Ares (Ἄρης) é comumente descrito como o deus da guerra, da coragem, da luta, da sede de sangue e da brutalidade, inclusive, sendo desprezado por isso pelos demais deuses, como seu próprio pai Zeus (Homero, Ilíada V. 890) [trad. Carlos Alberto Nunes, 2015]:
"Cessa, leviano; não venhas, de novo, com tuas lamúrias.
És, entre todos os deuses, aquele a quem mais ódio tenho.
Sempre encontraste prazer em combates, contendas e lutas.
De tua mãe, por sem dúvida, o gênio indomável herdaste
e insuportável, que a minhas palavras a custo obedece.
De seus conselhos, presumo, teus males origem tiveram.
Mas, ainda assim, não desejo que sofras por tempo mais longo;
és de meu sangue também; tua mãe te gerou de mim próprio.
Se, tal como és, tão nefasto, tivesses por pais outros deuses,
há muito, sim, te encontrarias mais baixo que os filhos de Urano."
De maneira menos óbvia, requerendo um pouco mais de reflexão com seus mitos, Ares é, principalmente, o deus da perseverança e da busca pela vitória. O deus que é quase sempre mostrado nos mitos perdendo uma guerra ou sendo aprisionado, mas que sempre volta a lutar. Ares nunca se dá por vencido, pelo contrário, ele sempre busca vencer.
Além disso, Ares também pode ser considerado o deus da vingança ou da retribuição. Quando seus filhos são assassinados ou estuprados, ele mata ou tenta matar o criminoso (quando não consegue é por intervenção dos outros deuses).
Por extensão, também é um pai protetor, pois quando algum de seus filhos cometia um crime e os deuses queriam puni-lo de forma severa, Ares intervinha e conseguia uma punição mais branda.
Seus símbolos mais notáveis são o escudo e a lança, simbolizando o ataque, mas também a defesa. Como diria o ditado: "às vezes a melhor defesa é o ataque". E também o elmo pontiagudo, sendo representado com ele em quase todas as obras.
Em resumo, podemos dizer que Ares é o deus do cair e levantar de novo, nunca desistindo de nossos objetivos, todos os dias batalhando por eles. E quanto mais difícil for, mais interessante isso se torna para o deus. A luta é a parte que mais lhe agrada num objetivo. E se formos pensar sobre a "ânsia de querer e o tédio de possuir", é compreensível que ele goste mais da movimentação, dos conflitos e dos desafios que surgem durante a jornada até a vitória. A propósito, Éris, a deusa da discórdia e do conflito (cujo altar você pode encontrar aqui) era sua companheira em todas as guerras.
As histórias da mitologia grega diferem um mocado dependendo dos poetas e da época em que escreveram, então trago aqui o que achei mais interessante.
EEE

Nicolas René-Jollain: Le Retour de Mars, 1779.
Quando Afrodite nasceu, os deuses todos queriam casar com ela. Para evitar briga, Zeus ofereceu Afrodite em casamento para Hefesto, que tinha uma deformidade no pé e era, portanto, manco. Algumas fontes dizem que ele era muito feio também.
No entanto, Afrodite era apaixonada por Ares que, segundo alguns poetas, era o ideal da masculinidade, além de ser lindo e fisicamente perfeito. Mas como todos obedeciam Zeus (mais ou menos), Afrodite casou com Hefesto. Este fez de tudo para que ela fosse feliz, mas a deusa não o amava. Então ela começou a trair o marido com Ares.
Um dia, Hefesto descobriu os dois juntos e os expôs para todos os deuses verem. Diante da humilhação, Ares fugiu para a Trácia e Afrodite para o Chipre, mas um tempo depois os dois se tornaram um casal de fato.
Em vários mitos é mostrado que Ares faz tudo o que Afrodite quer, até quando isso o prejudica, como por exemplo na Guerra de Tróia em que ele faz uma promessa para Atena de que vai lutar ao lado dos Gregos, mas Afrodite o persuade a lutar ao lado dos Troianos, ou seja, fazendo com que o deus quebre sua promessa, lute contra sua irmã Atena e perca a guerra.
Durante a Guerra de Tróia, Afrodite é ferida em batalha e pede a Ares pela carruagem dele para voltar até o Monte Olimpo, e o deus aceita sem nem pestanejar. (Homero, Ilíada V. 350 s.) [trad. Carlos Alberto Nunes, 2015]
"Mano querido, protege-me, empresta-me teus corredores,
para que o Olimpo consiga alcançar, sede augusta dos deuses.
Dói-me a ferida que um homem mortal me causou há momentos,
o filho, sim, de Tideu, que até ao próprio Zeus pai se atrevera."
Ares, sem mora, lhe entrega os corcéis de frontal de ouro fino.
O coração angustiado, subiu para o carro Afrodite;
Há também o ataque de ciúmes que ele tem do jovem e belo Adonis por quem Afrodite se apaixona. Ares transforma-se em um javali e mata o rapaz.
Os dois se dão bem juntos porque representam faces diferentes do desejo puro. Afrodite representa o desejo de satisfazer um prazer; e Ares representa o desejo de satisfazer uma ânsia.
A paixão (Afrodite) é um sentimento contra o qual lutamos (Ares) para nos mantermos sãos e funcionais, e não nos entregarmos a uma ânsia desesperada de consumir o objeto de nossa paixão.
Além disso, considerando que a filha mais famosa deles é Harmonia, também podemos entender que essa ânsia, essa fúria, essa vontade imensa de fazer alguma coisa, de estar sempre em ação, quando direcionada para algo tão ardente quanto o desejo sexual ou a paixão por outra pessoa, pode levar a uma harmonia. Seria semelhante ao pensamento hippie de "faça amor, não faça guerra".
EEE

Claude Deruet: Partida das Amazonas, 1620.
Alguns poetas dizem que todas as amazonas eram filhas de Ares com a Ninfa Harmonia (não confundir com a filha dele com Afrodite, são duas Harmonias diferentes), e outros dizem que apenas a primeira rainha das Amazonas, Otrera, era filha dele com a Ninfa Harmonia. Hipólita, a rainha amazona após Otrera, e todas as suas irmãs eram filhas de Ares com Otrera, o que faz com que ela e as irmãs sejam filhas-netas do deus da guerra, fruto de incesto. O que, convenhamos, não é surpresa considerando que estamos falando de mitologia grega. Zeus, por exemplo, que era pai de Ares, depois se envolve com a filha de Harmonia e Cadmo, ou seja, com a bisneta dele, e o fruto dessa relação é o deus Dioniso (que seria filho-tetraneto dele e neto-irmão de Ares @_@).
Ares gostava muito das Amazonas, inclusive no sentido bíblico (:'D), e as favorecia sempre que possível. Deu à Hipólita o seu cinto como emblema do reinado dela sobre as amazonas (tipo uma coroa).
Nos Argonautas, as amazonas pararam numa ilha e construíram um templo para Ares. Como recompensa, ele criou aves que atiravam penas tipo flechas e atacavam todos os homens que se aproximavam.
Quando Pentesiléia (filha de Otrera e Ares, irmã de Hipólita) é morta por Aquiles na guerra de Tróia, o deus da guerra fica tão arrasado que ele sai do Olimpo voando como um raio de fogo e aterrissa com tanta força no campo de batalha que faz a Terra toda tremer. Ares estava pronto para matar selvagemente todos os soldados de Aquiles, mas Zeus interveio atirando raios aos pés do deus.
EEE

Hendrik Goltzius: Cadmo mata o dragão, 1573-1617.
A mando de um oráculo, Cadmo estava seguindo uma vaca até ela cair de exaustão, que marcaria o local onde uma cidade deveria ser fundada. Quando chegaram a tal local, Cadmo queria sacrificar a vaca para a deusa Atena e mandou seus homens pegarem água numa nascente próxima. A nascente era protegida por um dragão (que era uma serpente gigante) e matou os homens de Cadmo. Quando descobriu o que acontecera, Cadmo matou o dragão.
Esse dragão, historicamente sem nome, era atribuído ora como filho de Ares e ora como sagrado para Ares. De qualquer forma, como punição, o próprio Cadmo serviu a Ares por 8 anos.
Harmonia (filha de Afrodite e Ares) foi dada em casamento a Cadmo por Zeus para aplacar Ares. No entanto, depois de muitos problemas na cidade de Tebas, Cadmo e Harmonia saíram da cidade e Ares o transformou em uma cobra como vingança pelo dragão morto.
EEE

Indestrutível, valente, poderoso, deus corajoso,
Deleitai-vos em armas, matador, arrasador de cidades:
Senhor Ares, agitado na armadura, sempre maculado com o massacre da guerra,
Regozijando-vos com o sangue derramado dos homens e elevando o clamor do combate, ó terrível,
Vós que desejais ardentemente a carnificina obscena de espadas e lanças:
Parai o conflito raivoso! Cessai a dificuldade que pesa em nossos corações!
Ao invés, rendei-vos aos desejos pacíficos de Afrodite e aos festejos de Dioniso.
Trocai vossa fúria e armas pelo trabalho gentil de Demeter.
Elaborai um desejo por paz que cultivará os jovens e garantir-los-á bênçãos.
Tradução minha em português do inglês de Thomas Taylor, 1792.
EEE

Planejo adicionar mais textos neste altar no futuro!
