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Vampiro: A Máscara

Fanfics

A protagonista é uma malkaviana chamada Karliah Karmina Karmen que foi morar em Los Angeles para juntar dinheiro para viajar ao Egito enquanto trabalha como Cartomante. Um dia, Sebastian LaCroix, Príncipe de Los Angeles, decide que suas habilidades são muito valiosas para deixá-la solta na cidade e decide seqüestrá-la. A situação muda rapidamente quando uma revelação assustadora vem à tona.

O tempo de leitura é de aproximadamente 55 minutos.

Capítulo 1: Tingido de Sangue

Capítulo 1:
Tingido de Sangue

Assim que o último cliente de Karliah subiu as escadas para a rua e ela trancou a porta, uma monstruosa mão agarrou-a pelo pescoço e lançou-a escada abaixo. A malkaviana se levantou pronta para recitar seu mantra da loucura, mas alguém com uma forte presença agarrou-a por trás com uma mordaça e sussurrou em seu ouvido:

— Você veio para a minha cidade, não se apresentou e ainda forneceu informações que ajudaram os Anarquistas a conquistarem parte do meu território. Me diga, Madame Kristal, existe algum bom motivo para eu não lhe agraciar com a morte permanente?

O intruso não havia atado suas mãos, Karliah poderia se contorcer e pegar a pontiaguda agulha de tricô que carregava dentro de sua bota e enterrar no pescoço dele. Em seguida, mandar a mente do troglodita para um local nunca antes visitado. No entanto, o invasor não a segurava com força e nem a machucava, apenas a impedia de falar. Além disso, emanava uma sensação que ela não sentia desde que recebera seu Abraço. Era um calor delicado e insistente que ela só havia sentido com alguns parceiros.

O feitiço vai virar contra o feiticeiro, disse uma das Vozes em sua cabeça.

Sedução não funcionaria com ela, e Karliah imaginava que o ventrue já sabia disso, então aquela presença sedutora era acidental, o que deixava a situação toda mais intrigante. Ele afrouxou sua pegada, retirou a mordaça e falou num tom de voz cordial:

— Eu gostaria muito que você cooperasse comigo e explicasse tudo o que planeja fazer em minha cidade, por que ajudou os Anarquistas e por que não se apresentou em minha torre. Sente-se e me conte tudo.

Karliah não conseguiu resistir a tamanha cordialidade. Sentou-se na cadeira onde realizava suas consultas e encarou o intruso. Era um homem de descendência européia, elegante, bem vestido, bem cuidado e definitivamente um ventrue. Ninguém que ela conhecesse.

O Príncipe seguiu as pegadas da Cinderela, comentou uma das Vozes.

— Estou juntando dinheiro para uma viagem. Eles me pagaram. Não conheço você. Logo que eu nasci--

O ventrue levantou a mão para interromper a história de vida que viria a seguir.

— Você não sabe quem eu sou? Vem para Los Angeles e não sabe quem eu sou? — perguntou um pouco ressentido.

Ela continuava encarando o intruso com um desejo enorme de ajudá-lo e ser prestativa, mas não fazia idéia de quem ele era.

— Não, sim e não.

— Vamos corrigir esse mal-entendido, então. Sou Sebastian LaCroix, Príncipe de Los Angeles.

— Karliah Karmina Karmen, ocultista.

Sebastian sorriu, fez uma mesura educada e sentou-se na cadeira dos clientes.

— Já que estamos tão amigáveis, por que a mademoiselle não vê pra mim onde, quando e como será o próximo ataque dos Anarquistas?

Karliah pegou seu deck e começou a embaralhar. Estipular o preço da consulta foi um pensamento que ela descartou porque ainda sentia vontade de ajudar Sebastian.

Vizir do Sultão, comentou uma das Vozes enquanto ela botava as cartas na mesa.

— Hollywood. Lua cheia. Cavalo-de-tróia.

Sebastian ficou pensando por quase 10 minutos. Um mortal acharia que ele não entendera o que foi dito, mas o ventrue tinha um segredo muito útil no trato com os malkavianos, portanto sua massa cinzenta estava trabalhando para encontrar o ponto através do qual aconteceria a infiltração dos anarquistas, apontado pelo comentário do cavalo-de-tróia. Chegou à conclusão de que só poderia ser em uma das boates noturnas, já que ficavam sempre cheias e por onde passava todo tipo de gente.

Ele quase se levantou para ir embora, mas resolveu confirmar.

— Eles vão se infiltrar em uma das boates noturnas?

Karliah embaralhou e tirou mais uma carta.

— Não.

— Não? Como não?

— Não. Não sendo uma boate.

Ele respirou fundo.

— Onde então? Seja mais específica.

— Cinema. Retroprojetor.

E então Sebastian entendeu o plano dos anarquistas. Ele sorriu satisfeito consigo mesmo, com a consulta e até com um pouco de admiração pela engenhosidade da facção rival.

— Eles vão recrutar através dos filmes, claro. Genial. Instigar o coração dos jovens sem arriscar ninguém. Um pouco demorado, mas muito mais efetivo a longo prazo. Afinal, dinheiro só compra o momento. Paixão compra o desejo.

Antes de se levantar, ele encarou Karliah por um momento e decidiu que não custava nada confirmar sua suspeita.

— É isso mesmo?

Ela embaralhou e tirou uma carta.

— Sim.

Ele se levantou e colocou a cadeira no lugar.

— Você vai contar para os anarquistas que agora eu sei do plano deles?

— Se eles me pagarem.

Ele se aproximou dela e acariciou seu rosto. Karliah sentia a sedução, mas não conseguia apreciá-la. Era igual quando ficava gripada na época em que era mortal e conseguia sentir o gosto doce das frutas, mas não o sabor individual para distingui-las e desfrutá-las.

— E quanto custa o seu silêncio?

— Uma viagem pro Egito.

Sebastian sorriu. Era um silêncio barato, muito barato, tanto que poderia facilmente receber uma contra-proposta. Ele fez um gesto para o brutamontes que o acompanhava.

— Veja bem, mademoiselle Karmen, eu tenho uma proposta melhor.

O monstrão cobriu-a com um cobertor preto, amarrou e amordaçou com força. Sebastian agarrou as pernas dela, colocou dois dedos dentro de cada bota e puxou uma agulha de tricô de cada uma. Em seguida, o capanga amarrou as pernas dela.

— Faça um favor pra mim e durma.

Karliah desmaiou.

🦇🦇🦇

Acordou com um aroma de perfume masculino, flores, desinfetante de pinho, e sangue, mas não era sangue comum. Sentou-se e olhou ao redor. Era uma suíte luxuosa que ela jamais conseguiria pagar mesmo que juntasse o dinheiro de uma vida inteira. Sobre um armário perto da porta havia um vaso com um colorido buquê de flores do campo, um envelope vermelho e uma bacia com gelo e com uma bolsa de sangue. Suas botas estavam ao lado da porta. Perto da cama havia um par de pantufas cor-de-rosa. Estava algemada na cama pelas mãos e pés. Sacudiu-se, mas não conseguiu se soltar. O barulho dos metais se chocando chamou a atenção de alguém que se aproximou da porta e destrancou-a com um cartão magnético.

Sebastian entrou com um sorriso cordial. Carregava uma taça. Aproximou-se da mesa e pegou o envelope vermelho.

— Boa noite, Bela Adormecida. Dormiu bem?

— Não posso botar cartas com as mãos atadas.

Ele sorriu.

— Eu sei. Você não está aqui para isso. Bem... Não está aqui apenas para isso. — Ele ergueu o envelope. — Sabe o que tem aqui?

Enigmas, comentou uma das Vozes.

— Você realmente quer que eu adivinhe.

— Quero saber até onde vão suas habilidades.

Karliah fechou os olhos e posicionou-se na beira de seu abismo interior.

Decifra-me ou devoro-te, sussurrou um coro de Vozes das profundezas.

— A foto de uma esfinge.

Sebastian a encarou com o olhar de alguém que acabara de ganhar na loteria e lhe entregou o envelope. Karliah abriu e era um cartão postal do Egito com a imagem de uma esfinge na parte de trás.

Ele colocou sua taça e o envelope com o cartão em cima da mesinha de cabeceira e tirou uma pequena chave do bolso.

— Sabe... Não acho que nos encontramos por acaso. — Ele fez um gesto para que Karliah esticasse os braços e retirou as algemas. — Existe algo que foi descoberto ali, próximo do Egito, que eu quero muito. Mas eu sei que terei problemas para conseguir isso.

Gehenna!, gritaram as Vozes.

— Gehenna — sussurrou Karliah.

Sebastian sorriu.

— Certamente é o que muitos acreditam, mas isso é apenas uma lenda.

Ele retirou as algemas dos pés e foi quando ela notou que não havia sido amordaçada.

— Você não me amordaçou.

Sebastian ainda segurava os tornozelos dela e sorriu, mas não era cordialidade. Ele estava pronto para subjugá-la se ela ameaçasse pronunciar alguma coisa esquisita.

— Ao contrário da Sabbat, eu não costumo maltratar meus associados.

— Mas os seqüestra.

Ele sorriu afastando-se dela e guardando a chave.

— Às vezes a besta dentro de nós fala mais alto. Perdoe minhas más maneiras. Aceita sangue? É um tipo especial. Gastei uma fortuna no lote.

Monstro..., sussurraram as Vozes.

Karliah sentou-se na ponta da cama, calçou as pantufas e foi até ele. Sebastian tirou uma taça do armário, derramou um pouco do sangue da bolsa e ofereceu a ela. Karliah tomou um gole e gemeu sem querer. Era o melhor sangue que ela já havia provado na vida. Sebastian sorriu satisfeito.

— Não vai ser difícil se acostumar com a vida aqui, vai? — perguntou ele.

Princesa LaCroix, disseram as Vozes e em seguida riram baixinho, como se estivessem zombando.

— Tenho compromissos — respondeu Karliah.

— Você tem compromissos? — perguntou ele com desdém. — Que compromissos poderia ter?

— Sim. Meus clientes.

Ele se retesou e ficou sério por um instante.

— Quem você atende além dos Anarquistas?

— Todos.

— Todos? Até os Sabbat?

— Sim. Sim.

— Você atende os Sabbat? — perguntou de novo incrédulo.

— Sim.

— O que eles perguntam?

— Gehenna.

Sebastian suspirou irritado.

— É claro, são obcecados com isso. — Apontou para a taça e disse: — Bebês. Tenho um fornecedor numa maternidade.

As Vozes emitiram o ruído do sibilar de uma cobra.

Karliah achou desnecessário, mas não estava em posição de reclamar, ou o ventrue simplesmente pediria para ela tacar fogo no próprio corpo e ela não iria conseguir recusar. Mesmo assim, terminou de beber o conteúdo todo da taça e o devolveu.

— Você gostando ou não, é minha convidada e ficará aqui por bastante tempo. Não deixarei nada lhe faltar. Mas aviso que minha paciência é curta e tem uma baixa resistência a testes. Ademais, a longevidade da sua vida será proporcional à sua utilidade. Entendido?

— Sim, mas não posso botar cartas sem as cartas.

Sebastian sorriu.

— Isso não será problema. Tomei a liberdade de criar um acervo pessoal para você.

Ele puxou um quadro, ao lado do armário, como se fosse uma porta e revelou uma estante embutida na parede que estava cheia de decks luxuosos com versões de colecionador e algumas versões banhadas a ouro que ela nem sabia que existiam.

Ventrue, comentou uma das Vozes com um tom de recalque.

— Acredito que tenha uma versão de cada oráculo que você usava e outros novos, segundo informações do meu fornecedor.

Karliah passou a mão por cima das caixas e escolheu um brilhoso e cintilante. Correu para a cama e se jogou sacudindo os pés e arremessando as pantufas longe.

Sebastian sorriu, catou as pantufas e colocou ao lado da cama. Karliah embaralhava apaixonadamente sentindo o deslizar do material de qualidade. De vez em quando ela parava para cheirar o deck.

— O que você quer saber?

Sebastian sentou-se na poltrona de frente para a cama.

— Vou conseguir o que eu quero da região do Egito?

Karliah embaralhou e tirou uma carta: A Torre. Um raio cortava o céu noturno e atingia uma torre quebrando-a ao meio e forçando duas pessoas a se jogarem lá de cima em direção a um abismo.

— Decepção.

Sebastian ficou sério, entrelaçou os dedos e apoiou os dois indicadores sobre a boca enquanto pensava.

— O que eu preciso fazer para conseguir o que eu quero?

Ela embaralhou e tirou duas cartas: 10 de espadas e O Louco. Um homem caído com dez espadas cravadas nas costas e um homem andando despreocupadamente à beira de um precipício.

— Eliminar o Bobo.

— O bobo? Que bobo?

— Sim. Aquele que ri.

Sebastian pensou mais um pouco, até que uma idéia lhe ocorreu.

— Jack Sorridente? É isso?

Karliah tirou mais duas cartas: 7 e ás de espadas. Um homem fugindo sorrateiramente com sete espadas de um acampamento e uma mão desencorporada segurando uma única espada.

— Sim. Sim.

— De novo esses Anarquistas me atrapalhando... Mas matar Jack Sorridente me traria muitos problemas. Além do mais, ele é um ancião. Provavelmente a Camarilla e os Anarquistas entrariam em guerra, isso seria catastrófico para a Máscara. O que vai acontecer se eu tentar recuperar meu item sem matar o Sorridente?

Karliah juntou todas as cartas, embaralhou e tirou duas: A Torre e 10 de espadas.

Sangue..., sussurraram as Vozes.

No abismo de sua mente, ela viu o apartamento todo tingido de sangue seco.

— Tingido de sangue. Tudo.

Sebastian a encarou sério. Ele não iria desistir dos seus planos, mas também não podia matar Jack Sorridente e nem podia deixar o banho de sangue acontecer. Deveria haver uma alternativa.

— Mais alguém que vai tentar me atrapalhar?

Karliah embaralhou e tirou duas cartas: A Lua e 5 de ouros. Um lobo e um cão uivando para uma lua cheia, e dois mendigos andando na neve do lado de fora de uma pomposa igreja.

— Nosferatu.

— Todos os Nosferatu ou Gary Golden?

Ela puxou mais uma carta: rei de espadas.

— Gary Golden.

— Mais um para a minha lista então. E os Tremere? Posso confiar neles?

Novamente ela juntou tudo, embaralhou e puxou duas: 2 de copas e ás de ouros. Duas pessoas trocando taças, e uma mão desencorporada segurando uma enorme moeda de ouro.

— Apenas enquanto for vantajoso pra eles.

— Não é de surpreender. Com quem mais eu devo me preocupar?

Ela repetiu o ritual: 3 de paus e 5 de espadas. Um homem em pé observando navios no horizonte, e um homem sorrindo segurando uma espada enquanto dois outros homens vão embora derrotados após largarem suas espadas no chão.

— Estrangeiros que vão atrás do que querem custe o que custar.

Sebastian pensou um pouco e então teve uma idéia.

— Os Kuei-jin?

O Diabo. Uma figura demoníaca sentada sobre um pedestal observando duas figuras permanecerem acorrentadas com uma coleira frouxa.

— Sim.

— Também não estou nenhum pouco surpreso. Não posso confiar em nenhum deles. — Uma idéia lhe passou pela cabeça e ele acrescentou: — Posso confiar em você?

Os Enamorados. Um homem e uma mulher nus num campo verdejante sob o olhar de um anjo no céu.

Como queijo e goiabada, disse uma das Vozes.

— As cartas dizem que sim.

— E o que você me diz? — pronunciou com um tom baixo e firme, mas ao mesmo tempo cordial.

Imediatamente Karliah sentiu vontade de ser honesta com ele.

— Não vou lhe trair porque você me mataria, e eu quero ir pro Egito cultuar meus Deuses antes de morrer. Quero cruzar o submundo até o pós-vida. Quero conhecer o outro lado. E pra isso tudo eu preciso ir pro Egito me tornar uma sacerdotisa de Anúbis e Sekhmet.

Sebastian fez uma cara confusa, um pouco enojado, e ao mesmo tempo achando aquilo divertido e exagerado.

— Não posso deixar os Setitas saberem da sua existência. Eles tentariam roubá-la de mim.

— Já botei cartas pra eles e já fui a rituais de comunhão com os Deuses.

— E eles não lhe absorveram na facção deles por quê?

— Não cultuo Set. Não gosto de guerras.

— Péssima época para ser uma vampira, mademoiselle.

— O que mais quer saber?

Sebastian se levantou.

— Por enquanto é só isso. Existe algum pertence pessoal que você gostaria que fosse trazido para cá?

— Minhas agulhas de tricô, meu diário e minhas plantas.

O ventrue sorriu.

— Vou ficar com as agulhas por enquanto. Sobre o diário e as plantas, mandarei alguém buscar.

— O diário está escondido.

— Onde?

— Dentro do freezer, num pote de sorvete.

Sebastian riu um pouco desorientado.

— E meu aluguel vence semana que vem — disse Karliah.

O ventrue recuperou sua compostura altiva.

— Quitarei o ano pra você. Cortesia da casa. Quanto ao próximo, dependerá da sua utilidade.

Karliah deu de ombros e se recostou na cama. Não podia esconder sua habilidade mesmo, e não se importava com quem eram seus clientes contanto que pagassem.

— Você sabe onde me encontrar — disse ela.

Sebastian sorriu e deu uma última olhada nela de cima a baixo antes de sair. Do lado de fora, trancou a porta com o cartão magnético e pensou em como seria governar o país inteiro. Comparecer aos encontros dos anciões da Camarilla com a malkaviana ao seu lado, como sua vidente pessoal. Talvez estivesse sonhando demais, como acontecia com sua finada mãe, mas do que era feita a vida se não de sonhos e planos? Ajeitou seu terno impecável e desceu para receber alguns associados.

No quarto, Karliah botava as cartas para si mesma.

— Vou conseguir viajar pro Egito?

A Roda da Fortuna. Figuras animalescas presas ao redor de uma grande roda.

As Vozes emitiram opiniões distintas, todas ao mesmo tempo.

— LaCroix vai me matar?

Ás de copas. Uma mão desencorporada segurando uma taça de onde transbordava água.

"É o amor, que mexe com a minha cabeça e me deixa assim...", cantaram as Vozes em coro. "Que faz eu pensar em você e esquecer de mim, que faz eu esquecer que a vida é feita pra viver..."

— Existe alguém que tentaria me matar?

Sete de paus. Um homem segurando um pedaço de pau e se defendendo de seis outros pedaços de pau apontados para ele.

Karliah suspirou entediada. Costumava atender muitas pessoas e agora estava confinada num quarto sem nada para fazer.

Guardou o tarô e decidiu experimentar os outros oráculos que lhe eram desconhecidos. Despejou tudo sobre a cama, leu os manuais, embaralhou e tirou algumas cartas. Depois guardou tudo de novo. Sem clientes, não tinha muito o que perguntar. Sua vida era pacata e mundana, dentro do possível. Atendia alguns clientes humanos também. Já havia trocado favores por leituras. Fizera alguns contatos de confiança que certamente notariam sua ausência e fariam perguntas. Não tinha certeza se alguém tentaria negociar sua liberdade, afinal, não era tão importante assim para ninguém. O que ela fazia com as cartas poderia ser feito por qualquer outra cartomante. A diferença é que os vampiros iriam sempre preferir um dos seus a um humano.

Karliah decidiu ficar pulando na cama até ter algo para fazer ou o móvel quebrar. Não via a hora de voltar para a sua rotina ou então Sebastian ficar dependente da sua divinação e fazer consultas sobre tudo, até sobre que cor de terno usar. Pelo menos ela teria o que fazer.

Mente vazia é oficina do diabo, comentou uma das Vozes.

Karliah voltou-se para si e encarou o seu abismo interior buscando por alguma distração e, de repente, a Teia da Loucura a agarrou e puxou-a para o abismo. Karliah entrou num transe assombroso no qual ria, falava em línguas desconhecidas e se contorcia descontroladamente.

Capítulo 2: Elias Baumer esteve aqui

Capítulo 2:
Elias Baumer esteve aqui

— E então? — perguntou Sebastian quando o Dr. Baumer saiu da suíte e fechou a porta.

O médico se sentou ao seu lado no sofá vermelho de renda dourada e serviu-se com o sangue que estava numa louça sobre a mesinha de centro. Saboreou por uns instantes estalando a língua, fez um ruído de aprovação e tomou o restante de uma vez.

— Da maternidade?

— Sempre o melhor, Doutor — respondeu e acrescentou um tanto irritado: — Mas me diga, como ela está?

— Ela vai ficar bem.

— O que ela tem, Doutor? — perguntou com um sorriso irritado.

— A Teia entrou em contato. Quando terminarem de passar a mensagem, ela vai acordar. Até lá, não há nada o que se fazer.

— Que mensagem estão passando?

— Você vai saber quando ela acordar. Ou não. — E serviu-se de mais sangue.

Sebastian forçou um sorriso cordial e conciliador, mas saiu apenas um sorriso impaciente.

— Eu o pago muito bem, Doutor Baumer, porque é o único aqui em Los Angeles que consegue lidar com os malkavianos e suas peculiaridades, mas isso não significa que seja insubstituível. Existem muitos outros como você na Europa.

— Então leve sua pupila para a Europa.

Os dois se encararam por um instante. O rosto inexpressivo do médico dava a impressão de que ele poderia ser tanto um psicopata, quanto um robô, um alienígena ou um malkaviano. Sebastian já sabia se tratar do último caso, mas ainda lhe era incômodo ter que puxar rios de paciência das suas entranhas para lidar com esse clã. Se ambos não fossem tão úteis, ele já os teria despachado para a morte final.

"É pior do que lidar com adolescentes", pensou o ventrue.

— Qual a freqüência dessas crises?

— Duas por ano. Três se ela for muito importante para a Teia.

— E o que eu faço quando isso acontecer?

— Coloque-a num lugar confortável para que não se machuque e aguarde.

— Alguma outra coisa que eu deva saber?

— Ela vai acordar um pouco desorientada e pode entrar em frenesi. Ou não.

Sebastian sorriu tentando se controlar.

— Ou não — sussurrou para si mesmo.

Massageou as têmporas por um minuto e levantou-se com um sorriso cortês.

— Muito bem, Doutor Baumer. Agradeço pela sua visita. O dinheiro será enviado para a mesma conta de sempre. Tenha um bom dia.

O médico colocou a taça sobre a mesinha e se levantou abotoando seu terno lilás.

— Na verdade, quero que você faça uma doação em meu nome para o hospital de pacientes com câncer terminal.

Sebastian o encarou surpreso com uma sobrancelha erguida. Não acreditava, nem por um instante, na bondade do coração de um malkaviano, especialmente um que em momento nenhum se incomodou de tomar sangue de bebês.

— Como o dinheiro sairá da minha conta e é rastreável, gostaria de saber o motivo da doação.

— Estou conduzindo um experimento e preciso que a diretoria do hospital seja persuadida ao meu favor.

Sebastian deu um belo sorriso de interesse, voltou a se sentar e fez um gesto para que o médico também se sentasse. Ele obedeceu.

— Favor, hã. Talvez eu possa persuadir a diretoria do hospital de uma maneira mais convincente. Claro, se você puder contribuir de outra forma. — E acrescentou de repente, num único fôlego: — O dinheiro desta consulta será enviado para a sua conta normalmente, óbvio.

— O que você quer?

— Acesso controlado à Teia.

O Dr. Baumer o encarou de cima a baixo como se fosse um de seus pacientes psicóticos.

— Não existe isso de acesso controlado à Teia.

— Com o seu impressionante currículo e mais de um século de experiência, não seria possível gerenciar o acesso à Teia?

— Não.

— Não? — perguntou Sebastian com um sorriso malicioso e sentindo-se no controle da situação novamente. — Pense mais um pouco, Doutor. Pelo futuro da Ciência.

— Nenhum malkaviano entra em contato com a Teia. A Teia entra em contato conosco.

— A comunicação é uma via de mão dupla, Doutor.

— Não nesse caso.

O rosto de Sebastian desmanchou voltando a adquirir um semblante de francês arrogante.

— Bom, como eu havia dito, o dinheiro será transferido para a sua conta, como de costume. Tenha um bom dia, Doutor Baumer — disse levantando-se e indicando a porta do apartamento.

O médico não insistiu sobre a doação e se retirou sem falar nada.

Sebastian sentou-se à sua escrivaninha e redigiu um e-mail para um de seus agentes ordenando que ele descobrisse o que a diretoria do hospital precisava. Em seguida, entrou na suíte e encontrou a malkaviana movendo-se pelo quarto como uma aranha de cabeça para baixo, com o ventre exposto e a cabeça ao contrário. A cena lembrou Sebastian de um filme de terror. Ela falava numa língua desconhecida enquanto grunhia e fazia outros barulhos indecifráveis. O ventrue decidiu chamar Beckett.

🦇🦇🦇

— E então? — perguntou Sebastian já sem paciência com aquela história toda.

Beckett fechou a porta da suíte, aproximou-se de uma estante cheia de livros e observou os exemplares como se procurasse algo que nunca havia lido. Sebastian ofereceu-o sangue, mas ele recusou.

— Não é nenhuma língua humana — disse o gangrel.

— Nenhuma língua humana? Ela está falando em alienígena?

— Talvez, mas deixe eu me corrigir. Não é nenhuma língua humana conhecida. Pode ser uma língua alienígena ou uma língua que só os malkavianos entendem. Talvez Elias Baumer consiga ajudá-la.

Sebastian riu com desdém e se sentou no sofá.

— Já tentei. Ele me disse para esperar passar.

— Então espere — disse e puxou um livro muito antigo. Folheou devagar, com cuidado, e constatou que já havia lido uma cópia mais moderna.

Sebastian suspirou irritado.

— Tenho assuntos para resolver que dependem da habilidade da malkaviana.

— Arranje outro oráculo.

Sebastian parou subitamente, como uma estátua. Beckett virou-se para encará-lo.

— Já ouvi falar da cartomante — disse o gangrel. — Ela atendeu alguns conhecidos meus.

— Você também?

— Não, mas talvez fosse útil na minha pesquisa.

— Quantos malkavianos ocultistas você conhece?

— Que eu já ouvi falar, poucos.

— Quantos estão disponíveis?

— De maneira tão tratável assim, nenhum. Você tem um artigo precioso em mãos, LaCroix.

— Entende agora por que eu quero que ela seja consertada o mais rápido possível?

Beckett deixou uma risada escapar.

— Nem todo preço se paga em dinheiro.

Sebastian sorriu e ergueu sua taça como num brinde.

— Tem certeza de que não quer se juntar a mim na bebida?

— Não, obrigado.

— É o melhor sangue que você provará.

— Eu sei. Dispenso. — Devolveu o livro para a estante e acrescentou: — Já falou com Alistair Grout?

— Ninguém sabe onde ele está.

— Na mansão?

— Ainda não encontrei ninguém que conseguisse entrar naquele manicômio. Pode estar lá, mas pode estar em qualquer outro lugar.

Beckett deu de ombros.

— Não há mais nada que eu possa fazer aqui. Então, se me permite, tenha um bom dia, LaCroix. — E saiu sem esperar que o ventrue o acompanhasse.

Sebastian colocou a taça de volta sobre a mesinha e entrou na suíte. Karliah estava caída no chão e contorcida de uma forma inumana. O ventrue se aproximou com cuidado. A malkaviana emitiu um gemido de desconforto. Sebastian endireitou os membros dela com gentileza, pegou-a no colo e colocou sobre a cama. Ela o encarou com um olhar distante de quem acabou de acordar.

— Como está?

Ela piscou algumas vezes tentando focar a visão e organizar a mente o suficiente para se tornar sociável novamente.

— Morta.

Sebastian riu.

— De certa forma, sim. Você se lembra do que aconteceu?

Karliah viu um mar de informações e imagens desconexas em sua mente.

— A Teia... me chamou.

— Sim. Qual foi a mensagem que lhe passaram?

Algumas imagens deslizaram para perto de outras como se tentassem se agrupar por assunto, mas não havia coesão cronológica. Ela não conseguia entender logicamente o que era aquilo, mas sentia do que se tratava.

— Gehenna.

Sebastian girou os olhos num gesto de tédio e impaciência. Levantou-se para sair, mas Karliah segurou seu braço. Conforme as imagens foram se alinhando na mente dela, a malkaviana disse:

— Desista do sarcófago.

Sebastian a encarou surpreso e sério.

— O sarcófago é minha única chance de conseguir o que eu quero.

Karliah sacudiu a cabeça negativamente.

— Não é. Existem outros meios.

— Você não sabe o que eu quero.

— Diminuir gerações pra ter controle total das Américas.

Ele tirou a mão dela que ainda o segurava e sentou-se na cama com um olhar raivoso, mas contido. Não totalmente por ter sido descoberto, mas também por descobrir que a malkaviana era mais poderosa do que havia pensado, e por concluir que jamais poderia deixá-la ver a luz do dia novamente.

— O sarcófago é a única maneira — insistiu o ventrue.

— Existe um Tremere que pode fazer isso sem precisar usar um antediluviano.

Sebastian sorriu.

— Então realmente tem um antediluviano naquele sarcófago?

— Não tenho certeza absoluta, mas parece que sim.

— Mesmo que haja outra forma, abandonar o sarcófago não é uma opção, pois o meu informante pode vender essa informação para outra pessoa se eu não der prosseguimento com as escavações.

— Ele já fez isso. Já tem alguém lá que começou a cavar há pouco tempo.

Sebastian se retesou, deixou uma careta de ódio transparecer e perguntou:

— Quem?

— Um arqueólogo chamado Anders Johansen.

— Consangüíneo ou rebanho?

— Rebanho — disse sentando-se na cama e ajeitando o cabelo.

Sebastian relaxou um pouco.

— Não vai ser tão difícil dominá-lo então.

— Mas tem um problema.

— Qual?

— Um crente tá te procurando.

Sebastian parou para pensar por um segundo.

— Ele tem a Fé Verdadeira?

— Sim.

— Ele sabe do arqueólogo?

— Sabe.

Sebastian se levantou e deu uma volta pelo quarto.

— Você descobriu tudo isso enquanto estava em contato com a Teia?

— Sim.

— Por que a Teia está querendo me ajudar?

— Não estão. Estão tentando evitar Gehenna.

— Gehenna é um mito.

— Não é.

— Por que um bando de malkavianos loucos, que poderiam se auto-exterminar sem pensar duas vezes, estariam tentando evitar o fim do mundo?

Karliah deu de ombros.

— Não sei.

— Quem é o antediluviano no sarcófago?

— Não sei.

— Ele está vivo? Se eu abrir o sarcófago, ele trará o fim do mundo?

— Não sei e não sei.

Sebastian suspirou irritado.

— O que você sabe então?

— Você não deve diablerizar o antediluviano; Johansen vai trazê-lo para os Estados Unidos; Um crente vai tentar te matar e, se não conseguir por meios comuns, vai usar Johansen e o sarcófago pra isso.

— Quem é o crente?

— Não conseguimos ver. A fé dele nos repele.

— Se o sarcófago vier para os Estados Unidos, eu vou, definitivamente, trazê-lo para cá e vou diablerizar o antediluviano. Ninguém vai me impedir. Não seria melhor a sua Teia não me avisar do crente e deixá-lo me matar antes que eu diablerize o antediluviano?

— Se trouxer o sarcófago pra cá, você, eu e quem mais estiver presente vamos morrer.

— Por que morreriam?

— O sarcófago será interceptado antes de vir pra Torre.

— Pelo crente?

— Jack Sorridente.

Sebastian lembrou-se da conversa que tiveram no dia anterior.

— Por que está me ajudando?

— Eu tenho alternativa?

— Com as informações que a Teia lhe passou, você poderia me deixar morrer e fugir. Voltaria a ter sua liberdade e ninguém a culparia pela minha morte, já que muitos aqui me odeiam, até mesmo dentro da Camarilla.

— Se você morrer, não vai ser sozinho.

Sebastian sorriu satisfeito em saber que a Teia da Loucura não estava sendo boazinha com ele, e sim apenas tentando salvar uma das suas. A história da Gehenna era só uma desculpa mesmo. No entanto, nada lhe tirava da cabeça que a Teia poderia tentar salvar Karliah sem revelar tantas informações assim para ele. Achou que a Teia tinha muito potencial, mas nenhuma estratégia. De novo pensou em como seria inestimável ter acesso a uma rede de informações sobre o futuro.

Ele voltou a sentar-se ao lado dela na cama. Tocou seus cabelos e seu rosto pálido. Se tivessem se conhecido antes do Abraço de ambos, ele poderia tê-la levado para conhecer sua família. Talvez até sentisse algo por ela e tivessem pequenos LaCroix que o atormentariam correndo pela casa. Morreriam de tifo, cólera ou de peste bubônica. Sebastian os enterraria no jazigo da família. Talvez fizessem outros filhos, ou talvez Karliah ficasse doente de tristeza e morresse de uma febre misteriosa, coisa que comumente acometia as mulheres. Ele iria para a guerra, como havia feito, e talvez ficasse de luto e se deixasse levar em um dos enfrentamentos encarando a morte. Ou então seria Abraçado como foi e sua vida decorreria da mesma forma até aquele momento. Ela seria apenas uma das muitas lembranças que já não lhe importavam tanto e, quem sabe, no futuro, quando ele tiver diablerizado o antediluviano, Karliah seja mesmo só mais uma das suas muitas lembranças insignificantes.

— Como é a Teia?

— É tudo.

— Tudo o quê?

— Tudo o que é, o que foi e o que será.

— Como é entrar nela?

— É como afundar num oceano de pensamentos, imagens, sons e informações.

— Você consegue navegar por ela?

— Não. Somos pescados pela Voz.

— Que voz?

— Não sei.

Sebastian respirou fundo buscando paciência.

— Você já acessou a Teia por conta própria?

— Não.

— Já tentou pelo menos?

— Não.

Sebastian sorriu um pouco irritado.

— Pois então tente. E quando sentir que está conseguindo, me avise. — Levantou-se para sair.

— Elias Baumer esteve aqui.

Sebastian virou-se para ela.

— Eu sei, fui eu que chamei.

— Não. Ele estava comigo na Teia. Aqui — disse indicando o quarto.

Sebastian aproximou-se dela lentamente com um semblante incrédulo e curioso.

— Você está me dizendo que Baumer entrou na Teia aqui com você? Que ele deliberadamente escolheu acessar a Teia daqui deste quarto?

— Sim e sim.

Sebastian gargalhou alto filtrando o ódio que estava sentindo. Depois respirou fundo, encarou a malkaviana e perguntou:

— Vocês já se conheciam antes?

— Não.

— Então como você sabia que era ele?

— Ele me buscou na Teia.

— Você me disse que não conseguia navegar pela Teia.

— Nós não, mas ele, pelo visto, consegue.

— Vocês quem?

— Eu e as vozes.

— Ela ouve vozes... — sussurrou para si mesmo controlando-se para não mandá-la se jogar da janela.

Sebastian esfregou as têmporas organizando todos os acontecimentos daquele dia. Chegou à conclusão de que Baumer estava tramando alguma coisa e decidiu que descobriria o que era. Além disso, precisava identificar e rastrear o tal arqueologista, pagar um espião para informar sobre Jack Sorridente e colocar um alerta sobre algum crente.

— Tô com fome — disse Karliah.

— Vou trazer algo para você.

— Quero sangue normal.

— O que eu tenho é o melhor.

— Não quero os bebês, quero normal.

— Vou providenciar, mademoiselle. Enquanto isso, tente acessar a Teia. — E saiu antes que ela pudesse falar ou contestar alguma coisa.

Trancou a porta da suíte, sentou-se à sua escrivaninha de novo, usou o telefone para pedir à sua secretária que mandasse sangue normal, e mandou vários e-mails para seus agentes com as novas missões. Assim que o primeiro agente voltasse com as informações do hospital, Sebastian começaria os preparativos para persuadir a diretoria ao seu favor. Depois faria o mesmo em todos os demais hospitais da Califórnia além das clínicas, asilos, casas de repouso, orfanatos e albergues. Estancaria todas as fontes de pacientes e cobaias que o Dr. Baumer pudesse ter. O malkaviano seria forçado a sair do estado ou submeter-se à sua autoridade e acessar a Teia como lhe havia proposto. Se optasse por sair, seria uma pena, mas não seria mais problema seu. Tendo pelo menos Karliah sob seu domínio, Sebastian ganharia de qualquer forma.

O telefone tocou, era a secretária avisando que um dos anarquistas estava no prédio e queria falar com ele.

— Sobre o quê? — perguntou o ventrue.

— Ele se recusa a dizer, senhor.

Sebastian suspeitava que tivesse a ver com a malkaviana, mas não tinha certeza. Ele tinha tantos esquemas em andamento que poderia ser sobre qualquer coisa. Achou interessante que eles tivessem mandado um agente para conversar em vez de comprarem uma briga como os selvagens que eram.

— Mande o Sheriff o acompanhar até aqui.

Capítulo 3: A Sabbat manda um oi

Capítulo 3:
A Sabbat manda um oi

O brujah adentrou o apartamento olhando toda a decoração com desdém. Vez ou outra sacudia a cabeça em negação como se não acreditasse no que estava vendo. Quando diminuía o passo para observar melhor algum objeto, o Sheriff parava atrás dele como uma sombra causando desconforto no anarquista que apressava o passo em direção à mesa de LaCroix.

O ventrue e o brujah se encararam em silêncio. Sebastian fez um gesto para ele se sentar. O visitante deu uma olhada para o Sheriff. Sebastian ordenou que o brutamontes se afastasse. O brujah se sentou e soltou uma exclamação de prazer quando percebeu que a cadeira era muito mais confortável do que todas as camas em que já estivera em sua vida. Sebastian também se sentou e sorriu cordialmente.

— Com quem eu falo?

— Miguelito Pirulito.

— Ao que devo sua presença?

— Uma integrante dos anarquistas desapareceu tem uns dois dias. Segundo testemunhas, foi seqüestrada por um ogro e um homem loiro bem vestido.

— Ora, ora. Agradeço por eu ser o primeiro da lista de vocês quando mencionam um loiro bem vestido, mas sinto em informar que não fui eu.

O brujah encarou o Sheriff.

— O Coisa aqui também bate com as descrições.

— Los Angeles é uma cidade cheia de aspirantes a fisioculturista, todos tentando um lugar ao sol. Suas testemunhas podem ter se enganado.

O brujah sacudiu a cabeça em negação.

— Nah... Foi você e o Shrek aqui.

Sebastian o encarou com um sorriso congelado no rosto avaliando o quanto estava disposto a se indispor com os anarquistas por conta da cartomante que ele acabara de descobrir que também era uma anarquista.

— Vamos seguir sua linha narrativa por um momento. Digamos que eu tenha seqüestrado uma integrante do seu grupo. O que vocês pretendem fazer a respeito?

Miguelito hesitou por um instante antes de responder:

— Se ela estiver viva, nada. Mas só se devolver ela pra gente.

— E eu devo acreditar que uma facção de arruaceiros desprovidos de boas maneiras não vai tentar retaliar de alguma forma?

O brujah ia cuspir no chão em sinal de desprezo, mas o ventrue balançou um dedo em negativa enquanto emitia um som de advertência. Miguelito engoliu a saliva, derrotado.

— A gente não vai retaliar. Se você devolver ela viva.

— Sheriff, por favor.

O nagloper foi até a suíte, destrancou a porta com um cartão magnético, voltou trazendo a malkaviana e empurrou-a para uma poltrona perto da mesa.

O brujah a encarou um pouco espantado e apoiou-se na cadeira para se levantar, mas antes que completasse o gesto, Sebastian fez outro ruído de advertência. O anarquista voltou a encostar bem devagar.

— Karliah, este cavalheiro diz que você é anarquista.

— Não sou.

O brujah soltou um ruído de indignação.

— Diga a verdade — ordenou Sebastian com a voz firme, mas cordial de sempre.

Karliah não conseguiria resistir nem se quisesse, mas realmente falara a verdade.

— Não sou anarquista.

— Mas é claro que é! Não tem muito tempo que você e--

Sebastian ergueu a mão rapidamente num gesto para que o brujah se calasse.

— A mademoiselle disse que não é anarquista, isso é o suficiente. Você pode voltar para o seu grupo. — E fez um gesto para que o Sheriff escoltasse o brujah.

O nagloper levantou-o pelo braço, mas Miguelito desvencilhou-se de sua pegada e se aproximou da malkaviana apenas o suficiente para encará-la melhor.

— O que aconteceu contigo? As vozes te pegaram, cara?

— Sebastian me--

O ventrue emitiu outro ruído para que ela se calasse.

— Deixa ela falar! — gritou o brujah com um soco direcionado à mesa de madeira nórdica, que foi segurado pelo Sheriff antes que alcançasse a mobília.

— Ah... Aí está um anarquista que todos conhecem. Violento e socialmente inepto.

O brujah buscou se acalmar para não prejudicar a própria facção.

— Karliah — disse Sebastian —, responda a pergunta do troglodita.

— Sebastian me seqüestrou, me deu cartas novas e sangue de bebês, e pagou meu aluguel; a Teia me chamou, outros vampiros me visitaram; e o Sheriff me trouxe pra cá. As vozes não me pegaram.

O brujah fez uma careta de estranhamento.

— Você tá diferente...

Ele a encarou por mais um momento intrigado com o porquê de a malkaviana não tê-lo reconhecido, até que o Sheriff o empurrou para fora da cobertura e fechou a porta atrás de si deixando o ventrue e a malkaviana sozinhos.

— Você não mentiu quando disse que não era anarquista.

— Não sou.

— No entanto, o brujah poderia jurar de pé junto que você é, e eu também não acho que ele estivesse mentindo.

Karliah continuou olhando para ele sem muita emoção. Sebastian deu de ombros levemente.

— Isso significa que eu tenho alguns informantes incompetentes para apresentar à morte final. — E levantando-se acrescentou: — Enquanto isso, quero que descubra quando o arqueólogo trará o sarcófago para Los Angeles.

Karliah se levantou e foi para a suíte pegar um de seus baralhos. Sebastian a acompanhou. Ela embaralhou e tirou algumas cartas sobre a cama.

— Quando as flores se abrirem.

— Primavera?

— Sim.

— Ano que vem, então. Quando, especificamente?

— Na primeira noite de super lua.

— Muito bem. Como você está se sentindo?

— Bem.

— Conseguiria me acompanhar à ópera?

— Não tenho roupa.

Sebastian sorriu.

— Isso nunca será um problema. Mandarei trazer alguns modelos e você escolhe.

Ele ia sair, mas voltou-se para ela.

— Como vai ser nossa noite hoje?

Ela embaralhou tudo e tirou mais algumas cartas.

— Violência.

Sebastian arregalou os olhos por um momento e recuperou a compostura em seguida.

— Por quê? Afinal é apenas um evento de networking com outros ventrue e alguns toreadores.

— Não é com eles.

— É com quem?

Karliah tirou mais uma carta.

— Sabbat.

Sebastian engoliu em seco sem deixar seu desconforto transparecer mais do que isso.

— Eles vão atacar a ópera? Mesmo sendo quem são, não sairiam com vida.

Karliah tirou outra carta.

— Não. O carro.

— Por quê?

Ela tirou mais uma carta.

— Por minha causa.

Sebastian a encarou sério por um instante.

— Clientes seus?

— Não, mas a mando de clientes meus.

— Porque você sabe demais?

Ela não precisou tirar nenhuma carta para responder.

— Sim.

— Se eles vão atacar o carro, então sabem que você estará comigo, e sabem qual o momento em que estaremos na rua e para aonde vamos, o que significa que temos um vazamento. Possivelmente neste prédio. — E olhando para Karliah: — Certo?

Ela embaralhou e tirou uma carta.

— Certo.

— Quem?

Tirou outra carta.

— Um dos vigias é um ghoul dos Sabbat.

— Qual deles?

Ela puxou outra carta.

— O que abandonou a família.

— Muito bem, vou cuidar disso e mandar trazer os vestidos. Você trate de se arrumar.

Sebastian saiu da suíte e trancou a porta. Ligou para a secretária, mandou trazer os modelos que ele já havia separado e contratar uma equipe de segurança da Camarilla. Chamou o Sheriff e mandou que ele extraísse o máximo de informação do ghoul antes de matá-lo. Chamou um outro vigia e mandou que preparasse o carro blindado em vez da limousine.

Aproveitou esse meio-tempo para se limpar dos resíduos das últimas horas e arrumar-se para a ópera. Quando terminou, pegou os vestidos que a secretária deixara na sala juntamente com os sapatos e jóias e levou para a suíte. Karliah havia tomado banho e estava enrolada na toalha sentada na cama aguardando. O cabelo e a maquiagem já estavam prontos. Sebastian dispôs tudo sobre a cama e ordenou que ela escolhesse um.

Karliah examinou cada um dos 5 vestidos e optou pelo rosa que sempre valorizou sua pele, mesmo depois de morta. Sebastian sorriu porque era o modelo que ele tinha mais gostado também. Sem nenhum pudor, ela jogou a toalha sobre a poltrona e começou a se vestir. Sebastian constatou que, se fosse vivo, talvez sentisse algo por ela, mas tinha certeza de que não seria algo muito profundo. Suas paixões em vida nunca foram avassaladoras, na verdade eram bem mornas, todas facilmente esquecíveis.

A malkaviana terminou de se arrumar e pegou as jóias correspondentes ao vestido que escolhera. Sebastian aproximou-se a passos largos.

— Deixe-me ajudá-la com isso.

O ventrue colocou o colar e as pulseiras nela. A Karliah coube apenas colocar os brincos e o anel. Quando terminou, Sebastian deu alguns passos para trás e pediu que ela desse uma volta.

— Confesso que você é uma visão encantadora, mademoiselle. Deve ter tido muitos pretendentes em vida, não?

— Só uns magos.

— Tremere?

— Aurora Dourada.

— Hum... Não reconheço o nome.

Karliah deu de ombros.

— Enfim. Vamos à ópera — disse Sebastian oferecendo o braço a ela.

🦇🦇🦇

Saíram da garagem do prédio sentados no banco de trás. Além do motorista, estavam acompanhados por um segurança no banco do carona e mais quatro num outro carro que seguia atrás.

Até metade do caminho, tudo transcorreu normalmente. Mas quando tiveram que diminuir num trecho em que o trânsito se densificava, Karliah soltou um gemido de dor. Sebastian olhou para ela.

— O que foi?

— Eles estão por perto.

Sebastian mandou o segurança ficar em alerta. O funcionário avisou aos demais no outro carro pelo rádio. Karliah ficou ofegante e se encolheu no chão do carro tapando os ouvidos. Sebastian tentou puxá-la de volta, mas imediatamente juntou-se a ela quando os tiros começaram.

Uma profusão de gritos, buzinas e batidas soou do exterior quando os ocupantes dos veículos ao redor entraram em pânico tentando escapar do tiroteio.

Os seguranças do outro carro abateram todos os atiradores que vinham da pista contrária e o tiroteio cessou por uns instantes. Ao fundo só ecoavam os gritos humanos.

Um dos seguranças chamou no rádio perguntando como estavam todos. O segurança que estava no carona respondeu que estavam todos vivos.

Sebastian levantou-se tentando olhar para fora, mas as marcas de tiro nos vidros obstruíam a visão.

— Levante-se, Karliah, acabou.

A malkaviana gemia ainda tapando os ouvidos enquanto se balançava para frente e para trás compulsivamente.

Um projétil atravessou a parte mais danificada da janela traseira e acertou a cabeça do segurança que estava no carona. Por pouco não pegou no ventrue. Sebastian deitou-se no banco. O motorista acelerou, mas um segundo projétil o acertou e o carro bateu. Sebastian esticou-se por entre os bancos da frente e pegou o rádio do segurança falecido.

— Façam alguma coisa!

— É um sniper.

— Achem ele! — ordenou.

Os quatro saíram do carro e seguiram protegendo-se na frente dos outros veículos. Vez ou outra atiravam aleatoriamente na direção de onde vieram os tiros, mas não acertavam nada. As pessoas continuavam gritando, mas não tentavam mais sair dos carros, protegiam-se encolhidas no chão.

Um a um, todos os seguranças foram abatidos.

— Temos que sair daqui — disse Sebastian.

— Não.

— Como não? Eles vão vir atrás de nós.

Ela colocou o indicador sobre a boca num gesto de silêncio. Apesar da tensão, Sebastian decidiu acreditar nela.

Barulhos de pneu cantando ecoaram da pista contrária e aumentaram conforme se aproximavam. Os dois permaneceram encolhidos no veículo. O único ferido era o ego do ventrue que mentalmente jurava os Sabbat de morte.

O furgão veio pela pista contrária e deu uma freada brusca fazendo-o parar um pouco depois do carro de trás. Ruídos de passos pulando a divisão de concreto e se aproximando quase fizeram o ventrue entrar em frenesi, mas ele conseguiu se controlar quando a mão fria de Karliah segurou fortemente a dele. Com a outra mão, ela pegou o rádio e, com um gesto, mandou-o tapar os ouvidos. Pela primeira vez em sua não-vida, Sebastian obedeceu alguém que não era do Conselho, e usou sua fortitude para resistir à malkaviana.

Karliah balbuciou várias vezes um mantra numa língua desconhecida. Um dos atacantes abriu a porta do carro de trás, pegou o rádio e aumentou o volume para ouvir melhor.

Todos os sabbatianos que ouviram o mantra gritaram de horror. Um deles tentou arrancar os próprios ouvidos com tanta força que acabou acertando o cérebro e morrendo com as garras presas no crânio. O outro pegou duas facas e perfurou os dois tímpanos morrendo no processo. Um terceiro enfiou o cano do fuzil no ouvido fazendo a arma atravessar a cabeça. O quarto simplesmente usou uma pistola para atirar contra si mesmo.

Os dois sabbatianos mais afastados alvejaram o carro de trás e destruíram o rádio. Aproximaram-se lentamente, tentando não fazer barulho.

Ao longe, o ronco de várias motocicletas ficava mais alto conforme se aproximavam pela pista contrária.

— Merda, são os Anarquistas — reclamou um.

— Vamo embora — comentou o outro.

— A gente ainda não terminou aqui.

— Tu quer arriscar botar a gente em guerra com os anarques?

— E a gente já num tá?

— Eu tô indo.

— É melhor a gente não voltar de mão abanando não.

O outro teve uma idéia.

— Talvez sim. Descarrega essa merda toda neles e vamo embora.

Os dois alvejaram o veículo onde o ventrue e a malkaviana estavam, esvaziando todos os pentes de todas as armas. Fugiram da estrada segundos antes dos anarquistas pararem ao lado do carro na outra pista.

— Malditos sabbatianos — resmungou Jack Sorridente.

— Vamos atrás deles? — perguntou Miguelito Pirulito.

— Não. Depois a gente pega esses desgraçados.

— Sobrou alguém?

— Não sei.

— Eu vou ver — disse Damsel descendo da moto.

— Espera aí — falou Jack.

— Tem que ver se ela tá aí — reclamou Damsel.

— Aposto que aquele ventrue empinadinho armou isso pra matar ela — disse Miguelito Pirulito.

— Não sei se ele ia descer a esse nível — comentou Rodriguez. — É um desgraçado, mas fazer acordo com a Sabbat é baixo até pra ele.

Karliah se levantou devagar, mas não era possível ver direito com os vidros trincados. Ela tentou abrir a porta, mas estava emperrada. Sebastian tomou a frente para abrir e, ao mesmo tempo que empurrou, uma outra mão puxou pelo lado de fora.

— Nines Rodriguez — disse o ventrue.

— Sebastian LaCroix.

Os dois se encararam por alguns minutos. Ambos se controlando para não prejudicar a Máscara. O anarquista pronto para estraçalhar o ventrue ao mínimo movimento, e o camarilliano pronto para subjugar o brujah ao menor sinal de hostilidade.

— Eu quero sair — disse Karliah quebrando a tensão.

Rodriguez afastou-se do carro, mas sem tirar os olhos de Sebastian, que desceu também o encarando, e deu a mão à Karliah para ajudá-la a sair.

Quando a malkaviana desceu, Jack deu um assobio lisonjeiro e olhou de relance para Rodriguez.

— Você tá bem? — perguntou Nines enquanto a olhava de cima a baixo.

— Sim — respondeu a malkaviana com indiferença.

— Você sumiu — continuou ele.

— Não — respondeu ela sem entender.

— Viu? — falou Miguelito. — Eu disse que ela tava estranha!

— O que você fez com ela, ventrue? — perguntou Nines.

Sebastian deu um suspiro de deboche e sorriu com desprezo.

— Não fiz nada.

— Você seqüestrou ela.

— Pela definição original da palavra, sim. Mas além disso, não fiz nada.

— Sorte sua que tem esse gado todo aqui! — disse Miguelito. — Senão a gente ia arrebentar a sua cara.

— Miguelito — repreendeu Nines. E para Karliah: — Vem, vamos embora.

— Não.

Todos os anarquistas olharam para a malkaviana como se ela tivesse acabado de falar em um idioma de outro mundo. Sebastian sorriu.

— O que ele fez com você? — perguntou Nines.

— Me levou pra cobertura, me deu muitos oráculos, sangue de bebê, este vestido, estes sapatos e estas jóias. Agora tá me levando pra ópera.

Sebastian encarou Nines com um sorriso triunfante.

— Foi por isso, então, que você largou a gente? — perguntou Nines indignado.

— "A gente"? — comentou Jack com um sorriso malicioso.

Nines encarou o ancião com um olhar irritado e logo voltou-se para a malkaviana aguardando pela resposta.

— Não entendi — respondeu ela.

— Você abandonou a gente, os anarquistas, por causa disso? De jóias?

— Eu não sou anarquista. Nunca fui.

Nines soltou um gemido de indignação como se ela tivesse dado um tapa nele. Jack deixou um assobio de espanto escapar. Damsel resmungou alguma coisa incompreensível.

— Viu? Eu falei! — disse Miguelito.

Ao longe, sirenes anunciaram a polícia.

— Vamos embora, pessoal — disse Damsel já ligando a moto.

Nines deu um passo em direção a Sebastian e ergueu o dedo indicador para o ventrue.

— Escuta aqui, isso ainda não acabou. Eu vou descobrir o que você fez com ela e vai ser o fim do seu reinado aqui.

Sebastian devolveu a ameaça com o seu melhor semblante de superioridade.

— Guarde seu dedo onde o sol não toca, Rodriguez, se não quiser amanhecer como um dos monstros da Sabbat.

— Vamo embora, Nines — disse Jack. — Depois vocês trocam declarações de amor.

Nines deu uma última olhada em Karliah antes de pular a divisão de concreto, ligar a moto e sumir no horizonte junto com os outros.

Sebastian orientou a malkaviana a fingir nervosismo aos policiais e dizer que era uma gangue criminosa, mas ela preferiu simplesmente ficar catatônica e não dizer nada. Os policiais pegaram o depoimento do ventrue, anotaram as placas, tiraram fotos e cercaram o local. Sebastian persuadiu um deles a escoltarem-nos até a ópera.

Chegaram atrasados, todos já estavam assistindo à apresentação. As únicas cadeiras disponíveis eram duas na fileira da frente, onde seriam vistos chegando tarde. Mesmo assim, Sebastian ergueu o rosto e seguiu com Karliah até alcançarem seus assentos. Ele sabia que os outros vampiros iriam retaliar de alguma forma o seu atraso. Aproveitou o momento para se acalmar e juntar paciência.

🦇🦇🦇

No salão, garçons perambulavam entregando taças com sangue. Alguns ventrue cheiravam e não bebiam, aceitavam apenas por educação. Sebastian tomou um gole para experimentar.

— Argh. Moças jovens. Todas elas têm o mesmo sabor insosso — reclamou ele.

Karliah bebeu o conteúdo todo da sua taça de uma vez.

— Saudável.

Sebastian sorriu.

— De fato. Nenhum ventrue jamais serviria sangue dos miseráveis.

Quando outro garçom passou por eles, Karliah pegou outra taça e bebeu de uma vez.

— Devagar — disse Sebastian. — Eles são todos muito preocupados com as aparências.

— Ninguém veio falar com você.

— Estão me ignorando por ter chegado atrasado. Acham que eu os insultei.

— A gente tava tomando tiro.

— Eles não sabem.

— Conta pra eles, então.

— Não. Eles descobrirão em breve.

— Vá conversar com alguém então.

— Prefiro caminhar sob o sol do que me humilhar para essa gente.

— Por que veio então?

— Porque seria pior não ter vindo.

— Quer ajuda?

Ele a encarou com mais cuidado.

— Ajuda com o quê?

— Tem uma toreadora atrás do busto grego, com um vestido amarelo, que adoraria vir aqui conversar com você, mas acredita que eu sou o seu par. Ela acha você uma obra de arte no meio do deserto dessa reunião.

Sebastian sorriu.

— Não é muito diferente da minha vida anterior. Mas eu não quero que você se afaste de mim.

— Então vamos andando de fininho até lá. Eu nunca vi essas coisas — disse ela se referindo aos quadros e esculturas que estavam dispostos pelo salão.

Sebastian deu o braço a ela e os dois fingiram apreciar as obras uma por uma até chegarem perto do busto atrás do qual se encontrava a toreadora.

— Que interessante — disse Karliah no tom de voz mais monótono do mundo. — Você sabe quem é o artista, senhor LaCroix?

— Sinto muito, mademoiselle — respondeu Sebastian entrando no clima —, mas desconheço. Não sou versado em arte grega. Prefiro os franceses, se me permite uma confidência.

— Jamais teria imaginado, senhor — comentou Karliah com seu tom mais robótico. — Achei que preferisse os italianos.

Sem querer, Sebastian emitiu um ruído de desprezo pensando nos Giovanni.

— Com licença — disse a toreadora saindo de trás do busto —, se me permitem, é de Alkamenes de Atenas, esculpido no século 5 antes da Era Comum. Na verdade esta não é a original e sim uma cópia de algum escultor da antiga cidade de Pérgamo, onde hoje é a Turquia.

— Oh, que fascinante — comentou Sebastian. — Agradeço muito sua colaboração, madame...?

— Sara Mendez. Mademoiselle, por favor, monsieur.

— Pois não, mademoiselle — disse Sebastian.

A toreadora olhou para Karliah e sorriu. A malkaviana a encarou com seu semblante desprovido de vida.

— E sua acompanhante, tem nome?

— Karliah Karmen, minha cartomante.

A toreadora deixou um gemido de espanto escapar.

— Como nos velhos tempos — comentou ela.

— Tempos que nunca se foram, se os passarinhos estiverem corretos.

Sara sorriu maliciosamente.

— É verdade, monsieur LaCroix. No entanto, podemos concordar que nem todos os ocultistas são tão adoráveis assim.

— Foi o que ouvi dizer. De vez em quando o universo sorri para nós e encontramos um espécime funcional.

— Cuidado com ela, monsieur. Alguém pode querer seqüestrá-la.

Sebastian deu uma risada.

— E não apenas isso, mademoiselle.

— Suponho que alguma seita já ousou se mexer?

— A Sabbat nos atacou na estrada hoje.

A toreadora se espantou e olhou ao redor rapidamente procurando quais seriam os alvos daquela fofoca quentíssima, em seguida voltou-se para os dois.

— Sinto muitíssimo! Deve ter sido uma experiência horrível! Como conseguiram escapar?

— Karliah é muito habilidosa. Mesmo assim, quatro ainda conseguiram fugir.

— Vocês os viram?

— Não. Não conseguimos ver nada com os vidros trincados.

— Achá-los e executá-los seria um ótimo recado para a Sabbat.

— É verdade, mademoiselle. Deixo isso para quem tiver interesse.

— E você não quer mostrar para a Sabbat do que é capaz?

— Tenho outros planos em outro lugar no momento.

Ela ficou em silêncio o encarando por alguns instantes tentando decifrá-lo.

— Pretende sair de Los Angeles, monsieur?

— De jeito nenhum.

— Mas a Sabbat lhe atacou no seu território, e você não vai fazer nada?

— A oportunidade aparecerá no momento certo.

— Ou você irá fabricá-la — disse a toreadora olhando para Karliah.

— Ou... Ou... Ou... Tantas possibilidades, mademoiselle, que no momento estou brincando com a roleta russa do destino.

Sara sorriu educadamente e pediu licença se retirando.

— Ela vai contar pra todo mundo em troca de favores — disse Karliah.

— Não preciso ser médium para saber disso, mademoiselle.

— E não foram quatro, foram dois que fugiram.

— Eu sei.

— Por que você fez isso?

— Quero testar uma hipótese. Venha.

Os dois circularam pelo salão mais um pouco enquanto Karliah pegava uma taça de sangue de cada garçom que passava por ela, bebia tudo de uma vez e entregava ao garçom seguinte.

— Identifique todos que são mais simpáticos e antipáticos a mim — disse Sebastian.

Karliah fez uma lista de todos. Sebastian escolheu apenas as vampiras, tanto toreadoras como ventrue. Aproximou-se delas como Karliah sugeriu, da mesma maneira despretenciosa com que fizeram com Sara. Sebastian propositalmente deixou escapar que foram atacados pela Sabbat, mas a cada uma deu um detalhe inverídico diferente.

— E a sua cartomante não previu o ataque? — perguntou a última ventrue em quem eles chegaram.

— Eu não esperava um ataque, então por um lapso meu, não ordenei que ela investigasse o futuro sobre isso — mentiu Sebastian.

— E ela não pensou em fazer uma previsão geral? — perguntou olhando para Karliah.

Sebastian se retesou um pouco percebendo que Catarina Dubanowska não seria tão fácil de enganar como as outras, mesmo que fosse mais simpática a ele. A anciã, como a maioria dos vampiros, não aparentava sua idade. Vinha de uma família de nobres polacos e fora abraçada ainda na flor da idade, antes que tivesse filhos. Como seu irmão mais velho já havia dado três herdeiros para a família, o patriarca não viu necessidade de desperdiçar a beleza e a pureza de sua filha com algum dos pretendentes das outras famílias que, em sua opinião, eram a escória decadente da nobreza polaca. No entanto, ao contrário dos desejos do pai, Catarina sempre sonhou em casar formalmente e constituir família. Amaldiçoou-o quando entendeu o que ele havia lhe causado, mas não deixou que ele soubesse o ela sentia. Por isso, vivia procurando um príncipe encantado com quem pudesse governar alguma parte do mundo bem longe das garras de seu pai controlador, e vira em Sebastian LaCroix uma chance perfeita. Era bonito, um ventrue assim como ela, que já era Príncipe, que governava uma cidade bem longe de seu país de origem, e que não era um ancião, coisa que deixaria seu pai furioso, o que a fazia sentir prazer só de imaginar o velho segurando-se para não entrar em frenesi. Ela sabia que seu pai tentaria sabotar a união quando descobrisse, mas estava preparada para isso. Seu plano era muito mais mirabolante do que sua família poderia imaginar.

Sebastian relaxou um pouco quando percebeu que Karliah continuava com seu semblante de morta-vida e não responderia a pergunta.

— Ela só faz o que eu ordeno. O erro foi meu e paguei por isso.

Catarina o encarou com um meio-sorriso estudando-o.

— Muito corajoso de sua parte, monsieur, assumir uma fraqueza de intelecto.

Sebastian deu um rápido sorriso de irritação com o insulto embrulhado no elogio, mas evitou revidar.

— Às vezes estendo minha cordialidade a seres que merecem apenas o meu desprezo.

Catarina ficou um pouco desapontada com a resposta, pois esperava que Sebastian fosse mais impositivo, uma característica que seria crucial no seu noivo, considerando o pai que ela tinha.

— Me despeço aqui, monsieur LaCroix, que vocês dois tenham um fim de noite melhor que o começo.

— Igualmente, mademoiselle.

Assim que Catarina desapareceu no meio dos outros convidados, Karliah levou Sebastian para um canto vazio do salão.

— Ela quer você.

— Quem não quer, mademoiselle.

— Ela quer casar com você.

Sebastian deu uma risada.

— Não sei há quanto tempo você foi abraçada, mas saiba que nós, vampiros, não fazemos isso.

— Ela deseja muito isso, consegui sentir. Você era um pretendente bom, mas afrouxou e ela não gostou.

Sebastian a encarou com desdém.

— Afrouxei?

— Sim, ela quer alguém que tenha coragem de enfrentá-la.

— Por que uma ventrue ia querer isso?

— Porque ela tem medo de alguém que controla ela.

— Alguém que controla uma anciã... — comentou Sebastian para si mesmo com mais interesse.

O ventrue considerou a situação por um instante e decidiu que não havia mais nada a ser feito na festa para consertar a má impressão, mas poderia fazer isso longe dos olhos e ouvidos dos demais vampiros num momento mais propício.

Como já estava quase amanhecendo, um anfitrião ventrue fez um discurso sobre a nobreza de caráter dos convidados, sobre a importância da Camarilla e a manutenção da Máscara, desejou que todos ali tivessem se divertido e usufruído das conexões e despediu-se liberando todos os convidados para irem embora.

🦇🦇🦇

De volta à sua cobertura, Sebastian aproveitou para tomar um pouco de sangue, já que não havia consumido nada na festa e ofereceu para Karliah que recusou.

— Quero que você descubra tudo sobre Catarina Dubasnowska. Todos os problemas atuais que ela tem, e quem é que a controla e por quê.

Karliah assentiu como um robô jogada no sofá com os pés sobre a mesinha de centro.

— Sente-se direito.

— Quer que eu bote as cartas agora?

— Depois. Está quase amanhecendo, vamos dormir.

A malkaviana foi para a suíte. O telefone tocou e a secretária avisou que os anarquistas haviam ligado para convidar o ventrue e a cartomante para um encontro no Vesuvius, território elysium comandado por Velvet Velour.

— Qual o motivo?

— Eles não disseram, senhor.

— Amanhã eu decido isso. Está dispensada, Denise.

Sebastian desligou e massageou as têmporas já irritado com a facção inimiga. Mas como os primeiros raios de sol já se projetavam pelas frestas da cortina, ele decidiu ir dormir e resolver isso depois.

Capítulo 4: Nove é a linguagem do amor

Capítulo 4:
Nove é a linguagem do amor

Assim que o Sol se pôs, Sebastian mandou a secretária marcar o encontro no Vesuvius o quanto antes. Os anarquistas escolheram aquela mesma noite e ele concordou. No horário marcado, ele, Karliah e o Sheriff chegaram à boate e foram levados por uma das dançarinas até o segundo andar a uma suíte privativa onde Velvet Velour e quatro anarquistas aguardavam.

Sebastian aproximou-se da toreadora, segurou sua mão e a cumprimentou.

— Belíssima como sempre me lembro, Madame Velour.

— Galante como sempre, monsieur LaCroix. Espero que as acomodações sejam do seu agrado.

— Melhor impossível, Madame.

Velvet aproximou-se de Karliah e a encarou dos pés à cabeça.

— Então essa é a cartomante que todos falam. É um prazer conhecê-la.

— O prazer é meu, Susan — respondeu a malkaviana no seu tom de voz robótico.

A toreadora se retesou como se tivesse sentido um calafrio na espinha. Seu rosto antes relaxado, contraiu-se num pesar profundo. Quase num sussurro, ela disse:

— Só existe uma parte do meu corpo em que eu não quero que ninguém entre, e essa parte é a minha cabeça. Esse outro nome... Nunca mais o repita. Ele pertence a uma jovem que morreu há muito tempo.

Diante do clima pesado, Sebastian tomou a frente.

— Peço desculpas pelos maus modos da minha cartomante, Madame. Apesar da severidade do ato dela, peço que acredite que não foi de propósito. Ela faz coisas assim de vez em quando.

Velvet sorriu tranqüilizando a todos e sentou-se numa poltrona mais afastada. A dançarina sentou-se no braço da poltrona ao seu lado.

— Já encontrei alguns malkavianos na minha não-vida. Sei que a mente deles é peculiar. Não se preocupe, monsieur LaCroix, eu não fiquei ofendida. Fiquem à vontade para tratarem de seus negócios. Não vamos interromper.

Sebastian sentou-se no sofá rosa em formato de boca de frente para os anarquistas no outro sofá. Karliah sentou-se ao lado dele. O Sheriff ficou de pé ao lado do Príncipe.

— E então, do que se trata isso? — perguntou o ventrue. — Da última vez que seu lacaio marcou uma visita, eu fui acusado de seqüestro.

— Você já confirmou o seqüestro — disse Nines Rodriguez.

— Sim, mas as circunstâncias mudaram agora.

Karliah o encarou intrigada.

— Posso ir embora?

— Não. Você ainda é minha convidada.

— Seqüestro, cárcere privado e trabalho escravo de uma integrante dos anarquistas — continuou Rodriguez. — Isso fica cada vez melhor.

— Não sou anarquista — disse Karliah num tom sereno, como se recitasse uma lista de mercado.

Sebastian encarou os vampiros com um sorriso de superioridade.

— Isso tudo é muito esquisito — comentou Miguelito Pirulito.

Nines assentiu.

— Foi por isso mesmo que eu trouxe alguém que entende dessas coisas. — E olhando para o ventrue: — Quero saber o que você fez com ela.

— De novo isso? Eu não fiz nada com ela. Se minha cartomante diz que nunca fez parte dos anarquistas, eu não tenho motivos para desconfiar. — E olhando para Karliah: — Tenho?

— Não. Eu nunca fui anarquista.

Nines bufou irritado e um tanto ofendido.

— Vamos acabar logo com isso — disse ele. E para a vampira que os acompanhava: — Yveline, faça a sua mágica.

A tremere levantou-se e caminhou cuidadosamente até a malkaviana como se esperasse que ela fosse dar o bote, mas Karliah simplesmente continuou sentada como uma boneca de pano que fora escorada num canto.

A vampira esticou as duas mãos para tocar a cabeça da malkaviana, mas parou no meio do caminho.

— Posso? — perguntou a tremere.

— Pode — respondeu a malkaviana.

— O que você vai fazer? — perguntou Sebastian.

— Vasculhar as memórias dela para verificar sua integridade.

Sebastian deu uma risada nervosa.

— Você não vai mexer nas memórias dela de jeito nenhum.

— Não me interessa os seus segredos, ventrue. — E olhando para Karliah: — Eu preciso apenas que ela se concentre no Rodriguez e não pense em mais nada.

Karliah murmurou um consentimento e encarou o brujah. Nines também a encarava, mas com apreensão. Balançava as pernas e tamborilava os joelhos tentando se acalmar.

A tremere segurou a cabeça dela gentilmente e começou a separar as energias que sentia. O que era a própria malkaviana, do que era Sebastian e todos que Karliah conhecera a fim de procurar a energia de Nines.

Conforme o tempo passava, Nines já havia tamborilado todas as músicas que conhecia; Miguelito já estava com os dedos sangrando de tanto cutucar o canto das unhas; e Jack fora para a janela fumar. Velvet e a dançarina observavam tudo com interesse.

— Alguma coisa? — perguntou Rodriguez já sem se agüentar.

— Tem algo errado...

— Eu sabia! — disse Miguelito.

A tremere pediu silêncio com um chiado e se concentrou buscando por uma evidência física das memórias de Nines no cérebro da malkaviana.

Depois de alguns minutos, ela soltou Karliah com um gemido alto, quase como um grito e deu vários passos para trás.

— O que você fez, cartomante? — perguntou a tremere mais para si mesma como uma exclamação do que uma pergunta de fato.

Nines e Miguelito se levantaram num pulo.

— Não entendi — respondeu Karliah.

— Quem fez o quê? — perguntou Nines.

Yveline pensou por uns instantes em como iria explicar o que descobriu.

— Há um rastro muito suave de você na mente dela — disse a tremere para Rodriguez. — Começa mais forte, de ontem, quando vocês se encontraram na estrada, e depois fica muito suave como um aroma longínquo que termina de repente.

— O que isso significa? Que apagaram as memórias que ela tinha de mim?

— Isso.

— Eu sabia que ele tinha feito alguma coisa! — disse Miguelito avançando para Sebastian.

O Sheriff deu dois passos para a frente e esticou a enorme mão freando o brujah inconseqüente.

— Eu concordei com esse encontro na minha boate porque vocês prometeram que não haveria confusão — disse Velvet com sua polidez sensual.

— Miguelito — chamou Rodriguez enquanto puxava o brujah para perto de si. — Aqui não. Agora não.

O brujah sentou-se respirando ofegante e rangendo os dentes. Jack continuava fumando na janela como se não estivesse prestando atenção a nada.

Nines deu alguns passos até o meio da suíte e encarou Sebastian.

— O que você fez...

Sebastian revirou os olhos irritado e ia puxar o ar para reclamar quando Yveline disse:

— Não foi o ventrue.

— E quem foi? — perguntou Nines.

— Encontrei algumas manchas perto do vazio onde ficavam essas memórias. Estudei um pouco do trabalho dele há muitos anos. Branimir Dragoslav.

— Nunca ouvi falar — disse Rodriguez.

— Só quem estuda mais a fundo conhece. O restante nunca ouviu mesmo.

— E quem é ele? — insistiu Rodriguez.

— É um tzimisce da Sabbat especializado em operações cerebrais.

Todos se entreolharam com os olhos arregalados. Até Jack parou de fumar e se aproximou.

— Então foi ele que apagou a memória dela? — perguntou Rodriguez.

— Não só isso. As memórias ficam gravadas fisicamente no cérebro. Quando um de nós apaga a memória de um humano, a gente não apaga de fato como se tivesse passado uma borracha. Na verdade a gente esconde essa memória da parte consciente do cérebro. A memória ainda está lá, só que escondida. No caso da malkaviana, as memórias dela foram literalmente arrancadas. O tzimisce arrancou um pedaço do cerebro dela. Não há nada que ninguém possa fazer pra recuperar essas memórias. Não tem mais nada lá, só um vazio.

Bem lentamente, os olhos de Nines deslizaram para Karliah com uma hesitação que beirava o medo. Quando o olhar dos dois se encontrou e ele conseguiu ver pela primeira vez que ela estava, de fato, vazia, seus olhos se tornaram vermelhos com as lágrimas de sangue que brotaram de sua besta interior ao se dar conta do que ele perdera.

— Foi tudo perdido? — perguntou ele à tremere, mas sem tirar os olhos da malkaviana. — Tudo?

— Sim. A única presença sua na cabeça dela é a ausência.

— Por que a Sabbat faria isso e depois deixaria ela solta? — perguntou Rodriguez. — Não faz sentido seqüestrar ela só pra isso.

— Não foi à força, Rodriguez — disse a tremere. — A remoção foi limpa, nada mais foi afetado, e o corte no crânio é quase imperceptível. Isso foi uma cirurgia voluntária. Ela escolheu passar por isso.

— Você deixou um maldito sabbatiano arrancar um pedaço da sua cabeça? — comentou Jack com uma risada espantada. — Você realmente é louca, mocinha.

— Por que você fez isso, Kaly? — perguntou Nines deixando o apelido escapar na frente de todos.

— Não sei — respondeu do seu jeito mecanizado.

— Então quer dizer que minha cartomante, do ponto de vista dela, não estava mentindo e nem os baderneiros — comentou Sebastian. — Só nos resta saber o motivo.

— Não é óbvio? — perguntou Velvet.

Todos voltaram suas cabeças para a toreadora. Ela continuou com sua voz melosa:

— O anarquista partiu o coração da cartomante. Ela não resistiu, afinal, quem resistiria perder um homem desses, não é? E então, numa dor agonizante e infindável, ela submergiu aos confins infernais do nosso mundo e vendeu a alma ao demônio em troca de um alívio para o sofrimento. Agora, o que um brujah fez para partir o coração de uma malkaviana está além das minhas capacidades imaginativas. Talvez ele queira compartilhar conosco?

Nines encarou o chão relembrando num segundo tudo o que ele e a malkaviana viveram e em que momento tudo começou a desmoronar.

Diante do silêncio de Nines, Sebastian disse:

— Você já conseguiu a informação que queria, Rodriguez, agora é a sua vez de compartilhar uma informação que queremos.

— No início era tudo incrível — começou Nines enquanto se sentava de volta no sofá. — A gente se dava muito bem. Mas depois de um tempo a gente começou a se desentender e nos afastamos. Eu não procurei por ela porque achei que ela quisesse um tempo pra pensar. Nunca imaginei que ela pudesse fazer uma coisa dessas — concluiu com meias-verdades.

— A história é um pouco mais profunda que isso, não? — perguntou Velvet.

— E não é da conta de ninguém — retrucou Nines num tom ameaçador.

A toreadora sorriu e não insistiu.

— Bom, já que esclarecemos tudo, está na hora de partirmos — disse Sebastian se levantando. — Agradeço à nossa ilustríssima anfitriã pelo encontro e me despeço de todos. Vamos, Karliah.

— Você ainda mantém ela como prisioneira — disse Nines se levantando também.

— Convidada permanente — corrigiu Sebastian. — Mesmo que fosse minha prisioneira, você faria o quê, Rodriguez? Entraria em guerra comigo e a Camarilla colocando a Máscara em risco? E por quem? Por uma cartomante que você desprezou?

Nines soltou um suspiro de raiva e escárnio ao mesmo tempo.

— Eu nunca desprezei ela. De tudo o que eu fiz, desprezo nunca esteve na minha lista.

— Então você fez alguma coisa que desencadeou esse absurdo, não foi só Karliah se afastando e precisando de um tempo para pensar.

— E o que isso te importa?

— Me importa muitíssimo, anarquista. O que quer que você tenha feito levou minha cartomante a fazer sabe-se lá que tipo de acordo com um sabbatiano para mutilar uma parte do corpo dela. Não sei o que mais pode ter acontecido e quais serão as conseqüências de tudo isso para mim no futuro.

Nines deu uma risada de deboche.

— É sempre assim com vocês, ventrue, né? Sempre pensando em vocês primeiro.

— E não foi isso que você fez a ponto de provocar Karliah a arrancá-lo da vida dela?

Nines levantou o dedo indicador para Sebastian.

— Você não sabe de nada, LaCroix. Nunca mais abra sua boca pra inventar nada sobre a gente.

— Eu já falei o que você deveria fazer com esse dedo, brujah. Sheriff--

— Cavalheiros — disse Velvet interrompendo e se aproximando dos dois —, se vão duelar pela donzela, façam isso lá na rua.

— Ninguém aqui vai duelar — disse Sebastian. — Minha cartomante e os eventos desta noite deixaram claro que ela não é mais uma anarquista e que obviamente não tem mais interesse em fazer parte da sua facção. Vocês dois não são mais um casal, eu cuido dela agora, então não há motivos para que vocês tentem tirá-la de mim.

— Meus clientes... — comentou Karliah.

— Eu sou seu cliente agora. Único e permanente, mademoiselle. Agora vamos. Não temos mais nada para fazer aqui.

Sebastian pegou a malkaviana pelo braço e seguiram para a porta acompanhados pelo Sheriff. Antes que saíssem, Nines chamou e a malkaviana virou-se para olhá-lo. Ele disse:

— Olhe nos meus olhos e me diga que você não sente nada. Que não sobrou nada da gente aí.

— Não sinto nada. Não sobrou nada — respondeu ela olhando-o nos olhos.

Nines deu um gemido discreto de dor. Sebastian sorriu.

— Acho que isso encerra de vez o assunto.

Nines o ignorou.

— Eu não desisti de você, Karliah.

— Tenha uma bela noite, Madame Velour — disse Sebastian abrindo a porta e agindo como se os anarquistas não estivessem ali.

— A gente vai dar certo — continuou Nines.

Sebastian empurrou Karliah para fora e saiu atrás dela.

— Eu ainda não sei como, mas a gente vai dar certo. Ouviu?

O Sheriff fechou a porta atrás deles, mas foi possível ouvir Karliah respondendo que sim.

🦇🦇🦇

De volta à cobertura, Sebastian mandou Karliah descobrir tudo sobre Catarina Dubanowska. Karliah botou as cartas e revelou sobre a relação com o pai e o desejo da anciã de contrariá-lo associando-se a algum ventrue que não fosse ancião, mas que já tivesse bastante poder.

— Fascinante — disse Sebastian. — Mas é claro que eu vou corrigir a primeira má impressão que deixei. Não será fácil enfrentar um ventrue ancião, pois existe uma enorme chance de que ele faça parte do Conselho, mas a recompensa vale a pena.

Ele foi para sua escrivaninha e mandou e-mails para seus agentes exterminarem os dois sabbatianos que os atacaram e todos os mandantes por trás do ataque.

— Você disse que não ia fazer nada — comentou Karliah.

Sebastian sorriu.

— Mudei de idéia. Quero que ela saiba que quando for do meu desejo, eu posso mudar de idéia. Isso mantém as coisas interessantes.

— Ela pode achar que você é volúvel.

— Ou imprevisível, o que seria uma boa característica considerando que o pai dela com certeza é mais tradicional.

No decorrer do mês, enquanto aguardava que os agentes concluíssem o trabalho, Sebastian aproveitou as habilidades da malkaviana para encontrar investimentos lucrativos e aumentar sua conta bancária e sua influência. Além disso, ela continuava insistindo para ter suas plantas e seu diário, e o ventrue dizia que estava resolvendo isso.

Sebastian patrocinou um filme que falava sobre família, comunidade, ordem e obediência e subornou os cinemas do estado para que tivessem mais sessões com esse filme do que com o filme indie dos anarquistas.

Averiguou que o arqueólogo Anders Johansen ainda estava ocupado no Egito escavando o sarcófago, e descobriu a identidade do crente que o vigiava. Um homem chamado Grünfeld Bach que pertencia à Sociedade de Leopoldo, uma facção dedicada ao extermínio de vampiros. Assim que viu uma foto dele, Sebastian lembrou que havia matado dois homens muito semelhantes e descobriu que eram o pai e o avô de Bach. Com a habilidade de Karliah, despachou mais alguns agentes para matar o crente antes que ele causasse problemas.

Um dia, a secretária avisou que um anarquista havia enviado um pacote para a cartomante. Sebastian mandou passar pelo raio-x por precaução e quando descobriram que era seguro, ele entregou para Karliah. Ela abriu e seu semblante permaneceu com o mesmo tédio de sempre.

— Deixe-me ver — disse Sebastian.

Era um anel feito amadoramente com alguns arames de cobre enrolados que prendiam um pequeno quartzo rosa bruto. O ventrue riu.

— Patético. — E levantou-se para jogar no lixo.

— Não. Eu quero ficar com ele.

Sebastian a encarou com desprezo, mas devolveu o embrulho.

— Se gosta de jóias, era só ter me falado. Não precisa usar essa sucata.

— Eu gostei — disse colocando no dedo anelar esquerdo e verificando que havia ficado largo, então mudou para o polegar que era mais grosso.

🦇🦇🦇

Na noite seguinte, o ventrue a chamou e apresentou uma toreadora vestida elegantemente com um tailleur vinho e uma maleta grande e aveludada da mesma cor. A vampira colocou a maleta sobre a mesa e abriu revelando três andares de prateleiras com dezenas de anéis preciosos.

— Escolha quantos você quiser — disse Sebastian recostando-se no sofá com um sorriso triunfante.

— Só tenho dez dedos.

— Dez dedos e quatro ocasiões principais: casual, gala, formal e executiva. Portanto, no mínimo, quarenta anéis — disse a toreadora com um sorriso incentivador.

Karliah olhou todos os anéis, um por um, com cuidado. Pegou um de ouro rosé com uma lua e estrela em safira rosa, experimentou e devolveu para a maleta.

— Tem algum anel do humor?

A toreadora deu um sorriso sem graça e olhou para Sebastian com um semblante de confusão como se a malkaviana tivesse falado em outro idioma e ele pudesse traduzir.

— O que é um anel do humor? — perguntou o ventrue.

— Ele muda de cor conforme o nosso humor.

O ventrue olhou inquisitivamente para a toreadora e ela sorriu sem jeito, como se tivesse cometido alguma gafe.

— Peço desculpas, mas infelizmente não trabalhamos com bijuterias.

— Não gostou de nenhum? — perguntou Sebastian.

A toreadora pegou novamente o de lua e estrela que ela havia experimentado e colocou no dedo da malkaviana.

— Combinou perfeitamente — disse a vendedora. — Parece que foi feito exclusivamente para a senhorita.

Karliah realmente havia gostado do anel, mas também queria muito um anel do humor. Encarou seu dedo por um longo tempo até que Sebastian quebrou o silêncio com o sorriso que usava para concluir negócios.

— Ela vai ficar com esse.

A toreadora sorriu satisfeita e colocou sobre a mesa uma caixinha de anel em veludo rosa com detalhes em dourado. Em seguida fechou sua maleta, cumprimentou Sebastian com um aperto de mão, os dois combinaram que ele faria a transferência ainda naquela noite e a acompanhou até a porta. Quando voltou, a malkaviana ainda encarava o anel em silêncio.

O ventrue tirou o anel do dedo dela gentilmente, guardou na caixinha e guardou em seu bolso.

— Quero que você vista um daqueles vestidos bem bonitos e venha se encontrar comigo no terraço.

Karliah se levantou e foi para a suíte se arrumar. Enquanto isso, Sebastian fazia a transferência e respondia alguns e-mails. Assim que terminou, foi para o terraço aguardá-la.

Quando Karliah chegou com um vestido lilás de rendinha um pouco acima dos joelhos, Sebastian a olhou de cima a baixo, sorriu e puxou a cadeira para ela. A mesa estava arrumada com pratos, talheres, taças, dois castiçais com velas, uma bacia de gelo com uma bolsa de sangue, e um vasinho com uma mini kalanchoe rosa ao centro. A malkaviana encarou a planta por uns minutos.

— É a minha kalanchoe.

Sebastian sentou-se sorrindo.

— São todas as suas plantas — disse ele indicando uma estante no canto com todos os vasos dela. — Deixei aqui no terraço porque, ao contrário de nós, elas precisam de sol. Daqui em diante, você pode vir aqui todas as noites para cuidar delas.

— Não vou mais ficar trancada na suíte?

— Que anfitrião eu seria se deixasse minha convidada trancada no quarto o tempo todo?

— E o meu diário?

— No freezer, na cozinha, local que você também pode acessar a partir de agora.

— Minhas agulhas?

Sebastian sorriu enquanto servia o sangue da bolsa.

— Eu vou ficar com elas por mais algum tempo.

Karliah observou as plantas avaliando o estado delas.

— Depois de um mês sem eu cuidar, elas não morreram, estão bonitas — constatou.

— É porque eu as trouxe no dia seguinte, contratei um jardineiro e não lhe contei.

— Por quê?

— Porque eu precisava que você se adaptasse à vida que eu posso lhe dar. Além disso, caso você fugisse, suas plantas, seu diário e suas agulhas seriam meus reféns — disse ele com um sorriso e erguendo a taça para que ela brindasse.

Karliah encostou a taça na dele e os dois beberam um gole.

— Não é de bebês — disse ela.

— Não. É o que você chama de "sangue normal".

— Por que você gosta de sangue de bebês?

Sebastian encarou o vazio por um instante e seu rosto mudou completamente, como se estivesse vendo um fantasma tenebroso. Seu olhar voltou-se para a malkaviana na esperança de escapar das memórias que ele achara que tivesse enterrado muito bem.

— Se realmente quiser saber, você pode botar as suas cartas — e bebeu o restante do conteúdo da taça enchendo-a em seguida.

— Parabéns.

Antes que Sebastian pudesse perguntar por quê, o Sheriff apareceu no terraço e o entregou um envelope. O ventrue abriu e seu rosto se iluminou novamente.

— Os dois sabbatianos que fugiram foram mortos. Eram ghouls — disse ele. — Os mandantes também, que, segundo estas informações, eram seus clientes.

Karliah deu de ombros, bebeu o restante do sangue e esticou o braço para que Sebastian a servisse. O ventrue entregou o envelope para o nagloper e mandou-o destruir. Em seguida serviu a malkaviana.

— Além disso, faturei alguns bilhões na bolsa de valores.

— Parabéns.

— Graças às suas habilidades, mademoiselle.

— Sim.

Ele tirou a caixinha do anel de dentro do bolso, abriu, segurou a mão direita dela e colocou o anel no dedo anelar.

— Que este pequeno presente sele a nossa aliança.

— Aliança?

— Sim. Somos parceiros agora. O que me beneficia também lhe beneficia, o que me prejudica também lhe prejudica e vice-versa.

Karliah encarou as duas mãos. O anel de Sebastian na direita, o dos anarquistas na esquerda. Ambos de cores semelhantes, mas de materiais, belezas e significados tão diferentes. Duas vidas, duas realidades, dois mundos unidos através dela.

— Você vai doar alguma coisa para um hospital? — perguntou ela.

Sebastian a encarou surpreso por um segundo. Então sorriu brevemente.

— Sim, amanhã. Nós dois vamos. Quero que você vista o vestido azul claro, eu vou de terno azul escuro. Quando me perguntarem, anuncio que você é minha noiva. Assim poderemos aparecer em público sem que cause suspeitas.

Karliah balançou a cabeça negativamente.

— Vá sozinho. A imprensa vai aparecer. Quando a repórter perguntar se você está solteiro, diga que sim, que está procurando uma parceira pra dividir a vida com você.

Sebastian a observou tentando decifrá-la.

— Por que isso?

— Catarina Dubanowska vai ver e vai entrar em contato pra você convidar ela pra um jantar.

— Algum acordo sairá desse jantar?

— Sim.

Ela bebeu o sangue todo e esticou a taça para ele que a serviu. Desconfiado, perguntou:

— Mais alguma coisa?

— Ela quer atrair o pai que está em torpor em algum lugar da Polônia, diablerizar o velho e tomar conta de tudo. Ela passaria pra sexta geração.

Se Sebastian respirasse, ele teria prendido o ar naquele momento, então apenas arregalou os olhos um pouco.

— Você está propondo que eu espere a ventrue diablerizar o pai para então...

— Sim. Não precisa do sarcófago, eu falei.

— Você também falou sobre um tremere que podia diminuir gerações. Quem é ele?

— Não posso dizer agora.

Sebastian sorriu.

— Um dia então, já que a sexta geração ainda não é um antediluviano.

— Você não precisa disso. Com dinheiro e a sexta geração, você consegue ser presidente deste país e controlar a nação que quiser.

— O único problema disso é que se eu diablerizar um ventrue, o Conselho vai descobrir, a Camarilla também e eles vão me caçar.

— Se você cogitar diablerizar um antediluviano, os anarquistas vão te destruir antes que você consiga e ninguém vai tentar impedir eles.

Sebastian a observou por um momento e então usou seu poder de cooperação.

— Por que está me ajudando?

Karliah não resistiu.

— Porque estou entediada e porque um dia poderei ir pro Egito.

— O que você acha que vai acontecer quando tiver adorado seus deuses?

— Vou morrer e atravessar o pós-vida.

— Por que quer morrer?

— Qual o objetivo de viver?

— Realizar nossos desejos.

— Não desejo nada.

— Um dia você desejou tanto algo ou alguém que a decepção foi muito grande e lhe compeliu a arrancar um pedaço do seu corpo.

Karliah olhou para o anel enviado pelos anarquistas.

— Não sou essa pessoa que dizem.

— Eu queria ter chegado na sua vida mais cedo, mademoiselle. O que quer que Rodriguez tenha feito, foi um imenso desperdício de potencial.

Karliah deu de ombros e bebeu o restante do sangue. Os primeiros raios de sol começaram a despontar no horizonte, os dois terminaram o encontro e foram descansar cada um na sua suíte.

🦇🦇🦇

Como a malkaviana havia avisado, depois da inauguração de uma nova ala para pacientes com câncer terminal e a doação milionária para tratamentos gratuitos, uma repórter aproximou-se de Sebastian ao fim da sessão de fotos e perguntou o porquê daquilo.

— Venho de uma família humilde do interior. Vi muitos amigos, vizinhos e parentes morrerem por falta de tratamento e isso me afeta profundamente.

O ventrue pediu um momento levantando o dedo em direção à câmera e virou o rosto para o outro lado. Quando olhou novamente para a repórter, seus olhos e seu nariz estavam rosados.

— Quem dera se todas as pessoas influentes nesta cidade fizessem o mesmo, Sr. LaCroix.

— É o mínimo que eu posso fazer. E farei mais sempre que puder.

— Mas hoje é um dia feliz, onde a generosidade e o caráter prevaleceram. Me conta, Sr. LaCroix, há alguma sortuda que partilha da sua bondade?

Sebastian sorriu e logo os sinais da suposta tristeza desapareceram.

— Ainda não, mademoiselle, mas estou à procura de uma parceira para a vida toda. Infelizmente, como sou um homem muito atarefado, quase não encontro tempo para a busca.

A repórter sorriu mais animadinha.

— Ah, mas aposto que com a divulgação dessa notícia, as moças vão começar a aparecer.

— Espero que sim, mademoiselle. A solidão é perturbadora — disse com um semblante cansado —, só eu sei como me sinto todas as noites na minha cobertura sem nenhuma voz amiga, nenhum calor humano... Ninguém para compartilhar minhas dores, meus medos... É de enlouquecer qualquer um.

A repórter assentia comovida com o depoimento. Sebastian agradeceu a oportunidade, despediu-se dela, entrou no blindado e voltou para o prédio da Venture.

Na cobertura, encontrou Karliah na sala da tevê assistindo ao telejornal.

— Como eu me saí? — perguntou o ventrue sentando-se ao lado dela e colocando o braço ao redor do pescoço da malkaviana.

— Quase acreditei.

Sebastian sorriu e observou melhor o rosto robótico dela. Alisou a pele fria do queixo com delicadeza como se examinasse uma escultura ainda fresca que pudesse deformar sob um toque mais firme.

— Em outra vida, mademoiselle, será que nos apaixonaríamos e viveríamos desesperados para consumir um ao outro como os humanos?

— Não.

Sebastian emitiu um ruído de indignação e recolheu o braço. Empertigou-se ajeitando o terno e perguntou:

— Por que não?

— Eu já gostava de homens fora da curva mesmo antes do Abraço por um malkaviano.

Ele suspirou para livrar-se do ataque ao seu ego.

— É, mademoiselle... Receio que após o meu Abraço não tenha restado nenhum traço fora da curva.

— Restado?

Sebastian sorriu triunfante.

— A paciência que tenho com você, mademoiselle, não é apenas um presente do meu progenitor ventrue. Minha mãe era um pouco... diferente. Assim como você, porém muito mais instável. Meu pai se refugiava na côrte com os nobres enquanto eu cuidava dela durante as crises. Se não fosse o círculo social dele, talvez eu tivesse encontrado um progenitor malkaviano e tido um destino semelhante ao seu. É fascinante como um pequeno detalhe pode mudar uma vida inteira.

— Sim.

O telefone tocou na escrivaninha dele no outro cômodo e o ventrue foi atender.

— Ah... mademoiselle Dubanowska, que surpresa agradável ouvir sua voz.

Sistema RPG Solo

Em breve!

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