No seu livro, Interpreting Solar Returns, James Eshelman introduz o conceito de que planetas em conjunção com os ângulos (ascendente, descendente, topo do céu e fundo do céu) têm mais força para agir num mapa de revolução solar e que são eles que ditam o tema do ano.
Esse conceito de planetas angulares serem mais fortes não é algo novo, já vem dos tempos da Grécia Antiga, mas sinto que nunca foi muito bem abordado pelos astrólogos contemporâneos. Além disso, é difícil achar livros sobre revoluções solares. Os poucos que tem complicam mais do que elucidam essa técnica. Eshelman traz aqui uma forma muito mais acessível de ler esse tipo de mapa e que pode ser aplicado para qualquer revolução, seja solar, lunar, mercurial, venusiana, marciana, jupiteriana e saturnina.
Apesar de ele mencionar que as técnicas desse livro seriam trabalhosas de se aplicar num mapa natal, eu tentei com o meu e achei que foi algo extremamente certeiro, que fez todo o sentido e deixou o meu mapa muito mais fácil de se ler.
Sugiro aqui que esse método seja aplicado primeiro, no início da leitura de um mapa natal, para daí então expandir com outras técnicas e elementos.
Eshelman divide um mapa em zonas que ficam por cima do sistema de casas existente (sugiro tentar isso usando Whole Sign em vez de Placidus para não ficar muito confuso). Existiriam três zonas que seriam relativas aos ângulos. Essas zonas são a frontal, mediana e oculta. A frontal abrange 15° antes e depois de um ângulo. A mediana abrange 30° depois de um ângulo, e a oculta é o que sobrar antes do ângulo.
Nos desenhos a seguir, coloquei a zona frontal em verde, a mediana em amarelo e a oculta em vermelho.
Considerando 15° antes e 15° depois do Topo do Céu (MC na imagem), temos a zona frontal. A área antes do Topo do Céu, a casa 9, é considerada zona oculta. E a área seguinte, casa 11, é considerada zona mediana. Nessa imagem, de acordo com Eshelman, a conjunção com o Topo do Céu teria uma orbe de 10° e não os 15° da zona. Então, mesmo assim, todos os planetas no signo de Escorpião estariam em conjunção com o Topo do Céu (20°11'), tendo como destaque a Lua por estar em conjunção com uma orbe menor que 1°. Vênus está com menos de 5° de conjunção (4°20'). Sol e Mercúrio estão longe, mas ainda dentro dos 10° de orbe. Já Marte está na zona mediana, em amarelo. Nesse caso, o planeta mais forte aqui é a Lua, pois quanto menor a orbe, mais forte é a expressão do planeta.
Aqui temos outra imagem com o mesmo esquema, mas contando o Ascendente como zona frontal. Mesmo Plutão estando no signo de Aquário, ele cai na zona oculta (em vermelho) porque está a mais de 15° de distância do Ascendente (21°30'). Saturno e Netuno caem na zona mediana (amarelo).
Aqui temos Urano na zona frontal contando o Fundo do Céu. Não temos planetas na zona oculta e nem mediana.
Considerando o Descendente como zona frontal, não temos nenhum planeta próximo, assim como não há nada na zona mediana (amarelo). Júpiter está na zona oculta.
De acordo com Eshelman, planetas na zona frontal dão o tema do mapa de revolução solar. Como eu falei antes, experimentei com revoluções de outros planetas e com meu mapa natal e achei que encaixou perfeitamente. Então é uma técnica que pode ser usada com qualquer mapa.
Planetas ocultos também são importantes, mas de uma forma diferente. Eles significam temas que estarão ausentes na nossa vida naquele ano. Num mapa natal, seriam planetas com dificuldade de expressão ou que se expressam internamente. Mas não se apavore se você tiver Vênus ou Júpiter ocultos, segundo Eshelman, eles podem ser desenvolvidos e incorporados ao longo da vida. No entanto, num mapa de revolução solar, esses planetas dificilmente vão tomar a frente. Se você tiver Mercúrio oculto na sua revolução, não significa que você vai ficar muda, sem falar nada o ano todo, significa que você não expressará tanto o que pensa, vai pensar bastante, mas falar pouco.
Lua: emoções e sentimentos, mas de uma forma caótica e superficial, podendo ser uma necessidade de buscar algum tipo de conforto emocional.
Sol: atenção, fama, reconhecimento, podendo ser de uma forma negativa como infâmia e críticas (também conhecida como "cancelamento").
Mercúrio: pensamento, leitura, escrita, comunicação, expressão pessoal, viagens curtas, caminhadas e ciclismo.
Vênus: prazeres, vida social, amizade, romance, expressão artística, afeto, carinho e gastos supérfluos com coisas que não são necessárias.
Marte: raiva, ódio, discussões, brigas, agressões, competição, excesso de energia e impulsividade.
Júpiter: sorte, presentes recebidos, honrarias, homenagens, oportunidades, aumento de salário, reconhecimento social, respeito, preguiça (por achar que está tudo garantido e não fazer nada para acontecer).
Saturno: problemas, atrasos, decepção, frustração, dificuldades financeiras, isolamento, falta de vida social, separação, abandono, críticas, cansaço, doenças.
Urano: mudanças, surpresas, situações inesperadas, choque, liberdade, rupturas.
Netuno: emoções, euforia, histeria, ilusões, sedução, tentação, desespero, depressão, desesperança, desolação, procrastinação, dependência, vampirismo.
Plutão: mudança da água para o vinho, separação, isolamento, términos, fama, infâmia, difamação, posição de destaque, sensação de que algo de outro mundo está mexendo na nossa vida (para o bem e para o mal).
De acordo com Eshelman, só devem ser considerados para detalhes adicionais após a interpretação dos planetas e não como o foco principal.
Significado dos ângulos
Para Eshelman, houve um erro na interpretação dos eixos. Atualmente, lemos em todos os livros e sites que o Ascendente é como o mundo nos percebe ou como nos colocamos no mundo, que é a nossa máscara, a nossa personalidade. Mas para o autor, o eixo Ascendente/Descendente (ASC/DSC) não é sobre o que é aparente na gente e sim como nos relacionamos. É como agimos com os outros, quem somos nós no momento em que nos relacionamos com os outros. Alguém com ASC em Câncer seria uma pessoa mais resguardada e prudente, talvez nem se aproximasse dos outros por estar sempre pensando em se proteger. Uma pessoa com ASC em Áries seria alguém que toma a iniciativa numa interação, é a pessoa que chega para falar sem ter vergonha.
Então o ASC seria como eu me comporto em relação a mim mesma quando na presença de outros e o DSC como eu ajo com os outros ou o que espero deles.
Como no exemplo anterior, ASC em Câncer, temos um DSC em Capricórnio, ou seja, numa interação, a pessoa age para se proteger ao mesmo tempo em que é mais fria, distante e formal com a outra pessoa. Protege-se e espera distância e formalidade. Alguém com ASC em Áries tem DSC em Libra, ou seja, é uma pessoa que age para se impor, mas tenta tratar os outros com cordialidade. Toma a iniciativa e espera colaboração.
A questão da máscara, de como nos apresentamos ao mundo, seria função do eixo Topo/Fundo do céu (MC/IC de Medium Coeli e Imum Coeli). O MC é como nos apresentamos ao mundo, como as pessoas nos percebem, nossa parte que é pública e visível. E o IC é a nossa parte mais íntima, o que guardamos e não revelamos para ninguém.
Alguém com Câncer no MC provavelmente terá Libra como ASC, o que significa que essa pessoa se mostra ao mundo como sensível e protetora. Numa interação, agirá de forma cooperativa e esperará iniciativa dos outros (Áries no DSC). No seu íntimo, ela guarda uma cobrança muito grande de si por termos Capricórnio no IC.
Ao contrário, a pessoa com Áries no ASC provavelmente tem Capricórnio no MC, o que significa que ela parece ser mais fria e formal com os outros por tomar a iniciativa, mas na verdade ela é muito sensível por dentro (Câncer no IC) e espera cooperação dos outros (Libra no DSC).
Planetas que estiverem frontais no ASC devem ser interpretados levando em conta como a pessoa se comporta numa interação com outras pessoas.
Planetas que estiverem frontais no DSC devem ser interpretados levando em conta como a pessoa age com os outros e o que espera deles.
Planetas que estiverem frontais no MC devem ser interpretados levando em conta o que a pessoa está revelando ao mundo sobre si mesma.
Planetas que estiverem frontais no IC devem ser interpretados levando em conta o que a pessoa está escondendo do mundo sobre si mesma.
Depois dessa análise prévia, precisamos levar em consideração os aspectos dos planetas, principalmente os frontais. De acordo com Eshelman, se um planeta mediano ou oculto não faz aspecto com um planeta frontal, então devemos ignorar e não interpretar isso, exceto se for um aspecto com uma orbe menor que 1°, pois nesse caso isso tende a se manifestar. Se for um aspecto com planetas frontais, considere uma orbe de, no máximo, 3°. Mais do que isso e é provável que não se manifeste.
Além disso, os aspectos que devemos prestar mais atenção são os aspectos cinéticos (quadratura e oposição) pois, segundo Eshelman, são os aspectos que se manifestam num mapa de revolução solar. Aspectos estáticos (trígono e sextil) não se manifestam, pois são aspectos que apontam para um status quo que a pessoa não tem intenção de mudar. Só devem ser levados em consideração se a orbe for menor que 1°. Os aspectos cinéticos aceitam uma orbe de 3°. Quanto maior a orbe, menor a chance de se manifestar.ista
Num mapa natal, os aspectos estáticos (trígono e sextil) mostrariam partes da personalidade que a pessoa dificilmente vai querer mudar ou vai conseguir mudar. Ao passo que aspectos cinéticos (quadratura e oposição) mostram partes da personalidade que impulsionam a pessoa para uma ação.
Isso corrobora o que é comumente falado que quando uma pessoa tem muitos trígonos e sextis e nenhuma quadratura e oposição, essa pessoa é muito acomodada, preguiçosa e dificilmente vai à luta, mesmo precisando. Pessoas bem-sucedidas têm mais quadraturas (principalmente) e oposições.
Eshelman acrescenta que, numa leitura de um mapa natal, planetas na zona oculta não seriam totalmente inativos como num mapa de revolução, mas agiriam internamente. Mercúrio na zona oculta de um mapa natal não significa que a pessoa não consiga se comunicar, significa que ela fala menos e pensa mais, ou prefira falar sozinha consigo mesma. Ou seja, Mercúrio está ativo, mas internamente. O mesmo serve para os demais planetas na zona oculta.
Ademais, o autor diz que planetas natais que ficarem em conjunção com os ângulos da revolução também são evidenciados, mas funcionam como uma resposta aos acontecimentos. Se o Marte natal fizer conjunção com o ASC do mapa de revolução solar, por exemplo, significa que a pessoa vai responder aos acontecimentos do mapa de uma maneira mais agressiva ou irritadiça. Se for Saturno, a pessoa vai se controlar mais e agir com maior prudência ou excesso de auto-crítica. Se for com o DSC, no caso de Marte, a pessoa pode ficar na defensiva esperando que os outros sejam agressivos com ela. E no caso de Saturno, ela pode ser mais crítica com os outros, mais exigente ou esperar que eles sejam assim com ela. Com o MC, ela vai parecer mais agressiva (se for Marte) ou mais inflexível (se for Saturno). Já com o IC, ela vai esconder a irritação ou a auto-crítica.
Caso haja uma dobradinha do mesmo planeta, por exemplo, Vênus da revolução em conjunção com um dos ângulos da revolução e a Vênus natal em conjunção com um dos ângulos da revolução (mesmo que não seja o mesmo ângulo), então os assuntos do planeta estarão muito mais acentuados naquele ano. A chance de se manifestar é muito maior, portanto é preciso ter atenção redobrada na interpretação.
Apesar de ser uma técnica utilizada em mapas de revolução, é possível aproveitá-la em mapas natais também com uma grande taxa de aproveitamento, tendo o cuidado para não ficar apenas com ela, devendo analisar o mapa inteiro com todas as outras técnicas que o astrólogo conhece.
Fontes:
ESHELMAN, James A. Interpreting Solar Returns. Califórnia: Astro-Analytics Publications, 1979.
TOMPKINS, Sue. The Contemporary Astrologer's Handbook. Londres: Flare Publications / London School of Astrology, 2010.
MARCH, Marion D.; McEVERS, Joan. Curso Básico de Astrologia, Volume 1. São Paulo: Editora Pensamento, 1981.
WATTERS, Barbara H. Horary Astrology and the Judgement of Events. Washington DC: Valhalla, 1973.