Capítulo 5: Karliah não está mais aqui
Capítulo 5:
Karliah não está mais aqui
Uma profusão de imagens do passado, do futuro e de todas as possibilidades até aquele momento cercavam Karliah enquanto ela tentava se estabilizar na Teia. Uma voz composta de várias vozes em uníssono gritava "Gehenna" conforme as imagens apocalípticas passavam pela malkaviana.
Afastada da confusão da Teia, uma presença chamou a atenção de Karliah. O homem aproximou-se e a puxou para fora do furacão de imagens.
— Sabe quem eu sou? — perguntou ele.
Karliah fez que não com a cabeça.
— Elias Baumer. Sebastian me chamou por sua causa.
— É o fim do mundo — disse ela indicando as imagens.
Elias sorriu.
— Provavelmente não. A Teia é muito dramática. Há séculos que fala que o fim do mundo está chegando. O que ela lhe disse sobre Sebastian?
As vozes de Karliah sibilaram como cobras.
— Por que quer saber?
Ao redor deles, as imagens derretiam, desapareciam e surgiam do nada na tela em branco da Teia.
— Talvez você esteja em perigo.
Mentiroso, sussurraram as vozes dela.
— Todos nós estamos em perigo — disse Karliah.
Elias sorriu, deu um beijo na testa dela e a arremessou de volta no furacão de imagens.
🦇🦇🦇
Enquanto Sebastian e Nines Rodriguez discutiam na rodovia sobre o ventrue ter seqüestrado ou não a malkaviana e ter feito ou não alguma coisa com ela, Karliah observava o rosto do brujah. Dentro do seu abismo interior, uma vibração se espalhou fazendo seu estômago tremer.
Ela não lembra..., comentou uma das vozes.
Shhhhh!, retrucou outra.
🦇🦇🦇
Durante a reunião no Vesuvius na presença de Nines, Karliah sentiu a vibração no fundo de seu âmago novamente.
Quando ela vai lembrar?, perguntou uma das vozes.
Shh!, retrucou a outra novamente.
Depois que a tremere descobriu que faltavam partes do cérebro da malkaviana e Nines contou que eles tiveram um relacionamento, um som de sino de igreja começou a tocar em sua cabeça.
Siga o sino, comentou uma das vozes.
Karliah tentou, mas todas as vezes em que chegou muito perto, o ruído desapareceu como fumaça.
🦇🦇🦇
Depois do jantar com Sebastian no terraço, Karliah estava deitada na cama na sua suíte observando os dois anéis: o que Sebastian lhe dera e o que os anarquistas enviaram. O sino voltou a tocar.
Karliah seguiu o som em sua mente como a voz sugerira.
A realidade desapareceu e a malkaviana se viu num lugar semelhante à Teia. Da escuridão, um clone seu agarrou seu pulso esquerdo enquanto olhava para o anel que os anarquistas deram.
A vampira chorava lágrimas de sangue e falou algo numa língua que Karliah não compreendeu. Percebendo que a malkaviana não estava entendendo, a clone arrastou-a para um canto que se iluminava conforme elas se aproximavam e o som do sino ficava mais alto.
Num instante, a malkaviana se encontrava numa cripta. Estava dentro do seu corpo, mas não tinha controle sobre ele. Nines chegou pouco tempo depois, junto com as primeiras badaladas da missa noturna. Os dois se abraçaram e se beijaram. Karliah sentiu a vibração no seu interior ficar mais forte. A aura dos dois estava azul.
— Feliz aniversário pro único vampiro que agüenta minhas crises — disse o corpo dela.
Nines se afastou dela e sentou sobre um dos jazigos.
— Você melhorou? — perguntou ele.
— Sim.
— Por que me chamou aqui? Essa coisa de gostar de gente morta é contigo. Eu prefiro sair pra caçar.
— Queria te dar uma coisa.
Ela tirou do bolso da calça um anel feito amadoramente com arames de cobre entrelaçados com um quartzo rosa bruto. Pegou a mão dele e colocou no dedo médio.
— Armando Rodriguez, gostaria de ser meu parceiro pela eternidade?
Nines ficou sem palavras por um momento enquanto observava o anel tentando assimilar a situação.
— Cara... É claro que eu quero, mas eu não tenho dinheiro pra um anel e nem sou artista. Como que--
Karliah jogou-se nos braços dele e os dois se beijaram novamente.
— Eu não me importo com nada disso. Eu quero você, Armando.
— Eu sempre vou ser seu, Kaly. Você nunca vai precisar me pedir isso.
Os dois se beijaram de novo, com mais intensidade.
— Se a gente for fazer o que eu tô pensando, prefiro que seja no parque das sequóias do que aqui, entre os mortos — disse o brujah.
Karliah sorriu.
— Seus amigos não vão nos atrapalhar? Quererem passar o seu aniversário com você?
— Nah. Eles passam todos os dias comigo. Hoje eu quero ficar contigo.
Os dois saíram da cripta de mãos dadas.
Karliah acordou na noite seguinte sentindo-se pesada, como se tivesse voltado da morte.
🦇🦇🦇
— Então fica combinado — disse Sebastian ao telefone. — Tenha uma excelente noite, mademoiselle Dubanowska.
Ele desligou o telefone e voltou para a sala de tevê.
— Exatamente como você previu — disse ele sorrindo. — Catarina e eu vamos nos encontrar aqui amanhã à noite. O acordo que fizermos vai me deixar um passo mais próximo dos meus objetivos.
Karliah o encarou por um momento pensando se deveria contar ou se seria melhor deixá-lo descobrir sozinho.
Conte agora, falou uma das vozes. Se deixar para depois ele vai desconfiar de suas habilidades.
— Ela vai propor um vínculo de sangue.
Sebastian encarou a malkaviana com um olhar indignado. Desconfiado, falou:
— Vou fazer outra proposta a ela.
Karliah negou com a cabeça.
— Ela não vai aceitar. Quer ter certeza de que você vai fazer tudo o que ela mandar.
Sebastian riu de nervoso e se sentou no sofá.
— Então essa rota está fechada para mim... Voltamos para o sarcófago e o tremere que você mencionou.
— Não. O vínculo de sangue não vai funcionar com ela se você já tiver um vínculo com outra pessoa, só que ela não vai saber disso. É só você fingir que está enfeitiçado por ela.
Sebastian deu uma risada irritada.
— Eu nunca me submeteria a um vínculo de sangue com quem quer que seja, mademoiselle.
— Nem comigo?
Sebastian soltou uma gargalhada.
— Menos ainda com você. Agora me dê o nome do tremere.
— Não — disse Karliah indo para a sua suíte.
Arrastou os móveis fazendo uma barricada atrás da porta, já que não tinha o cartão para trancar. Passou o restante da noite e o dia inteiro deitada na cama relembrando a cena na cripta e acariciando seu estômago que vibrava.
À noite, Karliah ouviu vozes externas, mas não saiu do quarto. Sabia que o que quer que acontecesse, Sebastian iria chamá-la.
Após a meia-noite, ouviu passos saindo do apartamento. Não demorou até que alguém batesse em sua porta.
— Karliah, abra a porta.
Era Sebastian. Ela arrastou os móveis sem pressa, mas não os colocou no lugar, apenas tirou-os do caminho da porta. O ventrue entrou e fez uma careta para a bagunça no quarto.
Karliah sentou-se na cama e ficou o encarando. O ventrue não disfarçou, já usou logo seu poder de persuasão.
— Me dê o nome do tremere.
Karliah não se esforçou para resistir.
— Abelardo Lettieri.
— Onde posso encontrá-lo?
— Não sei.
— Como não sabe?
— Não sabendo.
Sebastian respirou fundo e intensificou sua persuasão.
— Eu quero a localização do tremere.
— Eu. Não. Sei.
— E quem é que sabe?
— Ninguém. Ninguém sabe onde ele fica, o que ele faz, ou o que ele quer.
— Use suas cartas então.
Karliah pegou um deck que deixara na mesinha de cabeceira, embaralhou e tirou uma carta: 7 de espadas
.
— Ele tá escondido.
Sebastian virou a poltrona em direção à cama e sentou-se.
— Aparentemente todo mundo sabe disso.
Karliah pegou outra carta: A Lua
. Não satisfeita, ela recolheu as cartas, embaralhou novamente e pegou duas. Era a 7 de espadas
e a Lua
de novo.
— Não consigo ver. Ele usou algum feitiço de ofuscação.
Sebastian a encarou desconfiado. Karliah recolheu as cartas, embaralhou e entregou o deck ao ventrue.
— Tenta você, se não confia em mim.
Sebastian deu um breve sorriso desafiador. Embaralhou o deck, cortou em três e puxou duas cartas. Sete de espadas e a Lua. Karliah suspirou com desdém.
— Viu? Eu falei.
O ventrue virou o deck para conferir as cartas e viu que estava tudo certo, não havia trapaça nenhuma. Devolveu o baralho.
— O que ele vai querer em troca?
Karliah embaralhou, puxou duas cartas, eram as mesmas de antes. Mostrou a ele.
— Muito bem. Vou descobrir à moda antiga, então — disse levantando-se e ajeitando o terno. — E você, não pense que eu esqueci sobre a Teia.
— Já falei que não consigo controlar.
— Então por que eu acho que você está escondendo alguma coisa de mim?
Nove coisas, disseram as vozes e deram uma risadinha.
— Porque você é paranóico e obcecado por controle.
Sebastian se aproximou dela e a observou de cima a baixo.
— Nunca mais fale comigo nesse tom rebelde.
— Por quê? Você vai me bater?
Sebastian deu um sorriso irritado.
— Não sei o que você teve que agüentar com o Rodriguez, mas saiba que eu não agrido ninguém, porque eu não sou um selvagem como os brujah. Mas não se engane achando que eu não consigo infligir uma dor pior do que um mero soco.
Karliah começou a pronunciar as primeiras sílabas do seu mantra da loucura e Sebastian já se adiantou e tapou a boca dela com a mão. Os dois se olharam nos olhos por uns instantes.
— O que está havendo com você? Antes estava cooperativa e agora está assim, rebelde.
Ela lembra, mencionou uma das vozes.
Ela não lembra de tudo, comentou outra.
Shh!, reclamou uma terceira.
O ventrue viu o anel dos anarquistas no dedo dela e sorriu com raiva.
— Lembre-se do que eu disse na sua primeira noite aqui. Que sua longevidade seria proporcional à sua utilidade. No momento em que você não me for mais útil, você sentirá uma enorme vontade de ir até a lareira e se jogar nela.
As vozes sibilaram como cobras.
— Entendido?
Karliah assentiu com um ruído abafado. Sebastian tirou a mão da boca dela devagar, esperando que ela tentasse enlouquecê-lo novamente, mas a malkaviana não tentou mais nada.
— Você ainda precisa de mim — disse ela.
Sebastian sorriu com desdém.
— Talvez por pouco tempo.
Caminhou até a porta e antes de sair, disse: — Arrume essa bagunça, você não mora mais no seu cortiço.
Como castigo, ele a manteve sem sangue e trancada no quarto por alguns dias. Karliah não se importou, pois a vibração preenchia seu estômago e uma estranha apreensão às vezes lhe causava uma vontade enorme de se jogar pela janela e arrastar-se toda quebrada pelo chão, violando a Máscara chocantemente, até onde Nines estivesse.
Ela não compreendia por que sentia aquilo, mas sabia que tinha a ver com o suposto relacionamento que tiveram. Estava curiosa para descobrir o que a motivara a arrancar o brujah de si.
🦇🦇🦇
Quase uma semana depois, Sebastian apareceu na suíte levando sangue e uma caixinha de presente minúscula. Depositou a bandeja sobre a mesinha de cabeceira e sentou-se na cama ao lado dela. Karliah estava deitada vestida com uma camisola rosa sensual e o encarava sem emoção. O ventrue a observou com calma e respirou fundo.
— Quero que nosso desentendimento fique no passado. Sei que tenho exigido muito de você e não tenho recompensado à altura os seus serviços inestimáveis. — Ele ergueu a caixinha. — Para mim isso não vale nada, mesmo que tenha sido difícil de encontrar, mas sei que vale para você. Então, mademoiselle, aceite minha oferta de paz e vamos voltar a nos ajudar, sim?
Ele estava ajudando ela?, perguntou uma das vozes. Perdemos esse episódio.
Karliah observou entediada a caixinha, sem se mexer. Sebastian abriu, tirou um pequeno objeto de dentro, segurou a mão esquerda da malkaviana que ainda estava adornada com o anel dos anarquistas no polegar, e colocou outro anel no dedo anelar.
— É um anel do humor, como você havia pedido. Espero que esteja correto. Meu fornecedor me garantiu que era verdadeiro. Gastei a mesma quantia que nesse primeiro — disse indicando o anel de lua e estrela em safira rosa. — Seis dígitos.
Karliah e as vozes gargalharam como nunca antes ninguém havia ouvido. Depois de se recompor do susto, o ventrue disse:
— Pelo visto meu fornecedor estava certo. Seu humor já mudou.
O ventrue levou um golpe!, gritaram as vozes sucumbindo em gargalhadas fantasmagóricas.
— Custa uns 2 dólares importado da China — explicou Karliah entre uma risada e outra. — Não muda o humor de verdade, só muda de cor conforme a temperatura.
O ventrue deu um sorriso sinistro que ela ainda não havia visto.
— Muito bem... Divirta-se com o seu presente. Eu tenho que marcar uma reunião.
Antes que ele saísse, Karliah perguntou:
— Achou o tremere?
— Ainda não.
— E a ventrue?
Sebastian conseguiu esconder o sorriso de desgosto que queria escapar pelo canto de sua boca.
— Ela propôs um vínculo de sangue.
— E a sua proposta?
— Ela recusou.
Karliah não disse nada. Pegou o sangue da bandeja e bebeu encarando o ventrue com seu olhar robótico. Sebastian saiu sem dizer nada, mas voltou a trancar a porta.
🦇🦇🦇
Poucos dias depois, Sebastian ordenou que ela se arrumasse para um jantar. A mesa fora posta no salão de festas. Estavam presentes o ventrue, ela, quatro mortais e quatro agentes que observavam um pouco afastados. Sebastian puxou a cadeira para ela se sentar, indicou as cadeiras para os mortais e sentou-se à cabeceira da mesa. Alguns garçons serviram a comida para todos, mas nem o anfitrião e nem Karliah comeram.
Sebastian mandou os serviçais saírem e aguardou os convidados saborearem a comida por uns instantes.
O mais velho dos mortais, que tinha uma cicatriz grande na lateral do pescoço, também devorava a malkaviana com os olhos. Karliah não se importava, apenas observava tudo com tédio. Quando ela usou a mão esquerda para ajeitar o cabelo, o mortal viu o anel que havia vendido para o ventrue.
— Ah, ficou muito bonito na sua senhora — disse o líder para o ventrue. — O anel.
Sebastian olhou para a malkaviana e sorriu.
— O que não ficaria lindo nela, monsieur Morris?
Quase um toreador. Pfff, reclamou uma das vozes.
O homem riu.
— É verdade. Sabe... Eu já tive a sua idade. As moças, iguais à sua senhora, viviam na minha porta. Agora eu tenho que pagar. Mas ainda consigo dar conta. — E piscou para a malkaviana.
Pobres vítimas, comentaram as vozes.
Sebastian escondeu seu nojo atrás de um sorriso.
— O monsieur nunca teve a minha idade.
O homem bufou confuso.
— Como é que é?
Sebastian ignorou a confusão dele.
— Monsieur Morris, eu soube que esse tipo de anel custa uma ninharia importado da China. No entanto, você me cobrou 6 dígitos.
As vozes deram uma risadinha mais contida.
O homem ficou pálido e olhou de relance para os mais jovens que estavam com ele. Todos tentaram se levantar, mas rapidamente os agentes os forçaram sobre as cadeiras segurando-os pelos ombros.
— Aqui no Ocidente — começou Sebastian —, as pessoas gostam de acreditar que são evoluídas, detentoras da ética absoluta e dos melhores valores morais. Que a única forma de justiça, é a justiça ocidental, com todas as suas leis e burocracia. De acordo com ela, eu deveria denunciá-lo por estelionato e aguardar um longo julgamento para que então alguns de seus bens fossem penhorados para me ressarcir. Talvez houvesse um adicional por danos morais, talvez não. Mas, depois de alguns anos, eu receberia o que você me roubou. No entanto, existem outras formas de justiça, como a lei sharia, por exemplo, cuja punição para roubo é cortar as mãos — completou Sebastian segurando a faca de bife.
As vozes sibilaram como cobras.
Os homens tentaram se levantar novamente, mas os agentes os contiveram nas cadeiras.
O ventrue sorriu.
— Acalmem-se, messieurs, eu não sou um selvagem. — E largou a faca, recostando-se na cadeira e apoiando a cabeça sobre alguns dedos. — Contudo, vocês entendem que essa afronta precisa ser corrigida, não é?
— Olha, senhor LaCroix, não foi minha intenção — disse o líder tremendo e gaguejando. — Eu nem sabia quem o senhor era. O Richards aqui — indicou com a cabeça um dos homens mais jovens — foi que me falou que o senhor era um ricaço e qu era pra tirar uma grana.
Richards o encarou com indignação.
— Eu não! É você que dá golpe em todo mundo!
O líder rosnou para seu subordinado.
Sebastian tinha um sorriso condescendente no rosto, como se simpatizasse com os problemas dos criminosos locais.
— Senhor LaCroix — continuou o líder —, a gente pode chegar num acordo. Eu recebo um monte de carregamento do mundo todo. Meu negócio é maior do que o da máfia. E olha que eles tentaram me tirar de jogo — disse apontando para a cicatriz no pescoço.
Richards fez uma careta de estranhamento e perguntou sem querer:
— Não foi a sua mulher que te queimou com óleo quente por causa daquela stripper?
— Cala a boca, Richards!
O sorriso de Sebastian foi desaparecendo junto com sua paciência.
— Monsieur Morris.
O homem olhou para o ventrue. E então Sebastian, com sua voz firme e cordial, disse:
— Devore a sua mão dominante.
Os outros homens, assustados, tentaram se levantar, mas os agentes os seguraram. Morris estava com os olhos arregalados como se estivesse assustado e hipnotizado ao mesmo tempo. Pôs um dedo na boca, arrancou, mastigou em meio a gemidos de dor e engoliu, para o completo horror dos seus companheiros. Em seguida, fez o mesmo com o restante dos dedos.
Um dos subordinados desmaiou e o agente do ventrue deu uns tapas na cara dele para que acordasse. O outro chorava e Richards estava paralisado.
As vozes sibilavam como cobras diante daquela cena. Karliah respirava fundo apreciando o cheiro do sangue. Sebastian percebeu e balançou a cabeça em negação, mas a malkaviana não tinha planos de atacar, na verdade esperava que o ventrue lhe levasse uma taça com sangue fresco.
Morris mordeu e arrancou pedaços da mão mastigando e engolindo até só sobrar o pulso por onde jorrava bastante sangue. O homem já estava pálido.
Desperdício, comentaram as vozes enquanto Karliah salivava com o cheiro ferroso do sangue.
— Qual é o carregamento mais lucrativo? — perguntou o ventrue para os três subordinados.
Morris estava quase desmaiando com a hemorragia; um estava em pânico e havia se mijado; o outro chorava tanto que parecia uma criança em vez de um homem adulto; Richards se recompôs e viu uma chance de sobreviver.
— As armas. Vão pras gangues. As drogas também dão uma grana gorda, mas as armas rendem mais.
— E qual é o menos lucrativo?
— Tem muita coisa miúda que não rende, tipo isso — fez um gesto com a cabeça em direção ao anel do humor na mão da malkaviana —, mas serve como fachada pra lavar dinheiro.
— Quantos sócios monsieur Morris tem?
O líder caiu morto com a cabeça no prato.
— Tinha — corrigiu-se o ventrue.
— Nenhum. A máfia foi atrás dele porque ele ganhou fama de matar os associados, mas ele fez um acordo com uma outra máfia pra tomarem conta disso.
— Que outra máfia?
— Giovanni.
Sebastian suspirou pesadamente irritado. Detestava os Giovanni.
— Que acordo?
— Não sei. Morris não contou.
— Você consegue descobrir?
— Posso tentar.
— Você consegue descobrir? — repetiu o ventrue com um sorriso irritado.
— Consigo, se me deixar viver.
— Oh, eu pretendo fazer muito mais do que deixá-lo viver, monsieur Richards, mas o que eu vou fazer vai depender mais de você do que de mim.
Sebastian fez um gesto para um de seus agentes que colocou um facão na frente dos três sobre a mesa. Todos os agentes se afastaram.
— Só um de vocês sairá vivo daqui — anunciou o ventrue.
Antes que os outros dois saíssem de seus estados de pânico, Richards decapitou-os com um golpe cada, fazendo o sangue espirrar no ventrue e na malkaviana, e largou o facão no chão.
— O que o senhor quer de mim?
Sebastian sorriu.
— O negócio de Morris não existe mais. É meu agora. No entanto, não quero meu nome envolvido nesse tipo de coisa, então você ficará responsável por tudo. Não me interessa o que terá de fazer, dizer ou prometer aos demais para convencê-los de que você é o chefe, isso é problema seu. Eu só quero um relatório detalhado de todos os esquemas, acordos, compradores e vendedores, incluindo o acordo com os Giovanni. Vamos nos encontrar uma vez por mês onde você vai me apresentar o relatório mais recente. Se qualquer oferta ou ameaça for feita, quero ser informado antes de qualquer decisão sua. Tudo o que eu mandar, você fará sem questionar. E, caso você morra, não será problema meu. Se me trair, um fim de vida mais doloroso do que o do seu finado chefe lhe aguarda. Entendido?
— Sim, senhor.
Sebastian fez um gesto com a mão como se estivesse enxotando o homem. Os agentes saíram com ele deixando o ventrue e a malkaviana sozinhos. Sebastian entornou o sangue do pescoço de um dos homens numa taça e colocou na frente da malkaviana.
— Isso também serve para você.
As vozes sibilaram. Karliah bebeu com gosto sem tirar os olhos do ventrue. Quando terminou, disse:
— Os bilhões que você fez na bolsa de valores graças a mim não foram suficiente para me dar um desconto?
Sebastian puxou a cadeira para perto dela, sentou-se e aproximou seu rosto do dela.
— Não tolero desobediência e nem rebeldia. Muito menos provocação.
Karliah sorriu provocantemente.
— Você gosta quando eu te provoco.
— Não. Odeio. Meu desejo nessas horas é fazer você derramar álcool sobre si mesma e atear-se fogo.
As vozes sibilaram.
— Só não fiz isso ainda — continuou ele — porque você ainda é útil para mim. Mas não se acomode nesse fato. Estou procurando outro oráculo na Europa e logo você encontrará a morte final.
As vozes riram ameaçadoramente. Não vai encontrar.
— E o tremere? — perguntou Karliah.
Sebastian afastou seu corpo do dela e encostou na cadeira.
— Perdi alguns agentes procurando por ele.
Fracasso, fracasso, fracasso, comentaram as vozes.
— Você não vai encontrar ele.
— Para o seu próprio bem, é melhor que eu o encontre.
— Ele é poderoso e não quer ser encontrado.
— Então por que me convenceu de que ele seria a melhor rota para os meus objetivos?
Gehenna!, gemeram as vozes.
— Gehenna.
Sebastian suspirou irritado e se levantou.
— Eu não quero nunca mais ouvir essa palavra saindo da sua boca, entendido?
— Entendi, mas não vou obedecer.
Sebastian perdeu a paciência e usou sua persuasão com ela.
— Amordace sua boca com o guardanapo e dê um tapa no seu rosto.
Reaja, reclamaram as vozes, mas Karliah não resistiu e obedeceu.
— Outro tapa, do outro lado.
Karliah obedeceu contra sua vontade, mas ao mesmo tempo sem tentar resistir.
Sebastian repetiu a ordem mais duas vezes totalizando quatro tapas.
Cretino, você vai pagar, rosnaram as vozes.
Ele se aproximou dela.
— Nada disso teria acontecido se você continuasse cooperando.
Ela o encarava com raiva.
— Poderíamos ter bons momentos juntos, mas...
O ventrue deixou a frase no ar quando avistou o anel que os anarquistas enviaram. Em seguida sorriu maliciosamente.
— Mesmo com os problemas que me causa, mademoiselle, você me dá excelentes idéias.
O ventrue tirou o terno, colocou no encosto da cadeira, sentou-se sobre a mesa em frente à malkaviana, desabotoou a camisa no pulso, arregaçou a manga e usou sua persuasão de novo.
— Tire a mordaça e fique em silêncio.
As vozes riram. O ventrue não sabe de nada.
Karliah obedeceu. Ele esticou o pulso na direção da boca dela e disse:
— Beba.
A malkaviana resistiu.
— Beba, Karliah.
Ela sentiu dificuldade, mas resistiu novamente. Não conseguia falar, mas o encarou inquisitivamente.
— Sim — respondeu ele —, você será minha subordinada de um jeito ou de outro. Tentei ser agradável, mas você resolveu complicar a sua própria vida. Então agora você vai me obedecer porque minhas ordens serão irresistíveis para você. Beba.
Karliah resistiu. Sebastian se afastou, abriu um armário com uma chave que tirou do bolso. Um vapor gelado subiu junto com um ruído de porta de geladeira. Ele sorveu duas bolsas de sangue. Fechou a geladeira, trancou o armário e voltou a se sentar sobre a mesa e a oferecer o pulso para a malkaviana. Usou todo o seu poder de persuasão para ordenar:
— Beba.
Karliah não conseguiu resistir e mordeu o pulso dele. Sebastian gemeu de prazer e sorriu satisfeito. A malkaviana sugou bastante sangue até que ele a mandou parar. Ela soltou o braço dele e não se importou com um filete de sangue escorrendo pelo canto da boca. O ventrue usou um guardanapo para limpá-la.
— Amanhã à essa mesma hora, eu vou visitar sua suíte para encorajá-la a me obedecer novamente. E vou fazer isso todos os dias até eu conseguir tudo o que eu quero. Não vai demorar até que você me idolatre, mademoiselle.
As vozes riram misteriosamente.
Karliah permaneceu sentada sem dizer nada.
— Vá se trocar — ordenou o ventrue.
Finja que obedece, aconselharam.
Karliah obedeceu.
🦇🦇🦇
Na noite seguinte, chegou outro pacote dos anarquistas. Dessa vez era um lápis pela metade que parecia ter sobrevivido a uma guerra e múltiplos atropelamentos, mas que ainda era funcional. A ponta era grossa e não via um apontador há muito tempo.
— Por que eles lhe mandaram isso? — perguntou Sebastian depois de entregar o pacote.
— Não sei.
O ventrue ia tomar da mão dela para jogar fora, mas a malkaviana pediu:
— Me deixe ficar, senhor.
Sebastian sorriu satisfeito com a obediência. Ele arregaçou uma manga e estendeu o pulso. A malkaviana segurou o braço dele com uma mão enquanto bebia, e na outra apertava o lápis. Quando terminou, o ventrue disse:
— Pode ficar.
— Obrigada, senhor.
Sebastian sorriu novamente.
— Viu o quanto você tem a ganhar quando me obedece? Por que ia querer que fosse diferente?
— Me perdoe, senhor. Não sei o que estava acontecendo comigo.
O ventrue vai levar outro golpe, disseram as vozes entre algumas risadinhas.
— Em breve a sua desobediência será passado e teremos uma vida muito promissora pela frente.
Ele saiu e trancou a porta. Karliah se deitou segurando o lápis contra seu peito. Mergulhou no seu abismo interior e foi parar num lugar semelhante à Teia. A vampira que era seu clone apareceu, levantou sua mão para ver o lápis mais de perto, chorou sangue novamente e a arrastou para um canto escuro.
Karliah se viu dentro de seu corpo, mas sem poder controlá-lo, como antes. Estava num bar onde todos a encaravam com desconfiança enquanto tentavam disfarçar bebendo, conversando, jogando dardos e sinuca. Aguardava um cliente. Horas se passaram até que todos os brujah começaram a ficar muito incomodados com a presença dela. Suas auras estavam verde claro. Damsel foi cochichar com Nines que havia acabado de descer as escadas. Ele deu duas batidas no ombro dela para apaziguá-la e foi em direção à malkaviana.
— E aí, tudo certo?
— Não.
— Não? O que aconteceu?
— Não. Meu cliente não apareceu.
— Seu cliente?
— Sim.
— Quem é?
— Bico Partido.
Rodriguez riu.
— Nunca ouvi falar.
— Ele falou pra gente se encontrar aqui hoje.
Rodriguez sorriu cordialmente.
— Será que você não se confundiu nas datas? Talvez fosse outra noite.
— Vinte de fevereiro de 2002.
Rodriguez sorriu assentindo.
— É hoje. Seu cliente não veio mesmo.
— Foi o que eu falei.
O brujah a observou com mais atenção. Sua aura antes azul escuro, tornou-se rosa claro.
— Você faz o quê? — perguntou ele.
— Sou cartomante.
— E você ia ler a sorte dele aqui? Num bar?
— Sim. Foi idéia dele.
— Seu cliente... Gado ou consangüíneo? — perguntou tentando disfarçar, pois às vezes humanos entravam no bar por engano.
— Consangüíneo.
Rodriguez arregalou os olhos intrigado.
— Qual clã?
— Toreador.
— Talvez tenha se distraído por aí.
— Talvez.
— E você?
— Malkav.
Rodriguez sorriu assentindo e deu uma olhada para Damsel confirmando alguma coisa que cochicharam.
— Vamos fazer o seguinte, você deixa aqui o seu contato e a gente te liga caso seu cliente apareça.
O brujah curvou-se sobre o balcão, pegou um bloco de notas e um lápis. Karliah deu o número e o nome dela. Rodriguez sorriu, guardou o papel no bolso da jaqueta e teve uma idéia.
— Olha só, vamos fazer outra coisa. Leva o meu número, qualquer coisa você entra em contato.
Ele anotou o número e o nome. Damsel o chamou, ele deixou o lápis sobre o papel.
— Boa sorte aí com seu cliente, Karliah. Eu tenho que ir agora. Boa noite.
Karliah deu boa noite, pegou o papel com o número dele e acabou levando o lápis junto por engano.
Três noites depois, ela apareceu no bar. Um brujah barrou a entrada dela.
— Preciso falar com o Rodriguez.
— O que você quer com ele?
— Devolver uma coisa.
Nines apareceu na hora, viu que ela estava na porta e falou para o segurança deixá-la entrar.
— E aí, Karliah, tudo certo?
— Mais ou menos.
Ele pediu para que ela o seguisse. Os dois subiram as escadas e ele a levou para um quarto minúsculo que funcionava como um escritório, mas estava cheio de armas. O brujah fechou a porta e a música diminuiu consideravelmente.
— Aconteceu alguma coisa?
— Eu levei seu lápis por engano.
A malkaviana entregou o objeto e Nines deu uma gargalhada meio desconcertado.
— Você veio aqui só pra me devolver isso?
— Sim, é seu.
— Não. É nosso. Aqui é tudo de todo mundo. Mas obrigado. Não é sempre que a gente encontra uma pessoa honesta no mundo.
Os dois se encararam por uns instantes.
— Você faz parte de alguma seita? — perguntou ele.
— Não.
Ele arregalou os olhos.
— Tá sozinha em Los Angeles?
— Sim.
— Perigoso.
— Sei me virar sozinha.
Rodriguez deu uma risada breve.
— Não duvido, mas ainda é perigoso. Você é daqui?
— Não.
— Por que veio pra cá?
— Juntar dinheiro.
Ele assentiu como se entendesse os motivos dela. Observou-a por mais um instante.
— Tá conseguindo?
— Devagar.
Por um momento, a aura dele ficou preta.
— É uma merda esse mundo capitalista. Tudo na mão de meia dúzia de ventrue engravatado.
— Sim.
A aura dele voltou a ficar rosa claro.
— Não quer entrar pros anarquistas? A vida aqui não é ruim. Todo mundo ajuda todo mundo; todo mundo contribui.
— Vocês precisam de uma cartomante?
— Talvez. Vai depender da sua habilidade, mas você pode fazer outras coisas também. Sei lá. A gente vê depois. O que você acha?
— Eu tenho muitos clientes.
— E daí?
— Não vou parar de atender eles.
— Não precisa. Você pode continuar fazendo o que você faz do mesmo jeito, mas a gente se ajuda discretamente, ninguém precisa saber.
Karliah deu de ombros.
— Tá bem.
— Você tá dentro então?
— Sim. O que eu tenho que fazer?
— Vou te apresentar pro pessoal e depois a gente vê.
🦇🦇🦇
Karliah acordou na noite seguinte com o ventrue abrindo a porta. Ele a entregou uma bolsa de sangue e se sentou na poltrona de frente para a cama.
— Pegue suas cartas.
Karliah segurou a bolsa de sangue com os dentes e sugava o líquido enquanto pegava um deck e embaralhava.
— Como Jack Sorridente descobriu meus agentes?
Karliah tirou uma carta e colocou a bolsa de sangue no colo para poder falar.
— Seus agentes foram burros.
Sebastian suspirou irritado.
— Quais agentes teriam as habilidades certas para esse trabalho?
Karliah embaralhou e tirou outra carta.
— Os mais antigos.
— Estão todos ocupados procurando pelo tremere.
Karliah embaralhou e tirou mais uma carta.
— Eles vão morrer.
— Como é?
— Eles vão morrer.
— Você insistiu nessa história do tremere, eu mandei meus melhores agentes atrás dele e depois você diz que não vou conseguir encontrá-lo e que meus agentes vão morrer?
— Eu também disse que ele estava escondido e que não queria ser encontrado.
Sebastian a encarou com raiva. Levantou-se, arregaçou a manga e esticou o pulso. Karliah mordeu-o. Ele gemeu de prazer, mas se conteve por ainda estar com raiva. Mandou a malkaviana parar e ajeitou a roupa.
— Eu vou conseguir aquele sarcófago.
— Sim, meu senhor.
— Olhe nas suas cartas.
Karliah embaralhou e tirou três.
— Jack Sorridente vai interceptar o sarcófago.
Sebastian rosnou irritado.
— Quando?
Karliah embaralhou e tirou uma carta.
— Assim que o navio chegar no porto.
Sebastian sorriu e relaxou um pouco na postura, voltando a se sentar.
— Ainda bem que eu ganhei o controle do tráfico nos portos graças à brincadeira do monsieur Morris. Que os demônios o tenham.
Karliah embaralhou e tirou uma carta. O Diabo
.
— Os demônios o têm.
Sebastian a ignorou.
— Mais alguém vai tentar me impedir de conseguir aquele sarcófago?
Mamma mia, disseram as vozes e riram.
Karliah embaralhou e tirou uma carta.
Minta, aconselharam as vozes.
— Todo mundo.
Sebastian suspirou irritado de novo.
— Por quê?
Karliah tirou outra carta e mentiu.
— Porque todo mundo conhece a lenda e podem ligar os pontos quando souberem de seu interesse.
— Então eles ainda não sabem do meu interesse?
Karliah tirou mais uma carta e mentiu.
— Alguns sabem e não vai demorar até isso se espalhar.
— Ainda tem espiões ao meu redor?
Ela embaralhou e tirou uma carta.
— Sim.
— Quem são?
Ela embaralhou e tirou várias cartas.
Não dê todos os nomes, disseram as vozes.
A malkaviana deu quatro dos sete nomes. Sebastian assentiu satisfeito.
— Existe mais alguma coisa que o meu senhor quer de mim?
Sebastian sorriu e acariciou o rosto dela.
— Por enquanto não. Vou deixar a porta aberta, você pode ir ver suas plantas ou usar o seu diário.
— Obrigada, meu senhor.
Sebastian saiu e fechou a porta, mas não trancou. Karliah já estava alimentada, sabia que o jardineiro dele cuidava das plantas e não ia escrever nada no diário sabendo que o ventrue poderia ler.
A última peça se aproxima, mencionaram as vozes.
Karliah adormeceu segurando o lápis.
🦇🦇🦇
Durante as semanas seguintes, ela ajudou Sebastian a ganhar mais dinheiro com suas previsões de investimentos. O ventrue estava mais relaxado quanto ao comportamento dela, mas continuava alimentando-a com seu sangue. No entanto, Karliah estava cansada daquilo e queria ir embora. Queria olhar nos olhos do brujah e dizer que estava decidida a recuperar todas as memórias e fazer aquilo dar certo.
E então, um dia, ela recebeu outro pacote dos anarquistas que foi verificado com raio-x novamente. Sebastian a entregou sem se importar muito, pois acreditava que o vínculo de sangue com ela já estava completo.
O pacote era maior que os anteriores e macio. Ela abriu e tirou uma blusa azul masculina que estava manchada de um sangue amarronzado.
— Essas coisas fazem algum sentido para você? — perguntou Sebastian.
— Não — mentiu ela. — Talvez ele ache que estou pelada e com frio.
O ventrue riu.
— Você vai ficar com isso ou posso jogar fora?
— Eu gostaria de ficar, meu senhor. Talvez me lembre de alguma coisa? Algo que possa te ajudar a expulsar os anarquista de Los Angeles?
Sebastian ponderou por um momento e assentiu concordando, mas ficou um pouco desconfiado.
— Vejo que ainda está usando o anel deles... O que fez com o lápis?
— A malkaviana abriu a mesinha de cabeceira e mostrou que estava lá.
— Por que está guardando isso tudo?
Ela deu de ombros.
— Daqui a mil anos, ele vai ter me dado tanta coisa que eu vou poder montar uma casa e sair do aluguel.
— Daqui a mil anos este planeta estará aos meus pés.
— Sim, meu senhor.
— A propósito, finalmente meus agentes encontraram o tremere e marcamos um encontro. Você vem comigo para o Chile.
Uma forte vibração acometeu o estômago de Karliah a ponto de a malkaviana colocar uma mão sobre a barriga como se tentasse conter o órgão de fugir do seu abdômen.
— Quando viajaremos, meu senhor?
— Este final de semana. Arrume suas malas com roupas de frio.
— Sim, meu senhor.
Sebastian saiu deixando-a sozinha com a blusa. Ela se deitou e submergiu para o seu abismo mental. A sua clone veio buscá-la chorando e a empurrou para outra cena onde novamente ela não tinha controle do seu corpo.
A malkaviana desceu correndo as escadas do Last Round com uma faca na mão.
— Volta pro inferno, maldito!
Todos os anarquistas presentes se levantaram empunhando suas armas, mas ninguém fez nada além disso. Karliah subiu em cima do balcão e acertou o ar várias vezes com a faca enquanto dava risadas maníacas e gritava ameaças para o invisível.
— Que porra é essa? — perguntou Skelter.
— E eu sei lá. Não falo malkaviano — comentou Miguelito.
— Vou atirar — disse Skelter.
— Tu vai atirar na namorada do Nines? Ele não vai gostar disso — comentou Jack.
Os outros anarquistas saíam do caminho dela enquanto a malkaviana corria de um canto para o outro lutando contra seres imaginários, mas nenhum deles ousava baixar as armas.
— O que você sugere então, Jack? — perguntou Skelter.
— Sai de perto, tranca ela numa sala. Liga pro Nines. Não é a primeira vez que ela faz isso.
— Não é a primeira vez?
O brujah ancião guardou a arma e pegou o cigarro que ele tinha largado sobre a mesa.
— Na última vez, tava só eu e a Damsel.
— E o que vocês fizeram?
— Trancamos a porta quando ela entrou na sala das armas e ligamos pro Nines.
— Vocês deixaram essa louca sozinha na sala das armas?
Jack deu de ombros.
— Era isso ou matar a namorada do Nines.
Skelter rosnou e mandou Miguelito ligar para o brujah.
— Vem correndo que tua namorada tá louca — disse Miguelito.
Não demorou até que Rodriguez chegasse junto com Damsel e mais dois anarquistas. Karliah tinha subido as escadas e o restante do pessoal estava no primeiro piso com armas em punho.
— Quer ajuda? — perguntou Damsel.
— Não. Deixa que eu resolvo.
Nines subiu para o segundo andar, foi até o depósito, buscou um cobertor e uma corda, e seguiu o som das ofensas e móveis caindo até encontrá-la em um dos quartos tentando esfaquear alguma entidade pendurada no teto.
Quando o brujah pulou sobre ela com o cobertor e deitou-se sobre ela no chão para conseguir amarrá-la com a corda, a malkaviana se debateu gritando ofensas com uma voz demoníaca e um sotaque de algum país do Leste Europeu.
— Brujah imundo, quem você pensa que é para me tocar assim?
— Lute, Karliah — disse Nines enquanto dava voltas com a corda no corpo dela.
— Karliah não está mais aqui, aquela desequilibrada. Saia de cima de mim, seu ogro.
— Lute, cara, não deixe as vozes te pegarem.
— Vozes? — comentou o espírito e emitiu uma risada de deboche. — Verme fedorento, como ousa? Um dia a Camarilla vai reconhecer todo o meu potencial quando eu relatar todos os seus segredos sórdidos para o Conselho.
— Lute, Kaly, eu acredito em você.
O espírito gargalhou.
— Patético. A malkaviana é totalmente inepta. Todos vocês são mais grosseiros e descartáveis do que os dejetos de uma pedreira.
Nines sentou-se no chão abraçando o corpo dela com força. As pernas dela se debatiam, mas estava bem amarrada e não conseguiria se soltar.
— Volta, Karliah.
A malkaviana estremeceu totalmente, rosnou babando e outra voz demoníaca falou através dela.
— Minha família vai saber disso, brujah, e você e toda a sua gangue vai encontrar a morte permanente — disse com um sotaque italiano.
— Eu não sei quem é você, desgraçado, mas você tem sorte que tá no corpo dela, senão eu já teria quebrado seus dentes.
— Não é assim que se fala com uma dama Giovanni.
— Giovanni? Quem é você?
O espírito riu, Karliah convulsionou e outro espírito tomou conta.
— Ela não te contou, brujah. Não se preocupe, eu não vou deixar os outros te pegarem.
— Outros? As outras vozes?
— Não, os outros espíritos.
— Que isso? Uma possessão?
— Não, brujah.
— Quem é você?
— Um gangrel que um dia foi anarquista.
— Que história é essa?
Karliah convulsionou de novo.
— Eu juro por toda a minha linhagem que a Camarilla vai te pegar, escória.
— Você acabou de dizer que não ia deixar ninguém me pegar.
O espírito gargalhou.
— Coisa daquele cachorro molhado. Nenhum ventrue se mistura com gente da sua laia.
— Um espírito ventrue... Quem são vocês?
A malkaviana convulsionou.
— Pergunte para a sua mulher o que ela fez. Pergunte antes que eu fuja com o corpo dela de volta para a minha família.
Karliah convulsionou várias vezes enquanto os espíritos tomavam a frente com o corpo dela.
— Nos seus sonhos, Giovanni, que você vai conseguir pegar o corpo dela. Nenhum de vocês tem capacidade intelectual para isso. Coloquem-se em seus lugares de serventes e aceitem seu destino inferior.
— Ventrue empinadinho... Saboreio a memória de ter destroçado um de vocês junto com os ursos.
— Lute, Karliah — disse abrançando-a com mais força.
— Pare de me apertar, cazzo! Meu pai vai ficar sabendo disso!
— Por mais que eu goste de ver um anarquista completamente perdido no escuro, talvez esteja na hora de revelar quem sua amada é de verdade. E depois que estiverem divididos, a Camarilla vem para conquistar.
— Quando eu pegar esse corpo, vou sentir muito prazer em destruir sua alma, ventrue.
— Lute, Karliah, volte pra mim.
A malkaviana se contorceu por um longo tempo, em seguida tossiu e vomitou um pouco de saliva.
— Armando... — sussurrou.
Rodriguez segurou a cabeça dela em sua direção e beijou sua testa.
— Eu não consigo mais... Lutar...
— O que tá acontecendo com você? É possessão? Como a gente resolve isso? Chamando um padre?
— Não... Não é possessão exatamente...
— O que é então?
— Você vai me odiar...
— Não vou. Me conta.
— Meu progenitor morreu...
— Eu sei, você me contou.
— Não contei como ele morreu.
Nines a encarou preocupado e desconfiado.
— Como ele morreu, Kaly?
— Quando eu acordei malkaviana, não entendia o que estava acontecendo, mas eu estava com muita fome e muita sede. Ele disse pra eu continuar deitada, fechar os olhos e descansar que ele ia trazer água e comida pra mim. Obedeci. Ele mordeu meu pulso. Tentei lutar, mas ele era mais forte. Alcancei o braço dele e também mordi. Nesse momento, algo mais forte do que eu tomou conta e eu bebi o sangue dele mais rápido do que ele estava me drenando. Ele tentou me impedir, mas nem eu sei o que estava acontecendo comigo, só sei que consegui... matar ele. Poucos minutos depois, ele tava dentro da minha cabeça. Eu não entendia nada daquilo. Lutamos. Ele sumiu por uns dias. Depois voltou. Lutamos de novo. Depois outros apareceram na minha cabeça e lutamos. Eles iam e vinham. Procurei respostas e encontrei. Meu progenitor era um diablerista em série.
Nines a apertou com mais força, mas Karliah não reclamou.
— Não foi culpa sua, seu progenitor era um louco. Você era uma neófita, ele era um monstro. Você fez o que podia pra sobreviver.
— Eu tô cansada, Armando... Cansada de lutar. Quase 100 anos disso...
— Deve ter um jeito de acabar com isso permanentemente.
— Não tem, já procurei tudo.
— Alguém deve saber de alguma coisa.
— Ninguém sabe de nada.
— Quantos são?
— Algumas dezenas. A maioria é de malkavianos e alguns deles me ajudam. Mas os outros não gostam de mim.
O brujah beijou a testa dela de novo.
— Se eu pudesse, acabaria com a raça deles todos pra você.
Karliah sorriu e tentou levantar a mão para tocar o rosto dele, mas estava presa dentro do cobertor.
— Eu sei, mas essa luta é só minha e eu não consigo mais. Já pensei em simplesmente me entregar e deixar eles tomarem conta.
Nines ficou sério e sua aura ficou vermelha.
— Não, não, não. Nunca se renda. Nunca! Você consegue lutar e vencer, eu acredito em você.
Ela sorriu tristemente.
— Não consigo. Talvez esteja na hora de parar de resistir...
— Nunca! — respondeu com a aura flutuando entre o vermelho e o roxo. — Você é uma anarquista e nós nunca nos rendemos!
— Se eu fosse uma brujah, talvez sentisse o mesmo. Mas eu não tenho a mesma força.
Uma idéia ocorreu a Nines e ele encarou a malvakiana com receio. Era perigoso, poderia dar errado de muitas formas. Mas também poderia dar certo. Além disso, apesar de difícil, era reversível.
— E se tiver um jeito de você ter a minha força?
— Como? Não posso mudar de clã.
— Dizem por aí que se algum de nós beber sangue direto de outro vampiro, a gente pega algumas habilidades temporárias.
Karliah o observou por um momento. Não tinha certeza se havia entendido o que ele queria dizer.
— Você tá propondo...
— Você teria a minha força por algum tempo. Conseguiria lutar.
— ... que eu me torne sua escrava?
— De jeito nenhum!
— Mas é isso que vai acontecer se eu beber seu sangue.
Nines fez umas caretas irritado com a situação toda.
— Eu sei disso, mas não foi essa minha intenção. — Querendo demonstrar que ele não tinha interesse em escravizá-la e queria apenas ajudá-la, o brujah propôs: — Você bebe o meu sangue e ganha a minha força; e eu bebo o seu sangue e pego metade dos demônios. E nós dois lutamos essa batalha juntos.
— E se der errado e eu pegar seu ódio pelos ventrue, e você pegar minha sensibilidade espiritual?
Nines sorriu.
— Vou ficar sensivelmente emocionado de ver você soltando os demônios em cima daqueles filhos da puta.
Como em poucos momentos durante toda sua vida, Karliah riu. E Nines sorriu junto com ela.
— Tem certeza? — perguntou ela.
— Tenho. Estamos nisso juntos.
Nines desamarrou-a e atirou a corda pra longe.
— E como a gente faz? — perguntou ela.
— Ao mesmo tempo.
Ele a abraçou e os dois se beijaram. Beberam o sangue um do outro em meio às mordidas e aos beijos. Um filete escorreu por entre os lábios deles e manchou a blusa azul que o brujah usava.
Karliah acordou com o coração batendo como se estivesse viva. Seu estômago vibrava tão forte que parecia querer sair de seu corpo.
Finalmente, comentou uma das vozes, ela se lembra.
Não de tudo, comentou outra voz. Ainda.
Em meio à saudade, ao desespero da separação, e às lágrimas de sangue que alimentavam aquelas emoções, a malkaviana sentiu um ódio inexplicável por Sebastian LaCroix e jurou para si mesma que iria matá-lo.