estava disponível nos alquimistas próximos. O restante era o mesmo do livro, ou assim ela julgava.

Por causa do espaço, ela preferiu fazer o ritual na praia. Era um dia parado e sem vento, não haveria problemas quanto às velas. Preparou tudo conforme ditava o livro enquanto entoava em voz alta o estranho encantamento numa língua obscura.

Assim que a última faísca da raiz de nightshade se apagou soltando um fio de fumaça que subia denso e exalava um cheiro de carne assada, um Dremora se materializou dentro do círculo à sua frente.

Kláxia não havia pensado sobre o que o mandaria fazer, mas ficou feliz que o feitiço funcionara. A primeira coisa que lhe veio à mente foi mandar o Dremora correr ao redor da ilha, mas assim que deu a ordem, o conjurado empunhou a espada e a atacou falando coisas na língua obscura que ela recitara e que não compreendia.

Kláxia pulou para fora do círculo e desviou de todos os golpes. O Dremora a seguiu e continuou atacando e, presumidamente, xingando. A Bosmer desviava dele e ao mesmo tempo tentava fazê-lo desviar de suas plantas, em vão. Diante do estrago que ele fizera nos arbustos de comberry, ela decidiu levitar para desviar o foco dele para o alto.

O Dremora tentou atingi-la com uma bola de energia, mas ela desviou sem esforço. Ele então voltou a correr pela ilha, mas começou a matar os animais. Kláxia se enfureceu e enfeitiçou os bichos para que eles fugissem para o barco que estava ancorado no mini porto da sua ilha. O Dremora seguiu-os estraçalhando tudo com sua espada.

Ela tentou enfeitiçar o Dremora com calma, depois paralisia, fadiga, peso, mas nada o atingia. Pelo contrário, ele estava absorvendo suas magias.

Ela desceu para casa e gritou por ele na porta. A criatura abandonou o que sobrara dos animais e correu para a casa. Kláxia se trancou já sabendo que a porta não agüentaria muito tempo. Armou-se com suas adagas, dardos envenenados e só teve tempo de vestir o torso da armadura quando o Dremora derrubou a porta e entrou. Ela o atacou com os dardos, mas não teve muito êxito. Ele avançou sobre ela que aparou os golpes com suas adagas, mas ele era muito mais forte e ela sabia que não iria agüentar muito tempo.

"Que bela maneira de morrer... Pra minha própria conjuração", pensou a elfa.

Ela gritou para ele ir embora e voltar para o Oblivion, mas o Dremora estava firme em sua decisão de matá-la. Quebraram móveis e arranharam paredes. Ele conseguiu fazer cortes em seu braço e nas pernas algumas vezes. Kláxia já se cansava, mas o Dremora não demonstrava qualquer fraqueza.

"Vou morrer. Esse será meu fim. Quem vai cuidar das minhas plantas e dos meus animais? Acho que é por isso que magos têm aprendizes, mas agora é muito tarde."

Não só pra isso, mas principalmente pela preguiça de fazer as tarefas mundanas, disse uma voz desencorporada que lhe era familiar.

— Lokdrahzul! — disse ela como se recitasse um encantamento com toda a sua força.

O Dremora hesitou por um segundo como se tentasse decifrar aquele idioma, e então aproveitou a distração dela para perfurar-lhe o torso. A armadura impediu que a maior parte da espada penetrasse seu corpo, mas a ponta da lâmina conseguiu perfurar sua barriga em quatro dedos de profundidade. Kláxia gritou e empurrou a espada com as adagas.

— Vai me deixar morrer? — gritou para o dragão.

É só mandá-lo ir embora.

— Já mandei! Mas ele não vai!

A elfa correu para outro cômodo e usou a mobília como escudo.

Tem certeza que mandou ele ir embora? Daqui não parece que ele foi.

— Não me venha com gracinha! Eu gritei com ele e nada aconteceu!

Gritou? Oras, não é assim que se manda um conjurado embora.

— LOKDRAHZUL! — gritou com ódio.

Destrua o cristal e apague as velas.

Subitamente Kláxia se lembrou do cristal submerso na bacia no meio do círculo de sal na praia. Desviou do Dremora como pôde e correu o mais rápido que conseguiu. Pulou dentro do círculo, chutou a bacia, pegou o cristal que voara no ar e arremessou-o contra uma rocha. Estilhaços voaram para todos os lados. Agarrou a bacia e, com o fundo, amassou todas as velas em seqüência na areia apagando-as.

O Dremora já estava a meio caminho da praia quando desintegrou-se virando uma fumaça preta que se dissipou no ar. Kláxia deixou-se cair ofegante na areia. Apertou o ferimento sob a armadura e gemeu de dor.

É só deixar a Bosmer sozinha um minuto que ela começa a evocar demônios.

— Um minuto? FORAM DEZ ANOS!

Você não leu os livros de conjuração?, continuou Lokdrahzul. Pegou qualquer feitiço e fez? Inacreditável. Não achei que você ainda precisasse de um professor. Mas aqui vai, a primeira regra da conjuração é: você não chama o que não consegue mandar embora. A segunda regra é: antes de aprender a evocar, deve-se aprender a banir. Os livros sérios vão sempre explicar que uma criatura conjurada precisa de um objeto de ancoragem. Na maior parte das vezes é um cristal, mas pode ser uma garrafa de vidro, uma caixa de metal ou uma jóia. E que, portanto, para mandar a criatura embora, deve-se destruir o objeto de ancoragem.

— Nunca mais vou esquecer — disse Kláxia curando seu ferimento com uma pequena magia de luz azul.

Eu sei, por isso esperei tudo dar errado antes de intervir. A experiência é a mãe de todas as professoras.

Reza a lenda que o grito de ódio da Bosmer pôde ser ouvido em Balmora.

— MEUS ANIMAIS MORRERAM! MINHAS PLANTAS FORAM DESTRUÍDAS! MINHA CASA ESTÁ UM CACO!

Sim. E essa será a lição que você se lembrará até o fim de sua vida. Mais do que qualquer outra.

Os poucos animais que sobreviveram ao massacre colocaram a cabeça para fora do barco e emetiram ruídos curiosos, como se quisessem saber se já podiam sair do esconderijo.

A Bosmer levantou-se bufando de ódio, mas não disse mais nada. Sacudiu a poeira, juntou a carcaça dos animais num canto onde aproveitaria a carne e o couro para vender em Vvardenfell, chamou os demais que estavam no barco, prendeu-os no cercado e arrumou as plantas que sobraram. Algumas ela conseguiu recuperar, mas outras foram completamente perdidas.

Voltou para casa e arrumou o que sobrou. Os objetos quebrados ela guardou em vários caixotes e levou para o barco pois conhecia um Orc que fazia restaurações.

Ao longo da semana seguinte, ela não praticou magia. Dedicou-se a consertar os danos na ilha e repor itens, plantas e animais perdidos. O dragão respeitou o período dela de luto e raiva, e também não disse nada.

Apenas quando ela voltou a se sentar na praia pela manhã para ler outros livros de conjuração foi que Lokdrahzul decidiu falar.

A terceira regra da conjuração é: jamais recite um encantamento numa língua que você não conhece.

— Quais são as outras regras? — perguntou resignada, mas ainda um pouco irritada.

Existe algo bem mais interessante que você pode fazer com conjuração em vez de se arriscar com seres de outros planos.

— E o que é? Conjurar armas e armaduras? É, eu já deveria ter feito isso, especialmente a parte da armadura — disse tocando a cicatriz na barriga.

Você pode combinar Conjuração e Ilusão para criar as criaturas que você quiser.

— Como assim?

Com Conjuração você firma a nova criatura como algo que existe além de você. E com Ilusão você pode dar a forma e as habilidades que você quiser que ela tenha. Pode criar guardas, sentinelas, protetores, serventes... O que você quiser.

— Se eu criar guardas, por exemplo, eles vão ter capacidade de defender minha casa?

Plenamente.

— Mas eles vão se dissipar e todos os dias eu vou ter que criar novos guardas, né?

Não se você vinculá-los a algum objeto de ancoragem, definir uma forma de recarregamento energético e der alguma autonomia para eles.

— Por onde eu começo?

Pelo planejamento. Pegue lápis e papel.

Kláxia voltou para casa e sentou-se à sua escrivaninha.

Primeiro, você deve definir o objetivo da criatura. Segundo, você define que formato físico e habilidades ela necessitaria para realizar seu objetivo com sucesso. Terceiro, você pensa nos possíveis problemas que ela encontraria em sua tarefa e cria habilidades para resolver ou contornar esses problemas. Quarto, cria uma forma de recarregamento energético. Quinto, exemplifica regras, o que pode e o que não pode fazer. Sexto, dá nome. Sétimo, você gasta sua mana toda para criar uma única criatura. Oitavo, solta ela e deixa acontecer.

Kláxia decidiu criar um guarda. Desenhou muito mal um imperial de uniforme.

Entendo seu propósito, mas por que não ir além?

— Ir além como?

Uma das escolas que você vai usar é Ilusão, uma das habilidades que você pode dar à criatura é tomar a forma do medo do invasor. Você pode, claro, dar uma forma padrão para quando só estiver você sozinha na ilha.

Kláxia pensou um pouco e deu uma risada macabra. Desenhou um cliff racer que andava com as pernas de um flame atronach, mas que parecia gelatinoso como um betty netch.

Ah... Uma quimera. Era disso que eu estava falando. Mas deixe claro que essa é apenas a forma padrão da criatura quando for criá-la, e que deve mudar de forma conforme o inimigo.

Kláxia então especificou tudo o que queria e anotou no papel. Pegou uma garrafa de vidro, colocou um pedaço de carne dentro, encheu com água, tapou com uma rolha e foi para a praia.

Sugiro que você use uma jóia ou cristal se quiser que a criatura dure mais tempo e não seja acidentalmente destruída.

— Quero testar uma coisa.

Ela se sentou na areia e começou a energizar a garrafa dando a forma da criatura que havia desenhado. Usou sua mana toda moldando a energia que ficou do tamanho dela. Ainda em conexão energética, a elfa mandou a criatura acordar, recitou as habilidades dela e as regras, deu nome e soltou na ilha. A garrafa permaneceu na areia, mas a criatura caminhou normalmente como se já conhecesse o lugar. Para um mago, era possível ver o cordão energético que ligava a sentinela à garrafa.

Você esqueceu da regra de que ela não deve lhe atacar.

De repente, Kláxia acertou um dardo no pescoço da criatura que voltou-se em sua direção um pouco confusa. A Bosmer pegou sua adaga e avançou.

Imediatamente, a sentinela abandonou sua forma quimérica e adotou o corpo completamente uniformizado de um assassino da Irmandade Negra.

Kláxia parou a um passo de sua criatura, em choque.

— Morra! — gritou a sentinela e atacou com uma adaga.

Kláxia desviou por pouco e deu um pulo para trás. Arremessou uma pedra na cabeça da criatura. A sentinela, então, fez o elmo transformar-se numa cabeça que ora era a de Govarys, ex-namorado da elfa, ora de Dandras Vules, outro ex, e por último de Telvarys.

A Bosmer congelou, estupefata com sua própria criação.

— Eu não tenho medo deles — disse para si mesma.

Tem certeza?, perguntou Lokdrahzul. Sua criatura discorda de você.

A sentinela avançou, mas Kláxia foi mais rápida e chutou a garrafa com toda a sua força fazendo-a explodir. A criatura dissipou-se no ar.

Agora que você já confirmou que seu feitiço funciona, o que mais pretende criar?

Vestindo um silêncio que começou a incomodar até o próprio Lokdrahzul, a elfa passou um mês inteiro criando sentinelas e serventes. Usou diversos cristais e os enterrou pela ilha. Deu a eles a energia solar como fonte de recarregamento. Alguns foram designados para cuidarem dos animais, das plantas e da casa, deixando-a com o dia inteiro livre.

Quer falar sobre seu medo?

— Não tenho medo deles.

Então seu feitiço não funcionou.

Kláxia sentou-se na rede. Havia passado do meio-dia, mas o Sol ainda estava forte. Uma fraca brisa refrescava levemente. O ruído mais alto era o das ondas nas rochas da praia. Os animais estavam no curral, protegidos do calor. Os passos das sentinelas não produziam som. Ao longe, aves gritavam pelos peixes que conseguiam pescar.

— Já tem alguns anos que eu me pergunto o que eu estou protegendo aqui — começou ela. — Por que ainda vivo em Morrowind? O que resta aqui pra mim?

O que resta aqui para você?

Ela ficou em silêncio um minuto.

— Eu não tenho medo deles. Eu tenho medo de ficar presa nisso. Nesse passado arruinado. Eu tenho medo de voltar a reviver tudo o que eu já vivi.

Hum... Então seu feitiço funcionou melhor do que nós dois imaginamos.

— Não há nenhum momento na minha vida para o qual eu queira voltar. Eu não tenho uma única boa lembrança, Lokdrahzul. Tudo está manchado com dor e sofrimento. Não há nada puro e imaculado. Eu sempre vivi orientada ao futuro, porque o futuro seria melhor, porque no futuro algo bom aconteceria... E o tempo foi passando, mas nada bom aconteceu. Houveram promessas, mas todas se quebraram e deixaram manchas e dor para trás. E agora eu estou aqui, defendendo uma pequena ilha de fantasmas, numa grande ilha de dores, num país que pra mim só traz sofrimento. E pra quê? Por que insistir nisso? O que eu estou cultivando aqui, sobre essas ruínas sentimentais? O que foi destruído não pode mais ser reconstruído. O que se perdeu não pode mais ser recuperado. O que foi corrompido não pode mais ser purificado...

Já pensou em ir para outro país? Skyrim, por exemplo. Daqui a uns 200 anos vai ficar sensacional. Você iria adorar.

Kláxia ignorou o dragão e continuou divagando.

— E pra quem? Nada mais me espera nesse mundo. Eu não faço mais parte dele. Estou aqui apenas ocupando um espaço que não faz falta a ninguém. Não faz sentido ficar.

Nada lhe impede de seguir em frente.

Kláxia ficou em silêncio por um momento.

— Lokdrahzul, se eu morrer, alguma outra vida me aguarda?

Sim. Já conversamos sobre isso. Mas você tem certeza de que já acabou com seus assuntos nesta vida aqui?

— Não consigo ver nenhum motivo pra ficar. Como você disse, nada me impede de seguir em frente.

Então vá.

— Que vida eu terei? Quem eu vou ser?

Lokdrahzul deu uma risada contida.

— Por que você tá rindo?

Como eu expliquei da última vez, você será uma versão aprimorada do que é nesta vida. Para o bem e para o mal.

— O que isso significa?

Se você seguir em frente, você viverá a resposta dessa pergunta.

A Bosmer pensou um pouco.

— Você me ajuda, na transição?

Não.

― Por que não?

Não vou matar você, elfa.

Kláxia suspirou.

— Eu não me odeio o suficiente pra me matar e também não estou sofrendo o suficiente pra isso. Se você não me ajudar, eu vou morrer de quê? De velhice? Daqui a centenas, quem sabe milhares de anos? Eu não tenho mais nada pra fazer aqui, Lokdrahzul.

Não vou lhe ajudar com isso, elfa. Mas você não precisa esperar tanto tempo assim pela morte.

— O que você quer dizer com isso?

Precisamos nos despedir. Foi bom ter sido seu professor, Bosmer. Desejo que você encontre o que procura, esteja onde estiver.

Ela sorriu conformada.

— Obrigada, Lokdrahzul, pela paciência, pela chance, pelo conhecimento e até pelos momentos em que me fez passar raiva.

Quando chegar do lado de cá, não siga o vazio e não siga a luz branca. Siga a luz vermelha.

Kláxia assentiu sem entender, mas esforçou-se para guardar a informação em sua alma. A presença do dragão se dissipou. Uma de suas sentinelas passou na frente dela seguindo para o outro lado da ilha. Foi quando Kláxia teve uma idéia. Pegou várias velas, um punhado de pétalas de nightshade e trancou-se no porão de sua casa. Arrumou as velas num círculo, acendeu, espalhou as pétalas dentro do círculo, deitou-se em cima e, pelos próximos três dias, recitou repetidamente a prece da Irmandade:

"Adorável Mãe, envie seu filho a mim,
pois em sangue e medo devem ser batizados
os pecados dos indignos."

Ao final do terceiro dia, ela sentiu na sua espinha uma presença preenchida pelo vazio de Sithis.

— Você destruiu meus sentinelas?

— Não — disse uma voz masculina.

— Então como passou por eles?

— Não foi fácil, mas o Inominável me ajudou. Quem eu devo matar?

— Eu.

O assassino ficou em silêncio por uns minutos.

— Me disseram que eu deveria mandar sua alma para o Venerável.

Um pânico tomou conta da elfa por um momento.

— Não, por favor, não faça isso. Deixe minha alma seguir livre.

— Não posso voltar sem nada e, pelo visto, sua alma tem valor.

— Pegue a ilha, não tenho herdeiros. Leia meus diários, você vai encontrar informações valiosíssimas neles. Faça o que quiser.

O assassino ficou em silêncio por mais um momento.

— Vou pegar sua ilha e mandar sua alma para Sithis.

— Não.

A elfa se levantou já preparada para lutar, mas o assassino arremessou a adaga direto no coração dela.

Kláxia caiu desorientada sobre as pétalas. Tentou gritar por causa da forte dor, mas a adaga estava tão enterrada em seu peito que não conseguia respirar.

O assassino se aproximou recitando uma oração que ela conhecia muito bem. Aos poucos seu corpo foi ficando mais leve e a dor foi diminuindo. O escuro a abraçou e o Vazio a aguardava.

Nem Nocturnal, nem Hermaeus Mora. Você sempre pertenceu a mim, Bosmer, disse o sussurro no vazio.

— Me deixe ir, Sithis! Eu já lhe servi demais!

A eternidade nunca é demais.

Ao longe, sem descobrir de qual direção, ela ouviu o ruído de asas. O frio do abismo eterno já queimava sua alma quando o som ficou mais alto e ela sentiu garras puxarem-na em direção a uma luz vermelha.

Fique longe disso, filho de Akatosh. Essa alma me pertence.

Essa alma não pertence a ninguém além de si mesma, Padomay.

Ela fez o juramento da eternidade.

Pois eu estou quebrando o juramento dela.

A luz vermelha ficou tão forte que ela não conseguiu ver mais nada.

— Lokdrahzul...

Vá, siga em frente e nunca procure descobrir o que você deixou para trás.

— Obrigada...

Me agradeça nunca mais voltando aqui.

Sua alma seguiu por um túnel vermelho de onde ecoava uma gritaria numa língua que ela não conhecia. Assim que caiu numa bolsa cheia de água quente, Kláxia não existia mais.


One last contract FULLY TRANSLATED!

[17 years ago...]

"Govarys Vloulu is dead," said Dandras Vules with a broad smile.

His words echoed softly through the abandoned sewer chamber of Mournhold. A warm breath blew from the ventilation duct like the sigh of a monster from the depths.

Kláxia remained motionless, processing the shock. She only moved again when the scar on her chest began to ache. She massaged it with her fingertips over the armor and stood up to move her legs, walking from one side of the chamber to the other.

"You still have feelings for him," Dandras said with a disdainful tone.

"Of course I have," said the Bosmer. "Hatred. After what he did to me, I have every right in the world. Not even death would stop me from hating him."

"They say that love and hate are two sides of the same coin."

"Just as food and feces are the two sides of digestion," the Bosmer retorted.

Dandras smiled more relaxedly and put his feet up on the table.

"How did he die?" she asked, sitting back down.

"The Morag Tong had a contract for a Telvanni master."

"Govarys was ranked below Grandmaster. What was he doing accepting that kind of contract?"

"Our spies said he was Eno Hlaalu's favorite and the best candidate to replace him. Maybe he wanted to prove himself to the leader. I don't know. You knew him much better than I did. Intimately," he said, finishing the last word with disdain.

"I've never known him that well."

"You were his girlfriend and didn't know him?"

"I was never his girlfriend."

"Just like you never accepted to be mine," he commented with an irritated smile.

"Perhaps I would've accepted if you had asked. Perhaps not. We'll never know," she said, standing up again and facing the painting with the Brotherhood's commandments.

"I hadn't formalized our relationship before for your own good," he explained. "The other members would say I was making things easier for you."

"They already say that, Dandras. It's even worse because they think we only got together so I could move up in the rankings, since it was never official."

"If that's the problem, then I can officially refer to you as my girlfriend and—"

"I don't want to," the Bosmer said, interrupting him, bored.

"What do you mean you don't want to? Is it because of Govarys?" Dandras put his feet on the floor and leaned forward across the table.

"Our time has passed."

"What do you mean by that?"

Kláxia stared at him and took a deep breath, irritated. She had been losing her patience with the Brotherhood's politics, the petty squabbles, the gossip, the bland contracts for many years. She had felt this way before when she was part of the Thieves' Guild many years ago. She suspected that one day she'd feel the same way again when she joined the Dark Brotherhood, but she hoped that the feeling would never visit her again. She hated when her suspicions came true.

"Did you call me here only to give the news about Govarys?"

"What did you mean by 'our time has passed'?" the Dunmer insisted.

"What more do you want from me, Dandras?"

"If you want to make it official, why not? That's what I'm trying to understand. What do you want from us?"

"There is no more 'us', Dandras."

He stood up smiling and leaned on the table for a few minutes. He adjusted his hair and chuckled randomly.

"Are you breaking up with me? You? Now?"

"To do so we'd need something official. So no, I'm not breaking up anything."

"So you want to make it official?"

"Dandras, I don't want anything else to do with or from you," she said, staring at him with her completely black eyes.

The Dunmer laughed, cleared his throat, tore off a piece of hackle-lo leaf, and began to chew.

"You don't want anything else to do with me? Fine. And the Brotherhood? Are you going to get the contracts from whom?"

"I'm not talking about that," she lied. The elf also wanted nothing to do with the faction, but she couldn't say that without getting stabbed between the eyes.

Dandras approached her and tried to touch her, but the Bosmer pushed him away and stepped back towards the door. The Dunmer's red eyes suddenly gleamed along with a malevolent grin.

"There's a contract that, if you complete it, will allow you to rank up to Master Assassin, placing you above me."

Kláxia stared at him, tired and impatient, but she had always been too curious to leave without first finding out who the poor bastard would be.

"Which contract?"

"A Telvanni master."

Several ideas crossed her mind. The Bosmer sat down again. Dandras did too, smiling, pleased with himself for having rekindled her interest.

"Was the contract with the Morag Tong cancelled?" she asked.

"Govarys died in a way that was a little too public. The mage blew up the assassin in Tel Aruhn's town square. They say that even today the island's inhabitants find slimy pieces in the most unusual places. After that, Morag's reputation has fallen. The contractor came to us demanding discretion."

"How much?"

"Half a million drakes."

Kláxia had accumulated twice that amount throughout her life, so the sum didn't interest her. But even so, it was a very high amount for a contract.

"Quite the sum, isn't it?"

Dandras shrugged.

"The client can pay."

"Have you chosen someone yet?"

"Why send one when we can send them all?" he said, smiling. "First come, first served."

The contract was valuable, and Kláxia knew her Brothers would fail, not because they were incompetent, but because they'd act impulsively. Just like Govarys. What set her apart from them was her contradictory patience. For minor situations like a contract, her patience was almost infinite. But for more important situations like politics, relationships, and life, her patience was short. While the assassins would rush into things at some stage of planning, she maintained a patience as solid as a mountain. Many times, at the beginning of her assassin career, she was sent to complete the contracts of other members who had failed. Until finally her superiors began to choose her over the others. After that, she rose quickly through the ranks, reaching the rank of Dark Sister along with Dandras Vules.

And now there was the opportunity to climb another rank and report directly to the Night Mother, Severa Magia. She'd no longer have to deal with the gossip and jokes of the younger members. She'd have other commitments, other problems.

However, none of that interested her as it once did. The Brotherhood had become a political entity. Its growth was horizontal, through contacts and relationships in a wide variety of places. Kláxia was looking for something beyond, something she didn't yet know exactly what it was, but which she knew had nothing to do with politics.

She wished she could just disappear and start all over again somewhere else. She had more than enough money for it, but the Brotherhood would never let a deserter roam free. Especially someone who knew as much as she did.

However, perhaps all was not lost. If she accepted this contract and killed the Telvanni master, she'd have a great excuse to disappear, claiming that the other mages were after her head. She could go live in High Rock, far away from Morrowind.

One last contract, never to return, she thought.

"I accepted it."

Little did she know that her life was about to change, but in a completely different way than she had planned.

Rose Milk (16+ eroticism) FULLY TRANSLATED!

Perhaps this is the feeling of relief that skooma addicts experience, Sullon thought as he felt the Wraithguard ease the pain in his right hand. This can't last forever.

Nilisi stopped at the door and realized it'd be better to return later, but the letter she carried bore the seal of the Archmaster of the Great House Redoran, Fjorn Strong-Arm, an old friend of the Archmagister.

Sullon noticed the young woman's hesitation and asked her to come inside.

"I'm sorry to bother you, sir. I didn't know how to proceed. You seemed to need a moment of rest, but at the same time, there was this letter from Mr. Fjorn."

Sullon pointed to a small, ornate metal chest that the servant was carrying in her arms, along with the letter.

"I suppose it's the payment."

"Yes, sir. And the Archmaster also sent a letter, but its content seems to be urgent rather than a thank-you note. Therefore..."

Sullon interrupted her:

"Please leave everything on the table and get out." The servant obeyed and got out.

Sullon broke the seal and noticed that the words couldn't follow a straight line, stumbling over each other and spilling over the edge of the paper. The intelligible part of the text read:

... no more plagues in this house! ... proper payment.

Out of curiosity, Sullon opened the beautiful small chest and found that there were more drakes and precious stones than he had the patience to count. He continued deciphering that alcoholic parchment:

A sandstorm or a fog brought me news of you.

The sentence didn't make much sense, like most of the text. Sullon decided to ignore it and move on.

... hurt and in pain. I know an unparalleled healer!

The only thing the new Archmagister of the Great House Telvanni managed to decipher in the last words of that altered dialect was the name of the city of Suran. Sullon wondered if it was a delusion caused by countless bottles of Sujamma or if, somehow, Fjorn had known about the injury to his hand. But how could he?

He remembered the day Fjorn's butler had brought the request to end a mysterious magical plague that had taken over the manor. Sullon was trying to concentrate on the spell that relieved the pain in his right arm — without needing to use the Wraithguard — when Nilisi appeared announcing the butler. His concentration was interrupted and the spell was not completed. Seeing the contained anger in the Archmagister's gaze, the servant Nilisi tried to drag the visitor away from the room, but was metaphorically paralyzed by Sullon's hand and voice:

"No."

He subtly tucked his right arm behind his back and, with his left hand, signaled to encourage the visitor to share the reason for his visit.

Before explaining what had happened, the butler had noticed that something was wrong with the Archmagister, but he didn't dare ask if he could help. After the visit was cleared up, Sullon dispatched an apprentice mage to solve his friend's magical problem.

Obviously, the butler had told his master about the Archmagister's pain. The question, then, was: At what level of sobriety was Fjorn when he found out?

Sullon's lips tried to move into a smile, but the weight of his responsibilities and pains blocked the path between his facial muscles, and the most he managed was a superficial grimace.

There'd come a time, probably in the distant future, when he could no longer rely on the Wraithguard to ease his pain, and perhaps not even have the energy or time to perform the restoration spell. And that moment, with that pain, could cost him his life.

He knew there was no healer in the world who could heal his wound if even he couldn't heal it himself. However, a visit to the hateful lands of Suran might distract him from his pain for an hour or two. And also, he was curious to know who this unparalleled healer was who lived incognito in the southern lands. If all else failed, Ebonheart was nearby, and he could visit his friend Augustus.

The following morning, Sullon was in the city of Suran, unsure how to find the incredible healer. He approached a passerby and asked if he could point him in the direction of the establishment of a remarkable healer who lived there. The passerby impatiently walked away, muttering that he didn't know any healer so special.

Sullon repeated the question to half a dozen more people, receiving the same answer. He decided to go into an apothecary's shop and ask him. The same negative response was repeated. Sullon then had an idea:

"The healer I'm looking for has done some work for Fjorn Strong-Arm, Archmaster of the Great House Redoran."

The apothecary, Ibarnadad, flashed a smile that mixed mockery, amusement, debauchery, and envy.

"Of course. Fjorn is well known here for his frequent visits and use of extremely expensive healing services." After uttering these last two words, he observed that, judging by the mage's clothes, money was no object.

The next moment, Sullon's posture made it clear that he wasn't going to repeat the question. Ibarnadad straightened up and tried to answer with some degree of superiority, but failed miserably.

"You will find her at the Desele's House of Earthly Delights."

The name of the establishment should have sounded an alarm for Sullon, but his innocence prevented any such mental manifestation.

"Thank you." And he placed two drakes on the counter, stunning and offending the apothecary with his stinginess.

In front of the establishment, Sullon noticed that some men were looking at him with a deep understanding, while some women made no attempt to hide their disgust. Somewhat naively, Sullon decided to go inside.

The sight of the place subtly triggered his instincts, making him understand what kind of healing practices his friend engaged in there. The women, of all shapes and races, wore uniforms likely enchanted by some failed invisibility spell, as their bodies were completely exposed.

A Bosmer woman with many teeth, face paint and some skoomas approached the Archmagister.

"How can I help you?"

Part of his mind told him that this was a waste of time, but his muscles wouldn't obey, and the other part of his mind ignored him when he answered the Bosmer:

"A healer friend of Fjorn Strong-Arm."

The Bosmer let out a laugh that escaped through her teeth like an internal punch.

"Roxanny. She sees patients on the second floor, third room on the right."

Not understanding why his legs wouldn't obey him, Sullon walked to the mysterious room, stopped, and knocked. The door opened, and the Dunmer was greeted by a pair of enormous breasts that defied the laws of physics on Nirn, emitting a strange pink glow.

The Breton woman who appeared behind the unusual twins let a sensual and playful smile light up her face before replying:

"A cream based on a levitation formula."

Roxanny stepped aside, opening the door wider to let her new client in, but Sullon figured the four of them wouldn't all fit in that tiny room.

"Come in." She indicated a table with a chair.

The mage sat down and saw that the dancer had locked the door.

"Are you a healer?"

"Is that what you need?"

Instinctively, Sullon glanced at the Dwemer gauntlet covering his right arm.

"May I?" she asked, pointing to the piece of armor.

Sullon removed the Wraithguard and stretched out his arm. The Breton touched his hand gently, and a dark cloud invaded her face when she saw the mage's injury.

"It's not a pretty scar. Does it hurt?"

Sullon silently confirmed. Roxanny examined the wound and declared:

"You're cursed. In every possible way. Where did you get hurt like this?"

"A story I'd rather not tell."

She shook her head as if she perfectly understood that some stories shouldn't be told. Noticing that the dancer's face held some knowledge, Sullon asked:

"Is there anything you can do?"

"Oh, yes. Many things. I won't promise you'll be healed forever. But I believe I can lessen your pain to the point where it becomes bearable without further affecting your life."

A glimmer of hope and relief momentarily illuminated the tired and aching Dunmer's face.

Quickly, Roxanny opened a cupboard revealing a small alchemy table and many shelves filled with jars of ingredients. She took a container of a whitish ointment and applied it to her breasts. Slowly, they settled as they should. She wiped away the excess substance with a paper towel and excused herself to wash up. At that moment, Sullon noticed, for the first time, that there was a door behind the table leading to a bathroom. Perhaps the tiny room held some illusionary spells he hadn't noticed before.

When Roxanny returned, Sullon took the opportunity to gather more information:

"Your room is bigger than it looks. Interesting that I didn't notice before."

She smiled and explained:

"I was once a member of the Mages Guild and the Great House Telvanni."

As if a gust of wind had pushed him, Sullon's surprise caused him to lightly bump his back against the back of the chair.

"But it was for a short time in both cases," she explained.

When the mage gasped for air to ask something, Roxanny placed a finger to his lips and made a shushing sound. From the alchemy cabinet, she retrieved a wooden container with two separate, concave compartments, handed it to the mage to hold in his right hand, and positioned it beneath her breasts. She sat on his lap and guided his left hand to the middle of her legs. Sullon held his breath.

Short hair covered the damp flesh of the place where his hand had been invited. When his fingers reached a small opening, Sullon felt the long-broken membrane and concluded that many needy people had been there before him.

Gently, she pressed the mage's hand against her body, and he understood what he should do, letting two of his fingers slip into the small opening.

With firm, yet gentle movements, Sullon watched as Breton let out a loud moan and a white liquid gushed from her breasts, quickly filling the two concave spaces of the wooden container he was still holding.

She smiled, pulled his hand away, picked up the container with the white liquid, walked to the small — or large, Sullon couldn't tell — alchemy table, took a piece of paper and handed it to him to clean his hands. Then she began to prepare a balm by mixing various ingredients that he didn't want to try to guess.

"Who was your master at House Telvanni?"

"Neloth."

"I've never heard of any Breton apprentice named Roxanny."

"That's not my real name."

"And what is your real name?"

Breton smiled enigmatically. Sullon continued:

"Even so, I'm sure I would've become aware of someone like you."

"I had an affair with Aerin that lasted a few years."

"I don't know who he is."

"Exactly." She smiled. "And it's not a 'he' but a 'she.' She's a rogue."

Sullon nodded as if that really explained everything.

"How did you manage to be Neloth's apprentice?"

"Putting breast milk in his tea without him knowing and then hearing: 'Tell that young lady Breton to make my tea the way I like it'."

From Sullon's mouth came a cough, a bark, or a laugh — no one could classify it — but it perfectly defined his emotion in the face of the story.

"Do you really work here as a healer?"

"Sometimes. Most of the time, it's men who can't use their swords. My potions and lotions solve their problem."

Suddenly, Sullon remembered his friend.

"Does Fjorn have impotence problems?" And, at the same time, he corrected himself: "No, no! I don't want to know!"

"Fjorn has liver problems."

"That's not a surprise."

"It's ready. Raise your arm."

Sullon obeyed and Roxanny placed a container of balm on the table. She took out a good amount and gently applied it all over the wounded mage's hand and arm.

"Is that all?"

"No." She smiled.

The Breton sat down on the mage's lap, placed his wounded arm between her breasts, and used both of them to rub it.

"What is that?"

"The breast tissue has the correct temperature to activate the balm through the skin."

After an amount of time that the Dunmer couldn't quantify, he realized they were closer and that a very pleasant sensation was spreading through his body, emanating from between his legs. He looked and saw that his pants were down and his dark gray member had disappeared inside the damp opening from before.

"Don't use any more illusion spells on me. I'll pay handsomely for this service, I want to witness everything," he ordered.

"Yes, sir." She smiled.

Incredibly, the pain had subsided, leaving almost a sense of relief as the Breton's enormous breasts continued to massage his injured arm.

Roxanny leaned in to kiss him, but changed her mind when she realized it wouldn't be reciprocated. She felt strange, she didn't know why, but his indifference bothered her.

With his left arm, Sullon pulled her closer, and their movements became faster and more desperate. It wasn't long before their moans echoed as one, and the two separated again.

Roxanny got up and went to the bathroom. Sullon got up and took the liberty of getting some tissues from the cabinet to clean himself up. When she returned, he was already dressed and wearing the Wraithguard. The dancer put what was left of the balm in a glass jar and handed it to him.

"You can apply it whenever you feel uncomfortable, or you can come here and I'll apply it, but rest assured that this discomfort won't happen often."

"And the temperature?"

"It works with any pair of breasts. But if you wish to come back..."

Sullon nodded, somewhat embarrassed.

"That's 8,900 drakes," the Breton declared without the slightest hesitation.

"All this for a 5-minute sex session?"

"The sex was a bonus. And it wasn't just 5 minutes."

Annoyed, Sullon handed the dancer-healer the small cloth bag he was carrying containing 10,000 drakes, and warned:

"Eleven hundred drakes are for the milk in Neloth's tea."

THE END.

A Gift for Elsa Fjorn — 3E 422 FULLY TRANSLATED!

Servants hurried about, serving drinks and snacks to the four illustrious guests and their respective personal guards who crowded into the manor's main hall. It was a tense moment for the servants, as each guest had their own gastronomic preferences, and serving the wrong food to one of them could land them weeks working in Kwama's egg mines. However, they didn't realize that the Archmaster of House Redoran was a tough brute with a soft heart. He threatened them, but never sent any of them to the mines. Most of the time, he was away, helping his friends in a more violent way. And he left all domestic responsibilities to Lady Greta, his wife. But after the birth of young Elsa, Fjorn Strong-Arm had to resign himself of that dangerous life and return home. At least for the time being.

The Archmaster of the Great House Redoran appeared in the hall with a solemn air. It had only been two months since his daughter was born, but all the worries of years to come already weighed heavily on his shoulders, burdened by a responsibility he had postponed as long as possible.

"Friends..." the Nord said in his booming voice.

The chatter ceased and all the guests turned to him. Someone started a round of applause and Fjorn waited humbly with a half-smile on his face until the hall fell silent.

"First, I want you all to know that your presence here today is more of a gift to me than to Elsa."

"You'll never get rid of us," Telvarys said.

"That's what I hope," Fjorn remarked to the Archmagister. "I know we have many years ahead of us," he said, addressing everyone, "but when I'm alone outside at dawn, waiting for sunrise, my whole life flashes before my eyes, and all the memories seem so fresh and recent... But what has it been? Ten years? More?"

"Thirteen years," said Augustus.

"Thirteen years," Fjorn continued. "And it doesn't seem like all that time has passed. To me, it's as if yesterday and today are intertwined. But at the same time, I keep accumulating calluses, scars, and wrinkles that remind me, every morning when the sun rises, that time keeps passing steadily and strongly. That it never stopped passing."

A heavy atmosphere settled over the room, and all the guests took a sip of their drinks to help swallow the lump that was beginning to form in their throats. Fjorn continued:

"Yesterday I was out there killing dremoras, today I'm a father. I have a family, a great responsibility. But I also have responsibilities to the Great House Redoran and to all of you."

"None of us will demand that you abandon your family, Fjorn," Augustus said, glancing sideways at Telvarys and Sullon. "Family always comes first."

"I wouldn't mind walking through that door and throwing myself into the first adventure that came along with you guys," Fjorn continued. "Believe me, I still really want to join you and smash some skulls. But I also can't ignore that there's a little person who's going to depend on me for many years to come."

"Ask whatever you want from us, Archmaster," said Telvarys, already guessing what the Nord's stalling tactic was all about.

"Take care of my daughter if anything happens to me," he blurted out all at once, letting out a relieved sigh.

The hall, filled with the most powerful leaders of Morrowind, fell silent under the weight of that request.

However, the whole atmosphere was ruined – for better or for worse – when the door swung open and the sandstorm invaded the hall along with a Redoran guard and a Bosmer dressed in black. The guests protected their faces as best they could: some with their hands, others with magic. One guard helped another to close the door, and the dust gradually settled.

Now all eyes were on the Bosmer wearing a hideous helmet of boiled Netch leather with a pair of goggles that gave her a gigantic ant-like head, and a large leather backpack on her back.

"Always late..." grumbled Augustus.

"And always trying to be the center of attention," Telvarys commented.

"I'm so sorry," the elf began, removing her helmet. "I had a little problem at home with an infestation of two insects that I had to exterminate. Please excuse any stench. I aimed for the heart, but it hit the intestines... Ugh."

Some of the guests took a deep breath and massaged their temples. Others drank their beverages in one gulp and ordered the servants to refill their mugs.

"I remembered you being more polite," Augustus remarked.

"And I remembered you when you were thinner."

The Knight of the Imperial Dragon's face darkened like the crimson sky of the Mountain, and he immediately placed his hand on the protruding belly beneath the perfectly polished Lord's Mail.

"And the girl, where is she?" the Bosmer continued. "How old is she now? And what about her boyfriends?"

"By the Eight Divines..." Telvarys muttered, covering his eyes.

Faldrien, the Master Thief, who had remained silent until then, let out a sharp laugh. Augustus shook his head negatively. Sullon's hands became slightly illuminated as he warmed his tea. Fjorn, meanwhile, blushed as the Nords often do in the heat or when they are annoyed.

"Look, Kláxia, you're welcome, but my goodwill has its limits," said the host.

"I'm sorry, I didn't mean to offend you," said the elf, raising her arms in a gesture of peace. "I brought gifts for her, but I don't know if they'll be of any use."

"Before any gifts," Augustus began, "we should make an oath."

"An oath?" Fjorn and Kláxia asked at the same time.

"Well, we'll all take care of your daughter should misfortune befall her — may the Divines favor her and grant her a happy future — but to ease everyone's conscience, it'd be best if we made an oath."

"All this is unnecessary," said the Nord. "I trust your word."

"If you trust our word," the Knight began, "then our oath will seal any doubt, from anyone, at any point in history."

"I see no problem with an oath," Telvarys said.

Everyone nodded in agreement.

"Then let the oath be taken," said Fjorn. "But how does one take an oath?"

Augustus unsheathed the Chrysamere and pointed it at the ground.

"Nothing better than swearing at the foot of the sword that is older than all of us in this room combined," said the Knight.

Faldrien, who was not one for many words or patience, walked to the middle of the hall and knelt. Augustus rested the blade on the Master Thief's shoulder.

"Say your full name," Augustus began, "and repeat, '...under the watchful eyes of all the Divines, of the Tribunal, of all the Daedric Lords and Princes, and of all those who have passed, I swear that I will protect Elsa Fjorn at any cost, at any time, and in any place. If I fail in my mission, may my shame be as colossal as the entire existence of the Planes.'"

Faldrien stared at him in astonishment.

"A bit exaggerated, don't you think?" asked the Master Thief.

"Look our friend Fjorn in the eye and tell him you think protecting his daughter is an exaggeration," Augustus replied.

Faldrien swallowed hard, took a deep breath, and began:

"I, Faldrien Alvalorn, under the watchful eyes of all the Divines, the Tribunal, the Daedric Lords and Princes, and all those who have passed, swear that I will protect Elsa Fjorn at any cost, at any time, and in any place. If I fail in my mission, may my shame be as colossal as the entire existence of the Planes."

The Knight made Chrysamere jump from one of the Bosmer's shoulder to the other twice before lowering the sword. Faldrien stood up and returned to his corner with a somewhat disgruntled expression.

The Archmagister of the Telvanni House was next. Immediately after him, Sullon pronounced his oath.

Then everyone looked at Kláxia, and the elf hesitated.

"Is it okay if it's just my first name?" she asked. "I don't like to give my family name away."

"If you won't swear by your own name, what will you swear by?" Augustus asked.

Kláxia walked up to the Knight and knelt before him, who then placed his sword on her shoulder.

"I, Kláxia — who stand here before you all; who have placed my heart in the hands of some of you many times; who have departed in body many times, but never in soul; who have always returned to you despite everything; who have hated you many times and have also been hated by you many times —, under the watchful eyes of all the Divines, of the Tribunal, of all the Daedric Lords and Princes, and of all those who have passed, swear that I will protect Elsa Fjorn at any cost, at any time, and in any place. If I fail in my mission, may my shame be as colossal as the entire existence of the Planes."

Augustus bounced the sword from one shoulder to the other and pulled it away. The Bosmer stood up and got close to Faldrien.

"Now it's my turn," said the Knight, handing the sword to the host.

Fjorn placed the sword on his shoulder with trembling hands. The Chrysamere was magnificent and had witnessed everything and more that the world had to offer. And, at that moment, another piece of the history of Men and Mer would be etched into the essence of the sword.

Augustus took his oath, reciting each word as if dictating a manuscript, which made the eyes of the two Telvanni mages roll in their sockets.

As soon as the Knight finished, Fjorn returned the sword to him and tried to hide his teary eyes.

"Is there any more drama, or can we start handing out the presents?" Kláxia asked.

Augustus pretended not to hear, but the others mentally thanked the Divines for easing the extremely heavy and solemn atmosphere somewhat.

"I'll start," said Faldrien, taking a heavy bundle from his pocket and approaching the host. "For the young lady of the Great House Redoran, I bring jewels." And he handed him three bracelets of precious stones that shone strangely.

Quickly, Telvarys crossed the hall and grabbed one of the bracelets.

"I don't mean to be rude," the Archmagister began, "but I don't think a human child should be walking around wearing a bracelet enchanted with Soultrap."

Fjorn stared at the Master Thief with the typical bored expression of the Nords.

"I don't understand anything about magic," Faldrien said apologetically. "I picked what was shiny and beautiful."

Telvarys, Sullon, and Augustus massaged their temples. Kláxia laughed as she devoured some canapés that a servant had brought.

"Is there anything else I should know?" asked the host.

"This one here," Telvarys began, "is enchanted with Fortify speed, acrobatics, strength, athletics, hand-to-hand, and marksman."

With wide eyes, Fjorn returned the bracelet to the Master Thief.

"I'm sure Greta won't like it our daughter wearing... that at all," the Nord said.

"I don't know Lady Greta that well," said Telvarys, "but I'm also sure that any child in possession of that bracelet would be a more infernal creature than a Daedric Lord."

"And this last one?" Fjorn asked the Archmagister.

"Ha! I think that's a good gift," said Telvarys. "It's enchanted with Cure Common Disease and Blight, and Restore Health and Fatigue."

Fjorn nodded in agreement and smiled at the Bosmer.

"Thank you very much, Faldrien. Greta will love it."

Faldrien smiled somewhat reluctantly again and put the other two bracelets in his pocket.

Suddenly, Kláxia spat out her drink.

"What is this?" she asked.

"Your favorite drink, I've been told, is ash yam with comberry, marshmerrow, and alcohol," Fjorn replied.

"This isn't The Cadavers' Lullaby," she said, taking a sip of Flin to wash away the bad taste. "It's missing Moon Sugar!"

"Criminal substances don't enter this house," Fjorn said emphatically.

Kláxia did a twirl and maintained a fake smile as she stopped, staring at the host with an inquisitive look.

"With a few exceptions," Fjorn finished, staring at the two rogues.

She drank the whole mug of Flin and said:

"Okay, let's get to my presents."

The Bosmer opened her large leather backpack and began taking out random items and placing them on the table.

"Where are they...?" she muttered to herself as she pulled more and more trinkets out of her seemingly bottomless backpack. "Ah, here they are! A blanket to keep her warm. I bought it — yes, I bought it! — in Mournhold. They said it's imported from Skyrim."

"Cold?" Telvarys commented. "Here in Morrowind?"

"Anywhere," Kláxia replied. "The blanket doesn't discriminate against any kind of cold."

Augustus took a deep breath and downed his drink in one gulp. Faldrien laughed. Sullon grilled some canapés more thoroughly. Telvarys shook his head.

"Thank you, Kláxia," said Fjorn. "Elsa is still very young, she feels the cold more easily."

"There's more. Books! ABCs for Barbarians; The Black Arrow; the Blue and the Yellow Book of Riddles; The Five Far Stars; Homilies of Blessed Almalexia; The Hope of the Redoran; and the Unnamed Book.

"You probably don't want your little one reading the Unnamed Book, Archmaster," said Telvarys.

"Why not?" asked Kláxia, annoyed. "It's an excellent book on how to kill someone with just a knife!"

Augustus took several deep breaths. The rest had already given up. Fjorn returned the book.

"That's a lot of books already, Kláxia, thank you."

"I have more presents! A Dwemer spider, already properly deactivated. The girl needs something to play with, doesn't she?"

"A rag doll would be just fine," said Fjorn.

"Oh, but keep the spider for decoration then."

"Thank you, Kláxia. There's no need of anything else."

"But I have more!"

Fjorn looked at her pleadingly, but she didn't care.

"One last thing. I had this ebony dagger, studded with pearls, made for when she grew up, you know. But there's a problem..."

As soon as the Bosmer drew the dagger from its sheath, a terrible odor filled the hall. Everyone covered their noses as best as they could: some with magic, others with their hands.

"I was finishing polishing it when two insects invaded my house and... Guts, intestines... Anyway. Look, I believe it's usable, but you'll need to wash it very well. I cleaned it, but apparently it wasn't enough."

Fjorn signaled her to put away the dagger and hand it to one of the guards, who rushed out of the hall towards the still-raging storm. Two guards closed the door faster than before, and no one suffered so much from the sand.

"Thank you, Kláxia, truly."

Augustus signaled to his guards to bring the crate to the center of the hall and open it. Among the straw, various metallic surfaces reflected all the lamps in the room.

"My gift for Miss Elsa," the Knight began, "will only be useful to her when she's an adult. As we've all demonstrated today, we're not good with children. But I want you to know that I've always held you in high esteem and did my best to give your daughter a gift."

"You've done more than I could've asked. Thank you all, truly," said the host.

Augustus pushed aside the straw and lifted, one by one, the pieces of a full suit of armor made of steel and silver, studded with various precious stones and complemented by gold arabesque details. In the center of the breastplate, the symbol of Fjorn was carved with gold and tiny diamonds. And, to accompany it, a battle axe with two lateral blades that resembled the shape of a butterfly with open wings, also bearing the symbol of Fjorn carved into it, but without gold or precious stones. Even so, it was a weapon that drew sighs from everyone in the hall.

"Wow! But you're going to make me jealous of the little one!" said Fjorn. "What a beautiful set, Augustus! Thank you so much! Greta won't like it very much because she wants Elsa to be a respectable lady and get married soon, but I think the little one will follow in her father's footsteps," he added proudly.

"So the little Nord warrior already has something to wear," said Augustus.

Telvarys signaled one of his apprentices to deliver a medium-sized wooden box to the host.

"Here are the ice and fire salts, the common resin, the shalk resin, and the recipe for embalming organs," the Archmagister recounted.

"Thank you, my friend. Greta will be very happy."

Telvarys signaled to another apprentice who handed over a cloth bundle. Fjorn unwrapped it and revealed a large rag doll that glowed magically.

"Made by the best tailor in Vvardenfell," Telvarys began, "I enchanted this doll to talk to your daughter and sing lullabies, educational, motivational and fun songs; and also to tell stories with moral, ethical and civic principles. Possessing a collection of thousands of works and songs, I believe it will be a long-time companion for your little one."

"Thank you so much, Archmagister! But how do we activate the doll?"

"It'll respond to your daughter's voice automatically."

"Then we'll have to wait a year or two until we're sure it won't explode," Fjorn said, adding, "No offense."

"I'll let it pass, Archmaster. But no, the doll isn't enchanted with any spells of fire, explosions, ice, shock, or anything that could do harm. It's just songs and stories. The doll will only speak."

Sullon approached Fjorn and handed him a small package. The Nord unwrapped the cloths and found a shiny belt and a small wooden box.

"This belt is enchanted with resistance to fire, shock, and magicka," said the Nerevarine. "I decided to enchant a belt so that it can be adjusted to her body throughout her life and through all the changes she goes."

Fjorn was about to open the small box, but Sullon stopped his hand.

"And in the box," he continued, "there are spores of giant mushrooms. She can sow them anywhere and an entire city will grow. Young Elsa can have her own people, if she wants, not just a fortress."

Fjorn smiled, his eyes welling up with tears again.

"You've done so much for me today, I don't even know what to say. Thank you so, so much." And he tapped the Nerevarine's shoulder.

A servant entered the hall and announced that Lady Greta and the infant were ready to receive the visitors.

Except for the guards who waited in the hall, everyone followed Fjorn to a smaller room where his wife was sitting beside a crib where a blonde baby girl slept peacefully.

The Nord handed over the wooden box, a gift from the Archmagister to his wife, and Telvarys approached the Nord woman to explain that the recipe was included with the ingredients and to ask how she had preserved the organ. She thanked him and said:

"The placenta is in the basement, in a barrel full of alcohol, as you recommended."

"When embalming, let the alcohol evaporate naturally, without blowing on it, without cloths, and definitely without using fire," explained the Archmagister. "Then, just follow the recipe and everything will be fine. If you need help, I can leave one of my apprentices here to assist you."

"Thank you very much, sir, but that won't be necessary. We also have an alchemist here at the manor. I don't want to give you any more trouble."

"It wouldn't be any trouble at all, ma'am, but if you prefer it this way..."

"Why do you want to embalm your placenta?" Kláxia asked, expressing the doubts of many there.

"It's an ancient ritual of my people. When we turn twelve, our mothers take us to the foot of the largest and oldest tree in our hometown and bury the placenta as a symbol of connection to the earth. Just as we came into this world through a placenta, we will depart through it into the soil," the Nord woman explained. "We usually dehydrate the placenta in the sun and salt it, but not much remains after more than a decade. With the Archmagister's recipe, I believe most of it will be saved."

"Certainly," said Telvarys. "If not all of it, then most of it. But I bet the entire placenta will be perfectly preserved."

Suddenly, the brief silence was broken by a high-pitched noise like squeaks, and hollow as a thousand paws.

"Are you all hearing this?" Kláxia asked.

They all agreed and looked around searching for the source of the sound.

The servants rushed up the stairs shouting and ran towards the exits. The sound of dozens of swords and axes being drawn could be heard in the main hall. Augustus gripped the hilt of the Chrysamere. Kláxia and Faldrien drew their daggers. Fjorn grabbed a battle axe that adorned one of the walls and positioned himself between his wife and daughter, and the door. Sullon drew his katana. And Telvarys used a spell to scan the manor.

"By the Eight Divines..." commented the Archmagister. "Thousands of rats. In the cellar, scratching and gnawing at a single barrel."

The Nord couple exchanged a glance.

"Did the smell of the placenta attract the rats?" Fjorn asked.

"Not by the thousands," said Telvarys. "This looks like magic. A very dense and dark energy."

Then hundreds of rats invaded the small room like a chaotic army, climbing the walls, knocking over objects and furniture, and rushing towards the crib. Lady Greta grabbed her daughter and screamed as she climbed onto a chair. Telvarys formed a barrier around the two while the rest slashed, punched, kicked, and tore apart the rats. However, all the effort seemed in vain because the rats kept sprouting up everywhere.

Some of the pests tried to get inside the barrier, but after several failed attempts, they gathered on one side and piled on top of each other to reach the top.

"What kind of witchcraft is this?" shouted Augustus, smashing the ever-growing pyramid of rats to pieces.

"We have to evacuate the manor!" Sullon said as he fried a torrent of rats that gushed out the door.

The guards managed to fight their way into the small room, but the rats continued to multiply.

"Lady Greta, get down from the chair and walk ahead of me to the main door," said Telvarys. "Don't worry, I won't dispel the barrier."

However, the Nord woman didn't stop screaming, clinging to the baby who stared at the mother with wide eyes, but fearlessly.

"Archmaster!" shouted Telvarys. "We need to leave!"

Fjorn kicked and stomped on the rats until he reached his wife and daughter in the chair.

"Stop yelling, woman! We have to get out of the manor! Get down from there right now!"

Lady Greta got down from the chair with great difficulty because of the screams she couldn't silence and because of a violent trembling.

With great difficulty, the group and the guards made their way to the door of the main hall and managed to leave the manor.

Outside, the storm had passed and the sky was clear. Everyone gathered in a circle in the fortress square, fighting to stop the rats from attacking Fjorn's family.

"Archmaegister, what the hell is this?" the Nord yelled as he crushed the rats' skulls with his steel boot.

"An evil energy," Telvarys replied. "An incomprehensible force. A corrupted entity."

Sullon stared at the Telvanni mage for a moment, and some rats crawled up his robes. The Nerevarine sliced ​​them apart and slowly approached the Archmagister.

"Are you sure it's him?" Sullon asked.

"These beasts are mad," Telvarys began. "He's the only one who can drive anyone insane." With one hand, he maintained the magical barrier surrounding mother and daughter, and with the other, he froze the rats that tried to climb it. "Besides, he still feels connected to us. He still thinks about us. He still harbors feelings."

"How do you know that?" Sullon asked.

"He has been trying to visit me in my dreams, but my mental barriers prevent him from getting close."

"Who are you talking about?" Fjorn shouted. "Who's behind this damned attack on my family?"

Immediately, the rats abandoned the group and headed towards the front gate, outside the fortress walls.

"What was that?" Augustus asked, breathless.

"Something tells me we'll find out soon," Telvarys replied.

"Damn mages! Stop with the mystery!" shouted the Nord. "What happened here?"

Telvarys removed the barrier from the mother and daughter.

"Everything is all right now, Lady Greta," he said. "The rats won't be coming back."

The woman sobbed and trembled as if she had been abandoned in the snows of Solsthein. Guards kept their weapons drawn in case anything else happened. Some servants tried to reassure their mistress.

Outside the fortress, right in front of the gate, a group of Ascended Sleepers formed a circle and made a strange noise. Rats scurried around the creatures in two rows: one rotating clockwise and the other counter-clockwise.

A guard shot an arrow at one of the Mountain creatures, but a magical barrier revealed itself, destroying the arrow.

Some guards, all the servants, and Fjorn's family remained in the middle of the square while the group approached the gate just close enough to hear what the Sleepers were saying. However, the voice was not theirs. It sounded from the air, from time, from the moment.

A new cycle begins, and with it, hopes are renewed, said the mysterious voice. Even in an all-out war, a truce carries within it the seed of a new beginning.

"What kind of nonsense is this?" Fjorn complained.

"Tell us what you know," said Augustus, staring at the two Telvanni mages.

"We don't need to," Telvarys said with a serious expression.

The Mountain welcomes youth, evolution, change, rebirth, the voice continued. On one side, worldly life; on the other, the misunderstood blessing. He waited for centuries to bless the world with a new perspective. I can wait millennia. One day, all will accept Corprus as the only right path.

"Dagoth Devullian..." Augustus whispered.

"You damned traitorous demon!" Fjorn growled.

With the exception of the two mages, everyone raised their weapons, preparing to attack.

"They have a very powerful shield," Telvarys began. "If you're foolish enough to attack, you could cause an explosion and destroy everything."

"What are we going to do then?" shouted the Nord. "Let them curse us with that plague?"

"If that were Dagoth Devullian's wish, we wouldn't be here talking," replied the Archmagister.

"And what the hell does he want then?" he shouted even louder.

"Listen."

This world will be mine, but not yet, the voice continued. And so, I offer something you would call a gift, but I call misfortune. The young life that has come into this world will be immunized against Corprus. An exception I will never repeat.

"What is the traitor talking about?" Fjorn asked.

The two mages looked at each other. Telvarys spoke:

"Dagoth Devullian wants to cast a spell so that Miss Elsa will never contract Corprus."

"That's impossible," said Augustus.

"Not if he so desires."

"And why would he want to do something like that after betraying everyone?" the Knight continued.

"The heart of the Mountain is lonely," Telvarys replied. "Dagoth Devullian still retains a vestige of who he once was."

"And you believe that?" Fjorn yelled.

The barrier widened enough to incinerate the two rows of rats and end that macabre sight. Then it diminished and faded, exposing the circle of Ascended Sleepers that were still emitting a faint noise.

The Nerevarine may enter the circle with the child, said the voice of Dagoth Devullian that hung in the air. Anyone else who enters the circle will have a blessed and painful end.

"No one will take my daughter to this madness!" Fjorn shouted furiously. "Now go back to your damned grave and never set foot on my land again, you traitorous monster!"

"Technically," Telvarys began, "they are not on your land, but outside of it."

Fjorn growled, his face as red as the storms of the Mountain.

"You're too close! Now get out of here, you freaks!"

"Think carefully, Archmaster," said Telvarys. "Immunity to Corprus would be one of the best things that could happen to your daughter. Your stronghold is too close to the Mountain. And remember, only Sullon has been cured. Fyr hasn't found a cure for anyone else yet. Despite everything, I think you should accept."

"Why do you believe in that damned demon?! He wants to kill my daughter!"

"Why bother?"

"An army, I don't know!"

"With your child?" Telvarys continued. "How could Miss Elsa fight if she hasn't even been weaned yet?"

"He wants to sacrifice her to gain an army!"

"He already has an army, Archmaster. Think about it. Even if everything goes wrong in her life, your daughter will never become a monster. Isn't that what we swore to? To protect your daughter from all evil at any cost?"

"But he didn't swear an oath!" said the Nord, pointing to the group of creatures.

"But Sullon did. Me too. And as long as we're both here, Dagoth Devullian won't be able to hurt your daughter."

Fjorn's face contorted in disgust. He wanted to immunize his daughter against that horrible disease, but the idea that the opposite could happen was too terrifying.

"How can you guarantee that he won't infect my daughter?"

"He wouldn't need all this if he wanted to infect the child," Telvarys replied. "And, for him, it'd be more advantageous to infect all of us, powerful mages and warriors, and not a baby who can't even walk yet."

"If anything happens..."

"Nothing bad will happen," Telvarys assured her. "Today is the day Miss Elsa receives gifts. And this is the greatest gift of all."

The Nord watched his wife, still trembling, carrying the baby girl in her arms.

"I need to talk to Greta."

"She'll never accept it," Telvarys said.

"Do you want me to forcibly take my daughter from her mother's arms?"

"Absolutely not. I'm going with you."

The two moved away from the group. Telvarys walked with a firm step, and Fjorn walked heavily, as if he could no longer bear the weight of the armor he had carried for almost his entire life.

"This is madness," Faldrien said, and to Sullon, "They're going to kill you both."

"I agree with the Archmagister," Sullon commented. "There's something different. This doesn't seem like the same Dagoth Devullian who controls the Mountain. It's as if he's not so... deformed anymore."

"And here I was, thinking I enjoyed living dangerously," Kláxia remarked.

Lady Greta screamed when Fjorn tried to take Elsa from her arms. Telvarys touched the woman's shoulder with his slightly greenish hand. The Archmaster's wife immediately calmed down and let her husband take the child.

The two approached the gate.

"If something bad happens to my daughter," Fjorn began, "our friendship ends here."

"And ours too," Augustus said to the two mages.

Faldrien and Kláxia looked at each other and took a few steps back.

"No friendship will end," said Telvarys. "We swore an oath, and we'll not break it. Nothing bad will happen to Miss Elsa."

Fjorn handed his daughter over to Sullon. The mage held her with the excessive care typical of the inexperienced, and walked slowly to the circle of Ascended Sleepers that opened to receive them.

As soon as the two entered the circle, it closed and the creatures chanted a macabre song. Fjorn lunged forward growling, but Telvarys and Augustus held him back.

The creatures danced around the Nerevarine and the baby, who stared at everything with wide eyes. Then, they joined hands, causing colored lights to emanate from their bodies, and then they threw the lights towards the center of the circle.

For a moment, the mage and the child were enveloped in a storm of chaotic lights that faded until they disappeared completely. The creatures opened the circle and let the two out. As soon as the Nerevarine entered the fortress, the Ascended Sleepers wandered towards the horizon and vanished abruptly.

Fjorn took his daughter in his arms. She looked at him and laughed, tugging at her father's beard.

"How is she?" the Nord asked the two mages.

Augustus, Kláxia, Faldrien, and Telvarys approached.

"I see nothing wrong with her," said the Archmagister. "She seems perfectly fine to me. If you wish, I can send a trusted healer to examine her."

"Do it," Fjorn said.

Lady Greta ran up to them and grabbed the child.

"My baby! What did they do to you?" she said, crying. "If anything happens to my daughter..." And she turned angrily to her husband: "I'll have a little chat with you later." And she went to the servants who accompanied her back to the manor along with some guards.

"The child is fine," Telvarys assured. "Dagoth Devullian did what he said he'd do and nothing more."

"We'll see," said Fjorn, sounding a little bitter.

Everyone bid farewell to the host in an unpleasant atmosphere and continued their journey to their respective cities.

27 de Evening Star – 3E 422

Augustus, vestido com um avental impecável, desceu até a cozinha de Ebonheart onde todos os quatro convidados se encontravam. Dispensou os funcionários e mandou um dos guardas trazer um animal com cuidado.

— O que estamos fazendo aqui, Augustus? — perguntou Kláxia que arremessava as pequenas facas para cortar legumes nos sacos de batata que se empilhavam num canto.

— Por que 'tá vestido assim? — perguntou Fjorn já um pouco embriagado das garrafas de conhaque cyrodiílico que encontrara na despensa.

— Nosso aniversariante chegará à noite — começou o cavaleiro. — Como eu não sei mais o que dar de presente para um mago secular, nós todos vamos assar um bolo especial.

Os quatro se entreolharam com expressões de incredulidade, deboche, confusão e impaciência. Augustus continuou:

— E honestamente, na nossa idade, presentes não importam mais. O que importa são as boas intenções.

— Por que não contratou um cozinheiro? — perguntou a Bosmer.

— Porque não seria especial. Assim nós mostraremos a nosso amigo o quanto esse dia significa para nós.

— O que tem de especial em assar um bolo? — perguntou Devullian, o rosto e a voz tão jovens após o renascimento que davam um ar cômico ao mago depois de tudo o que aconteceu.

— A intenção é especial, Devullian.

— E qual é a intenção? — perguntou Fjorn.

— Demonstrar que nos importamos.

— Considerando nossas habilidades culinárias — começou Telvarys —, demonstraríamos mais consideração se contratássemos o melhor cozinheiro de Morrowind.

Os outros assentiram em concordância.

— É precisamente por isso que eu vou preparar o bolo e vocês vão somente me auxiliar.

— E desde quando você sabe cozinhar? — perguntou Kláxia.

— Desde Cyrodiil. Minha família é famosa por nossa culinária.

Os quatro se entreolharam novamente com desconfiança.

— Vocês vão se acovardar por causa de um bolo? — provocou o Imperial.

Os quatro gemeram, rosnaram e resmungaram, mas decidiram que não devia ser tão difícil assim.

— Capaz — disse Fjorn. — É só juntar um monte de coisas, amassar tudo e tacar fogo. Brincadeira de criança.

— Vou fingir que você não acabou de ofender todos os cozinheiros do mundo — disse Augustus com uma careta aborrecida.

— E todos os alquimistas — completou Telvarys.

— Bah, frescura — disse o Nord rindo. — E aí, o que eu tenho que socar?

— Não vamos sovar nada hoje — respondeu o Imperial. — É um bolo, não um pão.

— Isso vai ser tão divertido que eu vou acabar desmaiando de tédio... — comentou Devullian.

Um guarda entrou puxando um guar pela coleira com a maior delicadeza possível. O animal não apresentava resistência, mas queria investigar todas as portas que encontrava, e o guarda precisava puxá-lo em direção à cozinha. Augustus apontou um canto, o guarda prendeu a coleira do animal num gancho na parede e saiu.

— É um bolo ou um churrasco? — perguntou Fjorn mais animado. — Porque se for um churrasco...

— Essa é a Jumentina — disse Augustus. — Ela também vai nos ajudar a fazer o bolo.

Kláxia deu um grito que se transformou numa risada aguda, começou um engasgo e terminou numa tosse seca.

— Como é o nome dela? — perguntou a Bosmer quase chorando.

— A Jumentina está conosco há muitos anos — contou Augustus ignorando a elfa. — Já é praticamente uma mascote de Ebonheart.

— Ju... Jumen... — balbuciou Kláxia tentando suprimir as risadas.

— A Jumentina daria um ótimo churrasco — comentou Fjorn. — Só acho.

O cavaleiro ignorou todas as provocações e começou a espalhar os utensílios sobre uma mesa. Olhou para o Arquimagistrado da Casa Telvanni e disse com seriedade:

— Preciso de doze ovos de cliff racer.

— Boa sorte — respondeu o Altmer.

Sem se dar por vencido, o Imperial completou:

— Existe um ninho em cima do telhado do castelo. Vá lá pegar.

Telvarys encarou os outros três procurando pela mesma incredulidade que crescia dentro de si.

— Ele pediu a você — disse Devullian com um sorriso debochado.

Telvarys voltou-se para o Imperial.

— Por que não pediu aos seus guardas?

— Oras, você não sabe voar? Então voa lá, bruxão.

O Arquimagistrado congelou inundado por uma perplexidade que fê-lo questionar a realidade.

— Eu não deixava — disse Devullian com uma risadinha no canto dos lábios.

Fjorn escondeu o sorriso. Kláxia já estava sentada no chão gemendo e secando as lágrimas que lhe escorriam por tentar conter as risadas.

— Vocês têm muita sorte que isso tudo é para Sullon, porque caso contrário... — disse o Altmer deixando a frase no ar. Em seguida, pronunciou um feitiço de levitação e saiu voando pela janela.

Augustus encarou Devullian e Kláxia, e ordenou:

— Vocês dois me tragam um balde de leite de guar.

Primeiro, o Dunmer e a Bosmer se entreolharam sem expressão. Depois, os dois encararam a Jumentina que estava quietinha onde o guarda a havia deixado.

— Defina "leite" — disse Kláxia.

— Líquido que sai das mamas de algum animal.

— Como assim? — perguntou Kláxia. — Você está nos dizendo que guares têm tetas?

— Isso. Vocês vão ordenhar a Jumentina.

Kláxia não sabia se ria ou se chorava. Devullian já havia desistido de questionar os acontecimentos, era mais fácil só aceitar que o mundo estava diferente. Fjorn bebia o conhaque como se nada mais importasse.

— Vamos, peguem aquele balde ali e aquelas duas banquetas.

Os dois pegaram tudo, colocaram o balde debaixo da barriga da guar e sentaram um de cada lado do animal.

— Não tem teta aqui, Augustus — comentou a Bosmer.

— Esfreguem o pescoço dela e falem com jeitinho que ela vai colocar as mamas para fora.

— Eu me recuso a seduzir um guar — disse Kláxia segurando o riso e as lágrimas. — Fjorn, venha aqui enlaçar a Jumentina pela cintura e sussurrar coisas românticas no ouvido dela.

— Não mexam na barriga dela — disse Augustus. — É uma região sensível. Apenas esfreguem o pescoço dela e conversem um pouco.

— Venha, Fjorn — disse Devullian.

— Bah, por que eu?

— Porque não vou ser eu — respondeu o Dunmer.

— Porque você é o único que já 'tá bêbado — disse Kláxia. — Todo esse álcool já lhe preparou para essa ocasião especial. O trauma será menor.

O Nord se aproximou do animal e esfregou o queixo. A guar abanou a pontinha da cauda.

— O pescoço, Fjorn — disse Augustus.

O guerreiro esfregou o pescoço da guar que ronronou baixinho e abanou a cauda com mais intensidade.

— Converse com ela — disse o Imperial.

— Oi, Jumentina.

Kláxia tapou o rosto com as duas mãos para não rir.

— Tudo bem contigo? — continuou o Nord.

A guar se animou um pouco.

— Fale mais o nome dela — ordenou Augustus.

— A Jumentina é mansinha. Não é, Jumentina? Tu é mansinha.

Kláxia gemeu. A guar relaxou um pouco ronronando mais alto. Devullian desviou o olhar para não encarar a vergonha alheia. Augustus tentou fingir que não queria rir.

— Quem é essa menina boazinha? Quem é? É a Jumentina! — disse Fjorn com a voz em falsete e esfregando o pescoço do animal com mais força. — Cadê a Jumentina boazinha? Cadê? Achou!

Kláxia não agüentou e caiu no chão rindo.

— Diga que não tem ninguém igual a ela — ordenou o Imperial suprimindo uma risada.

— A Jumentina é a única menina boazinha de toda Morrowind. Não tem ninguém igual a Jumentina. Quem é a fofinha mais fofa de todas? É a Jumentina!

Kláxia se contorceu tanto de rir que acabou deixando escapar um pum.

— Querida — começou Devullian —, vire sua arma biológica para o outro lado.

— Ainda bem que as janelas estão abertas — disse Augustus um pouco incomodado.

— Bah, que decepção. Tem que bufar poderosamente igual uma ruína Dwemer, senão não vale.

Enquanto Kláxia tentava se recuperar, as dobras da barriga da guar se afastaram gentilmente revelando um úbere com seis nódulos rosados e protuberantes cobertos por uma fina penugem laranja.

— Oouunn! — gemeu a Bosmer voltando a se sentar na banqueta. — As tetinhas são ruivinhas. Que gracinha!

— Já posso parar? — perguntou Fjorn mal-humorado.

— Sim — disse Augustus, e para os outros: — Ordenhem todos os seis mamilos. Senão pode dar um tumor.

O Dunmer e a Bosmer puxaram os mamilos com nervoso e nojo. O leite azul começou a gotejar no balde e um odor enjoativo tomou o ambiente. Os dois emitiram ruídos de repulsa. Fjorn gargalhou se sentindo vingado e pegou mais uma garrafa de conhaque da despensa. Augustus petiscou umas fatias de pão para esconder que também estava rindo.

Telvarys entrou voando pela janela com vários ovos dentro das mangas da túnica. O Imperial o ajudou a descarregar tudo com cuidado sobre a mesa. O Arquimagistrado encarou a cena ainda mais estupefato do que antes.

— O mundo não é mais o mesmo — comentou.

— Quebre os ovos um por um naquela tigela e vá me passando — ordenou o cavaleiro.

Contrariado, Telvarys obedeceu. Augustus bateu todos os ovos em neve com uma colher de pau, acrescentou gordura de javali e açúcar de marshmerrow, e misturou novamente até formar um creme homogêneo.

O Dunmer e a Bosmer encheram o balde depois de ordenharem todos os seis mamilos da guar.

— Terminamos de molestar a Jumentina — disse Devullian. E para si mesmo: — Essa frase vai ficar comigo para sempre...

— Ótimo, já estava mesmo na hora de acrescentar o leite — disse o Imperial. — Fjorn, traga o balde aqui.

O Nord depositou o balde ao lado da mesa e voltou a se inebriar com o conhaque. Augustus acrescentou o leite aos poucos na massa conforme Telvarys ia jogando farinha dentro da tigela. Assim que a massa ficou pronta, o Imperial despejou-a numa fôrma, encaixou outra por cima e entregou ao Arquimagistrado.

— Segure por baixo. Devullian, venha, coloque suas mãos em cima.

Devullian se aproximou entediado e colocou as mãos na fôrma de cima.

— Agora vocês dois usem sua magia de fogo para assar o bolo todo por igual bem rapidinho. Vamos.

— Gastar magicka para assar um bolo? — comentou Devullian.

— Vocês podem dizer pra Sullon que literalmente assaram o bolo dele. Vamos, vamos. Ainda temos que fazer o recheio e a cobertura.

Os dois magos assaram o bolo, afinal depois do que tiveram que fazer, gastar um pouco de magicka seria a menor das humilhações.

Augustus perfurou o bolo com um palito para averiguar se estava pronto e mandou depositarem a fôrma sobre a mesa para esfriar. Em seguida juntou numa outra tigela a nata do leite que se acumulava no topo do balde e bastante açúcar de marshmerrow.

— Agora resfriem o glacê enquanto eu bato.

Os dois magos se resignaram e simplesmente obedeceram. Congelaram de leve a tigela enquanto o Imperial batia a mistura azulada que aos poucos adquiria consistência.

Kláxia sentou-se ao lado de Fjorn, puxou o conhaque de sua mão, bebeu alguns goles e devolveu a garrafa. Jumentina havia se deitado e cochilava com um ronco baixo.

Assim que o glacê ficou pronto, o cavaleiro mandou que congelassem um pouco mais a tigela para que a cobertura se mantivesse firme até a hora de decorar o bolo. Em uma panela juntou mais açúcar de marshmerrow, leite de guar, folhas de hackle-lo trituradas e geléia de scrib, e mandou os magos aquecerem enquanto ele mexia. Assim que o recheio engrossou, o Imperial passou o bolo para uma elegante bandeja de prata, cortou-o latitudinalmente em três e preencheu duas camadas com o recheio.

— Alguém quer lamber a panela?

Apesar do cheiro bom, todos recusaram. Fjorn e Kláxia ainda dividiam as garrafas de conhaque, Jumentina dormia e os dois magos aguardavam novas ordens entediados.

O cavaleiro aplicou a cobertura por todo o bolo e decorou a parte de cima com um círculo de bagas de comberry. Ao centro, colocou apenas 1 vela pois não havia espaço para 130 delas.

— E está pronto! — disse o Imperial.

Todos gemeram aliviados.

— Quanto ao restante do banquete — começou Augustus —, Fjorn fica a cargo do churrasco com espetinhos de mudcrab e bife de nix hound. Telvarys o ajuda com o fogo. Kláxia e eu vamos enrolar os docinhos enquanto Devullian os mantêm gelados.

Exceto por Fjorn que se animou em preparar o churrasco, todos resmungaram contrariados.

— Quando a gente vai terminar issoooooooooo? — perguntou Kláxia já alterada pelo conhaque.

— Quando todos pararem de reclamar e derem o melhor de si. Quanto mais empenhados, mais rápido terminamos.

O Altmer e o Nord foram para o pátio reservado para a celebração preparar o churrasco enquanto a Bosmer, o Imperial e o Dunmer enrolaram 1000 docinhos preparados com mais uma quantidade diabética de açúcar de marshmerrow, comberries trituradas e amido de inhame das cinzas, e os empilharam em várias bandejas de prata.

Quando terminaram, colocaram tudo sobre a mesa no pátio. Era o fim da tarde e os guardas já haviam acendido as tochas. Uma brisa agradável circulava pelo local.

Logo depois o aniversariante chegou e todos gritaram "surpresa!", mas Sullon apenas deu um sorriso por obrigação social.

— Eu já sabia que você sabia — disse Augustus. — Mas não fizemos isso tudo para ser surpresa.

— E eu já sabia que vocês sabiam que eu sabia — disse o Nerevarine.

— Por favooooooooooor — disse Kláxia ainda bêbada —, não vamos complicar iiiiiiiiiiisso. Cadê o booooooolo?

Augustus puxou Sullon para perto da mesa e indicou o bolo.

— Preparamos um bolo especial para você.

Sullon encarou o bolo sem muito ânimo.

— Obrigado. Mas o que tem de especial nesse bolo?

— Você não sabe o que tivemos que fazer para prepará-lo, querido — disse Devullian.

Augustus finalmente deu uma gargalhada e despejou tudo:

— Telvarys subiu no telhado para roubar ovos de um ninho de cliff racers igual um trombadinha da guilda dos ladrões...

— "Roubar" é uma palavra muito forte — disse o Altmer. — E não foi como um trombadinha, e sim com a elegância de um mago versado na escola de alteração.

— Fjorn seduziu uma guar falando coisas românticas para ela...

— Ei! — protestou o Nord. — Não foi bem assim!

— Devullian e Kláxia molestaram sexualmente a guar...

— 'Pera lá, Imperial — disse o Dunmer. — Apesar de eu ter usado a palavra "molestar", foi uma simples ordenha.

— E Kláxia soltou um peido que foi ouvido até em Dagon Fel.

A elfa deu uma risadinha.

— Em defesa da Bosmer — começou Fjorn —, nem se podia chamar aquilo de peido.

— Caramba — disse Sullon. — Vocês fizeram tudo isso por mim? Estou tocado.

— Vamos cantar Parabéns e partir o bolo — disse Augustus.

— Parabéns nããããããããooooooo.

Fjorn começou com seu vozeirão:

— Com quem será? Com quem será?

— É o Parabéns primeiro, Fjorn — disse Augustus. E começou a bater palmas e cantar: — Parabéns para você...

— Com quem será que o Sullon vai casar?

— Nesta data querida...

— Nãããããããããooooooo — gritava Kláxia tapando os ouvidos.

Telvarys e Devullian se entreolharam com expressões de horror. Sullon continuava inexpressivo observando o desenvolvimento daquele fenômeno epilético.

— Vai depender, vai depender...

— Muitas felicidades...

— Paaaaaaaareeeem! — gritou Kláxia e se escondeu debaixo da mesa.

— Vai depender se a Yuna vai querer...

— Muitos anos de vida!

— AAAAAAAAHHHHHHH!

— Ela aceitou, ela aceitou...

— É pique, é pique. É pique, é pique, é pique...

— Tiveram dois filhinhos e depois se separou...

— É hora, é hora. É hora, é hora, é hora...

— Socooooooooorrooooo.

— Passou um mês, passou um mês...

— Ra! Tim! Bum!

— Passou um mês e se casaram outra vez!

— Sullon Aryelni! Sullon Aryelni! Sullon Aryelni!

Augustus e Fjorn aplaudiram por mais alguns minutos. Kláxia ainda estava escondida debaixo da mesa tapando os ouvidos. Telvarys e Devullian ficaram transparentes, mas não era feitiço e sim vergonha alheia.

— Que lindo — disse Sullon ainda inexpressivo.

— Agora vamos partir o bolo — disse Augustus.

— 'Tá louco, Imperial? — disse Fjorn. — É o churrasco primeiro.

— Os docinhos depooooooooois... — disse Kláxia debaixo da mesa.

— Isso — confirmou Fjorn. — E por último o bolo.

— Podemos comer tudo ao mesmo — disse Sullon. — Churrasco com bolo e docinhos.

— Bom, se o aniversariante falou, então 'tá falado — disse o Nord. — Peguem seus pratos.

— Vamos partir o bolo primeiro então — disse Augustus.

— Não, a carne vai primeiro no prato — insistiu Fjorn.

— Uma fatia de bolo é maior e ocupa mais espaço — disse o cavaleiro.

— É porque tu não viu o tamanho do meu bife, Imperial — disse o guerreiro com uma voz ameaçadora.

— Já vi maiores e mais suculentos.

— O que tu quer dizer com isso? — perguntou Fjorn confuso sobre o teor da conversa.

— Não sei, o que você quis dizer antes?

— Eu sempre vejo bifes que sangraaaaaaam — disse Kláxia em meio a uma gargalhada debaixo da mesa. — Mas eu só como bem passadoooooooo. — E deu outra gargalhada.

— Olha a criminosa — disse Fjorn. — Tem que ser levemente malpassado. Com uma casquinha por fora e suculento por dentro.

— Bem passadoooooooooo!

— Eu não vou cometer esse crime para ti, Bosmer.

— O negócio é comer cru, como os vampiros fazem — disse Devullian.

— Para contrair uma doença? — comentou Telvarys.

— Bem passadoooooooooo!

— É só tomar uma poção para resistir a doenças — respondeu Devullian.

— E poção pra indigestão, tem? — perguntou Augustus.

— Capaz — disse Fjorn —, quem come cavalo não tem indigestão.

— Bem passadoooooooooo!

— Cavalo não é nada — disse Augustus. — O que raios é um nix hound? E a gente come esse trem como se fosse super normal.

— Rapaz, leite de guar — disse Fjorn.

— Não têm uma vaca, uma cabra... — completou Augustus.

— Bem passadoooooooooo!

Já sem muita paciência, Telvarys mirou num bife na churrasqueira e liberou uma torrente de fogo que fez a carne estalar, contorcer-se e encolher até quase virar um pedaço de carvão.

— Bah, pra que a violência, elfo?

O Altmer colocou o ex-bife num prato e entregou para Kláxia debaixo da mesa. A Bosmer comeu sem talheres mesmo, fazendo força para arrancar pedaços pequenos com as unhas, mas pelo menos se calou.

— Obrigado, meu amigo — disse Devullian.

— Não tem por onde.

— Cadê Sullon? — perguntou Augustus.

O Nord e o Imperial olharam ao redor procurando.

— Na mesa, com 100% de chameleon — respondeu o Arquimagistrado.

Na cabeceira da mesa, um garfo flutuava levando comida que desaparecia a uma certa altura. No prato se encontravam espetinhos de mudcrab, bifes, docinhos e uma fatia de bolo.

— Não! — gritaram Fjorn e Augustus ao mesmo tempo correndo para a mesa.

— O que você comeu primeiro? — perguntou o cavaleiro.

— Era para ter comido a carne primeiro! — reclamou o guerreiro.

— Docinhoooooooooos!

Antes que os gritos recomeçassem, Devullian colocou um punhado de docinhos numa caneca vazia que foi o recipiente mais próximo que encontrou e entregou para a Bosmer debaixo da mesa.

— Diga que você comeu a carne primeiro!

— Era para ser o bolo...

— Comi tudo junto — respondeu Sullon, sua voz saindo de um espaço vazio. — Coloquei o bife, o bolo e o docinho na boca e mastiguei tudo de uma vez.

— O que você fez, Dunmer?! — disse Fjorn gritando. — Não é assim que se saboreia uma carne!

— Mas você gostou do bolo pelo menos? — perguntou Augustus.

— 'Tá tudo ótimo, gente — disse o Nerevarine. — Vocês deveriam falar menos e comer mais.

— Como pode uma carne com gosto de bolo e docinho estar ótima??? É uma desgraça mesmo.

Uma garrafa de conhaque flutuou até perto do guerreiro.

— Afogue a desgraça gastronômica no conhaque — disse Sullon.

Fjorn pegou a garrafa, encheu um prato com churrasco e sentou-se à mesa. Os demais encheram seus pratos com as várias comidas e também se sentaram.

Uma mãozinha apalpou a lateral da mesa, agarrou a garrafa de Fjorn e levou para debaixo da mesa. O guerreiro rosnou e Augustus lhe passou outra garrafa.

— Você vai ficar a festa toda debaixo da mesa, querida? — perguntou Devullian.

— A canoa virou, por deixá-la viraaaaaar...

— Por Talos... — resmungou o Nord.

— Foi por causa do Sullon que não soube remaaaaaaar...

— O momento pras cantigas já acabou — disse Augustus.

— Se eu fosse um peixinho e soubesse nadaaaaaaaar...

— É cada um pior do que o outro — comentou Telvarys.

— Eu tirava o Sullon do fundo do maaaaaar...

— Deixem ela — disse Sullon achando engraçado mas sem rir.

— Siriri pra cá, siriri pra lááááááá...

— É tudo muito fofinho — começou Devullian —, mas pelo amor dos Aedra alguém faça ela parar.

— O Sullon não sabe nadaaaaaar!

Augustus cortou uma generosa fatia de bolo, colocou num prato e empurrou para debaixo da mesa. Um silêncio pairou sobre o pátio enquanto todos mastigavam e engoliam em paz.

Percebendo que a vela do bolo estava queimada, Augustus perguntou:

— Quem acendeu a vela?

— Eu — respondeu Sullon voltando a ficar colorido.

— E quem assoprou?

— Eu também.

— Você acendeu sua própria vela e assoprou também?

— Isso.

— Mas você não pode acender sua vela! A gente acende a vela e você assopra. Sempre foi assim.

— Esse aniversário não é exatamente convencional, né — disse o Nerevarine.

— Claro que não — disse Augustus levemente irritado. — Simplesmente porque certas pessoas não sabem se comportar.

— Capaz. Tu que é muito apegado a frescura.

— Gente, 'tá tudo ótimo — disse Sullon. — De verdade. Estou realmente tocado de uma maneira positiva.

— Da próxima vez — começou Telvarys —, essa festa vai acontecer em Tel Aruhn.

Devullian gemeu em concordância enquanto mastigava o bolo.

— Ou na torre que vou mandar construir em Tel Uvirith — contou Sullon.

— Vai sair de Tel Aruhn? — perguntou o Arquimagistrado com um semblante abatido.

— O Nerevarine vai virar homenzinho — comentou Fjorn. — Constrói a torre e casa com Yuna.

Sullon ignorou a provocação e bebeu um gole de chá para ajudar a empurrar a comida.

— O que precisar, é só pedir — disse Telvarys. — E sabe que será sempre bem-vindo em Tel Aruhn, não sabe?

— Sei. Obrigado.

— Pode deixar que dou uma amaciada no Duque — disse Augustus. — Não vai ter nenhuma burocracia para conseguir a licença.

— Obrigado.

Notando o silêncio prolongado que se seguiu, todos olharam debaixo da mesa. Kláxia dormia encolhida no chão com a cabeça sobre um dos braços e babando. Usando de telecinesia, Telvarys colocou a Bosmer num quarto de hóspedes e voltou para o pátio. Eles conversaram até a madrugada, depois se recolheram nos quartos disponíveis e seguiram viagem para suas cidades pela manhã.

Sometime between 3E 422 and 423 (14+ eroticism) FULLY TRANSLATED!

Kláxia awoke to the cawing of cliff racers mating atop the tower. On the bedside table, a glass pyramid projected a rainbow onto the wall from a ray of sunlight filtering through a gap in the curtain. This was the only light in the room. The rest of the room was plunged into darkness thanks to the thick vegetable fiber curtains imported from Hammerfell. The temperature was mild and pleasant.

The silk fabric of the sheets brushed delicately against the elf's bare skin, and Telvarys' arm rested comfortably on her waist. The Bosmer looked back and found a slight smile on his face.

"Did you sleep well?" he asked.

Kláxia turned her body towards him.

"I just slept. Something I haven't done in years." And she gave a brief smile to illustrate that it was a good thing, even if it didn't seem like it.

The Altmer kissed her forehead and nestled her in his arms. She hugged him and rested her head on his chest, listening to his heartbeat.

"I slept too," he said. "And I haven't done that in a long time either."

"Why not?"

He stroked her bare back as he thought of all the reasons why he couldn't get distracted, relax, or sleep. The icy touch of the metal of his rings made the elf's hairs stand on end slightly.

After a long time without responding, the mage gave up trying to explain. The Bosmer didn't insist. She would've fallen asleep again listening to his heartbeat and smelling his scent if it weren't for the sordid noise the cliff racers were making on the roof.

"Ugh. Those creatures..." she commented.

Telvarys slid his hand down to her hip and pulled her thigh up toward him. He kissed her on the lips and lay down on top of her.

"We can eradicate them," he said, showering kisses on her neck, "or we can imitate them."

Kláxia laughed.

"We can imitate them now and eradicate them later," she said.

The mage trailed kisses down the elf's small breasts, then her stomach, finally disappearing beneath the silk sheets. The elf parted her legs and closed her eyes.

6 of Sun's Height – 3E 423 FULLY TRANSLATED!

The music wasn't so loud anymore at Fjorn's manor. It was late, and they had already cut the cake and sung "Happy Birthday." His wife had organized the party and invited half of Vvardenfell. Almost everyone had come, except for the five people he most wished had been there.

Fjorn waited for an apprentice to arrive with news of delays or even some misfortune, but no one appeared. It was as if his friends had forgotten him or simply didn't care.

The Nord drank heavily to digest and drown out the disappointment he felt. He tried to talk to the other guests, but nothing could dispel that feeling.

He excused himself to everyone and set off for a nocturnal stroll amid the Ashlands' ashes. He kissed his wife and daughter, who was sleeping accompanied by servants and two guards.

He walked in circles around the manor, stopping now and then to admire the starry sky. There hadn't been any storms in that region for a long time, and the weather was almost always clear.

On one of his turns, Fjorn spotted a pile of bleeding flesh and approached to investigate. A trail of several pieces of a recently killed alit led to a nearby cave.

The Nord gripped his axe and followed the carnage. He entered the cave and, instead of finding a dark place, he found torches that illuminated the entire corridor as far as the eye could see. He continued deeper into the cave, but the feeling of danger was soon replaced by a strangely familiar sensation.

Some voices whispered softly in a nearby chamber. The Nord tried to listen to the conversation, but someone shushed and everyone fell silent.

Since sneaking was a poorly developed skill for the Nord of immense strength and height, he rushed into the chamber, ready to punch whatever was necessary.

Immediately, five voices shouted "surprise!" and began singing "Happy Birthday" in a discordant and out-of-tune chorus, with equally out-of-sync clapping, but the feeling was genuine, and that's what warmed the brute's heart.

"Wow, you guys got me good. I was starting to think you weren't coming."

"We'd never forget, my friend," said Augustus.

"But we didn't bring any presents," Sullon commented.

"We brought food and plenty of beer," said Telvarys.

"Our presence is already the gift," said Kláxia.

"How arrogant," said Augustus. "I brought a gift."

"But of course Mr. Good Manners brought a gift," the Bosmer said.

The Imperial handed the Nord a long object wrapped in a piece of cloth.

"It serves only as decoration, but I asked one of the members of the Imperial Cult to bless it with good luck."

Fjorn unfurled the cloth, revealing a stahlrim sword adorned with silver carvings and precious stones.

"Wow! Very beautiful! Thank you, my friend. I'm going to have it hung on the living room wall."

Telvarys placed six mugs on the table and filled them with beer. Each person took one and they raised it in a toast.

"To the health and longevity of our friend Fjorn," said the Altmer.

The others repeated the words and all clinked their mugs.

"Before you all get drunk on all that alcohol," Devullian began, "we have something to do."

The Dunmer took a stack of cards from his bag and placed it on the table.

"Canasta," he said. "Best of three."

Everyone perked up and pulled their chairs to the center. They formed pairs: Sullon and Devullian, Fjorn and Telvarys, Augustus and Kláxia.

The game would've gone well if it weren't for the Bosmer, who waited for the discard pile to accumulate so she could buy several cards at once and force everyone to pause while she tidied everything up. During these pauses, the others took the opportunity to eat and drink. Their reasoning was already beginning to be affected, and only Telvarys realized that perhaps this was the Rogue's plan. Then the Altmer stopped joining the others for a beer.

Sullon and Devullian won the first round. Telvarys and Fjorn won the second thanks to a tactic by the Altmer. In the third, as soon as Kláxia picked up the discard pile, Augustus won, to everyone's surprise.

"What do you mean by you go out?" the Bosmer asked.

"I go out, you know. You can check."

"But I just picked up the discard pile, Augustus. You can't do something like that to your partner."

"It was the last round," the Imperial began, "it's already dawn, and you spent the whole night picking up the discard pile and didn't even come close to winning once."

"And now what am I supposed to do with all this cards?" she asked indignantly.

"Build a castle, dude," said Fjorn.

The elf gave him a look as sharp as the daggers she carried at her waist.

"Next time," Devullian began, collecting the cards, "don't pick up the discard pile so many times, my dear."

The five accompanied Fjorn back to the manor and greeted his wife, who was already beginning to worry about her husband's absence. As it was already daytime, Greta invited everyone for breakfast. They rested until noon, had lunch, played pool with the birthday man, and then everyone said goodbye and took a silt strider home.

6 of Sun's Height – 3E 424 FULLY TRANSLATED!

It was nearly noon, and the square at Fjorn Strong-Arm's manor had already been swept and tidied for the party when the two mages arrived. A long table had been set up a little off-center to allow free movement for the waiters, servants, guards, and the main attraction of the party. Under Fjorn's orders, servants stored the crate and barrel that the two mages had brought with the gifts on the porch of the manor house.

"Happy Birthday, my friend," said Telvarys, embracing the immense Nord. "May Ysmir bless you with strength, courage, and wisdom to deal with life's hardships."

"Thank you, my friend. I'm glad you came. But what about Sullon?"

"He is conducting research in Black Marsh," replied the Archmagister. "But he sends his regards."

From behind the warrior emerged Greta and Elsa, the little girl holding the rag doll that Telvarys had given her when she was born.

"But she is already walking?" commented the Archmagister. "How time flies."

The girl smiled shyly and hid behind her mother.

"Good morning, gentlemen," Greta said.

"Good morning, madam. Greetings from House Telvanni," he said, bowing.

Devullian joined him in the cordial gesture.

"Come, take a seat," said the Nord, leading them to the tables. "Augustus will bring the food shortly."

"Is the Imperial here?" Devullian asked.

"He arrived in the early hours of the morning with a troop of cooks and assistants that looked like a procession. I told him that we have pots and pans, we're not barbarians, but he insisted on bringing the entire kitchen from Cyrodiil. The mansion is a mess, that's why Greta ordered everything to be cleaned up out here at once."

Fjorn pulled out a chair for his wife and daughter, then sat down himself.

"Any entertainment?" Devullian asked. "Or are we just going to eat like we did on Sullon's birthday?"

"The Bosmer is about to arrive anytime now."

"Did you leave Kláxia in charge of the entertainment at your party?" the Altmer asked.

"She volunteered. We already have a lot to do. It's going to be okay."

"I'd be worried, my friend," said Telvarys, "At the very least."

"I disagree," Devullian said. "I've a feeling it'll be unforgettable."

"You're going to make me worried," said Fjorn, looking at Greta and Elsa.

"I don't believe she'll get up to anything dangerous," commented the Archmagister. "But she's not known for her common sense."

In the distance, the unmistakable roar of a hundred cliff racers could be heard. The guards drew their weapons. Fjorn reached for his axe. Everyone looked up, but apart from the natural haze of the Ashlands, the sky was clear.

"Where is this coming from?" the Nord asked.

"From the road," said the Archmagister, using a wildlife detection spell.

"What do you mean by 'from the road'?" Fjorn asked. "Are the animals parading?"

"They came on foot to compliment you in person," Devullian commented.

Kláxia entered the main gate accompanied by a Dunmer holding a chain. It wasn't long before many cliff racers appeared, wearing collars, chained to one another, using the joints of their wings as support to walk on the ground.

"Fjorn!" shouted the Bosmer approaching. "Happy Birthday! May you have such a long life that you end up more wrinkled than a Kwama larva and die covered in excrement, sleeping comfortably in your bed!"

"Damn..." said the Nord.

To everyone's bewilderment, the rogue placed the bag on a chair and called the Dunmer who was waiting near the gate surrounded by Redoran guards.

Slowly the Dunmer approached, followed by a single line of cliff racers who screamed and pecked at each other with every step.

"This is Jiub, a cliff racer trainer. Very well known in Vivec."

"It is an honor to be in the presence of such great masters," said the Dunmer, bowing. "I wish the Archmaster Redoran all the best. I hope to entertain you with these fascinating creatures."

"Thank you for the compliments, Jiub," said Fjorn. "As for the show, we'll see."

Augustus arrived from the mansion followed by a battalion of waiters and stopped solemnly near the table, the servants awaited his order.

"Another year passes, sailing toward the infinity of the Nine Divines," the Imperial began. "The circumstances that united us more than a decade ago no longer exist, but the bond of companionship and respect for our individual journeys remain."

A waiter passed by the table distributing a glass of Cyrodiilic brandy. Augustus raised his glass and continued:

"May today be one of many to come. And may we one day sit at this table to celebrate not Fjorn's birthday, but that of his grandchildren. Happy Birthday, my friend."

Everyone drank from their goblets. Augustus ordered the food to be served and sat down as well. Fjorn invited Jiub to join them, and one of the guards held the leashes of the cliff racers.

After finishing lunch, Jiub excused himself to begin the presentation. He unchained some cliff racers, and the animals still acted for a moment as if they were still restrained. The Dunmer took a metal whistle from his pocket that made no sound perceptible to the ears of men or mer. Immediately the animals took flight and circled the square peacefully. Jiub whistled rhythmically, and the racers performed a ballet in the air as if they were normal animals instead of the troublesome cliff racers known throughout Vvardenfell. It was even relaxing to see the animals dance in the air like synchronized shoals of fish.

He released the remaining racers one by one, who joined the aerial display with astonishing skill. The Dunmer whistled in different ways, and the rhythm changed. Everyone present watched the performance with an air of appreciation. Little Elsa, still clutching her rag doll, seemed amazed by the spectacle, her green eyes shining.

The presentation proceeded peacefully until a betty netch floated past the manor's main gate outside. The animal stopped as if staring at the troupe of racers with an air of disbelief at first, which then turned to fear, and released pheromones that quickly attracted several angry bull netches.

The cliff racers sensed the danger and broke out of their ballet formation to attack the bull netches that were already extending their tentacles. Jiub whistled for the reptiles to return to the ground, but was ignored. With their characteristic hatred and hateful tails, they attacked all the netches and killed them in a few minutes.

The guards had grabbed their weapons, but they didn't know if they could kill the cliff racers or not, after all, they were the Dunmer's property. The Dunmer continued to whistle and were ignored. As soon as the racers finished their slaughter, they quickly chose the new targets of their age-old wrath and advanced on the guards. Some headed towards the table. Fjorn, already with his axe in hand, charged at them, severing their tails.

Telvarys created a shield around Greta and Elsa and guided them inside the mansion along with the waiters and servants who closed the doors and windows.

Augustus, without the Chrysamere, demonstrated his skill in throwing kitchen knives and knocked down several racers. Kláxia accompanied him with forks, spoons, cups, and plates.

A general commotion broke out on the manor with a hundred cliff racers attacking uncontrollably. Jiub faced the situation with humiliating despair, as this had never happened in his career. His desolation was so great that he didn't even defend himself when one of the animals charged at him. He was saved by Devullian's shield.

"This got interesting pretty quickly," said the mage, smiling. "Next time you could try it with the Atronachs. It'd be an unbelievable spectacle."

Amidst arrows, axe blows, fireballs, and silverware, Jiub reflected on his entire life, from his childhood, through his mediocre life of crime, to that moment. When he was freed in Vivec, he vowed to do something good with his life, something that would bring some kind of peace or relief to the people of Morrowind.

Knowing of the cursed plague that hovered over the island, he decided to give those wild beasts a more dignified use, a use that would warm people's hearts and bring some beauty to that difficult life in such a hostile land. But the road to Oblivion was paved with good intentions, so years of work and his good reputation were destroyed by a small, delicate, and gelatinous Betty Netch.

Once there wasn't a single cliff racer left standing, a discussion began to find the culprit, led by the Archmagister.

"I told Fjorn you lacked common sense, but now I realize you're completely insane," he said to Kláxia. "What were you thinking, bringing those damned animals to a celebration?"

The Bosmer ignored the mage and went straight to the Nord.

"Fjorn, I apologize for putting your family at risk, but since they were trained and my contacts recommended this service, I—"

The rogue was interrupted by Jiub's hand on her shoulder.

"No, miss, it's not your fault."

The Dunmer approached the warrior and looked him in the eyes.

"Archmaster, these animals were under my care, and I take full responsibility for what happened. This is your land, and I apologize for putting your employees, friends, and family at risk. I also submit to your law to apply it as you see fit. I'd only ask that you give me the chance to redeem myself before you and all of Morrowind."

The Nord stared at him thoughtfully for a few minutes. Under different circumstances, the judgment would hardly be favorable to the Dunmer. But he knew that bad things happened even with all precautions. However, his family was safe and, apart from the animals, no one had been hurt. Besides, that elf was there, before him, being honest, taking responsibility, and asking for a chance.

It was his birthday and Fjorn wanted to give that worker a vote of confidence.

"What do you have in mind to redeem yourself, Dunmer?"

Jiub glared at him furiously, not because of the Nord, but because of those animals, more cursed than the creatures of Oblivion.

"I will exterminate all the cliff racers, even if it takes me a lifetime. Not a single damned flying reptile will remain on all of Nirn."

Fjorn nodded in agreement.

"Bold, but I approve of your resolution. Go, Jiub, exterminate all the cliff racers."

The Dunmer bowed politely to everyone and left.

"Better than the scamp we won at the bingo," Devullian commented, breaking the ice.

"Are you taking good care of our little one?" the Bosmer asked.

"Only because you asked nicely, darling, otherwise I would've already dissected it."

"Great. Rest assured, I haven't forgotten my promise. Wait for me on your birthday this year."

"I will. If you don't return with the device, you'll receive some useless parts of Munchkin in the mail," Devullian said with a grim smile.

"Well," Kláxia said, changing the subject, "now that everything's alright, shall we open the presents?"

"Bring them on," said Fjorn, sitting down wearily.

The Bosmer took an unnamed and unlabeled glass bottle out of her bag and handed it to the birthday boy.

"Mead from Skyrim aged for 50 years. It's genuine, I've confirmed that with absolute certainty."

Fjorn smiled, regaining the good humor that the fight had taken away. He uncorked the bottle and took a sip.

"Wow! Exactly the same taste as the ones I drank when I was a kid! Thank you, elf."

Some employees brought the crate and the barrel of the mages. Devullian was the first.

"It's neither mead nor brandy," he said, pointing to the barrel. "It's a variation of Mazte ​​with yerba mate and açaí, but without the negative effects. Drink in moderation."

"Wow! That's great, my friend. I'm just not going to try it now so I don't get too excited. Thanks."

Then the Archmagister took an axe and a shield from the crate and handed them to the warrior.

"The axe was repurposed from a very ancient organization called Dawnguard. I enchanted it with a powerful spell that deals enormous damage against vampires. The shield creates a magical barrier that absorbs their vitality."

"Always cautious, aren't you?" the Nord commented, smiling. "Thank you very much, my friend."

Augustus approached Fjorn and placed something small in his hand. The warrior looked at the ring and saw that it fit his enormous fingers perfectly.

"A jewel. Thank you."

"It's not just any jewel. It took my informants several months to find a priest who could enchant it. It grants a blessing of Ysmir of your choosing every time you perform a prayer."

"Wow. Thank you so much," he said, his eyes welling up with tears. "The gods have been good to me. Thank you, my friends."

Interrupting the solemn moment, Augustus ordered the shield-shaped cake to be brought in. Greta and Elsa joined in to sing "Happy Birthday" and were the first ones to receive a piece of cake from the birthday boy.

After the celebration, the guests spent the night at the manor and went their separate ways as soon as the sun rose.

Capítulo 1

A pequena Bosmer costurava sua armadura de couro quando a imensa cicatriz em seu torso começou a latejar de dor. Ele estava pensando nela, sinal de mau agouro. Sentiu que era observada, olhou ao redor e, na escuridão, atrás de uma cortina, aqueles olhos vermelhos acompanhavam-na. O assassino avançou rapidamente, mas não pôde aproximar-se, caiu morto com um dardo envenenado na garganta.

O Dunmer entrou em seu quarto carregando alguns pergaminhos e viu algo gosmento em cima da cama, uma pequena esfera avermelhada. Era um olho. Desembainhou sua espada a tempo de cortar ao meio uma cabeça que fora arremessada em sua direção. Com o efeito camaleônico desvanecendo, ele pôde ver que ela jogava para cima e pegava de novo, repetidamente, o outro olho.

— Como entrou aqui?

— Como seu assassino entrou em minha casa?

Ele sorriu.

— Cadê o contrato? Eu quero vê-lo — disse ela.

— Estava com ele.

— Não esse. Eu quero o contrato que você recebeu para me matar.

— Sabia que temos regras aqui? Os contratos são sigilosos.

— Está bem. Um dia eu verei esse contrato de qualquer forma. Mas isto é o melhor que vocês têm? É um insulto à minha capacidade.

— Não, pelo visto não é o melhor.

— Seria extremamente injusto com a minha pessoa, depois de tudo o que passei por você, ser assassinada por um aprendiz. Mande-me o melhor que você tem, Govarys.

— Mandarei.

Ela estava de saída quando Govarys Vloulu falou:

— Espere, Kláxia. Como você sabia que tinha um assassino em sua casa?

Ela tocou a cicatriz:

— Dói sempre que você pensa em mim. E o que mais poderia significar quando o Grão-Mestre da Morag Tong pensa em você?

Ela virou-se para sair de novo, mas ele continuou falando:

— Tenho pensado muito em você nos últimos dias.

— Eu percebi. Começou a doer com mais freqüência há pouco tempo. Graças a isso, estou duplamente alerta pela minha vida nesses últimos dias.

— Recebi esse contrato semana passada.

— E esperou uma semana para mandar alguém me matar? O que está havendo? O coração está amolecendo depois de tudo?

— Fico me lembrando de todas as vezes que você me ajudou. Como a recuperar os 26 itens de Sanguine, por exemplo.

Ela não disse nada, ele continuou:

— Mas tem o outro lado da história. Você incomoda muita gente, Kláxia. E ainda há uma taxa pendente por causa daquele banho de sangue em Balmora.

— Larrius disse que cuidaria disso para mim, mas alguém o subornou.

— Corruptíveis, todos eles, eu sei. E também, como Mentora da Guilda dos Ladrões, você roubou muita gente.

— Eu saí. Não pertenço mais à Guilda. Eu até soube que há outro em meu lugar.

— Você poderia ter chegado ao posto de Mestre-Ladra.

— Não. Jim Stacey é melhor nisso do que eu. Talvez o novo Mentor chegue a esse posto.

Govarys sorriu.

— Kláxia, você roubou o Drake's Pride do Neloth.

— E o vendi muito, muito caro.

— Sem contar o Auriel's Bow que você roubou da Therana.

Ela deu uma gargalhada.

— Fiquei rica vendendo aquilo. Vendi mais caro do que uma peça Daedric, acredita?

— E dentre tantos crimes, eu me lembro que você roubou o anel Black Jinx da Dratha...

— E devolvi à Morag Tong. Mais especificamente, a você.

— Todas essas coisas pesam em minha decisão.

— Pelo visto não pesou o suficiente.

Ele ficou sério.

— O contrato vem de cima, entende?

— Imaginava. Algum ancião Telvanni?

— Não.

— Mostre-me o contrato, Govarys.

— É um Imperial. Descubra por si só. E essas lembranças pesaram o suficiente para eu mandar você embora agora, em vez de lhe matar.

Ela sorriu e usou a poção de efeito camaleônico novamente, em seguida proferiu as palavras de um pergaminho e desapareceu.

Capítulo 2

A taverna estava cheia e animada. Havia músicos, muita dança e bebida por todos os lados. Assim que a pequena Bosmer de veste exótica adentrou o recinto, um silêncio mórbido apoderou-se do momento. Todos seguraram a arma mais próxima de si, prontos para retalhar a ladra ao menor sinal de movimento. Kláxia ergueu os braços num gesto de inocência:

— Por favor, eu não vim aqui para roubá-los. Vim aqui apenas para beber com vocês, Nords.

— Você nos chama de Nords como se fosse um insulto.

— Se minha maneira de falar é esnobe, peço perdão. Muito tempo convivendo com Dunmers.

Gargalhadas nórdicas vigorosas ecoaram pelo recinto.

— Uma sujamma para nossa companheira Bosmer!

Kláxia saboreava sua bebida silenciosamente numa mesa no canto contrastando com toda aquela festividade Nord, quando um Bretono de muitos gestos e poses sentou-se à sua mesa sem ser convidado.

— Deixe-me dar-lhe um conselho, Bosmer, é melhor não aparecer numa cidade cheia de imperiais quando há uma recompensa pela sua cabeça.

— Quanto?

— Cinco mil drakes.

— Vou precisar me esforçar mais.

— Ou você é muito corajosa, ou muito burra de vir até aqui. Se um deles lhe achar...

— Estou começando a ficar decepcionada. A Morag Tong me manda o pior. O Império coloca um prêmio miserável pela minha cabeça. Agora diga para mim, como pode uma elfa com as minhas habilidades sofrer tanto desdém assim? Estou seriamente considerando ir embora para outra província.

O Bretono riu.

— Talvez você precise que seu nome passe por bocas bem ouvidas.

— O que tem em mente?

— Sabe, eu deveria aceitar esse trabalho, mas meu lugar é aqui. Sou Nord de fígado e alma.

Os dois riram.

— Ouvi dizer que tem um Dunmer importante precisando de um mercenário.

Ela suspirou.

— Importante quanto? Não quero um arrogante telvanni me mandando preparar o chá dele.

— Não, não. Nada disso.

Ele chegou bem perto do rosto dela e sussurrou:

— Dizem que é o Nerevarine.

— O quê? O Nerevarine?

— Sim.

— Aquele Nerevarine da profecia? O tal?

— Ele mesmo.

— E onde ele está?

— Em Balmora.

— Não. Qualquer lugar menos Balmora.

— O que foi? Não consegue entrar em Balmora?

— Entrar nunca foi problema, meu caro. Sair é que é o problema. Quando você está de fora, o problema é pequeno, você conhece todas as saídas, todas as emboscadas. Mas quando você está dentro, parece não haver saída em lugar nenhum.

— Já pensou que se o Nerevarine lhe contratar, sair se tornará tarefa fácil?

— Aí é que está. A vida do Nerevarine se tornará ligeiramente mais difícil contratando uma mercenária com o meu histórico.

— Aposto que ele gosta do perigo.

— Não temos dúvida disso.

Capítulo 3

A noite estava alta, era possível ver a Masser no céu. Os guardas caminhavam preguiçosamente com tochas. Apesar de ser uma linda noite, não havia pessoas na rua. Kláxia imaginou que todos estariam na taverna ouvindo as histórias do Nerevarine. Como ela havia dito, entrar não foi problema, o caminho até Eight Plates estava livre.

Como poderia ser reconhecida na taverna, trocou sua armadura icônica por uma armadura de couro comum, seria mais fácil passar despercebida. Ficou surpresa quando adentrou a taverna e viu que não estava cheia, cada um tomava sua bebida em paz. Havia vários Dunmers no local, qual seria o Nerevarine? Olhou ao redor e todos eram rostos que ela já tinha visto. Mas, num canto, com um olhar triste e solitário, estava o que ela julgou ser um mago, provavelmente Telvanni pelas suas vestes caras: um robe de cores discretas porém ornamentado com pedras preciosas; botas, provavelmente encantadas; luvas caras; um amuleto extragavante; e um cinto caro. Ele bebia flin e fazia cara de poucos amigos.

Não pensou duas vezes e sentou-se à mesa dele. O Dunmer fitou-a incrédulo com a petulância de tal ser inferior de sentar-se em sua companhia. Mas, sem querer chamar atenção, falou discretamente:

— Tem outras mesas vagas.

— Eu sei.

A vontade dele era usar um feitiço para desintegrá-la, mas depois pensou que ela teria de ir embora em algum momento, não poderia ficar ali para sempre.

— Soube que você está querendo contratar os serviços de um mercenário.

— Agora me arrependo de ter espalhado essa notícia.

Ela sorriu, um sorriso desafiador.

— Você não dá nada por mim, não é?

— Não dou nada por ninguém.

— Aposto que tem amigos em altas posições, está acostumado com pessoas renomadas.

Ele não disse nada. Ela continuou:

— Você pode não conhecer o meu nome, mas a minha fama está correndo pelas cidades. Eu até sou procurada.

A frase soou dúbia, podia ser pelos serviços, mas ela não se parecia nem um pouco com as dançarinas de uma certa taverna em Suran. Também podia ser procurada por crimes, esta última alternativa pareceu ao Nerevarine a mais provável.

— Se você fosse tão boa, os guardas não saberiam quem procurar.

— Muito bem pensado. O único detalhe é que a recompensa pela minha cabeça não foi colocada pelos guardas, neste caso, de Balmora, mas pelo próprio Império para o qual eu fiz o trabalho.

— Corruptos.

— Foi o que me falaram.

— Mas por que eles fariam isso? Eles só precisavam de um bode expiatório ou por acaso você é alguém importante?

Algumas pessoas se ofenderiam com o jeito dele de falar, ela simplesmente não ligou.

— Digamos que meu passado não começou em Morrowind.

— Cyrodiil?

— Valenwood.

O Dunmer bebeu um gole de sua bebida e seu semblante era de quem não se importava com nada. Se um raio atingisse a cabeça dela naquele momento, ele não moveria um músculo sequer.

— Acho que terei de persuadi-lo a me contratar.

— Quero ver você tentar.

— Deixe-me passar uns dias em sua companhia e depois você terá mudado de idéia.

Ele a observou como quem observaria um mudcrab agonizando.

— Acredito que você tenha trabalhado para muitas pessoas sem um mínimo de exigência e agora acha que o meu padrão também é baixo e que eu vou cair na sua conversinha. Acha mesmo que eu deixaria você passar "uns dias" comigo? Isso seria claramente contratá-la. Acha que eu não percebi que você vasculhou os meus bolsos duas vezes?

Ela deixou um olhar espantado transparecer. Ele continuou, parecia querer humilhá-la.

— Acha mesmo que eu viria para uma taverna numa cidadezinha medíocre carregando documentos importantes ou mesmo itens de valor? O quê? Você me julgou um mago idiota e arrogante pelas minhas roupas? Ora, não queira saber o que penso de você.

Ela continuava observando-o espantada, não era possível dizer o que ela sentia além do espanto. O Dunmer tomou o resto de sua bebida de uma vez e bateu a caneca na mesa, aborrecido. O semblante de espanto da Bosmer foi se transformando em graça.

— Ui, eu peguei o Nerevarine de mau humor.

Ele puxou bastante ar e disse pausadamente:

— O dia que eu estiver de mau humor, não haverá homem ou elfo nessa ilhota que viverá para contar o estrago.

Ela riu.

— Você, definitivamente, está de mau humor. Deixe-me dizer-lhe uma coisa antes de notarem a minha presença e eu ter que me despedir de você abruptamente...

O Dunmer rosnou, ela continuou:

— Você pode ser arrogante, e é, mas toda a sua necessidade de destruir a minha estima não passa de um momento de desespero. Afinal, por que um mago Telvanni "espalharia a notícia" de que precisa de um mercenário? Você poderia muito bem ordenar a um membro da sua Grande Casa que fizesse algo para você. Por que vir beber em uma cidade medíocre? Você poderia beber nas tavernas de Sadrith Mora ou Vos. Alguma coisa o aflige, muito mais do que você imaginava que afligiria, e você não está lidando bem com isso. Beber aqui é como se esconder, afinal, quem lhe conhece sabe que você é um mago com uma alta posição na Grande Casa Telvanni e por isso jamais o procuraria em uma taverna de Balmora. Sobre o mercenário, eu acredito que seja uma companhia, completamente diferente do que você tem convivido, já que, como eu falei, você poderia dar ordens a um membro de sua Casa. Você precisa desesperadamente fugir do que está sentindo, e nada melhor do que conviver por uns dias com um ser inferior que o aborreceria tanto com a inferioridade dele que faria você esquecer a sua dor, mesmo que momentaneamente. Essa pessoa deve ter sido realmente muito importante para você, a ponto de fazê-lo descer de sua arrogância e querer passar um tempo com os seres insignificantes.

Um guarda entrou na taverna, possivelmente para escapar um pouco da sua ronda, mas Kláxia apressou-se.

— Essa é a minha deixa. Tenho certeza de que vamos nos encontrar de novo. Boa noite, Nerevarine. Espero sinceramente que você encontre uma distração para aliviar um pouco a sua dor.

Levantou-se da mesa e esgueirou-se até perto da saída, usou um pergaminho e desapareceu.

A casa da Bosmer ficava no meio do nada, uma construção sem muitas regalias, mas cheia de cantos para se esconder. Ela colocou a chave na porta e seu instinto detectou algo errado. Afastou-se e procurou qualquer coisa ao redor. Encontrou pegadas úmidas no chão.

— Oh, Govarys, por que você só me manda o pior? Morar numa ilha tem suas vantagens — sussurrou para si mesma.

"A entrada no telhado", pensou, "vou pegá-lo de surpresa". Kláxia dirigia-se para o telhado quando teve uma idéia. Amarrou a ponta de uma tira longa de couro na chave e jogou a outra ponta em cima do telhado. Subiu, usou outra poção camaleônica em si mesma e puxou a tira de couro girando a chave. Uma bola de fogo voou em direção à saída e, não tendo atingido nenhum alvo, dissipou-se no ar. Logo após, o assassino correu para fora como se fosse pegar alguém, mas quando deu de cara com o vazio, ficou confuso. Ela ainda estava sob efeito camaleônico quando desferiu o primeiro golpe na cabeça que deixou-o atordoado no chão. O assassino levantou-se, localizou sua espada que brilhava na escuridão e, ainda um pouco atordoado, abaixou-se para pegá-la quando, imediatamente, uma adaga atravessou-lhe o queixo atingindo o crânio. Kláxia precisou se esforçar para puxar a adaga, enterrara com muita força.

A Masser ainda enfeitava o céu com seus tons de vermelho.

— Ah, Govarys... Será que eu vou precisar enfeitar sua mansão com cabeças para você entender?

Capítulo 4

— E então, Aengoth, quanto pelas botas Daedric?

— Elas valem 20 mil, menos meus 25%, dá 15 mil drakes. Onde você consegue essas coisas?

— Um dos meus hobbies é caçar em ruínas Daedric.

— Fico imaginando o que você faria se tivesse a Chave Mestra.

— Provavelmente estaria morta com meio Tamriel atrás de mim.

Os dois riram.

— A Guilda precisa mais da Chave Mestra do que eu. Porque, a propósito, eu me viro muito bem nas ruínas.

— Você podia conseguir alguns itens dwarven para eu revender. Mesmo negócio, 25% é meu.

— Aengoth, você não sabe o quanto eu detesto as ruínas Dwemer. Quando vou, é só por obrigação mesmo. Meu prazer está nas ruínas Daedric.

— Eu compreendo. As armadilhas dos dwemers são mortais.

— Não é só isso. É tudo muito sem vida. Só máquinas e armadilhas mecânicas. Eu gosto de seres vivos, com os quais eu posso interagir e ver em seus rostos a agonia quando parto suas tripas com minhas adagas.

Aengoth riu, ela continuou:

— Eu não vou dizer que sou fã de magos, mas eu prefiro as armadilhas de encantamentos.

— Mais complicadas de desarmar.

— Mas pelo menos são desarmáveis. As armadilhas mecânicas quase sempre disparam quando se tenta desarmar.

— Provavelmente resultado de muitos anos enterradas sob várias e várias camadas de terra.

— Com certeza.

Aengoth pegou uma pequena sacola de couro, separou os 15 mil adiantados de Kláxia, e iniciou uma conversa meio sem jeito.

— Sabe, tem um boato por aí de que a Morag Tong está tendo problemas com um dos contratos.

— Não fiquei sabendo de nada.

— Parece que eles já perderam dois assassinos.

Ela ficou em silêncio. Ele continuou:

— Dizem que é uma elfa. Só que ninguém sabe o nome.

Aengoth olhou para Kláxia e como esta permanecia em silêncio com um semblante indecifrável, ele prosseguiu cuidadosamente:

— Eu só conheço uma elfa que poderia revidar de igual para igual com a Morag Tong.

— Tem muitas coisas no meu passado das quais eu não me orgulho, mas também não me arrependo. Talvez não fizesse de novo, mas não fico imaginando como seria se tivesse feito diferente. A Dark Brotherhood me deu coisas que ninguém jamais me daria, mas eu não pertencia àquela irmandade.

— Não gosto nem de pensar nas informações que você teve acesso.

— Não é seguro nem pensar mesmo.

— Ah, preciso lhe avisar uma coisa — disse o elfo. — Ultimamente eu tenho visto muitos recrutas imperiais por aí. Tem mais imperiais pelas estradas do que qualquer coisa.

— Você acha que é por minha causa?

— Não, mas tome cuidado, o Forte Buckmoth fica bem perto daqui.

— Ainda bem que eu não ando muito pelas estradas, a não ser quando tenho algum contrato, o que não tem acontecido há bastante tempo.

— Seu esconderijo é longe daqui?

— Muito. Um lugar perfeito. Mas não longe o suficiente para os assassinos da Morag.

— Eu acho que nem a Masser é longe para eles.

Os dois riram.

— O que pretende fazer agora? — perguntou o elfo.

— Eu tenho um outro trabalho em vista. Coisa grande. Mas digamos que é preciso conquistar a confiança dele primeiro.

— Como você vai conseguir trabalhar como mercenária com Império, Morag Tong, e Telvanni atrás de você?

Ela riu. Pela primeira vez, era um sorriso meio desesperado.

— Bom, se ele me contratar, Telvanni e Império não serão mais problema. E levando em consideração que a Morag está trabalhando para o Império nessa, talvez não seja mais problema também.

— Uau, todos os ratos com um golpe só. Mas espera... É ele?

— Não sei em quem você está pensando.

Aengoth arrastou sua cadeira, chegou bem perto dela e sussurrou:

— É o Nerevarine?

— Ele está mais conhecido do que imagina.

— Olha, não precisa se preocupar, se ele vier me perguntar alguma coisa, eu vou dar uma excelente recomendação sua!

— Aengoth, ele não vai lhe perguntar nada.

— O que é uma pena, imagine o que ele deve ter para eu vender.

Kláxia riu. De repente a taverna ficou silenciosa.

— O que está acontecendo? ─ perguntou ela.

— Eu vou ver o que é. Fique aqui.

Discretamente Kláxia segurou suas adagas. Aengoth foi até o primeiro piso do Rat in the Pot e demorou. Ela começou a ficar nervosa, não podia usar uma poção camaleônica porque chamaria atenção e as poucas pessoas que havia por lá perceberiam. Longos minutos depois, Aengoth retornou tenso.

— São os recrutas.

— Estão procurando por mim?

— Não, parece que estão há muito tempo na estrada e estão famintos. Essa é uma boa hora para você ir, eles disseram que há uma tempestade de areia. Você pode usar suas poções sem chamar atenção. Toma, use o meu elmo, vai proteger os seus olhos.

— Obrigada.

— E se o Nerevarine tiver algo para vender...

— Aengoth. ─ repreendeu-o.

— Desculpa, não é o momento. Boa sorte. Vejo você por aí.

Kláxia caminhou tensa até a porta, mas ninguém parecia se importar com ela. Do lado de fora, havia apenas os guardas que se protegiam como podiam. Era difícil ver qualquer coisa. Num canto afastado, ela desapareceu.

Capítulo 5

Chovia na ilha. A casa estava limpa, nenhum sinal da Morag, exceto por uma cabeça presa numa lança enfiada na terra. Ela observou a cabeça e falou para si mesma:

— Vai ficar grotescamente belo quando eu terminar.

A chuva apertou, ela entrou e percebeu que o momento era agradável para dormir, encostou-se na cama e cochilou.

Acordou assustada, seu corpo estava paralisado. Havia um dardo cravado em sua perna. O assassino sorria triunfante. Apunhalou-a na barriga três vezes. Ela sabia que não sangraria enquanto estivesse paralisada, mas quando o efeito passasse, não sobraria muito tempo para revidar.

Sua visão estava turva, não podia respirar, seus pensamentos pareciam uma tempestade torrencial, estava ficando tonta. Foram os 10 segundos mais longos de sua vida. O assassino revirava sua casa. Quando Kláxia conseguiu mover um braço, puxou o ar desesperadamente provocando um ruído alto, ele ouviu e veio em sua direção para desferir o último golpe. Ela meteu uma gazua na fechadura de um baú próximo à sua cama e desviou, um raio atingiu o assassino. Foi tempo suficiente para ela pronunciar as palavras de um pergaminho e desaparecer.

Uma tempestade assolava a pequena ilha e parecia que a choupana poderia desabar a qualquer momento. O velho Bretono não se importava, estava mais preocupado em onde havia guardado o frost salt, quando de repente, no meio da primitiva habitação, surgiu um corpo ensangüentado.

— Pierre! Eu vou morrer!

O velho Bretono tratou de deitá-la no chão e rapidamente examinou as feridas.

— Essas perfurações vão me dar um trabalhão!

Ele vasculhou sua prateleira de poções, pegou uma e tentou acalmá-la:

— Tente não se mexer. Beba esta poção. Vai deixar você paralisada por mais tempo do que gostaria.

— Não!

— Fique calma, você não vai morrer, vai ficar sem ar e vai desmaiar. Acredite, é tempo suficiente para eu costurar as perfurações. Vamos, beba ou morra.

Kláxia bebeu e imediatamente ficou paralisada, o sangramento parou e Pierre penetrou seus dedos nas feridas para ver até onde havia sido perfurado, ele olhou nos olhos dela e podia vê-la gritando. Identificou todas as perfurações e começou a suturar.

Bastante tempo depois, Kláxia acordou. Estava tonta e dolorida.

— Que bom que você acordou. Estava ficando preocupado. Vamos, beba esta poção, vai ajudar a cicatrizar as feridas.

Ela bebeu com dificuldade, tentou se levantar, mas ele a impediu.

— Não force, você precisa de repouso. Mas se você puder ser breve e resumir quem fez isso e como conseguiu ser apunhalada três malditas vezes, eu agradeceria.

— Morag Tong.

— Oh... Bem, isso resume bastante as coisas. Mas como isso aconteceu?

— Cochilei.

— Onde foi isso? Na sua casa?

— Sim.

— Como eles sabiam onde você morava?

— Govarys.

— Eu achei que vocês dois já tivessem se matado. Seria mais saudável. Bem, tente dormir, aqui você está segura. Bem, eu acho, a não ser que você tenha falado sobre mim com ele.

— Jamais.

— Ótimo. Então você pode dormir em paz aqui. E eu também.

Kláxia acordou algumas horas depois e parecia bem melhor.

— Deixe-me ver como está isso ─ ele removeu as bandagens. — Oh, está bem melhor, quase cicatrizado. Daqui a pouco você já pode ir.

— Obrigada, Pierre.

— Você sabe que eu estarei aqui sempre que precisar ─ sentou-se numa cadeira com dificuldade, estava muito velho.

Ela levantou devagar para se recostar na cama quando ele viu a cicatriz no torso dela.

— Ainda dói? ─ apontou para a cicatriz.

— Não por sua causa.

— Você nunca me contou como conseguiu isso. Apenas chegou sangrando e gritando que ia morrer, coisa que, aliás, você não perdeu o costume.

— Quando eu conheci Govarys, ele tinha acabado de entrar para a Morag Tong. Eu ainda era da Dark Brotherhood.

— Espera aí! Você saiu por causa dele? Não acredito! ─ Pierre estava animado com a fofoca.

— Não exatamente. Eu nunca pertenci à Irmandade mesmo, mas sou grata por tudo o que aprendi com eles. Meu coração sempre foi de mercenária, cada dia um trabalho diferente.

— Você nunca me contou como saiu da Dark Brotherhood.

— Isso não é história para agora. Mas, eu meio que tive que convencê-los a me deixar sair.

— Com sangue?

— Com sangue.

— Tem certeza de que é a Morag Tong atrás de você?

— E desde quando a Dark Brotherhood precisou de ajuda?

— E a cicatriz?

— Govarys e eu tínhamos como missão o mesmo alvo.

— Uau! Devia ser uma pessoa bem desagradável.

— Sim, parece que três pessoas contrataram a Irmandade para isso.

— Que coisa ─ deu uma risada assustada. — Mas e aí?

— Bom, tivemos que brigar pelo alvo.

— Me admira muito que você, já avançada na Irmandade, quase tenha morrido para um novato.

Kláxia deixou um sorriso aparecer, olhava para o vazio lembrando.

— Eu não queria matá-lo. Ele não era o meu alvo. Falei para decidirmos num duelo mano-a-mano, eu ganhei. Traiçoeiramente, ele me acertou uma de suas lâminas e correu. De onde eu estava, acertei um dardo envenenado no nosso alvo. Govarys parecia chocado. Tirei a lâmina e me transportei para cá. O resto você já sabe.

— Mas espera, você disse ao seu superior que foi ele quem matou o alvo?

— Eu jamais daria uma morte minha para quem quer que fosse. Meu superior sabia que tinha sido eu, mesmo tendo rolado por aí o boato oposto. De qualquer forma, a Irmandade recebeu três pagamentos.

— Ótimo!

Os dois riram.

— Você não tem para onde ir agora, não é?

— Não posso voltar para casa, e nem era para eu ter voltado depois do primeiro assassino.

— Pode ficar aqui se precisar.

— Eu agradeço, Pierre, mas já tenho outros planos.

— Antes de você ir, eu quero me despedir. Talvez eu não esteja aqui da próxima vez em que você aparecer gritando.

— Eu que agradeço tudo o que você fez por mim. Queria poder retribuir.

— E você pode, comece procurando meu frost salt.

— Não está no barril que você denominou por "barril dos daedras"?

— Oh! Não me lembrava disso.

Pierre revirou o barril e encontrou o frost salt.

— Era exatamente o que eu precisava para a minha poção!

Kláxia deixou o velho homem distrair-se com seu hobby e foi embora.

Capítulo 6

Apesar de muitos Telvannis estarem atrás dela, Kláxia imaginou que possivelmente correria o boato de sua morte e ela teria algum tempo de paz antes da Morag se dar conta de que ela ainda estava viva. Mudou a armadura comum de couro por uma armadura Nord pesada completa, disfarçaria melhor e ninguém em Sadrith Mora se importaria com sua presença.

A taverna estava animada, porém contida. Deu uma olhada ao redor para ver se encontrava alguém interessante para incomodar. Avistou um homem com uma armadura daedric completa, o elmo cobria totalmente o rosto. O homem não bebia nada, estava apenas num canto apreciando a música do bardo. Ela se esgueirou até ele e falou:

— Se eu soubesse, venderia minhas caçadas para você. Seu conjunto deve ter lhe custado uma fortuna. Essa dai-katana daedric é lindíssima. Sou apaixonada pelos itens daedric.

E surpreendentemente o homem falou:

— Você de novo!

— Oras! Se não é você de novo. Haha! Pelo menos com esse elmo, eu não preciso ver suas caretas. — Apesar das gargalhadas altas, ela não chamou atenção.

— Quando é que eu vou me livrar de você?

— Quando eu morrer.

Ele caminhou em direção a uma das mesas e sentou-se, ela sentou junto com ele.

— Achou mesmo que eu deixaria de me sentar com você, Nerevarine?

— Eu não falei nada.

— Eu pude sentir sua careta daqui! ─ Ela ria.

— O que você quer?

— Eu realmente preciso de um trabalho. Não posso mais ir para casa. Aliás, eu não tenho mais casa.

Nerevarine não queria saber, mas sentiu-se compelido pela atmosfera amistosa a perguntar o que aconteceu.

— A Morag Tong finalmente me pegou, na minha casa.

— E como você está aqui agora?

— Escapei por muito pouco.

— Eles devem estar atrás de você então.

— Por enquanto é provável que eles acreditem que estou morta.

— Quer dizer que você não tem mais dinheiro?

— Quem disse que eu não tenho dinheiro? Eu disse que não tenho mais casa.

— Seu dinheiro não estava na sua casa?

— Não sou nem louca de guardar minha riqueza em casa. Está toda distribuída entre vários mercadores. Pequenas quantias com muitos e muitos mercadores.

— Esperta.

— E devo acrescentar, a maior parte deles não está nem em Morrowind.

De repente, Kláxia se deu conta de uma coisa:

— Espera, você acabou de me elogiar ou eu estou delirando?

— Não force a barra.

— Você é mesmo o Nerevarine que eu conheci naquela taverna de Balmora algumas semanas atrás, ou você é só um cara perverso que está fingindo que é o Nerevarine com intenções pérfidas?

Ele ficou imóvel.

— Ui, essa careta foi caprichada, senti nos meus ossos. Agora eu tenho certeza de que é você.

Ele suspirou, ela falou:

— Melhor você beber alguma coisa. Geralmente as pessoas dizem que sou uma companhia muito agradável depois da décima garrafa de sujamma.

Nerevarine ficou em silêncio, encarando-a.

— O seu tédio emana como o fedor de um cocô de nix hound muito tempo debaixo do sol quente da Bitter Coast.

Nerevarine não agüentou e soltou uma risada contida.

— Oh! Pelos Oito Divinos! Socorro! Alguém seqüestrou o Nerevarine e deixou essa cópia assustadora no lugar!

Ele continuou em silêncio, ela se aproximou e sussurrou:

— Eu sei que tem um sorriso tímido por baixo desse aterrorizante elmo daedric...

Nerevarine retirou o elmo, um pouco hesitante, pois poderiam reconhecê-lo e perturbá-lo, mas os dois pareciam invisíveis diante da animação da taverna. Seu semblante era de desdém, mas não tão ofensivo como da primeira vez que conversaram.

— Fico honestamente feliz que você tenha saído da fossa. E então, estou contratada?

— Vá com calma, Bosmer. Cadê minha sujamma?

Kláxia se espantou com a pergunta, mas foi até o balcão e pegou duas garrafas. Nerevarine bebeu a sujamma toda de uma vez, ela observava boquiaberta.

— Toma, pode ficar com a minha. Eu não cuspi.

Ele aceitou e, com um sorriso meio sem graça, falou:

— Tenho quase certeza de que alguns dos meus aprendizes fazem isso.

— Eu não tenho a menor dúvida.

Algum tempo e algumas sujammas depois, Nerevarine estava bêbado.

— E... E foi aí que eu falei "Argimaquisdatro, nunca... Nunca!... Duvide da força do Verenarine!", e ele ficou impressionado. A gente venceu a escaramuça. E foi assim que eu consegui essa tai-kadana dradeíque.

— Dai-Katana daedric.

— E o que raios eu falei?

Pela primeira vez na vida, Kláxia estava entediada.

— Ei, Flácida, pegue outra sujamma para mim.

— Kláxia.

— Vocês são muito apegadas a detalhes. Pegue outra sujamma para mim, mulher!

— Acho que já está na hora de você ir para a sua torre.

— Quem manda aqui sou eu!

— Aham... Vamos, venha.

— Não! Eu sou Reneravine e eu quero mais sujamma!

— Eu dou toda a sujamma que você quiser, mas só se você for para a sua torre.

— Ora daedras, mulher. Eu quero 37 sujammas e uma dançarina na minha torre.

— Tudo bem. Vamos, eu levo você.

— Tenho um permaninho no cinto.

— Tá bem. Segure-se em mim.

Nerevarine se jogou em cima dela e já mostrava sinais de sonolência. Kláxia pronunciou as palavras do pergaminho e os dois foram transportados para o interior de uma imensa torre Telvanni.

— Oh, daedras! Muitas tubulações, como vou levitar com você por aí?

Nerevarine estava quase dormindo, mas apontou para uma porta a alguns passos dali:

— Cama...

Ela abriu a porta e era um imenso quarto, jogou-o na cama e respirou fundo, estava cansada. Ouviu passos. Provavelmente a matariam se a encontrassem ali. Resolveu despir-se da armadura pesada, escondeu-a embaixo da cama, deitou nua abraçada ao Nerevarine desmaiado de bêbado e fingiu que estava adormecida.

Sentiu que alguém se aproximava, mas não podia se mexer, estragaria o disfarce. Subitamente uma mão agarrou seus cabelos e encostou a ponta de uma adaga conjurada em seu pescoço.

— Diga agora quem é você ou morra.

— Eu sou erm... uma dançarina... Isso. De Suran. Seu mestre me contratou.

— Ele não me avisou nada.

— E desde quando ele tem que lhe dar satisfações? Para quem você trabalha? De quem é essa torre mesmo? Se você não voltar ao que quer que estivesse fazendo antes, vou contar para o seu mestre que você destratou uma convidada dele. ─ E acrescentou aborrecida: — Hunf.

O aprendiz hesitou, não tinha certeza se o mestre estava dormindo ou morto.

— Você tem certeza de que quer acordar o seu mestre numa situação dessas? Veja bem, seu mestre está acompanhado de uma senhorita nua. Será que você não entendeu o que aconteceu aqui?

O aprendiz estava desconfiado, mas não tinha coragem suficiente para enfrentar a fúria de seu mestre caso sua desconfiança fosse vã. Pronunciou uma palavra que fez a adaga desaparecer e avisou:

— Se meu mestre estiver morto, eu vou atrás de você até no Oblivion. ─ E saiu.

— Entre na fila — sussurrou.

Na manhã seguinte, Nerevarine estava com terríveis dores de cabeça. Olhou ao redor e viu uma bandeja com restos de muitas comidas e uma garrafa vazia de Cirodiilic Brandy1. Chamou seu aprendiz.

— O que é isso? ─ perguntou apontando para a bandeja.

— Sua dançarina que pediu, mestre.

— Minha o quê?

— Eu sabia! Eu sabia que ela não era confiável! Eu só não lhe acordei, mestre, porque eu não tinha certeza... Mas agora ela está no setor dos cofres, eu mesmo a matarei!

— Não, Tuvlos. Eu irei até lá.

— Mestre, o senhor não está em condições físicas de lutar com ninguém, nem com a intrusa.

— Não vou lutar com ninguém. Ela não é bem uma intrusa, eu estava com ela ontem no Fara's Hole.

— Ah. O senhor quer que eu faça alguma coisa?

— Limpe essa bagunça.

Quando Nerevarine a encontrou, ela estava examinando uma das portas.

— Todas têm armadilhas mágicas ─ avisou ele.

— Deixa eu desarmar só uma, vai.

— Não.

— Elas são letais?

— São.

— Mentira.

Ele suspirou.

— Como viemos parar na minha torre? Esse é um dos meus robes?

— Peguei emprestado se não se importa. Aparentemente o Argimaquisdatro ficou muito impressionado que você é o Verenarine e agora você tem uma tai-kadana dradeíque. E eu me chamo Flácida.

Ele colocou a mão no rosto em sinal de vergonha, ela deu uma gargalhada.

— Você é o ébrio mais chato que eu conheço.

— E você é a sóbria mais chata que eu conheço.

— O que você preparou para mim hoje?

— A sua partida. Pegue suas coisas e vá embora.

— Eu não tenho para onde ir. Não me mande embora, por favor. ─ Ela segurou uma das mãos dele com as duas mãos e suplicava com o olhar. Duas mãozinhas rosadas segurando uma enorme manopla daedric.

— Você é muito fingida.

Um sorriso se abriu no rosto dela.

— Mas é sério, eu não tenho mais para onde ir. Se eu voltar para a minha casa, é bem provável que eu morra de verdade. E aqui eu consegui ter uma noite de sono digna, mesmo que seu aprendiz quase tenha me cortado a garganta.

— Foi para isso que eu o treinei.

— Me mande fazer qualquer coisa em qualquer lugar, mas não me mande embora. Por favor, não faça isso comigo. ─ Ela não estava mais encenando.

— Tá bem, tá bem. Mas você vai ficar no setor subterrâneo, com os guardas.

Ela pulou em cima dele para abraçá-lo em agradecimento, mas ele a empurrou.

— Vista sua armadura e guarde meu robe onde você achou, depois me procure no meu laboratório. Se precisar de poções para levitar, o que eu imagino que sim, peça a Tuvlos.

O laboratório era um lugar imenso, cheio de experimentos, e várias estantes com poções e ingredientes.

— Se eu não fosse procurada, mudaria agora mesmo para uma armadura mais leve. Você tem algo para mim?

— Tenho, preciso de 10 quilos de cera de dreugh fresca.

— Você tem uma piada para mim, isso sim.

— Você tem três dias para conseguir.

— Por que não pede a um de seus aprendizes?

— Porque eles têm coisas mais importantes a fazer.

— E quanto você vai me pagar por isso?

— Pelo que você se fez entender, o que você precisava era de uma atividade, e não de dinheiro. Aliás, você deixou bem claro que não precisa de dinheiro.

— Eu não vou trabalhar para você de graça.

— Claro que não. Você vai trabalhar pelo prazer de ter uma tarefa e de poder dormir em paz.

— Tá bem, tá bem. Mas eu vou precisar de mais tempo.

— Tudo bem, cinco dias.

— É, acho que dá. E também preciso de uma faca de vidro de corte longo, grandes sacolas de couro, tem que ser couro de netch, e bastante papel.

— Qualquer coisa que você precisar, peça a Tuvlos. Agora saia.

Dessa vez foi ela quem fez uma careta antes de se retirar.

Capítulo 7

Kláxia precisou despir-se para coletar a cera, pois era difícil nadar com uma armadura pesada. Já havia coletado sete quilos de cera quando sua cicatriz começou a latejar, e percebeu que alguém a observava. Tentou vestir a armadura rapidamente, em vão. Os dois assassinos avançaram. Só teve tempo de pegar suas adagas e lutar. Ela era hábil e rápida, porém sua eficiência foi comprometida porque estava lutando nua e seu cuidado precisou ser redobrado.

Quando conseguiu derrubar os dois assassinos, Kláxia correu para a água, imaginou que seria mais fácil para ela e mais complicado para eles. Nadou bastante até perceber que eles estavam alcançando-a. Um dreugh também nadava em sua direção, com sorte poderia usá-lo contra os assassinos. Quando o dreugh a atacou, ela desviou e agarrou-o por trás, usava-o como escudo. Os dois assassinos não conseguiam acertá-la, o dreugh os atacava com suas garras. Com os tentáculos, a criatura prendeu fortemente um dos assassinos e puxava-o para o fundo, ele não conseguia lutar. Kláxia soltou o dreugh e atacou por trás o outro assassino tentando afogá-lo. Ele conseguiu acertar uma adaga no ombro dela. Ela gritou, ele estava prestes a fincar a segunda adaga em uma das pernas dela que estavam ao redor da cintura dele, mas ela segurou o braço dele com as duas mãos e cravou a segunda adaga no olho dele. Deixou o corpo afundar enquanto gritava de dor. Submergiu para procurar o segundo assassino e viu que o dreugh já rasgara sua carne e devorava-o.

Nadou como pôde para a margem e, como não conseguiria vestir a armadura, usou o pergaminho que o aprendiz deu a ela e transportou-se para a torre.

— A senhorita tem uma mania muito feia de ficar pelada por aí.

— Eles me encontraram, Tuvlos.

— Vou chamar o mestre.

Ela estava coberta de sangue. Nerevarine trazia uma poção, roupas e uma aprendiz que era curandeira. Fê-la vestir-se e falou:

— Danlusa vai cuidar do ferimento. Depois quero que você venha ao meu laboratório.

Kláxia apenas assentiu com a cabeça, estava tensa.

Algum tempo depois, o ferimento estava bem melhor. Nerevarine estava sentado em uma cadeira no laboratório, pensativo.

— Eu só consegui sete quilos de cera, eles me encontraram antes que eu pudesse terminar.

— Tudo bem, o restante eu mando algum adepto comprar com um herbanário qualquer.

— Mas eles não vendem cera fresca.

— Não precisa ser fresca.

— Você disse que tinha que ser cera fresca.

— E você disse que eu podia mandar você para qualquer lugar para fazer qualquer coisa.

Ela olhou para o teto e engoliu o aborrecimento, não adiantava descarregar sua raiva no Nerevarine, não era culpa dele que sua vida estava em constante risco. Aquilo estava começando a pesar em sua consciência.

— Isso está começando a ficar sério para você, não é? ─ perguntou ele.

Ela apenas assentiu com a cabeça.

— Eu tenho espiões no Império ─ hesitou antes de contar. — Se você quiser, posso mandar que um deles descubra quem contratou a Morag Tong.

— E depois o que eu vou fazer? Matá-lo? E o que acontece em seguida? O Império aumenta o prêmio pela minha cabeça em um zilhão de drakes e todo o Tamriel virá atrás de mim.

— O que você quer que eu faça?

— Não quero que você faça nada. Isso não é problema seu. Obrigada pela hospitalidade. Eu vou juntar minhas coisas e ir para qualquer lugar pensar no que fazer.

— Não estou expulsando você.

— Não. Eu é que estou saindo.

— Você não precisa sair. A quem você pedirá ajuda? Aos mercadores seus amigos? Até onde sei, eles podem aproveitar a ocasião da recompensa e matá-la sem hesitação.

— Por acaso você sabe como é viver sem poder confiar em ninguém?

— Por muito tempo, sim. Mas agora eu tenho amigos leais.

— Fico feliz por você.

— Deixe-me ajudar.

— Não há mais nada que você possa fazer. O que eu poderia pedir, você já está fazendo.

— Vou avisar a Tuvlos para preparar um aposento para você aqui em cima.

— Não, eu prefiro ficar com os guardas, caso alguém...

— Eles não ousariam.

— É a Morag Tong, eles irão além de ousar.

— Felizmente não é a Dark Brotherhood.

Ela riu.

— Ainda não.

— Não acredito! A Dark Brotherhood também? Pelos Oito Divinos, você deve ser a pessoa mais irritante que eu conheço!

— Não é isso. Eu pertenci à Irmandade e saí de uma maneira bem ruim. Mas parece que apesar de tudo, eu realmente consegui me desligar deles. Só que quem contratou a Morag pode tentar contratar a Irmandade também. Estou começando a me tornar um alvo desagradável, tanto para a própria Morag que já perdeu quatro assassinos como para a pessoa que os contratou.

— É uma possibilidade.

— Eu estava pensando em ir embora.

— Você não me ouviu? Eu acabei de falar que você pode ficar aqui.

— Não, digo ir embora para outra província.

— Acho que não adiantaria muito. Eles iriam atrás de você em qualquer lugar.

— Elsweyr.

— Você conseguiria viver no meio de tantos khajiit?

— Perfeitamente.

— Talvez... ─ ele estava pensativo e hesitante.

— O quê? ─ pergunto ela com curiosidade.

— Eu sou o Nerevarine, mas ainda não cumpri a profecia completamente. Ainda preciso subir a Montanha. Você poderia ir comigo. Creio que a Morag e os caçadores de recompensa não se arriscariam na Montanha por sua causa. Provavelmente esperariam que você morresse por lá.

— Olha, é uma boa idéia.

— E depois... ─ Ele hesitou.

— O quê? Me conta! ─ Ela já estava mais animada.

— Eu tenho planos de fazer uma expedição para Akavir. Você poderia vir comigo. Mas já aviso que talvez não tenha volta.

— Eu vou com você até o Oblivion.

Ele sorriu. Era a primeira vez que ela via o rosto dele com um sorriso.

— Bom, já que temos um acordo, eu já avisei a Tuvlos, você vai polir todas as minhas armaduras com a cera que coletou hoje.

— Você é tão piadista.

— Estou falando sério. Quero tudo muito bem polido. E amanhã você vai afiar todas as minhas espadas.

— Não acredito ─ disse, boquiaberta.

— Pois comece a acreditar. Seu ombro está bem melhor, já pode começar. Agora saia.

Kláxia balançou a cabeça negativamente, indignada. Saiu pensando em vários insultos.

— E é melhor ter cuidado com o que pensa, eu sinto seus pensamentos daqui.

— Hunf! ─ e se apressou em sair.

Capítulo 8

Uma gritaria fez Kláxia e alguns guardas acordarem. Do lado de fora havia dois cadáveres um pouco afastados da entrada principal da torre.

— O que houve? ─ perguntou ela a um dos guardas da ronda noturna.

— Caçadores de recompensa. Tentavam entrar na torre.

— Outra vez?

— Essa já é a quarta vez só essa semana ─ disse Tuvlos aparecendo de repente. — Acho que o Império aumentou o prêmio pela sua cabeça.

Ela parecia chateada.

— Oh, não fique assim, senhorita. Isso aqui era muito parado antes de você chegar ─ disse Tuvlos tentando animá-la — Os guardas sempre se queixavam de que recebiam um árduo treinamento e ninguém nunca tentava invadir a torre. Acredite, isso não é trabalho para eles, é diversão.

— Antes, nós corríamos atrás de eventuais ratos que fugiam do laboratório do mestre ─ respondeu um dos guardas.

— Por isso que os experimentos mais complicados são realizados na caverna. Assim as criaturas não fogem — completou Tuvlos.

— Oh, eu estou aqui há quase 2 meses e não sabia da caverna.

— O mestre pediu que mantivéssemos você longe dos experimentos dele. A senhorita tem uma habilidade inigualável de se meter em confusão.

Ela riu. De repente seu semblante se anuviou como o céu negro anunciando um mau presságio.

— O que foi, senhorita?

— De repente, me passou algo pela cabeça... Preciso falar com Nerevarine.

Ele estava no laboratório terminando de encantar alguns pergaminhos quando ela entrou.

— Estou atrapalhando?

— Não, já estava terminando mesmo.

— Eu estava pensando, já faz dois meses que eu estou aqui e até agora nenhum assassino tentou invadir.

— Eu lhe disse que eles não ousariam. Apenas os caçadores de recompensa são estúpidos o bastante.

— Eu não sei... ─ ela tocou a cicatriz. — Tem doído direto. Desde que eu vim para cá. Toda vez que eu ouço gritos lá fora, eu acho que é um deles.

Nerevarine segurou as mãos dela.

— Kláxia, eles nunca conseguirão entrar aqui. Simplesmente não há como passar pelos meus guardas. Para você ficar mais tranqüila, deixe-me contar, eles têm o treinamento normal de um guarda Telvanni e são mandados para cá. E antes de eu aceitá-los como guardas, eles treinam comigo.

Ela se espantou.

— Acho que agora você tem idéia do quanto está segura comigo. E, claro, sem contar os meus aprendizes.

— E você.

— Sim, e eu. ─ Ele sorriu — Eles nunca vão pegar você aqui.

— Eu agradeço tudo o que você tem feito por mim, mas eu não posso ficar presa nesta torre para sempre.

— É por isso que eu estou levando você comigo para a Montanha. E é por isso que eu preciso planejar todos os nossos passos. É muito arriscado.

— Eu entendo.

— Nós poderíamos sair para caçar juntos.

— Caçar o quê?

— Caçar os seus caçadores de recompensa. Acredito que seria bem divertido.

Ela sorriu.

— É, pode ser.

— Além de tirarmos um pouco você desta torre. Que tal fazermos isso hoje?

— Agora?

— É!

— Mas você tem aquelas coisas para planejar.

— Depois eu vejo isso, ainda tem tempo. Vamos arrancar algumas tripas.

— Adoraria! Mas como vamos fazer isso?

— Vou transportar nós dois até Ald'ruhn, você vai entrar numa taverna e esperar ser reconhecida. Quando você identificar os caçadores, você sai e vem até mim, eles vão lhe seguir e nós teremos uma boa luta. Um pouco rápida, mas uma boa luta.

— Você vai me esperar onde?

— Do lado de fora da cidade.

— Tá bem. Vamos ver o que acontece.

Nerevarine esperava do lado de fora de Ald'ruhn como combinado. Kláxia entrou no Rat in the Pot e todos olharam-na. Ela caminhou até o andar de baixo onde ficava seu amigo Aengoth.

— Kláxia! ─ Aengoth falou quase num grito de horror. E sussurrando: — O que você está fazendo aqui?! O Império colocou cartazes em todas as cidades, a recompensa pela sua cabeça é de 50 mil drakes!

— Uau! Eles capricharam. Me sinto lisonjeada.

— Lisonjeio não é bem o que você vai sentir quando uma lâmina atravessar a sua garganta. ─ Ele estava nervoso.

— Acalme-se, Aengoth. Eu estou bem.

— Está bem agora!

— Ei, acalme-se, Bosmer. Vim aqui por dois motivos, e um deles é que preciso do meu dinheiro.

— O quê? Por que não mandou um mensageiro? Eu não tenho 200 mil drakes aqui comigo. Preciso de uma semana para juntar tudo isso. Entenda, eu coloco o dinheiro para circular.

— Eu sei como é o esquema, mas como você sempre compra coisas para revender, achei que tivesse.

— É, mas eu não tenho.

— Quanto você tem aqui agora?

— 40 mil.

— Você me dá esses 40 mil e daqui a uma semana eu mando alguém pegar o restante.

— Para que você precisa desse dinheiro todo?

— Vou ajudar um amigo com uma expedição.

Aengoth tirou uma sacola de couro do cinto e entregou-a.

— É tudo o que eu tenho.

— Obrigada. Semana que vem eu mando alguém buscar o restante.

— Alguém quem?

— Um Telvanni, provavelmente.

— Tudo bem, só para eu saber.

— Você conhece o meu selo?

— Conheço.

— Eu mando uma carta junto com ele.

Dois Dunmers sentaram em uma mesa no andar de baixo e encararam-na.

— Kláxia, por favor, vá embora.

Do lado de fora da taverna havia os dois Dunmers, um nord e um orc seguindo-a. Ela encontrou logo o Nerevarine.

— Vem quatro aí.

Nerevarine desembainhou sua dai-katana e cortou a cabeça do primeiro Dunmer. O nord e o orc foram para cima dele, mas ele usava seus feitiços para confundi-los, divertia-se com a tortura mental. O segundo Dunmer avançou para cima dela. Nenhum dos dois parecia querer matar seu oponente. No entanto, não poderiam continuar naquilo a noite toda ou chamariam a atenção de mais pessoas. Nerevarine finalizou seus dois oponentes facilmente com um só golpe de sua katana. Kláxia pareceu lembrar-se de seus anos na Irmandade e finalizou seu oponente com um golpe baixo: jogou areia em seus olhos, agarrou-o por trás e quebrou o pescoço.

— Que tal irmos para outra cidade? ─ perguntou ele.

— Qual?

— Balmora fica aqui perto, o que acha de irmos até lá caminhando?

— Mesmo esquema?

— Dessa vez é melhor eu entrar com você.

Os dois caminhavam pelas estradas escuras quando ela se lembrou de avisá-lo:

— Desde que você falou da expedição eu venho pensando nisso. Você vai precisar de dinheiro, muito dinheiro.

— Não se preocupe com isso.

— Eu me preocupo sim porque conhecendo as três Grandes Casas como eu conheço, eu sei que não precisaria me preocupar com dinheiro se você fosse Hlaalu, mas você sendo um Telvanni, provavelmente tem muitas relíquias, antigüidades e preciosidades, mas não tem dinheiro. E eu tenho certeza de que você não quer vender nenhuma dessas coisas.

— Não pretendo vender nenhuma delas mesmo.

— Bom, sendo assim, você vai precisar de dinheiro e eu tenho bastante, o suficiente para bancar a expedição. Acontece que eu não posso ficar andando por aí de mercador em mercador, província em província, buscando o meu dinheiro. Eu já peguei 40 mil drakes com Aengoth, e daqui a uma semana ele terá os meus 160 mil restantes, e eu o avisei que um Telvanni iria buscar o que falta.

— Eu lhe agradeço, Kláxia. Vou pedir a Tuvlos que mande alguém.

— Eu também avisei que quem for buscar levará uma carta com o meu selo. Mas eu estava pensando, 200 mil drakes não são suficientes para uma expedição desse porte, então eu tinha pensado em escrever mais algumas cartas e você mandaria seus encarregados buscarem mais dinheiro com alguns outros mercadores.

— Então é melhor eu falar com Tuvlos assim que chegarmos, porque eu não sei quanto tempo ficaremos na Montanha.

— E eu vou escrever as cartas.

— Só por curiosidade, quanto você tem ao todo?

— Mais de 1 milhão de drakes.

— Não. Isso é impossível.

Ela deu uma gargalhada.

— É a mais pura verdade. Eu lhe disse que minha riqueza estava espalhada por todo o Tamriel. Eu tenho mercadores de confiança em muitas províncias.

— Como funciona?

— É tipo um investimento. Eu dou a eles uma quantia e eles colocam para circular. Comprando mercadorias, ampliando o negócio. E se algum dia eu precisar, eu apareço e retiro o dinheiro todo. É claro que eles precisam de um tempo para juntar o dinheiro dependendo da quantia que eu investi.

— Eu tenho cofres.

— Não sei se eu me sentiria segura guardando toda a minha riqueza mesmo nos seus cofres.

— Eu não aconselharia, se morrermos em Akavir, meus aprendizes vão ficar com tudo.

— Alguns deles estão realmente torcendo pela sua morte. Mas não Tuvlos.

— Vou levar Tuvlos.

— Ah, então é por isso! ─ Ela deu uma gargalhada.

— Como conseguiu todo esse dinheiro?

— Bom, quando eu era jovem, bem jovem mesmo, antes de resolver sair de Valenwood, eu trabalhava duro e treinava bastante. Depois eu conheci um elfo e ele tinha um amigo khajiit que tinha a mão leve. ─ Os dois riram — Ele me iniciou no mundo da ladinagem e cá estou.

— E com quem você aprendeu a lutar?

— Antes da Dark Brotherhood, eu aprendi a lutar lutando. Sabe, eu nunca precisei lutar. Sempre fui uma ótima ladra, nunca precisei derramar uma gota de sangue sequer. Bom, não enquanto eu estivesse trabalhando. Muitas vezes rolaram brigas, mas por motivos aleatórios.

— Quando voltarmos da Montanha, se quiser, eu posso treinar você.

— Seria ótimo! Mas eu sou um mocado atrapalhada com magia. Só consigo usar o básico.

— Com prática você pega o jeito. E pode ter certeza, não vou lhe dar um minuto de descanso.

— Assim espero, porque não agüento mais ficar naquela torre sem fazer nada.

— Polir todas as minhas armaduras e afiar todas as minhas espadas não foi trabalho suficiente?

— Tá brincando, né? Isso não é trabalho para uma elfa com as minhas habilidades. Eu preciso de ação!

Ele riu. Os dois ficaram a noite toda passando de cidade em cidade levando caçadores de recompensa para a emboscada. O sol estava nascendo em Nirn quando eles voltaram para a torre.

Capítulo 9

— Senhorita, tem uma carta para você ─ disse Tuvlos.

— Para mim!? Não conheço ninguém capaz de me mandar uma carta.

— O selo é do Grão-Mestre da Morag Tong. ─ Entregou-a e saiu.

Kláxia engoliu em seco. Nerevarine e ela se entreolharam.

— Abra e veja o que ele quer ─ disse Nerevarine.

Kláxia rompeu o selo, leu e seu semblante estava tão aterrorizado quanto o de um mortal diante dos portais do Oblivion.

— O que diz na carta?

— Um duelo, na Arena em Vivec...

— Você já matou quatro assassinos, matar mais um não será problema.

— Com ele. Ele me convocou pelo meu nome de família.

— Qual é o seu nome de família?

Ela rasgou a carta em pedaços bem pequenos.

— Quando é o duelo?

— Semana que vem.

— Eu posso treiná-la até lá.

— Se você não se importa, Nerevarine, eu preciso ficar um pouco sozinha.

Algumas horas depois, Nerevarine estava jantando no salão principal e Kláxia apareceu.

— Você já terminou de planejar nossa visita à Montanha?

— Faltam uns últimos ajustes. Sente-se, jante comigo.

— Estou sem fome. Será que dá tempo de resolver esse assunto com Govarys e depois lhe acompanhar?

— Dá tempo e sobra. Fique tranqüila. E ainda há tempo de treinar um pouco comigo.

— Não se preocupe com isso. Eu fui muito bem treinada na Irmandade. Eu tinha um caso de muitos anos com um Dunmer em um dos cargos mais altos da Dark Brotherhood, e ele me ensinou tudo o que sabia.

— Quer dizer que você luta melhor do que imaginei?

— Sim.

— Por que tantas cicatrizes?

— Govarys é meu ponto fraco. Eu fico vulnerável sempre que algo relacionado a ele está em jogo.

— Vocês...? ─ insinuou uma pergunta.

— Era para ter sido, mas não foi.

— O que aconteceu?

— Encarávamos nossos destinos de maneiras totalmente diferentes. Para mim, tudo sempre foi tão simples. Para ele, sempre houve um tom dramático que beirava a loucura. Eu fiz tudo o que estava ao meu alcance por ele.

— Você largou a Dark Brotherhood por ele?

— Não. Eu larguei a Irmandade por dois motivos, um deles era Govarys, mas ele não era o principal.

— E qual era?

— Eu não consigo fazer a mesma coisa por muito tempo. Preciso sempre mudar. Isso é da minha natureza. Eu saí de Valenwood muito jovem, viajei Tamriel quase todo. Quando fui para Mournhold, invadi a casa de uma pessoa que pertencia à Dark Brotherhood e foi assim que eu descobri a Irmandade. Depois que saí, resolvi entrar para a Guilda dos Ladrões, mas também não fiquei muito tempo.

— Você poderia entrar para a Grande Casa Telvanni.

— Você bem que ia gostar se isso acontecesse, não é?

Ele sorriu.

— Sim. Você poderia ser uma de minhas aprendizes. Eu tenho muita coisa para lhe ensinar.

— Imagino. Quem sabe depois que voltarmos da Montanha. Você estará mais tranqüilo. Talvez eu mude minha identidade e meus perseguidores acreditem que estou morta, e aí você poderá me treinar em paz.

— E depois iremos para Akavir.

— O que você pretende fazer em Akavir exatamente?

— É principalmente por estudo e exploração. Eu já aprendi tudo o que poderia aprender aqui, também preciso mudar.

— Uau. Enquanto eu mudo de província, você muda de continente.

Eles riram.

— Eu preciso mandar fazer outra armadura para mim. A minha ficou na outra casa, e eu não posso mais voltar lá.

— Varlosi Nerluso é o melhor ferreiro que eu conheço.

— Estava esperando mesmo que você oferecesse, os ferreiros que conheço estão inacessíveis agora que o Império aumentou o prêmio pela minha cabeça.

— Diga a ele como quer sua armadura, e ele fará a melhor armadura que você vestirá em sua vida.

— Obrigada.

— Você já escreveu as cartas?

— Já, e entreguei a Tuvlos.

A armadura que o ferreiro fez especialmente para ela era de couro, preta, com detalhes em ebony e ornamentada com prata. No capuz, tinha uma máscara que cobria o rosto do nariz para baixo, com os veios ornamentados em prata. E incrustado na altura do torso havia um rubi lapidado no formato de um crânio.

Capítulo 10

A Arena estava vazia, não havia nem os espectadores. A porta do outro lado abriu-se e Govarys apareceu vestindo uma armadura em ebony. Vendo que ela não usava um elmo e nem o capuz, removeu o seu e jogou num canto. Seu semblante era de raiva, disse:

— Por um breve momento pensei que você fosse fugir.

— Jamais. Você é um dos poucos que sabe meu nome de família. E o único com coragem suficiente para repeti-lo.

— Queria ter tido a chance de conhecer sua família além das histórias.

— Esse assunto não. Só me causa dor.

— Então eu sou o único que fica feliz imaginando um passado florido que nunca tivemos?

— Não é o passado real ou imaginário que me machuca, mas a idéia do futuro que não teremos.

— Sabe uma coisa que eu gostaria de ouvir uma última vez? Você dizendo o que sente por mim.

— Govarys, não precisa ser assim. Eu fujo para outra província.

— Não se acovarde agora, Bosmer. Você é a elfa mais corajosa que eu conheço. Você sabe que isso precisa ter um fim.

— Mas não precisa ser esse.

— Pegue suas armas.

A luta entre os dois assassinos era um espetáculo de desvios e contra-golpes hipnotizante. Ele lutava com uma espada longa e ela com duas adagas, sua arma preferida. Em um momento, Govarys cravou traiçoeiramente uma lâmina pequena entre as costelas de Kláxia. Ela gritou e se afastou. Ele sorria. No momento em que correu em direção a ela para desferir o último golpe, ela atirou um de seus dardos na garganta dele. Govarys engasgou-se, tossiu e caiu de joelhos. Kláxia levantou-se e caminhou calmamente em sua direção. Ele retirou o dardo, apertou o próprio pescoço e disse enquanto sentia o veneno queimar-lhe as veias:

— Você fez esse especialmente para mim, não foi? Você queria ter o meu último suspiro, ver nos meus olhos a vida se esvair enquanto a única coisa que eu carregaria comigo seria o abismo infinito desses seus olhos negros como o mais cruel desespero.

Ele sentia seu corpo queimar de dentro para fora, mas não conseguia se mover do pescoço para baixo.

— Eu fiz esse veneno há muito tempo, logo depois que você quase me matou, da primeira vez que nos conhecemos. Você nunca me amou, Govarys. Eu sempre fui aquele desafio irritante e persistente que alimentava seu ego e sua ânsia doentia por ser o melhor assassino de todos e ter bardos compondo canções sombrias em seu nome. Eu sempre fui um obstáculo no seu caminho até a fama e a fortuna. E quer saber por que você nunca será o melhor? Porque você subestima seus inimigos. Eu nunca subestimei você. Eu sempre tive bem claro em minha mente o quanto você pode ser traiçoeiro, desleal e desonrado. Todo aquele papo de evitar o meu assassinato por terceiros não era porque doía em seu coração, mas em seu ego. Você fazia questão de me mandar os novatos porque sabia que eu ia me livrar deles fácil. Eu não sou a melhor assassina de todas, mas o que me faz melhor que você é que eu já lutei ao seu lado, eu conheço a sua índole e o seu caráter. Mas você me subestimou. Você achou que eu nunca fosse capaz de matar você.

— Aquela conversa...

— Eu já amei você, Govarys, mas não amo mais.

Gentilmente ela puxou a mão dele que segurava o pescoço e deitou-o no chão. O veneno alcançou o cérebro, seu corpo debateu-se e ele morreu olhando nos olhos dela.

Antes de voltar para a torre, ela se transportou até seu esconderijo para pegar algumas coisas e despedir-se de sua vida antiga. Um futuro ao lado do Nerevarine a aguardava.

Observou sua casa ser consumida pelas chamas enquanto despedia-se de todos aqueles sentimentos. A lâmina ainda estava entre suas costelas, mas ela controlava o ferimento com poções, tempo o suficiente para livrar-se de tudo e voltar para a torre.

Nerevarine estava organizando novas poções e pergaminhos em seu laboratório e Tuvlos o ajudava quando Kláxia apareceu.

— Preciso da sua curandeira novamente. ─ Sentou-se na cadeira mais próxima.

— Vou chamá-la, mestre.

Nerevarine afastou a bagagem que Kláxia trazia e afrouxou sua armadura.

— Fico aliviado de saber que você ganhou o duelo.

— Não sei se eu teria ganhado se ele não tivesse me subestimado.

— Pelo visto foi você quem o subestimou.

— Não, eu contava com um golpe assim. Por isso precisava do melhor ferreiro de Vvardenfell.

— Quer dizer que se aproximou de mim por interesse?

— No começo, sim. Mas depois que lutamos contra os caçadores, eu percebi que poderia confiar em você. Percebi que você tinha honra e bom caráter. Acreditar em mim ou não fica a seu critério.

Tuvlos chegou com Danlusa e Nerevarine se retirou. No dia seguinte, ela estava treinando sozinha quando ele se aproximou.

— Eu sempre soube que você queria algo de mim. Só que eu imaginava que era algo de meus cofres.

— Eu poderia ter roubado você há muito tempo se eu quisesse ─ disse sorrindo.

— Você pode ter conseguido roubar do Neloth e da Therana, mas não conseguiria roubar de mim. E se você tivesse tentado, eu mesmo teria arrancado a sua cabeça.

— Eu não duvido. Ainda pretende me levar para a Montanha?

— Estou começando a achar que eles irão atrás de você até na Montanha.

— Por quê?

— Meus informantes me contaram que Eno Hlaalu é novamente Grão-Mestre da Morag Tong e que o antigo Grão-Mestre foi encontrado morto na Arena de Vivec e em seu corpo foi achado um pergaminho onde dizia que havia sido convocado para um duelo por uma Bosmer chamada Kláxia Baalivantrar. Eno escreveu um contrato para cada um dos melhores membros da Morag para assassinar a qualquer custo a elfa mencionada. Mas como um duelo não é um crime, esse pergaminho encontrado no corpo do ex-grão-mestre foi destruído. Agora você é oficialmente, a assassina do Grão-Mestre da Morag Tong.

— Mas você viu, foi ele quem me convocou!

— Você não precisa me explicar nada, eu sei a verdade. Aliás, você não precisa explicar nada para ninguém, já que ninguém acreditaria e você rasgou a única prova.

— Por que Eno Hlaalu assinaria um contrato de morte para mim? Já havia um contrato para mim na Morag. Não entendo...

— Sinto muito em lhe contar, mas não havia qualquer contrato na Morag Tong para a sua morte.

Kláxia estava em choque.

— Eu nunca subestimei a falta de caráter dele, mas eu nunca poderia imaginar algo assim. O que ele pretendia com isso?

— Tem mais. Larrius disse que limparia seu nome pelo favor que você fez a ele matando os membros da Camona Tong, mas não limpou.

— É, havia uma recompensa de 5000 drakes pela minha cabeça. E depois, inexplicavelmente, aumentou para 50 mil drakes.

— Existe uma explicação. Govarys Vloulu assinou um contrato para a morte de Larrius, e ele usou isso contra você. Govarys encontrou-se com Larrius e assegurou-o que enquanto ele fosse Grão-Mestre, nenhum membro da Morag encostaria em Larrius, contanto que este aumentasse a recompensa pela sua morte ao ponto de encurralá-la em algum lugar específico de Vvardenfell. Assim ele teria certeza de sua localização e quem poderia estar lhe ajudando. Não sei a que informações você teve acesso nos anos em que trabalhou para a Dark Brotherhood, mas acredito que tenha uma ligação com as intenções de Govarys.

— Além de tudo, ainda era covarde. Ele só não pôs qualquer que fosse o plano dele em prática porque soube que eu estava sob a sua proteção.

— Sim. Eu disse para você que eles não ousariam.

— Ele nunca mereceu ser grão-mestre.

— Na cabeça dele, a rivalidade das duas facções nunca acabou.

— Não. Ele apenas me usou o tempo inteiro.

Capítulo 11

Um mês depois, os dois arrumavam o que iriam utilizar na Montanha.

— Ansiosa por causa da nossa jornada?

— Um pouco. Você já terminou de planejar tudo?

— Sim. A primeira vez que explorei a Montanha foi para recuperar dois artefatos que eu precisaria, aproveitei para decorar os lugares por onde passei. Mas acredito que Dagoth Ur já saiba da minha intenção e teve tempo o suficiente para se preparar. É mais do que provável que seja muito difícil chegarmos até sua Cidadela.

— O que vamos encontrar pelo caminho?

— Provavelmente um exército de criaturas com corprus.

— Além de não poder encostar neles, tem mais alguma coisa que eu precise saber?

— Eu não me sinto seguro levando você para a Montanha sem antes treiná-la.

— Pode ficar tranqüilo que eu não vou fugir e lhe abandonar sozinho.

— Eu não me preocupo por mim.

— Fico tocada com a sua preocupação, mas vai acontecer comigo o que tiver de acontecer.

— Eu prezo pela nossa amizade inusitada.

— Eu aprecio isso, Nerevarine, mas todos nós, um dia, iremos morrer. Você precisa parar de achar que pode controlar tudo, santo elfo de Azura!

Ele sorriu.

— Essa é uma das coisas que vou sentir falta se um de nós dois morrer — disse Nerevarine.

— Primeiro, você não vai sentir falta disso se você morrer porque estará morto. Segundo, você não vai morrer.

— E se depender de mim, nem você.

— Não depende de você. Eu sentenciei a minha vida no momento em que escolhi ser uma assassina ladra em vez de uma aventureira espirituosa.

— Isso tudo será passado quando entrarmos naquele navio para Akavir.

— Assim espero.

Eles terminavam de preparar suas respectivas armaduras quando Kláxia se lembrou:

— Tuvlos me avisou que todos os aprendizes voltaram com a minha fortuna, tomei a liberdade de pedi-lo para guardar nos seus cofres.

— Tudo bem, ele já me avisou. Foi bom que eles tenham levado apenas um mês. Detesto mandar muitos aprendizes para longe quando preciso deixar a torre.

— Não entendi isso. Você adora se gabar do quão bem treinados são os seus guardas.

— Sim, são. E sim, me gabo. Mas o treinamento que dou a meus aprendizes é ainda pior, e por isso tenho muita confiança neles. Sei que se, por exemplo, uma horda de criaturas da Montanha atacasse minha torre, os guardas sucumbiriam, não tão facilmente, mas sucumbiriam. Porém os aprendizes são treinados para enfrentar até um Lorde Daedra se preciso for.

— Você parece uma mulher, excessivamente prevenido.

Nerevarine fez uma careta enfadonha, mas não agüentou e riu. Tuvlos apareceu.

— Mestre, suas poções ficaram prontas. Devo colocá-las em seus respectivos recipientes?

— Por favor, Tuvlos.

O aprendiz se retirou.

— Você não acha que está levando muita coisa?

— Apenas o que vou precisar, algumas poções e pergaminhos. Você é que não está levando quase nada.

— Só preciso da minha armadura nova e das minhas adagas.

— Deveria levar pelo menos algumas poções.

— Estou levando meus venenos.

— Nenhum deles irá funcionar nas criaturas de Dagoth.

— São venenos! Matam qualquer coisa viva! Tem certeza disso?

— Por que acha que tive todo o cuidado de manter você longe da caverna? Tivemos muito trabalho para capturar aquela criatura com corprus. Fiz inúmeros testes. Enquanto Fyr acredita que a corprus seja uma bênção, eu acredito que seja uma maldição. Já no momento do contágio, a vítima sente seus efeitos: redução dos reflexos e aumento de força. Após 5 horas, as dores começam, e a saúde mental do indivíduo decai num caminho sem volta. O tempo que leva para a transformação física a partir desse estágio só depende do quanto a vítima consegue controlar a dor, que não pode ser aliviada com poções. E curiosamente, depois que as dores começam, não há encantamento, veneno, poção ou mesmo qualquer outra doença que afete a vítima.

— Uma bênção e uma maldição. Nós ladrões estamos acostumados com isso.

— Não é brincadeira. A doença destrói a mente de um jeito irreversível. Quando Fyr me tratou, eu tive contato com os infectados no Corprusarium. Nenhum deles tem noção de seus atos e o Fyr não parecia animado com uma cura tão cedo. Eu só consegui ser tratado porque sou o Nerevarine. Se não fosse isso, eu acabaria como um deles.

— Eles pronunciam alguma palavra, qualquer coisa que dê para fazer contato?

— Não. São apenas gemidos característicos de dor ou confusão. Eles não conseguem pensar, fica claro quando você encontra um deles. Isso os torna extremamente agressivos. Acredito que apenas Dagoth Ur possa ajudá-los a controlar a doença, ou a bênção, mas...

— Quando você cumprir a profecia, o que vai acontecer com todas essas pessoas infectadas?

— As que estão sob os cuidados do Fyr terão um final piedoso. As demais provavelmente serão sacrificadas, como já são.

— Não fique com esse olhar perdido. Você não pode controlar tudo. Todos nós temos que morrer, um dia.

— Há formas melhores de morrer.

— Nenhuma forma de morrer é boa, a gente apenas acha que as mais rápidas são as melhores, mas no fim, não faz diferença, o resultado é o mesmo.

— Não me lembro de você ser tão conformista assim. Pelo contrário, eu conheci uma Bosmer muito insistente!

Ela riu.

— Sou insistente com o que vale a pena. Na Irmandade aprendemos a não nos importar com a morte, mas abraçá-la de onde ela vier.

— Quero que você faça algo por mim: na Montanha, não abrace a morte.

— Vocês magos precisam trabalhar esse orgulho que os impede de aceitar uma perda. Mas prometo fazer o possível para não morrer. Ainda estou muito curiosa sobre Akavir.

— Você fala de abraçar a morte, mas está fugindo dos assassinos da Morag Tong.

— Não era a minha hora.

— E como você poderia saber?

— Uma das coisas que aprendemos na Irmandade é meditar em Sithis. E às vezes ele se comunica conosco. Em uma dessas meditações, eu creio que acabei adormecendo, mas no sonho, ele falava comigo. Ele me disse que eu não precisaria temer meus inimigos, a minha morte não viria de um deles.

— E de onde viria?

— Da maldição do tempo roubado.

— O que isso significa?

— Não faço idéia.

No dia seguinte pela manhã, Nerevarine teleportou os dois. Estavam aos pés da Montanha, num momento solene, aguardando os portões de Ghostgate abrirem. Não podendo conter sua ânsia de falar descontroladamente, Kláxia se pronunciou:

— Preciso lhe dizer uma coisa antes de entrarmos...

Nerevarine permaneceu em silêncio esperando que ela dissesse que não poderia ir com ele, ou até mesmo que sua verdadeira natureza de assassina ladra viesse à tona e ela tentasse matá-lo para roubar seus itens, mas num tom sério e profundo, ela apenas falou:

— Foi uma honra.

O rangido de ferros e correntes anunciou que a Montanha estava pronta para recebê-los. Sem precisar andar muito já foi possível ver o exército de criaturas infectadas. Não demorou para Kláxia perceber o quanto eram inúteis seus dardos, tanto os comuns quanto os envenenados, que ela teimou em levar mesmo depois da explicação dele. Suas adagas eram suas melhores amigas e mesmo uma criatura afetada pela corprus não resistiria a um coração dilacerado. Por um momento, Nerevarine observou a ferocidade em seus golpes, não era nada suave ou prático como havia presenciado quando lutaram contra os caçadores de recompensa, ela realmente estava disposta a dar tudo de si para ajudá-lo naquela empreitada.

Era noite e eles haviam finalizado apenas a primeira onda de criaturas. A segunda onda era de ash slaves e ash zombies. Nerevarine entendeu qual era a estratégia de Dagoth Ur: Cansá-los. E ele temia que isso pudesse dar certo, não por si mesmo, mas por ela. Assassinos não são guerreiros, não estão acostumados a muito tempo de lutas ininterruptas. Costumam gastar sua energia com esquivas, velocidade e com uma carga de força muito grande para finalizar seu adversário rapidamente. Guerreiros sabem controlar sua energia para uma longa batalha. E ela estava começando a se cansar.

A horda avançava na direção deles e, antes que se engajassem na luta, Nerevarine aconselhou:

— Não use toda a sua energia com golpes muito fortes, você vai se cansar rápido e esse é o objetivo dele. Foque-se apenas em resistir o máximo de tempo possível.

Enquanto ela usava apenas suas adagas, ele mesclava golpes de sua katana e magia.

O dia havia raiado quando finalizaram a segunda onda. Kláxia estava visivelmente cansada. Ele gastara todas as suas poções consigo mesmo e com ela. Faltava pouco para que alcançassem a Cidadela de Dagoth Ur.

— Eu deveria ter adiado nossa visita e ter treinado você mesmo contra a sua vontade.

— Você não pode adiar seus planos em função minha. Eu fui estúpida em não aceitar seu treinamento, mas é possível que não fizesse tanta diferença. Seria pouco tempo de treino.

A terceira e última onda era de ascended sleepers1 e dreamers. Kláxia estava agüentando o máximo que conseguia, mas seus reflexos estavam mais lentos devido à fadiga. Para Nerevarine, não fazia sentido que a última e, por conseqüência, mais difícil horda contivesse dreamers. De repente, um grupo de ash ghouls surgiu nas colinas ao redor e afastado deles. Nesse momento, ele percebeu que o verdadeiro plano de Dagoth Ur era atingi-lo onde era mais fraco: em suas amizades. Kláxia estava distante, ele gritou para ela:

— Venha para trás da barreira mágica! Rápido!

Ela correu, mas um ascended sleeper a acertou com uma bola de fogo jogando-a para longe. Os demais ascended atacaram-no com magia obrigando-o a ficar dentro de sua barreira mágica. Ela se levantou e um ash ghoul, precisamente posicionado, atingiu-a com a bênção. Nerevarine se desesperou e gastou todo o seu poder mágico numa gigantesca e catastrófica explosão que pôde ser vista até de Caldera. As criaturas mais fracas foram desintegradas. Só restou ele, Kláxia e os ascended sleepers que agora estavam em menor número, mas o suficiente para fazer um estrago.

Ela sentia dificuldade em lutar, mas percebeu que não precisava se esforçar para acertá-los com força. Já o Nerevarine lutava em um violento e assustador frenesi.

Quando o último ascended foi destruído, Kláxia mal conseguia ficar de pé. Havia se passado muito tempo desde que fora infectada.

— Vamos, faltam poucos metros ─ disse ela.

— Descanse. Você não está em condições de lutar, sequer de ficar em pé.

— Eu consigo, vamos.

Caminhou o suficiente para cair sentada diante do portão da ruína.

— Kláxia, não insista, eu sei que você está com dores terríveis.

— Desculpa, Nerevarine, por desapontá-lo. Não consegui cumprir com meu papel de mercenária. Não posso ir adiante.

— Você não me desapontou. Eu nunca lhe trouxe aqui como mercenária, mas como amiga. Ouça, eu vou salvar você, eu vou lhe curar, só preciso que você resista mais um pouco.

— Não existe cura. Eu aceito o meu fim.

— Eu não aceito.

— Nerevarine... ─ Ela estava em visível sofrimento.

— Não.

— Eu tenho que dizer...

— Não! ─ Ele estava bastante abalado.

— Talvez a gente se encontre em outra vida.

— Eu não vou deixar você morrer!

— Não cabe a você e nem a ninguém. Todos nós precisamos morrer mais cedo ou mais tarde, aceite isso.

— Não é justo.

— E quem disse que deveria ser?

Num ato que surpreendeu-a além dos limites de uma surpresa comum, ele a abraçou.

— Eu preciso que você faça uma coisa por mim ─ pediu ela. — Quero que você me mate.

— Não posso fazer isso. Eu vou voltar por você, eu juro por todos os Divinos que eu vou voltar por você.

— Nerevarine, eu não estarei mais aqui quando você voltar. Eu preciso que você me mate.

— Não, Kláxia. Resista, eu vou voltar o mais rápido possível.

Enraivecido com o que Dagoth Ur havia feito e não podendo adiar mais aquele encontro, ele a abandonou do lado de fora da ruína. Cumprir a profecia não se tratava mais de uma tradição ou honra ao povo Dunmer, mas simplesmente de uma vingança.

Quando voltou, encontrou-a completamente transformada e sua própria adaga estava fincada na barriga. A criatura, totalmente fora de sua sanidade, atacou-o.

Aqueles olhos negros que um dia carregaram o brilho do infinito, estavam secos e opacos. As feridas começavam a se abrir.

Tudo o que estudou e ouviu de Fyr sobre a doença passou-lhe pela mente feito um raio, porém uma única frase predominava: "não existe cura". Não sabia o que fazer, queria levá-la para o Corprusarium, mas havia vários obstáculos e ele não queria deixá-la sozinha de novo e correr o risco de aventureiros sacrificarem-na. Assim, ele resolveu realizar o último pedido de sua amiga. Empurro-a para longe, desembainhou sua dai-katana e quando ela se aproximou novamente, a lâmina atravessou suavemente sua garganta separando a cabeça do corpo.

Nerevarine sentia um turbilhão de emoções e, apesar de tudo o que Kláxia parecia gostar de dizer, ele sentia principalmente como se a vida dela tivesse sido roubada antes do tempo.

Era sua amiga ali, deformada, perdida nos abismos de uma mente vazia, irrecuperável, morta. Aquilo pesou em seu coração. Seria uma daquelas dores que magos milenares costumam carregar por toda a vida, fazendo disso um culto à solidão.

FIM


A Rose of Blood

The Altmer screwed in the last screw of the last prosthetic leg in the batch that Legatus Rikke had ordered and placed it inside a crate that would be shipped to Solitude. With the civil war spreading across Skyrim, building prosthetics for all the wounded soldiers was an almost endless task, as well as a very delicate one considering that she also performed the same work for the leader of the rebellious Nords, Ulfric Stormcloak. However, despite the rivalry between the two sides, both leaders greatly appreciated Thalienn's meticulous and impeccable work and didn't cause her much trouble beyond brief indispositions.

Thanks to decades of dedicated study of Dwemer machinery, the elf discovered how to adapt some of the logic behind the age-old technology to assist the disabled. However, in those times of war, she no longer had time to seek out the materials, so her friend Angelique, who was constantly traveling, was in charge of replenishing her inventory.

The Breton arrived so quietly that Thalienn jumped as soon as she caught sight of those deep dark eyes, like a demon's, staring at her from a dark corner. Angelique was reserved about her personal life, but the Altmer knew that her friend was involved with some — or several — Daedra, going through situations that no one should have to endure. Little by little, the elf feared, her friend would be devoured alive by the damned demons of Oblivion, but nothing she said could dissuade the stubborn Breton. Each soul forges their own destiny, and however much she appreciated Angelique's presence, her friend's life did not belong to her. To lament her tragic end would be all she could do, and then her own life would once again demand her full attention.

"The items you asked for," Angelique said, placing a backpack on the table. She glanced at the prosthetics inside an open crate: "Is everything finished?"

"Yes, but it won't be long before the Nord sends one of his aides with a new order. And it's best that he doesn't see what the Imperials have ordered."

"Do you need help nailing everything?"

The Altmer agreed, and the two set about nailing all the lids onto the crates. When they finished, Thalienn instructed her assistant – a young Orsimer named Rogamoga – to send everything to Solitude.

"Can we celebrate now, or are you going to bury your nose in some book or project again?" Angelique asked.

"Celebrate?"

"Your birthday, of course."

With everything that was happening, Thalienn had lost track of time. Not that this was rare or even a problem for an elf, but living inside a cave, barely seeing sunlight, had its disadvantages.

The Altmer stared into the depths of her friend's dull eyes and shuddered. If she didn't stop that life, nothing would be left of her soul, not even to be torn apart by the Daedra.

"I think I'll go watch a sunset," said the elf. "I hardly remember it anymore."

"That is not a celebration."

"It makes no difference."

"Of course it does. You only reach 131 years old once in a lifetime. And for some of us, you never reach that age. Let's go out."

Thalienn sighed, lifting the weight of over a century of life from her shoulders. After leaving Cyrodiil for Skyrim, she never truly celebrated anything again. And she couldn't remember what it was like to celebrate anything at all. Her life was reduced to studying Dwemer machinery and working with prosthetics. She even stopped practicing the magic she so much enjoyed when she was part of the Mages Guild in the Imperial City.

"How will we celebrate?"

Angelique smiled. A macabre smile, even though Thalienn knew that wasn't her friend's intention.

"Take your money. Let's drink until we vomit on the floor of some tavern."

"That doesn't seem very healthy or pleasant to me," said the elf.

"It's not meant to be. It's meant to be unforgettable. For better or for worse."

The Altmer shook her head as if to rid herself of any responsibility, picked up a leather bag full of coins, bid farewell to Rogamoga, and accompanied Angelique on horseback to the nearest town.

Thanks to the Dovahkiin, Whiterun had allied itself with the Stormcloaks. The city was full of guards dressed in blue. Some people smiled happily and walked lightly. Others kept looking over their shoulders as if expecting a treacherous stab at any moment.

The two arrived at dusk, left the horses in the stable outside, and headed for the Bannered Mare tavern. Business was still slow, so they found the best seats right at the bar, next to a man drinking alone.

"Two shots of your strongest stuff," Angelique asked the tavern owner, a Nord named Hulda.

"And for me, a cup of tea—"

"She's gonna drink the same as me," the Breton said, interrupting her friend.

Hulda placed two mugs and two bottles of beer in front of them. Angelique served herself and her friend, who seemed to have forgotten how to handle a bottle.

The Breton raised her mug in a toast, but Thalienn took a sip, grimaced, and put the mug back on the counter.

"A toast," Angelique said irritably, to remind her friend of her manners, "to your birthday."

Thalienn clinked her mug against the Breton's and took another sip. Angelique downed her drink in one gulp and refilled her mug.

A man who was standing next to Angelique struck up a conversation.

"Happy Birthday, miss. May your long life be filled with health and adventure."

Thalienn thanked him somewhat uncomfortably. She would've preferred to be in her cave screwing in screws.

"Sam Guevenne," said the man, introducing himself.

"Angelique Evangevique", the Breton said and then pointed to the Altmer: "Thalienn Tennoril."

"It's a pleasure, ladies. May I recommend something more refined?"

"Please," said Angelique, noticing something familiar about the man, but she preferred not to say anything.

"Hulda, please, Alto wine for the two young ladies, on me."

The tavern owner placed a bottle on the counter and got out to serve other customers.

Angelique downed her drink in one gulp and glared at Thalienn, urging her to do the same. The Altmer obeyed and didn't find the wine nearly as bad as the beer.

"To make the birthday celebration more interesting," Sam began, "I'd like to propose a friendly competition. If one of you win, the winner gets a staff as a prize. What do you think?"

Thalienn was going to politely refuse, but Angelique accepted aloud on behalf of both of them, and the elf didn't want to offend the stranger who had been so polite and respectful.

Sam took a bottle from his backpack, poured some for the two of them, and then poured some for himself.

This wine here is the best you'll ever taste. Aged for many years and with a special secret touch.

The three of them downed their drinks all at once and repeated the process four more times.

"Ladies..." Sam began. "I never imagined that the respectable ladies of this frigid land could be so hard-drinking!"

Thalienn hugged the counter as if she were about to fall off a boat. Angelique grinned a macabre smile at something invisible flying in front of her.

"Look..." Sam continued, "I think you girls won, you see? I can't drink any more, can you?"

Angelique placed her mug in front of the man. Sam poured more drink outside than inside the container. The Breton drank the entire contents.

"Congratulations!" he said. "Hey, how about we go to a great place, not too far from here, where the wine flows like water?"

The two tried to get up and say something, but the world went completely dark and a silence enveloped them.

"Wake up, you pair of drunken blasphemers!" shouted a female voice.

Their blurry vision slowly aligned itself. The glare of the daylight made the migraine throb like the drum of an euphoric bard.

"Where are we?" Thalienn asked. "Who are you?"

"Blasphemers?" Angelique asked.

"I am Senna, priestess of Dibella. And of course, of course you remember nothing! Blasphemers indeed! You spent the night rubbing yourselves and making obscene gestures with the statues of our beloved Dibella! Under normal circumstances, Dibella wouldn't find offense in this cheap eroticism, but you two were drunk and out of control. Look at the damage you've done!"

The two looked around very slowly, so as not to strain their aching and sensitive eyes. The furniture was overturned, objects were broken and scattered everywhere, and indecipherable liquids and odors covered almost every surface in the room.

"Was there by any chance a man named Sam Guevenne with us?" Angelique asked.

"It's not like I'm going to tell you exactly what you want to know and let you both go while your mess is left behind. No, no, no. You two clean everything up first, apologize for what you did, and then I'll decide whether or not to help. You can start now," said the priestess, pushing mops, buckets, and cloths toward the two of them.

Thalienn began gathering the broken items into a pile near the door, but one of the priestesses blocked her path.

"I'll take out the trash myself. You girls don't get to leave."

Angelique began by wiping away the liquid and odors that covered the statues with a damp cloth.

Little by little, with difficulty and pain, the two tidied everything up, scrubbed everything, and left the room almost as they found it.

Senna returned and assessed the work.

"Very well. Now, the apologies."

Thalienn started.

"I am so sorry for having invaded your temple and acted in such a completely irrational, offensive, and embarrassing way. I know it may be hard to believe after what happened, but I am not normally like this. I am truly sorry for causing you trouble, ma'am. I'd never have done this if I hadn't accepted all of my friend's ridiculous ideas."

Angelique began to smile in her macabre way, but the pain was still too strong and the smile died halfway through.

"Dear priestess, I apologize for the mess. This will not happen again here. I'll remember never to return here, don't worry." And looking at the statues: "Lady Dibella, I apologize for the sexual harassment. This has never happened before and it will not happen again. At least not with one of the Aedra."

Senna shook her head and gave a half-smile.

"I suppose I shouldn't demand too much of you two. And Dibella teaches us that forgiveness is as important as love and art, so we forgive you both. As for what happened last night, you two arrived here singing, dancing, making obscene gestures, and breaking everything you found, besides muttering something about a wedding, a goat, and Rorikstead."

Thalienn massaged her temples and took a few deep breaths. Angelique's deep, dark eyes widened slightly, and she almost managed a laugh.

Senna handed them their belongings and pushed the two women out of the temple.

Outside, Thalienn felt something prick her under the clothes, checked her pocket, and found a folded piece of paper.

"What is that?" Angelique asked.

Thalienn unfolded the note and read it.

"'We need the following items to fix the staff: a giant's thumb, holy water, and hagraven feathers. Sam.' It had to be your friend."

"He's not my friend," Angelique said. "But there's something... familiar about him."

"Holy water..." the Altmer commented to herself.

Thalienn rummaged through the backpack the priestess had given her and found two bottles of wine filled with water.

"That makes sense," Angelique commented.

After digging a little more, Thalienn found a giant's toe that was starting to smell bad and some hagraven feathers.

"By the Divines," said Thalienn, "what did we do yesterday?"

Angelique laughed, her headache was already starting to subside.

"Whatever it is, the answer must be in Rorikstead."

The two took a carriage to the village and arrived hours later.

As soon as they got off the cart, a very annoyed redguard approached the two of them, huffing and almost crying.

"You have no decency! But you have a lot of nerve showing up here after what you did!"

"Here we go," said Angelique.

Thalienn tried to smile reassuringly, but she was too tired to be polite.

"What did we do this time?" the Altmer asked.

"You kidnapped my Gleda and sold her to a giant!" The man began to cry. "I don't even want to imagine what he might have done to her by now! May the Divines have mercy on my poor Gleda."

"Angelique, what have you done to me?" Thalienn asked, turning to her friend with all the rage her migraine could muster. "We kidnapped and sold a child to a primitive creature! That's human trafficking! I didn't leave Cyrodiil to become a despicable criminal!"

Angelique stood there, expressing no emotion other than a pair of demonic eyes that opened slightly.

"A child?" the man commented. "No, no. My Gleda is a goat. My goat. My dear Gleda."

The two friends glanced incredulously and with a hint of disgust at the man.

"I'll never again be able to breed a goat as good as my precious Gleda!" grumbled the man, wiping away tears. "You two had better bring my Gleda back before I call the guards!"

"By any chance," Angelique began, "did one of us mention a staff or a man named Sam?"

"Oh, yes, she did speak. You were shouting about a staff while running around away like crazy drunksmen with my Gleda!"

"What exactly did we say?" the Breton insisted.

"Bring my Gleda back and I can see if I want to remember anything else."

"Which way did we go, sir?" Thalienn asked.

The man pointed to some hills and returned to his small farm.

The two friends walked uphill.

"I don't know why I still go after you," Thalienn said.

"No, don't give me that look. This is better than months in a dark cave. And I say this as someone who spend much time in dark and damp places."

Not far from there, a giant wandered with his head down, and nearby, a vigorous goat ate grass as if nothing strange had happened in its life.

"Stay here," Angelique said.

The Breton crept silently across the meadow, grabbed the goat, which gave a little cry of fright, and returned with long strides, but not as silent as before. The giant spotted the two and began to vocalize and shake his club as he cautiously approached. On his foot, a big toe was missing, and the wound was festering.

"Run!" said Angelique, carrying the goat in her arms.

As soon as they disappeared from sight, the giant resigned himself and sadly resumed his wanderings.

It didn't take them long to return to Rorikstead. Angelique put the goat down and knelt down, breathing as if the air in the world had disappeared.

"My Gleda!" cried the man as he ran to embrace his animal. "Oh, my precious Gleda! Intact, not a single hair missing!" And to the two of them: "I don't know why you stole my Gleda. You left a message, but most of it was a bunch of nonsense, the rest was blurred with spilled wine, and the only part that was understandable talked about 'paying Ysolda in Whiterun'."

Thalienn apologized, and the two headed on to Whiterun.

As soon as they entered the city, Ysolda hurried over to the two of them and addressed the Altmer.

"Look, I understand it's a special moment, but you owe me a ring."

Angelique smiled and slipped into the shade because the sunlight still bothered her eyes.

"Okay," said Thalienn, "how much do I owe you?"

"It's not exactly about the money," Ysolda said. "You were so in love that I ended up giving you the wedding ring to pay for later. But if the wedding doesn't happen, I'd like to have the ring back. It was the best one I had."

"Marriage?" the Altmer asked, incredulous at first, then resigned.

"Yes, you two ran out of here, you yelling that you were going to give it to your fiancée immediately. Don't you remember?"

Angelique laughed, but stopped short of finishing because her head was throbbing intensely.

"I don't remember anything."

"That's a shame. You told me such a sweet story about how you two met in the Witchmist Grove. But the way you're acting so absent-minded, it's no wonder your fiancée left you."

"Thank you, Ysolda," Thalienn said, trying to be polite. "I'll return the ring to you."

The two took a carriage to Windhelm and proceeded in silence to Witchmist Grove. Angelique held back laughter, and Thalienn held back from throwing a fireball in her friend's face. They arrived at nightfall.

"My loooove!" a voice croaked, approaching. "I was waiting for you to consummate our loooove."

The hagraven approached, wiggling her hips, shaking her feathers, and grinning with yellowed teeth. She tried to kiss Thalienn, but the Altmer jumped back. Angelique fell to the ground in a fit of uncontrollable laughter.

"Excuse me for bothering you, ma'am? Miss? Madam? Young lady?" Thalienn began. "But could you return a ring that I probably gave to you?"

"What?" the Hagraven straightened up, her smile turning into a hostile grimace. "You want to give my ring to that hussy Esmerelda, don't you? Just because of her black feathers? No! I won't let her steal you from me!"

Angelique writhed on the ground, drooling and gasping for air. The hagraven attacked Thalienn, and the Altmer was forced to neutralize it. With a paralysis spell, the creature fell to the ground. The Altmer snatched a shining ring from the hagraven's claws and ran away.

"Angelique, quick!"

The Breton dragged herself along as best she could, and the two escaped before the spell wore off.

Back in Whiterun the following morning, Thalienn returned the ring that Ysolda had sold her.

"It's a shame it didn't work out. You were so excited about all the distinguished guests you were going to invite, the lavish ceremony in Morvunskar, and the wedding night. You even mentioned something about a special staff..."

"Morvunskar?" Thalienn asked.

"Yes, that's where you said the ceremony would take place. If I'm not mistaken, it's a fortress near Windhelm."

"Thanks."

The two took a carriage back to Windhelm and then walked southwest to the fortress. The place was full of menacing mages, probably armed to the teeth.

"What are we going to do now?" Thalienn asked.

Angelique picked up two small bottles out of her backpack and handed one to her friend.

"Invisibility. Drink it."

Immediately, the two disappeared. Angelique whispered:

"We sneak around, and if anything goes wrong, don't hesitate to throw fireballs. But avoid bumping into anything or anyone. Sam must be in there somewhere."

The two were extremely careful not to knock anything over or make any noise. They avoided and dodged all the mages as they advanced through the fortress and descended several flights of stairs.

Suddenly, a magical sphere appeared in their path. From inside the sphere, a mystical forest was visible. The two entered the sphere and crossed over into a forest inside an immense cave. Music played in the background and a light emanated from one side. The two walked there and found a long table with several people sitting, drinking, talking loudly, and laughing.

Sam approached them.

"Finally!" said the man, abruptly transforming into a Daedra. "I thought you wouldn't make it."

Angelique smiled, she knew there was something familiar about that man. Thalienn didn't like the situation at all, but she wasn't in the mood to pick a fight with a Daedra.

"Quite an adventure, Sanguine," said Angelique. "Where are we?"

"I figured you wouldn't remember this place," said the Daedra. "You had quite a night the first time. You danced on the table and everything. And you definitely deserve the staff."

"Ah, yes," Angelique began. "We brought everything to fix it."

Sanguine laughed and waved his hand, refusing the items.

"You can throw it all away. It's not necessary. I just needed an excuse to send you two out into the world spreading a little excitement. And you did a great job. I haven't been this entertained in at least a hundred years!"

"So this was all just a prank?" Thalienn complained.

"A prank? The Daedric Prince of Debauchery does not deal in mere 'pranks.' This may have begun as a minor amusement, but it wasn't long before I realized that one of you'd be a more interesting bearer of my not-quite-holy staff."

"Is that staff literal or metaphorical?" Angelique asked.

Sanguine's laughter echoed through the mystical cave.

"It's a real and very special staff. But then, which one of you two will get to keep it?"

"She's the birthday girl," Angelique said. And realizing that several days had passed: "She was the birthday girl."

"That's true," said Sanguine. "Happy Birthday once again, miss. And, for such a distinguished elf, Sanguine offers you a rose."

The Daedra handed her a staff shaped like a giant rose. Thalienn didn't want to have an item from a demon with her, but the atmosphere was so light and friendly, and the Daedra, despite everything, was so polite and respectful, that she accepted the staff and thanked him.

"My pleasure," said Sanguine. "But I think it's time for the two of you to go. No fun keeping you locked up in here with the staff."

The world warped around them, and time and gravity vanished for a moment. As soon as they regained consciousness, they were back in the Bannered Mare tavern in Whiterun, on the floor of one of the rooms. Thalienn still held the staff firmly.

"Did all this happen?" the Altmer asked.

"You bet. And who knows what else happened that we'll never know."

Angelique helped her friend to get up.

"Happy Birthday," said the Breton. "May this staff bring you some joy or usefulness in your lonely cave."

"I'm not alone. Rogamoga is a great company."

Angelique smiled, but in a slightly more human and less demonic way.

"See you around sometime," the Breton said.

Thalienn was about to hug her friend, but the Breton had already disappeared from the room. The elf retrieved her horse from the stable and headed back to her cave where she'd discover what the staff could do.


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